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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ano em que me tornei forte

Meu lado forte que 2016 revelou.
Há alguns meses, publiquei um texto atribuindo à deusa grega do amor, Afrodite, a regência desta nova fase de minha vida. Agora, no entanto, percebo que esta mudança não ocorreu por obra de um agente externo. Trata-se do meu lado feminino (daí a confusão com Afrodite) tomando as rédeas de minha vida. Meu lado masculino sempre foi uma bagunça. Inseguro, frágil e confuso, nunca soube como ir atrás daquilo que eu desejo e percebo como sendo o melhor para mim. Meu lado feminino, por outro lado, é sagaz, calculista e empoderou-me para a luta. Foi só quando deixei de lutar contra ele que percebi as maravilhas que ele pode fazer por mim.

Com o perdão da palavra, 2016 foi um ano de merda. Parece que o caos sociopolítico do Brasil passou a se refletir sobre minha vida também. Diversas vezes, minha saúde física e mental encontrou-se fragilizada nesse ano. Mas eu me levantei todas as vezes que caí. Eu vim, eu vi, eu venci. Não me entrego mais ao caos. O caos pode sim ser construtivo e ter seus momentos de beleza, mas nunca mais vou parar minha vida para contemplá-lo. Demorou, mas finalmente compreendi que a função da desordem é fazer com que possamos tirar um aprendizado dela. A vida nos derruba para que possamos aprender a nos levantar, quantas vezes preciso for, e seguir em frente.

Ver os atletas e não poder sequer me levantar da cama sem
 que meu pé doesse atormentava terrivelmente minha alma.
De tanto cair em 2016, mesmo que metaforicamente, acabei machucando justamente o tendão de Aquiles — olha a mitologia grega aparecendo aqui de novo —, que é o responsável pelo ato de levantar-se. E do lado esquerdo, o lado do subconsciente. Este talvez tenha sido o maior baque que levei neste ano. Fui obrigado a parar de me exercitar justamente quando a maior festa do esporte mundial, as Olimpíadas, estava em nosso país. Num primeiro momento, agi sob a influência do meu lado marciano e entreguei-me à enfermidade, esperando que a inflamação curasse sozinha. Em seguida, meu lado feminino, venusiano, tomou conta de mim e colocou-me em ação para recuperar minha mobilidade.

A Vênus que habita dentro de mim também ensinou-me a lidar melhor com outras doenças: as da alma. Não quero mais agradar a todos e perdi a vergonha de me expressar em público, porque percebi que não tenho nada a perder, a não ser o medo de ser julgado. Aprendi que a língua do brasileiro não é o português, mas sim o cinismo. E que ele teria me levado longe se eu tivesse lançado mão dele, mas eu teria perdido uma parte importante de mim que é a honestidade. Aprendi também que "gostei de você" e "vamos nos ver" são só palavras, utilizadas por pessoas emocionalmente confusas, e o significado cruel da expressão ghosting e como reagir a ele. Aprendi até mesmo a gostar de Goiânia, uma vez que percebi que o que importa numa cidade não é sua infraestrutura ou seus costumes, mas sim como construímos nossas relações afetivas dentro dela.

Começar um diário ajudou-me a reconhecer minhas forças
 e fraquezas. Enquanto eu não fugir delas, tudo vai ficar bem.
Agora sei que não há nada de errado em ser só e até gosto da minha companhia. Tomei o controle da minha sexualidade e consigo usar os homens para me satisfazer assim como fui usado por eles por tanto tempo. Deixei o lado passivo, marciano, de lado. Não é irônico que, pelo menos no meu caso, a passividade seja decorrente justamente de um desequilíbrio espiritual a favor do lado masculino? Se bem que ser um homem no patriarcado, mesmo que seja gay, significa que você não precisará lutar tanto quanto uma mulher para conseguir conquistar as coisas. Daí a proatividade advir do lado feminino em nosso mundo que, infelizmente, não é venusiano.

