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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Porque o boicote da elite do entretenimento contra Trump irá falhar


Poucos artistas parecem dispostos a se apresentar e entreter o país quando o novo presidente assumir no dia 20 de janeiro. Com a notícia na semana passada de que o cantor de ópera Andrea Bocelli cedeu à pressão e desistiu de fazer um show na posse e com uma membro das Rockettes liderando uma rebelião nas redes sociais contra o presidente, Kid Rock é atualmente o maior nome agendado para se apresentar.

E a esquerda é tonta. Porque ela ainda não entendeu o que está acontecendo.

Robert Reich quer ser o Bob Geldof do anti-trumpismo.
Robert Reich, secretário de trabalho de Bill Clinto que se transformou no Michael Moore do Facebook está promovendo algo chamado o Concerto da Liberdade Unida que será transmitido ao mesmo tempo que a posse presidencial. O show beneficiará todas as entidades de caridade progressistas de sempre e Reich espera conseguir grandes nomes como Jay-Z e Madonna para se apresentar. "Simples", escreveu, "a posse de Trump perde toda a audiência na TV. Basicamente, ninguém assistirá".

Isso deve impedi-lo. Jay-Z e Madonna ambos já haviam se apresentado durante a eleição para angariar apoio para Hillary Clinton — e obviamente falharam. Mas, claro, mais um show deve fazer o país virar para o lado de Reich.

A verdadeira questão é a bolha criada pela exclusão estalinizada que a esquerda faz dos não-progressistas da cultura popular americana.

Lin Manuel Miranda está fazendo um concurso para angariar fundos para a Planned Parenthood. Para cada doação de US$10, você entra numa seleção para ver o musical dele, "Hamilton", em três cidades. A mãe de Miranda está no conselho nacional de diretores do Fundo de Ação da Planned Parenthood, então esta é obviamente uma causa pela qual ele se importa.

Não houve controvérsia alguma para seu concurso — só imagine se fosse para a Associação Nacional do Rifle ou qualquer outra causa popular conservadora. Quando Mike Pence assistiu àquela infame apresentação de "Hamilton", o vídeo dele entrando no teatro mostrava muito mais aplausos do que vaias. Ainda assim, o elenco pagou um sermão a ele do palco como se fosse impossível que houvessem eleitores de Trump na plateia ou, Deus proíba, no elenco ou na equipe técnica.

A inclinação progressista em tudo vai além da Broadway ou de Hollywood. Permeia tudo. E envelhece rápido. A edição de setembro da revista de dicas domésticas Real Simple trazia um esbravejo político incoerente da escritora Terry McMillan. Nele, ela acusa o Partido Republicano de conspirar contra o presidente Obama porque ele é negro e os estados de "fraudar" as leis eleitorais. Ela escreveu que as pessoas brancas reclamam de pessoas negras que tomam seus empregos e que ela tem medo de que seu filho saia de casa sozinho e seja morto pela polícia.

Real Simple é uma revista conhecida por receitas e dicas de organização. É um mundo no qual os democratas não deveriam habitar. Eles jamais leriam uma revista sobre dicas domésticas caso se encontrariam até o joelho em teorias conspiratórias conservadoras. O mesmo vale para as revistas femininas, que são todas automaticamente progressistas vestidas com uniformes opinativos sobre "questões femininas", como se as mulheres conservadoras não existissem. Então há o choque de que 53 porcento das mulheres escolheram Trump.

Numa eleição que se resumiu ao fracasso dos democratas em manter o apoio dos estados industriais, aumentar o risco de falar apenas com outros progressistas enquanto se assiste aos artistas progressistas é temerário. Escrevendo na esquerdista revista online de artes The Baffler, Jacob Silverman apontou para o culto às celebridades como uma das principais razões pelo fracasso de Hillary.

Katy Perry não vai mudar o que a maioria dos eleitores pensa.
Ele escreveu que esses "apelos pela atenção das celebridades parecem refletir o desejo dos progressistas de verem suas políticas validadas, até mesmo receberem uma aura de glamour, por colegas da elite. Os tweets enérgicos de Clinton e aparições no show do Jay-Z recorrem aos já convertidos enquanto não oferece nada aos milhões de trabalhadores americanos que estão pensando se, talvez, falta um toque de povo à mulher que cobra US$250.000 por palestras secretas para banqueiros".

Um número astronômico de 68 porcento dos entrevistados numa pesquisa de boca-de-urna da Reuters/Ipsos no dia da eleição disse que "partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas como eu". É um número muito grande de pessoas se sentindo completamente abandonadas — e a Katy Perry não vai incidir nisso.

Enquanto os progressistas continuam a desenhar linhas culturais que excluem os conservadores, eles têm que notar que isso está se traduzindo em perdas nas urnas. Os republicanos não controlam apenas a presidência, a Câmara e o Senado, mas cerca de dois-terços das assembleias legislativas e a maioria dos governos estaduais.

O abrangente progressismo na cultura popular pode não estar prejudicando os resultados financeiros dos artistas (até agora), mas certamente não está fazendo nada para ajudar suas causas políticas também. Como aprendemos nessa eleição, ignoramos segmentos inteiros da população sob nosso próprio risco.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Há 80 anos, fascistas matavam a poesia na Espanha


Federico García Lorca (1898–1936)
Há exatos oitenta anos, no início da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o conhecido poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado por soldados fascistas. Um mês antes de morrer, aos 38 anos de idade, Lorca havia terminado de escrever a peça A Casa de Bernarda Alba que, com Bodas de Sangue Yerma, faz parte de sua trilogia rural. A morte, presente nas três peças, é um tema artístico central de sua breve vida. Dez anos antes de ser assassinado, quando morava em Nova York e acompanhou o desespero gerado nas pessoas pela quebra da bolsa, Lorca parece ter previsto o destino violento que encontraria ao compor os seguintes versos: "Então eu percebi que fui assassinado / Me procuraram em cafés, cemitérios e igrejas / Mas não me acharam / Eles nunca me acharam? / Não, eles nunca me acharam". O mais assustador em sua premonição é que até hoje seu corpo não foi, de fato, encontrado.

Poucos artistas representaram e encarnaram o espírito coletivo de sua nação tão bem quanto Lorca – o que torna sua morte ainda mais emblemática. A morte de Lorca precedeu a censura que matou a arte na Espanha. Logo após a eclosão da Guerra Civil, em julho de 1936, Lorca tomou a decisão desastrada de deixar o seguro enclave de Madri para ficar com seus familiares em Granada, a região conservadora em que nasceu. O interior da Espanha e seus costumes fascinavam Lorca, que retratou-o em suas peças. Imediatamente após sua chegada, Granada foi sitiada pelo partido político paramilitar que orquestrou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Azaña, a Falange Espanhola. Apesar de cultivar uma imagem pública de artista apolítico, sua associação com a República, suas peças contra a repressão e algumas declarações anti-católicas em entrevistas transformaram Lorca num alvo em potencial dos conservadores. Outro fator que contribuiu para o ódio dos falangistas ao poeta era sua homossexualidade.

Lorca manteve-se escondido, mas os falangistas caçaram-no até o dia 16 de agosto, quando foi preso e condenado à morte sem base legal ou julgamento. Às três da madrugada de 19 de agosto, foi algemado a um outro prisioneiro – um professor – e lavado de carro a um prédio chamado La Colina na cidade Viznar, que a Falange havia transformado em presídio para prisioneiros políticos. Pouco após o amanhecer, Lorca foi levado para o lado de fora do edifício, onde foi fuzilado ao lado do professor e de dois toureiros, membros do sindicato anarquista CNT. Segundo uma testemunha, o poeta foi levado para uma sala antes da morte, onde foi torturado devido a sua homossexualidade. Lá, balas foram enfiadas em seu ânus. Após o fuzilamento, o corpo de Federico García Lorca, um dos maiores escritores do século XX e um dos filhos pródigos da Espanha, foi lançado sem cerimônia num barranco, que em breve se tornaria uma vala comum para as vítimas dos falangistas.

Barranco de Viznar, onde o corpo de Lorca teria sido jogado.
Após seu fuzilamento, os livros de Lorca foram queimados publicamente na Plaza del Carmen em Granada e, com a ascensão ao poder do caudilho Francisco Franco, sua obra foi rapidamente banida de todas as províncias da Espanha. Anticlericalismo, republicanismo e liberdade não eram valores que interessavam ao novo regime integralista, que promovia o nacionalismo, o militarismo, o catolicismo, o anti-comunismo e o anti-libertarismo. E a homossexualidade? Existe algo mais subversivo para um governo escorado no fundamentalismo católico da Opus Dei do que relações entre pessoas do mesmo sexo? Em 1953, uma versão censurada das Obras Completas de Lorca foi lançada. Entre as ausências mais notáveis da antologia encontra-se o poema homoerótico "Sonetos do Amor Obscuro", escrito em 1935. Este era considerado perdido até os anos 1980, quando foi publicado na forma de rascunho, uma vez que a versão final do poema jamais foi encontrada.

