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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

sábado, 9 de setembro de 2017

Como a esquerda criou o "Bolsomito"

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) era um zé ninguém até aparecer no CQC em 2011. O programa humorístico da Rede Bandeirantes, exibido entre 2008 e 2015, gostava de abrir espaço para figuras bizarras da vida nacional, em especial do baixo clero da Câmara dos Deputados, como uma forma de aumentar sua audiência, sobretudo no Twitter. Emissoras como Record, SBT e Bandeirantes, que lutam entre si pelo segundo lugar nos índices de audiência, passaram a usar os trending topics daquele rede social como forma de atrair investimentos, mostrando para os anunciantes que possuíam um público mais jovem e antenado com as novas tecnologias do que a dominante Rede Globo. O IBOPE já era considerado um mecanismo defasado de medição de audiência naquela época.

A mídia tradicional precisava de um fascista para quando
estivesse precisando aumentar sua audiência.
A estratégia dos produtores do programa funcionou. Assim que o quadro em que o deputado respondia às perguntas da cantora Preta Gil foi ao ar, o CQC entrou para os trending topics. As barbaridades racistas ditas pelo até então desconhecido deputado foram repercutidas ad nauseum nas redes sociais por militantes de esquerda revoltados com suas palavras. São pessoas que acham que sua missão — na vida e nas redes — é combater as injustiças. Só que nessa luta incansável e sem tréguas a favor da justiça social, acabam dando espaço para as ideias que dizem combater. Depois de sua aparição no programa, amplificada pelos tuítes e retuítes de quem se propunha a denunciá-lo, Bolsonaro finalmente conseguiu o palanque que tanto desejava para suas ideias reacionárias.

Preciso fazer aqui um mea culpa. Na época, eu também ajudar a propagandear essa figura nefasta da política brasileira acreditando estar combatendo-o. Durante o tempo em que usava o Twitter, me tornei um extremista da justiça social, ao ponto em que não conseguia mais assistir a um episódio de um seriado qualquer sem problematizá-lo. O exemplo mais emblemático disso era quando eu assistia à comédia The Big Bang Theory. Para mim, o personagem Raj era utilizado pelos roteiristas do programa como mecanismo de afirmação da supremacia dos EUA sobre os países do terceiro mundo. Militantes de direita, percebendo o extremismo de certas problematizações, cunharam o termo pejorativo social justice warriors (guerreiros da justiça social) para se referir à esquerda, ainda em 2011.

Logo o Twitter virou um campo de batalha entre extremistas da justiça social e militantes que lutam contra a ditadura do politicamente correto. Em comum entre ambos está a falta de bom senso. E, num espaço onde a expressão é limitada a 140 caracteres, os xingamentos tornaram-se a lei. O debate político infantilizou-se desde então, como evidenciado pela recente troca de insultos entre o jornalista americano radicado no Brasil Glenn Greenwald e o deputado Bolsonaro. Longe de mim defender Bolsonaro, mas Greenwald não deveria ter esperado outra resposta do deputado ao chamá-lo de "cretino". A impressão que tive, ao ler a troca de mensagens entre os dois, foi a de que se tratavam de duas crianças brigando no pátio de uma escola:
— cretino!
— viado!

Greenwald também deve acreditar, como eu acreditava, que atacar o deputado, mesmo quando ele está quieto, é a menor maneira de derrotá-lo. Só que isso tem se provado falso. Depois que ele ganhou notoriedade ao aparecer no CQC e nas timelines de milhares de pessoas de esquerda revoltadas com suas ideias, militantes até então ligados à direita tradicional perceberam que ele incomodava muito mais a esquerda do que os políticos do DEM e do PSDB e elegeram-no como seu novo líder. Só não perceberam — ou fingiram não perceber — que isso se deve ao fato de que ele é fascista, o que deveria ser repudiado por todo o espectro político. Assim sendo, Bolsonaro se tornou o deputado mais votado em seu estado, saindo de pouco mais de 120 mil votos em 2010 para quase 470 mil em 2014. Hoje, encontra-se em segundo lugar nas pesquisas para a eleição presidencial de 2018.

Bolsonaro lidera as pesquisas em cinco estados e está em
situação de empate técnico com Lula em Goiás.
Faltou malícia, para mim e para os demais militantes de esquerda, em 2011, para perceber que a intenção da Bandeirantes era justamente a de criar um ícone fascista que eles pudessem explorar sempre que seus programas estivessem com problemas de audiência. A falta de bom senso dos empresários do setor e de regulamentação da mídia criou Jair Bolsonaro como um candidato viável para o futuro de uma nação decepcionada com seu sistema político. Desde que ele emergiu no imaginário nacional como solução para todos os problemas do Brasil, o baixo clero da Câmara cresceu, tomou o poder com Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e promoveu um golpe de Estado para conter a vontade soberana da nação de continuar no caminho da tímida inclusão social dos governos do PT.

A mídia empoderou o lixo político para gerar o caos, porque o caos — como admitiu cinicamente o presidente da CBS ao responder, em 2016, sobre o porquê de sua emissora dar tanto espaço para o então candidato a presidente Donald Trump — pode até ser ruim para a nação, mas é ótimo para os índices de audiência. E a militância da internet, que surgiu como uma promessa de revolucionar a comunicação e a política, tornou-se meramente um jogador de uma partida cujas regras já foram definidas pela mídia tradicional. Esta jogou sua isca e os twitters morderam-na cegamente. A militância de internet atendeu ao pedido da Bandeirantes e criou o "Bolsomito". E, o mais triste de tudo, é que eu não sei dizer se foi a de direita ou a de esquerda — que segue criando palanque para ele, como vimos Greenwald fazer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O assassino de reputações

O algoz e sua vítima.
No mesmo dia em que fui surpreendido com a notícia de que a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva veio a óbito cerebral, recebo a notícia de que a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) indicou o nome de Sérgio Moro para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) após a morte de Teori Zavascki. O algoz de Marisa é realmente considerado por um grande número de pessoas como alguém competente para assumir o mais alto cargo da magistratura nacional. Moro pode não ter sido o responsável pela morte física de Marisa, mas ele tem sua parcela de culpa sim. Aliado aos veículos de comunicação que alimenta com suas denúncias e vazamentos, ele matou a reputação e a imagem pública dela. Colocada sob o estresse de ser ré num caso de corrupção envolvendo políticos e empresários — e ela nunca foi nenhum dos dois —, Marisa sucumbiu à pressão e foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) na semana passada.

Independente da minha opinião pessoal sobre Lula, eu duvido muito que Marisa operasse um esquema de corrupção na Petrobrás. Ela sempre foi uma figura caseira e discreta durante a presidência do marido. Nem mesmo a política de assistência social do governo, área tradicionalmente destinada pelos presidentes às suas esposas, teve o interesse em assumir. Suponhamos que Lula tenha sido de fato o maior ladrão da história do Brasil, como bradam esclarecidíssmos motoristas de táxi, comediantes fracassados e roqueiros decadentes. Se for o caso, que diabos Marisa tinha a ver com a corrupção do marido? No máximo seria sua cúmplice. A conclusão mais óbvia então é que Moro tornou Marisa ré para atingir Lula. Talvez como uma forma de pressioná-lo a confessar seus crimes. Só que ela teve morte cerebral decretada, evidenciando não só o fracasso da estratégia, como a imoralidade do modus operandi do juiz e de seus aliados no Ministério Público Federal (MPF).

O "herói" anti-corrupção de amplas parcelas da sociedade brasileira — que troca confidências a pé de ouvido com o senador mineiro Aécio Neves (PSDB), notório rival político de Lula e acusado de desvio de verbas na construção da obra da Cidade Administrativa em Belo Horizonte — fez algo que nem mesmo a máfia ítalo-americana consideraria ético. Trata-se de uma violação do sétimo mandamento do código de conduta da máfia siciliana: "as esposas devem ser tratadas com respeito". De acordo com o testemunho de Pentito Antonino Calderone, ex-mafioso, há regras para não mexer com as esposas de outros mafiosos. Mas os brasileiros não só não percebem isso como ainda acham que os meios imorais justificam os fins supostamente moralizantes de seu mais novo herói. O quão perigoso é para a democracia brasileira que esteja sendo considerado para assumir uma vaga no STF um juiz que, para atingir seus objetivos, age de maneira que nem mesmo mafiosos agiriam?

