Mostrando postagens com marcador segregação racial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador segregação racial. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Calem a boca, brancos!

De todas as asneiras que eu li nesse dia da consciência negra, a maior veio da Ana Paula do Volêi, que abdicou da aposentadoria como uma das melhores jogadoras do país para virar animadora de torcida do golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff no Twitter. Segundo ela, os negros não devem honrar a memória de Zumbi dos Palmares. É isso mesmo: uma pessoa branca, completamente alheia ao que significa ser negro no Brasil, quer dizer aos negros quem eles devem ter como herói de sua libertação. E o ídolo proposto por ela aos negros brasileiros sequer é brasileiro.

Crianças africanas libertadas de um navio negreiro em 1868.
Como a escravidão já havia sido abolida nos EUA, elas
provavelmente estavam vindo para o Brasil.
O líder quilombola Zumbi dos Palmares (1655–1695) pode até ter sido o monstro estuprador de mulheres e escravizador de pessoas, como faz crer uma direita iletrada que aprende história com Leandro Narloch, que se quer é historiador. É até provável que ele não buscasse a libertação de todos os negros e sim apenas reproduzir sua sociedade africana — que também mantinha relações de escravidão — no território liberto de Palmares, no atual estado de Alagoas. Mas é praticamente impossível que Zumbi tivesse cometido as mesmas atrocidades que qualquer homem branco de seu tempo.

A crueldade já começava na África, durante a captura dos escravos. Os negros eram tirados do convívio de suas famílias e perdiam filhos, cônjuges, pais, irmãos, tios, primos, avós. Eles eram acorrentados pelo pé e enfiados nos porões escuros de navios onde amontoavam-se até 600 pessoas num espaço de 300–360 metros quadrados em média. Sem ventilação, a temperatura dentro dos navios negreiros podiam atingir os 50°C, o que propiciava o surgimento de doenças como disenteria e escorbuto. Dos vinte milhões de africanos que foram colocados nesses navios, três milhões jamais chegariam ao continente americano.

Ser transportado como carne a ser exportada era apenas o começo do martírio dos negros. Quando chegavam no litoral brasileiro, eram vendidos em mercados de escravos, como o Cais de Valongo, no Rio de Janeiro, e marcados a ferro quente para indicar a quem pertenciam. Este procedimento causava infecções que muitas vezes levava à morte dos escravos. Nas fazendas, as torturas eram ainda mais intensas e sádicas. O negro — constantemente vigiado e punido pelos feitores — deveria aceitar a escravidão caso não quisesse morrer no açoite.

A condição do negro de membro subalterno da sociedade brasileira era reforçada até nos pequenos aspectos. Ele era obrigado a mudar seus costumes e assimilar e venerar o Deus dos brancos 
— que, embora tivesse surgido no Oriente Médio, foi embranquecido pela Igreja Católica, que fazia vistas grossas para o tráfico negreiro — e açoitado se não o fizesse. Foi assim que surgiu o sincretismo religioso que uniu o culto aos orixás aos santos católicos, ainda hoje forte em regiões litorâneas do país, apesar da forte investida contra das igrejas evangélicas.

O negro que se recusasse a ser inferiorizado pelos brancos, para os quais era obrigado a trabalhar de graça, era colocado no tronco (nas fazendas) ou no pelourinho (nas cidades) e espancado com chicotes, varas ou barras de ferro. Os outros negros eram forçados a assistir o que acontecia com quem não se dobrasse à escravidão. Após a sessão de espancamento, jogava-se sal sobre as feridas do escravo "insubordinado" para que elas não cicatrizassem e ele e os demais pudessem sempre ver qual era o preço da insubmissão. Ele era mantido preso, servindo de "exemplo" até que o senhor de engenho tivesse misericórdia dele.

Segundo os brancos, os negros deveriam receber os três Ps: pano, pão e porrada. Muitos, devido ao excesso de tortura, eram acometidos pelo banzo, um sentimento de melancolia que levavam-nos ao suicídio, comumente praticado por greve de fome ou geofagia (ingestão de terra). Muitos acreditavam que a África esperava-lhes após a morte. O suicídio entre escravos era duas ou três vezes maior do que entre os homens livres. Também mais comum entre a população negra do que a branca era a prática de aborto e infanticídio. As mães negras preferiam ver seus filhos mortos do que passando pela mesma privação de liberdade pela qual elas passavam.

Augusto Gomes Leal com sua ama-de-leite
 Monica
(1860). Foto de João Ferreira Villela.
Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro,
"o Brasil inteiro cabe nessa foto".
Os brancos não tinham mais misericórdia delas por elas serem mulheres. As negras eram frequentemente estupradas pelos senhores. Daí surge o nosso povo mestiço: da violência sexual contra as negras. Como muito bem defendem as feministas, o estupro não tem a ver com sexo e sim com poder e hoje o Brasil é um país mestiço porque os brancos violavam o corpo das negras para reafirmar seu poder sobre os escravos. Não bastasse o estupro das mulheres dos negros, os senhores de engenho ainda colocavam cintos de castidade neles, para que eles reproduzissem quando esses quisessem.

A tortura da mulher negra não parava por aí. Elas eram atacadas até em sua maternidade. Quando nascia uma criança na casa-grande, pegava-se uma negra da senzala que estivesse amamentando para servir de ama-de-leite para o filho do senhor e da senhora de engenho. Esta não podia ocupar-se de uma tarefa tão banal quanto amamentar seu próprio filho. A criança negra desmamada era privada do leite e do convívio de sua mãe, o que muitas vezes resultava em sua morte. Em alguns registros, é perceptível a saudade do filho no olhar duro das amas-de-leite para a câmera.

A vida na senzala não era uma colônia de férias, embora existam empresários criando colônia de férias inspirada na experiência brutal dos negros que foram escravizados no Brasil. Isso eu falo sem muita propriedade sobre o assunto. Sei pouco sobre a história colonial desta nação, mas penso que todo brasileiro — negro ou não — deveria saber e se envergonhar do que esse país fazia com os negros até 129 anos atrás. Está tudo documentado, assim como a presença da escravidão nos quilombos que, segundo alguns autores, em pouco se assemelhava à escravidão de negros por brancos.

Ao invés de acreditar em quem de fato pesquisa a história do Brasil, a maioria das pessoas preferem acreditar em quem tem pouca ou nenhuma propriedade para falar sobre esse assunto — graças à mídia, em grande medida, que abre espaço para figuras como a aposentada do vôlei falar sobre um tema que não lhe diz o mínimo respeito. Assim sendo, não só não conhecemos o martírio dos negros no Brasil como ainda não nos envergonhamos por ele. É o caso da minha avó que, aos noventa anos de idade, escreveu um livro onde conta que sua avó materna ganhou escravos de presente de casamento sem nenhum pudor.

Quem somos nós — brancos que não conhecemos nossa própria história — para dizer aos negros quem eles têm que ter como símbolo de luta? Calem a boca, brancos! Quem tem propriedade para dizer quem representa a luta pela libertação dos negros são os negros. Ou, no mínimo, pessoas que estudam a história afro-brasileira e não uma ex-jogadora de vôlei ou um ex-jornalista da desonesta revista Veja que decidiu escrever "história pop" para entrar na lista dos mais vendidos daquela publicação. Resta a nós, pessoas pouco entendidas sobre o assunto, reconhecermos nossa ignorância e calarmos nossas bocas — que só não passaram fome devido aos privilégios que este país historicamente dá a seus cidadãos de pele branca — e respeitar o povo negro, sua história, sua luta e seus ícones.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Não sou negro, mas não sou cego

Fevereiro é o Mês da História Negra nos Estados Unidos e no Canadá. A data foi proposta em 1926 pelo historiador negro Carter G. Woodson. Desde o final do século XIX, os negros comemoravam o aniversário de Abraham Lincoln (12 de fevereiro), o presidente que os liberou do cativeiro da escravidão, e do líder abolicionista Frederick Douglass (14 de fevereiro). Assim sendo, Woodson propôs que a segunda ou a terceira semana de fevereiro fosse comemorada como Semana da História Negra. Em 1976, o Mês da História Negra foi oficialmente reconhecido pelo então presidente Gerald Ford e, desde então, várias atividades são realizadas no país para homenagear a contribuição dos negros para a sociedade norte-americana, sobretudo nas escolas.

Acho louvável a proposta. Não possuo ascendência negra — não que eu saiba —, mas julgo ser de extrema importância conhecer a história e, sobretudo, as lutas do povo negro. É o conhecimento que evita que eu seja mais um ignorante repetidor de chavões. Mesmo que a história negra não seja a minha história, busco conhecê-la para entender como opera o racismo em nossa sociedade e a quem ele favorece. E também para questionar minha própria posição nessa sociedade dividida por raças e como a cor da minha pele me favorece em detrimento a outras pessoas, pelo simples fator biológico de que elas possuem mais melanina em seus organismos. Mesmo que eu não seja um branco puro, fui favorecido na loteria biológica e isso faz toda a diferença num país como o Brasil.

Não hesito em dizer que o Brasil é a sociedade mais racista do Hemisfério Ocidental. Os negros são caçados como animais nas favelas e, embora tenhamos uma população negra imensamente superior àquela dos EUA, jamais tivemos aqui pessoas da expressão de Barack Obama ou Oprah Winfrey. A classe média negra no Brasil é imensamente inferior àquela dos EUA. E se os marxistas brasileiros criticam a Beyoncé por oferecer uma resposta de classe média ao problema do racismo, sequer temos Beyoncés por aqui. O racismo no Brasil não é casual. Não começou ontem e não é um fenômeno difundido entre os menos instruídos. Desde 1526, quando os portugueses começaram a trazer negros à força para cá, o racismo favorece às mesmas pessoas que mandavam na sociedade brasileira naquela época.

Isto é algo que deveria ser dito sempre, toda vez que um negro sem passagens pela polícia fosse assassinado pela PM. Mas não é. Porque afirmar que o racismo é a pedra fundamental sobre a qual nossa sociedade foi fundada é como tornar o Brasil menos Brasil. Mas o conhecimento traz à tona a verdade, derrubando os mitos da democracia racial ou de que o Brasil é menos racista do que os EUA. A segregação aqui nunca foi legalizada, mas ela é visível. Os prédios possuem elevadores de "serviço" e babás negras são obrigadas a vestir uniformes. O Brasil acha que não precisa de um Mês da História Negra porque julga não possuir um problema racial, embora em muitos aspectos o racismo à brasileira seja ainda mais sentido e evidente do que o racismo à americana. Negar os problemas não os fará sumir. Conscientizar-se sobre eles, por outro lado, talvez nos ajude a entendê-los e propor soluções para os mesmos. Não sou negro, mas também não sou cego.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não podemos ter tempo para o ódio

Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao terrorismo?
Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao fanatismo?
Você e eu em paralelo
Você e eu, somos a chave
(Ofra Haza — "Middle East")

Uma de minhas cantoras favoritas é a israelense Ofra Haza. Nascida em 1957 numa periferia de Tel-Aviv, é a mais nova de nove filhos de Yefet e Shoshana Haza, um casal de imigrantes do Iêmen. As oportunidades eram escassas para os jovens do bairro de Hatikvah, negligenciado por sucessivos governos israelenses, sendo o teatro uma das poucas portas de saída da pobreza. Assim sendo, aos doze anos de idade Ofra se juntou a uma trupe de teatro local gerenciada por Bezalel Aloni, que mais tarde se tornaria seu empresário. Em 1979 ela atingiu o sucesso nacional após protagonizar o filme Schlager, sendo a canção "Shir Ha'frecha", que interpretou no  longa-metragem, um de seus primeiros sucessos. Após lançar três álbuns com o Shechunat Hatikvah Workshop Theatre, Haza finalmente se tornou conhecida o suficiente para lançar seu primeiro disco solo aos 22 anos de idade.