A última peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, só foi encenada pela primeira vez em 1945 em Buenos Aires. Vinte anos mais tarde, uma versão censurada da peça foi apresentada na Espanha, mas a censura ao resto da obra do poeta só terminou após a morte do caudilho em 1975. Durante o francoísmo, menções à vida e à morte do poeta também foram censuradas. Para a narrativa oficial dos vencedores da guerra, Lorca nunca existiu. Foi somente após a morte de Franco, em 1975, que a Espanha pôde finalmente discutir abertamente sobre a morte de um de seus maiores ícones literários. Além da censura política, havia uma relutância da família García Lorca em permitir a publicação de seus poemas e de suas peças. Era um trauma que não estavam prontos para reviver. Devido ao fato de ter se tornado um assunto proibido por 36 anos, até hoje não se sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Atualmente suas peças são encenadas frequentemente na Espanha.

Monumento em Viznar: "Lorca era todos". Era? A depender
da direita brasileira, histérica, Lorca serei eu.
Embora imagina-se que exista um dossiê sobre o assassinato de Lorca, a falta de emersão do mesmo continua a atormentar sua família. Em 2009, um juiz espanhol abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato de Lorca e a família do poeta finalmente permitiu que fosse realizada uma busca a seus restos mortais no Barranco de Viznar. Segundo Ian Gibson, biógrafo de Lorca, esta ação foi adiada por tempo demais: "Acho que é essencial encontrar o corpo, em respeito à memória de Lorca. Só sua morte renderia 100 livros... Lorca pertence à humanidade e não a sua família. Ele é um emblema que deu sua vida pela Espanha. Ele é um mártir". Apesar da iniciativa, nada foi encontrado no local. Enquanto o assassinato de um dos maiores poetas do século passado é relembrado em todo o mundo, o Brasil ataca seus poetas e deixa-se fascinar pela mesma histeria fascista que permitiu à Espanha matar sua arte e embarcar em 36 anos de trevas. Como escritor, gay e libertário (assim como Lorca) não posso deixar de me incomodar com este paralelo histórico.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Em defesa do Times

Há exatamente uma semana o jornal estadunidense New York Times publicou um editorial, intitulado "Piorando a crise política no Brasil", em que criticava o impeachment da presidenta constitucional do Brasil, Dilma Rousseff. O mais respeitado diário do mundo escreveu que Dilma está pagando um preço desproporcionalmente alto por irregularidades administrativas que são cometidas por quase todos os governantes do país — segundo Cenk Uygur do Young Turks se todos os políticos americanos que violam a lei orçamentária fossem afastados não sobrariam mais políticos no país. Segundo o Times, "vários dos detratores mais ardentes [de Dilma] são acusados de crimes mais escandalosos". Como, por exemplo, o novo líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), investigado por tentativa de homicídio. A opinião da família Ochs Sulzberger é de que os líderes políticos brasileiros querem "removê-la para retomar a política de pagamento de propinas, o que é indefensável".

Como cantava o Bee Gees, talvez um dia conseguiremos
entender o efeito que o New York Times provoca nas pessoas. 
Mal o editorial foi impresso e os lacaios da mídia nativa correram para desmerecê-lo. O papel mais patético foi protagonizado por Lúcia Guimarães, ex-produtora do Manhattan Connection e atual colunista do Estado de S. Paulo, aquele jornal que apoiou acriticamente o golpe de Estado de 1964 para depois ser censurado pelos próprios golpistas. A jornalista escreveu diversos tuítes (em inglês) para o perfil oficial do jornal estadunidense, corrigindo-o. Foi sumariamente ignorada pelo gestor de redes sociais do Times, que deve ter achado se tratar de mais uma militante do PSDB e não de alguém que diz ser uma profissional da informação. Se em 1964 a grande mídia brasileira conseguiu entorpecer a maioria dos brasileiros através de uma narrativa uníssona da crise política de então, parece estar tendo dificuldade em fazer o mesmo agora que as fronteiras entre os países estão cada vez menores e os olhos do planeta se voltam para o Rio devido aos Jogos Olímpicos.

Publicado continuamente desde 1851, o New York Times é referência mundial em jornalismo, tendo suas reportagens recebido 117 prêmios Pulitzer, mais do que qualquer outro veículo de imprensa. Foi nos arquivos deste jornal que descobri quem foi a revolucionária alemã Rosa Luxemburgo. Foi este jornal que revelou ao mundo quem era Chico Mendes e por que ele estava sendo ameaçado de morte — e o governo de José Sarney, que agora negocia cargos com Michel Temer, ignorou solenemente a reportagem, o que levou ao assassinato do líder ambientalista e sindical pouco antes do Natal de 1988 na porta de sua casa em Xapuri, no Acre. Trata-se de uma das maiores fontes historiográficas do mundo — e é por isso que incomoda à elite brasileira e seus lacaios que ela não esteja reproduzindo a versão deles. Mas se o Times não se dobrou a líderes muito mais espertos e a elites muito mais sanguinárias, por que se dobraria a Temer e à elite paulista?

Página de O Globo de 7 de abril de 64,
sugerindo nomes para a tortura.
Quando precisei pesquisar dados sobre o plebiscito de 1934 que tornou Adolf Hitler führer da Alemanha foi no New York Times que os encontrei e não no arquivo do Estadão. O jornal tinha um correspondente em Berlim em plena escalada do nazismo! Se hoje é possível desmentir rumores antissemitas sobre a ascensão de Hitler, é devido, em parte, ao Times. Se o jornal se limitasse a reproduzir a mídia oligopolizada da Alemanha dos anos 1930, como os lacaios da elite paulista desejam que ele faça ao reportar a crise política brasileira, provavelmente teria defendido o extermínio de judeus. Mas aí é que reside parte importante da grande diferença entre o Times e os jornalões brasileiros. Em 1896 ele foi comprado por Adolph Ochs, um comerciante judeu, e os judeus só foram completamente integrados à sociedade estadunidense após a Segunda Guerra Mundial. Já os principais jornais brasileiros sempre foram dirigidos por homens brancos cristãos que nunca sentiram o peso da opressão. 

Apesar das críticas que nutro ao New York Times por sua postura excessivamente pró-establishment — como a decisão de apoiar as candidaturas de Hillary Clinton e John Kasich nas eleições presidenciais deste ano —, ele merece respeito. É mais antigo do que todos os jornais brasileiros de abrangência nacional e, o mais importante de tudo, nunca fez parte de um grupo que monopoliza a mídia, como é o caso do maior jornal carioca. A mídia oligopolizada do Brasil não pode dar lições de jornalismo a ninguém. Segundo a insuspeita ONG Repórteres Sem Fronteiras,"os meios de comunicação incitaram o público a derrubar a presidenta Dilma". Trata-se de uma mídia partidarizada que não convence mais ninguém de sua imparcialidade. Faria muito bem ao país se, assim como o Times, confessasse sua postura política — no caso de defesa dos interesses da burguesia —, ao invés de espernear toda vez que tem sua postura de militante anti-PT denunciada por veículos como Guardian ou New York Times.

Assim como o Estado de S. Paulo tem o direito de apoiar Aécio Neves, o New York Times não comete nenhum crime ao apoiar Dilma Rousseff, embora não tenha sido isso que ele fez, ao contrário do que sugeriu o incauto Jorge Pontual na GloboNews. O Times apoiou a frágil democracia brasileira e não a Dilma. O editorial dizia: "Esta crise política está minando a fé na saúde da jovem democracia [do Brasil]". O maior jornal dos Estados Unidos diz-se preocupado com a democracia brasileira e a mídia brasileira classifica-o de dilmista. Diz muito sobre a nossa mídia, não? Acho que aquilo que o Times escreveu como alerta para os políticos brasileiros, pode muito bem valer para os veículos de comunicação também: "Eles podem se dar conta em breve que grande parte da ira da população focada na presidente será redirecionada a eles". E que não reclamem se isso acontecer, pois essa ira contra as instituições foi muito bem incitada por eles durante anos a fio. 

Para alguns, defender a democracia é o mesmo que defender
Dilma Rousseff acriticamente (o que o Times não fez).
Isto pode ocorrer porque o brasileiro está insatisfeito com a ordem. E desconheço instituição maior em defesa da manutenção da ordem do que a mídia brasileira. Trata-se de uma mídia que compra briga até com veículos respeitadíssimos da mídia mundial, como o Guardian ou o Times para defender sua visão de mundo. À mídia internacional parece insensato — para não dizer hipócrita — que políticos sob investigação, como Eduardo Cunha, Renan Calheiros e André Moura, julguem uma presidenta sobre a qual não pesa acusação alguma além de uma tecnicalidade fiscal que governadores de todos os partidos praticam. Não adianta o João Roberto Marinho enviar cartinha pro Guardian, este impeachment está tendo sua legitimidade questionada até mesmo por veículos ultra-liberais como a revista Economist. Uma hora a população vai perceber isso e se revoltar contra quem os fez apoiar a troca de pouco por nada. E a culpa não vai ser do Times.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O suposto resultado de uma eleição nada presumível

A última semana foi agitada para aqueles que acompanham o processo eleitoral nos Estados Unidos. Após uma vitória acachapante na primária republicana de Nova York, onde teve 60% dos votos, o empresário Donald Trump tornou-se matematicamente imbatível por seus opositores — o senador texano Ted Cruz (porta-voz do movimento radical Tea Party) e o governador de Ohio John Kasich (representante da centro-direita). Numa tentativa final de vencer Trump, Cruz anunciou que a ex-CEO da HP Carly Fiorina seria sua companheira de chapa. Apesar disso, Trump venceu a primária de Indiana em 3 de maio, o que levou o senador texano a suspender sua campanha no mesmo dia. Kasich anunciou o fim de sua campanha no dia seguinte, sendo que Trump, o único candidato ainda na disputa pelo lado republicano, já é tratado  pela mídia como o "presumível candidato" do partido.

