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sábado, 17 de março de 2018

Quero ser possuído e não posse

É interessante assistir a um filme antigo e se surpreender com a atualidade de algum tema que é retratado ali. Isso ocorre, sobretudo, com obras que tratam, como assunto principal, das relações humanas. É difícil destruir conceitos enraizados há séculos na sociedade e a ideia patriarcal de que o amor implica na posse da mulher pelo homem é uma delas. Para o patriarcado, a mulher deve ter como meta de vida se casar e, depois disso, cessar de existir enquanto um ser humano independente. Ela não só tem que adotar o sobrenome do marido como deve abdicar de seus sonhos e prazeres a favor dos sonhos e prazeres dele. Foi só com a entrada das grandes potências na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que foi permitido à mulher trabalhar. Mais por uma questão estratégica — necessidade de mão-de-obra enquanto os homens lutavam — do que ideológica.

Mariam sonha com a vida luxuosa dos passageiros do
trem que passa por sua cidadezinha.
Em Possuída (1931), produzido antes da censura que o escritório do católico Joseph Breen impôs aos filmes, Joan Crawford interpreta Mariam Martin, uma jovem que trabalha numa fábrica de caixas em alguma cidade do interior dos Estados Unidos e que sonha em pertencer à alta sociedade nova-iorquina. Um dia, voltando de seu trabalho entediante, ela conhece um milionário que promete ajudá-la caso ela vá para a cidade. Mariam chega em casa bêbada e o namorado matuto repreende-a. A cena é uma das mais belas que eu já vi. O namorado diz a Mariam que ela não pode perseguir seus sonhos na cidade grande, ao passo que ela responde-lhe: "Você não é meu dono, minha vida pertence a mim". "Você vai bagunçá-la", retruca o rapaz. "Ainda pertencerá a mim", desafia a garota. A mãe dela entra no meio da discussão para dizer que os pensamentos da filha assustavam-na.

Eis que Mariam começa um discurso avançado demais para 1931, que ainda mantém-se relevante em 2018: "Se eu fosse um homem, não te assustaria, você acharia certo que eu saísse de casa e conquistasse tudo o que eu pudesse na vida e usasse qualquer meio para consegui-lo", diz. Sua mãe não deveria tratá-la diferente, argumenta a moça, pois "o meio que os homens têm é o cérebro e eles não têm medo de usá-lo". Após o confronto, Mariam vai para Nova York e começa um relacionamento com o charmoso advogado solteirão Mark Whitney (Clark Gable), que a mantém financeiramente. Como naquela época ainda não existia o conceito de namorada como o entendemos hoje em dia, Mariam seria vista como uma "amante" caso a imprensa descobrisse sobre ela. E como o advogado possui pretensões políticas é melhor que ela aceite a discrição, o que lhe incomoda.

"Se eu fosse um homem, não te assustaria".
Mariam finalmente conseguiu realizar o seu sonho de inserir-se na alta sociedade, ainda que dependesse de um homem para isso. Afinal de contas, ainda eram os anos 1930. Mas a cena em que Mariam enfrenta o namorado que quer que ela se conforme com menos é um prenúncio do avanço da mentalidade feminina sobre os relacionamentos que estava por vir: as mulheres querem ser possuídas por um amor e não ser posse de um homem. Daí o título do filme, não no sentido de quem está na posse ou no poder de alguém, mas que é tomado pelo amor. Inclusive tive de pesquisar no dicionário os vários significados da palavra após assistir ao filme, pois o entendimento que eu fazia dela não combinava em nada com a história que eu tinha acabado de ver. (Pensei tratar-se, como no filme homônimo de 1947 com a mesma atriz, da história de uma mulher possuída pela loucura).

Mariam não é posse. Ela é livre dos homens. Por mais que ela ame Mark, não tem medo de seguir sua vida sem ele. Quando ela abandona-o, é impossível não pensar na máxima "se você ama alguém, deixe-o ir, se ele não voltar é porque nunca te amou". A relação entre Mariam e Mark não é uma de posse, embora ele sustente-a em segredo. Ela é um agente ativo da relação, sendo jamais mostrada como uma personagem passiva. Ela aceitou o arranjo porque queria os luxos que uma vida na alta sociedade poderia propiciar-lhe. No entanto, ela começa a amar o advogado, o que pode ficar na frente do projeto político dele — que incluía tratar os prisioneiros do Estado como seres humanos, outra questão avançada demais para 1931 e que mantém-se relevante em 2018. Quando Mark desiste da política para ficar com ela, Mariam se afasta dele.

"A reforma prisional envolve questões que estão fora dos
muros das prisões", diz Mark. Já se passaram quase 90 anos
dessa cena e as pessoas ainda não perceberam isso.
Mariam entende que Mark não pode ser posse exclusiva dela. É como se ela pensasse: "eu já consegui o meu sonho, agora deixa ele conquistar o dele" — que é, inclusive, um sonho que pode ser bom para a coletividade, o que torna seu gesto ainda mais altruísta. A heroína do filme entende que amar significa querer o melhor para o outro, mesmo que isso signifique nosso afastamento da pessoa amada. Ela é possuída pelo amor, mas não é escrava (posse) dele e se recusa que seu parceiro também o seja. Possuir, no outro sentido do dicionário, não tem nada a ver com amor; tem a ver com escravidão. E a escravidão psicológica, da qual Mariam se nega a ser perpetuadora, é terrível, pois nada te prende no plano físico e, ainda assim, você não é livre, pois se encontra preso no plano espiritual. Você até tenta se livrar de suas correntes invisíveis, mas não consegue, pois se sente seguro preso a elas.

Assim como Mariam, decidi não me deixar acorrentar por ninguém, nunca mais. Caso ocorra de aparecer um novo amor em minha vida, deixarei que ele me possua no sentido de me desfrutar; será uma relação de companheirismo e não de posse. Demorei vinte e tantos anos para descobrir o outro significado da palavra "possuir", que a maravilhosa roteirista Lenore Coffee já sabia em 1931, quando adaptou a peça The Mirage de Edgar Selwyn para este filme (escrevi sobre a importância do universo feminino ser escrito por mulheres nesse outro texto). Não sei se Mariam era incrivelmente liberta na peça — de 1920! — como o é no filme, mas sua versão para as telas acabou se tornando uma precursora do movimento feminista e me ajudou a perceber o quão errado eu estava em minhas pré-concepções sobre o amor. O que eu quero é ser possuído e não a posse de alguém. Já deveria saber disso, mas não tive acesso às representações mais corretas sobre o tema e nem aos exemplos mais sadios na vida real. Mas ainda estou no meu tempo. Antes tarde do que nunca quando se trata de descobrir as verdades da experiência humana saudável.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Por que as mulheres não são donas de sua narrativa?

Ontem assisti à comédia romântica The Bride Wore Red — cujo título literalmente significa "A noiva vestia vermelho", mas que foi toscamente traduzido para "Felicidade de mentira" —, de 1937, estrelada pelo então casal Joan Crawford e Franchot Tone, cuja união teria sido a origem da rixa da atriz com Bette Davis. Baseada em obra do romancista húngaro Ferenc Molnár, o filme conta a história de Anni, uma cantora de cabaré de Triste, na Itália, que recebe a oportunidade de sua vida: passar duas semanas num hotel de luxo nos Alpes com tudo pago. Chegando lá, ela chama a atenção de dois homens: o carteiro Julio (Tone) e o aristocrata Rudi (Robert Young), noivo de outra mulher. Anni precisa, então, decidir se vai viver o amor de sua vida ou continuar naquele universo de riqueza e luxo em que começou a viver. Seria apenas mais um filme do gênero, não fosse por um detalhe marcante que diferencia-o dos demais: foi dirigido por uma mulher. Isso torna-o muito mais sensível do que qualquer outra comédia romântica que eu já assisti.

Um filme feito para mulheres, dirigido e escrito por mulheres, é algo que foge completamente do usual. Como diz Anni, no começo do filme, as mulheres que ela vê no cinema são "simples, burras e artificiais". Não é o caso das mulheres de The Bride Wore Red. Elas são naturais. Você vê aquelas mulheres interagindo umas com as outras na tela e imagina-as conversando daquela maneira na vida real. Sua malícia, sensibilidade, ousadia e fragilidade são palpáveis. Infelizmente, isso ainda é uma raridade hoje em dia. Em pleno século XXI, obras supostamente feitas para mulheres são dirigidas e escritas por homens. O exemplo mais notório disso é o seriado e os filmes da franquia Sex and the City, que, embora baseados na obra da autora Candance Bushnell, foram idealizados para as telas por um homem: Michael Patrick King. Nem mesmo nessas obras, que se propunham a revolucionar as discussões sobre a sexualidade feminina, as mulheres tiveram o direito de serem donas de sua própria narrativa.

Joan Crawford sendo dirigida por Dorothy Arzner.
The Bride Wore Red foi pouco usual para sua época por unir algumas das mulheres mais notórias da indústria cinematográfica numa única obra. O filme foi co-escrito por Tess Slesinger, editado por Adrienne Fazan e dirigido por Dorothy Arzner. Esta foi a única cineasta mulher dos anos 1930, o que fica bem claro no filme, que mostra situações que não eram apresentadas sob a ótica feminina em outras obras lançadas na mesma época. Reza a lenda que Crawford estava ansiosa para trabalhar nessa produção, pois esta seria sua primeira vez sendo dirigida por uma mulher. No entanto, as duas teriam se desentendido a tal ponto que se comunicavam por bilhetes no final das filmagens. Elas possuíam visões artísticas muito diferentes. A estrela, que estava declinando em popularidade, precisava de um sucesso e não estava disposta a ousar; a diretora, como evidenciado pela cena em que Anni critica a representação das mulheres no cinema, desejava fazer um filme mais autoral.

