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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chamam-nos de selvagens

Ontem assisti ao filme Sangue Vermelho (Call Her Savage), o penúltimo estrelado pela "it girl" original Clara Bow. Na produção, lançada em novembro de 1932, a jovem Nasa Springer — para seu desgosto e de sua família — não consegue se adaptar às normas sociais. Ela comete uma série de decisões erradas durante a vida, sendo deserdada pelo pai milionário, até que descobre, no leito de morte da mãe, que é cabocla. Seu verdadeiro pai era um bravo líder indígena com quem sua mãe manteve relações durante uma das viagens de negócios de seu esposo. O filme flerta com a ideia de que os ameríndios são guerreiros por natureza e que, por isso, aqueles que possuem sangue indígena têm maior dificuldade em se adaptar às normas sociais estabelecidas pelos brancos.

De fato, os brancos definem o que é ser civilizado. Trabalhar oito horas por dia para garantir o lucro dos outros, passar 1/3 da vida no trânsito, comprar frango engordado à base de anabolizantes no supermercado, aplaudir as ações da PM mostradas na TV, protestar contra presidente que acaba com a fome e fazer silêncio sobre presidente que recebe mala de dinheiro, passear em shoppings nos fins de semana, dormir à base de remédios para não pensar nas coisas horríveis que dizemos e fazemos uns aos outros no dia a dia. Isso é a civilização. A todos aqueles que vivem de outra maneira, seguindo outros valores que não a busca desenfreada pela acumulação de dinheiro e pela dominação dos outros seres vivos que habitam nosso planeta, chamam de loucos. Chamam-nos de selvagens.

Chamam-nos de selvagens porque não podem
nos subjugar.
Esse é o nome do filme em inglês. Nasa é chamada de selvagem por um pretendente rico porque bateu na mulher que desonrou a memória de seu filho, morto num incêndio. Pessoas civilizadas não extravasam suas emoções em público. Elas engolem suas frustrações a seco para depois resolvê-las de maneira mais privada, seja insultando estranhos, desenvolvendo uma úlcera ou viciando-se em remédios ou outras adicções da moda. Pessoas civilizadas não falam o que pensam ou sentem e jamais reagem à altura das ações às quais foram submetidas. O cidadão-modelo é a Marcela Temer — "bela, recatada e do lar", segundo a revista Veja — ou o Rodrigo Hilbert, brilhantemente desconstruído pelo PC Siqueira nesse vídeo. Ambos brancos e privilegiados num país de caboclos pobres. Pois eu não consigo ser assim.

Tenho muito de Nasa em mim. Infelizmente, para essa sociedade doentia — que, hipócrita, prefere patologizar quem aponta os seus erros ao invés de fazer auto-crítica — e felizmente, para mim — que não vou aceitar os rótulos dela. Talvez isso se dê porque eu também tenho sangue indígena correndo em minhas veias. Independente do motivo, a norma social imposta pelos brancos no continente americano me entedia no campo dos costumes e me revolta no das relações sociais. Mais do que a morte até. Não só não a sigo como também ridicularizo-a. Se eu tentar me encaixar nela, estarei traindo o meu próprio espírito. Mas sou confiante. Se Nasa não precisou fazê-lo para encontrar seu "happy ending" no final do filme, penso que eu também não irei precisar fazê-lo.

Se tem algo que precisa ser revisto é esse modelo de organização da sociedade e não aqueles que não se conformam com ele. Como dizia Bertolt Brecht, chamam de selvagem o rio que tudo arrasta, mas nada dizem das margens que oprimem-no. Tudo aquilo que não pode conter e que não consegue oprimir, a sociedade rotula. O establishment já praticamente dizimou os índios mas, para seu azar, seu sangue guerreiro permanece mais vivo do que nunca. Toda vez que alguém se recusa a oprimir os que já nasceram fodidos, uma banana é dada à civilização branca. Pois eu não quero ser civilizado se ser civilizado significar reproduzir a norma social vigente. Não devo obediência a assassinos — reais ou potenciais — e seus cúmplices, que não vêem nada de errado em caçar os membros mais frágeis da sociedade. Vão ter que me chamar de selvagem!

