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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A crise desnudou os caracteres

Que diferença uma década faz! Em 2007, a possibilidade dos Estados Unidos da América eleger Hillary Clinton como sua primeira presidenta me deixou extasiado. Não entendia muito bem de política, mas achava que esse fato, por si só, representava um avanço no cenário político mundial. Ao mesmo tempo, reconectei-me à minha brasilidade. O Brasil crescia muito em termos sócio-econômicos durante o segundo mandato do presidente Lula e ser brasileiro era algo que dava orgulho. Tínhamos acabado de sediar os Jogos Pan-americanos e fomos escolhidos como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Duas figuras foram particularmente importantes nesse processo: a cantora e compositora baiana Daniela Mercury, que cantou "Cidade Maravilhosa" na abertura do Pan e cuja obra eu redescobri naquela época, e a então ministra do turismo e eterna candidata à prefeitura de São Paulo Marta Suplicy, cujos artigos entrei em contato pela primeira vez ao ler um texto de sua autoria sobre a emancipação feminina no colégio.

As aparências enganam...
Outro aspecto importante do meu amadurecimento foi meu distanciamento crescente em relação à Igreja Católica. O rompimento definitivo ocorreu em 2009. Após o estupro de uma menina de 9 anos pelo próprio padrasto no sertão de Pernambuco, o então arcebispo de Recife e Olinda decidiu excomungar o obstetra Olímpio Moraes, que realizou um aborto nela. A decisão do clérigo foi criticada pelo então presidente Lula, a quem o bispo mandou estudar teologia. Indagado se não iria excomungar o estuprador, dom José Cardoso Sobrinho disse que não, justificando que o estupro não é um crime contra a vida – portanto, passível de excomunhão – segundo o Direito canônico. A Igreja de Roma passou uma mensagem bem clara para o jovem impressionável que eu era. Para a instituição, a vida das mulheres é menos importante do que a vida dos fetos. A campanha velada que a Igreja fez no ano seguinte a favor de José Serra, o candidato tucano à presidência, só reforçou meu distanciamento. O próprio papa Bento XVI sugeriu que Dilma Rousseff era favor do aborto!

É, portanto, justificável que eu tenha observado o processo de eleição do papa Francisco em março de 2013 com uma grande dose de desconfiança. Jorge Bergoglio, então cardeal de Buenos Aires, havia sido acusado de ter ajudado os militares durante a ditadura argentina, a mais implacável do continente. Trata-se de uma acusação grave e não muito implausível para aqueles que conhecem a história latino-americana. Hoje minha visão sobre cada uma dessas figuras mudou muito. Se alguém me dissesse, há cinco anos atrás, que Dilma seria derrubada por uma manobra parlamentar com o voto favorável de sua ex-ministra Marta Suplicy – e o voto contrário de Kátia Abreu – eu chamaria essa pessoa de louca. Como as aparências enganam! Marta era uma militante histórica do PT e foi eleita senadora na coligação de Dilma, enquanto Kátia apoiou Serra. No entanto, quem estava ao lado da mandatária em sua cerimônia de despedida do cargo era a última e não a primeira. Fiz um julgamento errado do caráter de Marta, assim como fiz um julgamento errado sobre o atual papa.

...mas a crise desnudou os caracteres.
O líder espiritual dos católicos romanos demonstrou estar pouco interessado em defender um status quo retrógrado e opressor. Pelo contrário, sempre denuncia o culto ao dinheiro que tem levado milhões de vidas à ruína. Assim sendo, as oligarquias latino-americanas não mais podem contar com a ajuda do bispo de Roma na defesa de seus interesses políticos. Não que a Igreja vá adotar a pauta de partidos progressistas, como a defesa do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas também não vai tentar interferir em eleições como Bento XVI fez no segundo turno de 2010, quando disse que os fiéis não deveriam votar em quem apoia o aborto. As manifestações de Francisco são mais sutis. Recentemente ele enviou um rosário para a ativista política argentina Milagro Sala – considerada prisioneira política pelos opositores do governo neoliberal de Mauricio Macri – e tem demonstrado preocupação com a "pausa democrática" no Brasil. Segundo interlocutores, o papa tem um relacionamento amistoso com Dilma e teria, inclusive, escrito uma carta de apoio a ela.