No meio disso tudo, na última segunda-feira uma pesquisa divulgada pelo Instituto Rasmussen indica que a "presumível candidata" democrata Hillary Clinton estaria dois pontos percentuais atrás de Trump na eleição geral, a ser realizada em 8 de novembro. É verdade que o instituto é conhecido por favorecer os republicanos, tendo previsto a derrota de Barack Obama para Mitt Romney em 2012, mas é também verdade que o favoritismo de Clinton face a Trump vem caindo na média das pesquisas desde março. Era de 11,2% em 23 de março e agora está em 6,5%, segundo o Real Clear Politics. A disputa para Clinton — que não foi tão tranquila quanto ela e os cabeças do Partido Democrata imaginavam que seria na fase primária, quando teve que enfrentar o senador social-democrata Bernie Sanders —, será ainda pior na eleição geral.

Sanders representa a insatisfação dos jovens com o Partido
Democrata, transformado em antro pró-negócios por Clinton.
O FBI investiga Hillary Clinton desde 1992, quando seu marido era candidato à presidência e o New York Times divulgou que nos anos 1970 o então advogado-geral do Arkansas e sua esposa compraram lotes no empreendimento Whitewater e teriam sido beneficiados por transações ilegais realizadas pelo outro sócio do empreendimento, Jim McDougal. Desde 2012, quando era secretária de Estado, Clinton vem sendo acusada de responsabilidade pelo ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, que matou o embaixador Chris Stevens e outros três americanos. A ex-secretária testemunhou no Senado em 2015, no que foi considerado uma vitória para ela, mas em seguida descobriu-se que ela usava uma conta de e-mail pessoal enquanto secretária de Estado para se comunicar com seus subordinados e, juntos, eles decidiam quais e-mails arquivar no sistema do governo e quais descartar.

Além disso, há o escândalo Monica Lewinsky, sempre muito apelativo aos eleitores evangélicos (que correspondem a 36% do eleitorado). O fato é que Hillary Clinton é uma das figuras mais polarizadas e polarizantes da política americana. De cada dez americanos, cinco a odeiam e quatro a amam. Desde 8 de abril ela possui mais odiadores do que admiradores, conforme indica o HuffPost Pollster. Mesmo em estados onde ela venceu as primárias, a maioria do eleitorado afirma confiar mais em Bernie Sanders do que nela. Segundo a pesquisa boca-de-urna realizada pela CNN em Nevada, por exemplo, 82% dos eleitores acreditam que Sanders é mais confiável do que Clinton. E ela ganhou com 53% dos votos. Trata-se de uma figura extremamente desgastada, que seus próprios apoiadores têm dificuldades em definir como confiável.

Agora que as chances de Bernie Sanders diminuem  ele precisa ganhar na Califórnia para ter alguma chance de vencer Clinton  o movimento Bernie or bust ("Bernie ou nada", em tradução livre) ganha força. Trata-se de eleitores de Sanders que se recusam a apoiar Clinton numa eleição geral. Preferem escrever o nome dele na cédula (o voto de protesto conhecido como write-in) ou sequer se darem ao trabalho de ir votar, uma vez que a participação em eleições nos Estados Unidos não é obrigatória e se ausentar do processo não acarreta em nenhuma punição legal para os cidadãos. Creio eu que os votos de Sanders irão se dividir da seguinte forma: abstenção, write-in, Jill Stein (candidata do Partido Verde) e Clinton. Só não sei ao certo em quais proporções, pois é fato que Clinton deve tentar atrair os eleitores de Sanders nos próximos meses.

Duvido que a ex-secretária de Estado ofereça ao senador o cargo de companheiro de chapa. Ele é muito anti-establishment para isso e a família Clinton transformou o Partido Democrata num antro de políticos amigos dos negócios. "Conservador na política fiscal e liberal na política social" é o lema dos clintonianos. O cargo deve ser oferecido à senadora Elizabeth Warren, companheira de Sanders na denúncia da ganância predadora de Wall Street, mas duvido que ela aceite renunciar sua ideologia pelo poder. Há inclusive um vídeo circulando nas redes sociais em que Warren denuncia as várias facetas de Clinton. Em 2004 Warren contou a Bill Moyers que conseguiu convencer a então primeira-dama a fazer campanha contra um projeto de lei, patrocinado pelas operadoras de cartão de crédito, que redefinia o conceito de falência. Ao ser eleita senadora, Clinton apoiou o mesmo.

Por casos como este, Clinton não inspira confiança no eleitorado mais jovem, justamente aquele que ganhou força com a entrada de Sanders na disputa. Em 1996, Clinton apoiou a decisão do marido de banir o casamento gay a nível federal, enquanto atualmente se apresenta como defensora dos LGBTs. Sem falar no faux pas horrível de ter afirmado que o casal Reagan foi crucial na tomada de consciência de que algo precisava ser feito para conter a epidemia da AIDS nos Estados Unidos. A eleição de 2016 está sendo tudo menos "presumível", então não é ingenuidade minha imaginar que a pesquisa do Instituto Rasmussen tenha soado um alerta na campanha de Clinton. Odiada pela direita desde a presidência de seu marido e perdendo o apoio da esquerda, a ex-secretária de Estado pode perder uma eleição que estava praticamente ganha para os democratas.

Tanto Trump quanto Clinton compraram a indicação em seus
respectivos partidos.
Não digo que a eleição será fácil para a direita também não. Ao acolherem elementos radicais em seu partido, os republicanos transformaram-se numa caricatura patética de si mesmos. A esta altura do campeonato, não é possível presumir nada a respeito da eleição geral em novembro. Só que deverá ser uma campanha muito suja, com a direita raivosa ressuscitando todos os escândalos em que o casal Clinton se meteu nos últimos 30 anos. Há dois anos parecia que a disputa seria entre Jeb Bush e Hillary Clinton, com a última seguindo para uma vitória inevitável. Hoje ela segue enfraquecida para a eleição geral e sequer é possível afirmar se os Estados Unidos terá uma presidenta. Se por um lado a eleição de Trump será ruim para o mundo, por outro será bom porque significará o fim da submissão da esquerda à política clintoniana.

O Partido Democrata, graças a Sanders e sua nada insignificante base eleitoral, será obrigado a encarar o erro de ter aderido a um sistema que praticamente obriga os filiados a votarem em quem compra o diretório nacional do partido. Tanto Clinton quanto Trump compraram a indicação em seus respectivos partidos. Os eleitores democratas, cansados da velha política que os iguala aos republicanos, não precisarão mais renunciar à ideologia por medo do candidato do outro lado. É disso que se trata: escolher Hillary Clinton para não escolher Donald Trump é votar no menos pior. A esperança prometida — e não-cumprida — por Obama, poderá enfim ter razão de ser. A "terceira via", o "novo trabalhismo", ou seja, a roupagem neoliberal que deram à esquerda será enfim enterrada. Mas isso, é claro, não passa de um suposto resultado de uma eleição nada presumível.

terça-feira, 8 de março de 2016

"Os judeus elegeram Hitler"

Adoro um título provocativo. Este, no entanto, aparece entre aspas por se tratar da fabulação mais incrível que eu já ouvi em toda a minha breve existência. No final do ano passado o professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Karnal escreveu que jamais imaginou que ouviria um impropério tão grande quanto aquele que ouviu no ano da Primavera Amarela, segundo o qual o nazismo é uma ideologia de esquerda. Tal teoria, marginal até o surgimento do Tea Party nos Estados Unidos e amplamente difundida através das redes sociais, já é antiga conhecida minha. Desde os tempos de Orkut ouço, ou melhor, leio isso. O que realmente me chocou na versão atual do Festival de Besteiras que Assola o País foi ouvir que os judeus elegeram Adolf Hitler para o cargo de chanceler da Alemanha. Esta teoria encontra eco em fóruns de discussões de "orgulho branco" (me recuso a ligar os links aqui e sujar meu blog com literatura pseudo-científica), que tentam responsabilizar os judeus, de uma forma ou de outra, pelo seu próprio genocídio.

Que a neodireita brasileira não presta atenção alguma nas aulas de História do Ensino Médio já tornou-se uma constatação inegável até mesmo para a direita erudita, envergonhada das faixas erguidas pelos camisas-amarelas nos protestos anti-PT. Entretanto, reimaginar acontecimentos históricos eleva a histeria para o nível do delírio; é como querer provar que 2 + 2 = 5. A despeito do que os membros do Partido orwelliano (que cresce como nunca antes no Brasil) possam pensar, o que já aconteceu – e, portanto, já foi historicamente testado e provado – é uma realidade concreta que não pode ser mais passível de modificações. A opinião pessoal do historiador é nula quando os fatos históricos são documentados. Pode-se divergir, por exemplo, do número total de mortos nos campos de concentração, mas o que os registros históricos da Alemanha Nazista mostram são campanhas de internação compulsória das populações vistas como inferiores, assim como fotos e vídeos feitos pelos Aliados mostram milhares de corpos empilhados em Auschwitz e demais abatedouros de seres humanos.

