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segunda-feira, 12 de março de 2018

O país do tapa-sexo

Há algumas semanas, conforme o Brasil celebrava o carnaval — festa de origem pagã regada a muito sexo e álcool que precede o período de penitência da quaresma — a jornalista Eliane Brum conduziu uma extensa entrevista com o artista Wagner Schwartz. No final de setembro do ano passado, ele foi acusado de pedofilia ao se apresentar durante a abertura do 35° Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Durante a performance La Bête, inspirada em obra de Lygia Clark, o artista mantém-se nu no meio de um palco e convida a plateia a manipular seu corpo como se ele fosse um boneco. A performance gerou uma onda de ódio ao artista na internet após uma criança, levada pela mãe ao museu, ser filmada interagindo com o artista. Assim como havia acontecido anteriormente com a mostra Queermuseu, suspensa em várias cidades após ser acusada de promover a homossexualidade para menores de idade, boa parte do ódio contra Schwartz partiu de militantes do Movimento Brasil Livre (MBL).

Esse tipo de nudez não ofende a moral e os bons costumes
do Movimento Brasil Livre e de seus seguidores.
Em novembro, a polêmica chegou a níveis próximos do realismo fantástico. A CPI dos Maus Tratos à Criança e ao Adolescente do Senado Federal, que discutia os limites da arte e ouviu os curadores do Queermuseu, aprovou a condução coercitiva de Wagner Schwartz para depor no plenário. O artista foi alvo da medida arbitrária após declarar que não poderia participar voluntariamente da CPI por estar em turnê na França. Ele recorreu da decisão dos senadores no Supremo Tribunal Federal (STF) e teve sua condução coercitiva barrada pelo ministro Alexandre de Moraes. Para começo de conversa, os senadores nem deveriam estar discutindo qual o valor artístico de obras de arte num país onde a liberdade de expressão é cláusula pétrea da Constituição. Se as instituições estão funcionando normalmente desde o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, como insiste em dizer a presidenta do STF, então por que diabos os senadores agem como ditadores com artistas? Embora tenha feito, nesse caso, o papel de herói contra o avanço do fascismo, o próprio STF tem responsabilidade pelo acossamento de artistas.

Alexandre de Moraes, antes de assumir a cadeira deixada vaga pela suspeitíssima morte de Teori Zavascki, era o ministro da Justiça do governo golpista e vazou informações da Polícia Federal para o MBL. Alimentou o monstro que agora, para desviar o foco do governo de Michel Temer, o mais impopular da história do Brasil e talvez do mundo, empreende uma campanha a favor da moral e dos bons costumes nas apresentações artísticas. Mas nunca foi a intenção de tucanos como Alexandre de Moraes fomentar o fascismo à brasileira, que agora atinge níveis alarmantes. Eles patrocinavam grupos como o MBL para difundir, na sociedade, o discurso moralizante apenas da política. Foram ingênuos em achar que radicalizariam o brasileiro médio e que o ódio deste acabaria no momento em que o PT saísse do poder. Criaram o terreno para tipos como os presidenciáveis homofóbicos Jair Bolsonaro e Flávio Rocha. O PSDB, na ânsia de tirar o PT do poder, criou e alimentou uma onda fascista que agora vai contra a plataforma liberal do partido no campo dos costumes e que terá cada vez mais dificuldade de conter.

Uma invenção tipicamente brasileira.
A comoção proto-fascista gerada pelo MBL no segundo semestre do ano passado — muito útil para desviar o foco do presidente Michel Temer, que na época enfrentaria o julgamento da segunda denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra ele na Câmara dos Deputados — teria sido muito menor se Schwartz estivesse usando uma tanga ao invés de ter ficado completamente nu. Talvez ele não tivesse sido acusado de pedofilia. Ou então até tivesse sido, mas por um contingente bem menor de brasileiros "do bem" indignados com a suposta depravação moral presente nas artes. Inclusive penso que, se fosse esse o caso, muitos dos que acusaram-no de pedofilia teriam defendido-o, dizendo aos mais raivosos: "mas que bobeira, nem pelado ele estava". Mas, para o desespero geral da nação, o órgão genital do artista estava exposto. Como o desfile das escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro nos demonstra, o brasileiro médio aceita ver quase tudo em termos de nudez, desde que o sexo esteja estrategicamente escondido pelo bem das criancinhas. O MAM-SP deveria ter seguido o código da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), essa sim ciente da hipocrisia gritante que constitui a sociedade brasileira.