Os momentos de crise, creio eu, revelam o verdadeiro caráter das pessoas. Quando Dilma tornou-se a presidente mais bem avaliada da história do Brasil, a então secretária de estado americana Hillary Clinton referiu-se a ela como "padrão mundial na luta contra a corrupção". Depois que a popularidade da mandatária brasileira dissipou-se e ela foi condenada por um crime que não cometeu, Clinton não deu um pio sobre o processo de impeachment. Enquanto o governo Obama – do qual fez parte – oferece apoio tácito aos golpistas, 37 congressistas americanos denunciam o golpe contra a democracia brasileira. Assim como Marta, Clinton está interessada apenas no poder. Por outro lado, seu rival na disputa pela candidatura presidencial dentro do Partido Democrata, Bernie Sanders, orgulha-se de nunca ter trocado de lado na batalha política. Dois dias após o episódio circense da Câmara que autorizou a abertura do processo de impeachment contra Dilma, afirmou que "os EUA não podem continuar derrubando governos na América Latina". Mais recentemente lançou nota condenando o processo.

Tudo o que temos para oferecer são nossos valores

Marta não quer perder votos em São Paulo por estar associada à Dilma. Clinton, por sua vez, não quer perder o financiamento de setores interessados no golpe em curso no Brasil, em especial a indústria de combustíveis fósseis. Sanders, por outro lado, defende o mandato de Dilma, conquistado em eleições livres e democráticas, sem nunca tê-la conhecido pessoalmente. Já não admiro mais Marta e Hillary Clinton como fazia-o nos idos de 2007, mas no meio da crise política brasileira, meu respeito à cantora Daniela Mercury manteve-se intacto. Em maio, após ter sido consumado o golpe do PMDB contra Dilma, Marta incumbiu-se da função de encontrar uma mulher para o cargo de secretária nacional da cultura. Temer, atacado por artistas por ter extinguido o MinC e por feministas por não ter nomeado nenhuma ministra, queria uma mulher para exercer a função. Marta – que traiu a colega antes mesmo de Temer fazê-lo com sua cartinha ridícula – assumiu felizmente o papel de coveira do Ministério da Cultura, o mesmo que dirigiu por mais de dois anos entre 2012 e 2014. 

Uma das pessoas procuradas pela ex-ministra da cultura de Dilma foi justamente Daniela Mercury. Não querendo se indispor com a classe artística, Daniela repetiu o gesto de Fernanda Montenegro quando esta foi convidada para ser ministra da cultura por José Sarney e por Itamar Franco e negou-se à empreitada. Caso tivesse aceitado, Daniela trairia a si mesma. É uma mulher e Temer compôs o primeiro governo sem mulheres desde 1982. Além disso, o governo atual não dialoga com minorias e, em suas músicas, Daniela canta sobre a luta de negros e mulheres pela liberdade. Trata-se da primeira cantora de axé a receber de braços abertos o público gay no carnaval de Salvador. Fez isso enquanto houve quem colocasse fim a seu bloco quando ele começou a se tornar "mal frequentado", ou seja, frequentado por gays demais. Nada mais natural. Afinal de contas, Daniela é bissexual e, apesar das tentativas da imprensa de obrigá-la a se assumir, viveu dentro do armário até 2013, quando finalmente teve coragem para assumir sua parceira, a jornalista Malu Verçosa, com quem cria três filhas adotivas.

Daniela Mercury manteve-se coerente com seus valores.
No Brasil atual, é de se admirar.
A única coisa que importa para Marta Suplicy desde 2005 é voltar ao Palácio do Anhangabaú. Daniela tem outras preocupações. Tem nas pessoas LGBT um grande público e não quis se indispôr com seus fãs para fazer parte de um governo que compõe com a bancada evangélica. Como fã, eu teria me sentido traído se ela fizesse parte de um governo cujo principal articulador é Eduardo Cunha, o mesmo que proibiu os cartazes do Seminário LGBT do Congresso Nacional – no qual Daniela aparecia trocando intimidades com Malu – de serem afixados nos corredores da Câmara. O poder muda as pessoas, e com certeza mudou Marta Suplicy e Hillary Clinton, transformando-as em pessoas sem palavra. Ainda bem que a cantora baiana não caiu na armadilha sedutora do poder. Teria ganhado o desprezo dos artistas que lutavam contra a extinção do MinC e de seus fãs, que através de suas músicas sonham com um futuro de maior liberdade para todos. Teria se tornado mais uma hipócrita que, como Marta, vendeu seus sonhos "tão barato que eu nem acredito".