No Hospital Judeu de Berlim, onde nem todos os pacientes eram
judeus, os sociais democratas tiveram 44% dos votos em 1932
.
Que parte significativa da classe trabalhadora brasileira vota contra seus próprios interesses já é de conhecimento até do mundo mineral. Sim, Dilma traiu os operários que reelegeram-na. Não nego isso. Mas trocar o PT pelo Jair Messias Bolsonaro (esse é o nome dele) não me parece a atitude mais sensata a ser tomada pelos membros da classe oprimida. Mas isso é recorrente na História brasileira. Antes mesmo do PT virar a fonte de todo o mal e o bode expiatório da corrupção na política, o falecido cantor e compositor Tim Maia já havia cunhado um dos grandes aforismos nacionais: "o Brasil é o único país do mundo em que prostituta apaixona, cafetão sente ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita". Parece-me que inventar (ainda mais uma) fábula sobre os judeus ajuda os brasileiros pobres a racionalizarem sua escolha suicida pela extrema-direita. Acreditando nessa fábula podem votar em quem quer exterminá-los sem culpa ou remorso. Afinal de contas, até mesmo os judeus teriam feito isso! Só que o fato é que eles não fizeram. É o que dizem pesquisadores que ouviram sobreviventes do Holocausto e cruzaram dados censitários e eleitorais da Alemanha pré-Hitler.

Segundo The Jews in Weimar Germany, obra de Donald L. Niewyk, professor de História contemporânea da Europa na Universidade Metodista do Sul (EUA), "com o desaparecimento de quase todos os partidos moderados de classe média durante a Grande Depressão, os votos (e o dinheiro) dos judeus ficaram disponíveis. Os principais competidores eram os partidos de Centro e Social Democrata, ambos com histórico de apoio ao sistema republicano e de denúncia da judeofobia". Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o controle da Alemanha, o Partido de Centro, de orientação católica, fez campanha para conseguir o voto dos judeus, afirmando não se opor à educação religiosa num cenário cada vez mais laico. Segundo Niewyk, "a resposta foi positiva num amplo espectro da opinião judaica". O principal jornal da comunidade judaica, Israelitisches Familienblatt (Jornal da Família Israelita), fez editoriais a favor do partido, assim como organizações sionistas. No entanto, "a ligação do Partido de Centro com sionistas proeminentes pode ter prejudicado suas chances com os judeus de esquerda, que eram bem mais numerosos", alerta o pesquisador.

Sim, os judeus alemães eram de esquerda, mas não eram comunistas. Outra ideia amplamente divulgada nos fóruns de "orgulho branco" é que os judeus teriam causado o colapso da Alemanha ao votarem em massa no Partido Comunista, o que também não é verdade. "Os adultos judeus moveram-se para a esquerda moderada durante os últimos anos da República de Weimar", escreve Niewyk, que em seguida afirma que os jovens judeus foram atraídos pelo Partido Comunista. A reação dos grupos sionistas foi forte e orquestrada. Começaram a alertar os jovens para o perigo da "assimilação vermelha" e para os horrores cometidos contra os judeus por Josef Stálin – à época o líder soviético apostava numa campanha antissemita para perseguir o dissidente Léon Trotsky e seus seguidores. O editor do Israelitisches Familienblatt, Esriel Carlebach, foi vítima de uma tentativa de assassinato em 1933 após escrever uma série de artigos críticos ao tratamento dispensado pela URSS aos judeus; ele havia visitado o país no verão de 1932. Embora jamais tenha ficado claro se o perpetrador do ataque foi um comunista ou um nazista, este fato acabou afastando os eleitores judeus dos comunistas.

Pôster associando o comunismo ao judaísmo.
Niewyk nota que foi a esquerda moderada a responsável por eleger e nomear os primeiros funcionários públicos judeus. Pouco antes do colapso da República de Weimar os comunistas deixaram de apresentar candidatos judeus ao Parlamento. Foi uma forma que encontraram de contradizer a propaganda nazista, segundo a qual os judeus haviam se aliado aos bolcheviques para tomar o controle do mundo. Vendo-se preteridos pela extrema-esquerda e perseguidos pela extrema-direita, os judeus encontraram no Partido Social Democrata seu porto seguro. "O Partido Social Democrata, prejudicado perenemente [entre a esquerda] por cultivar uma imagem mais radical do que suas políticas,  conseguia o apoio dos judeus ao manter o proletariado relativamente livre do antissemitismo e por combater os nazistas mais militantemente do que qualquer outro", afirma Niewyk. Ele nota que o jornal ortodoxo Der Israelit (O Israelita), que até 1930 condenava o socialismo por causa de sua ligação com o ateísmo, aplacou o tom de suas críticas e, em 1932, recomendou voto no Partido Social Democrata ou no Partido de Centro.

Outro dado interessante é uma pesquisa feita por Arnold Paucker com cerca de cem sobreviventes judeus do Holocausto, a maioria dos quais haviam sido apoiadores de classe média do Partido Democrático até o declínio deste em 1930. Os resultados sugerem que, após 1930, cerca de 62% dos eleitores judeus votaram no Partido Social Democrata, enquanto 19% votaram no Partido do Estado (ex-Partido Democrático) e 5% no Partido de Centro. O pesquisador alerta que não conseguiu localizar um grande contingente de judeus da Bavária e que os habitantes de fé judaica deste estado conservador podem ter votado em massa no Partido do Povo da Bavária tanto antes quanto após o pleito de 1930. Niewyk, interpretando os dados da pesquisa do colega historiador, afirma que a falta de judeus de classe alta na pesquisa pode indicar que o católico Partido de Centro teve na verdade mais votos entre os judeus do que Paucker indicou. Isto nos leva até os dados de outro pesquisador, Peter Pulzer, que cruzou dados censitários e eleitorais. Ele confirma a preferência dos judeus pelo Partido Democrático até 1930 e afirma que os judeus ortodoxos e de áreas rurais preferiam o Partido do Povo da Bavária e o Partido de Centro durante os anos 1920. 

Pulzer analisou os resultados eleitorais de dezenove distritos onde os judeus constituíam uma maioria significativa segundo o Censo alemão – em especial nas cidades de Berlim, Frankfurt-am-Main e Hamburgo. Ele afirma, com a ressalva de que é difícil separar o votos dos judeus e dos gentios, que a minoria etno-religiosa continuou apoiando o Partido do Estado nas eleições locais, mas, ameaçados pela ascensão de um partido claramente antissemita ao poder central, passaram a apoiar o Partido de Centro e o Partido Social Democrata nas eleições federais. Niewyk escreve que, conforme indica Pulzer, a resposta dos judeus ao declínio da democracia e à ascensão do nazismo foi qualquer coisa menos irracional. Sim, eles subestimaram e interpretaram errado as ideias de Adolf Hitler, mas todo mundo na época também fez isso (muitos acreditavam que seus discursos antissemitas eram apenas retórica eleitoral). A título de curiosidade, vale notar a existência de uma Associação Alemã de Judeus Nacionalistas, que defendia a assimilação dos judeus pela cultura alemã. Posteriormente o grupo apoiou Adolf Hitler, mas sempre foi pouco significativo. Segundo a Wikipédia, tinha pouco mais de 3.500 membros num universo de 522.000 judeus (menos de 0,7% do total).

"Se ainda há quem imagine que os judeus alemães foram politicamente complacentes [com o nazismo], que fugiram para um mundo de fantasia onde o racionalismo iluminado e a simbiose perfeita reinavam, este livro deve convencê-los do contrário" – Niewyk, em resenha do livro de Pulzer.

De fato os judeus votaram em massa em Adolf Hitler – depois
que já estavam em Dachau.
É perfeitamente compreensível que alguns judeus tenham tentado assimilar a ideologia nazista como forma de escapar da perseguição oficial do Estado alemão. Uma matéria do jornal norte-americano The New York Times, datada de 20 de agosto de 1934, aponta isso. Com a morte do presidente Paul von Hindenburg no início daquele mês, Hitler realizou um plebiscito perguntando ao povo alemão se os cargos de presidente e chanceler deveriam ser unificados, o que lhe daria controle absoluto sobre o Estado alemão. "Cada opinião contrária foi suprimida", relata o correspondente do jornal, e Hitler foi sagrado führer da Alemanha com 90% dos votos. "Uma cédula continha a inscrição: 'como nada aconteceu comigo até agora, voto sim'. Estava assinada: 'não-ariano'." Não me parece o voto de um cidadão politizado e consciente, mas sim o voto de protesto irônico de um cidadão com tanto medo que sequer assinou a cédula. Os votos "sim" foram imensamente populares nas instituições judaicas. "Isso é explicável, é claro, pelo medo de repressão caso o resultado fosse diferente", diz o jornal, antes de afirmar que a maior votação de Hitler na Bavária havia sido no campo de concentração de Dachau.

