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segunda-feira, 11 de abril de 2016

As lições de American Crime Story

Na última terça-feira, enquanto o Brasil se entorpecia com mais uma final de Big Brother, a América — ou pelo menos parte dela — revivia seus traumas do passado. Naquela ocasião o canal a cabo FX exibiu o último episódio de "The People vs. O.J. Simpson", a primeira temporada da série antológica American Crime Story. Em outubro próximo ocorrerá o 21° aniversário dos eventos retratados naquele episódio, ou seja, a sessão judicial que absolveu o ator e ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, acusado de matar sua esposa Nicole Brown e depois o amigo dela, Ronald Goldman, que teria presenciado o crime por acaso. A família Goldman insiste que Ronald morreu tentando salvar a amiga das garras do marido abusivo.

Quando o "julgamento do século" chegou ao desfecho eu estava a um mês de completar 6 anos de idade. O seriado trouxe à tona para minha geração aquele caso criminal e suas implicações morais e, sobretudo, raciais. De um lado, haviam pessoas lutando pela verdade fatual e pela justiça. De outro, pessoas canalizando seu ódio contra uma polícia genocida e uma promotoria que fazia vistas grossas a isso num homem que sequer se identificava como negro. No meio disso tudo, uma nação dividida em barreiras raciais bem definidas — embora sou inclinado a crer que também existia uma barreira entre misóginos e não-misóginos. A violência policial que hoje aparece escancarada em vídeos de celulares à época só chegou ao público devido a este julgamento, que não tinha nada a ver com isso.

Apresentar a questão racial foi uma estratégia da defesa para tirar o foco do júri dos assassinatos. Mas o que isso mudou para os negros? Numa cena crucial do episódio final, o promotor negro Chris Darden indaga o advogado de defesa Johnnie Cochran, também negro: "O que você conquistou para nós? Este caso não é um marco dos direitos civis. A polícia vai continuar nos espancando e matando. Você não mudou nada para os negros de Los Angeles. A não ser, é claro, aquele rico que mora em Brentwood". Por mais simpático que alguém pudesse ser às questões de racismo sistêmico apresentadas pela defesa, é preciso colocar em primeiro plano que dois seres humanos foram mortos e que haviam provas mais do que suficientes para condenar O.J. pelos assassinatos.

A cena emblemática do Oprah Winfrey Show foi
reprisada no episódio.
Que o júri tenha eleito O.J. cause célèbre da violência contra negros na polícia — quando na verdade ele foi tratado a pão-de-ló pelos detetives — foi o que causou a expressão de espanto na cara da apresentadora Oprah Winfrey quando foi informada do veredito. Uma injustiça histórica cometida contra os negros, da qual O.J. sequer foi vítima ele próprio, foi reparada simbolicamente às custas de dois cadáveres. Mais tarde, um julgamento cível confirmou a responsabilidade de O.J. pelas mortes de Nicole e Ronald. O espetáculo jurídico montado pela defesa incluiu manipular uma das cenas do crime visitadas pelo júri — a mansão de O.J. — para mostrar-lhe como mais orgulhoso de suas origens negras do que ele realmente era.

Pode-se culpar a defesa? A defesa vai fazer aquilo que for preciso para libertar seu cliente. Boa parte da pirotecnia jurídica só foi possível graças ao juiz Lance Ito que, em nome de um suposto interesse público, permitiu que o julgamento fosse filmado e transmitido ao vivo na televisão. Era tudo o que a defesa precisava para incitar os negros dos Estados Unidos e, em especial, de Los Angeles a ficar ao lado do irmão O.J., supostamente uma vítima da polícia racista como eles próprios. A maior preocupação das autoridades era que a condenação do ex-jogador de futebol levasse a uma nova destruição de lojas e casas como nos distúrbios ocorridos em 1992 após a absolvição do policial acusado de espancar Rodney King. Caso O.J. tivesse sido condenado e um novo distúrbio tivesse ocorrido, a culpa seria toda de Ito.