Que me perdoem as pessoas que pediram para não transformarmos a morte cerebral de Marisa num ato político, mas eu preciso desabafar. Preciso muito traduzir minha indignação. Preciso dar nomes aos bois e dizer que Sérgio Moro e seus aliados acríticos no MPF e na imprensa são assassinos de reputações que tiveram sim sua parcela de culpa pelo suplício de Marisa Seus métodos duvidosos de investigação e obtenção de delações — que, repito, não seriam usados pela máfia — encurralam as pessoas que investigam de tal modo que elas literalmente morrem de estresse. Tudo isso precisa ser denunciado. Já que nossa democracia só afunda (segundo a própria Economist, que era a fonte preferida de dez em cada dez antipetistas durante os últimos anos do Governo Dilma) e temos um grupo de déspotas que se dizem "apolíticos", mas que cobram lisura apenas de um lado do espectro político, ditando os rumos de nosso país, cabe a nós, pessoas comuns, denunciar essa situação.

Eu não elegi Sérgio Moro para nada. Na verdade, ninguém elegeu, nem mesmo os entusiastas do "Morobloco". No entanto, quem paga o altíssimo salário dele, acima do teto constitucional, sou eu. E eu estou cansado de ver um juiz atuando como assassino de reputações de pessoas ligadas a um único grupo político. Às vezes com denúncias bem fundamentadas, o que é louvável, mas outras vezes não. A parcialidade do juiz rende-lhe prêmios das Organizações Globo e da moribunda revista Istoé, o que alimenta seu ego narcisístico, mas custa-lhe a sobriedade necessária para atuar na magistratura. Parafraseando Marisa num áudio vazado pelo juiz com o intuito único de prejudicá-la, visto que não havia relevância nenhuma no diálogo dela com o filho para as investigações que ele conduzia, que Moro "enfie no c*" todos esses prêmios e vire um juiz de verdade. Que combata a corrupção de todos os políticos e não só daqueles que lhe garantirá espaço na Veja. Que deixe de ser um assassino de reputações e vire o curandeiro de um país dividido entre os que têm corruptos de estimação à esquerda e aqueles que têm corruptos de estimação à direita.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Em defesa do Times

Há exatamente uma semana o jornal estadunidense New York Times publicou um editorial, intitulado "Piorando a crise política no Brasil", em que criticava o impeachment da presidenta constitucional do Brasil, Dilma Rousseff. O mais respeitado diário do mundo escreveu que Dilma está pagando um preço desproporcionalmente alto por irregularidades administrativas que são cometidas por quase todos os governantes do país — segundo Cenk Uygur do Young Turks se todos os políticos americanos que violam a lei orçamentária fossem afastados não sobrariam mais políticos no país. Segundo o Times, "vários dos detratores mais ardentes [de Dilma] são acusados de crimes mais escandalosos". Como, por exemplo, o novo líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), investigado por tentativa de homicídio. A opinião da família Ochs Sulzberger é de que os líderes políticos brasileiros querem "removê-la para retomar a política de pagamento de propinas, o que é indefensável".

Como cantava o Bee Gees, talvez um dia conseguiremos
entender o efeito que o New York Times provoca nas pessoas. 
Mal o editorial foi impresso e os lacaios da mídia nativa correram para desmerecê-lo. O papel mais patético foi protagonizado por Lúcia Guimarães, ex-produtora do Manhattan Connection e atual colunista do Estado de S. Paulo, aquele jornal que apoiou acriticamente o golpe de Estado de 1964 para depois ser censurado pelos próprios golpistas. A jornalista escreveu diversos tuítes (em inglês) para o perfil oficial do jornal estadunidense, corrigindo-o. Foi sumariamente ignorada pelo gestor de redes sociais do Times, que deve ter achado se tratar de mais uma militante do PSDB e não de alguém que diz ser uma profissional da informação. Se em 1964 a grande mídia brasileira conseguiu entorpecer a maioria dos brasileiros através de uma narrativa uníssona da crise política de então, parece estar tendo dificuldade em fazer o mesmo agora que as fronteiras entre os países estão cada vez menores e os olhos do planeta se voltam para o Rio devido aos Jogos Olímpicos.

Publicado continuamente desde 1851, o New York Times é referência mundial em jornalismo, tendo suas reportagens recebido 117 prêmios Pulitzer, mais do que qualquer outro veículo de imprensa. Foi nos arquivos deste jornal que descobri quem foi a revolucionária alemã Rosa Luxemburgo. Foi este jornal que revelou ao mundo quem era Chico Mendes e por que ele estava sendo ameaçado de morte — e o governo de José Sarney, que agora negocia cargos com Michel Temer, ignorou solenemente a reportagem, o que levou ao assassinato do líder ambientalista e sindical pouco antes do Natal de 1988 na porta de sua casa em Xapuri, no Acre. Trata-se de uma das maiores fontes historiográficas do mundo — e é por isso que incomoda à elite brasileira e seus lacaios que ela não esteja reproduzindo a versão deles. Mas se o Times não se dobrou a líderes muito mais espertos e a elites muito mais sanguinárias, por que se dobraria a Temer e à elite paulista?

Página de O Globo de 7 de abril de 64,
sugerindo nomes para a tortura.
Quando precisei pesquisar dados sobre o plebiscito de 1934 que tornou Adolf Hitler führer da Alemanha foi no New York Times que os encontrei e não no arquivo do Estadão. O jornal tinha um correspondente em Berlim em plena escalada do nazismo! Se hoje é possível desmentir rumores antissemitas sobre a ascensão de Hitler, é devido, em parte, ao Times. Se o jornal se limitasse a reproduzir a mídia oligopolizada da Alemanha dos anos 1930, como os lacaios da elite paulista desejam que ele faça ao reportar a crise política brasileira, provavelmente teria defendido o extermínio de judeus. Mas aí é que reside parte importante da grande diferença entre o Times e os jornalões brasileiros. Em 1896 ele foi comprado por Adolph Ochs, um comerciante judeu, e os judeus só foram completamente integrados à sociedade estadunidense após a Segunda Guerra Mundial. Já os principais jornais brasileiros sempre foram dirigidos por homens brancos cristãos que nunca sentiram o peso da opressão. 

Apesar das críticas que nutro ao New York Times por sua postura excessivamente pró-establishment — como a decisão de apoiar as candidaturas de Hillary Clinton e John Kasich nas eleições presidenciais deste ano —, ele merece respeito. É mais antigo do que todos os jornais brasileiros de abrangência nacional e, o mais importante de tudo, nunca fez parte de um grupo que monopoliza a mídia, como é o caso do maior jornal carioca. A mídia oligopolizada do Brasil não pode dar lições de jornalismo a ninguém. Segundo a insuspeita ONG Repórteres Sem Fronteiras,"os meios de comunicação incitaram o público a derrubar a presidenta Dilma". Trata-se de uma mídia partidarizada que não convence mais ninguém de sua imparcialidade. Faria muito bem ao país se, assim como o Times, confessasse sua postura política — no caso de defesa dos interesses da burguesia —, ao invés de espernear toda vez que tem sua postura de militante anti-PT denunciada por veículos como Guardian ou New York Times.

Assim como o Estado de S. Paulo tem o direito de apoiar Aécio Neves, o New York Times não comete nenhum crime ao apoiar Dilma Rousseff, embora não tenha sido isso que ele fez, ao contrário do que sugeriu o incauto Jorge Pontual na GloboNews. O Times apoiou a frágil democracia brasileira e não a Dilma. O editorial dizia: "Esta crise política está minando a fé na saúde da jovem democracia [do Brasil]". O maior jornal dos Estados Unidos diz-se preocupado com a democracia brasileira e a mídia brasileira classifica-o de dilmista. Diz muito sobre a nossa mídia, não? Acho que aquilo que o Times escreveu como alerta para os políticos brasileiros, pode muito bem valer para os veículos de comunicação também: "Eles podem se dar conta em breve que grande parte da ira da população focada na presidente será redirecionada a eles". E que não reclamem se isso acontecer, pois essa ira contra as instituições foi muito bem incitada por eles durante anos a fio. 