Dito tudo isso, gostaria de parabenizar, com um certo atraso, a decisão de Daniela. No calor do momento, deixamos de fazer algumas análises importantes do caráter das pessoas. Enquanto Marta morreu pela boca ao trocar Dilma pela dupla Temer–Cunha, Daniela manteve-se firme em suas convicções. Chega numa idade da vida em que tudo o que temos para oferecer àqueles que nos admiram são nossos valores. Precisamos agir de forma coerente com as palavras que saem de nossas bocas. A grande defensora dos LGBT na política aliou-se com os maiores vilões deles em troca de espaço na disputa para a prefeitura de São Paulo. Daniela, por outro lado, continua defendendo os mesmos valores que defendia em 2007. Talvez até de forma mais intensa agora que saiu do armário. Pra essa gente careta e covarde, que não suporta a luta se esta lhe tornar impopular, desejo piedade. Pra gente inovadora e corajosa como Daniela, desejo axé. Pois é com muita felicidade que afirmo que minha cantora favorita ainda viva tem caráter!

Eu já admirei Marta Suplicy e Hillary Clinton e, por ignorância, desprezei Kátia Abreu e Jorge Bergoglio, o Papa Francisco. Os dois últimos possuem visões políticas diferentes da minha em várias áreas e eu julgava isso como sendo mau-caratismo. Há direitistas de bom caráter e esquerdistas oportunistas. De que adianta concordar com políticos como Marta e os Clintons se eles não possuem ideologia alguma e mudam de visão para ganhar votos? Por outro lado, a crise do capitalismo apresentou-me à trajetória do senador Bernie Sanders, que mantém-se firme na defesa dos oprimidos desde os anos 1980. Quando Bill Clinton apresentou a homofóbica Lei de Defesa do Casamento em 1996, ele votou contra, mesmo correndo o risco de se tornar impopular. Ignorando a história, as principais ONGs gays apoiaram Clinton. Daniela Mercury, por outro lado, continua sendo a mesma diva gay que era em 2007. Seu "Canto da Cidade" continua sendo, para mim, um hino de liberdade. A conclusão que tiro disso tudo é que não se pode e não se deve julgar um livro pela capa. A não ser que este livro seja Bernie Sanders ou Daniela Mercury.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O evangelicalismo está embrutecendo o Brasil

Relutei em escrever esse texto. Primeiro porque não quero correr o risco de soar como aqueles trogloditas que estigmatizam as comunidades minoritárias. Segundo porque o propósito da minha escrita não é ofender ninguém. Desejo questionar ideias e não pessoas. No entanto, penso que precisamos, enquanto nação, discutir o movimento evangélico, que vem mudando drasticamente não só o perfil religioso do Brasil, como também seu perfil societário e comportamental. Conforme o país adota cada vez mais o evangelicalismo como doutrina religiosa, bancadas conservadoras crescem nos espaços de formulação de políticas públicas, tensões religiosas entram em estado de ebulição e o discurso do senso comum se torna cada vez mais intransigente com quem é visto como pecador — não raro são pessoas que já se encontram a margem da sociedade como indígenas, homo e transsexuais e usuários de drogas.

Cunha saiu desse Congresso.
Em 2015 o Congresso mais conservador desde a redemocratização tomou posse e, junto com ele, um número inédito de deputados evangélicos. Logo em seguida, foi eleito o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência do Poder Legislativo nacional. Cunha e a maioria dos deputados evangélicos — um exceção notável é a também carioca Benedita da Silva, do PT — defendem, por um lado, projetos de lei que dão mais liberdade à atividade econômica (lei da terceirização) e, por outro, restringem as liberdades individuais (fim do acesso à pílula do dia seguinte no SUS e do reconhecimento de famílias formadas por casais homoafetivos). Isso demonstra o quão o evangelicalismo brasileiro é alinhado ao americano, para o qual o sucesso financeiro seria uma dádiva de Deus àqueles que creem nele. Isso só não explica porque a maioria dos moradores de rua são cristãos e não ateus.

O Tea Party, embora não seja oficialmente um movimento político de cunho evangélico como o Revoltados Online, atua no mesmo sentido. Defende o fim do intervencionismo do Estado na economia enquanto enche o Congresso americano de políticos evangélicos como Carly Fiorina e Ben Carson, que são brilhantes ao questionar os direitos das minorias, mas omitem-se em questionar os escandalosos benefícios dos mais ricos. Ambos são pré-candidatos á presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. O neurocirurgião Carson seria o rosto de uma nova direita: apesar de ser negro, é conservador no campo dos costumes e liberal na economia. Uma tentativa de reaproximar os negros do partido que, num passado distante, libertou-os da escravidão. Contudo, a maioria deles apoia os pré-candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders. Carson é visto como um negro que deu sorte e agora representa a minoria rica como ele e não os negros do gueto. 