No entanto, o veredito foi diferente e Ito foi menos responsabilizado pela absolvição do que os promotores. Um dos pontos positivos do seriado foi justamente recuperar a imagem de Marcia Clark e Chris Darden. No episódio final foi revelado que Clark decidiu entrar para o Escritório da Promotoria devido a um trauma do passado, justamente para ajudar mulheres vítimas da opressão do patriarcado como Nicole; Clark foi abusada aos 17 anos de idade e seu estuprador jamais foi preso. Ela era vista como uma profissional dedicada, sobretudo contra agressores de mulheres. No entanto, por ser uma mulher num universo majoritariamente masculino, enfrentou as mais duras críticas durante o julgamento de O.J. Críticas às quais seus colegas do sexo masculino ficaram imunes.

Seu jeito de falar, de se vestir e até mesmo seu corte de cabelo foram alvo de escrutínio público. Imagine que você está no meio de um julgamento que pode definir sua carreira, tentando fazer justiça em nome de duas famílias, quando é informada pelo seu chefe de que seu ex-marido vendeu fotos de você nua para um tabloide. Marcia Clark teve que passar por isso. Só que há 21 anos atrás, quando ninguém via problema nisso. Slut-shaming sequer era um conceito existente naquela época, em que chamar uma mulher em posição de poder de "vadia" era comum. Descobrindo o até então desconhecido lado humano da promotora, revelado pela série, várias pessoas desculparam-se a ela pelo Twitter. Ellen DeGeneres mostrou as mensagens à verdadeira Clark em seu programa  e ela marejou os olhos.

Espero que a História seja um juiz mais imparcial de nossas
líderes femininas do que nós. Para Marcia Clark foi.
Talvez não seja tarde para pedirmos desculpas para nossas mulheres em posição de poder aqui no Brasil. Levou 21 anos para o grande público americano perceber que foi manipulado por uma farsa jurídico-midiática e que agiu de uma maneira sexista contra uma mulher que não inventou um sistema cheio de falhas. Marcia Clark apenas trabalhava para esse sistema, tentando tirar o melhor dele para os cidadãos que precisavam de sua ajuda. Ela ficou tão enojada quanto qualquer um ao descobrir o nível de racismo existente nas instituições com as quais trabalhava. Hoje as pessoas percebem isso e pedem-lhe desculpas. Se não for possível pedir desculpas a nossas mulheres — e tendo a crer que não será num futuro tão próximo — espero que pelo menos a História seja um juiz mais imparcial de nossas líderes femininas do que nós estamos sendo. Pelo menos para Marcia Clark foi.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Violência contra a mulher: Só resta rogar à Virgem?

Essa semana comecei a assistir American Crime Story, nova série antológica de Ryan Murphy que a cada temporada vai contar a história de um crime verdadeiro. A primeira temporada, intitulada The people vs. O.J. Simpson, narra a história do assassinato de Nicole Brown por seu ex-marido, o jogador de futebol e ator Orenthal James Simpson, e o subsequente julgamento dele, conhecido à época como "o julgamento do século", dado o tamanho do escrutínio da mídia. É ultrajante ver que a comunidade negra dos Estados Unidos, à época furiosa com o tratamento dispensado pelo Departamento de Polícia de Los Angeles aos cidadãos negros, usou o caso O.J. Simpson como cause célèbre do racismo institucional. O.J., ao contrário de Rodney King, era rico e influente. Achar que a Justiça foi feita em seu caso é cuspir no cadáver de Nicole e de todas as mulheres vítimas de violência doméstica.

Kesha chorando ao ouvir o veredito a favor de Dr. Luke.
Por coincidência, ontem uma imagem emblemática de como a Justiça ainda dorme em berço esplêndido no que diz respeito à violência contra mulheres ganhou o mundo. É a imagem de uma jovem chorando, desamparada, num banco da Suprema Corte de Nova York. Suas lágrimas são iguais às lágrimas da família Brown ao ouvir o veredito que inocentou O.J. Simpson da morte de Nicole Brown. São idênticas às lágrima de milhares de mulheres que não conseguem colocar seus abusadores - físicos, sexuais e psicológicos - atrás das grades devido ao machismo institucionalizado presente nas delegacias de polícia, promotorias e cortes de Justiça ao redor do mundo. A jovem da imagem é a cantora e compositora Kesha Sebert, de 28 anos de idade, mundialmente conhecida por hits como "Tik Tok" (2009), "We R Who We R" (2010) e "Die Young" (2012).

