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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O complexo de Gastão na comunidade gay

Ontem eu estava com uma insônia do cão causada por uma crise de ansiedade, então fui ler sobre A Bela e a Fera (2017), filme que eu havia assistido no cinema algumas horas antes. Num dos artigos que li descobri que as canções do filme original, a animação lançada em novembro de 1991, representavam uma metáfora para a epidemia da AIDS, que até 1991 havia matado cerca de 60 mil pessoas apenas nos EUA desde a descoberta do vírus causador da doença dez anos antes. As canções foram escritas por Howard Ashman, que morreu pouco antes da estreia do filme devido a complicações de saúde causadas pelo HIV, vírus até então indetectável por qualquer tipo de exame laboratorial.

É bastante óbvia de que a maldição que acomete o príncipe — jogando-lhe no ostracismo, afastando-lhe do convívio social e desgraçando também as vidas daqueles que cuidavam dele — é uma metáfora para a AIDS. A Fera, assim como um portador de HIV do início dos anos 1990, vive enclausurada, duvida da capacidade de ser amada incondicionalmente por quem quer que seja e luta contra o tempo para que um milagre a salve daquela maldição. Chamou-me mais atenção, no entanto, a relação entre a canção "Gaston", interpretada por LeFou (cuja versão de 2017 é o primeiro personagem gay de um filme da Disney) no bar, e a epidemia, muito menos óbvia.

Gastão.
Trata-se de uma canção altamente homoerótica que, na versão de 2017, com atores de verdade, tornou-se ainda mais provocativa. Ela exalta a força, a virilidade e a masculinidade do vilão, que deseja se casar com a Bela a qualquer custo. Mas o que isso tem a ver com a AIDS? Pois bem. Durante a epidemia da doença, os homens gays escondiam um de seus sintomas, a perda de peso, através da musculação excessiva. Como já havia dito, o HIV não era detectável em exames laboratoriais, então quem suspeitava que possuía a doença, para evitar um diagnóstico que lhe traria a mesma ruína da Fera, escondia os sintomas o máximo possível dos médicos e da sociedade em geral através da prática excessiva de atividades físicas.

A imagem que se tinha dos portadores do HIV na mídia era aquela de pessoas definhando na cama, emagrecendo até a morte. Como estratégia de sobrevivência num meio que já lhes era hostil antes mesmo do aparecimento da doença — inicialmente chamada pela comunidade médica de Deficiência Imunológica Relacionada aos Gays (GRID, na sigla em inglês) —, os homossexuais, mesmo aqueles que já haviam sido infectados, começaram a encher as academias para provar que eram sadios e que a doença atingia apenas uma pequena parte de sua comunidade. Essa é uma das teorias que explicam a ditadura do corpo musculoso ainda hoje vigente na comunidade gay.

É possível que Ashman exaltasse os músculos de Gastão porque era isso que ele desejava para si: um corpo que negasse a doença que lhe estigmatizava perante os olhos da sociedade. Creio, no entanto, que a canção, dado o contexto maior do filme, seja uma denúncia aos gays do tipo Gastão. Ela apresenta as características de um vilão, o que num desenho infantil sempre significa um modelo de vida a não ser seguido. Ao mesmo tempo em que exalta o corpo musculoso de Gastão, o letrista de A Bela e a Fera queria que ele não fosse seguido como exemplo pelas crianças que assistiriam ao desenho. Não é isso que deveria fazer alguém tornar-se aceito pela sociedade.

No contexto maior do filme, Gastão seria o gay saudável aos olhos da sociedade, que ataca o homossexual "amaldiçoado" para satisfazer uma multidão que canta "não gostamos do que não entendemos". O esforço de Gastão para matar a Fera e ser bem visto pelos habitantes de seu vilarejo equivale aos esforços dos gays musculosos em invisibilizar os gays magros — vistos como portadores de HIV — e conquistarem o respeito da sociedade ao se afastarem do estigma da "doença dos gays". Esta minha leitura é reforçada pela versão de 2017, pois há uma cena em que LeFou abandona o parceiro ao reconhecer que ele é o verdadeiro monstro e não a Fera.

Ainda hoje a comunidade gay reproduz a ditadura do corpo musculoso, o que não faz o menor sentido, visto que há toda uma geração de homossexuais cuja vida sexual iniciou-se quando a epidemia da AIDS já estava sob controle. Embora ainda exista a associação entre magreza e HIV tanto dentro da comunidade LGBT quanto na sociedade em geral, agora os corpos musculosos simbolizam, para os homens gays, a reconquista da virilidade que eles sentem que perdem quando saem do armário. É como se seus músculos servissem para provar para a sociedade não só que eles não têm AIDS como também que ainda são homens.

Estar satisfeito com seu próprio corpo é algo maravilhoso e se as pessoas sentem que atingem isso através da musculação, fico feliz por elas. O problema é que ainda persiste a estigmatização dos gays magros, mesmo com os estudiosos afirmando que nossa comunidade vive na era pós-AIDS. Isso ocorre porque nossa sociedade é heteronormativa e os gays dão mais valor ao que os héteros pensam deles e, assim, buscam parceiros que aparentar ter a virilidade dos homens heterossexuais. Mesmo que nós, magros, sejamos tão sadios quanto os musculosos, parte da nossa comunidade ainda está sob efeito do complexo de Gastão e continua a nos tratar como inferiores. Espero que isso não se torne um "conto tão antigo como o tempo".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Porque o boicote da elite do entretenimento contra Trump irá falhar


Poucos artistas parecem dispostos a se apresentar e entreter o país quando o novo presidente assumir no dia 20 de janeiro. Com a notícia na semana passada de que o cantor de ópera Andrea Bocelli cedeu à pressão e desistiu de fazer um show na posse e com uma membro das Rockettes liderando uma rebelião nas redes sociais contra o presidente, Kid Rock é atualmente o maior nome agendado para se apresentar.

E a esquerda é tonta. Porque ela ainda não entendeu o que está acontecendo.

Robert Reich quer ser o Bob Geldof do anti-trumpismo.
Robert Reich, secretário de trabalho de Bill Clinto que se transformou no Michael Moore do Facebook está promovendo algo chamado o Concerto da Liberdade Unida que será transmitido ao mesmo tempo que a posse presidencial. O show beneficiará todas as entidades de caridade progressistas de sempre e Reich espera conseguir grandes nomes como Jay-Z e Madonna para se apresentar. "Simples", escreveu, "a posse de Trump perde toda a audiência na TV. Basicamente, ninguém assistirá".

Isso deve impedi-lo. Jay-Z e Madonna ambos já haviam se apresentado durante a eleição para angariar apoio para Hillary Clinton — e obviamente falharam. Mas, claro, mais um show deve fazer o país virar para o lado de Reich.

A verdadeira questão é a bolha criada pela exclusão estalinizada que a esquerda faz dos não-progressistas da cultura popular americana.

Lin Manuel Miranda está fazendo um concurso para angariar fundos para a Planned Parenthood. Para cada doação de US$10, você entra numa seleção para ver o musical dele, "Hamilton", em três cidades. A mãe de Miranda está no conselho nacional de diretores do Fundo de Ação da Planned Parenthood, então esta é obviamente uma causa pela qual ele se importa.