Crawford estava certa. The Bride Wore Red foi um fiasco. Foi este um dos filmes responsáveis por colocá-la na lista de "venenos de bilheteria", compilada pela Associação dos Donos de Salas de Cinema dos EUA em 1938 (ao lado de Manequim). Ela eventualmente recuperou a fama ao reinventar-se como atriz dramática na década de 1940, trocando a MGM pela Warner Bros. Retornou à lista das estrelas mais rentáveis do cinema em 1947, ou seja, exatamente dez anos após ter saído da mesma. Arzner, por sua vez, não teve a mesma sorte e jamais se recuperou do fracasso deste filme. Dirigiu mais dois filmes antes de se aposentar de Hollywood para sempre. O musical A Vida é uma Dança (1940) teve uma recepção morna, enquanto o filme de guerra Crepúsculo Sangrento (1943), concluído por Charles Vidor após Arzner contrair pneumonia, foi mal recebido pela crítica e pelo público. Nos anos 1950, Crawford, então casada com o presidente da Pepsi, sugeriu o nome dela para a direção de comerciais de produtos da empresa.

Foi um fim melancólico para quem dirigiu o terceiro filme mais lucrativo de 1929 — o drama Garotas na Farra, primeiro filme falado da "it girl" Clara Bow. As obras da diretora traziam mulheres fortes, livres e independentes como ela mesma, que desafiou as convenções de sua época e manteve um relacionamento com a coreógrafa Marion Morgan durante 40 anos. Segundo a autora feminista Gwendolyn Foster, Garotas na Farra "articula meticulosamente o que acontece com as mulheres quando elas se afastam dos confinamentos de um ambiente seguro frequentado apenas por garotas". Já para a Livraria do Congresso, em A Vida é uma Dança "as dançarinas, interpretadas por Maureen O'Hara e Lucille Ball, tentam preservar suas integridades feministas enquanto lutam por seu lugar no holofote". É interessante notar a escolha da palavra "feminista" para descrever personagens criadas quando este termo ainda era marginal. De maneira semelhante, Garotas na Farra apresenta uma situação de sororidade antes mesmo deste conceito ter surgido.

Até quando narrativas femininas serão escritas por homens?
Talvez The Bride Wore Red tenha sido mal recebido porque Dorothy Arzner era muito evoluída para sua época. Em 1937 as pessoas não queriam ver uma mulher não só recusando um casamento por dinheiro como repreendendo o pretendente por trocar a noiva por ela. Novamente, a mensagem da sororidade se faz presente na obra da diretora, creditada por lançar as carreiras de atrizes como Katharine Hepburn, Sylvia Sidney, Lucille Ball e Rosalind Russell (em Mulher Sem Alma, mais tarde refilmado com Crawford como A Dominadora). Talvez se The Bride Wore Red tivesse se saído melhor nas bilheterias, Arzner teria continuado dirigindo, inspiraria outras mulheres e hoje teríamos um amplo catálogo de filmes dirigidos e escritos por mulheres. Talvez o universo delas não seria tão mal representado e mal interpretado por cineastas homens em obras como Sex and the City e demais comédias românticas que apresentam-nas como estereótipos unidimensionais sem muita profundidade. Não seriam "simples, burras e artificiais".

A história de Dorothy Arzner é a própria história de como é árduo o caminho das mulheres em nossa sociedade patriarcal e machista. Ao contrário de um homem, uma mulher, para se provar digna de continuar no emprego, seja ele em Hollywood ou na presidência da República, não precisa ser somente boa naquilo que faz — precisa ser excelente. Nunca saberemos como seria a indústria do entretenimento hoje caso Arzner tivesse sido mais bem sucedida. Apesar disso, sua filmografia se destaca como um exemplo de resistência numa indústria ainda hoje dominada por homens. Como disse Hepburn num telegrama enviado à diretora em 1975: "Não é incrível que você teve uma carreira tão brilhante numa época em que você não tinha sequer o direito de ter uma carreira?". Os filmes de Arzner evidenciam como o universo feminino retrata a si mesmo de maneira mais complexa, inteligente e natural do que o masculino. Não faz mais sentido negar às mulheres que sejam donas de sua narrativa. Talvez isso fosse algo avançado demais para 1937, mas não creio que seja para 2017.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sobre mulheres loucas como eu

Há algumas semanas, eu disse que todo filme da Joan Crawford que eu já havia assistido rendia uma boa discussão sobre o papel da mulher na sociedade. Preciso adicionar Manequim (1937) a essa lista. No filme, Crawford interpreta Jessie Cassidy, uma garota de família pobre que mora num cortiço e trabalha numa fábrica de roupas. No começo do filme, o espectador descobre que Jessie é arrimo de família, apesar de ter um irmão apto para o trabalho. Jessie chega em casa um dia e descobre que a mãe está dando o dinheiro que ela ganha na fábrica pro irmão, porque é o dever da mulher cuidar dos homens da casa. Revoltada com a situação, Jessie se recusa a descascar batatas para seu pai ou deixar sua mãe fazê-lo, desafiando a figura do patriarcado em sua casa. Ela pede para o namorado, o pugilista em ascensão Eddie Miller (Alan Curtis), para se casar com ela e tirá-la daquele lugar e daquela situação desesperadora em que ela se encontra.

Só que sua vida não melhora. Mais uma vez, Jessie se vê num lar onde ela é a única que trabalha. O marido perde o contrato e ela começa a trabalhar como corista na Broadway para que eles possam continuar comendo. De vez em quando ele pede uns dólares para a esposa, que cede, iludida de que a situação deles é temporária. Ao invés de trabalhar, Eddie se envolve com a jogatina e chega a ser preso. Aos poucos, as ilusões de Jessie em relação ao marido vão se desfazendo. Certa noite, num jantar na casa de seus pais, Jessie ouve da mãe, sempre servil ao pai e ao irmão dela, o conselho de que ela não deve desperdiçar sua força de vontade por quem não está disposto a fazer o mesmo por ela. A cena poderosa é um lamento de quem viveu a vida inteira por seu marido sem jamais ser reconhecida por isso. Chegando em casa do jantar, Eddie revela que tem um plano para eles melhorarem de vida.

Spencer Tracy e Joan Crawford em foto
promocional do filme Manequim.
Jessie se anima com a possibilidade de que finalmente seu marido iria se dedicar ao sucesso financeiro do casal do mesmo jeito que ela vinha se dedicando. No entanto, o plano dele envolve eles darem um golpe no milionário John Hennessey (Spencer Tracy). Ela se casaria com ele para, mais tarde, pedir o divórcio e sair com metade da fortuna dele. Jessie fica horrorizada com a ideia e percebe que o marido não possui nenhum tipo de ética pessoal e decide pela separação. Ela reergue sua vida trabalhando como modelo – daí o título do filme – e acaba reencontrando e se apaixonando pelo milionário Hennessey, com quem se casa em Paris. Os dois passam por uma longa lua-de-mel na Europa, mas, ao retornarem para os Estados Unidos, o ex-marido de Jessie, agora especialista em falsificação de perfumes, reaparece em sua vida para atormentá-la.

Eddie chantageia Jessie, ameaçando dizer para John que ela ter se casado com ele ainda fazia parte do plano dele. Só que o negócio de John fale devido à agitação sindical de seus empregados e ele perde toda sua fortuna. Para a surpresa de ambos os homens, Jessie permanece ao lado de seu marido atual. Com uma condição: que ele trabalhe também. Ela se recusa a ficar com um marido que se recusa a dividir as contas. Ainda hoje, muitas mulheres se submetem a relacionamentos desse tipo, pois foram encalcada-lhes a noção de que o que importa é ter um homem para dividir a cama. Manequim predata o movimento feminista, mas retrata a personagem da sociedade estadunidense que permitiu seu surgimento: a garota trabalhadora, que cresceria em números durante a Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres assumiram os postos de trabalho que os homens, que foram lutar contra o nazismo na Europa, deixaram vagos. Ainda hoje, o filme permanece relevante.

Consigo me identificar, pois estive num relacionamento semelhante ao de Jessie e Eddie. Meu Eddie também achava-se bom demais para trabalhar, também fazia com que eu pagasse as contas, perdia oportunidades que a vida lhe dava e culpava a todos – menos a si mesmo – por seus fracassos. Assim como Jessie, eu me sentia exausto por ter que ser o responsável daquele relacionamento e também me iludia de que ter um ao outro bastava. Mas não basta. Como diz uma das coristas em determinado momento do filme, quando Jessie está se gabando dos gestos românticos de Eddie, "não venha me falar de caras que fazem o mínimo. Quero ouvir sobre caras que fazem o máximo". Não adianta nada trazer rosas e não trazer o almoço. Para mim, o tipo de situação retratada pelo filme configura-se como um relacionamento abusivo, mas não falamos sobre isso porque não é tão evidente.

Assim como Jessie, eu sentia que devia algo a meu ex porque ele me tirou da situação ruim em que eu me encontrava antes de conhecê-lo. E ele sabia disso e reproduzia, num relacionamento homossexual, o mesmo tipo de submissão retratado num filme de oitenta anos atrás. Assim como Eddie, ele alimentava minhas ilusões de que um dia nós dividiríamos as contas porque sabia que assim eu continuaria pagando tudo sozinho. Além disso, eventualmente me fazia eu me sentir mal por não ter fé em sua capacidade de se tornar rico sozinho, como Eddie faz com Jessie numa cena no metrô. E eu era tão grato por ele ter me salvado da escuridão do armário que eu fazia vistas grossas ao verdadeiro caráter dele. Afinal de contas, a gente aprende desde cedo que o amor pode tudo, inclusive mudar as pessoas. Como se um beijo pudesse transferir meus valores morais para ele.