Dito tudo isso, prefiro acreditar nas palavras dos professores Niewyk e Pulzer, assim como no correspondente do New York Times que esteve em Berlim para acompanhar a votação do plebiscito de 1934, do que em alguém que acredita em tudo aquilo que lê no Facebook. Numa época em que a comunicação se tornou extremamente rápida e eficiente, as palavras parecem sair da mente e se materializar na tela do computador sem reflexão alguma. O debate político agora se resume a 140 caracteres cheios de frases de efeito (as hashtags). Nesse cenário, explica-se porque um dado histórico falso é divulgado sem maiores questionamentos. É feio fazer a Glória Pires e assumir a falta de conhecimento em determinado assunto. Somos obrigados a opinar sobre tudo e, assim sendo, tornamo-nos especialistas em tudo sem sabermos absolutamente nada. Mas o problema é que é bem ofensivo dizer que milhões de judeus morreram porque eles mesmos teriam votado em Hitler como uma massa de manobra acéfala e suicida. Se é isso que desejam que os brasileiros façam, assumam. Não há necessidade de promover seu anseio às custas de 6 milhões de almas.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Violência contra a mulher: Só resta rogar à Virgem?

Essa semana comecei a assistir American Crime Story, nova série antológica de Ryan Murphy que a cada temporada vai contar a história de um crime verdadeiro. A primeira temporada, intitulada The people vs. O.J. Simpson, narra a história do assassinato de Nicole Brown por seu ex-marido, o jogador de futebol e ator Orenthal James Simpson, e o subsequente julgamento dele, conhecido à época como "o julgamento do século", dado o tamanho do escrutínio da mídia. É ultrajante ver que a comunidade negra dos Estados Unidos, à época furiosa com o tratamento dispensado pelo Departamento de Polícia de Los Angeles aos cidadãos negros, usou o caso O.J. Simpson como cause célèbre do racismo institucional. O.J., ao contrário de Rodney King, era rico e influente. Achar que a Justiça foi feita em seu caso é cuspir no cadáver de Nicole e de todas as mulheres vítimas de violência doméstica.

Kesha chorando ao ouvir o veredito a favor de Dr. Luke.
Por coincidência, ontem uma imagem emblemática de como a Justiça ainda dorme em berço esplêndido no que diz respeito à violência contra mulheres ganhou o mundo. É a imagem de uma jovem chorando, desamparada, num banco da Suprema Corte de Nova York. Suas lágrimas são iguais às lágrimas da família Brown ao ouvir o veredito que inocentou O.J. Simpson da morte de Nicole Brown. São idênticas às lágrima de milhares de mulheres que não conseguem colocar seus abusadores - físicos, sexuais e psicológicos - atrás das grades devido ao machismo institucionalizado presente nas delegacias de polícia, promotorias e cortes de Justiça ao redor do mundo. A jovem da imagem é a cantora e compositora Kesha Sebert, de 28 anos de idade, mundialmente conhecida por hits como "Tik Tok" (2009), "We R Who We R" (2010) e "Die Young" (2012).

Kesha movia um processo civil contra o produtor musical Lukasz Gottwald (mais conhecido como Dr. Luke), seu empresário, a quem acusa de abuso sexual e terrorismo psicológico no ambiente de trabalho. Ela buscava romper o contrato que possui com Dr. Luke, segundo o qual ainda precisa produzir seis discos para a companhia dele, ligada à Sony Music Entertainment, segunda maior gravadora do mundo. O juiz afirmou que caso Kesha não consiga produzir provas contra Dr. Luke terá que cumprir o contrato de trabalho integralmente. Com o veredito, a Justiça americana deu um forte recado a todas as mulheres que são vítimas de abuso sexual no ambiente de trabalho: vocês terão que conviver com seus chefes abusadores. Do jeito que a "Justiça" caminha, tanto aqui quanto lá fora, as mulheres vão ter que mandar instalar câmeras em seus sutiãs para filmarem seus abusadores e provarem que a violência sexual no ambiente de trabalho é algo real. 

Além do absurdo de obrigar uma mulher a trabalhar com seu suposto abusador, a decisão representa um retrocesso ao desconsiderar a jurisprudência criada nos anos 1950 pela Justiça da Califórnia ao dar ganho de causa à atriz Olivia de Havilland, que à época movia um processo para quebrar seu contrato com a Warner Bros. A decisão garantiu uma maior liberdade artística aos atores, que passaram a poder escolher em quais filmes (de quaisquer estúdios) poderiam atuar. O movimento #FreeKesha pode parecer, à primeira vista, bobo e alienado, criado por fãs de uma cantora pop heterossexual, loira, branca e rica. No entanto, traz consigo questões como o direito mais do que legítimo da mulher de não querer trabalhar com seu abusador e a liberdade artística numa indústria que funciona mais ou menos do mesmo jeito desde os anos 1960; e que ficou ainda pior com o desaparecimento das pequenas gravadoras a partir dos anos 1980.

Nicole Brown Simpson (1959-1994).
Kesha é o símbolo da mulher ideal - branca, heterossexual, loira, magra, rica e sexy. Mas Nicole Brown também era e isso não impediu que O.J. Simpson abusasse dela ao ponto de degolá-la na porta de sua casa enquanto os filhos deles dormiam dentro da mesma. O machismo não respeita nem mesmo as mulheres que tem como ideal de feminilidade. O ódio à mulher é o que lhe move, não importa o que ela faça para se adequar a ele. E o Estado só observa. Em American Crime Story, a promotora está revoltada com o ocorrido: "O Estado falhou com Nicole". Ela havia denunciado o ex-companheiro por violência doméstica oito vezes! Isso explica porque muitas vítimas de abuso sexual sequer denunciam o estupro à polícia. A cantora Madonna, que foi estuprada assim que se mudou para Nova York no final dos anos 1970, foi questionada pelo apresentador Howard Stern porque não denunciou o crime à época. Ela respondeu: "Simplesmente não vale a pena. É muita humilhação".

Apesar da violência contra a mulher ser mais discutida hoje do que era no final dos anos 1970 ou em 1994, quando Nicole foi assassinada, o Estado ainda falha com as mulheres, independente de sua classe social, etnia ou orientação sexual. Kesha, mesmo fazendo parte do 1% mais rico dos americanos, viu seu caso ter o mesmo destino que o de 98% das mulheres que levam seus casos de estupro à Justiça. Ela chorou porque percebeu que para a Justiça americana a vida feminina tem menos valor do que a masculina. Isso ficou bastante claro com o veredito do caso O.J. Simpson, que foi analisado sob as lentes do racismo enquanto deveria ter sido discutido sob as lentes do machismo [Fato curioso: numa América cada vez mais dividida entre negros e brancos, onde a percepção de cada grupo sobre o Poder Judiciário varia muito, os dois grupos atualmente concordam que O.J. matou Nicole]. É assim em nossa cultura desde que às mulheres foi imputada a culpa pela expulsão do Jardim de Éden. Quando nada de concreto é feito para salvaguardar a integridade física e moral das mulheres que vivem em sociedades cuja moralidade deriva das religiões abraâmicas, só lhes resta rogar à Virgem Maria.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Goiás, minarquia

PSDB: minarquistas disfarçados de liberais.
Existem vários regimes de governo: democracia, oligarquia, ditadura, anarquia. Mas você já ouviu falar na minarquia? Esse é o regime de governo sob o qual eu vivo. Moro em Goiás, um dos estados-vitrines do PSDB, o partido que advoga a minarquia na política brasileira. A minarquia nada mais é, stricto sensu, do que o Estado mínimo. Trata-se de um regime de governo onde a função social do Estado é negada e as únicas atribuições estatais reconhecidas como legítimas são as de vigiar (polícia), denunciar (promotoria) e punir (Justiça) os cidadãos. Às vezes também reconhece-se a função dos bombeiros, mas não há consenso em relação a isso. Pois bem, na cartilha do eleitor mais fanático do PSDB, aquele que sai às ruas pedindo a substituição inconstitucional, ilegal e inconsequente da presidenta Dilma Rousseff por uma junta militar, só a PF e o MPF deveriam existir.

O governo Dilma II deu uma guinada à direita e vestiu o figurino do liberalismo econômico, mas eles defendem um esfacelamento ainda maior do Estado enquanto agente de transformação social e superação das desigualdades sociais e das injustiças históricas. O Estado saiu da economia, é verdade, mas tem que sair de todas as áreas em que ainda interfere, a não ser aquelas citadas anteriormente. Pois bem, em Goiás essa agenda vem sendo implantada numa intensidade cada vez maior desde que o governador Marconi Perillo foi reeleito para comandar o estado pela quarta vez em 16 anos. Entre viagens para Nova York, Europa, Oceania ou Rio de Janeiro bancadas pelo dinheiro público, o governador já negociou a privatização da CELG e dos colégios estaduais, que se somam às privatizações dos hospitais públicos, realizadas no mandato anterior, para criar o Estado minárquico.