Para alguns, defender a democracia é o mesmo que defender
Dilma Rousseff acriticamente (o que o Times não fez).
Isto pode ocorrer porque o brasileiro está insatisfeito com a ordem. E desconheço instituição maior em defesa da manutenção da ordem do que a mídia brasileira. Trata-se de uma mídia que compra briga até com veículos respeitadíssimos da mídia mundial, como o Guardian ou o Times para defender sua visão de mundo. À mídia internacional parece insensato — para não dizer hipócrita — que políticos sob investigação, como Eduardo Cunha, Renan Calheiros e André Moura, julguem uma presidenta sobre a qual não pesa acusação alguma além de uma tecnicalidade fiscal que governadores de todos os partidos praticam. Não adianta o João Roberto Marinho enviar cartinha pro Guardian, este impeachment está tendo sua legitimidade questionada até mesmo por veículos ultra-liberais como a revista Economist. Uma hora a população vai perceber isso e se revoltar contra quem os fez apoiar a troca de pouco por nada. E a culpa não vai ser do Times.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quem cria corvos...

Por que em 2003 Bolsonaro não chocava a Rede Globo?
Há um provérbio espanhol que deveria estar em voga no Brasil atual: cría cuervos y te sacarán los ojos ("cria corvos e te arrancarão os olhos"). É particularmente útil porque, na sua sanha antipetista, a direita moderada que era o PSDB, alinhou-se aos elementos mais delirantes da direita nacional. Teóricos da conspiração que acusam a Pepsi de fabricar seus refrigerantes a partir de fetos abortados e gente que acusa o ex-presidente Lula de tanta coisa que quando apresentam uma denúncia consistente contra ele eu simplesmente não consigo acreditar nela. No meio de tantos lunáticos, um extremista chama a atenção pelo tamanho de seu apelo junto à classe média que foi ao paraíso sob o lulismo e agora se volta contra o PT devido à crise econômica. Trata-se do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que tem, entre as personalidades políticas brasileiras, a terceira página mais curtida no Facebook.

Apoiador de Lula em 2002, quando era do PTB, Bolsonaro logo terminou sua lua-de-mel com o PT e, já no ano seguinte, agrediu verbalmente a colega Maria do Rosário (PT-RS) enquanto esta dava uma entrevista para a equipe de jornalismo da RedeTV no corredor da Câmara dos Deputados. Foi a primeira vez que ele disse a outro ser humano "não estupraria você porque você não merece". Na época não existiam redes sociais e a agressão passou relativamente despercebida. A partir de 2005, no entanto, o PT foi sendo transformado pela grande mídia na razão de todo o mal da nação com a revelação do escândalo do mensalão por repórteres que se diziam chocados, mas que se recusaram a cobrir o mensalão de FHC. Conforme figuras até então restritas às entranhas da internet foram se tornando parte do mainstream do debate político midiático, cada vez mais as discussões foram sendo pautadas pelo ódio a Lula e a seu partido e por questões de ordem moral.

Em 2011 o STF arquivou uma denúncia contra o deputado
devido sua fala racista em um episódio do CQC.
Se na campanha de 2006 Geraldo Alckmin teve que prometer que não privatizaria as empresas estatais, em 2010 Dilma Rousseff teve que prometer que não legalizaria a interrupção voluntária da gravidez no país que é o campeão mundial em morte de mulheres por abortos malfeitos. Aquela foi a campanha mais suja até então. E o ódio latente ao PT e seus apoiadores (pobres, negros, LGBTs, feministas, etc.) estava pronto para reemergir a qualquer momento. Logo após a posse de Dilma eis que a Band resolve colocar Bolsonaro num episódio de seu CQC. No programa em questão, ele diz à cantora Preta Gil que seu filho jamais namoraria uma negra porque ele recebeu boa educação dos pais. Como todo bom fascista, ele covardemente nega a afirmação e diz que entendeu errado a pergunta, embora a dicção de Preta seja a mais clara possível. O episódio, massificado pelas redes sociais, rendeu-lhe seus primeiros questionamentos na Justiça e também os primeiros fãs fora do estado do Rio de Janeiro, justo aqueles que mais odeiam o PT e tudo aquilo que ele representa.

Em junho de 2013, Dilma Rousseff enfrentou, pela primeira vez, amplos protestos antigoverno. A narrativa de que o PT era a fonte de todo o mal colou, ajudada por uma péssima equipe de comunicação no Palácio do Planalto e por uma certa reclusão da mandatária. A mídia se apressou para pintar Marina Silva (Rede) como a musa dos manifestantes. Antes fosse só ela. Com seu caráter apartidário, os protestos logo foram sendo tomados por elementos de extrema-direita, ao ponto dos próprios organizadores serem expulsos de um ato na Avenida Paulista. Bandeiras do PT foram rasgadas, militantes negros e LGBT foram agredidos. O brasileiro, até então mais preocupado com a final da novela e/ou do campeonato de futebol, sentiu-se empoderado para tomar as ruas e participar do debate político de seu país. Principalmente os analfabetos políticos e aqueles que aprenderam história e sociologia através da revista Veja.

Em 2013 a extrema-direita perdeu a vergonha e tomou as ruas.
Após mais de uma década no poder, a esquerda envelheceu e saiu de moda. O cool agora é se opor ao PT, mas não de maneira crítica e racional. E sim como gado em boiada, o que significa dar um belo tiro no próprio pé. Não importa o histórico do PT em defesa dos trabalhadores; a discussão é emocional. E, justamente por isso, cresce de maneira assustadora o apoio à extrema-direita em todo o país. Bolsonaro possui hoje 7% das intenções de voto segundo a última pesquisa Vox Populi e é o candidato a presidente menos rejeitado pela população, com 34% de rejeição segundo o Ibope. A criminalização do PT e de partidos outrora aliados, fomentada por anos pela grande mídia, não favoreceu seu queridinho PSDB. Justo pelo contrário, fez com que todos os políticos associados a partidos e ideologias tradicionais fossem igualmente repudiados pela população.

Não é incrível a inversão de valores na sociedade brasileira que faz com que o candidato a presidente da extrema-direita seja o menos rejeitado? Aquele que em 2014 disse novamente à Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merece e que homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra — reconhecido pela Justiça como torturador — durante a votação do impeachment. Como o fim da escravidão, o término da ditadura não colocou curativos sobre as feridas abertas daquele período. Tivemos a oportunidade de fazê-lo em 2010, quando o STF analisou um pedido para rever a lei de anistia e punir os torturadores do regime militar, já que tortura é um crime imprescritível e impassível de anistia. Mas não o fizemos e volta e meia essas feridas voltam a sangrar. Talvez se tivéssemos seguido as recomendações da ONU para redemocratização figuras como Bolsonaro hoje não existiriam, como elas não existem na Argentina, no Uruguai e no Chile, referências em transição democrática no Cone Sul. Preferimos seguir o Paraguai (e agora teremos um golpe paraguaio).

Só agora a direita descobriu que estava andando com fascistas?
A Globo, que até então se manteve alheia ao fenômeno Bolsonaro, decidiu fazer uma matéria em tom crítico ao deputado no Fantástico do último domingo. Confesso que não assisti à matéria. O boicote à emissora continua de vento em popa aqui em casa. No entanto, não preciso assistir à matéria para dizer que o efeito almejado pela Globo não será conquistado. Ao dar espaço para Bolsonaro, mesmo que em tom crítico, a emissora dá visibilidade a ele. Deviam ter se posicionado contra Bolsonaro muito antes do episódio da homenagem a Ustra. Mas a sanha da mídia para tirar o PT do poder a qualquer custo não permitia isso. Bolsonaro lhes era útil. Agora que desfecharam o golpe final contra o PT, se voltam contra a direita radical cuja existência ignoraram, como se o antipetismo já não se confundisse com o próprio fascismo. Criam corvos e não querem ser bicados por eles?

domingo, 24 de abril de 2016

Lições do Brasil

Editorial do Buenos Aires Herald (Argentina)

Uma linha de argumentação sendo colocada a favor da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, enquanto ela luta contra o impeachment é que ela é vítima da seletividade, uma vez que as mesmas questões não estão sendo levantadas sobre seus perseguidores políticos amplamente corruptos — tal raciocínio é tão certo quanto errado. É errado porque, de várias formas, governos que defendem ideais progressistas e de esquerda devem ter padrões éticos mais elevados do que aqueles que abraçam descaradamente o capitalismo selvagem, em especial no que diz respeito à má alocação de recursos públicos — mesmo assim, tais críticos também estão certos, porque no fim das contas ainda estamos discutindo sobre a seletividade.