Não houve controvérsia alguma para seu concurso — só imagine se fosse para a Associação Nacional do Rifle ou qualquer outra causa popular conservadora. Quando Mike Pence assistiu àquela infame apresentação de "Hamilton", o vídeo dele entrando no teatro mostrava muito mais aplausos do que vaias. Ainda assim, o elenco pagou um sermão a ele do palco como se fosse impossível que houvessem eleitores de Trump na plateia ou, Deus proíba, no elenco ou na equipe técnica.

A inclinação progressista em tudo vai além da Broadway ou de Hollywood. Permeia tudo. E envelhece rápido. A edição de setembro da revista de dicas domésticas Real Simple trazia um esbravejo político incoerente da escritora Terry McMillan. Nele, ela acusa o Partido Republicano de conspirar contra o presidente Obama porque ele é negro e os estados de "fraudar" as leis eleitorais. Ela escreveu que as pessoas brancas reclamam de pessoas negras que tomam seus empregos e que ela tem medo de que seu filho saia de casa sozinho e seja morto pela polícia.

Real Simple é uma revista conhecida por receitas e dicas de organização. É um mundo no qual os democratas não deveriam habitar. Eles jamais leriam uma revista sobre dicas domésticas caso se encontrariam até o joelho em teorias conspiratórias conservadoras. O mesmo vale para as revistas femininas, que são todas automaticamente progressistas vestidas com uniformes opinativos sobre "questões femininas", como se as mulheres conservadoras não existissem. Então há o choque de que 53 porcento das mulheres escolheram Trump.

Numa eleição que se resumiu ao fracasso dos democratas em manter o apoio dos estados industriais, aumentar o risco de falar apenas com outros progressistas enquanto se assiste aos artistas progressistas é temerário. Escrevendo na esquerdista revista online de artes The Baffler, Jacob Silverman apontou para o culto às celebridades como uma das principais razões pelo fracasso de Hillary.

Katy Perry não vai mudar o que a maioria dos eleitores pensa.
Ele escreveu que esses "apelos pela atenção das celebridades parecem refletir o desejo dos progressistas de verem suas políticas validadas, até mesmo receberem uma aura de glamour, por colegas da elite. Os tweets enérgicos de Clinton e aparições no show do Jay-Z recorrem aos já convertidos enquanto não oferece nada aos milhões de trabalhadores americanos que estão pensando se, talvez, falta um toque de povo à mulher que cobra US$250.000 por palestras secretas para banqueiros".

Um número astronômico de 68 porcento dos entrevistados numa pesquisa de boca-de-urna da Reuters/Ipsos no dia da eleição disse que "partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas como eu". É um número muito grande de pessoas se sentindo completamente abandonadas — e a Katy Perry não vai incidir nisso.

Enquanto os progressistas continuam a desenhar linhas culturais que excluem os conservadores, eles têm que notar que isso está se traduzindo em perdas nas urnas. Os republicanos não controlam apenas a presidência, a Câmara e o Senado, mas cerca de dois-terços das assembleias legislativas e a maioria dos governos estaduais.

O abrangente progressismo na cultura popular pode não estar prejudicando os resultados financeiros dos artistas (até agora), mas certamente não está fazendo nada para ajudar suas causas políticas também. Como aprendemos nessa eleição, ignoramos segmentos inteiros da população sob nosso próprio risco.

George Michael (1963-2016)

O cantor e compositor britânico George Michael foi encontrado morto em casa pelo namorado Fadi Fawaz aos 53 anos de idade há três dias, na manhã de Natal. Ao saber da notícia, imediatamente me veio à cabeça a canção "Careless Whisper", lançada em 1984, quando Michael ainda fazia parte do duo Wham! com Andrew Ridgeley, seu amigo de infância e co-compositor do hit. Foram várias as vezes que esta canção embalou minha vida amorosa. Também me veio à cabeça "Last Christmas", regravada por meio mundo, de Taylor Swift a Ariana Grande, e que embalou um dos piores Natais que já tive. Pensei na ironia do destino: o compositor de um dos maiores hits natalinos dos últimos 30 anos morreu justamente no Natal. Depois, em meio a tantas memórias afetivas, lembrei-me da primeira recordação que tenho do cantor: trata-se do videoclipe de "Shoot The Dog", de 2004, uma animação na qual o então primeiro-ministro britânico Tony Blair é retratado como o cachorro de estimação do presidente norte-americano George W. Bush no contexto da invasão do Iraque pelas tropas de ambos os países. Um clipe polêmico para um cantor que sempre afirmou apoiar o Partido Trabalhista de Blair.

George Michael (1963-2016).
A polêmica, aliás, marcou toda a vida do cantor desde que ele saiu do Wham! para perseguir uma carreira solo. Numa entrevista de 2007, George Michael admitiu que se autossabotava, declarando que passou os "últimos 15 ou 20 anos tentando destruir [sua] própria carreira porque ela nunca parecia fracassar". A primeira de uma longa lista de polêmicas do artista veio com seu primeiro disco solo, o aclamado Faith (1987), que vendeu 25 milhões de cópias em todo o mundo — 10 milhões das quais apenas nos Estados Unidos — e recebeu o Grammy de melhor álbum do ano. O disco trazia uma canção bastante provocativa e explícita para os padrões da época, intitulada "I Want Your Sex" (algo como "quero seu sexo" em tradução livre), e o cantor foi acusado de promover um estilo de vida sexual pouco saudável numa sociedade que ainda encontrava-se horrorizada pela então recém-descoberta do HIV. O cantor gravou um videoclipe ultra sensual para a canção com sua então namorada, a modelo Kathy Jeung, como forma de provar que defendia a monogamia. Inclusive ele aparece escrevendo essa palavra nas costas da modelo com um batom.

A imagem sexual de George Michael também teria sido explorada em seu disco seguinte, Listen Without Prejudice Vol. 1, lançado em 1990 sem que seu segundo volume jamais visse a luz do dia. No entanto, o cantor se recusou a promover-se como sex symbol e, como forma de punição, a Sony teria se recusado a promover o disco no Reino Unido. Pelo menos é o que o cantor alega no processo que moveu contra a gravadora tentando desvincilhar-se da mesma. Em 1995 a Suprema Corte de Justiça da Inglaterra decidiu sobre o caso, dando ganho de causa à Sony e obrigando o cantor a permanecer naquela gravadora. No ano seguinte, no entanto, o contrato de George Michael foi vendido para a Virgin Records e ele pôde finalmente lançar seu primeiro álbum de estúdio em quase seis anos. Como resultado dessa disputa legal, George se recusou a participar das gravações do videoclipe de um de seus maiores hits, "Freedom! '90", que foi dirigido pelo — hoje — famoso cineasta David Fincher e estrelado por supermodelos da época como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Christy Turlington e Cindy Crawford.