Mas por que a nudez se fez necessária na performance? Entendo-a como uma forma do artista mostrar-se vulnerável para o público, como se esse pudesse fazer o que bem entender com seu corpo. Afinal de contas, era essa a proposta de La Bête, não era mesmo? Schwartz escolheu apresentar-se nu porque pensou estar num país democrático que respeita a liberdade de expressão artística. Ingenuidade dele. Seu pênis — para ele ou para mim — é apenas mais um pedaço de pele e carne, não menos ofensivo do que um pé ou uma mão. Mas não o é para a maioria dos brasileiros, para os quais o MBL fala desde que os convenceu de que tudo o que o Brasil precisava era de um impeachment de base legal duvidosa, visto no exterior como um golpe frio, para nossas vidas melhorarem. A única intenção do coreógrafo com sua performance era provocar na plateia um questionamento sobre os limites do corpo humano e, também, gerar um sentimento de empatia. Ele queria que seu público pudesse enxergá-lo em sua vulnerabilidade e, assim, ser gentil ao manuseá-lo. Esse é um sentimento que o brasileiro médio, incitado por hordas fascistas como o MBL, não exercita há um bom tempo — se é que algum dia já o exercitou. 

Sim, o artista expôs seu pênis. E não cabe ao MBL ou à bancada evangélica do Congresso Nacional querer dizer a ele como ele deve se apresentar. O pênis é uma parte do corpo humano que pelo menos metade da nossa população — e mais da metade dos senadores — possui, não sendo mais sujo do que uma mão. Por que tanta hipocrisia ao lidar com ele? Será que nossa hipocrisia é tamanha que nossos representantes no Senado vão impor o uso de tapa-sexo nas apresentações feitas em museus e demais espaços mantidos com verba pública? Aliás, nada expõe tanto a hipocrisia do nosso país quanto o fato de termos inventado esse tipo de vestimenta. O tapa-sexo é uma invenção brasileira para que as escolas de samba burlassem a regra da LIESA que as impediam de mostrar nudez total na Marquês de Sapucaí. O regulamento foi baixado no começo dos anos 1990 depois de desfiles polêmicos organizados pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. Mostrar o corpo é aceitável, desde que ele esteja milimetricamente coberto para não ofender pudores cristãos que insistem se impôr numa festa originalmente pagã e numa sociedade oficialmente laica.

A emissora evangélica, que exibe cenas como essa à tarde,
está preocupadíssima com a exibição de nudez para crianças.
A hipocrisia é tamanha que é possível ver corpos seminus até mesma na maior emissora evangélica do país, a Rede Record, que promoveu uma verdadeira cruzada contra artistas que ela mesma chamou de "degenerados" em seus programas jornalísticos à época do incidente no MAM-SP. Há anos a emissora em questão explora o trabalho de W. Veríssimo, especialista em pintar corpos nus, cujos órgãos genitais ele esconde com minúsculos tapa-sexos em sua programação, inclusive em programas transmitidos no horário em que crianças estão acordadas. Assim como luta por uma arte "oficial", o jornalismo no Brasil deixou se ser o simples relato de fatos para se transformar na criação de uma narrativa única. A mesma que tornou possível o impeachment sem base legal de uma presidenta eleita com mais de 50 milhões de votos sem maiores questionamentos por parte da população em geral. Também foi graças à existência de uma narrativa oficial, sem espaço para questionamentos, que Adolf Hitler pôde convencer os alemães de que existia uma "arte degenerada" (Entartete Kunst) em seu país e convencê-los a lutar contra ela.

Os curadores do Queermuseu, Wagner Schwartz e o MAM-SP desrespeitaram o código de conduta moral do brasileiro médio. Este aceita a seminudez presente nos desfiles das escolas de samba durante o carnaval e nas ondas da Globo ou da Record. A mulata pode se expôr para o deleite masturbatório do público, em especial aquele formado por homens brancos de meia-idade, desde que um tapa-sexo mantenha a sua decência milimetricamente coberta para não chocar as criancinhas que possam estar vendo aquele programa na televisão. Esse mesmo público, no entanto, se levantou contra o pênis de Schwartz, apresentado num espetáculo lúdico e sem qualquer caráter sexual. Além de não entender que o pênis é esteticamente menos aceito do que a vagina para o brasileiro médio, ele desrespeitou a regra do tapa-sexo — expressão maior da nossa hipocrisia — e foi punido por isso. Afinal, precisamos proteger nossos pequenos deixando-os na ignorância. Assim, perpetua-se o abuso sexual de crianças que não podem aprender na escola (sem partido), na televisão ou no museu o que são vaginas e pênis. O país do tapa-sexo condena a si mesmo à perpetuação da violência sexual devido à hipocrisia. E ainda diz que está fazendo isso para combater a pedofilia!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Por que as mulheres em posição de poder batem cabeças?

Acabei de assistir ao primeiro episódio de Feud: Bette and Joan, nova série antológica de Ryan Murphy e achei a produção simplesmente incrível. A cena inicial traz Olivia de Havilland, interpretada por Catherine Zeta-Jones, falando sobre a rixa entre Bette Davis e Joan Crawford. A primeira coisa que pensei foi: o que será que essa atriz, hoje com 100 anos de idade, teria a dizer sobre isso? (não sei se ela está lúcida ou não). Ela mesma tinha uma rixa com a irmã famosa, a também atriz Joan Fontaine (1917—2013), que certa vez disse: "Me casei primeiro, ganhei o Oscar primeiro e, se eu morrer primeiro, Olivia vai ficar chateada porque eu também fiz isso primeiro". Essa rixa, por si só, daria uma ótima temporada do seriado.