Ofra Haza
Em 1983 Ofra derrotou Yardena Arazi num concurso para representar Israel no Festival Eurovisão. Ela interpretou "Chai", canção escrita por Ehud Manor em homenagem aos atletas israelenses mortos por terroristas árabes nas Olimpíadas de 1972 em Munique, mesmo local em que era realizado o festival. A despeito da resistência que enfrentou de parte da própria sociedade israelense, que se incomodava com sua origem operária e seu sotaque típico de judeus oriundos de outros países do Oriente Médio, Ofra conquistou para Israel uma de suas melhores colocações no festival (o segundo lugar). Em 1988, despontou na Europa e na América do Norte com um remix de "Im Nin'alu", canção tradicional dos judeus iemenitas, composta no século XVII pelo rabino Shalom Shabazi. Ofra atingiu o Top 10 de oito países e o álbum Shaday, que continha o hit, vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

No auge de sua carreira, Ofra Haza se apresentava na Europa e nos EUA, apareceu no Tonight Show de Johnny Carson e se tornou a primeira israelense a ser indicada a um Grammy em 1993. No ano seguinte, cantou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Apesar do sucesso, Ofra estava dividida entre a carreira profissional e o desejo de sua mãe de que ela formasse uma família, conflito este retratado na canção "Ya Ba Ye", que compôs com Aloni e gravou em 1989 no álbum Desert Wind. Em 1997, sucumbiu à pressão familiar e se casou com o empresário Doron Ashkenazi. Entretanto, ela não só não conseguiu engravidar como ainda teria sido infectada com o vírus da AIDS pelo marido. A doença ainda era alvo de forte estigma na sociedade israelense e, envergonhada de sua condição, Ofra optou por não buscar tratamento médico.

A morte da jovem cantora, aos 42 anos de idade, pegou a todos de surpresa em 2000. Afinal de contas, em 1998 ela havia gravado a canção "Deliver Us" para a animação O Príncipe do Egito, o que significava que as portas de Hollywood estavam se abrindo para ela. Sua morte foi destaque na CNN, sendo uma das poucas, se não a única cantora israelense a ser destaque no canal de notícias. A decisão do jornal Ha'aretz de divulgar a causa da morte de Ofra foi polêmica. Tanto Aloni quanto a família da cantora acusaram Ashkenazi de ter transmitido a doença para a esposa. O viúvo, sob intenso escrutínio da mídia, se defendeu dizendo que Ofra contraiu a doença após uma transfusão de sangue num hospital turco. A família Haza e o viúvo disputaram entre si o espólio da cantora até que Ashkenazi morreu de uma overdose de metanfetamina em 2001.

Além do inglês, Ofra Haza gravava tanto em hebraico quanto em árabe, idioma de seus pais. Em 1984 lançou o álbum Yemenite Songs que incluía canções tradicionais dos judeus iemenitas. Apesar de ser bem vendido, foi boicotado por algumas estações de rádio por ser interpretado em árabe. Apesar disso, a canção "Galbi" foi remixada e fez sucesso nas pistas de dança da Inglaterra, abrindo caminho para o sucesso de "Im Nin'alu" na Europa. Algumas das canções de Ofra, como "Eshal" ou aquela que escolhi para introduzir este post, estendem a mão aos palestinos. Algo que pouquíssimos cantores israelenses fazem hoje em dia. Ofra Haza é o retrato de um Estado de Israel que não existe mais — para o bem (como no caso dos costumes que evoluíram) e para o mal (como no aumento da segregação racial). Deve ser por isso que gosto tanto dela.


Em seu último álbum, epônimo, lançado em dezembro de 1997, Ofra canta que não tem tempo para o ódio. O que mais vejo nos dias de hoje são pessoas arranjando tempo para odiar outras pessoas. Por mais atarefadas que estejam, sempre sobra um tempinho na agenda para manifestar seu ódio. E não apenas em Israel, infelizmente. Em relação ao século passado, a islamofobia tomou o espaço do antissemitismo e a homofobia do racismo. Já o preconceito de classe, esse nunca sai de moda enquanto for mais importante entrar nos portões dos ricos do que no de Deus. Mudam os tempos, mudam os personagens, mas não muda a perseguição e nem o ódio. Nesses tempos de cólera em que vivemos, a música de Ofra Haza me traz um pouco de paz e de esperança, tão difíceis de se encontrar ultimamente. Ela me ensina que não podemos ter tempo para o ódio.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

As lições de American Crime Story

Na última terça-feira, enquanto o Brasil se entorpecia com mais uma final de Big Brother, a América — ou pelo menos parte dela — revivia seus traumas do passado. Naquela ocasião o canal a cabo FX exibiu o último episódio de "The People vs. O.J. Simpson", a primeira temporada da série antológica American Crime Story. Em outubro próximo ocorrerá o 21° aniversário dos eventos retratados naquele episódio, ou seja, a sessão judicial que absolveu o ator e ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, acusado de matar sua esposa Nicole Brown e depois o amigo dela, Ronald Goldman, que teria presenciado o crime por acaso. A família Goldman insiste que Ronald morreu tentando salvar a amiga das garras do marido abusivo.

Quando o "julgamento do século" chegou ao desfecho eu estava a um mês de completar 6 anos de idade. O seriado trouxe à tona para minha geração aquele caso criminal e suas implicações morais e, sobretudo, raciais. De um lado, haviam pessoas lutando pela verdade fatual e pela justiça. De outro, pessoas canalizando seu ódio contra uma polícia genocida e uma promotoria que fazia vistas grossas a isso num homem que sequer se identificava como negro. No meio disso tudo, uma nação dividida em barreiras raciais bem definidas — embora sou inclinado a crer que também existia uma barreira entre misóginos e não-misóginos. A violência policial que hoje aparece escancarada em vídeos de celulares à época só chegou ao público devido a este julgamento, que não tinha nada a ver com isso.

Apresentar a questão racial foi uma estratégia da defesa para tirar o foco do júri dos assassinatos. Mas o que isso mudou para os negros? Numa cena crucial do episódio final, o promotor negro Chris Darden indaga o advogado de defesa Johnnie Cochran, também negro: "O que você conquistou para nós? Este caso não é um marco dos direitos civis. A polícia vai continuar nos espancando e matando. Você não mudou nada para os negros de Los Angeles. A não ser, é claro, aquele rico que mora em Brentwood". Por mais simpático que alguém pudesse ser às questões de racismo sistêmico apresentadas pela defesa, é preciso colocar em primeiro plano que dois seres humanos foram mortos e que haviam provas mais do que suficientes para condenar O.J. pelos assassinatos.

A cena emblemática do Oprah Winfrey Show foi
reprisada no episódio.
Que o júri tenha eleito O.J. cause célèbre da violência contra negros na polícia — quando na verdade ele foi tratado a pão-de-ló pelos detetives — foi o que causou a expressão de espanto na cara da apresentadora Oprah Winfrey quando foi informada do veredito. Uma injustiça histórica cometida contra os negros, da qual O.J. sequer foi vítima ele próprio, foi reparada simbolicamente às custas de dois cadáveres. Mais tarde, um julgamento cível confirmou a responsabilidade de O.J. pelas mortes de Nicole e Ronald. O espetáculo jurídico montado pela defesa incluiu manipular uma das cenas do crime visitadas pelo júri — a mansão de O.J. — para mostrar-lhe como mais orgulhoso de suas origens negras do que ele realmente era.

Pode-se culpar a defesa? A defesa vai fazer aquilo que for preciso para libertar seu cliente. Boa parte da pirotecnia jurídica só foi possível graças ao juiz Lance Ito que, em nome de um suposto interesse público, permitiu que o julgamento fosse filmado e transmitido ao vivo na televisão. Era tudo o que a defesa precisava para incitar os negros dos Estados Unidos e, em especial, de Los Angeles a ficar ao lado do irmão O.J., supostamente uma vítima da polícia racista como eles próprios. A maior preocupação das autoridades era que a condenação do ex-jogador de futebol levasse a uma nova destruição de lojas e casas como nos distúrbios ocorridos em 1992 após a absolvição do policial acusado de espancar Rodney King. Caso O.J. tivesse sido condenado e um novo distúrbio tivesse ocorrido, a culpa seria toda de Ito.

No entanto, o veredito foi diferente e Ito foi menos responsabilizado pela absolvição do que os promotores. Um dos pontos positivos do seriado foi justamente recuperar a imagem de Marcia Clark e Chris Darden. No episódio final foi revelado que Clark decidiu entrar para o Escritório da Promotoria devido a um trauma do passado, justamente para ajudar mulheres vítimas da opressão do patriarcado como Nicole; Clark foi abusada aos 17 anos de idade e seu estuprador jamais foi preso. Ela era vista como uma profissional dedicada, sobretudo contra agressores de mulheres. No entanto, por ser uma mulher num universo majoritariamente masculino, enfrentou as mais duras críticas durante o julgamento de O.J. Críticas às quais seus colegas do sexo masculino ficaram imunes.

Seu jeito de falar, de se vestir e até mesmo seu corte de cabelo foram alvo de escrutínio público. Imagine que você está no meio de um julgamento que pode definir sua carreira, tentando fazer justiça em nome de duas famílias, quando é informada pelo seu chefe de que seu ex-marido vendeu fotos de você nua para um tabloide. Marcia Clark teve que passar por isso. Só que há 21 anos atrás, quando ninguém via problema nisso. Slut-shaming sequer era um conceito existente naquela época, em que chamar uma mulher em posição de poder de "vadia" era comum. Descobrindo o até então desconhecido lado humano da promotora, revelado pela série, várias pessoas desculparam-se a ela pelo Twitter. Ellen DeGeneres mostrou as mensagens à verdadeira Clark em seu programa  e ela marejou os olhos.