Para garantir o sucesso de seu projeto de Estado minárquico, o PSDB - esteja ele governando qualquer estado que for - se apoia na estratégia de criminalizar toda e qualquer voz (que não são poucas) que são a favor da função social do Estado. Até mesmo mestres e doutores são presos arbitrariamente. A Polícia Militar foi transformada por Perillo numa milícia responsável em garantir os interesses do governador e de seus comparsas que vão comprar a educação através de organizações sociais, instituições estas responsáveis pelo colapso do sistema de saúde do estado do Rio de Janeiro. Na versão goiana da minarquia, que se confunde com a oligarquia, a polícia perde sua função social e passa a ser um ente privado do governo de plantão. Não dá a mínima para celulares e carros roubados; sua única preocupação no momento é sufocar e intimidar os movimentos sociais.

Goiânia é atualmente mais violenta e perigosa do que Nova York, cidade 7 vezes maior. Tente ligar na polícia para reportar que você foi assaltado e você perceberá o quanto estamos jogados a nossa própria sorte aqui em Goiânia. É quase como se estivéssemos perturbando a polícia - paga com os nossos impostos - com nossos problemas. Pois bem, se os governos do PSDB querem provar que a Polícia Militar é uma das únicas instituições do Estado que deveriam existir, deveriam torná-la eficiente. No entanto, eles não precisam se preocupar com isso, pois, segundo o discurso oficial propagado por papagaios de pirata como a Organização Jaime Câmara,  a segurança pública de Goiás é uma das sete maravilhas do mundo contemporâneo. É só pagar o mensalinho da imprensa direitinho que jamais a eficiência da minarquia será questionada.

O fato é que em algum momento durante os últimos 18 anos de governo tucano em Goiás a democracia acabou. Se é que ela sequer existiu nessa terra no meio do nada esquecida por Deus. Vivemos num regime autoritário que, para implementar sua ideologia - a do Estado mínimo - consegue ser ainda pior do que o regime anterior, comandado pelo coronel Iris Rezende do PMDB. Mesmo que fossem igualmente repressivos, os governos do PMDB ainda defendiam o mínimo de função social do Estado. Marconi cria programas "sociais" para o grupo que o mantém no poder: a classe média. Os jovens pobres, desiludidos e impacientes se entregam para o crime, que explode como nunca antes na história do estado. Goiás está sendo destruído, assim como todos nós. Não vou me surpreender se entrar em colapso e seu próximo estágio for a anarquia. Parece ser esta a via desejada pelo PSDB para o Brasil.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Wall Street aplaude líder congressista corrupto que alimenta impeachment no Brasil para se salvar


O presidente da câmara baixa do Congresso do Brasil, Eduardo Cunha, voltou ao assunto, levando adiante o pedido de impeachment da presidente na quarta-feira. Wall Street comemorou a notícia, ao elevar os fundos iShare MSCI Brazil (EWZ), o negócio mais quente do mercado nessa quinta-feira, em quase 2,5% no fechamento.

Cunha cerrou fileiras com Dilma não porque ela está atolada
em escândalos, mas porque ele é parte do escândalo.
Infelizmente, ninguém além dos investidores de longo prazo tem algo a comemorar. Essa semana, a Goldman Sachs alertou que o Brasil estava além da recessão e agora enfrenta uma depressão. Uma das razões para a inércia econômica é o ponto morto no Congresso. Parece que todos na elite política em Brasília agora são criminosos procurados. Cunha com certeza é um deles. Membro do Partido do Movimento Democrático (PMDB), Cunha cerrou fileiras com o governante Partido dos Trabalhadores (PT) não porque este está atolado nos escândalos da Petrobras, mas porque ele mesmo é parte do escândalo e a presidente Dilma Rousseff e seu vice do PMDB, Michel Temer, não fizeram nada para impedi-lo de ser acusado de lavagem de dinheiro e outros crimes de colarinho branco. Na verdade este é o homem que o mercado e alguns nas ruas brasileiras aplaudem (nota do blog: na verdade Temer seria um dos articuladores do impeachment).

Um juiz (N.B.: promotor, na verdade) no Brasil acusou Cunha de receber US$ 5 milhões em propinas na Petrobras de uma firma de lobby que trabalhava para os parceiros de construção da gigante do petróleo. Ele negou que tinha dinheiro numa conta bancária suíça. Mas autoridades suíças descobriram o dinheiro e reportaram-no às autoridades brasileiras.

Dilma pode muito bem ser um pesadelo. Mas pelo menos nenhuma corte ou investigador policial ouviu nas confissões das dúzias de homens presos na operação da Petrobras que Dilma permitiu que a entidade governamental cometesse fraude.

O que ela fez, no entanto, segundo o Tribunal de Contas, foi maquiar as contas do governo brasileiro. É nisso que Cunha decidiu apostar suas fichas. Antes que o martelo ponha fim a sua carreira política, ele decidiu arruinar a de Dilma. É isso que as pessoas estão comemorando: um teatro político que não trará nada de positivo a curto prazo. Talvez o Congresso deveria se unir para arrumar essa bagunça? Esqueça. Para que serve o Congresso além de estercar as coisas?

"Nossa reação inicial é que esse evento vai trazer mais volatilidade e incerteza, ao invés de aliviar as preocupações do mercado", diz Bruno Rovai, analista de renda fixa da Barclays em Nova York.

A habilidade de Dilma governar a essa altura já está ridiculamente baixa. Isso coloca a relação entre os poderes Executivo e Legislativo numa posição bastante prejudicial.

Vários fatores tornam longe de ser claro se o processo de impeachment será aprovado na câmara baixa do Congresso. O que ele realmente faz é adicionar mais barulho à já turbulenta agenda do governo brasileiro e aumenta a probabilidade de que mais agências de crédito, nomeadamente a Fitch e a Moodys, irão reclassificar a dívida soberana brasileira para sucata.

Manifestantes anti-PT têm pouco a comemorar.
Manifestantes anti-PT segurando efígies de Dilma em uniforme de prisão têm pouco a comemorar. No melhor cenário deles, a eleição do ano passado seria anulada e uma nova eleição provavelmente colocaria o social-democrata (PSDB) Aécio Neves no palácio presidencial com o ex-banqueiro central Armínio Fraga no comando da economia. Isso faria o mercado feliz, mas por pouco tempo. Não esqueçamos que o PSDB também teve dificuldade em gerenciar a crise da dívida brasileira no final dos anos 1990 e estava no bolso de trás do FMI. Fraga estava no Banco Central na época. A inflação superava os dois dígitos, mais do que a atual taxa de 9,5%.

Assim que a admissão do processo de impeachment for publicada, Cunha irá organizar uma comissão de investigação para verificar as alegações contidas no pedido e preparar uma petição final a ser votada no plenário da Câmara.

"Achamos muito improvável que tal petição estará pronta antes do recesso parlamentar que começa em 22 de dezembro", diz Rovai. "Se não estiver, o pedido de impeachment só poderá ser votado em fevereiro e nada garante que os desdobramentos da Lava Jato não irão mudar a configuração do Congresso, como demonstrado pela prisão do senador Delcídio Amaral na semana passada, aumentando a incerteza do processo".

Cunha pode nem sobreviver também, conforme as investigações sobre sua participação no chamado esquema Lava Jato da Petrobras estão em andamento. As coisas também não estão boas para ele. Não precisa ser gênio para entender porque ele está tão ansioso para remover Dilma de seu cargo.

Cunha dá credibilidade zero a todo o processo. Sua carreira está atualmente ameaçada por uma decisão a ser tomada pelo conselho de ética nesta quinta-feira, 8 de dezembro (N.B.: a reunião do conselho foi adiada novamente). Se o conselho decidir removê-lo de seu cargo, fica incerto se o processo de impeachment sequer obterá qualquer tração. Além disso, Cunha disse que o pedido de impeachment a ser apresentado cobrirá apenas as contas de 2015, que ainda não foram analisadas por completo pelo Tribunal de Contas e estão longe de serem aprovadas ou rejeitadas pelo Congresso, já que o ano ainda não acabou.

Por último, há o PT. O Brasil e Wall Street se esqueceram do quão indisciplinados esses caras podem ser. Eles estão no poder, atualmente, por 13 longos anos, pelo menos 8 dos quais de muito sucesso graças, em parte, a fatores externos. O PT irá recorrer de qualquer processo de impeachment até à Suprema Corte.

Em última análise, o efeito do [impeachment] nas perspectivas fiscais ainda é negativo, se ela permanecer ou for embora. Isso porque a agenda política terá muito pouco espaço para discutir e votar as medidas fiscais e de ajuste no orçamento no ano que vem graças a esse espetáculo de feira apresentado por um suspeito de fraude na câmara baixa do Congresso.

O processo de impeachment vai destruir a razão, já na sarjeta.
O processo de impeachment será longo e tornará as coisas piores para os brasileiros comuns. Vai destruir a razão, já na sarjeta. Mais incerteza não ajuda no momento. O barulho político, com Cunha, uma máquina humana de barulho, apresenta riscos descendentes para as estimativas consensuais de queda de 3,5% do PIB nesse ano e de 2,8% no ano que vem.

O Brasil está, de fato, numa depressão. Impedir Dilma não vai tirá-lo dela. Impedir Dilma a mando de um Congresso liderado por um homem que ajudou a Petrobras a perder 80% do seu valor de mercado nos últimos cinco anos não só faz com que os brasileiros pareçam bobos, mas dá ao PT e seus amigos sindicalistas razão para se intrometer caso a oposição assuma.