A grande polêmica da vida de George Michael veio, no entanto, em abril de 1998, quando estava reconquistando o sucesso após os anos de hiato forçado. A Polícia de Los Angeles, de maneira arbitrária, expôs ao mundo a homossexualidade do cantor. Um policial disfarçado, Marcelo Rodríguez, seduziu-o no banheiro de um parque público e, pouco antes de engajarem na prática do ato sexual, prendeu-o por "conduta imprópria". Forçado a sair do armário, o cantor assumiu seu então namorado Kenny Goss, com quem estava se relacionando desde junho de 1996. Assumiu também que a canção "Jesus to a Child" é um tributo a Anselmo Feleppa, estilista brasileiro que conheceu durante o Rock in Rio e que se tornou seu parceiro em 1993. Seis meses depois do início do relacionamento, Feleppa descobriu-se soropositivo e morreu de hemorragia cerebral. Os relacionamentos do cantor com homens não eram segredo na indústria musical. Aos 19 anos, saiu do armário como bissexual para Ridgeley e outros amigos próximos. Quando o Wham! acabou, no entanto, entrou em depressão ao perceber que era homo e não bissexual. No entanto, permaneceu no armário para não trazer desgosto à mãe, falecida dois anos antes do escândalo emergir.

A vida de George Michael era um prato cheio para que os
tabloides reforçassem estereótipos negativos dos gays.
George Michael marcou profundamente a história da música pop. Gravou com Aretha Franklin e com Whitney Houston, provando possuir uma voz à altura de ambas e tornando-se extremamente popular nas rádios voltadas ao público afro-americano. Além disso, marcou também a história da comunidade LGBT, para o bem e para o mal. Após ser preso uma segunda vez por fazer sexo num banheiro público, desta vez na Inglaterra, revelou que a relação dele com Goss não era baseada na monogamia — negando de uma vez por todas a máscara que a Sony obrigou-lhe a vestir para promover "I Want Your Sex". A declaração chocou os homossexuais mais conservadores, que não buscam romper com a lógica patriarcal e sim serem aceitos por ela, assim como as diversas prisões do cantor por posse de maconha. Diversas vezes, queremos que nossos ídolos LGBT sejam aceitos pela sociedade, mas os comportamentos de George Michael, completamente fora do padrão social, nos faziam pensar se ele não reforçava os estereótipos negativos existentes em relação aos homossexuais. Por vezes me peguei questionando se o cantor não prejudicava a imagem que as pessoas têm dos gays.

Independente de ter vivido uma vida que não servia de exemplo para os jovens gays — e o próprio cantor reconhecia isso, como num esquete que fez para o Comic Relief —, George Michael era um ídolo para todos nós. Porque todos nós passamos pela angústia de viver no armário e pelo medo de ser arrancado de lá à força quando não estamos preparados para isso. Na geração anterior à minha, todo mundo conhece alguém que morreu de AIDS. "Eu sofri coisas terríveis, perdas e humilhações públicas", declarou uma vez o cantor. "Mas apesar disso, minha carreira coloca-se no lugar como um pato de plástico numa banheira". Isso ocorre porque o público reconhecia no cantor a fragilidade humana de quem passou muito mais do que a metade de sua vida adulta dentro do armário. Após uma vida inteira portando rótulos que não lhe pertenciam, tais como "monogâmico", "heterossexual", "bissexual", "thatcherista"(*), George Michael finalmente pôde se livrar de todos eles. A liberdade que ele escolheu como título não de uma, mas de duas de suas canções mais famosas, agora lhe pertencerá para sempre. Descanse em paz, George Michael. Agora ninguém mais poderá te atacar, expor e ridicularizar para vender mais exemplares de tabloides.


(*) Havia uma época em que todas as pessoas bronzeadas eram acusadas de fazerem parte da alta sociedade britânica e o cantor, cujo pai era cipriota, tinha um tom de pele levemente mais escuro do que o "normal".

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Obrigado, golpistas!

Hoje a farsa contra a presidenta Dilma Rousseff foi finalmente consumada e seu mandato foi oficialmente abreviado pelo Congresso Nacional. Por não terem conseguido provar qual crime Dilma teria cometido, os senadores cassaram-na, mas deixaram seus direitos políticos intactos. Transformaram o mecanismo do impeachment previsto na Constituição de 1988 num voto de confiança, embora o regime de governo no Brasil seja o presidencialismo e não o parlamentarismo. Na Espanha, seria perfeitamente legal afastar o presidente de governo pelo "conjunto da obra", mas no Brasil isto é — ou era — juridicamente impossível em razão do fato do presidente ser também o chefe de Estado e o cargo, acumulando as duas funções, necessitar de certa estabilidade institucional. Assim sendo, não há outra forma de classificar o impeachment de Dilma Rousseff que não seja através da palavra "golpe". É o golpe frio do qual a revista alemã Der Spiegel falou.

Apesar de terem ajudado a instituir uma nova modalidade de golpe na América Latina, que até mesmo o jornal conservador argentino Clarín vê com cautela, não guardo rancor em relação aos partidários do golpe contra Dilma. Pelo contrário, gostaria de agradecer aos golpistas do fundo do meu coração. Desde que vocês decidiram se fechar ao diálogo e se isolar do resto da sociedade que não pensa como vocês, minha vida só melhorou. Quando vocês decidiram que sua estratégia de ação política para derrotar Dilma e o Partido dos Trabalhadores seria o ataque à própria democracia, percebi que seria obrigado a me afastar de vocês. Não quis conviver no mesmo ambiente tóxico de ódio e rancor no qual vocês vivem. Vocês desnudaram sua falta de caráter e valores morais e isso me desagradou. Assim sendo, a única opção que me restou foi conviver com pessoas que pensam de maneira semelhante a mim. Graças a vocês, golpistas, entrei em contato com pessoas maravilhosas.

Busquei me afastar de pessoas cujos valores eu percebia como dúbios. Não conseguia mais aturar mesquinhos, hipócritas e falsos moralistas. Gente que falava que não tinha "bandido de estimação", mas que celebrou o fato de Eduardo Cunha ter estado do seu lado na luta contra o PT. Gente que cobrava retidão de caráter dos políticos, mas que pede pro colega bater o ponto em seu lugar no trabalho. Gente que se diz cristã, mas que xingava uma senhora de 68 anos de idade, avó de duas crianças, de "puta" no protesto de domingo após a missa ou culto. Gente que nunca vai suportar ter que dividir as vias públicas com pobres em carros mais humildes. Gente que grita quando contrariada. Gente cujo ódio é o próprio combustível que as move e as faz sair da cama todas as manhãs. Num primeiro momento, parecia que eu havia me isolado do mundo e que não havia mais ninguém como eu ao meu redor. Mas isto não era verdade.