A relevância dos filmes de Joan Crawford me faz pensar que o ataque a sua imagem não seja também um ataque à mulher independente. Sejam verdadeiras ou não as acusações de abuso infantil feitas contra ela, nenhuma outra atriz esteve tão identificada com a garota trabalhadora do que ela que, vindo de uma família pobre ela mesma, oferecia verossimilhança às personagens que interpretava. Assim como elas, Joan veio do nada e chegou ao topo, estando disposta a sacrificar os papéis tradicionais da mulher para isso. Era referência até sua morte. Meses depois, sua filha adotiva denunciou-a como mãe abusiva no livro de memórias Mamãezinha Querida, mais tarde transformado num filme caricaturesco com Faye Dunaway. Cinquenta anos dedicados a inspirar as mulheres foram jogados no lixo em menos de cinco. A mulher que recusa se submeter ao papel que lhe é imposto pela sociedade só pode ser louca e é assim que muitos veem Joan Crawford hoje.

domingo, 23 de abril de 2017

A dosagem do controle nos relacionamentos

A melhor atuação de um ator é sempre aquela em que dá vida a um personagem próximo de sua realidade, pois sua interpretação sai o mais natural possível. Joan Crawford basicamente interpretou a si mesma em A Dominadora (1950), onde dá vida a Harriet Craig, – título original do filme –, uma mulher obcecada por limpeza e organização que, para evitar brigas, precisa que as coisas sejam feitas do seu jeito. Em determinada cena do filme a governanta da Sra. Harriet diz à cozinheira: "se ela pudesse, embrulharia a casa toda em celofane". De fato, os móveis de Crawford eram embrulhados em celofane, tamanha sua obsessão em mantê-los limpos. Mas as semelhanças entre interpretador e interpretado não terminam por aí: tanto Harriet Craig quanto Joan Crawford nasceram na miséria, foram abandonadas por seus pais na infância, trabalharam em lavanderias e abandonaram a escola. E, apesar disso, ambas encontraram êxito profissional.

A arte imita a vida: "Se ela pudesse, embrulharia a
casa toda em celofane". 
Segundo o diretor Vincent Sherman, em entrevista para o episódio sobre Crawford da série documental The Hollywood Greats da BBC, ele incorporou muito da personalidade da atriz no filme sem que ela percebesse. Mas eu acho que ela percebeu sim. Tanto que, segundo o Internet Movie Database, baseou-se em sua própria experiência pessoal para entregar a cena final do filme, na qual Harriet Craig explica porque se tornou uma mulher controladora que duvida das intenções dos homens que se aproximam dela. O final deveria ter servido de advertência para a atriz. A protagonista quer controlar tanto o mundo ao seu redor que acaba afugentando as pessoas mais próximas de si. O mesmo ocorreu com Crawford, embora não da noite pro dia. Ao longo de sua vida, ela afastou companheiros, filhos e até a governanta, que mais tarde teria dito que decidiu voltar para sua Alemanha natal porque havia se cansado de se desviar de coisas jogadas em sua direção.

Ao que tudo indica, Crawford gostava que gostassem dela. Mantinha uma relação pessoal com seus fãs e regularmente realizava atos de caridade para estranhos. No entanto, isso deveria ocorrer nos termos dela. Eu creio que não podemos ser seletivos em relação à afeição que recebemos. Temos de aceitar o carinho e o amor que recebemos da forma que o recebemos. Mas não a julgo. O patriarcado sempre impôs regras bem rígidas para os relacionamentos. Mas ninguém – nem o homem e nem a mulher – tem que controlar os rumos de um relacionamento. Só que ainda hoje essa é uma opinião impopular e, para não sermos dominados, acabamos nos tornando dominadores nós mesmos. Como bem diz Harriet Craig, a dominação é um mecanismo de defesa contra o amor. Tememos que o amor nos deixe de quatro e que nos anulemos para satisfazer as vontades do outro. É preciso dosar a vontade de controlar e de ser controlado nos relacionamentos.

Quando queremos controlar a vida de todos ao nosso redor,
acaba sobrando só a nossa mesmo para controlar.
Joan Crawford gostava que as coisas fossem feitas do seu jeito – e não do jeito dos homens. Afinal de contas, ela não precisava (e nunca precisou) de nenhum deles para se sustentar. É algo que incomoda nossa realidade machista e é claro que ao transpor para a tela a mulher que age dessa maneira, transformariam-na numa "bitch", num exemplo a não ser seguido. Mas Crawford e Craig são apenas casos extremos. Me identifiquei muito com a filosofia de vida de Harriet Craig e continuarei me identificando com ela. O que me assusta, no entanto, é o extremismo. Se, por um lado, identifico e admiro Crawford por ter sido uma mulher pioneira, que tomou o controle de sua vida para si, por outro lado me assusta a intensidade com a qual ela o fez. Essa é a parte de Crawford e Craig com a qual tenho medo de me identificar. Controlar a própria vida é bom, mas fazê-lo em excesso nos torna insuportáveis e nos afasta do convívio humano.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Por que as mulheres em posição de poder batem cabeças?

Acabei de assistir ao primeiro episódio de Feud: Bette and Joan, nova série antológica de Ryan Murphy e achei a produção simplesmente incrível. A cena inicial traz Olivia de Havilland, interpretada por Catherine Zeta-Jones, falando sobre a rixa entre Bette Davis e Joan Crawford. A primeira coisa que pensei foi: o que será que essa atriz, hoje com 100 anos de idade, teria a dizer sobre isso? (não sei se ela está lúcida ou não). Ela mesma tinha uma rixa com a irmã famosa, a também atriz Joan Fontaine (1917—2013), que certa vez disse: "Me casei primeiro, ganhei o Oscar primeiro e, se eu morrer primeiro, Olivia vai ficar chateada porque eu também fiz isso primeiro". Essa rixa, por si só, daria uma ótima temporada do seriado.

Susan Sarandon e Jessica Lange caracterizadas como Bette
Davis e Joan Crawford, respectivamente.
Após Olivia dizer que "rixas não são motivadas pelo ódio" — o que ela deve saber muito bem — o seriado começa de fato. A impressão que tive vendo o primeiro episódio é de que a história é mais focada em Joan Crawford (Jessica Lange) do que em Bette Davis (Susan Sarandon). E eu particularmente gostei mais da atuação de Jessica, apesar de que Susan é uma das minhas atrizes favoritas. Acho que Susan tem uma voz muito parecida com a da Bette e talvez esse tenha sido o fator principal que levou à escolha dela para interpretá-la. Os seriados de Ryan Murphy baseados em fatos e pessoas reais têm um problema de "casting". Assim como Cuba Gooding Jr. era muito pequeno para interpretar O.J. Simpson, Susan Sarandon é muito alta pra interpretar Bette Davis.

Após Joan abandonar uma premiação bêbada e amargurada com Marilyn Monroe, que mexeu com seu ego por estar conseguindo todos os papeis por causa de sua aparência, ela recebe uma visita da colunista de fofocas Hedda Hopper (Judy Davis), que ameaça-a com a publicação do fato a não ser que ela desse uma declaração amarga sobre a estrela do momento. Além disso, Joan, falida, anuncia à colunista que voltaria a atuar. Ela era, àquela altura, membro do conselho de diretores da Pepsi, cargo que herdou do marido falecido, mas não estava recebendo mais da empresa. Tampouco recebia ofertas de papeis de destaque na indústria cinematográfica. Como o seriado deixa bem claro, as atrizes velhas eram substituídas por carne nova assim que seus seios começassem a cair.

Joan conversa com seu agente e recebe uma pilha de roteiros. Os papéis que lhe são oferecidos são clichês e de pouco destaque. Então ela decide vasculhar livrarias e encontra o livro de horror O Que Terá Acontecido a Baby Jane? que, ironicamente, narra a rixa de duas atrizes, irmãs como Olivia de Havilland e Joan Fontaine, decadentes. Era o papel perfeito para alguém de sua idade. Ela convence o cineasta Robert Aldrich (Alfred Molina), que dirigiu seu último filme de sucesso, a adaptá-lo. E quer Bette, sua rival por papéis na década de 1940 na Warner Bros., como co-protagonista. Isso chamaria a atenção da mídia — visto que Bette detestava-a — o que tornaria o filme um sucesso e também daria-lhe a oportunidade de provar à rival de que era uma boa atriz.

O diretor tenta vender a ideia para os estúdios, mas é rejeitado ora por causa de seu currículo recheado de filmes B ora por causa das protagonistas, consideradas velhas demais. Sua última alternativa é a Warner, mas Jack Warner (Stanley Tucci) rechaça violentamente a ideia por causa da batalha judicial movida por Bette contra ele, que acabou por garantir direitos trabalhistas para os atores. Ele aceita com certa relutância após ser persuadido de que o filme traria publicidade e lucro para o estúdio, que tenta conter a fuga de espectadores para a televisão. Jack Warner personifica o sexismo da indústria. Mas Feud levanta um tema ainda pouco discutido quando fala-se em machismo: a inveja de uma mulher a outra em posição social equivalente ou mais elevada do que a dela.

O seriado deixa claro como cada uma conquistou tal posição. Bette sacrificou a vida pessoal a favor da carreira e era dura no trato com quem tentava tirar proveito dela. Joan, por sua vez, era gentil com todos e valia-se do flerte como arma. Ambos os estilos encontram paralelo na crise político-institucional do Brasil. Assim como Joan ressentia-se por estar abaixo de Bette em nível de reconhecimento profissional entre as atrizes de sua geração, Carmen Lúcia ressentia-se por estar abaixo de Dilma Rousseff entre os poderes da República. E se Carmen faz a linha Joan, Dilma definitivamente lembra Bette, fazendo as coisas de seu jeito e levando todo o crédito de seu sucesso e de seu fracasso para si. Carmen aceitou golpear a democracia para ser a única mulher em cargo de comando da República.