2016 foi um ano de merda. Mas estou mais forte do que estava em 2015. Estou mais forte do que eu imaginava que pudesse ser. Agora sei como me levantar dos inevitáveis baques da vida. Havia um desequilíbrio na minha vida no ano passado e agora sei que é porque eu tentava reprimir o meu lado feminino, que era justamente o meu lado forte. Não só aprendi a reconhecê-lo como também a respeitá-lo. Agora que há um equilíbrio, estou bem. O amanhã sempre vai ser melhor, pois sei que se eu cair saberei me levantar. 2016 foi um ano ruim, mas eu viveria-o de novo se fosse preciso, porque 2016 foi o ano em que me tornei forte. Essa força pode até ter sido estimulada a se revelar através de fatores externos, como meu diário, minha terapia ou minhas crenças sobrenaturais, mas ela vem de dentro e é feminina. Enquanto eu não fugir dela, tudo vai ficar bem.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A crise desnudou os caracteres

Que diferença uma década faz! Em 2007, a possibilidade dos Estados Unidos da América eleger Hillary Clinton como sua primeira presidenta me deixou extasiado. Não entendia muito bem de política, mas achava que esse fato, por si só, representava um avanço no cenário político mundial. Ao mesmo tempo, reconectei-me à minha brasilidade. O Brasil crescia muito em termos sócio-econômicos durante o segundo mandato do presidente Lula e ser brasileiro era algo que dava orgulho. Tínhamos acabado de sediar os Jogos Pan-americanos e fomos escolhidos como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Duas figuras foram particularmente importantes nesse processo: a cantora e compositora baiana Daniela Mercury, que cantou "Cidade Maravilhosa" na abertura do Pan e cuja obra eu redescobri naquela época, e a então ministra do turismo e eterna candidata à prefeitura de São Paulo Marta Suplicy, cujos artigos entrei em contato pela primeira vez ao ler um texto de sua autoria sobre a emancipação feminina no colégio.

As aparências enganam...
Outro aspecto importante do meu amadurecimento foi meu distanciamento crescente em relação à Igreja Católica. O rompimento definitivo ocorreu em 2009. Após o estupro de uma menina de 9 anos pelo próprio padrasto no sertão de Pernambuco, o então arcebispo de Recife e Olinda decidiu excomungar o obstetra Olímpio Moraes, que realizou um aborto nela. A decisão do clérigo foi criticada pelo então presidente Lula, a quem o bispo mandou estudar teologia. Indagado se não iria excomungar o estuprador, dom José Cardoso Sobrinho disse que não, justificando que o estupro não é um crime contra a vida – portanto, passível de excomunhão – segundo o Direito canônico. A Igreja de Roma passou uma mensagem bem clara para o jovem impressionável que eu era. Para a instituição, a vida das mulheres é menos importante do que a vida dos fetos. A campanha velada que a Igreja fez no ano seguinte a favor de José Serra, o candidato tucano à presidência, só reforçou meu distanciamento. O próprio papa Bento XVI sugeriu que Dilma Rousseff era favor do aborto!

É, portanto, justificável que eu tenha observado o processo de eleição do papa Francisco em março de 2013 com uma grande dose de desconfiança. Jorge Bergoglio, então cardeal de Buenos Aires, havia sido acusado de ter ajudado os militares durante a ditadura argentina, a mais implacável do continente. Trata-se de uma acusação grave e não muito implausível para aqueles que conhecem a história latino-americana. Hoje minha visão sobre cada uma dessas figuras mudou muito. Se alguém me dissesse, há cinco anos atrás, que Dilma seria derrubada por uma manobra parlamentar com o voto favorável de sua ex-ministra Marta Suplicy – e o voto contrário de Kátia Abreu – eu chamaria essa pessoa de louca. Como as aparências enganam! Marta era uma militante histórica do PT e foi eleita senadora na coligação de Dilma, enquanto Kátia apoiou Serra. No entanto, quem estava ao lado da mandatária em sua cerimônia de despedida do cargo era a última e não a primeira. Fiz um julgamento errado do caráter de Marta, assim como fiz um julgamento errado sobre o atual papa.