Espero que a História seja um juiz mais imparcial de nossas
líderes femininas do que nós. Para Marcia Clark foi.
Talvez não seja tarde para pedirmos desculpas para nossas mulheres em posição de poder aqui no Brasil. Levou 21 anos para o grande público americano perceber que foi manipulado por uma farsa jurídico-midiática e que agiu de uma maneira sexista contra uma mulher que não inventou um sistema cheio de falhas. Marcia Clark apenas trabalhava para esse sistema, tentando tirar o melhor dele para os cidadãos que precisavam de sua ajuda. Ela ficou tão enojada quanto qualquer um ao descobrir o nível de racismo existente nas instituições com as quais trabalhava. Hoje as pessoas percebem isso e pedem-lhe desculpas. Se não for possível pedir desculpas a nossas mulheres — e tendo a crer que não será num futuro tão próximo — espero que pelo menos a História seja um juiz mais imparcial de nossas líderes femininas do que nós estamos sendo. Pelo menos para Marcia Clark foi.

terça-feira, 8 de março de 2016

"Os judeus elegeram Hitler"

Adoro um título provocativo. Este, no entanto, aparece entre aspas por se tratar da fabulação mais incrível que eu já ouvi em toda a minha breve existência. No final do ano passado o professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Karnal escreveu que jamais imaginou que ouviria um impropério tão grande quanto aquele que ouviu no ano da Primavera Amarela, segundo o qual o nazismo é uma ideologia de esquerda. Tal teoria, marginal até o surgimento do Tea Party nos Estados Unidos e amplamente difundida através das redes sociais, já é antiga conhecida minha. Desde os tempos de Orkut ouço, ou melhor, leio isso. O que realmente me chocou na versão atual do Festival de Besteiras que Assola o País foi ouvir que os judeus elegeram Adolf Hitler para o cargo de chanceler da Alemanha. Esta teoria encontra eco em fóruns de discussões de "orgulho branco" (me recuso a ligar os links aqui e sujar meu blog com literatura pseudo-científica), que tentam responsabilizar os judeus, de uma forma ou de outra, pelo seu próprio genocídio.

Que a neodireita brasileira não presta atenção alguma nas aulas de História do Ensino Médio já tornou-se uma constatação inegável até mesmo para a direita erudita, envergonhada das faixas erguidas pelos camisas-amarelas nos protestos anti-PT. Entretanto, reimaginar acontecimentos históricos eleva a histeria para o nível do delírio; é como querer provar que 2 + 2 = 5. A despeito do que os membros do Partido orwelliano (que cresce como nunca antes no Brasil) possam pensar, o que já aconteceu – e, portanto, já foi historicamente testado e provado – é uma realidade concreta que não pode ser mais passível de modificações. A opinião pessoal do historiador é nula quando os fatos históricos são documentados. Pode-se divergir, por exemplo, do número total de mortos nos campos de concentração, mas o que os registros históricos da Alemanha Nazista mostram são campanhas de internação compulsória das populações vistas como inferiores, assim como fotos e vídeos feitos pelos Aliados mostram milhares de corpos empilhados em Auschwitz e demais abatedouros de seres humanos.

No Hospital Judeu de Berlim, onde nem todos os pacientes eram
judeus, os sociais democratas tiveram 44% dos votos em 1932
.
Que parte significativa da classe trabalhadora brasileira vota contra seus próprios interesses já é de conhecimento até do mundo mineral. Sim, Dilma traiu os operários que reelegeram-na. Não nego isso. Mas trocar o PT pelo Jair Messias Bolsonaro (esse é o nome dele) não me parece a atitude mais sensata a ser tomada pelos membros da classe oprimida. Mas isso é recorrente na História brasileira. Antes mesmo do PT virar a fonte de todo o mal e o bode expiatório da corrupção na política, o falecido cantor e compositor Tim Maia já havia cunhado um dos grandes aforismos nacionais: "o Brasil é o único país do mundo em que prostituta apaixona, cafetão sente ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita". Parece-me que inventar (ainda mais uma) fábula sobre os judeus ajuda os brasileiros pobres a racionalizarem sua escolha suicida pela extrema-direita. Acreditando nessa fábula podem votar em quem quer exterminá-los sem culpa ou remorso. Afinal de contas, até mesmo os judeus teriam feito isso! Só que o fato é que eles não fizeram. É o que dizem pesquisadores que ouviram sobreviventes do Holocausto e cruzaram dados censitários e eleitorais da Alemanha pré-Hitler.

Segundo The Jews in Weimar Germany, obra de Donald L. Niewyk, professor de História contemporânea da Europa na Universidade Metodista do Sul (EUA), "com o desaparecimento de quase todos os partidos moderados de classe média durante a Grande Depressão, os votos (e o dinheiro) dos judeus ficaram disponíveis. Os principais competidores eram os partidos de Centro e Social Democrata, ambos com histórico de apoio ao sistema republicano e de denúncia da judeofobia". Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o controle da Alemanha, o Partido de Centro, de orientação católica, fez campanha para conseguir o voto dos judeus, afirmando não se opor à educação religiosa num cenário cada vez mais laico. Segundo Niewyk, "a resposta foi positiva num amplo espectro da opinião judaica". O principal jornal da comunidade judaica, Israelitisches Familienblatt (Jornal da Família Israelita), fez editoriais a favor do partido, assim como organizações sionistas. No entanto, "a ligação do Partido de Centro com sionistas proeminentes pode ter prejudicado suas chances com os judeus de esquerda, que eram bem mais numerosos", alerta o pesquisador.

Sim, os judeus alemães eram de esquerda, mas não eram comunistas. Outra ideia amplamente divulgada nos fóruns de "orgulho branco" é que os judeus teriam causado o colapso da Alemanha ao votarem em massa no Partido Comunista, o que também não é verdade. "Os adultos judeus moveram-se para a esquerda moderada durante os últimos anos da República de Weimar", escreve Niewyk, que em seguida afirma que os jovens judeus foram atraídos pelo Partido Comunista. A reação dos grupos sionistas foi forte e orquestrada. Começaram a alertar os jovens para o perigo da "assimilação vermelha" e para os horrores cometidos contra os judeus por Josef Stálin – à época o líder soviético apostava numa campanha antissemita para perseguir o dissidente Léon Trotsky e seus seguidores. O editor do Israelitisches Familienblatt, Esriel Carlebach, foi vítima de uma tentativa de assassinato em 1933 após escrever uma série de artigos críticos ao tratamento dispensado pela URSS aos judeus; ele havia visitado o país no verão de 1932. Embora jamais tenha ficado claro se o perpetrador do ataque foi um comunista ou um nazista, este fato acabou afastando os eleitores judeus dos comunistas.

Pôster associando o comunismo ao judaísmo.
Niewyk nota que foi a esquerda moderada a responsável por eleger e nomear os primeiros funcionários públicos judeus. Pouco antes do colapso da República de Weimar os comunistas deixaram de apresentar candidatos judeus ao Parlamento. Foi uma forma que encontraram de contradizer a propaganda nazista, segundo a qual os judeus haviam se aliado aos bolcheviques para tomar o controle do mundo. Vendo-se preteridos pela extrema-esquerda e perseguidos pela extrema-direita, os judeus encontraram no Partido Social Democrata seu porto seguro. "O Partido Social Democrata, prejudicado perenemente [entre a esquerda] por cultivar uma imagem mais radical do que suas políticas,  conseguia o apoio dos judeus ao manter o proletariado relativamente livre do antissemitismo e por combater os nazistas mais militantemente do que qualquer outro", afirma Niewyk. Ele nota que o jornal ortodoxo Der Israelit (O Israelita), que até 1930 condenava o socialismo por causa de sua ligação com o ateísmo, aplacou o tom de suas críticas e, em 1932, recomendou voto no Partido Social Democrata ou no Partido de Centro.

Outro dado interessante é uma pesquisa feita por Arnold Paucker com cerca de cem sobreviventes judeus do Holocausto, a maioria dos quais haviam sido apoiadores de classe média do Partido Democrático até o declínio deste em 1930. Os resultados sugerem que, após 1930, cerca de 62% dos eleitores judeus votaram no Partido Social Democrata, enquanto 19% votaram no Partido do Estado (ex-Partido Democrático) e 5% no Partido de Centro. O pesquisador alerta que não conseguiu localizar um grande contingente de judeus da Bavária e que os habitantes de fé judaica deste estado conservador podem ter votado em massa no Partido do Povo da Bavária tanto antes quanto após o pleito de 1930. Niewyk, interpretando os dados da pesquisa do colega historiador, afirma que a falta de judeus de classe alta na pesquisa pode indicar que o católico Partido de Centro teve na verdade mais votos entre os judeus do que Paucker indicou. Isto nos leva até os dados de outro pesquisador, Peter Pulzer, que cruzou dados censitários e eleitorais. Ele confirma a preferência dos judeus pelo Partido Democrático até 1930 e afirma que os judeus ortodoxos e de áreas rurais preferiam o Partido do Povo da Bavária e o Partido de Centro durante os anos 1920. 

Pulzer analisou os resultados eleitorais de dezenove distritos onde os judeus constituíam uma maioria significativa segundo o Censo alemão – em especial nas cidades de Berlim, Frankfurt-am-Main e Hamburgo. Ele afirma, com a ressalva de que é difícil separar o votos dos judeus e dos gentios, que a minoria etno-religiosa continuou apoiando o Partido do Estado nas eleições locais, mas, ameaçados pela ascensão de um partido claramente antissemita ao poder central, passaram a apoiar o Partido de Centro e o Partido Social Democrata nas eleições federais. Niewyk escreve que, conforme indica Pulzer, a resposta dos judeus ao declínio da democracia e à ascensão do nazismo foi qualquer coisa menos irracional. Sim, eles subestimaram e interpretaram errado as ideias de Adolf Hitler, mas todo mundo na época também fez isso (muitos acreditavam que seus discursos antissemitas eram apenas retórica eleitoral). A título de curiosidade, vale notar a existência de uma Associação Alemã de Judeus Nacionalistas, que defendia a assimilação dos judeus pela cultura alemã. Posteriormente o grupo apoiou Adolf Hitler, mas sempre foi pouco significativo. Segundo a Wikipédia, tinha pouco mais de 3.500 membros num universo de 522.000 judeus (menos de 0,7% do total).

"Se ainda há quem imagine que os judeus alemães foram politicamente complacentes [com o nazismo], que fugiram para um mundo de fantasia onde o racionalismo iluminado e a simbiose perfeita reinavam, este livro deve convencê-los do contrário" – Niewyk, em resenha do livro de Pulzer.

De fato os judeus votaram em massa em Adolf Hitler – depois
que já estavam em Dachau.
É perfeitamente compreensível que alguns judeus tenham tentado assimilar a ideologia nazista como forma de escapar da perseguição oficial do Estado alemão. Uma matéria do jornal norte-americano The New York Times, datada de 20 de agosto de 1934, aponta isso. Com a morte do presidente Paul von Hindenburg no início daquele mês, Hitler realizou um plebiscito perguntando ao povo alemão se os cargos de presidente e chanceler deveriam ser unificados, o que lhe daria controle absoluto sobre o Estado alemão. "Cada opinião contrária foi suprimida", relata o correspondente do jornal, e Hitler foi sagrado führer da Alemanha com 90% dos votos. "Uma cédula continha a inscrição: 'como nada aconteceu comigo até agora, voto sim'. Estava assinada: 'não-ariano'." Não me parece o voto de um cidadão politizado e consciente, mas sim o voto de protesto irônico de um cidadão com tanto medo que sequer assinou a cédula. Os votos "sim" foram imensamente populares nas instituições judaicas. "Isso é explicável, é claro, pelo medo de repressão caso o resultado fosse diferente", diz o jornal, antes de afirmar que a maior votação de Hitler na Bavária havia sido no campo de concentração de Dachau.