A personagem de Hedda Hopper atua como uma máquina anti-sororidade, alimentando as rixas que impediam que atrizes criassem um laço de amizade entre si. Tudo isso para vender mais cópias dos jornais para os quais escrevia sua coluna. Judy Davis está impecável no papel de Hedda e deve receber algumas indicações a prêmios por ele, assim como Susan e Jessica, que na minha opinião merece o Emmy de melhor atriz em minissérie. Mas o que mais me chamou a atenção em Feud, é que, embora retrate uma outra época, em que os atores eram tão despreocupados com os fãs a ponto de recebê-los em suas casas, traz uma questão bem atual para a sociedade: Por que duas mulheres em posição de poder sempre batem cabeças? No final das contas, é disso que se trata a rixa que dá nome ao seriado e que ele pretende explorar. Mal posso esperar para ver qual é sua conclusão disso.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O calor repressivo e ignorante de Goiás

Cartaz do filme Volver.
Há cerca de dez anos, eu assisti ao filme Volver (2006), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e, assim como havia acontecido quando assisti a seu Tudo Sobre Minha Mãe (1999), me apaixonei completamente por aquela trama. A história gira em torno de Raimunda, que se vê forçada a retornar a sua cidade natal na região de La Mancha quando sua tia senil morre (daí o título do filme, que significa "retornar" em português). Raimunda, magnificamente interpretada por Penélope Cruz — indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação —, deixou traumas do passado e uma rígida moral conservadora para trás quando se mudou para Madri. Em determinada cena ela diz à filha adolescente, com certo desdém, que o sul da Espanha é quente e que, por isso, as pessoas ali são mais ignorantes do que aquelas com as quais elas convivem na capital do país.

Aquele diálogo mexeu profundamente comigo na época. Eu era um jovem gay e morria de medo e vontade de me assumir como tal para a conservadora — e igualmente quente — sociedade goiana. Minha dificuldade em me aceitar e me assumir vinha dos valores sociais em voga em Goiânia, onde a polícia registra cerca de dez casos de violência contra a mulher por dia. Agora, no entanto, eu decidi que a ignorância do goiano médio não pode mais pautar minha vida e tenho me lembrado cada vez menos daquela cena. Não há muito o que eu possa fazer se as pessoas a meu redor foram educadas para achar a caverna de Platão confortável. Apesar disso, recentemente outra obra de arte também produzida por um homem espanhol gay fez eu me recordar daquela cena, que considero o momento de origem do meu divórcio da sociedade ignorante em que estou inserido.

Trata-se da peça A Casa de Bernarda Alba, do dramaturgo Federico García Lorca, que tive a oportunidade de assistir na abertura da mostra "Mulheres por Mulheres", realizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Nela, o calor simboliza não a ignorância, mas a repressão religiosa e a rígida moral sexual do sul da Espanha no início do século passado. Assim como Raimunda, García Lorca só conseguiu se livras das correntes da sociedade provinciana após se mudar para Madri. Não creio que o diálogo entre essas obras seja um mero acaso. Tampouco creio que a onda de calor pela qual Goiânia atravessa e a aparição dessas obras no meu imaginário nesse exato momento seja mera coincidência. O valor simbólico exato disso, eu não sei, mas suspeito que seja um sinal de alerta para que eu continue resistindo ao calor repressivo e ignorante de Goiás.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Somos todos filhos da puta

Gostaria de falar sobre putas. Não sobre as mulheres que têm como profissão a prostituição, mas aquelas que já receberam essa alcunha. Desde os primórdios, nas sociedades abraâmicas, mulheres livres e independentes têm sido punidas por sua sexualidade e recebido essa denominação. Eva, por exemplo, foi a primeira puta. É um exemplo de mulher a não ser seguida, pois não ouviu a seu homem e acabou condenando a ambos. Chamar uma mulher de puta é uma forma de diminuí-la por causa de seu suposto gosto pelo sexo. Enquanto um homem ser puto é esperado e até mesmo incentivado, a mulher é incentivada a casar e ter filhos. Quem não tem, em sua família, aquele tio que levou o primo num bordel quando ele fez 18 anos, mas que diz para a prima que ela deve ser "bela, recatada e do lar" para chamar a atenção do sexo oposto?

Numa sociedade ideal, ninguém se importaria com quem você transa. Todos nós transamos e todos nós nascemos porque duas pessoas transaram (exceto os "bebês de proveta"). No entanto, em nossa sociedade, tudo é organizado de uma forma que permita que o homem branco heterossexual fique no zênite das relações sociais. Assim, o sexo tem significados diferentes para um homem heterossexual e para uma mulher, seja ela hétero ou homossexual, branca ou negra. As mulheres existem para satisfazer os homens e quem está mais interessada em satisfazer a si mesma é uma puta. Mulher que se masturba é puta. Mulher que transa com outra mulher é puta. Mulher que transa por transar é puta. E, por fim, mulher cuja a existência independe da figura masculina é puta.

Todas as mulheres que ocupam o espaço dos homens
são, mais cedo ou mais tarde, chamadas de puta.
Essa dinâmica de dominação das relações sociais pelo sexo masculino se entende para além da cama, de forma que todas as mulheres icônicas da História da humanidade já foram chamadas de puta em algum momento de suas vidas, sem exceções. De Maria Madalena à Madonna, cantora mais popular do planeta. De Frida Khalo à Dilma Rousseff. A mulher que se nega a submeter-se ao homem ameaça a manutenção da ordem social vigente e deve ser neutralizada, o que quase sempre envolve difamá-la por causa de sua vida sexual. Ser uma mulher que não se coloca no seu lugar e se cala enquanto os homens conversam, ou seja, se negar a ser uma "mulherzinha", é uma agressão ao patriarcado. Acho que é por isso que esse tipo de mulher me atrai tanto. Gosto de me cercar de putas, sejam elas profissionais da prostituição ou não.

Certa vez, num almoço de família, minha mãe me chocou ao dizer que apoiava a Marcha das Vadias porque ela era uma. Não no sentido de quem tem vários parceiros sexuais (e, caso tivesse, isso não seria da minha conta e nem da conta de ninguém). Pelo contrário, era uma vadia porque recusa-se a se curvar para os homens, que assim chamam as mulheres que, como ela, ameaçam os privilégios masculinos através da conquista de visibilidade no campo social. Minha mãe já foi chamada de puta, certa vez, por ter colocado a vida social acima da maternidade (o que não significa negligenciar a segurança dos filhos). A mulher ideal para o tipo de sociedade em que vivemos é aquela cujo maior sonho é se casar e ter filhos e que para de viver — inclusive sexualmente — depois que vira esposa e mãe.

Não sei o que as pessoas têm a ver com aquilo que as outras fazem! Desde que você não coloque a vida de outras pessoas em perigo, não tenho nada a ver com aquilo que você faz. E se você é uma mulher e a sociedade te chama de puta: meus parabéns! Você deve estar fazendo algo de certo para irritar uma sociedade tão errada quanto a nossa, na qual homens são assassinados à sangue-frio na rua por cometerem o "revolucionário" ato de segurar a mão de outros homens. Saiba, puta, que eu te admiro e me espelho no seu espírito livre para ser mais autêntico e verdadeiro comigo mesmo e com as ideias que eu defendo, que não têm o mínimo intuito de entrar em consonância com esta sociedade doentia na qual vivemos.

Eva, a primeira puta.
Por isso, acho que cada um de nós deveria se orgulhar das vezes em que foi chamado de filho da puta. Uma vez um ex-namorado me chamou disso e eu fiquei morrendo de raiva dele por ter ofendido minha mãe — que sempre acolheu-o super bem, mesmo sem ter a obrigação de fazê-lo. Ele se esquivou, disse que não estava falando dela, que era só um xingamento geral. Mas por que motivos trazer a vida sexual da minha mãe à tona durante uma discussão que envolvia só nós dois? Desde então, tenho evoluído muito e agora percebo que as mulheres que a sociedade chama de puta são aquelas que eu mais admiro e que tenho como modelo a ser seguido na vida. Não ligo mais se me chamarem de filho da puta. Assim como a Madonna não pede desculpas por ser uma puta, eu também não peço desculpas por ser o filho de uma.

Na verdade, sou filho de várias putas. Eva, a primeira mulher e puta, Maria Madalena, Madonna, Dilma e — por que não? — minha mãe. Mulheres que só são putas porque se recusaram a assumir o papel de "mulherzinha", que tomaram as rédeas de sua própria vida e, por isso mesmo, ofendem profundamente o patriarcado, que não é a régua pela qual eu, um jovem homem gay, desejo ser medido. Obviamente não vim nesse mundo para agradar a este sistema de estratificação social baseado no gênero e na orientação sexual das pessoas. Se fosse para ser assim, Deus teria me feito homem e branco do mesmo jeito, mas heterossexual. Para o patriarcado, eu sou um viado, mas se eu fosse mulher, com certeza seria uma puta. Contento-me, no entanto, em ser um filho da puta, pois sem as putas eu não teria metade das liberdades que tenho hoje.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ano em que me tornei forte

Meu lado forte que 2016 revelou.
Há alguns meses, publiquei um texto atribuindo à deusa grega do amor, Afrodite, a regência desta nova fase de minha vida. Agora, no entanto, percebo que esta mudança não ocorreu por obra de um agente externo. Trata-se do meu lado feminino (daí a confusão com Afrodite) tomando as rédeas de minha vida. Meu lado masculino sempre foi uma bagunça. Inseguro, frágil e confuso, nunca soube como ir atrás daquilo que eu desejo e percebo como sendo o melhor para mim. Meu lado feminino, por outro lado, é sagaz, calculista e empoderou-me para a luta. Foi só quando deixei de lutar contra ele que percebi as maravilhas que ele pode fazer por mim.

Com o perdão da palavra, 2016 foi um ano de merda. Parece que o caos sociopolítico do Brasil passou a se refletir sobre minha vida também. Diversas vezes, minha saúde física e mental encontrou-se fragilizada nesse ano. Mas eu me levantei todas as vezes que caí. Eu vim, eu vi, eu venci. Não me entrego mais ao caos. O caos pode sim ser construtivo e ter seus momentos de beleza, mas nunca mais vou parar minha vida para contemplá-lo. Demorou, mas finalmente compreendi que a função da desordem é fazer com que possamos tirar um aprendizado dela. A vida nos derruba para que possamos aprender a nos levantar, quantas vezes preciso for, e seguir em frente.