Lentamente, fui me aproximando de um variado leque de pessoas que também não suportam o "dois pesos, duas medidas" tão característicos dos brasileiros que se julgam informados quando na verdade estão sendo manipulados. São pessoas que, sob circunstâncias normais, eu não teria tido a oportunidade de conhecer no meu até então restrito círculo de convivência social. A primeira demonstração de hipocrisia ocorreu num templo da Igreja Católica, da qual me desvinculei logo em seguida para, felizmente, encontrar uma igreja mais afinada com os meus valores. Em seguida, ao voltar a participar de protestos de rua, descobri o quão rica é a militância progressista no Brasil. Me abri para pessoas com as quais, num passado recente, eu teria vergonha de ser visto em público. Se hoje tenho diversos amigos — virtuais ou não — de diversas partes do Brasil e do mundo, de várias etnias, orientações sexuais e identidades de gênero, é por causa do terremoto político que o golpismo causou.

Além disso, voltei a prestar a atenção na produção musical nacional. Redescobri a obra de muitos artistas graças a sua militância anti-golpe. Quem poderia imaginar que eu tenho tanto em comum com o Tico Santa Cruz, por exemplo? São artistas que fazem cultura de primeira e que dificilmente terão o reconhecimento que merecem do grande público. Nesse sentido, o serviço sueco de streaming Spotify foi de grande importância para me fazer romper o boicote à música popular brasileira imposto pelas rádios FM de Goiânia. Assim como a reação popular às organizadíssimas neo-marchas da Família com Deus pela Liberdade me aproximou de negras e negros que não escondem suas raízes, pessoas trans que não escondem sua identidade e muitos — muitos mesmo — homossexuais que, num passado recente eu teria considerado "espalhafatosos" demais. Houve também o que chamo de "invasão nordestina" aos meus perfis nas redes sociais.

Desde que vocês, golpistas, decidiram não reconhecer o resultado da eleição presidencial de 2014, eu cresci bastante. Muitas vezes, as adversidades nos impõem o crescimento. Romper laços é doloroso, mas nem sempre é maligno. Isolar-me de vocês forçou meu crescimento nas relações interpessoais — e garantiu-me uma paz de espírito inédita em minha vida. Resistir ao golpe parlamentar tem sido uma experiência fascinante de auto-conhecimento através do outro. Finalmente entendi o que significa ser cristão. Não significa dar a outra face para vocês o tempo todo. Significa estender a mão para todos que são rejeitados por vocês, que são a expressão política de uma minoria gananciosa. Significa aceitar-me e poder assumir, por exemplo, que acho um homem trans bonito e que ficaria com ele. Libertei-me do fardo que vocês representavam em minha vida. Por isso, obrigado, golpistas! O ódio de vocês me uniu em amor a pessoas incríveis. E o que o amor une, o ódio não pode separar.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não podemos ter tempo para o ódio

Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao terrorismo?
Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao fanatismo?
Você e eu em paralelo
Você e eu, somos a chave
(Ofra Haza — "Middle East")

Uma de minhas cantoras favoritas é a israelense Ofra Haza. Nascida em 1957 numa periferia de Tel-Aviv, é a mais nova de nove filhos de Yefet e Shoshana Haza, um casal de imigrantes do Iêmen. As oportunidades eram escassas para os jovens do bairro de Hatikvah, negligenciado por sucessivos governos israelenses, sendo o teatro uma das poucas portas de saída da pobreza. Assim sendo, aos doze anos de idade Ofra se juntou a uma trupe de teatro local gerenciada por Bezalel Aloni, que mais tarde se tornaria seu empresário. Em 1979 ela atingiu o sucesso nacional após protagonizar o filme Schlager, sendo a canção "Shir Ha'frecha", que interpretou no  longa-metragem, um de seus primeiros sucessos. Após lançar três álbuns com o Shechunat Hatikvah Workshop Theatre, Haza finalmente se tornou conhecida o suficiente para lançar seu primeiro disco solo aos 22 anos de idade.

Ofra Haza
Em 1983 Ofra derrotou Yardena Arazi num concurso para representar Israel no Festival Eurovisão. Ela interpretou "Chai", canção escrita por Ehud Manor em homenagem aos atletas israelenses mortos por terroristas árabes nas Olimpíadas de 1972 em Munique, mesmo local em que era realizado o festival. A despeito da resistência que enfrentou de parte da própria sociedade israelense, que se incomodava com sua origem operária e seu sotaque típico de judeus oriundos de outros países do Oriente Médio, Ofra conquistou para Israel uma de suas melhores colocações no festival (o segundo lugar). Em 1988, despontou na Europa e na América do Norte com um remix de "Im Nin'alu", canção tradicional dos judeus iemenitas, composta no século XVII pelo rabino Shalom Shabazi. Ofra atingiu o Top 10 de oito países e o álbum Shaday, que continha o hit, vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

No auge de sua carreira, Ofra Haza se apresentava na Europa e nos EUA, apareceu no Tonight Show de Johnny Carson e se tornou a primeira israelense a ser indicada a um Grammy em 1993. No ano seguinte, cantou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Apesar do sucesso, Ofra estava dividida entre a carreira profissional e o desejo de sua mãe de que ela formasse uma família, conflito este retratado na canção "Ya Ba Ye", que compôs com Aloni e gravou em 1989 no álbum Desert Wind. Em 1997, sucumbiu à pressão familiar e se casou com o empresário Doron Ashkenazi. Entretanto, ela não só não conseguiu engravidar como ainda teria sido infectada com o vírus da AIDS pelo marido. A doença ainda era alvo de forte estigma na sociedade israelense e, envergonhada de sua condição, Ofra optou por não buscar tratamento médico.

A morte da jovem cantora, aos 42 anos de idade, pegou a todos de surpresa em 2000. Afinal de contas, em 1998 ela havia gravado a canção "Deliver Us" para a animação O Príncipe do Egito, o que significava que as portas de Hollywood estavam se abrindo para ela. Sua morte foi destaque na CNN, sendo uma das poucas, se não a única cantora israelense a ser destaque no canal de notícias. A decisão do jornal Ha'aretz de divulgar a causa da morte de Ofra foi polêmica. Tanto Aloni quanto a família da cantora acusaram Ashkenazi de ter transmitido a doença para a esposa. O viúvo, sob intenso escrutínio da mídia, se defendeu dizendo que Ofra contraiu a doença após uma transfusão de sangue num hospital turco. A família Haza e o viúvo disputaram entre si o espólio da cantora até que Ashkenazi morreu de uma overdose de metanfetamina em 2001.

Além do inglês, Ofra Haza gravava tanto em hebraico quanto em árabe, idioma de seus pais. Em 1984 lançou o álbum Yemenite Songs que incluía canções tradicionais dos judeus iemenitas. Apesar de ser bem vendido, foi boicotado por algumas estações de rádio por ser interpretado em árabe. Apesar disso, a canção "Galbi" foi remixada e fez sucesso nas pistas de dança da Inglaterra, abrindo caminho para o sucesso de "Im Nin'alu" na Europa. Algumas das canções de Ofra, como "Eshal" ou aquela que escolhi para introduzir este post, estendem a mão aos palestinos. Algo que pouquíssimos cantores israelenses fazem hoje em dia. Ofra Haza é o retrato de um Estado de Israel que não existe mais — para o bem (como no caso dos costumes que evoluíram) e para o mal (como no aumento da segregação racial). Deve ser por isso que gosto tanto dela.