Dito tudo isso, prefiro acreditar nas palavras dos professores Niewyk e Pulzer, assim como no correspondente do New York Times que esteve em Berlim para acompanhar a votação do plebiscito de 1934, do que em alguém que acredita em tudo aquilo que lê no Facebook. Numa época em que a comunicação se tornou extremamente rápida e eficiente, as palavras parecem sair da mente e se materializar na tela do computador sem reflexão alguma. O debate político agora se resume a 140 caracteres cheios de frases de efeito (as hashtags). Nesse cenário, explica-se porque um dado histórico falso é divulgado sem maiores questionamentos. É feio fazer a Glória Pires e assumir a falta de conhecimento em determinado assunto. Somos obrigados a opinar sobre tudo e, assim sendo, tornamo-nos especialistas em tudo sem sabermos absolutamente nada. Mas o problema é que é bem ofensivo dizer que milhões de judeus morreram porque eles mesmos teriam votado em Hitler como uma massa de manobra acéfala e suicida. Se é isso que desejam que os brasileiros façam, assumam. Não há necessidade de promover seu anseio às custas de 6 milhões de almas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ser cristão é rejeitar o Brasil?

O ano de 2015 vai entrar para a história do Brasil como o ano do maior FEBEAPÁ que já tivemos. Logo no início do ano, a extrema-direita, órfã de ídolos desde que a linha-dura do regime militar perdeu força, elegeu Jair Bolsonaro (PP-RJ) para representá-la. O deputado havia dito, no plenário da Câmara dos Deputados, que não estupraria Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não merece. Em seguida, na ressaca do carnaval, ocorreu o primeiro ato pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Cada faixa era um atestado de ignorância e incivilidade. "Por que não mataram todos em 1964?", "Fora Paulo Freire", "Somos milhões de Cunhas", "País rico é país onde rico manda, porque os ricos não precisam roubar", "Sonegação não é corrupção", etc., etc., etc., para não falar das hilárias faixas em inglês produzidas com a ajuda do Google Tradutor. Bem lúdicos, os protestos inovaram ao introduzir às manifestações de rua bonecos infláveis gigantes e coreografias elaboradas. Na Ucrânia, no Egito, na Tunísia, países onde a democracia de fato estava ameaçada, não deu tempo de promover flash mobs nem desfiles da Macy's contra o governo. Os manifestantes desses países também não tiveram tempo de tirar selfies com a polícia, pois estavam muito ocupados correndo dela.

O tradicional desfile de ação de graças da Macy's de 2015
contou com a presença de dois novos personagens.
Ficou claro para mim desde o início dos protestos contra Dilma que os valores nutridos pela sociedade brasileira são os piores possíveis. O brasileiro médio é ignorante (para não dizer imbecil): é a favor do policiamento genocida que mata suspeitos ao invés de investigar os crimes; tem pavor a experiências educacionais libertárias (embora Paulo Freire seja o segundo autor mais lido nos cursos de pedagogia dos Estados Unidos, país que tanto admira); vê toda e qualquer iniciativa distributiva do capitalismo, por menor que seja, como "comunismo"; acha que os problemas sociais se resolvem na delegacia e que grupos historicamente oprimidos como mulheres, indígenas, LGBT e negros são "vitimistas". O brasileiro médio acha que a história do país começou em 2003, quando o PT assumiu o governo federal e decidiu endereçar injustiças históricas. "O PT destruiu o Brasil". Claro, porque nossa nação era uma maravilha antes de Lula assumir a presidência. Esqueça que uma criança morria de fome a cada 5 minutos no país. A história não é um continuum. A corrupção não é um legado da colonização portuguesa, o racismo não é consequência da abolição mal feita e a violência policial nada tem a ver com a ditadura militar. Todos os problemas do Brasil se resumem ao PT ocupar a presidência da República.

O fato é que as ideias do capitalismo liberal triunfaram no Brasil, país tão rico quanto o Reino Unido e tão desigual quanto a Bolívia. Desde o advento do oligopólio midiático foram anos e mais anos de lavagem cerebral nos brasileiros para desincentivar o pensamento crítico, a análise histórica e a leitura de conjuntura. Na mídia, os fatos brotam como se estivessem isolados de um contexto histórico, político e social maior. O sistema educacional, por sua vez, não forma cidadãos; no ensino público trata alunos como futuros serviçais e no ensino privado como depósitos do conhecimento inútil exigido no vestibular. Isso explica a "controvérsia" ao redor do tema da redação do ENEM do último ano. Nem mesmo a religiosidade popular sobreviveu às garras do liberalismo. Na última década vimos ganhar força no Brasil igrejas "cristãs" que enfatizam versos do Antigo Testamento que falariam sobre como a prosperidade material é a maior promessa de Deus a seus seguidores. Esqueça a Carta de Paulo aos Filipenses, onde este diz que aqueles que "só pensam nas coisas terrenas" vivem como "inimigos da cruz de Cristo". A reinvenção do cristianismo explica como um papa, líder de uma das instituições mais tradicionais do mundo, pode ser visto como "subversivo" por brasileiros.

"Nossa Senhora, ilumine os reacionários". Porque, como todos
sabemos, Jesus foi a favor do status quo. Só que não.
Não é para menos. Os valores cultivados pela sociedade brasileira são essencialmente anti-cristãos. Apesar dos anseios dos fundamentalistas, Jesus Cristo não era um reacionário. Ele veio pregar contra a acumulação de riquezas terrenas, o que irritou o status quo de sua época. Não foi Marx quem disse que para segui-lo era preciso renunciar às riquezas materiais, foi Cristo. A mensagem trazida por Jesus trata-se de uma tentativa de restaurar a solidariedade humana (e, sim, Jesus era contra a sonegação de impostos!). Jamais entenderei como uma pessoa que se diz cristã pode sair na rua com faixas defendendo a tortura de outros seres humanos que ocorria no DOPS e que hoje ocorre nas UPP. A cruz simboliza a tortura pela qual Jesus passou para nos salvar, pelo amor de Deus! A não ser, é claro, que essa pessoa não seja cristã de verdade para começo de conversa. O Brasil cada vez mais se distancia do reino de Cristo e cada vez mais se aproxima do reino de Satã. Com a valorosa ajuda de "cristãos" que afirmam receber o Espírito Santo todo o domingo no culto para depois pedir a decapitação da presidenta e de seus eleitores em marchas "pela democracia". Bem que foi advertido que quando o Anticristo erguesse seu reino contaria com uma horda de seguidores com um discurso muito semelhante àquele dos seguidores de Cristo.

É dever do verdadeiro cristão rejeitar os valores da sociedade brasileira. Uma sociedade cujas bases são o egoísmo, a competição, o individualismo, o ódio aos pobres e excluídos não é uma nação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esses são os valores cultivados e reverenciados pelo brasileiro médio, convencido pela elite a adotá-los desde os governos militares, passando pelos governos neoliberais de Collor, Itamar e FHC e até mesmo na gestão petista (que preferiu criar consumidores ao invés de cidadãos). "Tá com dó? Leva para casa", arrota sempre que pode o brasileiro, que crê piamente que grupos com origens históricas distintas possuem oportunidades iguais. Trata-se de um retorno ao capitalismo arcaico, onde vigora a lei de sobrevivência do mais forte, ou seja, o darwinismo social. Ser brasileiro torna-se, cada vez mais, o oposto de ser cristão. Aproxima-se, por outro lado, de ser fascista. No fim de semana um canadense, tentando me agradar, disse que gostaria que houvessem mais brasileiros no Canadá. Respondi-lhe que não desejo isso para nenhuma nação. Ter mais darwinistas sociais no seu país com certeza levaria-o ao colapso, como estamos presenciando no nosso. Posso parecer derrotista, mas não vejo como conciliar os valores da sociedade brasileira com minha cristandade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que horas a casa grande vai cair?

Acabei de assistir ao filme Que Horas Ela Volta? na Rede Globo. Estou exausto, mas preciso escrever alguma coisa sobre essa magnífica obra de arte. Foi preciso esperar as quase seis horas diárias de subproduto da dramaturgia (telenovela) e da desinformação mascarada de jornalismo acabar para enfim poder assistir ao filme. Qualquer programa que questiona e estimula o debate sobre a estrutura social injusta do Brasil a Rede Globo faz questão de colocar lá nas altas horas da madrugada, quando não existe a menor possibilidade da massa trabalhadora estar acordada assistindo à programação. Ao contrário do Netflix ou da BBC, a Globo é ao mesmo tempo um produto e um mecanismo de afirmação dessa estrutura. Conscientizar a população sobre os verdadeiros problemas que ela enfrenta é perigoso. Podem se voltar contra a Globo. É mais seguro fazer um entretenimento barato que deixe a população anestesiada e os anunciantes felizes.

Mas vamos tratar do filme em si. Regina Casé estava brilhante como a empregada doméstica Val que, após passar dez anos criando o filho de Dona Bárbara, sua patroa, como se fosse seu (não coincidentemente o título do filme no exterior é A Mãe Postiça), recebe a notícia de que sua filha Jéssica, que não via pelo mesmo período de tempo, está indo para São Paulo para visitá-la e – para a surpresa da patroa – prestar o vestibular numa faculdade de arquitetura. Até esta altura, Val realmente acredita no clichê amplamente difundido pela classe média de que empregado também faz parte da família e pede à patroa para hospedar sua filha na casa deles. Val, como muitas serviçais do Brasil republicano, mora na senzala da casa  – um quartinho nos fundos que os arquitetos continuam insistindo em desenhar. A chegada da menina, que se recusa a reconhecer a hierarquia social implícita dentro da casa, é que gera o conflito. Jéssica não vê razão em ser tratada como inferior a alguém e, além disso, desperta o interesse dos homens da casa, o que gera ciúmes na patroa.

Val, heroína da classe trabalhadora.
O fato é que nos últimos anos começaram a ser lentamente questionadas as normas vigentes no Brasil desde que nosso arremedo de civilização começou a se formar. Jéssica não reconhece as normas sociais de um mundo do qual não faz – e nem quer fazer – parte. Ela é o retrato de um novo Brasil que vem nascendo há pelo menos uma década e que muitos desejam desesperadamente abortar. Se antigamente a filha da empregada doméstica só podia se vislumbrar no futuro como sendo uma empregada doméstica também, hoje as coisas não são mais bem assim. E isso incomoda. Ao filho do empregado não é desejável nem que ocupe o mesmo espaço físico que o filho do patrão, quanto mais disputar vagas de vestibular com o mesmo. Quando Jéssica passa no vestibular e o filho da patroa não, há uma torcida implícita por parte de Dona Bárbara para que ela não passe na segunda fase do exame. Dói ver que tantos privilégios não fazem diferença na inteligência do indivíduo.