Kesha movia um processo civil contra o produtor musical Lukasz Gottwald (mais conhecido como Dr. Luke), seu empresário, a quem acusa de abuso sexual e terrorismo psicológico no ambiente de trabalho. Ela buscava romper o contrato que possui com Dr. Luke, segundo o qual ainda precisa produzir seis discos para a companhia dele, ligada à Sony Music Entertainment, segunda maior gravadora do mundo. O juiz afirmou que caso Kesha não consiga produzir provas contra Dr. Luke terá que cumprir o contrato de trabalho integralmente. Com o veredito, a Justiça americana deu um forte recado a todas as mulheres que são vítimas de abuso sexual no ambiente de trabalho: vocês terão que conviver com seus chefes abusadores. Do jeito que a "Justiça" caminha, tanto aqui quanto lá fora, as mulheres vão ter que mandar instalar câmeras em seus sutiãs para filmarem seus abusadores e provarem que a violência sexual no ambiente de trabalho é algo real. 

Além do absurdo de obrigar uma mulher a trabalhar com seu suposto abusador, a decisão representa um retrocesso ao desconsiderar a jurisprudência criada nos anos 1950 pela Justiça da Califórnia ao dar ganho de causa à atriz Olivia de Havilland, que à época movia um processo para quebrar seu contrato com a Warner Bros. A decisão garantiu uma maior liberdade artística aos atores, que passaram a poder escolher em quais filmes (de quaisquer estúdios) poderiam atuar. O movimento #FreeKesha pode parecer, à primeira vista, bobo e alienado, criado por fãs de uma cantora pop heterossexual, loira, branca e rica. No entanto, traz consigo questões como o direito mais do que legítimo da mulher de não querer trabalhar com seu abusador e a liberdade artística numa indústria que funciona mais ou menos do mesmo jeito desde os anos 1960; e que ficou ainda pior com o desaparecimento das pequenas gravadoras a partir dos anos 1980.

Nicole Brown Simpson (1959-1994).
Kesha é o símbolo da mulher ideal - branca, heterossexual, loira, magra, rica e sexy. Mas Nicole Brown também era e isso não impediu que O.J. Simpson abusasse dela ao ponto de degolá-la na porta de sua casa enquanto os filhos deles dormiam dentro da mesma. O machismo não respeita nem mesmo as mulheres que tem como ideal de feminilidade. O ódio à mulher é o que lhe move, não importa o que ela faça para se adequar a ele. E o Estado só observa. Em American Crime Story, a promotora está revoltada com o ocorrido: "O Estado falhou com Nicole". Ela havia denunciado o ex-companheiro por violência doméstica oito vezes! Isso explica porque muitas vítimas de abuso sexual sequer denunciam o estupro à polícia. A cantora Madonna, que foi estuprada assim que se mudou para Nova York no final dos anos 1970, foi questionada pelo apresentador Howard Stern porque não denunciou o crime à época. Ela respondeu: "Simplesmente não vale a pena. É muita humilhação".

Apesar da violência contra a mulher ser mais discutida hoje do que era no final dos anos 1970 ou em 1994, quando Nicole foi assassinada, o Estado ainda falha com as mulheres, independente de sua classe social, etnia ou orientação sexual. Kesha, mesmo fazendo parte do 1% mais rico dos americanos, viu seu caso ter o mesmo destino que o de 98% das mulheres que levam seus casos de estupro à Justiça. Ela chorou porque percebeu que para a Justiça americana a vida feminina tem menos valor do que a masculina. Isso ficou bastante claro com o veredito do caso O.J. Simpson, que foi analisado sob as lentes do racismo enquanto deveria ter sido discutido sob as lentes do machismo [Fato curioso: numa América cada vez mais dividida entre negros e brancos, onde a percepção de cada grupo sobre o Poder Judiciário varia muito, os dois grupos atualmente concordam que O.J. matou Nicole]. É assim em nossa cultura desde que às mulheres foi imputada a culpa pela expulsão do Jardim de Éden. Quando nada de concreto é feito para salvaguardar a integridade física e moral das mulheres que vivem em sociedades cuja moralidade deriva das religiões abraâmicas, só lhes resta rogar à Virgem Maria.