...mas a crise desnudou os caracteres.
O líder espiritual dos católicos romanos demonstrou estar pouco interessado em defender um status quo retrógrado e opressor. Pelo contrário, sempre denuncia o culto ao dinheiro que tem levado milhões de vidas à ruína. Assim sendo, as oligarquias latino-americanas não mais podem contar com a ajuda do bispo de Roma na defesa de seus interesses políticos. Não que a Igreja vá adotar a pauta de partidos progressistas, como a defesa do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas também não vai tentar interferir em eleições como Bento XVI fez no segundo turno de 2010, quando disse que os fiéis não deveriam votar em quem apoia o aborto. As manifestações de Francisco são mais sutis. Recentemente ele enviou um rosário para a ativista política argentina Milagro Sala – considerada prisioneira política pelos opositores do governo neoliberal de Mauricio Macri – e tem demonstrado preocupação com a "pausa democrática" no Brasil. Segundo interlocutores, o papa tem um relacionamento amistoso com Dilma e teria, inclusive, escrito uma carta de apoio a ela.

Os momentos de crise, creio eu, revelam o verdadeiro caráter das pessoas. Quando Dilma tornou-se a presidente mais bem avaliada da história do Brasil, a então secretária de estado americana Hillary Clinton referiu-se a ela como "padrão mundial na luta contra a corrupção". Depois que a popularidade da mandatária brasileira dissipou-se e ela foi condenada por um crime que não cometeu, Clinton não deu um pio sobre o processo de impeachment. Enquanto o governo Obama – do qual fez parte – oferece apoio tácito aos golpistas, 37 congressistas americanos denunciam o golpe contra a democracia brasileira. Assim como Marta, Clinton está interessada apenas no poder. Por outro lado, seu rival na disputa pela candidatura presidencial dentro do Partido Democrata, Bernie Sanders, orgulha-se de nunca ter trocado de lado na batalha política. Dois dias após o episódio circense da Câmara que autorizou a abertura do processo de impeachment contra Dilma, afirmou que "os EUA não podem continuar derrubando governos na América Latina". Mais recentemente lançou nota condenando o processo.

Tudo o que temos para oferecer são nossos valores

Marta não quer perder votos em São Paulo por estar associada à Dilma. Clinton, por sua vez, não quer perder o financiamento de setores interessados no golpe em curso no Brasil, em especial a indústria de combustíveis fósseis. Sanders, por outro lado, defende o mandato de Dilma, conquistado em eleições livres e democráticas, sem nunca tê-la conhecido pessoalmente. Já não admiro mais Marta e Hillary Clinton como fazia-o nos idos de 2007, mas no meio da crise política brasileira, meu respeito à cantora Daniela Mercury manteve-se intacto. Em maio, após ter sido consumado o golpe do PMDB contra Dilma, Marta incumbiu-se da função de encontrar uma mulher para o cargo de secretária nacional da cultura. Temer, atacado por artistas por ter extinguido o MinC e por feministas por não ter nomeado nenhuma ministra, queria uma mulher para exercer a função. Marta – que traiu a colega antes mesmo de Temer fazê-lo com sua cartinha ridícula – assumiu felizmente o papel de coveira do Ministério da Cultura, o mesmo que dirigiu por mais de dois anos entre 2012 e 2014. 

Uma das pessoas procuradas pela ex-ministra da cultura de Dilma foi justamente Daniela Mercury. Não querendo se indispor com a classe artística, Daniela repetiu o gesto de Fernanda Montenegro quando esta foi convidada para ser ministra da cultura por José Sarney e por Itamar Franco e negou-se à empreitada. Caso tivesse aceitado, Daniela trairia a si mesma. É uma mulher e Temer compôs o primeiro governo sem mulheres desde 1982. Além disso, o governo atual não dialoga com minorias e, em suas músicas, Daniela canta sobre a luta de negros e mulheres pela liberdade. Trata-se da primeira cantora de axé a receber de braços abertos o público gay no carnaval de Salvador. Fez isso enquanto houve quem colocasse fim a seu bloco quando ele começou a se tornar "mal frequentado", ou seja, frequentado por gays demais. Nada mais natural. Afinal de contas, Daniela é bissexual e, apesar das tentativas da imprensa de obrigá-la a se assumir, viveu dentro do armário até 2013, quando finalmente teve coragem para assumir sua parceira, a jornalista Malu Verçosa, com quem cria três filhas adotivas.