Autoridades que roubam do povo devem de fato ser presas se julgadas com todas as garantias legais, mas a simplicidade básica deste princípio é enlameada por juízes do establishment e pela mídia de direita, que contradizem a sinceridade republicana em cada etapa do processo que cobrem — com a magnitude que dão a eventos menores, com seus vazamentos intencionais, etc. Saindo um pouco do exemplo brasileiro, tomemos um episódio local — o caso Hotesur evolvendo hotéis patagonianos ligados à família Kirchner. Se julgado conforme a acusação, este caso expõe uma transferência sistemática de recursos públicos para contas em bancos privados — isto é extremamente sério e deve ir a julgamento. Mas não sob um juiz como Claudio Bonadío, com um passado obscuro e que invade sem o devido mandato e joga as garantias legais no lixo. Tampouco o processo permanece totalmente limpo se, enquanto o procedimento jurídico está sendo abusado, a imprensa silencia-se sobre escândalos igualmente graves.

Contudo, por mais válidos que sejam, nenhum dos argumentos acima são suficientes para aqueles que defendem governos progressista, uma vez que seus líderes estão sendo acusados de corrupção e há todas as chances de que as acusações sejam válidas em pelo menos alguns casos. Tais defensores podem sempre choramingar contra o golpismo, que muitas vezes pode ser verdadeiro (como no caso do Brasil), mas a única solução real é garantir que nenhum líder roube para começo de conversa. Isto, por sua vez, pode implicar numa certa mudança estrutural nos movimentos progressistas, de cima para baixo e de cima para baixo — em vez de líderes carismáticos e onipotentes dando nome aos movimentos insistindo que os fins justificam os meios, militantes lúcidos devem reivindicar o controle para garantir que a riqueza não seja extraviada antes que possa ser redistribuída. E se puderem fazê-lo antes de O Globo e Bonadío começarem a ditar as regras, tanto melhor.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Golpe frio: a crise de Estado no Brasil


Jens Glüsing.
Os oponentes de Lula conseguiram aquilo que sua frágil sucessora Dilma Rousseff falhou em conseguir desde que tomou posse: unir a base do Partido dos Trabalhadores do Brasil, os sindicatos e os movimentos sociais, ao governo.

Centenas de milhares de apoiadores de Lula protestaram na sexta-feira á noite em todo o país contra a tentativa de expulsar a presidenta do cargo por meio de um processo de impeachment. Na Avenida Paulista, em São Paulo, considerada o termômetro dos protestos, ocuparam onze quarteirões. As manifestações transcorreram com calma e Lula foi conciliador; ele não atacou o Judiciário e fez um apelo ao diálogo. Dificilmente pôde-se ouvir incitação ao ódio nas demonstrações no Rio e em São Paulo.

Ao contrários dos protestos massivos contra o governo do fim de semana passado, nos quais se reúnem cada vez mais revoltados de extrema-direita. Eles não representam a maioria dos manifestantes, mas crescem em popularidade. Isto é preocupante para a ainda jovem democracia brasileira.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em meados dos anos oitenta, uma crise política que pode destruir muitas realizações dos últimos trinta anos ameaça o maior país da América Latina. Parte da oposição e o Judiciário tem inflamado, juntamente com o poderoso grupo de TV Rede Globo, uma verdadeira caça às bruxas contra o ex-presidente Lula.

Sérgio Moro, um ambicioso juiz de Curitiba, no sul do Brasil, tem aparentemente apenas uma meta: colocar o ex-presidente atrás das grades. Moro conduz os inquéritos de um escândalo de corrupção envolvendo a empresa petrolífera estatal Petrobras, no qual centenas de gestores, lobistas e políticos, incluindo vários membros de primeiro escalão do Partido dos Trabalhadores de Lula, estão implicados.

Como um furacão, o juiz varreu as elites políticas e econômicas do Brasil. Ele descobriu bilhões pagos em propina. Mais de cem suspeitos estão presos, a maioria dos quais sem uma condenação. Muitos brasileiros celebram o juiz como um herói nacional.

Evidências escassas

Os oponentes de Lula conseguiram o que Dilma falhou em
conseguir: unir sindicatos e movimentos sociais ao governo.
Mas nos últimos meses o sucesso de Moro aparentemente lhe subiu à cabeça. O juiz faz política, o que não é para ele. A divulgação de conversas telefônicas entre Lula e a presidenta Rousseff, interceptadas poucas horas antes da nomeação de Lula como premier, persegue fins políticos por si só e foi legalmente duvidosa para se dizer o mínimo.

Moro até agora não foi capaz de forjar uma acusação contra Lula, embora dezenas de promotores e agentes da Polícia Federal em Curitiba tenham vasculhado as finanças e a vida pessoal do ex-presidente durante meses. As evidências ainda são escassas.

Lula não tem milhões na Suíça como o poderoso presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro; um juiz do Supremo Tribunal Federal se referiu a ele como bandido. Mas isso não o impede de assumir a presidência da comissão que é responsável pelo impeachment da presidenta.

Nesta honrosa comissão sentam-se, dentre outros, um ex-governador de São Paulo que foi condenado na França sob acusação de corrupção, mas que não foi entregue pelas autoridades brasileiras por ser um cidadão brasileiro. O fato de que tais figuras sejam peças-chave na derrubada de uma presidenta contra a qual não pesam acusações mina a legitimidade de todo o processo.

Os apoiadores de Lula alertam para um golpe frio contra a democracia. Tal preocupação não é completamente destituída de fundamentos.

Jens Glüsing é correspondente do Spiegel no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O verão do descontentamento no Brasil


Vijay Prashad.
As praças modernistas do Brasil estiveram cheias de manifestantes durante a última semana. Eles pediam a renúncia da Presidenta — Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT). Multidões na Avenida Paulista em São Paulo seguraram uma faixa enorme onde se lia "Impeachment já!". Esse é o slogan dos protestos — se a Presidenta Rousseff não renunciar, então deverá ser cassada.

Por que essas milhares de pessoas querem que a Sra. Rousseff abandone o cargo? Uma erupção de escândalos de corrupção que envolve toda a elite política aparece num momento de estagnação da economia brasileira. O Brasil atualmente passa por sua pior recessão em meio século, com o crescimento econômico encolhendo. Preços baixos de commodities e um relaxamento na demanda da China são os principais responsáveis por essa queda. Não há remédio no horizonte, uma vez que a China não deve aumentar suas compras. Tampouco, assim, crescerão os preços das commodities. Dependente de ambos, uma saída para a crise brasileira nessa direção encontra-se fechada. O PT, no poder desde 2002, foi incapaz de diversificar a economia e, assim, estava vulnerável ao preço das commodities. O economista Alfredo Saad-Filho chama isso de uma "confluência de descontentamentos", baseada naqueles com preocupações imediatas — o aumento na tarifa de ônibus — e naqueles com ansiedades muito maiores — a perda de poder das classes dominantes.

Encolerizando a elite

O que chama a atenção nos protestos contra o governo Rousseff é que eles não estão vindo das favelas brasileiras e nem dos trabalhadores industriais. Em março do ano passado, a classe média-alta diplomada do Brasil saiu às ruas para uma série de marchas contra o governo. Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-Ministro das Finanças nos anos 1980, caracterizou os protestos como "ódio coletivo por parte da elite, dos ricos, contra um partido e uma presidenta". O que motivava os manifestantes, diz ele, não eram reivindicações e sim o "ódio". O que a elite brasileira odeia no governo do PT?

O PT defendeu uma ampla agenda que deu ao capitalismo uma face humana. A pobreza miserável em regiões do Brasil foi aliviada por um programa de ajuda social conhecido como Bolsa Família. O Banco Mundial afirmou que este programa "mudou as vidas de milhões no Brasil". Em troca de pagamentos em dinheiro, as famílias empobrecidas do Brasil prometem manter seus filhos na escolas e levá-los para check-ups médicos regulares. O governo afirmava que o Bolsa Família elevaria as condições de vida imediatas dos pobres — através dos pagamentos em dinheiro — e que quebraria o ciclo da pobreza intergeracional — através da educação e dos cuidados médicos.

Cerca de 50 milhões de brasileiros — um quarto da população — se beneficiou do Bolsa Família. No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística anunciou que a pobreza extrema havia sido erradicada do país. Mas, durante o anúncio, o Instituto alertou que os cortes orçamentários ao programa reverteriam esta tendência. Um terço dos fundos reservados ao Bolsa Família foram removidos do orçamento de 2016 [Nota do blog: pelo Congresso]. Isto é um indicador das tribulações financeiras do governo.