Ver os atletas e não poder sequer me levantar da cama sem
 que meu pé doesse atormentava terrivelmente minha alma.
De tanto cair em 2016, mesmo que metaforicamente, acabei machucando justamente o tendão de Aquiles — olha a mitologia grega aparecendo aqui de novo —, que é o responsável pelo ato de levantar-se. E do lado esquerdo, o lado do subconsciente. Este talvez tenha sido o maior baque que levei neste ano. Fui obrigado a parar de me exercitar justamente quando a maior festa do esporte mundial, as Olimpíadas, estava em nosso país. Num primeiro momento, agi sob a influência do meu lado marciano e entreguei-me à enfermidade, esperando que a inflamação curasse sozinha. Em seguida, meu lado feminino, venusiano, tomou conta de mim e colocou-me em ação para recuperar minha mobilidade.

A Vênus que habita dentro de mim também ensinou-me a lidar melhor com outras doenças: as da alma. Não quero mais agradar a todos e perdi a vergonha de me expressar em público, porque percebi que não tenho nada a perder, a não ser o medo de ser julgado. Aprendi que a língua do brasileiro não é o português, mas sim o cinismo. E que ele teria me levado longe se eu tivesse lançado mão dele, mas eu teria perdido uma parte importante de mim que é a honestidade. Aprendi também que "gostei de você" e "vamos nos ver" são só palavras, utilizadas por pessoas emocionalmente confusas, e o significado cruel da expressão ghosting e como reagir a ele. Aprendi até mesmo a gostar de Goiânia, uma vez que percebi que o que importa numa cidade não é sua infraestrutura ou seus costumes, mas sim como construímos nossas relações afetivas dentro dela.

Começar um diário ajudou-me a reconhecer minhas forças
 e fraquezas. Enquanto eu não fugir delas, tudo vai ficar bem.
Agora sei que não há nada de errado em ser só e até gosto da minha companhia. Tomei o controle da minha sexualidade e consigo usar os homens para me satisfazer assim como fui usado por eles por tanto tempo. Deixei o lado passivo, marciano, de lado. Não é irônico que, pelo menos no meu caso, a passividade seja decorrente justamente de um desequilíbrio espiritual a favor do lado masculino? Se bem que ser um homem no patriarcado, mesmo que seja gay, significa que você não precisará lutar tanto quanto uma mulher para conseguir conquistar as coisas. Daí a proatividade advir do lado feminino em nosso mundo que, infelizmente, não é venusiano.

2016 foi um ano de merda. Mas estou mais forte do que estava em 2015. Estou mais forte do que eu imaginava que pudesse ser. Agora sei como me levantar dos inevitáveis baques da vida. Havia um desequilíbrio na minha vida no ano passado e agora sei que é porque eu tentava reprimir o meu lado feminino, que era justamente o meu lado forte. Não só aprendi a reconhecê-lo como também a respeitá-lo. Agora que há um equilíbrio, estou bem. O amanhã sempre vai ser melhor, pois sei que se eu cair saberei me levantar. 2016 foi um ano ruim, mas eu viveria-o de novo se fosse preciso, porque 2016 foi o ano em que me tornei forte. Essa força pode até ter sido estimulada a se revelar através de fatores externos, como meu diário, minha terapia ou minhas crenças sobrenaturais, mas ela vem de dentro e é feminina. Enquanto eu não fugir dela, tudo vai ficar bem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

USexit

Algo surpreendente tem acontecido nos Estados Unidos. Segundo a média das últimas quatro pesquisas (Rasmussen, YouGov/Economist, IBD/TIPP e ABC News/Washington Post) para a eleição presidencial, que ocorre na próxima terça-feira, 8 de novembro, a democrata Hillary Clinton tem 45% das intenções de voto e o republicano Donald Trump tem 44,25%. Gary Johnson, do Partido Libertário, tem 4% e a Dra. Jill Stein, do Partido Verde, tem 2%. Mesmo na única pesquisa em que ainda lidera, a YouGov, Hillary encontra-se em situação de empate técnico com o adversário republicano, ou seja, dentro da margem de erro. O mercado tem reagido negativamente à ascensão de Trump na reta final da campanha. Os pregões da NASDAQ, da S&P e da Dow Jones fecharam em queda nos dois últimos dias. A disputa pela presidência dos EUA também tem causado uma desvalorização do dólar frente às moedas nacionais, embora o Governo Temer deva estar dizendo nas redes sociais que o real se valorizou graças a seus esforços de retomar o crescimento econômico.

É justo culpar os pobres por estarem desesperados por mudança?
Mas o que explica essa arrancada de Trump agora, na reta final da campanha, uma vez que todos os veículos de comunicação previam uma vitória tranquila da candidata democrata até duas semanas atrás? Tenho uma teoria bastante razoável para isso, baseada na minha observação da campanha do referendo que decidiria a continuação do Reino Unido na União Europeia. Como todos nós sabemos, o "Brexit" (a saída da Grã-Bretanha da UE) venceu. No entanto, poucos previam isso até a semana da votação. Minha teoria é que os eleitores "saíram do armário" e declararam sua posição só na reta final da campanha, momentos antes da votação. Além disso, muitos sequer se dão ao trabalho de ir votar, confiantes da vitória de sua opção. Assim como nos EUA, votar não é obrigatório no Reino Unido e não provoca nenhuma penalidade de âmbito legal. Assim sendo, parte dos eleitores, confiantes na vitória de seu candidato ou de sua causa, sequer sai de casa no dia da eleição. Outros farão o "serviço sujo" de votar em Hillary Clinton ou no Remain a member of the European Union para eles.

Essa decisão de última hora dos eleitores se vão votar ou não acaba se refletindo nas pesquisas de opinião. Há, nos EUA, dois tipos de pesquisa. Aquelas realizadas com quem está apto a votar (registered voters — RVs) e aquelas feitas com quem diz que vai votar (likely voters — LVs). O número de LVs é variável e as últimas pesquisas levam em consideração apenas a intenção de voto desse grupo demográfico. Há duas hipóteses que explicam a ascensão de Trump e a queda de Hillary nas pesquisas mais recentes: um contingente grande de RVs está virando LVs para votar em Trump ou um número significativo de LVs que declaravam voto em Hillary está virando RVs. Mas o que teria levado-os ao desencanto com sua candidata? Em parte, aquilo que a mídia vem chamando de October suprise. A "surpresa de outubro" foi a decisão do FBI de retomar as investigações sobre os mais de 16.000 e-mails que Hillary enviou, enquanto secretária de Estado (muitos deles deletados), usando um servidor privado, em violação às diretrizes oficiais do governo norte-americano.

Hillary reagiu da pior maneira possível. Assim como Trump reage às denúncias atacando a credibilidade de seus críticos, a democrata colocou em xeque a parcialidade de James Comey, o diretor-geral da polícia federal dos EUA, nomeado ao cargo em 2013 por seu ex-chefe e maior cabo eleitoral, o atual presidente Barack Obama. A investigação dos e-mails ressurgiu após a denúncia de que o ex-congressista Anthony Weiner, marido de Huma Abedin, assistente de campanha de Hillary, teria utilizado o tal servidor privado para enviar "nudes" para uma jovem de 15 anos de idade. Sempre que o assunto dos e-mails privados de Hillary ressurge na mídia, a disposição do eleitorado em apoiá-la cai. A omissão de verdade praticada por Hillary fazem os eleitores se lembrarem das mentiras de Bill Clinton, a mais famosa das quais quase lhe custou o cargo de presidente. É nessa hora que os eleitores em potencial da democrata deixam de ser LVs e passam a ser apenas RVs. É nessa hora também que os eleitores de Trump sentem-se empoderados para sair do armário.

Antigo Parque Industrial de Detroit, destruído pelo NAFTA.
Mas por que as pessoas votam em Trump para começo de conversa? Por mais que a mídia alerte para os riscos de colocá-lo na Casa Branca, os norte-americanos mais pobres estão cansados do neoliberalismo e sentem que não têm mais nada a perder. A base do eleitorado de Trump é justamente a classe baixa branca, que ficou ainda mais empobrecida nos últimos 20 anos. Votar em Trump ou no "Brexit" é, para as pessoas comuns, votar contra pessoas e causas que representam o modelo econômico que lhes castiga. Nos EUA de 2016, o trumpismo é o movimento que melhor incorpora o antiliberalismo. A culpa é do eleitorado se ele rejeita o neoliberalismo e se a candidata do campo progressista é justamente a esposa do cara que, nos anos 1990, assinou o NAFTA? O NAFTA, ou tratado de livre-comércio da América do Norte, para quem não sabe, fez com que milhares de empregos na indústria americana migrassem para o México, onde é bem mais barato contratar um empregado. A culpa não é do eleitorado por querer romper com esse modelo econômico e ver em Trump a única alternativa a isso.

Embora agora diga-se contrária ao Tratado Transpacífico (TTP), Hillary apoiava o projeto do presidente Obama de expandir a área de livre-comércio dos EUA até meados do ano passado, quando o senador Bernie Sanders entrou na disputa para ser o candidato democrata à presidência. Assim sendo, sua oposição a práticas neoliberais não inspira confiança no eleitorado. Havia, dentro do Partido Democrata, uma alternativa ao neoliberalismo que inspirava o eleitorado mais jovem e que derrotaria Trump com uma vantagem de mais de dez pontos percentuais, mas ela foi minada pela própria direção do partido, que jogou a democracia interna às favas, e agiu como bunker de campanha de Hillary Clinton. Mesmo com vergonha, as pessoas votam em Trump ou no "Brexit" porque elas estão desesperadas com as opções que a política tradicional apresenta-lhes. Trump, assim como Sanders, apresenta-se como forasteiro dos grandes partidos. Ele foi repudiado, inclusive, por Mitt Romney, candidato republicano à presidência em 2012.