A diretora Anna Muylaert tocou numa ferida aberta do Brasil. Assistindo a Que Horas Ela Volta? me veio à mente, diversas vezes o filme norte-americano Histórias Cruzadas. Só que aqui no Brasil a transição de sociedade escravocrata para sociedade de direitos ainda não foi completada. A ferida ainda não cicatrizou e se depender de muitos, que lutam contra a ampliação dos direitos civis para todos, nem vai. Nos Estados Unidos é vergonhoso explorar mulheres negras porque a pessoa até hoje não aprendeu a limpar a própria privada. Lá é comum jovens de classe média pagarem a faculdade trabalhando como garçons. No Brasil a elite e a pseudo-elite julgam que estão no topo da hierarquia por um desígnio de Deus. Quando eu frequentava círculos de classe média era bastante comum ouvir sobre uma empregada que se aposentou e foi substituída pela filha. Sem falar das patroas que praticavam escambo com suas empregadas. Era como ouvir conversas de brancos do século XIX, só que, ao contrário da escravidão, uma pequena quantia de dinheiro estava sendo paga ao explorado.

Nesta fábula moderna, Val é a working class hero e os antagonistas são os patrões, oriundos de uma pequena burguesia que nada produz, nada conquista por méritos próprios e, ainda assim, julga apropriado explorar a mão-de-obra alheia. Val julgava fazer parte dessa família, mas ela jamais vai poder se dar ao luxo de deixar de trabalhar porque herdou a fortuna do pai. Vejam só, quando Fabinho, o filho de dona Bárbara, não consegue passar no vestibular recebe dos pais uma viagem-consolo para a Austrália. A essas pessoas não é interessante gerar riqueza, apenas mantê-la; vivem de status. O fato é que o capitalismo no Brasil ainda é muito arcaico. O país ainda flerta com o feudalismo enquanto parte de sua classe média vomita Mises por aí. Val é a heroína, mas só pôde se libertar da opressão (que ela não enxergava como tal) com a ajuda de alguém de fora. De alguém que não foi criado nesse ambiente insano e que, justamente por isso, percebe a irracionalidade daquilo tudo. Nesse papel, a atriz Camila Márdila, que deu vida a Jéssica, brilhou.

Não tive a oportunidade de assistir a nenhum dos outros filmes que foram enviados pelos governos nacionais para representar seus países na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, mas Que Horas Ela Volta? não deixou nada a desejar em sua proposta de abordar a relação entre a casa grande e a senzala no Brasil que, ainda hoje, mais de cem anos após o fim oficial da escravidão insiste em perdurar por causa de uma elite e de uma classe média que se recusam a aprender a lavar a própria louça. Se o filme merecia estar na lista dos doze pré-indicados ao Oscar, eu não sei. Só sei que merece todos os prêmios que já recebeu – entre os quais o de melhor atriz para Márdila e Casé em Sundance – e toda a visibilidade que eles garantem a uma produção cinematográfica. Além disso,  o filme merece suscitar muitas discussões sobre a hierarquia social tácita presente nas relações de emprego no país. Precisamos começar a questionar: por que só no Brasil as babás precisam vestir uniforme e usar entrada de serviço? Que horas a casa grande vai cair? Espero que não demore, pois cansei de passar vergonha no exterior explicando porque os brasileiros não limpam a própria sujeira.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Ser negro nas Américas

O que significa ser negro nas Américas? Significa que, ao contrário dos negros africanos, se é descendente de seres humanos que foram capturados como gado, trazidos em navios insalubres e vendidos em feiras como cachorros. Significa que, apesar do estupro de suas tataravós e do açoitamento de seus tataravôs, você conseguiu chegar a esse mundo. Significa que, não importa o quão inteligente e esforçado você seja, algumas portas nunca se abrirão para você e se você ousar reclamar disso vai ser tachado de vitimista. Significa que, sua vida toda, se esforçará para provar que tem mais características do que a cor de sua pele. Significa que você será julgado, perseguido e até mesmo morto por causa dessa única característica peculiar que você possui. Tudo isso porque até hoje os brancos não aceitam o fim do sistema injusto de exploração racial ao qual o Iluminismo americano pôs fim. Ao contrário do que somos ensinados na escola, a escravidão não acabou pacificamente em lugar algum. No Haiti, os negros fizeram uma revolução para expulsar os franceses que os oprimiam. Nos Estados Unidos, quando os donos das plantations ficaram sabendo das intenções do presidente Abraham Lincoln de acabar com a escravidão manipularam seus governadores para que formassem uma Confederação e declarassem a independência da União. No Brasil, um dos motivos pelos quais os militares deram o golpe de Estado que criou a República foi a intenção da então Princesa Isabel de indenizar os escravos quando se tornasse Imperadora. 

Que dó da branca proprietária e agressora de negros!
Ser negro nas Américas significa que se faz parte da maior comunidade diáspora do mundo. Mas, ao contrário de japoneses e italianos, a vinda não foi provocada por problemas econômicos em seus países de origem. Foi uma vinda forçada que gerou um dos episódios mais sombrios da história mundial. Em todos os períodos históricos houve escravidão, mas, como aponta o pesquisador e diplomata Alberto Costa e Silva, um dos maiores africanistas do Brasil, foi só a partir da Era moderna é que a escravidão se baseou em critérios unicamente raciais. Aqueles seres humanos eram considerados inumanos devido à cor de suas peles. A Igreja – fosse ela católica ou reformada – forneceu a base teológica para a desumanização dos negros; a venda de pessoas era autorizada pois, segundo os teólogos, os negros não teriam alma. Assim sendo, ingleses, franceses, espanhóis e, sobretudo, portugueses trouxeram 12 milhões de pessoas para serem vendidas como gado. Até marcado a ferro quente eles eram. Seus donos julgavam-se senhores de seus corpos e de seus ascendentes por toda a eternidade e, é bom reafirmar, não aceitaram de bom grado quando as ideias abolicionistas de William Wilberforce começaram a chegar ao nosso continente. Ainda hoje as famílias que fizeram fortunas explorando almas humanas se ressentem do fato de que foram superados pela história. O que representa Scarlett O'Hara se não uma tentativa de se vitimizar o opressor? Grupos como a Ku Klux Klan ou os Carecas do ABC promovem um revisionismo histórico porque não aceitam que os escravocratas perderam a guerra cultural travada no final do século XIX. 

Nos Estados Unidos a luta de Lincoln pela libertação dos escravos acabou gerando uma retaliação formal aos negros no Sul do país, nos estados ex-confederados (que só começaram a banir a bandeira desse movimento nesse ano, quando um supremacista branco que tinha uma dessas bandeiras na parede do quarto abriu fogo contra membros da mais antiga igreja para negros do país, localizada em Carleston, Carolina do Sul). Criou-se, naquele país, a segregação racial que mais tarde inspiraria o apartheid sul-africano. No Brasil, o país dos conchavos, criou-se o mito da “democracia racial”, que perdura até os dias de hoje. Se nos Estados Unidos a chegada do progresso foi imposta à força, no Brasil jamais tentou-se fazer o país avançar sem que nossos governantes primeiro sentassem na mesa com os representantes do establishment retrógrado. Logo a mão de obra negra, deixada à própria sorte nos arredores das cidades, foi substituída pela mão de obra italiana, semi-escrava. A exclusão racial, em ambos os países, levou à criação de guetos (nos Estados Unidos) e favelas (no Brasil), mantidas sob o jugo de uma polícia ainda hoje treinada para crer que cassetetes e revólveres resolvem problemas de ordem social. Nos Estados Unidos, pelo menos, existia ainda a possibilidade dos negros fugirem para o Norte (em especial Nova Iorque, a capital cultural do país) onde podiam chegar à proeminência; esse foi o caso de Nina Simone, Aretha Franklin, Ray Charles, Ella Fitzgerald, Eartha Kitt, Alice Walker e Louis Armstrong, para citar apenas alguns nomes. 

Alexandra Loras com o marido Damien e o filho.

No Brasil, não havia porto seguro para os negros. Nossa sociedade se moderniza a passos lentos. Se nos Estados Unidos houve uma guerra para determinar que a produção industrial seria a matriz do desenvolvimento econômico, no Brasil tivemos golpes de Estado para garantir os interesses da elite agrícola. Ainda hoje nossa balança comercial depende sobremaneira da exportação de commodities. A tímida industrialização promovida por Getúlio Vargas, que se tornou um ditador para consolidá-la, acabou sendo desfeita assim que os generais deram um golpe de Estado para sustentar quem constrói fortunas não a partir da produção, gerando empregos e riquezas ao país, mas sim da especulação, política econômica mantida até os dias atuais. A essas pessoas, conservadoras (que desejam a conservação da ordem social), incomoda o fato de que uma negra frequente os mesmos espaços que elas. Conforme relatou a consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, no programa de Mariana Godoy, confundem-na com a babá de seu próprio filho quando os dois saem juntos em São Paulo. Ela disse, ainda, que o Brasil é o único país, dentre aqueles em que já morou, onde obrigam as babás a vestirem uniforme e usar entradas e elevadores de serviço. Se não se pode impedir que negros ocupem o mesmo espaço que você, crème de la crème da sociedade brasileira, então que ao menos eles sejam humilhados. É por isso que a consulesa negra choca as pessoas. Ela perambula pelos espaços mais chiques da cidade de São Paulo com um menino branco no colo e sem uniforme. 

A sofrida segregação racial nos Estados Unidos acabou com esse tipo de prática descriminatória nos contratos de emprego. Mas as tensões raciais continuam existindo, veladas, e sempre prontas a explodir. A escravidão e a segregação racial podem até ter acabado no papel, mas a opressão e a discriminação seguem mais vivas do que nunca na prática. Não foi porque Lyndon Johnson assinou a lei dos direitos civis em 1965 que os negros dos EUA têm, hoje, todos seus direitos respeitados. Tomemos, por exemplo, um fato ocorrido essa semana em Illinois, estado de origem do primeiro presidente negro dos EUA.  No último dia 24/11, a polícia de Chicago matou um adolescente negro de 17 anos de idade pelas costas. Ele era procurado pela polícia e teria tentado fugir da abordagem enquanto saía de uma lanchonete. Estava desarmado e, mesmo, assim, levou 16 tiros. As câmeras de segurança do estabelecimento comercial capturaram a execução. No dia seguinte, os policias voltaram ao local e intimidaram os funcionários para que eles deletassem a cena. Modus operandi idêntico ao do policial que matou um menino de 10 anos de idade numa favela do Rio de Janeiro no início desse ano. Eduardo de Jesus brincava com o celular na porta de casa, a cinco metros de distância do policial, quando foi atingido. Sua mãe saiu de casa desesperada e começou a confrontar o PM, que a intimidou. Fato comum em ambos os casos: depois da execução, aqueles que se julgam descendentes dos donos de plantations tentaram responsabilizar as vítimas. Só que, em lugar algum, a lei – internacional, brasileira ou americana – prevê que a polícia está autorizada a matar suspeitos. A Constituição americana inclusive proíbe punição cruel e não-usual. 