Daniela Mercury manteve-se coerente com seus valores.
No Brasil atual, é de se admirar.
A única coisa que importa para Marta Suplicy desde 2005 é voltar ao Palácio do Anhangabaú. Daniela tem outras preocupações. Tem nas pessoas LGBT um grande público e não quis se indispôr com seus fãs para fazer parte de um governo que compõe com a bancada evangélica. Como fã, eu teria me sentido traído se ela fizesse parte de um governo cujo principal articulador é Eduardo Cunha, o mesmo que proibiu os cartazes do Seminário LGBT do Congresso Nacional – no qual Daniela aparecia trocando intimidades com Malu – de serem afixados nos corredores da Câmara. O poder muda as pessoas, e com certeza mudou Marta Suplicy e Hillary Clinton, transformando-as em pessoas sem palavra. Ainda bem que a cantora baiana não caiu na armadilha sedutora do poder. Teria ganhado o desprezo dos artistas que lutavam contra a extinção do MinC e de seus fãs, que através de suas músicas sonham com um futuro de maior liberdade para todos. Teria se tornado mais uma hipócrita que, como Marta, vendeu seus sonhos "tão barato que eu nem acredito".

Dito tudo isso, gostaria de parabenizar, com um certo atraso, a decisão de Daniela. No calor do momento, deixamos de fazer algumas análises importantes do caráter das pessoas. Enquanto Marta morreu pela boca ao trocar Dilma pela dupla Temer–Cunha, Daniela manteve-se firme em suas convicções. Chega numa idade da vida em que tudo o que temos para oferecer àqueles que nos admiram são nossos valores. Precisamos agir de forma coerente com as palavras que saem de nossas bocas. A grande defensora dos LGBT na política aliou-se com os maiores vilões deles em troca de espaço na disputa para a prefeitura de São Paulo. Daniela, por outro lado, continua defendendo os mesmos valores que defendia em 2007. Talvez até de forma mais intensa agora que saiu do armário. Pra essa gente careta e covarde, que não suporta a luta se esta lhe tornar impopular, desejo piedade. Pra gente inovadora e corajosa como Daniela, desejo axé. Pois é com muita felicidade que afirmo que minha cantora favorita ainda viva tem caráter!

Eu já admirei Marta Suplicy e Hillary Clinton e, por ignorância, desprezei Kátia Abreu e Jorge Bergoglio, o Papa Francisco. Os dois últimos possuem visões políticas diferentes da minha em várias áreas e eu julgava isso como sendo mau-caratismo. Há direitistas de bom caráter e esquerdistas oportunistas. De que adianta concordar com políticos como Marta e os Clintons se eles não possuem ideologia alguma e mudam de visão para ganhar votos? Por outro lado, a crise do capitalismo apresentou-me à trajetória do senador Bernie Sanders, que mantém-se firme na defesa dos oprimidos desde os anos 1980. Quando Bill Clinton apresentou a homofóbica Lei de Defesa do Casamento em 1996, ele votou contra, mesmo correndo o risco de se tornar impopular. Ignorando a história, as principais ONGs gays apoiaram Clinton. Daniela Mercury, por outro lado, continua sendo a mesma diva gay que era em 2007. Seu "Canto da Cidade" continua sendo, para mim, um hino de liberdade. A conclusão que tiro disso tudo é que não se pode e não se deve julgar um livro pela capa. A não ser que este livro seja Bernie Sanders ou Daniela Mercury.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Em defesa do Times

Há exatamente uma semana o jornal estadunidense New York Times publicou um editorial, intitulado "Piorando a crise política no Brasil", em que criticava o impeachment da presidenta constitucional do Brasil, Dilma Rousseff. O mais respeitado diário do mundo escreveu que Dilma está pagando um preço desproporcionalmente alto por irregularidades administrativas que são cometidas por quase todos os governantes do país — segundo Cenk Uygur do Young Turks se todos os políticos americanos que violam a lei orçamentária fossem afastados não sobrariam mais políticos no país. Segundo o Times, "vários dos detratores mais ardentes [de Dilma] são acusados de crimes mais escandalosos". Como, por exemplo, o novo líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), investigado por tentativa de homicídio. A opinião da família Ochs Sulzberger é de que os líderes políticos brasileiros querem "removê-la para retomar a política de pagamento de propinas, o que é indefensável".