Às vezes, na ânsia de ficarmos livre de algo ruim, damos
poder a algo ainda pior.
Assim como os britânicos rejeitaram a União Europeia por enxergarem nela o símbolo do modelo econômico que penaliza-lhes, enquanto concentra renda em 1% da população, o mesmo ocorre com a rejeição a Hillary Clinton. Claro que ela tenta se afastar das medidas econômicas de Bill, mas o sobrenome é o mesmo e evoca muitas lembranças. Tanto que, para se defender das acusações de assédio sexual que surgiram há duas semanas, quando sua campanha já era dada por encerrada, Trump relembrou o longo histórico de acusações contra o ex-presidente. O fato é que a eleição do magnata dos imóveis, caso se confirme, será a versão norte-americana do "Brexit". Atrapalhadamente, os EUA terão dito não ao modelo neoliberal. O "USexit", assim como seu paralelo do outro lado do Atlântico, terá muitos de seus partidários arrependidos logo após a votação. Às vezes, na ânsia de ficarmos livres de algo ruim, damos poder a algo ainda pior. Os brasileiros que estavam batendo panela até abril e que agora encontram-se num silêncio de vergonha sepulcral, que o digam.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Obrigado, golpistas!

Hoje a farsa contra a presidenta Dilma Rousseff foi finalmente consumada e seu mandato foi oficialmente abreviado pelo Congresso Nacional. Por não terem conseguido provar qual crime Dilma teria cometido, os senadores cassaram-na, mas deixaram seus direitos políticos intactos. Transformaram o mecanismo do impeachment previsto na Constituição de 1988 num voto de confiança, embora o regime de governo no Brasil seja o presidencialismo e não o parlamentarismo. Na Espanha, seria perfeitamente legal afastar o presidente de governo pelo "conjunto da obra", mas no Brasil isto é — ou era — juridicamente impossível em razão do fato do presidente ser também o chefe de Estado e o cargo, acumulando as duas funções, necessitar de certa estabilidade institucional. Assim sendo, não há outra forma de classificar o impeachment de Dilma Rousseff que não seja através da palavra "golpe". É o golpe frio do qual a revista alemã Der Spiegel falou.

Apesar de terem ajudado a instituir uma nova modalidade de golpe na América Latina, que até mesmo o jornal conservador argentino Clarín vê com cautela, não guardo rancor em relação aos partidários do golpe contra Dilma. Pelo contrário, gostaria de agradecer aos golpistas do fundo do meu coração. Desde que vocês decidiram se fechar ao diálogo e se isolar do resto da sociedade que não pensa como vocês, minha vida só melhorou. Quando vocês decidiram que sua estratégia de ação política para derrotar Dilma e o Partido dos Trabalhadores seria o ataque à própria democracia, percebi que seria obrigado a me afastar de vocês. Não quis conviver no mesmo ambiente tóxico de ódio e rancor no qual vocês vivem. Vocês desnudaram sua falta de caráter e valores morais e isso me desagradou. Assim sendo, a única opção que me restou foi conviver com pessoas que pensam de maneira semelhante a mim. Graças a vocês, golpistas, entrei em contato com pessoas maravilhosas.

Busquei me afastar de pessoas cujos valores eu percebia como dúbios. Não conseguia mais aturar mesquinhos, hipócritas e falsos moralistas. Gente que falava que não tinha "bandido de estimação", mas que celebrou o fato de Eduardo Cunha ter estado do seu lado na luta contra o PT. Gente que cobrava retidão de caráter dos políticos, mas que pede pro colega bater o ponto em seu lugar no trabalho. Gente que se diz cristã, mas que xingava uma senhora de 68 anos de idade, avó de duas crianças, de "puta" no protesto de domingo após a missa ou culto. Gente que nunca vai suportar ter que dividir as vias públicas com pobres em carros mais humildes. Gente que grita quando contrariada. Gente cujo ódio é o próprio combustível que as move e as faz sair da cama todas as manhãs. Num primeiro momento, parecia que eu havia me isolado do mundo e que não havia mais ninguém como eu ao meu redor. Mas isto não era verdade.

Lentamente, fui me aproximando de um variado leque de pessoas que também não suportam o "dois pesos, duas medidas" tão característicos dos brasileiros que se julgam informados quando na verdade estão sendo manipulados. São pessoas que, sob circunstâncias normais, eu não teria tido a oportunidade de conhecer no meu até então restrito círculo de convivência social. A primeira demonstração de hipocrisia ocorreu num templo da Igreja Católica, da qual me desvinculei logo em seguida para, felizmente, encontrar uma igreja mais afinada com os meus valores. Em seguida, ao voltar a participar de protestos de rua, descobri o quão rica é a militância progressista no Brasil. Me abri para pessoas com as quais, num passado recente, eu teria vergonha de ser visto em público. Se hoje tenho diversos amigos — virtuais ou não — de diversas partes do Brasil e do mundo, de várias etnias, orientações sexuais e identidades de gênero, é por causa do terremoto político que o golpismo causou.

Além disso, voltei a prestar a atenção na produção musical nacional. Redescobri a obra de muitos artistas graças a sua militância anti-golpe. Quem poderia imaginar que eu tenho tanto em comum com o Tico Santa Cruz, por exemplo? São artistas que fazem cultura de primeira e que dificilmente terão o reconhecimento que merecem do grande público. Nesse sentido, o serviço sueco de streaming Spotify foi de grande importância para me fazer romper o boicote à música popular brasileira imposto pelas rádios FM de Goiânia. Assim como a reação popular às organizadíssimas neo-marchas da Família com Deus pela Liberdade me aproximou de negras e negros que não escondem suas raízes, pessoas trans que não escondem sua identidade e muitos — muitos mesmo — homossexuais que, num passado recente eu teria considerado "espalhafatosos" demais. Houve também o que chamo de "invasão nordestina" aos meus perfis nas redes sociais.

Desde que vocês, golpistas, decidiram não reconhecer o resultado da eleição presidencial de 2014, eu cresci bastante. Muitas vezes, as adversidades nos impõem o crescimento. Romper laços é doloroso, mas nem sempre é maligno. Isolar-me de vocês forçou meu crescimento nas relações interpessoais — e garantiu-me uma paz de espírito inédita em minha vida. Resistir ao golpe parlamentar tem sido uma experiência fascinante de auto-conhecimento através do outro. Finalmente entendi o que significa ser cristão. Não significa dar a outra face para vocês o tempo todo. Significa estender a mão para todos que são rejeitados por vocês, que são a expressão política de uma minoria gananciosa. Significa aceitar-me e poder assumir, por exemplo, que acho um homem trans bonito e que ficaria com ele. Libertei-me do fardo que vocês representavam em minha vida. Por isso, obrigado, golpistas! O ódio de vocês me uniu em amor a pessoas incríveis. E o que o amor une, o ódio não pode separar.

domingo, 12 de junho de 2016

Dilma, Isabel e os golpes machistas

O governo ilegítimo de Michel Temer começou com um recado claro às mulheres, de que elas não são dignas de ocuparem cargos em primeiro escalão na administração federal. Pouco tempo depois, foram anunciados retrocessos no que diz respeito à saúde reprodutiva das brasileiras. A tese de que o golpe de Estado havia sido — além de reacionário e neoliberal — machista já havia sido apresentada por mim antes mesmo de sua consolidação. Não se trata, porém, do primeiro golpe de Estado contra uma governante do sexo feminino na história do Brasil. Desde que tronou-se independente, em 1822, nosso país foi governado por apenas duas mulheres: a princesa Isabel e a presidenta Dilma Rousseff. Embora nunca tenha assumido o trono de facto, Isabel governou o país em três ocasiões (18711872, 18761877 e 18871888), durante a ausência de seu pai. Na última delas, em maio de 1888, assinou a Lei Áurea. Mais tarde foi revelado pela revista Nossa História que Isabel planejava indenizar os ex-escravos e fazer a Reforma Agrária após a morte iminente de seu pai.

Quando D. Pedro II retorna ao Brasil, no entanto, vê uma conspiração dos fazendeiros com os militares para derrubar-lhe. Tenta arrefecer os ânimos dos latifundiários com empréstimos em bancos estatais, mas foi deposto um ano mais tarde, em 15 de novembro de 1889. O golpe de Estado era, sobretudo, direcionado à princesa Isabel, uma vez que D. Pedro II estava com a saúde frágil e faleceu dois anos após o motim contra seu Império. De certa forma, pode-se dizer que a República brasileira se consolidou através de um ‪‎golpe contra uma mulher, Os machões de 1889 não aceitavam receber ordens de uma mulher. Segundo Roderick Barman, autor de Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891, "a resistência a aceitar uma mulher governante era forte na classe política. Apesar da Constituição permitir a sucessão feminina ao trono, o Brasil ainda era um país bastante tradicional, e apenas um sucessor masculino era percebido como capaz de ser um Chefe de Estado". Isto é verdade quando se analisa o que era publicado na imprensa da época.

Em julho de 1887 o jornal O Mequetrefe publicou uma charge de Isabel com uma coroa e cuidando de assuntos domésticos, dando a entender que ela não teria tempo para lidar com ambos os aspectos de sua vida. Conforme escreve Augusto Mattos, "a intenção era pôr em dúvida sua capacidade de governança. E mais: sutilmente, o jornal questionava a presença de mulheres em assuntos de âmbito público, postura bastante comum na época". Além de reforçar a visão de que as mulheres não são feitas para governar, a imprensa sustentava a visão de que Isabel não entendia das questões de Estado e que, no trono, seria mero joguete de seu marido, o conde Gaston d'Eu, que seria um espião do governo francês no Brasil. Em sua edição de 5 de junho de 1888 o jornal O Pharol escreveu que "ela faz o que o marido quer e não o que é desejo do povo; faz mais — afronta os interesses do povo para afagar os desejos do marido". Para Mattos, "o artigo busca desqualificar D. Isabel a partir de sua 'frágil condição feminina'".