Black Lives Matter toma as ruas de Nova York em 13/12/2014.
Enquanto a mídia brasileira dá um destaque enorme ao enésimo capítulo da novela Operação Lava Jato e a mídia americana se encanta com as peripécias fascistas do candidato à presidência Donald Trump, um movimento de massas surge nos Estados Unidos para desafiar o tratamento dado pela polícia aos negros. O Black Lives Matter (“Vidas negras importam”) surgiu no ano passado após uma série de absolvições de policias acusados de matar jovens negros. Assim como o Occupy Wall Street, trata-se de um movimento não-linear surgido de maneira espontânea na internet. No entanto, é muito mais conciso do que o Occupy; possui uma agenda de reivindicações clara e, assim sendo, consegue existir por mais tempo e é atacado de forma mais veemente pela direita (inclusive Trump, que ordenou que participantes de um de seus comícios espancassem um militante do movimento presente no evento). O Black Lives Matter apareceu para dar um tapa na cara de quem acreditava numa “América pós-racial”, teoria que foi reforçada pelas eleições de um presidente negro. O fato é que Obama mantém uma política econômica neoliberal que penaliza mais duramente as minorias. Além disso, suas iniciativas de investir mais no social são barradas pelo Congresso, controlado pelos colegas de partido de Trump que aparecem a todo o instante na mídia para dizer que um Estado que investe em política social é um Estado socialista. Lá, como cá, vende-se a ideia de que todos nascemos com as mesmas oportunidades e que basta se esforçar um pouquinho para vencer na vida. É claro que quem descende de escravos que foram literalmente jogados na periferia das cidades após o fim da escravidão tem as mesmas oportunidades que os descendentes de quem controla a riqueza nacional. Só que não. 

A “América pós-racial” ou a “democracia racial” brasileira são mitos criados para convencer uma massa historicamente oprimida a deixar de lutar por seus direitos. Nos EUA, diz-se: “ei, já lhes damos o direito de votar e frequentar os mesmos espaços que nós, o que mais vocês querem?”. No Brasil: “ei, para de se vitimizar e se esforça mais um pouco para conseguir aquilo que você quer”. O que os negros querem é não serem mortos pela polícia pelo simples fato de terem mais melanina na pele do que eu. Querem que um fator simplesmente biológico não seja decisivo na hora de determinar que tipo de atendimento receberão. Imagina que louco se as pessoas de olhos azuis ganhassem menos do que as pessoas de olhos castanhos e fossem acusadas de serem traficantes, marginais e mendigas pela simples cor de seus olhos. É isso o que acontece com milhões de pessoas no nosso continente. Imagine se as pessoas de olhos azuis ouvissem a vida toda insultos sobre a cor do olho delas, recebessem olhares suspeitos aonde fossem e não vissem quase mais ninguém como elas na televisão, nas revistas e nos filmes. É isso o que acontece com os afro-descendentes. Retomando o questionamento inicial desse texto, ser negro nas Américas é ser forçado a acreditar, todo dia, que se merece menos – educação, ofertas de emprego e remuneração – por causa da cor de sua pele. É preciso empoderar os jovens negros para que eles percebam a injustiça dessa situação e lutem para mudá-la. “Devemos começar a dizer para nossos jovens: 'há um mundo esperando por vocês, é de vocês a missão que está começando'", cantava Nina Simone. Atualmente, ser negro nas Américas é um castigo. Mas não pode e nem deve ser. Ser negro nas Américas deve ser sinônimo de ser livre.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Grande e suas pequenas lições contra o preconceito



Se você é um fã de Ariana Grande (ou mesmo que não seja) deve ter provavelmente visto um vídeo em que a cantora de "Focus" questiona o privilégio de homens brancos durante uma "entrevista" à estação de rádio Power 106.

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Grande passou a maior parte de seu tempo no programa esclarecendo aos entrevistadores (que presumo que vivem no ano de 2015) que as garotas pensam em coisas além de sua maquiagem e que os garotos podem usar o emoji de unicórnio mesmo sem serem afeminados. 

E embora aplaudimos isso, uma pequena escavação mostra que a cantora de pop não defende a igualdade de gêneros, sexualidades e identidades apenas quando ela está tentando vender discos; Grande vem servindo pequenas lições de aceitação desde o início da semana.

Domingo, 1/11


No dia após o Halloween, Grande postou no Instagram uma foto dela com três amigos vestindo fantasias da noite anterior. A foto trazia o amigo de Grande e criador da página @SheHasHadIt, Jarvis Derrell, usando um dos vestidos do videoclipe de "Focus".

Uma comentarista decidiu usar a oportunidade para filosofar sobre uma questão de raça e sexualidade, afirmando:

Por que tantos caras negros estão virando viado?! - @lolalana_

Como resposta, Grande postou uma foto com a resposta de Derell ao julgamento maldoso de sua fantasia:
"Sempre tive orgulho de ser um homem negro gay toda minha vida. E, para ser sincero, superar pessoas ignorantes como ele em minha vida é algo do qual tenho muito, muito orgulho! Geralmente não dou ouvidos para idiotas como essa, mas ultimamente tem saído de controle e, como um sobrevivente de bullying, ignorância e assédio, não tolerarei isso. E não só por mim, mas por qualquer um que tem que lidar com o ódio, ódio por serem quem eles são e querem ser. Ah não! Brilhem crianças! Vocês são perfeitos e fortes do jeito que são"

Ao lado dos comentários de Derrell, Grande acrescentou: 
Para todos os humanos, amigos, namorados lidando com o ódio, "brilhem"!! Para todos que estão batalhando contra a homofobia, o racismo, o sexismo, o ageísmo, a misoginia ou qualquer outra coisa que te faz sentir desconfortável ou como se você não pode ser você mesmo: somos todos iguais e deveríamos ser CELEBRADOS PELAS NOSSAS DIFERENÇAS E PELAS COISAS QUE NOS TORNA QUEM NÓS SOMOS. O quanto antes percebemos isso, o quanto antes poderemos ficar livre dessa IGNORÂNCIA FEIA. Obrigado.
Segunda-feira, 2/11 


Na segunda-feira, algum nojento apareceu nas menções a Ariana Grande no Twitter dizendo que ele preferia a "curvilínea" Ariel Winter, atriz de Modern Family, à Ariana "palito".

Embora pudesse ter ignorado o troll, Grande aproveitou a oportunidade para falar sobre body shaming:

"Tweets, comentários, declarações assim não são legais.Sobre qualquer um! Vivemos numa época em que as pessoas fazem com que seja impossível para as mulheres, os homens, qualquer um se aceitar do jeito que são. A diversidade é sexy! Amar a si mesmo é sexy! Sabe o que não é sexy? Misoginia, objetificação, rotulação, comparações e body shaming! Falar dos corpos das pessoas como se eles estivessem numa vitrine, esperando sua aprovação / opinião. Eles não estão! Celebre-se! Celebre os outros. As coisas que nos tornam diferentes uns dos outros nos fazem bonitos."

A cantora incluiu a seguinte mensagem para seus seguidores:

Lá vamos nós de novo... Tenho certeza que não sou a única se sentindo assim hoje! Caso você precisa de um lembrete: você é lindo ✨ É um belo dia para ser você mesmo!


Terça-feira, 3/11

O bem-merecido reconhecimento que Grande está recebendo é pelo massacre que ela fez nesses apresentadores de rádio misóginos. Aqui estão os principais momentos:

Ariana é perguntada o que escolheria se tivesse que escolher entre sua maquiagem e seu celular:

"É isso que você acha que as mulheres têm dificuldade em escolher?"
Ariana esclarece que não é viciada em seu celular, quando então os DJs dizem às suas ouvintes para aprender com a cantora. É então que Ariana esclarece-os de que a dependência ao celular não está relacionada ao gênero do usuário:

- Garotas, aprendam! Escutem e aprendam!
- Garotos, aprendam!
Quando indagada sobre os novos emojis, Ariana diz que o unicórnio é um de seus favoritos. Os DJs reafirmam sua masculinidade dizendo que eles nem haviam reparado nisso e que usam apenas os emojis de taco e dedo do meio. Que machões, caras! Ariana responde:

- Muitos garotos usam o unicórnio
-Sei, "garotos".
Ariana, cujo irmão é gay, se irrita com a insinuação:

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Quando os DJs insistem que "homens de verdade" não usam o emoji de unicórnio, Ariana ameaça encerrar a entrevista:

"Mudei de ideia, não quero mais ficar aqui na Power 106"
Indagada sobre o que gostaria que acabasse, Ariana dá uma indireta aos dois DJs:

"Julgamento em geral. Intolerância, maldade, preconceito, misoginia, racismo, sexismo."

É isso aí, Ari! Continue brigando a boa briga.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Politicamente correto e a negação do debate

Acusar o interlocutor de ser "politicamente correto", como se isso fosse algo censurável, é a negação do debate. O indivíduo só consegue atingir o crescimento intelectual através da partilha de ideias, do debate. Mas é, contudo, mais fácil encontrar um inimigo poderoso e até certo grau fictício (a religião organizada, o Islã, a secularização da sociedade, o "marxismo cultural", o "bolivarianismo" e, é claro "a ditadura do politicamente correto") do que encarar as várias cores das questões que estão sendo apontadas. Nenhuma questão sócio-política é dualista. Quando tratamos algo como sendo ou bom ou ruim, sem um meio termo, incorremos na falácia da dicotomia. O fato é que não existe apenas dois lado para cada história. Há milhares de lados para cada questão.

A religião organizada, por exemplo, não é o antro apenas de fanáticos retrógrados. É algo que eu tenho presenciado em minha jornada na Igreja Episcopal. De maneira semelhante, a maioria dos muçulmanos que moram no ocidente buscam se integrar às sociedades das quais fazem parte e não querem implementar a sharia (de fato, a maioria deles votou em Barack Obama nos Estados Unidos). A secularização é menos responsável pelo fim do Natal do que o consumismo e o "marxismo cultural", apesar dos ares de teoria acadêmica, não passa de uma formulação criada pela extrema-direita estadunidense para rejeitar as políticas a favor das minorias sem ser chamada de racista. O que esse segmento da sociedade, que nunca aceitou de fato o fim da segregação racial, chama de "ditadura do politicamente correto" nada mais é do que a negação do debate sobre racismo numa sociedade cuja a base de sua fundação sócio-econômica foi a escravidão.

Concordo que certas críticas à "apropriação cultural" são exageradas. Alguns artistas querem apenas honrar culturas que eles respeitam, como foi o caso da performance japonesa de Katy Perry no American Music Awards. No entanto, alguns indivíduos, notadamente os comediantes, nada têm a acrescentar ao debate sobre apropriação cultural e quais formas de expressão devem ser aceitas ou não pela sociedade. Atuam como defensores do status quo ao defender um suposto "direito" à ofensa. Fazer piada de estupro, se vestir de índio ou de Osama bin Laden no Carnaval ou comparar negros a macacos é reforçar esterótipos negativos em relação a grupos mais complexas do que a representação midiática deles. Há uma linha tênue que separa a liberdade de expressão do crime de discurso de ódio. E "acusar" o interlocutor de ser "politicamente correto" não faz ninguém ganhar um debate. Pelo contrário, trata-se da falácia da dispersão.