Como cantava o Bee Gees, talvez um dia conseguiremos
entender o efeito que o New York Times provoca nas pessoas. 
Mal o editorial foi impresso e os lacaios da mídia nativa correram para desmerecê-lo. O papel mais patético foi protagonizado por Lúcia Guimarães, ex-produtora do Manhattan Connection e atual colunista do Estado de S. Paulo, aquele jornal que apoiou acriticamente o golpe de Estado de 1964 para depois ser censurado pelos próprios golpistas. A jornalista escreveu diversos tuítes (em inglês) para o perfil oficial do jornal estadunidense, corrigindo-o. Foi sumariamente ignorada pelo gestor de redes sociais do Times, que deve ter achado se tratar de mais uma militante do PSDB e não de alguém que diz ser uma profissional da informação. Se em 1964 a grande mídia brasileira conseguiu entorpecer a maioria dos brasileiros através de uma narrativa uníssona da crise política de então, parece estar tendo dificuldade em fazer o mesmo agora que as fronteiras entre os países estão cada vez menores e os olhos do planeta se voltam para o Rio devido aos Jogos Olímpicos.

Publicado continuamente desde 1851, o New York Times é referência mundial em jornalismo, tendo suas reportagens recebido 117 prêmios Pulitzer, mais do que qualquer outro veículo de imprensa. Foi nos arquivos deste jornal que descobri quem foi a revolucionária alemã Rosa Luxemburgo. Foi este jornal que revelou ao mundo quem era Chico Mendes e por que ele estava sendo ameaçado de morte — e o governo de José Sarney, que agora negocia cargos com Michel Temer, ignorou solenemente a reportagem, o que levou ao assassinato do líder ambientalista e sindical pouco antes do Natal de 1988 na porta de sua casa em Xapuri, no Acre. Trata-se de uma das maiores fontes historiográficas do mundo — e é por isso que incomoda à elite brasileira e seus lacaios que ela não esteja reproduzindo a versão deles. Mas se o Times não se dobrou a líderes muito mais espertos e a elites muito mais sanguinárias, por que se dobraria a Temer e à elite paulista?

Página de O Globo de 7 de abril de 64,
sugerindo nomes para a tortura.
Quando precisei pesquisar dados sobre o plebiscito de 1934 que tornou Adolf Hitler führer da Alemanha foi no New York Times que os encontrei e não no arquivo do Estadão. O jornal tinha um correspondente em Berlim em plena escalada do nazismo! Se hoje é possível desmentir rumores antissemitas sobre a ascensão de Hitler, é devido, em parte, ao Times. Se o jornal se limitasse a reproduzir a mídia oligopolizada da Alemanha dos anos 1930, como os lacaios da elite paulista desejam que ele faça ao reportar a crise política brasileira, provavelmente teria defendido o extermínio de judeus. Mas aí é que reside parte importante da grande diferença entre o Times e os jornalões brasileiros. Em 1896 ele foi comprado por Adolph Ochs, um comerciante judeu, e os judeus só foram completamente integrados à sociedade estadunidense após a Segunda Guerra Mundial. Já os principais jornais brasileiros sempre foram dirigidos por homens brancos cristãos que nunca sentiram o peso da opressão. 

Apesar das críticas que nutro ao New York Times por sua postura excessivamente pró-establishment — como a decisão de apoiar as candidaturas de Hillary Clinton e John Kasich nas eleições presidenciais deste ano —, ele merece respeito. É mais antigo do que todos os jornais brasileiros de abrangência nacional e, o mais importante de tudo, nunca fez parte de um grupo que monopoliza a mídia, como é o caso do maior jornal carioca. A mídia oligopolizada do Brasil não pode dar lições de jornalismo a ninguém. Segundo a insuspeita ONG Repórteres Sem Fronteiras,"os meios de comunicação incitaram o público a derrubar a presidenta Dilma". Trata-se de uma mídia partidarizada que não convence mais ninguém de sua imparcialidade. Faria muito bem ao país se, assim como o Times, confessasse sua postura política — no caso de defesa dos interesses da burguesia —, ao invés de espernear toda vez que tem sua postura de militante anti-PT denunciada por veículos como Guardian ou New York Times.