Em seu último álbum, epônimo, lançado em dezembro de 1997, Ofra canta que não tem tempo para o ódio. O que mais vejo nos dias de hoje são pessoas arranjando tempo para odiar outras pessoas. Por mais atarefadas que estejam, sempre sobra um tempinho na agenda para manifestar seu ódio. E não apenas em Israel, infelizmente. Em relação ao século passado, a islamofobia tomou o espaço do antissemitismo e a homofobia do racismo. Já o preconceito de classe, esse nunca sai de moda enquanto for mais importante entrar nos portões dos ricos do que no de Deus. Mudam os tempos, mudam os personagens, mas não muda a perseguição e nem o ódio. Nesses tempos de cólera em que vivemos, a música de Ofra Haza me traz um pouco de paz e de esperança, tão difíceis de se encontrar ultimamente. Ela me ensina que não podemos ter tempo para o ódio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Poema: Garota independente

Inspirado na canção "Modern Girl", composta por Frank Musker e Dominic Bugatti.

Ele acordou e disse: "bom dia"
Pegou o controle e ligou a televisão no jornal
Tomou banho enquanto o café ela fazia
Ele disse: "foi ótimo, mas preciso fazer minha corrida matinal"
Ela fingiu um sorriso enquanto pela porta ele saiu
Esse filme, mil vezes ela já viu

De homem, ela nada espera
Mas se vira com quem a paquera
Ela define quem será, ela vive livremente
Tudo o que ela quer ser é uma garota independente

Parece que mais uma vez vai garoar
Ela pega o metrô para ir trabalhar
Lê algo em seu look retrô ate o trem parar
Hora de, nos túneis, seus sonhos deixar

Ela pensou o dia todo nele
Chegou em casa e recebeu mensagem dele
Querendo levá-la para jantar
Ela respondeu: "não posso, hoje vou sair pra dançar"

De homem, eu nada espero
Me viro com quem me paquera
Defino quem serei, eu vivo livremente
Tudo o que quero ser é uma garota independente

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Grande e suas pequenas lições contra o preconceito



Se você é um fã de Ariana Grande (ou mesmo que não seja) deve ter provavelmente visto um vídeo em que a cantora de "Focus" questiona o privilégio de homens brancos durante uma "entrevista" à estação de rádio Power 106.

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Grande passou a maior parte de seu tempo no programa esclarecendo aos entrevistadores (que presumo que vivem no ano de 2015) que as garotas pensam em coisas além de sua maquiagem e que os garotos podem usar o emoji de unicórnio mesmo sem serem afeminados. 

E embora aplaudimos isso, uma pequena escavação mostra que a cantora de pop não defende a igualdade de gêneros, sexualidades e identidades apenas quando ela está tentando vender discos; Grande vem servindo pequenas lições de aceitação desde o início da semana.

Domingo, 1/11


No dia após o Halloween, Grande postou no Instagram uma foto dela com três amigos vestindo fantasias da noite anterior. A foto trazia o amigo de Grande e criador da página @SheHasHadIt, Jarvis Derrell, usando um dos vestidos do videoclipe de "Focus".

Uma comentarista decidiu usar a oportunidade para filosofar sobre uma questão de raça e sexualidade, afirmando:

Por que tantos caras negros estão virando viado?! - @lolalana_

Como resposta, Grande postou uma foto com a resposta de Derell ao julgamento maldoso de sua fantasia:
"Sempre tive orgulho de ser um homem negro gay toda minha vida. E, para ser sincero, superar pessoas ignorantes como ele em minha vida é algo do qual tenho muito, muito orgulho! Geralmente não dou ouvidos para idiotas como essa, mas ultimamente tem saído de controle e, como um sobrevivente de bullying, ignorância e assédio, não tolerarei isso. E não só por mim, mas por qualquer um que tem que lidar com o ódio, ódio por serem quem eles são e querem ser. Ah não! Brilhem crianças! Vocês são perfeitos e fortes do jeito que são"

Ao lado dos comentários de Derrell, Grande acrescentou: 
Para todos os humanos, amigos, namorados lidando com o ódio, "brilhem"!! Para todos que estão batalhando contra a homofobia, o racismo, o sexismo, o ageísmo, a misoginia ou qualquer outra coisa que te faz sentir desconfortável ou como se você não pode ser você mesmo: somos todos iguais e deveríamos ser CELEBRADOS PELAS NOSSAS DIFERENÇAS E PELAS COISAS QUE NOS TORNA QUEM NÓS SOMOS. O quanto antes percebemos isso, o quanto antes poderemos ficar livre dessa IGNORÂNCIA FEIA. Obrigado.
Segunda-feira, 2/11 


Na segunda-feira, algum nojento apareceu nas menções a Ariana Grande no Twitter dizendo que ele preferia a "curvilínea" Ariel Winter, atriz de Modern Family, à Ariana "palito".

Embora pudesse ter ignorado o troll, Grande aproveitou a oportunidade para falar sobre body shaming:

"Tweets, comentários, declarações assim não são legais.Sobre qualquer um! Vivemos numa época em que as pessoas fazem com que seja impossível para as mulheres, os homens, qualquer um se aceitar do jeito que são. A diversidade é sexy! Amar a si mesmo é sexy! Sabe o que não é sexy? Misoginia, objetificação, rotulação, comparações e body shaming! Falar dos corpos das pessoas como se eles estivessem numa vitrine, esperando sua aprovação / opinião. Eles não estão! Celebre-se! Celebre os outros. As coisas que nos tornam diferentes uns dos outros nos fazem bonitos."

A cantora incluiu a seguinte mensagem para seus seguidores:

Lá vamos nós de novo... Tenho certeza que não sou a única se sentindo assim hoje! Caso você precisa de um lembrete: você é lindo ✨ É um belo dia para ser você mesmo!


Terça-feira, 3/11

O bem-merecido reconhecimento que Grande está recebendo é pelo massacre que ela fez nesses apresentadores de rádio misóginos. Aqui estão os principais momentos:

Ariana é perguntada o que escolheria se tivesse que escolher entre sua maquiagem e seu celular:

"É isso que você acha que as mulheres têm dificuldade em escolher?"
Ariana esclarece que não é viciada em seu celular, quando então os DJs dizem às suas ouvintes para aprender com a cantora. É então que Ariana esclarece-os de que a dependência ao celular não está relacionada ao gênero do usuário:

- Garotas, aprendam! Escutem e aprendam!
- Garotos, aprendam!
Quando indagada sobre os novos emojis, Ariana diz que o unicórnio é um de seus favoritos. Os DJs reafirmam sua masculinidade dizendo que eles nem haviam reparado nisso e que usam apenas os emojis de taco e dedo do meio. Que machões, caras! Ariana responde:

- Muitos garotos usam o unicórnio
-Sei, "garotos".
Ariana, cujo irmão é gay, se irrita com a insinuação:

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Quando os DJs insistem que "homens de verdade" não usam o emoji de unicórnio, Ariana ameaça encerrar a entrevista:

"Mudei de ideia, não quero mais ficar aqui na Power 106"
Indagada sobre o que gostaria que acabasse, Ariana dá uma indireta aos dois DJs:

"Julgamento em geral. Intolerância, maldade, preconceito, misoginia, racismo, sexismo."