O que a elite odiou foi o aumento dos salários mínimos, a expansão de direitos trabalhistas e os privilégios agora oferecidos à classe trabalhadora para a entrada nas universidades públicas. Os benefícios à classe trabalhadora revelaram a questão social da desigualdade racial. O Brasil, um ex-Estado escravocrata, nunca lidou bem com os legados da escravidão e do racismo. Sob o PT, questões de discriminação racial e os custos do racismo para os trabalhadores se tornaram parte da discussão nacional. Isto foi um anátema para a elite.

Hábito de golpes

Durante o século passado, em intervalos regulares, movimentos políticos populares emergiram no Brasil para desafiar o arreio de ferro da elite. Toda vez que o povo se reunia por trás destes líderes, a elite — coma  assistência do Exército e dos Estados Unidos — minava a revolta das favelas e do campo. Os presidentes Getúlio Vargas e João Goulart se tornaram porta-vozes dessa frustração popular e foram ambos removidos — Vargas foi levado ao suicídio em 1954 e Goulart foi removido por um golpe militar em 1964. Em ambos os casos, a combinação das classes dominantes estabelecidas, dos militares e dos EUA geraram crises que esmagaram o país e despacharam os líderes populares. O medo de que isso faça parte da equação no Brasil atual não é infundado. Está gravado na história brasileira.

Os golpes não precisam vir mais dos quartéis. A mídia é o suficiente. No Brasil, a Rede Globo — com 50 anos de existência — agora controla mais que a metade da mídia — canais de televisão e jornais influentes — incluindo O Globo. "Não há outros meios de comunicação com influência similar no país", me conta a Professora Beatriz Bissio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O dono da rede, Dr. Roberto Marinho, tinha uma aliança próxima com o regime militar. Seus canais tem atacado o governo Rousseff, incitando os protestos não a favor da anti-corrupção, mas contra o PT.

A questão da corrupção

No Brasil, uma frase popular é "o sistema não é corrupto; a corrupção é o sistema". A corrupção sistêmica tem sido servida a grandes levas de políticos brasileiros, não apenas aos líderes proeminentes do PT, mas também à oposição, incluindo Aécio Neves, que concorreu à presidência contra a Sra. Rousseff em 2014. Grandes lucros nas maiores empresas governamentais, Eletrobras e Petrobras, ofereceram aos políticos a oportunidade para pedir propinas. Os políticos do PT não resistiram à tentação. Mas eles não estavam sozinhos.

A mídia pediu a cabeça do PT como se ele tivesse sido o único que foi cúmplice dos escândalos de corrupção. Ela ignorou os escândalos de corrupção da oposição de direita. O Datafolha tem feito pesquisas regulares sobre os descontentamentos dos brasileiros. Mais de um terço da população diz que a corrupção é sua maior queixa, embora o resto dos pesquisados reclamam da falta de acesso a cuidados médicos e à educação, assim como a empregos. À mídia não interessa essas reclamações. Elas vão de encontro ao programa do PT. É mais fácil apontar o dedo para a "corrupção", uma ideia com apelo emocional para pessoas cuja sobrevivência enfraquece conforme observam a elite se tornando imune à crise.

O fator Lula

A Sra. Rousseff, ao contrário do Sr. Lula, não cultivou uma ligação direta com o povo. Obrigada a promover cortes no orçamento, ela não se estendeu ao público para explicar os problemas. Atacada pela mídia, a Sra. Rousseff se isolou de seus apoiadores. A confusão levou ao desencantamento. O Sr. Lula, da fábrica, e a Sra. Rousseff, da cadeia, criaram um partido — o PT — que cresceu a partir dos poderosos movimentos sociais brasileiros, tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ou MST. A Sra. Rousseff buscou o Sr. Lula para reanimar seus laços com os movimentos sociais. Ele é dos sindicatos, um homem de temperamento salgado com popularidade entre a classe operária e os camponeses.

Mas o Sr. Lula está sob investigação na Operação Lava Jato sobre lavagem de dinheiro na Petrobras. Seu papel é de pequena escala se comparado a demais abusos. A detenção do Sr. Lula e a revelação de uma gravação telefônica grampeada entre ele e a Sra. Rousseff sugerem uma conspiração maior em trabalho aqui. Faz parte do hábito da elite brasileira fomentar a discórdia para prevenir qualquer ameaça a sua estabilidade. O retorno do Sr. Lula numa época de crise econômica pode indicar uma guinada do PT à esquerda. Não havia outra escolha se não mover-se nessa direção. Seria suicida para o PT tornar-se o partido da austeridade. A convocação do Sr. Lula era para ajudar a Sra. Rousseff a mudar de curso. É isso que a elite julgou abominável. A oferta da Sra. Rousseff para o Sr. Lula assumir um cargo em seu gabinete teria imunizado-o da acusação. Agora um juiz suspendeu a nomeação.

Na sexta-feira, um milhão de pessoas se juntaram à Frente Brasil Popular para repetir o grito de Lula — não vai ter golpe. O povo, como o MST definiu, foi às ruas para defender a democracia. Este foi um protesto contra o golpe de Estado. Se a emergência destes protestos populares irá mudar a dinâmica feia do Brasil ainda não é possível dizer. Muito está em jogo neste importante país sul-americano.

Vijay Prashad leciona Estudos Internacionais na Trinity College (EUA) e é o autor de "The Poorer Nations: A Possible History of the Global South".

sexta-feira, 25 de março de 2016

A lição da esquerda árabe-israelense

Há cerca de um ano os israelenses foram às urnas para escolher os membros do 20° Knesset, o parlamento do Estado de Israel. A prioridade dos partidos árabes era clara: eleger um número grande o suficiente de deputados para impedir a formação de um novo governo pelo então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cujo partido, Likud, se opõe à coexistência pacífica com os palestinos. Assim sendo, os quatro partidos da esquerda árabe — Hadash, Lista Árabe Unida, Balad e Ta'al — decidiram colocar suas diferenças de lado e formaram a Lista Conjunta.

O resultado da união de esforços foi um recorde na participação eleitoral dos cidadãos árabe-israelenses. A Lista Conjunta obteve 446.583 votos (10,6% do total) e tornou-se a terceira maior agremiação do Knesset, com 13 deputados — dois a mais que os partidos árabes possuíam antes de forjarem a coligação. Apesar da disposição em se coligarem com a União Sionista, agremiação de centro-esquerda judaica, não conseguiram impedir a posse de Netanyahu para um novo mandato. O Likud obteve a maior parte dos votos e, assim sendo, teve preferência nas negociações para formar um novo governo, no que obteve êxito.

De qualquer forma, o sucesso da Lista Conjunta garantiu unidade e coesão nas demandas dos cidadãos árabes de Israel, os mais humilhados e oprimidos daquela sociedade. Mais espaço no parlamento significa maior visibilidade a essas pessoas. É isso que a esquerda brasileira deveria perceber no momento atual. A retirada de Dilma Rousseff do poder central significaria o aprofundamento dos cortes de gastos sociais. O economista oficial do golpe frio, Armínio Fraga, já afirmou que programas como Bolsa Família e ProUni "serão retirados da pior maneira".

A oposição de esquerda, mesmo que não lhe caiba fazer a defesa da agenda econômica do governo Dilma, deve lutar pela manutenção da agenda social, que garante a ampliação de direitos dos humilhados e oprimidos do Brasil. Defender a pauta do "que se vayan todos" só agrada à direita ultraliberal que deseja tirar Dilma porque nega a função social do Estado e deseja fazer com que o governo sirva apenas aos ricos que os financiam, como os Irmãos Koch ou os especuladores que vivem do pagamento dos juros da dívida pública. Essa esquerda trai a si mesmo e a seus eleitores.

Urge, à esquerda nacional, seguir os passos da esquerda árabe de Israel e perceber que, juntos, somos mais fortes na luta contra os opressores do povo. Já está mais do que claro que o propósito da Operação Lava Jato não é limpar o Brasil da corrupção; é limpar o país da política partidária. Isso ficou claro para mim quando os parceiros de Sérgio Moro no Jornal Nacional exibiram uma reportagem sobre a lista de recipientes de propina da Odebrecht e, ao invés de listar os maiores beneficiados, exibiram a lista dos partidos que teriam participado do esquema. Todos, menos PSTU e PCO, apareceram na tela da Globo.