Desqualificar as pessoas que lutam pela igualdade social, acusando-as de serem "politicamente corretas" é, para mim, um ataque à própria ideia de democracia, que supõe o livre debate e a pluralidade de ideias, que podem e devem co-existir pacificamente. Quem sou eu, enquanto homem branco, para dizer a uma mulher ou a um negro o que eles podem achar ofensivo? Não sei o que é ter meus direitos básicos tolhidos por ser mulher ou negro. Sem falar que, se eu tentar censurá-los, impedi-los de levantar questões que o incomodam então eu estarei atuando contra a liberdade de expressão. O que chamam pejorativamente de "ditadura do politicamente correto", prefiro denominar de "sensibilidade às minorias" (onde entra a mulher que, apesar de ser 52% da população brasileira, é tratada como uma minoria pelos sociólogos por questões de dominação histórica).

A chamada "regra de ouro" da sociedade - não faça ao outro aquilo que não gostaria que fizessem a ti - presente em Lucas 6:31, resolveria muitos problemas caso não fosse meramente um discurso vazio. Esse mundo seria realmente melhor se pudêssemos simplesmente nos colocar no lugar uns dos outros. As tensões raciais praticamente desapareceriam e pararíamos de culpar a vítima do estupro por ter sido abusada. No entanto, é bem mais fácil desqualificar e ridicularizar aqueles que lutam por uma sociedade mais equânime, chamando-os de nomes supostamente ofensivos (argumentum ad hominem), como se isso fosse fazer desaparecer os questionamentos que essas pessoas trazem. Como diz minha mãe, é fácil apontar o dedo para os outros. Apontar o dedo para si mesmo exige um pouco mais de esforço.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

20 canções para celebrar a emancipação feminina (Parte II)

11° - "It's Not Right, But It's OK" (1998), Whitney Houston
Embora Whitney Houston (1963-2012), fosse o contrário do que se pode dizer de uma mulher forte em sua vida pessoal, sua música exalava auto-empoderamento. Do seu primeiro grande sucesso (a melosa "Greatest Love of All") a seu último álbum, você se sente capaz de conquistar qualquer coisa após ouvir à discografia de Whitney. Com "It's Not Right, But It's OK" ("não é certo, mas tudo bem") não é diferente. Na letra da canção, a protagonista descobre que está sendo traída por seu marido e decide pôr um fim ao relacionamento, pois prefere estar sozinha do que ser infeliz. Em determinado momento, Whitney cita a si mesma, como se ela própria tivesse uma personalidade forte ("esse tempo todo pensei que tinha alguém para a Whitney"). Infelizmente, a cantora mais famosa do mundo de 1985 a 1995 não era exatamente assim. Viveu um turbulento e abusivo casamento com o cantor Bobby Brown, o que consumiu sua saúde física, emocional e financeira até aquele dia trágico num quarto de hotel quando pôs fim à própria vida, intencionalmente ou não. Que sua música consiga continuar nos inspirando mesmo após sua partida tão súbita e precoce!


Letra:
Sexta-feira à noite você e seus amigos saíram pra comer
E depois eles saíram
Mas você chegou em casa por volta das 3:00
Se vocês eram seis 
Então quatro de vocês eram muito econômicos
Porque só dois jantaram
Eu descobri na fatura do cartão

Isso não é certo, mas tudo bem
Eu vou superar de qualquer jeito
Faça suas malas e suma
E não ouse voltar correndo pra mim
Isso não é certo, mas tudo bem
Eu vou superar de qualquer jeito
Feche a porta depois que sair
Deixe a sua chave
Eu prefiro estar sozinha
Que ser infeliz

Eu fiz suas malas
Para uma viagem de uma semana
O telefone tocou
E então você olhou pra mim
(Por que você olhou para mim?)
Disse que era um de seus amigos
Lá da Rua 54
Então porque "213"
Apareceu no identificador de chamada?

Já passei por tudo isso antes
(Eu já passei por tudo isso antes)
Então como é que você pensaria
(Não pense, não pense)
Que eu ia ficar aqui e aguentar isso?
As coisas vão mudar
(As coisas têm que mudar, baby)
Porque eu não quero mais ser uma boba
(Você ficar, sem chance, cara)
É por isso que você tem que sair
(Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, siim)

Então não se vire para ver o meu rosto
(Então não se vire)
Não há mais lágrimas aqui 
Para você ver
Valeu a pena mesmo você ter que sair desse jeito?
Diga-me... oh yeah
Valeu mesmo a pena?
Valeu a pena mesmo você ter que sair desse jeito?
Diga-me... oh

Veja, eu estou seguindo em frente
E me recuso a olhar para trás
Sabe, esse tempo todo 
Eu pensei que tivesse alguém para a Whitney
Na verdade...
Você estava me fazendo de palhaça!

Levante-se e vá embora!
Prefiro estar sozinha do que ser infeliz
Não está certo... tudo bem, baby
Eu posso pagar meu próprio aluguel
Pagar minha conta de luz, cuidar dos bebês
Eu vou ficar bem, vai dar tudo certo


12° - "Just a Girl" (1995), No Doubt
Embora "Don't Speak" seja o maior sucesso do álbum Tragic Kingdom, "Just a Girl" ("apenas uma garota") foi o primeiro sucesso comercial da banda de rock No Doubt. Após o tecladista Eric Stefani ter deixado a banda para trabalhar como animador do seriado Os Simpsons, sua irmã Gwen, a vocalista, assumiu a função de compositora do No Doubt. Ela trouxe não só um estilo diferente de composição, como também uma perspectiva feminina para as canções, o que irritou alguns dos primeiros fãs cativados pela banda, em especial os mais machistas. Na canção, Gwen se revolta contra os esterótipos existentes em relação às mulheres, principalmente jovens, de que são fracas e incapazes de se protegerem sozinhas. A inspiração veio de uma discussão que a cantora teve com seu pai por ela ter saído sozinha de casa tarde da noite. "Just a Girl" inaugurou um novo estilo de composição (semelhante ao de Beyoncé) e pode ser inequivocamente apontado como um dos primeiros hinos do feminismo de terceira onda.


Letra:
Tire essa venda rosa dos meus olhos
Estou exposta
E não é uma grande surpresa
Você acha que eu não sei
Exatamente onde eu estou
Esse mundo está me forçando
A segurar a sua mão

Pois eu sou apenas uma garota, uma pequena garota
Não me deixe fora de seu campo de visão
Eu sou apenas uma garota, pequenininha e delicada
Então tire todos os meus direitos
Oh... Eu estou de saco cheio!

O momento em que eu piso fora de casa
Existem muitas razões
Para que eu corra e me esconda
Eu não posso fazer as pequenas coisas
Que são tão caras para mim
Porque são essas pequenas coisas
Que eu temo

Pois eu sou apenas uma garota
E preferiria não ser
Pois eles nem me deixam dirigir
Tarde da noite
Sou apenas uma garota
Acho que sou meio louca
Pois ficam sentados e me encaram
Com aqueles olhos
Sou apenas uma garota
Dê uma boa olhada em mim
Sou seu típico protótipo
Oh... Eu estou de saco cheio!
Oh... Estou sendo clara o suficiente?

Sou apenas uma garota
Sou apenas uma garota no mundão
É tudo o que você me deixa ser!

Sou apenas uma garota, vivendo em cativeiro
Suas regras
Me preocupam
Sou apenas uma garota, qual é meu destino?
O que sou obrigada a fazer
Está me deixando entorpecida
Sou apenas uma garota. Minhas desculpas
O que eu me tornei é tão insuportável
Sou apenas uma garota. Sorte minha
Não tem nem comparação

Oh... Eu estou
Oh... Eu estou
Oh... Eu estou de saco cheio!


13° - "Começar de Novo" (1979), Simone
Escrita por Ivan Lins e Vitor Martins, essa canção foi música-tema do seriado Malu Mulher, exibido em 1979 pela Rede Globo e estrelado por Regina Duarte. Na trama do mesmo eram apresentados assuntos polêmicos como aborto, pílula anticoncepcional, violência doméstica e divórcio, que na verdade são problemáticas ainda bastante comuns na vida das mulheres brasileiras. Ambos, seriado e música-tema, fizeram grande sucesso na época. O polêmico seriado abriu as portas para que o público brasileiro passasse a discutir questões referentes à emancipação feminina, como a abertura do mercado de trabalho para essas cidadãs. A letra da canção se assemelha à de "I Am Woman", sendo que seu eu-lírico também narra sua aventura de libertação sem demonstrar qualquer tipo de remorso. Curiosamente, Lins e Martins também são os autores de outra canção de teor feminista, que também está presente nessa lista (número 20). 



14° - "Sisters Are Doin' It for Themselves" (1985), Aretha Franklin & Eurythmics
Após o sucesso de "Respect", Aretha Franklin continuou gravando músicas que fizeram sucesso, como o também hino feminista "Think" e canções de amor como "Don't Play That Song for Me" e "I Say a Little Prayer". No entanto, sua carreira começou a patinar nos anos 1970, quando a música tornou-se cada vez mais eletrônica e dançante. Foi então que a rainha do soul teve a ideia de se reinventar e fazer música para as novas gerações. O disco Who's Zoomin' Who produziu os sucessos "Freeway of Love", a faixa-título e esta colaboração com a dupla britânica de pop sintético Eurythmics. Embora a música não tenha envelhecido tão bem quanto "Respect" ou "You Don't Own Me" (sobretudo devido ao verso "um homem ainda ama uma mulher e uma mulher ainda ama um homem", que invisibiliza não só as feministas lésbicas como o movimento LGBT como um todo), permanece como um dos ícones da transição do feminismo de segunda para terceira geração. Por outro lado, seu apelo à sororidade e à igualdade salarial no mercado de trabalho continuam mais atuais do que nunca.


Letra:
Havia uma época em que diziam
Que por trás de todo grande homem 
Tinha que ter uma grande mulher
Mas nesses tempos de mudança
Isso não é mais verdade
Estamos saindo da cozinha
Porque há algo que esquecemos de dizer

As irmãs estão lutando por elas mesmas
Erguendo-se em seus próprios pés
Fazendo cair suas próprias fichas
As irmãs estão lutando por elas mesmas

Esta é uma canção para celebrar
A libertação consciente do estado feminino
Mães, filhas e suas filhas também
De mulher para mulher
Estamos cantando com vocês

O "sexo inferior" tem um novo exterior
Temos doutoras, advogadas e políticas também
Todo mundo, dê uma olhada ao seu redor
Consegue ver? Consegue ver? Consegue ver?
Há uma mulher ao seu lado

Não estamos inventando história
Não estamos elaborando planos
Porque um homem ainda ama uma mulher
E uma mulher ainda ama um homem
Exatamente do jeito que era

Remuneração igual, ouça o que dizemos!


15° - "Express Yourself" (1989), Madonna
Assim como Beyoncé e Shakira, Madonna tem várias músicas que poderiam entrar nessa lista, como a desafiadora "Human Nature" ou a questionadora "What It Feels Like for a Girl". Até mesmo "Papa Don't Preach", embora adorada pelos grupos antiaborto, poderia entrar nessa lista, pois a cantora afirma diversas vezes durante a canção que a decisão de não abortar é sua e o bebê, idem. No entanto, escolhi "Express Yourself" ("se expresse") por esta ser uma das faixas daquele que é considerado o melhor álbum da cantora pela crítica especializada, Like a Prayer. A canção, bem dançante, trata-se de uma tentativa de Madonna de abrir os olhos de suas fãs adolescentes para aquilo que elas devem procurar num companheiro.