É isso aí, Ari! Continue brigando a boa briga.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

20 canções para celebrar a emancipação feminina (Parte II)

11° - "It's Not Right, But It's OK" (1998), Whitney Houston
Embora Whitney Houston (1963-2012), fosse o contrário do que se pode dizer de uma mulher forte em sua vida pessoal, sua música exalava auto-empoderamento. Do seu primeiro grande sucesso (a melosa "Greatest Love of All") a seu último álbum, você se sente capaz de conquistar qualquer coisa após ouvir à discografia de Whitney. Com "It's Not Right, But It's OK" ("não é certo, mas tudo bem") não é diferente. Na letra da canção, a protagonista descobre que está sendo traída por seu marido e decide pôr um fim ao relacionamento, pois prefere estar sozinha do que ser infeliz. Em determinado momento, Whitney cita a si mesma, como se ela própria tivesse uma personalidade forte ("esse tempo todo pensei que tinha alguém para a Whitney"). Infelizmente, a cantora mais famosa do mundo de 1985 a 1995 não era exatamente assim. Viveu um turbulento e abusivo casamento com o cantor Bobby Brown, o que consumiu sua saúde física, emocional e financeira até aquele dia trágico num quarto de hotel quando pôs fim à própria vida, intencionalmente ou não. Que sua música consiga continuar nos inspirando mesmo após sua partida tão súbita e precoce!


Letra:
Sexta-feira à noite você e seus amigos saíram pra comer
E depois eles saíram
Mas você chegou em casa por volta das 3:00
Se vocês eram seis 
Então quatro de vocês eram muito econômicos
Porque só dois jantaram
Eu descobri na fatura do cartão

Isso não é certo, mas tudo bem
Eu vou superar de qualquer jeito
Faça suas malas e suma
E não ouse voltar correndo pra mim
Isso não é certo, mas tudo bem
Eu vou superar de qualquer jeito
Feche a porta depois que sair
Deixe a sua chave
Eu prefiro estar sozinha
Que ser infeliz

Eu fiz suas malas
Para uma viagem de uma semana
O telefone tocou
E então você olhou pra mim
(Por que você olhou para mim?)
Disse que era um de seus amigos
Lá da Rua 54
Então porque "213"
Apareceu no identificador de chamada?

Já passei por tudo isso antes
(Eu já passei por tudo isso antes)
Então como é que você pensaria
(Não pense, não pense)
Que eu ia ficar aqui e aguentar isso?
As coisas vão mudar
(As coisas têm que mudar, baby)
Porque eu não quero mais ser uma boba
(Você ficar, sem chance, cara)
É por isso que você tem que sair
(Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, siim)

Então não se vire para ver o meu rosto
(Então não se vire)
Não há mais lágrimas aqui 
Para você ver
Valeu a pena mesmo você ter que sair desse jeito?
Diga-me... oh yeah
Valeu mesmo a pena?
Valeu a pena mesmo você ter que sair desse jeito?
Diga-me... oh

Veja, eu estou seguindo em frente
E me recuso a olhar para trás
Sabe, esse tempo todo 
Eu pensei que tivesse alguém para a Whitney
Na verdade...
Você estava me fazendo de palhaça!

Levante-se e vá embora!
Prefiro estar sozinha do que ser infeliz
Não está certo... tudo bem, baby
Eu posso pagar meu próprio aluguel
Pagar minha conta de luz, cuidar dos bebês
Eu vou ficar bem, vai dar tudo certo


12° - "Just a Girl" (1995), No Doubt
Embora "Don't Speak" seja o maior sucesso do álbum Tragic Kingdom, "Just a Girl" ("apenas uma garota") foi o primeiro sucesso comercial da banda de rock No Doubt. Após o tecladista Eric Stefani ter deixado a banda para trabalhar como animador do seriado Os Simpsons, sua irmã Gwen, a vocalista, assumiu a função de compositora do No Doubt. Ela trouxe não só um estilo diferente de composição, como também uma perspectiva feminina para as canções, o que irritou alguns dos primeiros fãs cativados pela banda, em especial os mais machistas. Na canção, Gwen se revolta contra os esterótipos existentes em relação às mulheres, principalmente jovens, de que são fracas e incapazes de se protegerem sozinhas. A inspiração veio de uma discussão que a cantora teve com seu pai por ela ter saído sozinha de casa tarde da noite. "Just a Girl" inaugurou um novo estilo de composição (semelhante ao de Beyoncé) e pode ser inequivocamente apontado como um dos primeiros hinos do feminismo de terceira onda.


Letra:
Tire essa venda rosa dos meus olhos
Estou exposta
E não é uma grande surpresa
Você acha que eu não sei
Exatamente onde eu estou
Esse mundo está me forçando
A segurar a sua mão

Pois eu sou apenas uma garota, uma pequena garota
Não me deixe fora de seu campo de visão
Eu sou apenas uma garota, pequenininha e delicada
Então tire todos os meus direitos
Oh... Eu estou de saco cheio!

O momento em que eu piso fora de casa
Existem muitas razões
Para que eu corra e me esconda
Eu não posso fazer as pequenas coisas
Que são tão caras para mim
Porque são essas pequenas coisas
Que eu temo

Pois eu sou apenas uma garota
E preferiria não ser
Pois eles nem me deixam dirigir
Tarde da noite
Sou apenas uma garota
Acho que sou meio louca
Pois ficam sentados e me encaram
Com aqueles olhos
Sou apenas uma garota
Dê uma boa olhada em mim
Sou seu típico protótipo
Oh... Eu estou de saco cheio!
Oh... Estou sendo clara o suficiente?

Sou apenas uma garota
Sou apenas uma garota no mundão
É tudo o que você me deixa ser!

Sou apenas uma garota, vivendo em cativeiro
Suas regras
Me preocupam
Sou apenas uma garota, qual é meu destino?
O que sou obrigada a fazer
Está me deixando entorpecida
Sou apenas uma garota. Minhas desculpas
O que eu me tornei é tão insuportável
Sou apenas uma garota. Sorte minha
Não tem nem comparação

Oh... Eu estou
Oh... Eu estou
Oh... Eu estou de saco cheio!


13° - "Começar de Novo" (1979), Simone
Escrita por Ivan Lins e Vitor Martins, essa canção foi música-tema do seriado Malu Mulher, exibido em 1979 pela Rede Globo e estrelado por Regina Duarte. Na trama do mesmo eram apresentados assuntos polêmicos como aborto, pílula anticoncepcional, violência doméstica e divórcio, que na verdade são problemáticas ainda bastante comuns na vida das mulheres brasileiras. Ambos, seriado e música-tema, fizeram grande sucesso na época. O polêmico seriado abriu as portas para que o público brasileiro passasse a discutir questões referentes à emancipação feminina, como a abertura do mercado de trabalho para essas cidadãs. A letra da canção se assemelha à de "I Am Woman", sendo que seu eu-lírico também narra sua aventura de libertação sem demonstrar qualquer tipo de remorso. Curiosamente, Lins e Martins também são os autores de outra canção de teor feminista, que também está presente nessa lista (número 20). 