Cunha pediu o impeachment com a bênção de três juristas proeminentes e do PSDB. O processo marca uma derrota política fundamental para as políticas de Dilma dos últimos quatro anos. Sua taxa de aprovação está num recorde negativo de 10%, em maior parte devido ao escândalo da Petrobras e não às medidas de austeridade, em relação às quais a opinião do mercado continua confusa.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Ser negro nas Américas

O que significa ser negro nas Américas? Significa que, ao contrário dos negros africanos, se é descendente de seres humanos que foram capturados como gado, trazidos em navios insalubres e vendidos em feiras como cachorros. Significa que, apesar do estupro de suas tataravós e do açoitamento de seus tataravôs, você conseguiu chegar a esse mundo. Significa que, não importa o quão inteligente e esforçado você seja, algumas portas nunca se abrirão para você e se você ousar reclamar disso vai ser tachado de vitimista. Significa que, sua vida toda, se esforçará para provar que tem mais características do que a cor de sua pele. Significa que você será julgado, perseguido e até mesmo morto por causa dessa única característica peculiar que você possui. Tudo isso porque até hoje os brancos não aceitam o fim do sistema injusto de exploração racial ao qual o Iluminismo americano pôs fim. Ao contrário do que somos ensinados na escola, a escravidão não acabou pacificamente em lugar algum. No Haiti, os negros fizeram uma revolução para expulsar os franceses que os oprimiam. Nos Estados Unidos, quando os donos das plantations ficaram sabendo das intenções do presidente Abraham Lincoln de acabar com a escravidão manipularam seus governadores para que formassem uma Confederação e declarassem a independência da União. No Brasil, um dos motivos pelos quais os militares deram o golpe de Estado que criou a República foi a intenção da então Princesa Isabel de indenizar os escravos quando se tornasse Imperadora. 

Que dó da branca proprietária e agressora de negros!
Ser negro nas Américas significa que se faz parte da maior comunidade diáspora do mundo. Mas, ao contrário de japoneses e italianos, a vinda não foi provocada por problemas econômicos em seus países de origem. Foi uma vinda forçada que gerou um dos episódios mais sombrios da história mundial. Em todos os períodos históricos houve escravidão, mas, como aponta o pesquisador e diplomata Alberto Costa e Silva, um dos maiores africanistas do Brasil, foi só a partir da Era moderna é que a escravidão se baseou em critérios unicamente raciais. Aqueles seres humanos eram considerados inumanos devido à cor de suas peles. A Igreja – fosse ela católica ou reformada – forneceu a base teológica para a desumanização dos negros; a venda de pessoas era autorizada pois, segundo os teólogos, os negros não teriam alma. Assim sendo, ingleses, franceses, espanhóis e, sobretudo, portugueses trouxeram 12 milhões de pessoas para serem vendidas como gado. Até marcado a ferro quente eles eram. Seus donos julgavam-se senhores de seus corpos e de seus ascendentes por toda a eternidade e, é bom reafirmar, não aceitaram de bom grado quando as ideias abolicionistas de William Wilberforce começaram a chegar ao nosso continente. Ainda hoje as famílias que fizeram fortunas explorando almas humanas se ressentem do fato de que foram superados pela história. O que representa Scarlett O'Hara se não uma tentativa de se vitimizar o opressor? Grupos como a Ku Klux Klan ou os Carecas do ABC promovem um revisionismo histórico porque não aceitam que os escravocratas perderam a guerra cultural travada no final do século XIX. 

Nos Estados Unidos a luta de Lincoln pela libertação dos escravos acabou gerando uma retaliação formal aos negros no Sul do país, nos estados ex-confederados (que só começaram a banir a bandeira desse movimento nesse ano, quando um supremacista branco que tinha uma dessas bandeiras na parede do quarto abriu fogo contra membros da mais antiga igreja para negros do país, localizada em Carleston, Carolina do Sul). Criou-se, naquele país, a segregação racial que mais tarde inspiraria o apartheid sul-africano. No Brasil, o país dos conchavos, criou-se o mito da “democracia racial”, que perdura até os dias de hoje. Se nos Estados Unidos a chegada do progresso foi imposta à força, no Brasil jamais tentou-se fazer o país avançar sem que nossos governantes primeiro sentassem na mesa com os representantes do establishment retrógrado. Logo a mão de obra negra, deixada à própria sorte nos arredores das cidades, foi substituída pela mão de obra italiana, semi-escrava. A exclusão racial, em ambos os países, levou à criação de guetos (nos Estados Unidos) e favelas (no Brasil), mantidas sob o jugo de uma polícia ainda hoje treinada para crer que cassetetes e revólveres resolvem problemas de ordem social. Nos Estados Unidos, pelo menos, existia ainda a possibilidade dos negros fugirem para o Norte (em especial Nova Iorque, a capital cultural do país) onde podiam chegar à proeminência; esse foi o caso de Nina Simone, Aretha Franklin, Ray Charles, Ella Fitzgerald, Eartha Kitt, Alice Walker e Louis Armstrong, para citar apenas alguns nomes. 

Alexandra Loras com o marido Damien e o filho.

No Brasil, não havia porto seguro para os negros. Nossa sociedade se moderniza a passos lentos. Se nos Estados Unidos houve uma guerra para determinar que a produção industrial seria a matriz do desenvolvimento econômico, no Brasil tivemos golpes de Estado para garantir os interesses da elite agrícola. Ainda hoje nossa balança comercial depende sobremaneira da exportação de commodities. A tímida industrialização promovida por Getúlio Vargas, que se tornou um ditador para consolidá-la, acabou sendo desfeita assim que os generais deram um golpe de Estado para sustentar quem constrói fortunas não a partir da produção, gerando empregos e riquezas ao país, mas sim da especulação, política econômica mantida até os dias atuais. A essas pessoas, conservadoras (que desejam a conservação da ordem social), incomoda o fato de que uma negra frequente os mesmos espaços que elas. Conforme relatou a consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, no programa de Mariana Godoy, confundem-na com a babá de seu próprio filho quando os dois saem juntos em São Paulo. Ela disse, ainda, que o Brasil é o único país, dentre aqueles em que já morou, onde obrigam as babás a vestirem uniforme e usar entradas e elevadores de serviço. Se não se pode impedir que negros ocupem o mesmo espaço que você, crème de la crème da sociedade brasileira, então que ao menos eles sejam humilhados. É por isso que a consulesa negra choca as pessoas. Ela perambula pelos espaços mais chiques da cidade de São Paulo com um menino branco no colo e sem uniforme. 

A sofrida segregação racial nos Estados Unidos acabou com esse tipo de prática descriminatória nos contratos de emprego. Mas as tensões raciais continuam existindo, veladas, e sempre prontas a explodir. A escravidão e a segregação racial podem até ter acabado no papel, mas a opressão e a discriminação seguem mais vivas do que nunca na prática. Não foi porque Lyndon Johnson assinou a lei dos direitos civis em 1965 que os negros dos EUA têm, hoje, todos seus direitos respeitados. Tomemos, por exemplo, um fato ocorrido essa semana em Illinois, estado de origem do primeiro presidente negro dos EUA.  No último dia 24/11, a polícia de Chicago matou um adolescente negro de 17 anos de idade pelas costas. Ele era procurado pela polícia e teria tentado fugir da abordagem enquanto saía de uma lanchonete. Estava desarmado e, mesmo, assim, levou 16 tiros. As câmeras de segurança do estabelecimento comercial capturaram a execução. No dia seguinte, os policias voltaram ao local e intimidaram os funcionários para que eles deletassem a cena. Modus operandi idêntico ao do policial que matou um menino de 10 anos de idade numa favela do Rio de Janeiro no início desse ano. Eduardo de Jesus brincava com o celular na porta de casa, a cinco metros de distância do policial, quando foi atingido. Sua mãe saiu de casa desesperada e começou a confrontar o PM, que a intimidou. Fato comum em ambos os casos: depois da execução, aqueles que se julgam descendentes dos donos de plantations tentaram responsabilizar as vítimas. Só que, em lugar algum, a lei – internacional, brasileira ou americana – prevê que a polícia está autorizada a matar suspeitos. A Constituição americana inclusive proíbe punição cruel e não-usual. 

Black Lives Matter toma as ruas de Nova York em 13/12/2014.
Enquanto a mídia brasileira dá um destaque enorme ao enésimo capítulo da novela Operação Lava Jato e a mídia americana se encanta com as peripécias fascistas do candidato à presidência Donald Trump, um movimento de massas surge nos Estados Unidos para desafiar o tratamento dado pela polícia aos negros. O Black Lives Matter (“Vidas negras importam”) surgiu no ano passado após uma série de absolvições de policias acusados de matar jovens negros. Assim como o Occupy Wall Street, trata-se de um movimento não-linear surgido de maneira espontânea na internet. No entanto, é muito mais conciso do que o Occupy; possui uma agenda de reivindicações clara e, assim sendo, consegue existir por mais tempo e é atacado de forma mais veemente pela direita (inclusive Trump, que ordenou que participantes de um de seus comícios espancassem um militante do movimento presente no evento). O Black Lives Matter apareceu para dar um tapa na cara de quem acreditava numa “América pós-racial”, teoria que foi reforçada pelas eleições de um presidente negro. O fato é que Obama mantém uma política econômica neoliberal que penaliza mais duramente as minorias. Além disso, suas iniciativas de investir mais no social são barradas pelo Congresso, controlado pelos colegas de partido de Trump que aparecem a todo o instante na mídia para dizer que um Estado que investe em política social é um Estado socialista. Lá, como cá, vende-se a ideia de que todos nascemos com as mesmas oportunidades e que basta se esforçar um pouquinho para vencer na vida. É claro que quem descende de escravos que foram literalmente jogados na periferia das cidades após o fim da escravidão tem as mesmas oportunidades que os descendentes de quem controla a riqueza nacional. Só que não. 

