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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A felicidade é grátis

No final de semana assisti ao documentário Happy (2011) no Netflix. Nele, o cineasta Rolo Belić busca, através de entrevistas com neurocientistas, psicólogos e pessoas comuns, desvendar o segredo por trás da felicidade. Cientificamente falando, o que torna um indivíduo feliz? Segundo os especialistas ouvidos no documentário, 50% da nossa felicidade é determinada por fatores genéticos, 40% é determinado por nossas ações individuais e 10% é determinado por fatores ambientais. Mas que ações são essas que podemos fazer para encontrarmos a felicidade? A principal delas é a prática de atividade física, que libera dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e cuja deficiência pode causar, dentre outros males, a doença de Parkinson.

E, socialmente falando, o que determina a felicidade? Definitivamente não é o dinheiro. Os americanos de 50 anos atrás, apesar de possuírem renda média muito inferior, eram mais felizes que os americanos de hoje. É inconcebível imaginar que pessoas que gastavam horas com tarefas consideradas simples hoje em dia - como lavar e passar roupa, fazer comida e limpar a casa - eram mais felizes do que nós. Mas é comprovado que, após supridas as necessidades básicas, como comprar comida e pagar as contas, o dinheiro deixa de ter efeito significativo sobre a felicidade de um indivíduo. Se é verdadeira a afirmação de que a felicidade não paga as contas, é mais verdadeira ainda a afirmação de que o dinheiro não compra a felicidade.

As pessoas felizes respondem mais facilmente às adversidades da vida e satisfazem mais suas necessidades intrínsecas do que as extrínsecas. Aceitar o fato de que adversidades vão acontecer é uma regra entre as pessoas mais felizes. Uma das entrevistadas, que foi miss durante a adolescência, teve parte do rosto paralisado após ser atropelada por uma picape. Ela diz que só conseguiu retomar sua vida após aceitar o que lhe ocorreu: "Eu percebi que não entendo [o ocorrido], mas não preciso entender". Desde então, conseguiu reconstruir sua vida e tornou-se uma pessoa feliz. Ter uma boa aparência era, no final das contas, uma necessidade extrínseca de seu ser, enquanto as necessidades intrínsecas envolvem o crescimento pessoal, as relações interpessoais e a vida comunitária. Quanto mais buscamos agir no sentido de suprir nossas necessidades intrínsecas, mais felizes somos.

Duas regiões mostradas no documentário, consideradas lares de pessoas felizes, valorizam justamente a vida comunitária: a Dinamarca e a ilha de Okinawa, no Japão. A Dinamarca, além de oferecer uma série de benefícios universais para seus cidadãos, como a saúde e a educação, ainda estimula a vida em conjuntos habitacionais, verdadeiras comunas onde as tarefas são divididas e o afeto idem. Já em Okinawa os cidadãos valorizam o ichariba chode, expressão que traduz o ato de tornar-se irmão de quem você acabou de conhecer, ajudando-o naquilo que ele precisar. De fato, todas as pessoas apontadas como felizes pelos pesquisadores, sem exceção, possuíam tinham proximidade com familiares e amigos. Não que se dessem bem com todos seus familiares, mas essa era uma característica comum.

Deve-se notar, no entanto, que nem todas as relações comunitárias levam o indivíduo à felicidade. Pessoas envolvidas em grupos religiosos radicais são tão infelizes quanto aquelas que não participam de comunidade alguma. Além disso, o ambiente de trabalho, apesar de comunitário, pode levar também à infelicidade. Na maior parte do Japão as pessoas trabalham tanto que são comuns os casos de infarto no trabalho, síndrome essa chamada de karoshi. Segundo o documentário, o Japão é o país mais infeliz do mundo industrializado. Isso se justifica historicamente. Após a destruição do país pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês mobilizou a mão-de-obra para reconstruir a nação e, para isso, criou uma cultura que valorizasse o trabalho árduo e a conquista de bens materiais.