Assim como o Estado de S. Paulo tem o direito de apoiar Aécio Neves, o New York Times não comete nenhum crime ao apoiar Dilma Rousseff, embora não tenha sido isso que ele fez, ao contrário do que sugeriu o incauto Jorge Pontual na GloboNews. O Times apoiou a frágil democracia brasileira e não a Dilma. O editorial dizia: "Esta crise política está minando a fé na saúde da jovem democracia [do Brasil]". O maior jornal dos Estados Unidos diz-se preocupado com a democracia brasileira e a mídia brasileira classifica-o de dilmista. Diz muito sobre a nossa mídia, não? Acho que aquilo que o Times escreveu como alerta para os políticos brasileiros, pode muito bem valer para os veículos de comunicação também: "Eles podem se dar conta em breve que grande parte da ira da população focada na presidente será redirecionada a eles". E que não reclamem se isso acontecer, pois essa ira contra as instituições foi muito bem incitada por eles durante anos a fio. 

Para alguns, defender a democracia é o mesmo que defender
Dilma Rousseff acriticamente (o que o Times não fez).
Isto pode ocorrer porque o brasileiro está insatisfeito com a ordem. E desconheço instituição maior em defesa da manutenção da ordem do que a mídia brasileira. Trata-se de uma mídia que compra briga até com veículos respeitadíssimos da mídia mundial, como o Guardian ou o Times para defender sua visão de mundo. À mídia internacional parece insensato — para não dizer hipócrita — que políticos sob investigação, como Eduardo Cunha, Renan Calheiros e André Moura, julguem uma presidenta sobre a qual não pesa acusação alguma além de uma tecnicalidade fiscal que governadores de todos os partidos praticam. Não adianta o João Roberto Marinho enviar cartinha pro Guardian, este impeachment está tendo sua legitimidade questionada até mesmo por veículos ultra-liberais como a revista Economist. Uma hora a população vai perceber isso e se revoltar contra quem os fez apoiar a troca de pouco por nada. E a culpa não vai ser do Times.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não podemos ter tempo para o ódio

Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao terrorismo?
Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao fanatismo?
Você e eu em paralelo
Você e eu, somos a chave
(Ofra Haza — "Middle East")

Uma de minhas cantoras favoritas é a israelense Ofra Haza. Nascida em 1957 numa periferia de Tel-Aviv, é a mais nova de nove filhos de Yefet e Shoshana Haza, um casal de imigrantes do Iêmen. As oportunidades eram escassas para os jovens do bairro de Hatikvah, negligenciado por sucessivos governos israelenses, sendo o teatro uma das poucas portas de saída da pobreza. Assim sendo, aos doze anos de idade Ofra se juntou a uma trupe de teatro local gerenciada por Bezalel Aloni, que mais tarde se tornaria seu empresário. Em 1979 ela atingiu o sucesso nacional após protagonizar o filme Schlager, sendo a canção "Shir Ha'frecha", que interpretou no  longa-metragem, um de seus primeiros sucessos. Após lançar três álbuns com o Shechunat Hatikvah Workshop Theatre, Haza finalmente se tornou conhecida o suficiente para lançar seu primeiro disco solo aos 22 anos de idade.

Ofra Haza
Em 1983 Ofra derrotou Yardena Arazi num concurso para representar Israel no Festival Eurovisão. Ela interpretou "Chai", canção escrita por Ehud Manor em homenagem aos atletas israelenses mortos por terroristas árabes nas Olimpíadas de 1972 em Munique, mesmo local em que era realizado o festival. A despeito da resistência que enfrentou de parte da própria sociedade israelense, que se incomodava com sua origem operária e seu sotaque típico de judeus oriundos de outros países do Oriente Médio, Ofra conquistou para Israel uma de suas melhores colocações no festival (o segundo lugar). Em 1988, despontou na Europa e na América do Norte com um remix de "Im Nin'alu", canção tradicional dos judeus iemenitas, composta no século XVII pelo rabino Shalom Shabazi. Ofra atingiu o Top 10 de oito países e o álbum Shaday, que continha o hit, vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