Isabel também foi acusada de ser inapta
às funções do Estado por ser mulher.
A elite econômica do Brasil se ressentia com o fato de que a futura Imperatriz aboliu a escravidão. Segundo Barman, "os fazendeiros consideraram a abolição como confisco de propriedade privada". Detentores de grande poder político, econômico e social, valeram-se da visão vigente na sociedade da época, de que as mulheres deveriam submissas, recatadas e do lar, para fomentar o apoio ao golpe militar de 1889, que inaugurou uma ditadura de marechais que perdurou até 1894. Não foi à toa que, para tentar convencer a população a derrubar Dilma, a revista Veja valeu-se da mesma visão: à mulher está reservado o papel de "bela, recatada e do lar", enquanto cabe a seu marido tratar de assuntos do Estado. Em 1889, assim como em 1964 e também em 2016, a população não foi convidada a opinar sobre seu próprio destino. Assim como no período atual — em que apenas 8% prefeririam o governo imposto (Michel Temer) —, em 1889 a vasta maioria dos brasileiros eram contra a saída que lhes foi imposta.

Creio que, para além do revanchismo, as elites derrubaram o regime vigente até então para evitar novas reformas na estrutura social do Brasil. A "canetada" da princesa Isabel tirou dos fazendeiros, da noite para o dia, cerca de 720 mil trabalhadores braçais, obrigando-os a substitui-los por mão-de-obra remunerada. Quem não garantiria que futuras "canetadas" da princesa não ceifariam ainda mais privilégios deles (e, segundo a revista Nossa História, ela planejava fazer isso). Entretanto, Isabel parece convicta na defesa da reforma que promoveu. Um dia após o golpe de Estado, ela escreveu em seu diário: "Se a abolição é a causa disto, eu não me arrependo; eu considero valer a pena perder o trono por ela". Eis um outro ponto no qual o golpe atual revela-se profundamente semelhante àquele de 1889. Lula e Dilma promoveram reformas que, embora tímidas, mexeram nas estruturas da sociedade brasileira e desagradaram as elites nacionais. É preciso retirá-los do poder antes que essas reformas se consolidem e também que outras apareçam. 

É disso que se trata o governo Temer. Desmontar o modesto Estado de assistência social criado pelos petistas. Limitar o acesso à universidade, aos cursos técnicos, ao Bolsa Família, e ao crédito empresarial e habitacional, desmantelar o Sistema Único de Saúde, desobrigar o Estado de investir em saúde e educação, tudo isso sobre o pretexto de enxugar as contas do governo — enxugamento que, no entanto, não veta  a criação de 14 mil cargos federais. Se o que fez a elite do final do século XIX apoiar a queda da monarquia foi a abolição, o que fez a elite atual apoiar o golpe contra Dilma foi algo quase imperceptível por nós, reles mortais. A partir de 2011 a presidenta, que segue a escola econômica desenvolvimentista, promoveu uma queda histórica da taxa básica de juros — que atingiu 7,25% entre outubro de 2012 e março de 2013. Sua intenção era tornar o mercado especulativo menos atrativo e, assim, fazer com que aumentassem os investimentos na indústria nacional. Atraiu a ira do mercado financeiro, que tornou-a persona non grata para sempre, mesmo se depois ela tentou fazer as pazes através da nomeação de Joaquim Levy (Bradesco), como ministro da Fazenda.

A classe média, por sua vez, começou a se indispor com Dilma assim que o governo dela aprovou a PEC das domésticas, que regularizou uma situação de trabalho precária — e análoga àquela dos escravos que serviam à Casa Grande — num país onde a evolução social ocorre de maneira sempre muito lenta. De certa forma, a presidenta concluiu uma reforma que a princesa iniciou, libertando as amas-de-leite e as mucamas da servidão e dando-lhes a dignidade que sempre lhes foi negada por aqueles de pele mais clara. No final do mesmo ano, a presidenta decidiu trazer médicos cubanos (quase todos negros) ao país para atuar nas regiões (quase todas negras) nas quais os médicos brasileiros (quase todos brancos), formados em universidades mantidas com os impostos pagos por todos nós (brancos e negros), se recusam em atuar. Foi então que começou a se tornar aceitável criticar Dilma pelo simples fato dela ser uma governante mulher. No ano seguinte, um bilhão de telespectadores viam a elite brasileira mandar uma senhora de 67 anos tomar no cu.

Se as críticas à princesa Isabel eram mais contidas, não eram nem um pouco menos machistas do que aquelas sofridas por Dilma. Em artigo publicado em 4 de dezembro de 1887, o jornal Gazeta Nacional busca desqualificar a futura Imperatriz como portadora de uma "frágil condição feminina" que seria incompatível com o exercício do poder. Qualquer semelhança com a capa da Istoé denunciando as "explosões nervosas da presidente" — algo que no macho Temer foi ressaltado como demonstração necessária de força — como incompatíveis com o exercício do poder não é mera coincidência. Tanto Isabel quanto Dilma foram vítimas de golpes de Estado onde o machismo foi uma força importante de desestabilização do regime que elas, mulheres, representavam. Lembro-me bem de um dos programas da campanha eleitoral de Dilma em 2010. Foram relembradas uma das grandes personagens femininas da história do Brasil. Uma delas era justamente a princesa Isabel. Por ser republicano e eleitor de Dilma, a comparação com um ícone do monarquismo me incomodou. No entanto, faz cada vez mais sentido a analogia entre ambas.

Até quando a mídia vai criticar mandatárias por causa de sua
condição feminina? Uma características vista como boas em
machos como Temer é apontadas como defeito em Dilma.
Ao ser entrevistada por Mariana Godoy em programa exibido pela RedeTV! na última sexta-feira à noite, Dilma disse que suas agruras são bem piores do que as de outros presidentes. "É pior porque sou mulher", alfinetou a presidenta deposta, numa resposta interessantíssima da entrevista que a entrevistadora não procurou desenvolver. O problema de Dilma e de Isabel não é terem sido governantes mulheres. O problema delas foi terem sido mulheres reformadoras. Ao forçar a renúncia do Barão de Cotegipe do Conselho dos Ministros e substituí-lo pelo abolicionista João Alfredo, a princesa mudou de maneira irrevogável a nossa história. De maneira semelhante, Dilma concedeu direitos irrevogáveis às domésticas. Não é verdade que a classe dominante do Brasil não convive muito bem com mulheres em posição de comando. O que ela não aceita são mulheres que — ao contrário de Yeda Crusius — mexam em suas estruturas arcaicas. Elas dão mau exemplo para as demais mulheres. Precisam ser combatidas. Não é à toa que o ideal de mulher "submissa, recatada e do lar" voltou à tona agora, 130 anos depois de sua primeira aparição na imprensa brasileira.

Embora ainda permaneça nebuloso se Isabel ambicionava governar o Brasil ou se seu suposto desinteresse pela política é uma construção historiográfica dos vencedores da disputa pelo Estado, a outra única vez em que o país teve uma chefa de Estado ela foi deposta antes mesmo de assumir o cargo de facto graças, em parte, a uma extensiva campanha machista de seus opositores. Recordam-se quando circulava pela rede um meme sexista que objetificava a esposa do então candidato à presidência Aécio Neves, comparando-a à presidenta Dilma e dizendo que deveríamos votar no tucano para que o Palácio da Alvorada fosse novamente habitado por uma mulher bonita? Pois bem, segundo Roderick J. Barman, "'aquela medonha condessa d’Eu' foi o comentário de um observador, em 1891", dois anos após o primeiro golpe que rompeu a ordem constitucional do Brasil. Não sei porque achamos que a história seria diferente quando outra mulher tivesse a oportunidade de retomar o legado reformista — interrompido pelos machões — de Isabel.

domingo, 29 de maio de 2016

O problema de Alexandre Frota

O problema de Frota não é o fato dele ter
construído sua carreira posando nu.
Na quarta-feira passada, o ministro interino da educação, Mendonça Filho, recebeu uma personalidade para lá de polêmica em seu gabinete: o ex-ator pornográfico, diretor, comediante, modelo e apresentador Alexandre Frota. A notícia causou um rebuliço nos blogs de esquerda e logo o passado dele — no qual consta participação em 20 filmes pornográficos e quatro ensaios para a finada revista de nu masculino G Magazine — veio à tona. Isso para mim é irrelevante e só reforça o quanto a esquerda nativa ainda é machista e precisa evoluir. O ator austro-americano Arnold Schwarzenegger também posou nu no início de sua carreira e isso não influenciou em sua eleição como 38° governador da Califórnia. O que o indivíduo faz com seu corpo, não é problema de ninguém além dele, a não ser que ele não prejudique outras pessoas. E é aí que reside o maior problema de Alexandre Frota.

Durante uma entrevista para o talk-show Agora é Tarde, exibida há pouco mais de um ano, Frota confessou ter estuprado uma mãe-de-santo. O apresentador do programa, Danilo Gentili — conhecido por suas piadas contra grupos socialmente marginalizados — em momento algum repreendeu o entrevistado. A plateia, por sua vez, riu do relato de Frota, que afirmou que a mãe-de-santo gritava para ele parar, mas que ele fez "tanta pressão na nuca dela que ela dormiu". Após a repercussão negativa da entrevista, Frota se defendeu dizendo que havia inventado a história, que era apenas uma "piada" que fazia parte do roteiro de seu show de stand-up. Quem é que ri de estupro? Não assisto Law & Order: SVU para rir. Justo pelo contrário, muitas vezes me emociono com as histórias das vítimas de estupro, embora elas sejam ficcionais. Sem falar que o relato de Frota representa o próprio estupro das religiões afro-brasileiras pela cultura branca.