Apesar de sua retórica da meritocracia, da qual seria um exemplo vivo, o candidato desagrada aos negros menos por defender a plutocracia e mais por ser percebido como um fanático religioso, que chegou até mesmo a contradizer arqueólogos para sustentar sua fé. Os evangélicos, após anos propagando o ódio contra os grupos mais excluídos da sociedade americana na política, conseguiram se tornar politicamente inviáveis. Mesmo tendo sido os principais responsáveis pela vitória de Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980, hoje são a parcela da população que mais desperta a desconfiança do eleitorado em geral. Um quarto dos eleitores americanos — que são, em sua maioria, protestantes (21,2%), católicos (20,8%) e não-religiosos (22,8%) — afirma que não votaria num candidato evangélico para a presidência da República. Só não conseguiram os muçulmanos,  os ateus e os socialistas em rejeição.

No Brasil, no entanto, o movimento evangélico ainda está em trajetória ascendente, embora, penso eu, figuras polêmicas como Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Marco Feliciano e o próprio Eduardo Cunha contribuem para a saturação do mesmo. Aqui em nosso país convencionou-se, por ignorância e preconceito, chamar todo e qualquer cristão que não fosse católico de "evangélico", o que distorce o real número de adeptos do evangelicalismo. As denominações luterana, anglicana (da qual faço parte), presbiteriana, metodista e batista em nada se assemelham à leitura do Evangelho proposta pelas igrejas evangélicas. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma tentativa de fazer uma leitura mais literal da palavra de Cristo. Buscam seguir os primeiros cristãos — que na verdade eram judeu-cristãos, pois não haviam rompido por completo com o rabinato —, como se fosse possível aplicar as normas sociais vigentes em Israel do século I no Brasil de vinte séculos depois.

A tentativa de "purificar" o cristianismo, de fazê-lo retornar a suas raízes, gera anomalias sócio-comportamentais. A repressão sexual imposta pela moral cristã evangélica consegue a façanha de ser ainda pior do que a católica. Porque a interpretação deles diz que Jesus era contra a homossexualidade e o amor livre, querem impor essa interpretação para todos. Desejam impor ao Brasil a sharia cristã. Quem nunca ouviu um fiel evangélico dizer que a Bíblia é mais importante do que a Constituição? É muito cômodo apontar os horrores do Daesh (ISIS), que deseja criar um Estado Islâmico entre a Síria e o Iraque e fecharmos os olhos para o projeto de poder semelhante de alguns líderes evangélicos. Os militantes islâmicos são loucos por se sujeitarem a uma dinâmica social onde o prazer é pecado e a vida limita-se a observar as leis de Deus escritas por homens há milhares de anos. Mas só os islâmicos, os evangélicos radicias não?

Métodos diferentes, mesmo propósito.
Graças a Deus, nem todo evangélico é assim. A rejeição a estudos, análises e interpretações da palavra de Deus à realidade concreta dos fiéis não ocorre em todas as igrejas evangélicas, assim como nem todos os seguidores de Maomé desejam subjugar os seguidores de outras religiões.  Da mesma forma que há uma ímã mulher em Los Angeles, há pastores evangélicos gays. Nem todo evangélico crê na necessidade de se engajar numa jihad (guerra santa) contra os valores que percebem como contrários à palavra de Deus para propagar o Evangelho de Jesus Cristo. No entanto, são as figuras mais barulhentas, odientas e explosivas que chamam mais a atenção da população em geral para o movimento evangélico. Por que entrevistar um teólogo esclarecido como Ricardo Gondim se o pregador do ódio Silas Malafaia dá mais ibope? A imprensa também tem sua parcela de culpa na proliferação do discurso de ódio entre os evangélicos.