Susan Sarandon e Jessica Lange caracterizadas como Bette
Davis e Joan Crawford, respectivamente.
Após Olivia dizer que "rixas não são motivadas pelo ódio" — o que ela deve saber muito bem — o seriado começa de fato. A impressão que tive vendo o primeiro episódio é de que a história é mais focada em Joan Crawford (Jessica Lange) do que em Bette Davis (Susan Sarandon). E eu particularmente gostei mais da atuação de Jessica, apesar de que Susan é uma das minhas atrizes favoritas. Acho que Susan tem uma voz muito parecida com a da Bette e talvez esse tenha sido o fator principal que levou à escolha dela para interpretá-la. Os seriados de Ryan Murphy baseados em fatos e pessoas reais têm um problema de "casting". Assim como Cuba Gooding Jr. era muito pequeno para interpretar O.J. Simpson, Susan Sarandon é muito alta pra interpretar Bette Davis.

Após Joan abandonar uma premiação bêbada e amargurada com Marilyn Monroe, que mexeu com seu ego por estar conseguindo todos os papeis por causa de sua aparência, ela recebe uma visita da colunista de fofocas Hedda Hopper (Judy Davis), que ameaça-a com a publicação do fato a não ser que ela desse uma declaração amarga sobre a estrela do momento. Além disso, Joan, falida, anuncia à colunista que voltaria a atuar. Ela era, àquela altura, membro do conselho de diretores da Pepsi, cargo que herdou do marido falecido, mas não estava recebendo mais da empresa. Tampouco recebia ofertas de papeis de destaque na indústria cinematográfica. Como o seriado deixa bem claro, as atrizes velhas eram substituídas por carne nova assim que seus seios começassem a cair.

Joan conversa com seu agente e recebe uma pilha de roteiros. Os papéis que lhe são oferecidos são clichês e de pouco destaque. Então ela decide vasculhar livrarias e encontra o livro de horror O Que Terá Acontecido a Baby Jane? que, ironicamente, narra a rixa de duas atrizes, irmãs como Olivia de Havilland e Joan Fontaine, decadentes. Era o papel perfeito para alguém de sua idade. Ela convence o cineasta Robert Aldrich (Alfred Molina), que dirigiu seu último filme de sucesso, a adaptá-lo. E quer Bette, sua rival por papéis na década de 1940 na Warner Bros., como co-protagonista. Isso chamaria a atenção da mídia — visto que Bette detestava-a — o que tornaria o filme um sucesso e também daria-lhe a oportunidade de provar à rival de que era uma boa atriz.

O diretor tenta vender a ideia para os estúdios, mas é rejeitado ora por causa de seu currículo recheado de filmes B ora por causa das protagonistas, consideradas velhas demais. Sua última alternativa é a Warner, mas Jack Warner (Stanley Tucci) rechaça violentamente a ideia por causa da batalha judicial movida por Bette contra ele, que acabou por garantir direitos trabalhistas para os atores. Ele aceita com certa relutância após ser persuadido de que o filme traria publicidade e lucro para o estúdio, que tenta conter a fuga de espectadores para a televisão. Jack Warner personifica o sexismo da indústria. Mas Feud levanta um tema ainda pouco discutido quando fala-se em machismo: a inveja de uma mulher a outra em posição social equivalente ou mais elevada do que a dela.

O seriado deixa claro como cada uma conquistou tal posição. Bette sacrificou a vida pessoal a favor da carreira e era dura no trato com quem tentava tirar proveito dela. Joan, por sua vez, era gentil com todos e valia-se do flerte como arma. Ambos os estilos encontram paralelo na crise político-institucional do Brasil. Assim como Joan ressentia-se por estar abaixo de Bette em nível de reconhecimento profissional entre as atrizes de sua geração, Carmen Lúcia ressentia-se por estar abaixo de Dilma Rousseff entre os poderes da República. E se Carmen faz a linha Joan, Dilma definitivamente lembra Bette, fazendo as coisas de seu jeito e levando todo o crédito de seu sucesso e de seu fracasso para si. Carmen aceitou golpear a democracia para ser a única mulher em cargo de comando da República.

A personagem de Hedda Hopper atua como uma máquina anti-sororidade, alimentando as rixas que impediam que atrizes criassem um laço de amizade entre si. Tudo isso para vender mais cópias dos jornais para os quais escrevia sua coluna. Judy Davis está impecável no papel de Hedda e deve receber algumas indicações a prêmios por ele, assim como Susan e Jessica, que na minha opinião merece o Emmy de melhor atriz em minissérie. Mas o que mais me chamou a atenção em Feud, é que, embora retrate uma outra época, em que os atores eram tão despreocupados com os fãs a ponto de recebê-los em suas casas, traz uma questão bem atual para a sociedade: Por que duas mulheres em posição de poder sempre batem cabeças? No final das contas, é disso que se trata a rixa que dá nome ao seriado e que ele pretende explorar. Mal posso esperar para ver qual é sua conclusão disso.