14° - "Sisters Are Doin' It for Themselves" (1985), Aretha Franklin & Eurythmics
Após o sucesso de "Respect", Aretha Franklin continuou gravando músicas que fizeram sucesso, como o também hino feminista "Think" e canções de amor como "Don't Play That Song for Me" e "I Say a Little Prayer". No entanto, sua carreira começou a patinar nos anos 1970, quando a música tornou-se cada vez mais eletrônica e dançante. Foi então que a rainha do soul teve a ideia de se reinventar e fazer música para as novas gerações. O disco Who's Zoomin' Who produziu os sucessos "Freeway of Love", a faixa-título e esta colaboração com a dupla britânica de pop sintético Eurythmics. Embora a música não tenha envelhecido tão bem quanto "Respect" ou "You Don't Own Me" (sobretudo devido ao verso "um homem ainda ama uma mulher e uma mulher ainda ama um homem", que invisibiliza não só as feministas lésbicas como o movimento LGBT como um todo), permanece como um dos ícones da transição do feminismo de segunda para terceira geração. Por outro lado, seu apelo à sororidade e à igualdade salarial no mercado de trabalho continuam mais atuais do que nunca.


Letra:
Havia uma época em que diziam
Que por trás de todo grande homem 
Tinha que ter uma grande mulher
Mas nesses tempos de mudança
Isso não é mais verdade
Estamos saindo da cozinha
Porque há algo que esquecemos de dizer

As irmãs estão lutando por elas mesmas
Erguendo-se em seus próprios pés
Fazendo cair suas próprias fichas
As irmãs estão lutando por elas mesmas

Esta é uma canção para celebrar
A libertação consciente do estado feminino
Mães, filhas e suas filhas também
De mulher para mulher
Estamos cantando com vocês

O "sexo inferior" tem um novo exterior
Temos doutoras, advogadas e políticas também
Todo mundo, dê uma olhada ao seu redor
Consegue ver? Consegue ver? Consegue ver?
Há uma mulher ao seu lado

Não estamos inventando história
Não estamos elaborando planos
Porque um homem ainda ama uma mulher
E uma mulher ainda ama um homem
Exatamente do jeito que era

Remuneração igual, ouça o que dizemos!


15° - "Express Yourself" (1989), Madonna
Assim como Beyoncé e Shakira, Madonna tem várias músicas que poderiam entrar nessa lista, como a desafiadora "Human Nature" ou a questionadora "What It Feels Like for a Girl". Até mesmo "Papa Don't Preach", embora adorada pelos grupos antiaborto, poderia entrar nessa lista, pois a cantora afirma diversas vezes durante a canção que a decisão de não abortar é sua e o bebê, idem. No entanto, escolhi "Express Yourself" ("se expresse") por esta ser uma das faixas daquele que é considerado o melhor álbum da cantora pela crítica especializada, Like a Prayer. A canção, bem dançante, trata-se de uma tentativa de Madonna de abrir os olhos de suas fãs adolescentes para aquilo que elas devem procurar num companheiro.


Letra:
E aí, garotas
Vocês acreditam no amor?
Pois eu tenho algo a dizer sobre isso
E é mais ou menos assim

Não se acomode com o segundo melhor
Ponha seu amor à prova
Você sabe, você sabe, você sabe que tem que
Fazê-lo expressar como ele se sente
E talvez então você saberá se seu amor é real

Você não precisa de anéis de diamantes
Ou joias de dezoito quilates de ouro
Carros elegantes andam muito rápido
Mas eles nunca duram, não, não
O que você precisa é de uma mão grande e forte
Para levantá-la para o lugar mais alto
Fazê-la se sentir como uma rainha no trono
Faça-o te amar até que você não possa descer
(Você nunca vai descer)

Rosas de cabo longo são o caminho para o seu coração
Mas ele precisa começar pela sua cabeça
Lençóis de cetim são muito românticos
O que acontece com eles quando você não está na cama?
Você merece o melhor na vida
Se o timing dele é errado, então parta pra outra
O segundo melhor nunca é o suficiente
Você ficará muito melhor sozinha
(Você tem que fazê-lo)

Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Expressar-se
Hey, hey, hey, hey
Então, se você o quiser agora mesmo, faça-o mostrar-lhe como
Expressar o que ele tem, oh baby, esteja pronto ou não

E quando você for embora, ele pode se arrepender
Pensar no amor que ele uma vez teve
Vai tentar seguir em frente, mas ele não vai conseguir
Ele voltará de joelhos

Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Expressar-se
Hey, hey, hey, hey
Então, se você o quiser agora mesmo, faça-o mostrar-lhe como
Expressar o que ele tem, oh baby, esteja pronto ou não
Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Assim, você pode respeitar a si mesma
Hey, hey


16° - "Beautiful Liar" (2006), Beyoncé & Shakira
Embora Shakira tenha várias músicas que tratam do empoderamento feminino, inclusive em seu idioma materno, o espanhol, escolhi seu dueto com Beyoncé para ser a canção representante da cantora colombiana nessa lista devido a seu caráter pró-sororidade. A canção traz uma situação comum tanto na vida real quanto na teledramaturgia: o namorado da personagem A (Shakira) a traiu com a personagem B (Beyoncé), sua melhor amiga. Se a canção fosse uma novela da Rede Globo, o conflito apresentado por ela só se resolveria de uma forma: as duas terminariam a noite no chão da boate numa cena digna de luta livre. No entanto, elas decidem que sua amizade é mais importante do que qualquer homem e que nenhum "belo mentiroso" que cruzar o caminho delas conseguirá afetar a amizade delas. Isso sim é sororidade!


Letra:
(Beyoncé:)
Ninguém gosta de ser manipulado
Ele disse que eu valho a pena, sou o único desejo dele
(Shakira:)
Eu sei coisas sobre ele que você não gostaria de saber
(Beyoncé:)
Ele me beijou, a única mulher dele
Este belo mentiroso
(Shakira:)
Me diga como você lida com as coisas que acabou de descobrir?
Nunca saberemos 
(Beyoncé:)
Por que somos nós as únicas que sofrem?
(Shakira:)
Tenho que esquecê-lo

(Beyoncé:)
Não será ele que vai chorar

(Beyoncé:)
Não vamos acabar com o carma
Não vamos começar uma briga
Não vale a pena o drama
Por um belo mentiroso
(Shakira:)
Não podemos rir disso?
Não vale o nosso tempo
Podemos viver sem ele
É só um belo mentiroso

(Shakira:)

Eu confiei nele mas quando te segui eu os vi juntos
(Beyoncé:)
Eu não sabia sobre vocês até eu te ver com ele
(Shakira:)
Eu entrei na sua cena de amor, dançando lentamente
(Beyoncé:)
Você roubou tudo, como pode dizer que eu te fiz mal?