Letra:
E aí, garotas
Vocês acreditam no amor?
Pois eu tenho algo a dizer sobre isso
E é mais ou menos assim

Não se acomode com o segundo melhor
Ponha seu amor à prova
Você sabe, você sabe, você sabe que tem que
Fazê-lo expressar como ele se sente
E talvez então você saberá se seu amor é real

Você não precisa de anéis de diamantes
Ou joias de dezoito quilates de ouro
Carros elegantes andam muito rápido
Mas eles nunca duram, não, não
O que você precisa é de uma mão grande e forte
Para levantá-la para o lugar mais alto
Fazê-la se sentir como uma rainha no trono
Faça-o te amar até que você não possa descer
(Você nunca vai descer)

Rosas de cabo longo são o caminho para o seu coração
Mas ele precisa começar pela sua cabeça
Lençóis de cetim são muito românticos
O que acontece com eles quando você não está na cama?
Você merece o melhor na vida
Se o timing dele é errado, então parta pra outra
O segundo melhor nunca é o suficiente
Você ficará muito melhor sozinha
(Você tem que fazê-lo)

Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Expressar-se
Hey, hey, hey, hey
Então, se você o quiser agora mesmo, faça-o mostrar-lhe como
Expressar o que ele tem, oh baby, esteja pronto ou não

E quando você for embora, ele pode se arrepender
Pensar no amor que ele uma vez teve
Vai tentar seguir em frente, mas ele não vai conseguir
Ele voltará de joelhos

Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Expressar-se
Hey, hey, hey, hey
Então, se você o quiser agora mesmo, faça-o mostrar-lhe como
Expressar o que ele tem, oh baby, esteja pronto ou não
Expresse-se
(Você tem que fazê-lo)
Assim, você pode respeitar a si mesma
Hey, hey


16° - "Beautiful Liar" (2006), Beyoncé & Shakira
Embora Shakira tenha várias músicas que tratam do empoderamento feminino, inclusive em seu idioma materno, o espanhol, escolhi seu dueto com Beyoncé para ser a canção representante da cantora colombiana nessa lista devido a seu caráter pró-sororidade. A canção traz uma situação comum tanto na vida real quanto na teledramaturgia: o namorado da personagem A (Shakira) a traiu com a personagem B (Beyoncé), sua melhor amiga. Se a canção fosse uma novela da Rede Globo, o conflito apresentado por ela só se resolveria de uma forma: as duas terminariam a noite no chão da boate numa cena digna de luta livre. No entanto, elas decidem que sua amizade é mais importante do que qualquer homem e que nenhum "belo mentiroso" que cruzar o caminho delas conseguirá afetar a amizade delas. Isso sim é sororidade!


Letra:
(Beyoncé:)
Ninguém gosta de ser manipulado
Ele disse que eu valho a pena, sou o único desejo dele
(Shakira:)
Eu sei coisas sobre ele que você não gostaria de saber
(Beyoncé:)
Ele me beijou, a única mulher dele
Este belo mentiroso
(Shakira:)
Me diga como você lida com as coisas que acabou de descobrir?
Nunca saberemos 
(Beyoncé:)
Por que somos nós as únicas que sofrem?
(Shakira:)
Tenho que esquecê-lo

(Beyoncé:)
Não será ele que vai chorar

(Beyoncé:)
Não vamos acabar com o carma
Não vamos começar uma briga
Não vale a pena o drama
Por um belo mentiroso
(Shakira:)
Não podemos rir disso?
Não vale o nosso tempo
Podemos viver sem ele
É só um belo mentiroso

(Shakira:)

Eu confiei nele mas quando te segui eu os vi juntos
(Beyoncé:)
Eu não sabia sobre vocês até eu te ver com ele
(Shakira:)
Eu entrei na sua cena de amor, dançando lentamente
(Beyoncé:)
Você roubou tudo, como pode dizer que eu te fiz mal?

(Shakira:)
Nunca saberemos
(Beyoncé:)

Quando a dor e o coração-partido acabará
(Shakira:)
Eu tenho que esquecê-lo
(Beyoncé:)
A inocência se foi

(Shakira:)
Como posso te perdoar
Quando sou eu quem está envergonhada?
(Beyoncé)
E eu gostaria poder te libertar
Do sofrimento e da dor
Mas a resposta é simples
(Ambas:)

A culpa é dele!


17° - "Desconstruindo Amélia" (2009), Pitty
Como dito anteriormente, o samba foi o responsável pela construção de um dos maiores estereótipos femininos do Brasil, a famigerada "Amélia". Em 2009, no entanto, a roqueira baiana Pitty decidiu fazer uma releitura da personagem para poder dizer às suas fãs que a mulher pode ser o que ela bem entender. A Amélia de Pitty, "educada para cuidar e servir", decidiu mudar: passou a cuidar de si mesmo, fez mestrado e começou a se questionar por que o parceiro ganha mais do que ela. Ela é muitas: trabalha, cuida da casa e dos filhos e "ainda vai pra night ferver". Graças à Pitty, Amélia finalmente se libertou: deixou de ser serva e objeto. Depois de experimentar o gostinho da liberdade, decidiu que nunca mais vai voltar a ser submissa. "Ela já não quer ser o outro, ela é um também". Genial!



18° - "Strong Enough" (1998), Cher
Assim como Aretha Franklin fez nos anos 1980, Cher se reinventou por completo na virada do século. Lançou o álbum Believe, com uma pegada eletrônica, e conseguiu se tornar a diva de uma nova geração. O single principal do disco, a faixa-título, deu a Cher o recorde de mulher mais velha a atingir o número um da parada de sucessos da revista Billboard, que ela mantém até hoje. Como uma fênix, a mulher renasceu quando muitos já julgavam-na morta comercialmente e conquistou boates, estações de rádio e lojas de discos em todo o mundo. O segundo single do álbum, "Strong Enough" ("forte o bastante"), fez mais sucesso na Europa do que nos Estados Unidos, vendendo 700 mil cópias só na Alemanha, na França e no Reino Unido. É uma pena, porque se trata de uma belíssima canção sobre uma mulher traída que decidiu se empoderar e se nega a desacreditar no amor apesar da situação pela qual passou.


Letra:
Não preciso da sua simpatia
Não há nada que você possa dizer ou fazer por mim
E não quero um milagre
Você nunca vai mudar por ninguém
E eu ouço suas razões, os porquês
Onde você dormiu na noite passada?
E ela valeu a pena? Ela valeu a pena?

Eu sou forte o bastante pra viver sem você
Forte o bastante e parei de chorar
Há bastante tempo, agora sou forte o bastante para saber
Que você precisa ir embora

Não há mais nada a dizer
Poupe seu fôlego e vá embora
Não importa o que você diz
Sou forte o bastante para saber 
Que você precisa ir embora

Então você se sente incompreendido?
Amor, tenho uma novidade para você
Eu fui usada e isso daria até um livro
Mas você não quer saber disso

Eu estive perdendo o sono
E você esteve sendo mesquinho
E ela não vale metade de mim, é verdade

Venha o que vier
Você nunca me verá chorar
Este é o nosso último adeus, é verdade


19° - "Independent Women Part I" (1999), Destiny's Child
Como afirmei anteriormente, Beyoncé tem todo um cânone de músicas sobre emancipação da mulher. Em 1999 pediram ao grupo então liderado por ela, o Destiny's Child, para fazer uma música para a trilha-sonora do filme As Panteras, versão do seriado setentista estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu. Não sei vocês, mas a última coisa que me vem à cabeça quando penso naquele seriado é o empoderamento feminino (e o filme também não tem lá muito de feminista não), mas Beyoncé compôs uma de suas melhores músicas sobre emancipação feminina justamente para esse filme. Não deu outra, a canção ficou impressionantes onze semanas no topo da parada de sucessos da revista Billboard, de novembro de 2000 a fevereiro de 2001, além de ter sido indicada para o Grammy de melhor canção escrita para um filme ou programa de televisão. Segundo a revista é o 18° single mais bem-sucedido da década de 2000. E foi assim que Beyoncé foi construindo sua imagem de ícone maior das feministas contemporâneas.


Letra:
Pergunta: Diga, o que você acha de mim?
Eu compro meus próprios diamantes
E compro meus próprios anéis
Só te ligo quando eu me sinto sozinha
Quando você acabar por favor levante-se e saia

Pergunta: Diga, o que você acha disso?
Tente me controlar e, garoto, você será dispensado
Banco a minha diversão e ainda pago minhas próprias contas
Nos meus relacionamentos é sempre meio a meio

O calçado nos meus pés, eu comprei
As roupas que eu estou vestindo, eu comprei
Os diamantes que eu estou balançando, eu comprei
Porque eu dependo de mim
Se eu quiser o relógio que você está usando, eu comprarei
A casa onde eu moro, eu comprei
O carro que estou dirigindo, eu comprei
Eu dependo de mim

Todas as mulheres que são independentes
Joguem suas mãos para cima
Todas as delícias que ganham seu próprio dinheiro
Joguem suas mãos para cima
Todas as mamães que ganham dólares
Joguem suas mãos para cima
Todas as mulheres que realmente me entendem
Joguem suas mãos para cima

Garota, não entendo como você requebra assim
Charlie, como suas Panteras requebram assim
Garota, não entendo como você requebra assim
Charlie, como suas Panteras requebram assim

Diga, o que você acha disso?
Faço o que eu quero, vivo como eu quero viver
Eu dei duro e me sacrifiquei para conseguir o que tenho
Mulheres, não é nada fácil ser independente

Pergunta: Como você lida com tudo isso que eu disse?
Gabando-se daquele dinheiro que ele te deu
Se você vai se gabar, esteja certa que o dinheiro é seu
E que não depende de ninguém mais pra te dar o que você quiser

Destiny's Child
O que há?
Vocês estão na área?
Lógico camarada
Vamos chocar esse pessoal com o "Estilo Pantera"!

Destiny's Child
Beleza independente
Ninguém mais pode me assustar
Panteras!


20° - "Bilhete" (1982), Fafá de Belém
A outra canção dessa lista escrita por Ivan Lins e Vitor Martins é "Bilhete", lançada em 1982 pela cantora paraense Fafá de Belém. À época, a cantora buscava se distanciar de seus primeiros sucessos, músicas regionais e dançantes, e mostrar que tinha a habilidade vocálica para ser uma grande intérprete. Foi assim que essa composição de Lins e Martins chegou até suas mãos. E ela fez um ótimo trabalho interpretando-a. Na letra da música, escrita no formato de um bilhete curto para o companheiro, a personagem narra para o mesmo que já arrumou a mala dele e colocou-a no corredor. De maneira mais ousada do que as demais músicas de rompimento dessa lista, Lins e Martins comparam a separação com um aborto: "te tirei do meu corpo / te tirei das entranhas / fiz um tipo de aborto / e por fim nosso caso acabou / está morto".