Quanto às relações interpessoais, descobriu-se que ajudar os outros libera tanta dopamina no organismo quanto o consumo de cocaína. Trata-se da forma mais fácil, segura e barata de se ter um "barato". É comum ouvirmos de nossas mães que elas têm prazer de cuidar de nós. Eu nunca entendi muito bem isso, até agora. Ao cuidar de seu filho, uma mãe recebe um fluxo maior de dopamina em seu organismo que se tivesse fumado maconha. E, segundo os cientistas, é algo quase que natural. Se precisarem escolher entre a competição e a cooperação, os indivíduos escolhem sempre a última opção. Segundo o Dalai Lama, são nossas mães que nos transmitem a compaixão. Nascemos e, instintivamente, a primeira coisa que ela faz é nos amamentar, como se a compaixão estivesse no sangue dela.

Nosso mundo está cheio de pessoas ansiosas, depressivas, insatisfeitas com a vida e, consequentemente, infelizes, devido ao fato de que o sistema econômico vigente na maior parte do planeta não valoriza a realização pessoal. Devemos ter coisas para sermos alguém e, quando não conseguimos acumular bens materiais, nos frustramos. E, mesmo que tenhamos coisas, somos comparados com pessoas que têm mais o tempo todo, pois a essência do capitalismo é a competição. Pensando nisso, o pequeno Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia, decidiu parar de destruir seu meio-ambiente para seguir as metas econômicas impostas por organismos internacionais e decidiu criar seu próprio medidor de desempenho: a Felicidade Interna Bruta, que substituiu o Produto Interno Bruto.

Ainda não é possível dizer se a experiência butanesa foi bem sucedida, mas é uma bênção o fato do país ter invertido a ordem econômica vigente, priorizando a manutenção dos recursos naturais para garantir o bem-estar de seu povo. Na pequena nação a lei determina que 60% de seu território será sempre composto por florestas. Poderia-se, por exemplo, construir hidrelétricas e vender o excedente de energia para a Índia, mas a que custo? Um custo altíssimo para a qualidade de vida da população. Ao garantir o direito à felicidade inscrito na Constituição americana, mas nunca encarado como uma obrigação pelos governos daquele país, as nações podem caminhar rumo à paz social. Pessoas felizes não  roubam, não matam e não descontam suas frustrações de ordem pessoal nas outras pessoas em geral.

Ao nos focarmos mais no que nós esperamos de nós mesmos do que naquilo que a sociedade espera de nós - o dinheiro, o status social e a aparência física (as tais das necessidades extrínsecas) - poderíamos construir uma comunidade mais feliz e, consequentemente, uma sociedade mais harmoniosa. Não precisaríamos agir de modo anti-ético, o que envolve desde a corrupção generalizada em todas as classes sociais do Brasil até o assalto à mão armada, passando pela interminável pilhagem de terras indígenas, para atingir nossos objetivos, que seriam verdadeiramente nossos e não da sociedade. Se você acha que precisa eliminar alguém para atingir a felicidade, então provavelmente aquilo que você busca não é a felicidade, pois esta envolve, conforme dito anteriormente, as necessidades intrínsecas do ser humano (atingir metas pessoais, viver em comunidade e manter relações interpessoais).

"As coisas que geram a felicidade são grátis e, quanto mais alguém é feliz, mais todos são felizes", conclui Belić no final de seu documentário, 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"É dever do artista refletir o espírito do tempo em que ele vive"

A autora da frase que serve de título para esse texto é a cantora e compositora estadunidense Nina Simone. Está em cartaz no Netflix um documentário sobre sua brilhante e turbulenta vida, What Happened, Miss Simone? Como toda boa obra audiovisual, deixou minha mente a mil quando terminei de assistir. Vou explicar porque, mas primeiro, caso você não queira spoilers aconselho que pare de ler o texto aqui. Eunice Waymon (nome verdadeiro da cantora) começou a tocar piano ainda na infância, nos cultos pentecostais que sua família frequentava. Ao ser vista por uma senhora branca, professora de piano, essa resolveu ensinar-lhe os clássicos da música. Ela queria que Eunice se tornasse a primeira pianista clássica "de cor" dos Estados Unidos. No entanto, seu sonho foi destruído pela segregação racial. E isso, aliado à repressão religiosa, transformou Eunice em Nina Simone.