(Shakira:)
Nunca saberemos
(Beyoncé:)

Quando a dor e o coração-partido acabará
(Shakira:)
Eu tenho que esquecê-lo
(Beyoncé:)
A inocência se foi

(Shakira:)
Como posso te perdoar
Quando sou eu quem está envergonhada?
(Beyoncé)
E eu gostaria poder te libertar
Do sofrimento e da dor
Mas a resposta é simples
(Ambas:)

A culpa é dele!


17° - "Desconstruindo Amélia" (2009), Pitty
Como dito anteriormente, o samba foi o responsável pela construção de um dos maiores estereótipos femininos do Brasil, a famigerada "Amélia". Em 2009, no entanto, a roqueira baiana Pitty decidiu fazer uma releitura da personagem para poder dizer às suas fãs que a mulher pode ser o que ela bem entender. A Amélia de Pitty, "educada para cuidar e servir", decidiu mudar: passou a cuidar de si mesmo, fez mestrado e começou a se questionar por que o parceiro ganha mais do que ela. Ela é muitas: trabalha, cuida da casa e dos filhos e "ainda vai pra night ferver". Graças à Pitty, Amélia finalmente se libertou: deixou de ser serva e objeto. Depois de experimentar o gostinho da liberdade, decidiu que nunca mais vai voltar a ser submissa. "Ela já não quer ser o outro, ela é um também". Genial!



18° - "Strong Enough" (1998), Cher
Assim como Aretha Franklin fez nos anos 1980, Cher se reinventou por completo na virada do século. Lançou o álbum Believe, com uma pegada eletrônica, e conseguiu se tornar a diva de uma nova geração. O single principal do disco, a faixa-título, deu a Cher o recorde de mulher mais velha a atingir o número um da parada de sucessos da revista Billboard, que ela mantém até hoje. Como uma fênix, a mulher renasceu quando muitos já julgavam-na morta comercialmente e conquistou boates, estações de rádio e lojas de discos em todo o mundo. O segundo single do álbum, "Strong Enough" ("forte o bastante"), fez mais sucesso na Europa do que nos Estados Unidos, vendendo 700 mil cópias só na Alemanha, na França e no Reino Unido. É uma pena, porque se trata de uma belíssima canção sobre uma mulher traída que decidiu se empoderar e se nega a desacreditar no amor apesar da situação pela qual passou.


Letra:
Não preciso da sua simpatia
Não há nada que você possa dizer ou fazer por mim
E não quero um milagre
Você nunca vai mudar por ninguém
E eu ouço suas razões, os porquês
Onde você dormiu na noite passada?
E ela valeu a pena? Ela valeu a pena?

Eu sou forte o bastante pra viver sem você
Forte o bastante e parei de chorar
Há bastante tempo, agora sou forte o bastante para saber
Que você precisa ir embora

Não há mais nada a dizer
Poupe seu fôlego e vá embora
Não importa o que você diz
Sou forte o bastante para saber 
Que você precisa ir embora

Então você se sente incompreendido?
Amor, tenho uma novidade para você
Eu fui usada e isso daria até um livro
Mas você não quer saber disso

Eu estive perdendo o sono
E você esteve sendo mesquinho
E ela não vale metade de mim, é verdade

Venha o que vier
Você nunca me verá chorar
Este é o nosso último adeus, é verdade


19° - "Independent Women Part I" (1999), Destiny's Child
Como afirmei anteriormente, Beyoncé tem todo um cânone de músicas sobre emancipação da mulher. Em 1999 pediram ao grupo então liderado por ela, o Destiny's Child, para fazer uma música para a trilha-sonora do filme As Panteras, versão do seriado setentista estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu. Não sei vocês, mas a última coisa que me vem à cabeça quando penso naquele seriado é o empoderamento feminino (e o filme também não tem lá muito de feminista não), mas Beyoncé compôs uma de suas melhores músicas sobre emancipação feminina justamente para esse filme. Não deu outra, a canção ficou impressionantes onze semanas no topo da parada de sucessos da revista Billboard, de novembro de 2000 a fevereiro de 2001, além de ter sido indicada para o Grammy de melhor canção escrita para um filme ou programa de televisão. Segundo a revista é o 18° single mais bem-sucedido da década de 2000. E foi assim que Beyoncé foi construindo sua imagem de ícone maior das feministas contemporâneas.


Letra:
Pergunta: Diga, o que você acha de mim?
Eu compro meus próprios diamantes
E compro meus próprios anéis
Só te ligo quando eu me sinto sozinha
Quando você acabar por favor levante-se e saia

Pergunta: Diga, o que você acha disso?
Tente me controlar e, garoto, você será dispensado
Banco a minha diversão e ainda pago minhas próprias contas
Nos meus relacionamentos é sempre meio a meio

O calçado nos meus pés, eu comprei
As roupas que eu estou vestindo, eu comprei
Os diamantes que eu estou balançando, eu comprei
Porque eu dependo de mim
Se eu quiser o relógio que você está usando, eu comprarei
A casa onde eu moro, eu comprei
O carro que estou dirigindo, eu comprei
Eu dependo de mim

Todas as mulheres que são independentes
Joguem suas mãos para cima
Todas as delícias que ganham seu próprio dinheiro
Joguem suas mãos para cima
Todas as mamães que ganham dólares
Joguem suas mãos para cima
Todas as mulheres que realmente me entendem
Joguem suas mãos para cima

Garota, não entendo como você requebra assim
Charlie, como suas Panteras requebram assim
Garota, não entendo como você requebra assim
Charlie, como suas Panteras requebram assim

Diga, o que você acha disso?
Faço o que eu quero, vivo como eu quero viver
Eu dei duro e me sacrifiquei para conseguir o que tenho
Mulheres, não é nada fácil ser independente

Pergunta: Como você lida com tudo isso que eu disse?
Gabando-se daquele dinheiro que ele te deu
Se você vai se gabar, esteja certa que o dinheiro é seu
E que não depende de ninguém mais pra te dar o que você quiser

Destiny's Child
O que há?
Vocês estão na área?
Lógico camarada
Vamos chocar esse pessoal com o "Estilo Pantera"!

Destiny's Child
Beleza independente
Ninguém mais pode me assustar
Panteras!


20° - "Bilhete" (1982), Fafá de Belém
A outra canção dessa lista escrita por Ivan Lins e Vitor Martins é "Bilhete", lançada em 1982 pela cantora paraense Fafá de Belém. À época, a cantora buscava se distanciar de seus primeiros sucessos, músicas regionais e dançantes, e mostrar que tinha a habilidade vocálica para ser uma grande intérprete. Foi assim que essa composição de Lins e Martins chegou até suas mãos. E ela fez um ótimo trabalho interpretando-a. Na letra da música, escrita no formato de um bilhete curto para o companheiro, a personagem narra para o mesmo que já arrumou a mala dele e colocou-a no corredor. De maneira mais ousada do que as demais músicas de rompimento dessa lista, Lins e Martins comparam a separação com um aborto: "te tirei do meu corpo / te tirei das entranhas / fiz um tipo de aborto / e por fim nosso caso acabou / está morto".