A mídia vem sendo questionada por sua parcialidade nas denúncias contra o PT e reage como sempre tem reagido nesses casos: passa a afirmar que todos os partidos são corruptos. O PT seria apenas o mais corrupto deles. Entretanto, soa-me estranhíssimo que dois partidos nanicos e independentes — PCB e PSOL — receberiam propina. O PCB já negou esse "fato" em suas redes sociais, mas o estrago já foi feito. Milhões de pessoas viram o partido ser associado a siglas abjetas como o DEM e o PP, herdeiros do partido oficial da ditadura militar.

Quando o golpe frio se consolidar, ninguém vai ser perdoado, por mais crítico e independente que tenha sido do governo Dilma. Por isso, é hora de deixar as diferenças de lado, como os partidos da Lista Conjunta fizeram. Estamos num confronto e, na guerra, as regras para a política de alianças devem ser afrouxadas. Caso o contrário, perdemos. E a derrota do nosso lado, da esquerda, no momento político atual do Brasil, significa a derrota do tudo aquilo que o povo conquistou nos últimos 12 anos. É chegada a hora de nos posicionarmos, para o bem do povo brasileiro.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Desculpa, Miriam

Um indicativo muito grande de que vivemos sob as regras do patriarcado é que a palavra do homem possui mais valor do que a da mulher. Há seis anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez sair nos jornais a notícia de que um exame de DNA realizado com o filho da jornalista Mirian Dutra Schmidt – com quem havia mantido um relacionamento extraconjugal durante seis anos entre 1984 e 1991 – mostrava que ele não era o pai biológico do rapaz. É claro que eu acreditei naquela informação e logo concluí que ela deu o "golpe da barriga" em FHC, que acabou sendo traído pela própria amante. Acreditei  nisso por seis anos. No entanto, o contrato de Mirian com a Globo terminou no início do ano e ela, tachada de mulher de pouca reputação por uma bem orquestrada aliança entre a cúpula do PSDB e a mídia nacional, resolveu contar sua versão dos fatos. Primeiro falou à revista luso-brasileira Brazil com Z e depois à Folha de S. Paulo.

Mirian Dutra Schmidt está ressentida com FHC e com a Rede Globo. Fizeram-na passar por um inferno. O sociólogo a fez acreditar que seu casamento com a falecida dona Ruth já tinha acabado e que eles estavam juntos por pura conveniência. Durante o período em que estiveram juntos, Mirian engravidou duas vezes (ela era alérgica à pílula e rejeitou o DIU) e FHC teria convencido-a a abortar. Em 1991, no entanto, a jornalista bateu o pé: quis ter o filho. O que se seguiu foi uma cena digna do filme Atração Fatal. Assim como o covarde Dan Gallagher (Michael Douglas), o político tucano, que já ambicionava mudar-se para o Palácio da Alvorada e não iria deixar ninguém atrapalhar seus planos, teria virado as costas para a amante grávida. Como milhões de brasileiros, Tomás Dutra Schmidt nasceu sem pai. No nosso país, obrigam a mulher a dar à luz, mas não obrigam o homem a assumir o filho. O aborto masculino é legalizado e a certidão de nascimento de Tomás traz um espaço em branco no lugar do nome de seu pai.

Isso não impediu, no entanto, o líder do PSDB de inventar um outro pai para ele. Já se comentava há algum tempo em Brasília sobre os relacionamentos extraconjugais do então senador e, para não atrapalhar suas ambições eleitorais, FHC teria arranjado com o então editor da Veja, Mario Sérgio Conti, para que Mirian aparecesse na coluna "Gente" da revista afirmando que ela estava grávida e que o pai de seu bebê era um biólogo brasileiro que morava em Londres. Se ela recusasse, Conti destruiria sua reputação. Pressionada – ela diz que quase perdeu o bebê devido ao estresse –, ela aceitou. Não foi a primeira vez que Mirian teria feito algo contra sua vontade para agradar FHC. Ela afirma que o político a perseguia pelas ruas de Brasília sempre que ela terminava com ele e ela sempre acabava voltando para ele. Tratava-se de um relacionamento abusivo – e da pior espécie. Quando um parceiro abusa do outro fisicamente, as razões para abandoná-lo estão na pele. Quando o abuso é psicológico, duvidamos se estamos verdadeiramente sendo abusados.

Mirian Dutra. Por que acreditamos mais na versão masculina
do que na feminina?
Mas Mirian conseguiu desvincilhar-se de seu relacionamento abusivo. Ela pediu demissão na Globo e se mudou para Portugal, onde começou a trabalhar na SIC, emissora de Roberto Marinho no país. Na Europa, Mirian começou a passar por dificuldades financeiras. Entra em cena novamente FHC, já em campanha para se tornar presidente do Brasil. A partir de 1994, ele teria começado a pagar uma pensão para Tomás através da Brasif, empresa que ganharia concessões para explorar lojas nos aeroportos durante seu governo. A jornalista diz ter provas da fraude – os contracheques de pagamento e o contrato que assinou com a empresa para trabalhar como consultora na Espanha, o que nada mais seria do que um emprego-fantasma. No entanto, conhecendo a complacência da Justiça e do Ministério Público para com os mal-feitos dos políticos tucanos, escancarada na Operação Lava Jato, creio que é seguro afirmar que os documentos – se é que chegarão ao Brasil – vão deitar no berço esplêndido de alguma escrivaninha de uma repartição pública qualquer.

Paralelamente ao recebimento de dinheiro via Brasif, Miran conseguiu emprego como correspondente da Globo em Barcelona. Foi então que o presidente teria oferecido um belo financiamento à gigante das telecomunicações – via BNDES e com juros inferiores aos praticados pelo banco – para que a repórter jamais aparecesse em vídeo novamente. Isso deixou Mirian deprimida e ela teria tentado retornar ao Brasil em 1998. À época, FHC estava tentando comprar, quer dizer, aprovar a Emenda da Reeleição para que pudesse concorrer novamente à presidência da República. Mirian foi mais uma vez ameaçada, dessa vez pelo falecido senador Antonio Carlos Magalhães. Como qualquer mãe, ela pensou em como a destruição de sua reputação afetaria Tomás e Isadora (filha de seu primeiro casamento, antes de conhecer FHC) e recuou. Temos um caso clássico de abuso de poder – de uso da República para resolver questões de foro íntimo.

FHC saiu da presidência em 1° de janeiro de 2003 sem conseguir eleger seu sucessor. Emergiu pouco tempo depois como se fosse o guardião da moral nacional – justo ele, que teria se valido do cargo para intimidar e manter fora dos holofotes a ex-amante. Sua esposa Ruth faleceu em 2008 e, um ano depois, o ex-presidente teria assumido o filho (o que Mirian também nega que tenha ocorrido), sendo à época elogiado pela mesma revista que usou para chantagear a amante a declarar que o filho não era dele. Em 2010 surgiu a história de que o filho não seria dele e que seus filhos com dona Ruth estariam furiosos com FHC por ele ter reconhecido Tomás antes de fazer o exame de DNA. Nesse momento, eu passei a acreditar na versão cardosiana da história. Mirian teria tido mais de um amante, algo que ela nega veementemente. Segundo a jornalista, FHC quis enterrar a história às custas da reputação dela. Ela questiona: se o filho não é dele, por que ele deu um apartamento para Tomás depois do exame provar que ele não era filho dele?

Mas assim como duvidamos da mulher quando ela diz que foi estuprada, passei a duvidar da reputação de Mirian. Imagine só: uma figura de autoridade, um ex-presidente, estava questionando-a. FHC jamais apresentou o suposto exame de DNA, mas mesmo assim acreditei na versão dele. Embora seja preciso duas pessoas para consumar uma traição e fazer um bebê, o homem sempre vai ter sua barra aliviada pela mídia, como é o caso do já citado filme, onde o personagem de Michael Douglas leva a ex-amante à loucura e, ainda assim, é o mocinho pelo qual devemos torcer. Se a versão de Mirian for correta, FHC apresenta traços de sociopatia. Transgrediu os costumes ao trair a esposa e teria transgredido a lei para esconder a amante e o filho que teve com ela. É charmoso e convincente – precisava ser para que Miriam tivesse aceitado ficar seis anos com ele. Mente sobre a paternidade do rapaz. Nega ter transgredido as normas sociais ao dizer que não pagou os abortos nem usou a estrutura de poder para manter Mirian fora dos holofotes.