Inicialmente, Nina Simone (o nome artístico veio do espanhol niña e da atriz francesa Simone Signoret) cantava baladas românticas, influenciada pelo marido, um ex-chefe de polícia controlador. Todos os aspectos da vida da cantora eram controlados pelo marido, que a mantinha subjugada através de surras e até mesmo agressão sexual caso ela não o obedecesse. No início dos anos 1960, no entanto, simultaneamente à ascensão de Nina ao estrelato, os Estados Unidos vivia o início do Movimento pelos Direitos Civis. Nina, que negou suas raízes desde o início, sentiu-se acolhida por pessoas como Malcolm X (de quem era vizinha), Dr. Martin Luther King e tantos outros ativistas e artistas que refletiam o zeitgeist daquele momento. Presa a um casamento miserável, ela enfim achou uma maneira de ser feliz. Escreveu "Mississippi Goddam" e se tornou cada vez mais uma cantora de protesto.


Só que isso lhe custou o sucesso comercial. Ao expressar seu verdadeiro espírito - livre - foi acusada de ser radical demais. Logo ela, que foi oprimida a vida toda: pela religião, por ser negra no Sul racista, por não poder se expressar abertamente sobre o que pensava sobre ser negra nos Estados Unidos e, principalmente, por ser oprimida e abusada pelo marido. É como aquele aforismo atribuído ao escritor alemão Bertolt Brecht: "Falam que o rio que tudo arrasta é violento, mas nada dizem das margens que o oprimem". A impressão que tive de Nina é que ela nasceu no tempo errado, no lugar errado e com a cor de pele errada. Tivesse nascido sob outras circunstâncias, teria conseguido a felicidade que apenas a liberdade poderia propiciar a um espírito livre como ela.

O estopim, para a cantora, foi quando assassinaram o Dr. Martin Luther King. Nina deixou a aliança na mesa de centro e partiu para a Libéria, país fundado no século XIX como colônia para escravos libertos do sul dos Estados Unidos. Lá, finalmente pôde experimentar a felicidade que um espírito livre só consegue ao ser desamarrar das correntes que a sociedade nos impõe. Entendo perfeitamente isso. Assim como Nina, sinto que não nasci no lugar ou no tempo certo. A explicação que os meus amigos espíritas me dão é que eu sou um espírito evoluído demais. Voltando ao documentário, Nina precisava de dinheiro para sobreviver, como qualquer um que vive nesse sistema nefasto chamado capitalismo.

Foi em Paris que ela tentou retomar a carreira. Sem controle emocional e sem empresário, ela se vê no fundo do poço, fazendo apresentações em verdadeiras espeluncas. Com a ajuda de amigos que moravam na cidade, ela consegue se reerguer. Muda-se para a Holanda e, ao ser visitada por um médico, é diagnosticada com transtorno bipolar. Começa a tocar piano novamente e, impulsionada por uma propaganda da Chanel que usou uma de suas composições, volta a fazer shows para grandes públicos. Mudou-se para o Sul da França no final da vida e, dois dias antes de morrer, aos 70 anos de idade - ironias da vida - recebeu um diploma honorário da instituição que lhe recusou o sonho de ser a primeira pianista clássica "de cor" dos Estados Unidos.

Isso aqui é apenas um pequeno resumo da experiência magnífica que tive ao assistir o filme. Recomendo que assistam e tentem absorver o máximo dele. Vale muito a pena!