A “América pós-racial” ou a “democracia racial” brasileira são mitos criados para convencer uma massa historicamente oprimida a deixar de lutar por seus direitos. Nos EUA, diz-se: “ei, já lhes damos o direito de votar e frequentar os mesmos espaços que nós, o que mais vocês querem?”. No Brasil: “ei, para de se vitimizar e se esforça mais um pouco para conseguir aquilo que você quer”. O que os negros querem é não serem mortos pela polícia pelo simples fato de terem mais melanina na pele do que eu. Querem que um fator simplesmente biológico não seja decisivo na hora de determinar que tipo de atendimento receberão. Imagina que louco se as pessoas de olhos azuis ganhassem menos do que as pessoas de olhos castanhos e fossem acusadas de serem traficantes, marginais e mendigas pela simples cor de seus olhos. É isso o que acontece com milhões de pessoas no nosso continente. Imagine se as pessoas de olhos azuis ouvissem a vida toda insultos sobre a cor do olho delas, recebessem olhares suspeitos aonde fossem e não vissem quase mais ninguém como elas na televisão, nas revistas e nos filmes. É isso o que acontece com os afro-descendentes. Retomando o questionamento inicial desse texto, ser negro nas Américas é ser forçado a acreditar, todo dia, que se merece menos – educação, ofertas de emprego e remuneração – por causa da cor de sua pele. É preciso empoderar os jovens negros para que eles percebam a injustiça dessa situação e lutem para mudá-la. “Devemos começar a dizer para nossos jovens: 'há um mundo esperando por vocês, é de vocês a missão que está começando'", cantava Nina Simone. Atualmente, ser negro nas Américas é um castigo. Mas não pode e nem deve ser. Ser negro nas Américas deve ser sinônimo de ser livre.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sex and the (small) city

Eu sempre achei que quando saísse do armário, minha vida seria glamourosa como a dos personagens do seriado Queer as Folk. No entanto, não moro em Pittsburgh, na América do Norte protestante. Moro em  Goiânia, na América do Sul católica e o que move o catolicismo romano é a hipocrisia. No protestantismo não-pentecostal, religião predominante na América do Norte, a ênfase teológica dada à remissão dos pecados é menor. E o conjunto de dogmas, verdades universalmente aceitas pelos membros da igreja, é menor. Já no catolicismo romano, para conseguir equilibrar a natureza humana com o complexo conjunto de regas da Igreja, os fiéis normalmente recorrem à hipocrisia. Afirmo sem medo de errar que a maioria dos padres católicos ou tem família secreta ou são homossexuais em conflito com sua própria sexualidade. Da mesma forma que uma pesquisa realizada há algum tempo revelou que a maioria absoluta das mulheres que já praticaram aborto no Brasil era católica romana. Todo mundo sabe que homossexualidade e aborto são pecados para a Igreja de Roma.

Falar de sexo no almoço? Não pode, aqui o sexo é banido
da sociedade e só pode existir nos motéis das BRs.
Pois bem, moro na América do Sul, numa cidade onde a maioria das pessoas são católicas ou evangélicas pentecostais, grupo esse que consegue lidar com as questões relacionadas à sexualidade de maneira ainda pior que o catolicismo, pois prega o retorno à maneira de viver do século I, quando Jesus e seus discípulos caminharam sob a terra. Ou seja, vivo numa sociedade onde a relação das pessoas com o sexo é complicadíssima. A busca pelo sexo – tão natural que está presente em qualquer cachorro de rua – é reprimida por um conjunto de normas sociais hipócritas. O sexo não é visto jamais como dádiva, mas como um pecado tão horrível que deve ser cometido o mais distante o possível dos olhos da sociedade. Não é por acaso que Goiânia seja a cidade do Brasil (talvez até do mundo) com o maior número de motéis per capita. Um dia desses fui alertado por um pretendente de que se eu dormisse com ele no primeiro encontro, a visão dele sobre mim mudaria. Não me importei com a ameaça, pois isso revela mais sobre o caráter dele do que sobre o meu. E eu achando que só as mulheres precisavam se preocupar com a distinção "para casar" x "para comer".

O conservadorismo sexual do goianiense não cansa de me surpreender de maneira negativa, em especial nos ambientes frequentados por membros da comunidade LGBT. Eu imaginava que o ambiente LGBT fosse um de respeito à individualidade e à liberdade sexual de cada pessoa – e não um de reprodução dos valores conservadores produzidos no seio do resto da sociedade, machista, misógina, homofóbica e racista, que nos divide em grupos e nos julga com base em uma de nossas muitas características pessoais. Ledo engano meu. Microcosmo que é da sociedade em geral, a comunidade LGBT reproduz os valores machistas desta entre seus membros. É comum ouvir gays julgando outros gays devido à quantidade de parceiros sexuais que estes últimos possuem. É ridículo, para não dizer contraditório, que membros de um grupo social que vive empunhando a bandeira da liberdade façam isso. Exigem respeito do resto da sociedade, mas se discriminam uns aos outros dentro da comunidade, num ato que daria orgulho a Jair Bolsonaro. Costumo repetir que desde que saí do armário passei a entender melhor o feminismo e simpatizar-me ainda mais pela causa.

Não gosto de me envolver com pessoas de Goiânia. Por outro lado, me dou muito bem com pessoas oriundas de estados litorâneos. Elas me seduzem facilmente – afinal, o sexo é natural para elas – e, quando percebo, estou fazendo com elas coisas que jamais me permitiria fazer com os caras daqui. Eu e minhas amigas chegamos ao consenso de que o homem goiano é machista e recatado ao mesmo tempo. Não sabe "chegar" e, quando "chega", exige o cumprimento de uma série de regras sobre o que se pode ou não fazer na cama (como o exemplo já dado do sexo no primeiro encontro) que fariam todo o sentido do mundo durante a época do Império, mas não no século XXI, onde existem preservativos, pílulas anticoncepcionais e pílulas do dia seguinte – itens que, se Deus quiser, continuarão sendo distribuídos de graça pelo governo a despeito das intenções de Eduardo Cunha e seus asseclas, muitos dos quais são produtos do eleitor goiano. Goiás, terra da repressão sexual, enviou a Brasília o deputado autor do projeto de lei que, se aprovado, permitirá que psicólogos conduzam a terapia de "reorientação sexual" em seus pacientes.

A corte funcionou tão bem para os ingleses da Era Georgiana,
por que não reproduzi-la no Brasil de 2015?
O povo brasileiro, de maneira geral, é um povo sexualmente reprimido. E isso tem razão de ser na nossa História. Como meu pai gosta de repetir, o povo brasileiro é fruto do estupro de índias e negras. Um povo estuprado é um povo reprimido. Mesmo assim, há lugares onde a repressão é menor. A primeira vez que fui no Recife fiquei impressionado, para não dizer assustado, com o vibrante clima sexual da cidade. No Rio, idem. Se aqui é "feio" transar com quem você quer, nesses locais não parece ser o caso. Aqui em Goiânia mesmo que ambas as partes estejam interessadas, devem esperar até o terceiro encontro para fazer sexo para não parecerem "fáceis" demais. Queria estar em Sex and the City. mas estou preso no filme Orgulho e Preconceito, a mais bela história de amor onde os protagonistas sequer se beijam. Afinal, aquela era a época da corte, que as diversas igrejas neopentecostais de Goiânia não só tentam reproduzir como inculcam nas mentes de seus fiéis. A jihad evangélica está criando uma geração de pessoas tão sexualmente frustradas quanto os muçulmanos radicais que colocam burcas em suas esposas.

Apesar da rápida neopentecostalização de Goiânia, não creio que a rígida (e hipócrita) moral religiosa predominante na cidade seja a única explicação para a repressão sexual de seus habitantes. Afinal de contas, a maioria das pessoas na liberal Nova York de Carrie Bradshaw pertencem a uma denominação religiosa e acreditam em Deus, sendo a religião inclusive tema de alguns episódios do seriado. Não sei exatamente qual é a correlação existente entre a maneira de lidar com a sexualidade humana e o desenvolvimento econômico de uma região, mas ela parece existir. Nas cidades mais ricas do que Goiânia – São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Brasília – a caretice sexual é bem menor. Seja qual for o motivo, o fato concreto é que tenho dificuldade de expressar minha sexualidade de maneira completa vivendo aqui. Às vezes me parece que todo mundo conhece todo mundo (ainda mais na comunidade LGBT) e é bem fácil de se ficar mal falado. Por outro lado, sinto que traio a mim mesmo quando me nego o direito a ser dono de minha sexualidade. Pois que falem. Não vivo sob a égide de regras que não criei.