No auge de sua carreira, Ofra Haza se apresentava na Europa e nos EUA, apareceu no Tonight Show de Johnny Carson e se tornou a primeira israelense a ser indicada a um Grammy em 1993. No ano seguinte, cantou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Apesar do sucesso, Ofra estava dividida entre a carreira profissional e o desejo de sua mãe de que ela formasse uma família, conflito este retratado na canção "Ya Ba Ye", que compôs com Aloni e gravou em 1989 no álbum Desert Wind. Em 1997, sucumbiu à pressão familiar e se casou com o empresário Doron Ashkenazi. Entretanto, ela não só não conseguiu engravidar como ainda teria sido infectada com o vírus da AIDS pelo marido. A doença ainda era alvo de forte estigma na sociedade israelense e, envergonhada de sua condição, Ofra optou por não buscar tratamento médico.

A morte da jovem cantora, aos 42 anos de idade, pegou a todos de surpresa em 2000. Afinal de contas, em 1998 ela havia gravado a canção "Deliver Us" para a animação O Príncipe do Egito, o que significava que as portas de Hollywood estavam se abrindo para ela. Sua morte foi destaque na CNN, sendo uma das poucas, se não a única cantora israelense a ser destaque no canal de notícias. A decisão do jornal Ha'aretz de divulgar a causa da morte de Ofra foi polêmica. Tanto Aloni quanto a família da cantora acusaram Ashkenazi de ter transmitido a doença para a esposa. O viúvo, sob intenso escrutínio da mídia, se defendeu dizendo que Ofra contraiu a doença após uma transfusão de sangue num hospital turco. A família Haza e o viúvo disputaram entre si o espólio da cantora até que Ashkenazi morreu de uma overdose de metanfetamina em 2001.

Além do inglês, Ofra Haza gravava tanto em hebraico quanto em árabe, idioma de seus pais. Em 1984 lançou o álbum Yemenite Songs que incluía canções tradicionais dos judeus iemenitas. Apesar de ser bem vendido, foi boicotado por algumas estações de rádio por ser interpretado em árabe. Apesar disso, a canção "Galbi" foi remixada e fez sucesso nas pistas de dança da Inglaterra, abrindo caminho para o sucesso de "Im Nin'alu" na Europa. Algumas das canções de Ofra, como "Eshal" ou aquela que escolhi para introduzir este post, estendem a mão aos palestinos. Algo que pouquíssimos cantores israelenses fazem hoje em dia. Ofra Haza é o retrato de um Estado de Israel que não existe mais — para o bem (como no caso dos costumes que evoluíram) e para o mal (como no aumento da segregação racial). Deve ser por isso que gosto tanto dela.


Em seu último álbum, epônimo, lançado em dezembro de 1997, Ofra canta que não tem tempo para o ódio. O que mais vejo nos dias de hoje são pessoas arranjando tempo para odiar outras pessoas. Por mais atarefadas que estejam, sempre sobra um tempinho na agenda para manifestar seu ódio. E não apenas em Israel, infelizmente. Em relação ao século passado, a islamofobia tomou o espaço do antissemitismo e a homofobia do racismo. Já o preconceito de classe, esse nunca sai de moda enquanto for mais importante entrar nos portões dos ricos do que no de Deus. Mudam os tempos, mudam os personagens, mas não muda a perseguição e nem o ódio. Nesses tempos de cólera em que vivemos, a música de Ofra Haza me traz um pouco de paz e de esperança, tão difíceis de se encontrar ultimamente. Ela me ensina que não podemos ter tempo para o ódio.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As Olimpíadas da desesperança

Brasil olímpico: do orgulho...
Há quase quatro anos, lembro-me de assistir à festa de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres e ficar extasiado pelo segmento de oito minutos criado pelos diretores de cinema Cao Hamburger e Daniela Thomas para apresentar ao mundo um pouco do Rio de Janeiro, próxima cidade-sede do evento. Intitulado “Embrace” (Abraço), o segmento começou com o limpador de rua Renato Sorriso, ícone do Carnaval carioca, sambando, passou por uma performance de Marisa Monte vestida da deusa africana das águas Iemanjá e terminou com Pelé vestido com sua icônica camisa número 10 da seleção brasileira. Me enchi de orgulho e esperança de que o mundo finalmente veria o melhor de nós.