Ainda assim, FHC deseja ser visto como um bom pai ou pelo menos uma boa pessoa. À Folha, disse que atende Tomás nas necessidades afetivas "quando possível", como se estivesse numa audiência da Vara da Família. Se o filho não é dele e se ele nunca foi presente na vida dele, como afirma Mirian, por que ele se importa? O que entrega o sociopata são suas mentiras pois, para ele, o que importa é só a imagem que projeta de si mesmo, mesmo que seja contraditória. Devo desculpas a Mirian. Não conhecia sua versão dos fatos. Sabia, graças aos esforços investigativos da revista independente Caros Amigos, que FHC tinha um filho escondido na Europa, mas jamais vi a jornalista como a vítima. Na minha imaginação, ela era uma femme fatale (uma Glenn Close, já que estamos falando de Atração Fatal), que seduziu o senador e aplicou-lhe o "golpe da barriga" para arrancar dinheiro dele. Parece-me, no entanto, que foi ele quem a seduziu e enganou com a falsa promessa de que seu casamento já tinha acabado.

Ao decidir ter o filho de um futuro presidente, Mirian tornou-se prisioneira de sua escolha. Teve sua vida profissional arruinada. Não é devidamente reconhecida pelo trabalho que prestou à Globo. Sofreu um processo muito público de intimidação, do qual participaram não só FHC como também ACM e Conti. A mídia – a maior revista e a maior emissora de televisão do país – desviou-se de sua função sagrada de informar doa a quem doer e foi manipulada pelo poder político para abafar o caso. FHC destruiu a vida pessoal e profissional de Miriam. Sim, ela obteve algum ganho financeiro, mas será que compensou a dor psicológica? Como afirma Maria Goretti, a história de Mirian lembra a de todas as mulheres. E é por isso que peço desculpas não só a ela, mas a todas as mulheres em situação semelhante – que não são poucas – por ter acreditado na versão masculina da história. Eu acreditava estar crendo num sociólogo, mas na verdade estava crendo num sociopata. Prometo tentar ser mais imparcial da próxima vez.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que horas a casa grande vai cair?

Acabei de assistir ao filme Que Horas Ela Volta? na Rede Globo. Estou exausto, mas preciso escrever alguma coisa sobre essa magnífica obra de arte. Foi preciso esperar as quase seis horas diárias de subproduto da dramaturgia (telenovela) e da desinformação mascarada de jornalismo acabar para enfim poder assistir ao filme. Qualquer programa que questiona e estimula o debate sobre a estrutura social injusta do Brasil a Rede Globo faz questão de colocar lá nas altas horas da madrugada, quando não existe a menor possibilidade da massa trabalhadora estar acordada assistindo à programação. Ao contrário do Netflix ou da BBC, a Globo é ao mesmo tempo um produto e um mecanismo de afirmação dessa estrutura. Conscientizar a população sobre os verdadeiros problemas que ela enfrenta é perigoso. Podem se voltar contra a Globo. É mais seguro fazer um entretenimento barato que deixe a população anestesiada e os anunciantes felizes.

Mas vamos tratar do filme em si. Regina Casé estava brilhante como a empregada doméstica Val que, após passar dez anos criando o filho de Dona Bárbara, sua patroa, como se fosse seu (não coincidentemente o título do filme no exterior é A Mãe Postiça), recebe a notícia de que sua filha Jéssica, que não via pelo mesmo período de tempo, está indo para São Paulo para visitá-la e – para a surpresa da patroa – prestar o vestibular numa faculdade de arquitetura. Até esta altura, Val realmente acredita no clichê amplamente difundido pela classe média de que empregado também faz parte da família e pede à patroa para hospedar sua filha na casa deles. Val, como muitas serviçais do Brasil republicano, mora na senzala da casa  – um quartinho nos fundos que os arquitetos continuam insistindo em desenhar. A chegada da menina, que se recusa a reconhecer a hierarquia social implícita dentro da casa, é que gera o conflito. Jéssica não vê razão em ser tratada como inferior a alguém e, além disso, desperta o interesse dos homens da casa, o que gera ciúmes na patroa.

Val, heroína da classe trabalhadora.
O fato é que nos últimos anos começaram a ser lentamente questionadas as normas vigentes no Brasil desde que nosso arremedo de civilização começou a se formar. Jéssica não reconhece as normas sociais de um mundo do qual não faz – e nem quer fazer – parte. Ela é o retrato de um novo Brasil que vem nascendo há pelo menos uma década e que muitos desejam desesperadamente abortar. Se antigamente a filha da empregada doméstica só podia se vislumbrar no futuro como sendo uma empregada doméstica também, hoje as coisas não são mais bem assim. E isso incomoda. Ao filho do empregado não é desejável nem que ocupe o mesmo espaço físico que o filho do patrão, quanto mais disputar vagas de vestibular com o mesmo. Quando Jéssica passa no vestibular e o filho da patroa não, há uma torcida implícita por parte de Dona Bárbara para que ela não passe na segunda fase do exame. Dói ver que tantos privilégios não fazem diferença na inteligência do indivíduo.

A diretora Anna Muylaert tocou numa ferida aberta do Brasil. Assistindo a Que Horas Ela Volta? me veio à mente, diversas vezes o filme norte-americano Histórias Cruzadas. Só que aqui no Brasil a transição de sociedade escravocrata para sociedade de direitos ainda não foi completada. A ferida ainda não cicatrizou e se depender de muitos, que lutam contra a ampliação dos direitos civis para todos, nem vai. Nos Estados Unidos é vergonhoso explorar mulheres negras porque a pessoa até hoje não aprendeu a limpar a própria privada. Lá é comum jovens de classe média pagarem a faculdade trabalhando como garçons. No Brasil a elite e a pseudo-elite julgam que estão no topo da hierarquia por um desígnio de Deus. Quando eu frequentava círculos de classe média era bastante comum ouvir sobre uma empregada que se aposentou e foi substituída pela filha. Sem falar das patroas que praticavam escambo com suas empregadas. Era como ouvir conversas de brancos do século XIX, só que, ao contrário da escravidão, uma pequena quantia de dinheiro estava sendo paga ao explorado.

Nesta fábula moderna, Val é a working class hero e os antagonistas são os patrões, oriundos de uma pequena burguesia que nada produz, nada conquista por méritos próprios e, ainda assim, julga apropriado explorar a mão-de-obra alheia. Val julgava fazer parte dessa família, mas ela jamais vai poder se dar ao luxo de deixar de trabalhar porque herdou a fortuna do pai. Vejam só, quando Fabinho, o filho de dona Bárbara, não consegue passar no vestibular recebe dos pais uma viagem-consolo para a Austrália. A essas pessoas não é interessante gerar riqueza, apenas mantê-la; vivem de status. O fato é que o capitalismo no Brasil ainda é muito arcaico. O país ainda flerta com o feudalismo enquanto parte de sua classe média vomita Mises por aí. Val é a heroína, mas só pôde se libertar da opressão (que ela não enxergava como tal) com a ajuda de alguém de fora. De alguém que não foi criado nesse ambiente insano e que, justamente por isso, percebe a irracionalidade daquilo tudo. Nesse papel, a atriz Camila Márdila, que deu vida a Jéssica, brilhou.

Não tive a oportunidade de assistir a nenhum dos outros filmes que foram enviados pelos governos nacionais para representar seus países na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, mas Que Horas Ela Volta? não deixou nada a desejar em sua proposta de abordar a relação entre a casa grande e a senzala no Brasil que, ainda hoje, mais de cem anos após o fim oficial da escravidão insiste em perdurar por causa de uma elite e de uma classe média que se recusam a aprender a lavar a própria louça. Se o filme merecia estar na lista dos doze pré-indicados ao Oscar, eu não sei. Só sei que merece todos os prêmios que já recebeu – entre os quais o de melhor atriz para Márdila e Casé em Sundance – e toda a visibilidade que eles garantem a uma produção cinematográfica. Além disso,  o filme merece suscitar muitas discussões sobre a hierarquia social tácita presente nas relações de emprego no país. Precisamos começar a questionar: por que só no Brasil as babás precisam vestir uniforme e usar entrada de serviço? Que horas a casa grande vai cair? Espero que não demore, pois cansei de passar vergonha no exterior explicando porque os brasileiros não limpam a própria sujeira.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Que gritem, Chico!