Mas a quem serve um Evangelho que oprime as criaturas de Deus? De que adianta seguir o carpinteiro humilde da Galileia que salvava adúlteras do linchamento e condenava o acúmulo de riquezas se hoje aplaudimos o homem que espanca a esposa infiel pega no motel com outro e valorizamos os bens materiais mais do que nossas próprias vidas? A Reforma Protestante, sem a qual nenhuma dessas igrejas existiriam, surgiu da revolta contra a mercantilização da fé e também contra as doutrinas, regras e normas inexistentes na Bíblia inventadas pelos bispos de Roma — tais como o celibato de sacerdotes, a proibição do divórcio e a virgindade perpétua de Maria. E, por falar em Maria, é interessante notar que a repressão religiosa recai sempre de forma mais severa sobre os corpos femininos. Não foi à toa que 15 mil mulheres marcharam na Avenida Paulista contra o projeto de poder de Eduardo Cunha, que não prevê o aborto em casos de estupro. 

A alguns líderes evangélicos não basta orientar suas próprias fiéis quanto à questão reprodutiva. Querem regular os corpos de todas as brasileiras, sejam elas católicas, protestantes, espíritas, judias ou ateias. O Brasil deve retroceder vários anos enquanto nação e se livrar da pílula do dia seguinte e do aborto. Não porque a comunidade científica regulou que são invasivos. Mas porque uma parcela minoritária da comunidade religiosa nacional se incomoda com tais métodos que, embora invasivos, evitam o nascimento de crianças que podem ser abusadas, maltratadas e abandonadas por mães que não lhes queriam, o que traz consequências desconhecidas para a coletividade. Interessante notar que a violência sexual contra as mulheres propriamente dita — motivos pelos quais o SUS distribui pílulas do dia seguinte e realiza abortos — parece não incomodar esses líderes religiosos. Condenam mais o aborto do que o estupro que leva as mulheres a procurar tal procedimento.

Charge de Vitor Teixeira.
A liberdade de culto garantida por nossa Constituição federal não é absoluta. Um conceito interessante do Direito é que nenhum direito termina em si mesmo e pode se sobrepor sobre os demais. É o famoso "o meu direito acaba quando começa o do outro" no ditado popular. O cidadão pode escolher, sem moléstia, se quer seguir uma religião. Mas ele não pode querer impor sua religião sobre as religiões dos demais cidadãos. A partir do momento em que líderes religiosos passam a decidir o que professores devem ensinar na sala de aula, que medida o SUS deve adotar para atender mulheres vítimas de estupro e quais arranjos podem ser considerados famílias, observa-se uma invasão do Estado laico por forças religiosas, estranhas ao Direito. Tais forças atuam em defesa da visão de mundo de apenas alguns em detrimento da coletividade, ampla e plural.

Aos poucos, o evangelicalismo embrutece o Brasil. Seus líderes radicais querem substituir a defesa do bem estar — seja de mulheres vítimas de estupro ou de crianças que podem ganhar um lar com um casal gay — pela interpretação que a igreja deles fazem do Evangelho. Interpretação essa que não é consensual nem mesmo entre os teólogos. Ao contrário da Constituição, a Bíblia admite várias interpretações. Na minha igreja, por exemplo, entende-se há mais de 15 anos que Jesus não rejeitou os homossexuais. De fato, não há uma menção sequer à homossexualidade em nenhum dos quatro Evangelhos — há em escritos posteriores, de autoria de homens que, ao contrário de Jesus, eram falíveis, e em escritos anteriores, como o Levítico, que o próprio Jesus violou. Por que então é a visão da Assembleia de Deus e não a da Igreja Episcopal Anglicana que deve ser ecoada na legislação brasileira? O Estado ser laico significa que ele deve respeitar ambas as visões, e não colocar uma acima da outra, observando sempre o princípio maior que é a garantia da dignidade humana.

Não é do pôster que a tropa de Cunha quer se livrar.
O que interfere na vida de um evangélico se há membros de outras doutrinas religiosas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e abortam? Ora, se eles acreditam que a homossexualidade e o aborto são pecados, que não cometam nem um nem outro. Devem respeitar os outros como eles os respeitam. Duvido que um militante gay ou feminista se julgaria apto a ensinar o padre a rezar a missa, ou melhor, o pastor a celebrar o culto. A tentativa de impor um único ponto de vista sobre os demais, sobretudo através da violência, seja ela simbólica (episódio do chute na santa ou quando Malafaia disse que gays mereciam apanhar) ou real (agressões a praticantes de religiões afro e destruição de seus templos), é o primeiro passo rumo ao fascismo. Cabe a nós, cristãos moderados, lutar contra o embrutecimento que impõem ao Brasil. Devemos agir enquanto é tempo, porque o que os radicais querem não é se livrar do pôster exposto nos corredores da Câmara que mostrava Daniela e Malu se beijando. Eles querem é se livrar delas!