Dois anos se passaram e o Brasil se mostrou um país extremamente feio para o mundo. Na abertura da Copa do Mundo de 2014, a presidenta Dilma Rousseff foi mandada tomar no cu por gritos que ecoaram inicialmente da área VIP do Estádio de Itaquera. Mesmo com esse episódio, minha esperança não se esvaiu. A reeleição de Dilma em outubro daquele ano me provou que, embora crescente, a feiura ainda não era majoritária. Até que veio o ano de 2015. Acuada pela mesma elite paulista que a queria ver tomar no cu, Dilma decidiu adotar um programa de austeridade fiscal. Não só não conseguiu agradar a elite como também se distanciou da base trabalhadora que a reelegeu.

Durante todo o ano de 2015, Dilma enfrentou o fantasma do impeachment. Conseguiu afastá-lo graças ao apoio do PMDB do vice-presidente Michel Temer. Em dezembro, no entanto, trocou o ministro da Fazenda pró-austeridade por um nome mais ligado ao PT. Foi quando foi traída por Temer, que recebeu da elite econômica a incumbência de derrubar o governo e colocar a ordem de volta na casa, ou seja, tirar dinheiro de programas sociais para colocar no pagamento dos juros da dívida pública. O imbróglio deveria ter sido resolvido já no início do ano, mas o PT conseguiu barrar seu andamento no Supremo Tribunal Federal após questionar a forma de eleição dos membros da comissão do impeachment.

O Supremo decidiu que a eleição deveria ser aberta. Eleitos os membros da Comissão, a Câmara se apressou para tirar Dilma do poder, o que culminou com a votação do dia 17 de abril, um domingo, quando os deputados votaram a favor de tudo, menos do relatório que condenava Dilma. Agora o circo mudou de picadeiro. Está no Senado onde, após discussões inflamadas, a presidente deverá ser afastada por 180 dias. Enquanto Dilma prepara sua defesa contra o afastamento final, que deve ser referendado por 2/3 dos senadores, Temer deve apresentar seu pacote de maldades à nação: desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, fim do reajuste automático do mínimo com base na inflação, entrega do pré-sal para as empresas petrolíferas estrangeiras, etc.

Nesse cenário de perda de direitos é impossível nutrir algum sentimento bom pelas Olimpíadas. No mesmo dia em que a tocha olímpica era acesa em Atenas, uma ponte caiu no Rio de Janeiro e matou duas pessoas. Desde 2010 o estado é governado pelo PMDB e desde 2012 a cidade está nas mãos do mesmo partido, que foi o responsável pela execução das obras olímpicas. Muitas delas, como a despoluição da Baía de Guanabara, ficaram só no papel. Outras, como a construção de locais de competição, foram realizadas às custas da retirada ilegal de moradores de suas casas. Muitos fizeram uma analogia entre a ponte caída e o título do projeto do PMDB para o Brasil: "Uma Ponte para o Futuro".

...à desesperança.
Qualquer clima de orgulho foi morto pelo PMDB. Mostramo-nos para o mundo em Londres como um país que respeita as religiões de origem africana. Temer já recebeu a bênção do pastor Silas Malafaia, que abomina qualquer religião que não é cristã. Mostramo-nos como um país que respeita seus trabalhadores. Porém em 2013 o prefeito carioca ameaçou de demissão 1.200 limpadores de rua em greve por melhores condições de trabalho. Temer, por sua vez, deve apresentar projetos anti-sindicais nas próximas semanas. O orgulho foi destruído para satisfazer aos anseios insaciáveis de uma pequena parcela da população brasileira, que, a despeito de sua fortuna, sempre quer mais. E vai até mesmo derrubar uma presidente honesta e democraticamente eleita se ela estiver atrapalhando seu lucro. Por isso, essas são, pelo menos para mim, as Olimpíadas da desesperança.