Não queria mais escrever nenhum texto esse ano. Mas sinto-me na obrigação de comentar o episódio ocorrido com Chico Buarque, talvez o maior intelectual vivo do Brasil na última segunda-feira na saída de um restaurante no bairro carioca do Leblon. O cantor, compositor e escritor saía do local com alguns amigos ilustres, entre eles o cineasta Cacá Diegues, o músico Edu Lobo e o jornalista Eric Nepomuceno, quando foi abordado por uma trupe de desocupados filhos da elite, do tipo que só países extremamente desiguais como o Brasil produzem, questionando o posicionamento político do artista. O grande feito de um deles foi ter namorado a atriz Cléo Pires; do outro, ser filho do Álvaro Garnero e ter dado um selinho no ex-jogador de futebol Ronaldo. O primeiro defende o ataque ao cantor, dizendo não entender como um cara inteligente como Chico Buarque pode apoiar o PT. Geralmente o não-dito fala mais do que o dito. Ele, na verdade, não consegue entender como pode um cara tão rico como Chico Buarque não reconhecer a hierarquia social do Brasil. Na cabeça deles, o poder político pertence aos filhos dos ricos como eles mesmos, Aécio Neves ou Donald J. Trump.

Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar.
Chico Buarque é, de fato, uma anomalia política. Nasceu na elite, estudou nos melhores colégios, come nos melhores restaurantes. Mas, por alguma razão, decidiu combater o cancro brasileiro. Como todos nós, Chico cresceu e vive na "Belíndia" (bairros nobres dignos da Bélgica e favelas iguais às da Índia), mas decidiu denunciá-la desde cedo em sua obra, o que lhe valeu a perseguição do regime militar, que confiscou todas as cópias do compacto simples de "Apesar de Você". Com sua enorme sensibilidade de poeta, Chico se sente insultado com o que, para os demais herdeiros da Casa Grande, é normal. E enxergou no PT uma forma de transformar tal sociedade injusta. Apesar de não ter rompido com o modelo capitalista brasileiro, que distribui o dinheiro de nossos impostos para bancos privados e da torcida contra da mídia nacional, os governos do PT aumentaram a renda dos mais pobres em 129% e tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU. Nos anos 1980, a fome era tão intensa no Nordeste que crianças do sertão nasciam com massa encefálica reduzida e Chico organizou uma versão local de "We Are The World", intitulada "Nordeste Já", para ajudar as vítimas da seca. 

Trinta anos se passaram desde o "Nordeste Já" e a realidade brasileira mudou. Talvez não tão intensamente quanto desejássemos, mas ela mudou. 2015 foi o ano mais quente da história do planeta e, pela primeira vez, nenhum dos nove estados do Nordeste declarou estado de calamidade pública por causa da seca. Pode-se discordar do PT o tanto que for, mas dizer que o Brasil não mudou ou que piorou desde 2003 é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Mas os playboys cariocas, assim como a versão deles no Senado (Aécio Neves) ou no Partido Republicano (Donald Trump), não desejam discutir fatos. Querem discutir pessoas, fazer ataques pessoais baseados em preconceitos. Isso é perigosíssimo, porque é assim que surge o nazismo. A classe dominante da Alemanha conseguiu convencer o povo de que os judeus faziam parte de uma superclasse que controlava as finanças do país do mesmo jeito que agora os aecistas querem nos convencer de que os petistas são a raiz de toda a corrupção no Brasil e os partidários de Trump defendem que os muçulmanos são a raiz de todo o terrorismo mundial.

Se Chico tem alguma responsabilidade pelos desvios do PT, então qualquer eleitor do PSDB tem responsabilidade pela construção de dois aeroportos por Aécio na fazenda de seus parentes. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela compra de votos feita por FHC para aprovar a emenda da reeleição. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela nomeação de Paulo Roberto Costa ao cargo de presidente de gás e petróleo da Petrobras. Era essa a indagação implícita que estava contida na resposta irônica de Chico a seus inquisidores: "eu acho que é o PSDB que é ladrão". Ou seja, o partido do Aécio, colega de balada do papai de Alvarinho, não é nenhum santo no puteiro e a discussão política no Brasil deve superar, para o bem de toda nação, a lógica pré-escolar do "o seu partido é mais corrupto do que o meu". Mas eu acho que os leitores da Veja não têm a capacidade cognitiva para entender isso. Para eles, o mundo se divide em dois pólos o "do bem" (nós / elite) e o "do mal" (eles / povo), e toda e qualquer pessoa que vota no PT é má, mesmo que seja um cara íntegro e honesto como Chico Buarque. Não foi à toa que um dos slogans de José Serra em 2010 foi "Serra é do bem".

Bogart e Bacall marchando em Washington, D.C.
contra o macartismo.
O serviço que a Veja presta ao país é semelhante ao do Senador republicano Joseph McCarthy nos EUA dos anos 1950. Foi de sua inquisição aos comunistas que surgiu o termo macartismo, que agora voltou à tona com a perseguição de Donald Trump a mexicanos e muçulmanos. No final da Segunda Guerra Mundial, conforme o mundo se tornava cada vez mais refém de uma ordem bipolar, Josef Stálin passava de "nosso companheiro" para "nosso inimigo" segundo a propaganda americana. Os roteiristas ligados ao Partido Comunista dos EUA deixaram de ser louvados por seus esforços de unir americanos e soviéticos na guerra para serem denunciados como anti-patrióticos. Afinal de contas, o que eles supostamente desejavam era promover uma Revolução Bolchevique que derrubasse o governo. Logo uma histeria tomou conta da sociedade americana. Dashiel Hammett, Lillian Hellman, Dalton Trumbo e até mesmo Lucille Ball, ninguém estava a salvo da sanha de McCarthy. Alguns, como Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tentaram reagir, mas foi o jornalista Edward Murrow da CBS o responsável por lembrar aos americanos que eles têm o direito constitucional de escolher o partido de sua preferência.

Aqui no Brasil, a cópia patética da CBS que é a Globo faz é alimentar o macartismo. Para o telespectador da Globo, a corrupção surgiu depois do escândalo do mensalão e só é praticada pelos membros de um único partido: o PT. A corrupção existe em todos os partidos, até mesmo no PSOL. É inerente aos grupos sociais. Ainda mais no sistema capitalista, onde o status é adquirido pela acumulação de riquezas. Ninguém diz: "já acumulei o bastante, agora vou parar". A intenção é ter (ou pelo menos parecer ter) sempre mais, porque é acumulando que se adquire status. No entanto, quando mais gente passa a ter (ou pelo menos mais gente parece ter) como é o caso do Brasil pós-PT, a elite se sente ameaçada. Ela só tem status na sociedade por causa do dinheiro. Enquanto o Bolsa Família estava sendo usado para comprar apenas comida, a elite estava tranquila. Quando uma mãe insinuou na televisão que estava usando o dinheiro para comprar calça de marca para a filha, a elite começou a ficar apreensiva. Era preciso, então, usar seu exército fiel que é a classe média (que respeita e obedece a elite porque deseja ser ela) para amedrontar as pessoas e instaurar o macartismo no país.

O que será desse país eu ainda não sei. Mas só sei que precisamos reagir. Já alertei para isso antes e continuarei alertando quantas vezes for preciso. "Ninguém pode aterrorizar uma nação inteira sem que todos nós sejamos seus cúmplices", disse Murrow certa vez. O silêncio dos bons é tão nocivo quanto os gritos dos maus, já dizia o reverendo Martin Luther King. Quem melhor descreveu o que está ocorrendo com o debate político no país foi o cineasta Cacá Diegues: "Esta cena de repressão nazista é um exemplo do que está acontecendo no Brasil: a absoluta intolerância. As discussões políticas estão indialogáveis. A disputa política se transformou em duelo. Eles não queriam argumentar, só xingar". Os playboys do Leblon temem que as conquistas sociais do Brasil se aprofundem e que logo a sociedade perceba os inúteis que eles realmente são para a coletividade. Não produzem nada, não geram emprego ou renda. Vivem da mesada de seus pais famosos. É preciso parar esse processo de "desindianação" do Brasil. Nem que seja através da calúnia, da difamação, da ameaça vermelha. Nem que seja no grito. Pois que gritem, então! De qualquer forma, vão entrar para a história do Brasil como Joseph McCarthy e seus colegas entraram para a dos EUA: como um bando de oportunistas histéricos.