O problema de Alexandre Frota não é ele ter sido um ator pornô entre 2004 e 2009. Isso não diz nada sobre o caráter de uma pessoa. Não estamos na Roma Antiga, onde os profissionais do sexo não eram cidadãos. A maioria deles deve até ser mais honesta do que nossos nobres deputados em Brasília. O problema de Frota é a petulância e o cinismo, tão característicos da direita brasileira. A petulância de narrar um estupro — mesmo que seja fictício, o que eu duvido — em rede nacional de televisão sem preocupação com a consequência de suas palavras num país onde uma mulher é estuprada a cada 10 minutos. A petulância de minimizar a importância dos crimes sexuais, tratados como piada. E o cinismo de, quando cobrado, responder "estava só brincado", frase esta tão característica da classe média brasileira quando colocada contra a parede por quem ela oprime. Como homem gay, sei bem disso. E aí é que reside o restante do cinismo de Frota.

O que será que Bolsonaro pensava de Frota nos anos 2000?
Quem cresceu como homossexual no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 tinha na G Magazine uma grande referência. Nunca comprei a revista, mas sempre via os ensaios em sites especializados em vazar as imagens dos ensaios assim que a revista era lançada nas bancas. Existia — e ainda existe — um tabu muito grande em relação às revistas que publicam ensaios nu, como se ver uma mulher ou um homem pelado não fosse algo completamente natural. Comprar uma revista dessas é um atestado de homossexualidade e eu não iria arriscar revelar minha orientação sexual por causa da minha libido. Preferia esperar as imagens vazar online. (Para ler mais sobre a minha dificuldade em me assumir, clique aqui). Alexandre Frota era, ao lado de Mateus Carrieri, um dos modelos que eu mais gostava de ver, embora nos últimos ensaios ele já não estivesse mais tão bem quanto nos primeiros, devido ao abuso de esteroides. Era bonito, musculoso e bronzeado e, ao contrário dos demais ratos de academia, não via problema em ser desejado pelo público gay 

Em algum momento, no entanto, ele decidiu rechaçar esse passado que lhe deu muito dinheiro. Uma notícia da Folha Online de fevereiro de 2008 dá conta de que ele teria se convertido ao evangelicalismo e todos sabemos qual é a moral sexual das igrejas evangélicas e o que elas pensam sobre a homossexualidade. Agora regenerado, Frota é o típico macho brasileiro de classe média (embora sou inclinado a achar que ele nunca tenha deixado de ser e só fingia ser liberal devido ao pink money). Gaba-se de suas conquistas sexuais em público — "estupro" não é bem conquista, mas na mente de quem pensa como ele é — e odeia os homossexuais que lhe deram muito dinheiro e fizeram com que seus ensaios para a G Magazine estivessem entre os mais vendidos da história da revista. Não fosse a repercussão de seus ensaios e filmes pornográficos, já teria sido esquecido há muito tempo, como muitos atores que tiveram papéis secundários em novelas dos anos 1980. 

O problema de Alexandre Frota é querer ser aceito pelos mesmos que olhavam para ele com desprezo quando liam alguma notícia relacionada a um de seus ensaios. Como, por exemplo, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), de quem espera ser companheiro de chapa na próxima eleição presidencial. Esse é um problema de muitos brasileiros pobres e de classe média: foram picados pela mosca azul e agora querem andar de braços dados com uma elite que os despreza. Não percebem que são apenas um peão no jogo de xadrez de quem é verdadeiramente rico e poderoso. Recordo-me, então, de Colby Keller, um dos maiores astros da indústria pornô dos Estados Unidos. Criado na Assembleia de Deus, descobriu o marxismo no curso de mestrado em belas artes que fez no Maryland Institute College of Art. Libertou-se das amarras sociais e ingressou na indústria pornográfica no mesmo ano que Frota. Sua popularidade é tão grande que participou de uma campanha da grife de Vivienne Westwood ao lado de modelos não-pornográficos.

Keller e as esculturas que fez de Lênin.
Keller, ao contrário de Frota, é consciente das contradições geradas pelo capitalismo e reconhece seu papel dentro desse sistema econômico. "Faço isso para sobreviver e não é um trabalho fácil. É um meio. Como marxista, essa é a minha força de trabalho", disse numa entrevista. "Não há como escapar do sistema", afirmou em outra. Reconhecer sua força de trabalho ou — em palavras cristãs — seu propósito nesse mundo é algo que todos nós precisamos fazer. Alexandre Frota, aos 52 anos de idade e já tendo tentado uma série de ocupações, parece ainda não saber qual é a sua. Entrou na crista da onda do conservadorismo político, adaptou-se a ele e espera ser essa sua verdadeira vocação. Como afirmei no início desse texto, ser um profissional do sexo não determina o caráter de ninguém. O problema de Frota é querer usar a fama advinda da pornografia para foder a sociedade, seja através de falas (como a "piada" do estupro) ou de ações (como a proposta que apresentou ao MEC).

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O golpe à saúde das mulheres

Na última quinta-feira, após muitos meses de articulações, o golpe contra Dilma Rousseff foi finalmente concretizado. Uma das primeiras notícias veiculadas sobre o governo do presidente interino, Michel Temer, é de que se trata do primeiro sem ministras desde 1979. Esta notícia não me surpreendeu nem um pouco. Eu já havia indicado o caráter sexista do golpe de Estado em texto escrito para a United Society, serviço de missão da Igreja da Inglaterra. O que me surpreende, no entanto, é que até hoje a direita brasileira não tenha aberto espaço para as mulheres em suas agremiações partidárias. O recado que passaram para mim na composição do novo gabinete é de que mais da metade do eleitorado brasileiro não importa para eles.

Simone Veil: Na França a direita política não
está necessariamente ligada à religiosa.
Isto me faz recordar a trajetória política de Simone Veil, ministra da saúde da França entre 1974 e 1979 no governo de centro-direita do presidente Valéry Giscard d'Estaing. Ela apresentou ao Parlamento francês um projeto de lei descriminalizando o aborto até 12 semanas após a concepção e até 14 semanas após a última menstruação. O projeto foi aprovado, após ataques de grupos católicos à família da ministra, no dia 17 de janeiro de 1975 e é conhecido, desde então, como "Lei Veil". A política se tornou símbolo da saúde das mulheres e foi eleita para o Parlamento Europeu em 1979, se tornando a primeira presidenta daquele órgão legislativo. Por seus esforços civilizatórios, Simone Veil foi transformada em dama do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II em 1998.

No Brasil a direita política parece não sobreviver sem a direita religiosa, com quem forma uma relação de simbiose. Em 2006 a deputada federal fluminense Jandira Feghali foi alvo de intensa campanha apócrifa durante a eleição para o Senado após ter sugerido que o aborto deveria ser tratado pelo viés da saúde pública e não da moral religiosa. Quatro anos mais tarde, Dilma Rousseff foi acusada de ser favorável a "matar bebês" por Mônica Allende, esposa do então candidato a presidente José Serra (mais tarde foi revelado que ela própria, hipócrita, havia abortado no Chile). A tentativa de associar Dilma à legalização do aborto contou até mesmo com a ajuda do Papa Bento XVI, que divulgou mensagem aos brasileiros para que não votassem em candidatos pró-escolha.

Desde que Serra e o PSDB optaram pela aliança com a direita religiosa para derrubar o PT, o discurso irresponsável contra a consolidação dos direitos individuais ganhou força no país. Ano passado o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, conseguiu emplacar um projeto de lei que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte em hospitais públicos. Na posse de seu correligionário, Michel Temer, era possível ver o pastor pentecostal Silas Malafaia, maior ativista pró-vida do país, ao lado dos membros do novo governo. Para marcar sua posição no debate, o deputado Jean Wyllys apresentou, em 2015, um projeto de lei despenalizando o aborto. Mesmo com chances mínimas de ser aprovado no Congresso mais conservador da história, o deputado sofreu toda sorte de ataques de grupos religiosos.

Ao invés de escutarmos os profissionais de saúde e as próprias mulheres na hora de escolher o que é melhor para a saúde delas, deixamos Cunha, o cirurgião da propina de Furnas, decidir. Enquanto o "doutor" Cunha (palavra banalizada nos trópicos) decide quem pode ou não tomar a pílula do dia seguinte no Brasil, o projeto de descriminalização do aborto no Reino Unido, no longínquo ano de 1967, foi supervisionado pelo Dr. John Peel, presidente da Faculdade Real de Obstetrícia e Ginecologia e ginecologista pessoal da Rainha Elizabeth II de 1961 a 1973. Ao deixar as mulheres de escanteio em seu gabinete e privilegiar religiosos como Malafaia em sua cerimônia de posse, o governo Temer mostra ao que veio: aumentar o já escandaloso número de mulheres que morrem ao se submeter a abortos insalubres.

Eduardo Cunha, correligionário de Temer, já deu o recado.
Até mesmo o aborto legal — previsto desde 1940 para casos de gestações fruto de estupro e que oferecem risco à vida da mulher — está sob o ataque dos grupos religiosos do Congresso. Isto se dá porque o Brasil não é governado por damas e cavalheiros. E parece se orgulhar disso! Só não sei porque ainda nos damos ao trabalho de fingir que somos civilizados quando estamos na presença de europeus ou americanos do norte. Não adianta ir na página dos jornais gringos reclamar da cobertura desses veículos ao golpe machista a Dilma e às mulheres brasileiras. Eles já sacaram qual é a nossa. Somos hipócritas. Nossa moral só é relaxada durante o Carnaval. No resto do ano varremos nossos problemas para debaixo do tapete. E é exatamente isso que Temer vai fazer com os cadáveres das vítimas de aborto insalubre. O golpe por ele liderado foi orquestrado com grupos da direita religiosa e, por isso mesmo, também será um golpe à saúde das mulheres.

Atualização 1 (18/05/2016 às 05:15): Um dia após a publicação desse artigo o novo ministro da saúde, Ricardo Barros, afirmou que o governo interino não deve se posicionar sobre a questão do aborto sem antes ouvir as igrejas. É um recado claro às mulheres: a saúde delas está submetida à moral cristã num Estado que se diz laico.

Atualização 2 (12/06/2016 às 08:29): A Secretária de Políticas para Mulheres de Michel Temer, a ex-deputada evangélica Fátima Pelaes (PMDB-AP), é contra o aborto até mesmo para gravidezes resultantes de estupro.