domingo, 13 de março de 2016

Hoje eu não vou

Estou muito decepcionado com o governo que eu elegi. No entanto, eu jamais participaria de uma marcha verde-e-amarela. Devo respeitar quem eu sou. Vejam só:

  • No século XVIII, meus ascendentes por parte de pai foram obrigados a assimilar uma cultura que não era a deles. Sob ameaça da Igreja Católica na Polônia, foram obrigados a se converter do judaísmo ao cristianismo.
  • Há cinco gerações, a avó de meu avô materno foi tirada à força do convívio de sua família indígena e obrigada a assimilar a cultura branca.
  • Minha vida inteira testemunhei minha mãe tentando se impor numa sociedade machista que tenta calar e desvalorizar as mulheres. Ela me ensinou a não andar perto de quem ofende as mulheres pelo simples fato de serem mulheres, como quem xinga a presidenta de "puta", "vadia" ou "vagabunda".
  • Além disso, eu sou gay. Sou obrigado a lidar diariamente, de maneira aberta ou velada, com a tentativa de que eu me adeque à ordem heteronormativa da sociedade patriarcal. Essa tentativa já veio tanto na forma de chutes e pontapés quanto na forma de comentários sutis.

A minha história é uma de assimilação, tentada ou bem sucedida. Assim sendo, não gosto de quem tenta me fazer aceitar os valores da maioria à força. Só tenho uma vida para viver e vou vivê-la do jeito que eu julgo ser o melhor para mim. Tento ser autêntico e não agir como gado em manada. Devo isso a meus ascendentes, que não conseguiram viver pelas suas próprias regras. Agora que estou numa situação mais confortável do que a deles, decidi que ninguém vai me obrigar a seguir as regras do status quo por nada nesse mundo.

A cantora Pitty resumiu bem porque eu não fui e continuarei não indo.

Pois é justamente essa a maneira como eu encaro as marchas verde-e-amarela. Um desfile de ideologias opressoras. Os camisas amarelas carregam dentro de si a bandeira do ódio, do antissemitismo, do genocídio indígena, do machismo e da homofobia. Afirmam que querem o Brasil de antigamente de volta. Só que o Brasil de antigamente não só era um país onde as instituições não tinham independência para investigar esquemas de corrupção envolvendo o governo como também era um local onde matavam judeus, negros, indígenas, mulheres e gays abertamente.

Devo respeitar não só a História do Brasil como também a minha história, de onde eu vim e para onde eu quero ir. Não marcho ao lado de fascistas, neonazistas, homofóbicos, machistas e racistas. Seria suicídio. Também não quero que eles governem o país. Porque, no final das contas. é disso que se trata o ato de hoje: uma disputa de poder liderada pelo grupo mais conservador e reacionário da sociedade brasileira. Hoje eu não vou em respeito a mim: uma figura ignorada, desprezada, humilhada e odiada pelos brancos, ricos e cristãos "revoltados", tanto no passado quanto no presente.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Brasil, a sete passos da Idade Média

Todo cidadão minimamente consciente já sabe que em 2015 o Brasil regrediu diversos anos na garantia de direitos sociais às populações historicamente oprimidas. Após a eleição de um evangélico fanático ao posto de presidente do Congresso Nacional o Brasil se viu refém da agenda dos deputados espúrios que elegeram-no, principalmente fazendeiros, pastores e policiais. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) era o queridinho da grande mídia enquanto, por um lado, atacava os direitos de trabalhadores e, por outro, ameaçava mandar a presidente Dilma Rousseff para casa antes do término oficial do mandato para o qual ela fora legitimamente re-eleita. Só que sua situação se complicou bastante após o surgimento de denúncias ―por parte da procuradoria suíça― de que ele estava usando o paraíso fiscal para lavar dinheiro desviado da Petrobrás. Como consequência, atualmente mais pessoas apoiam o afastamento de Cunha (80%) do que de Dilma (60%). Entretanto, nada indica que a luz ressurgirá no Congresso caso Cunha seja afastado. As trevas vieram para ficar. E o que é pior: têm a legitimidade do voto popular, conquistado nas eleições de 2014.

Em 2015 foram sete os projetos aprovados pelos deputados que representam o retrocesso de direitos para milhões de brasileiros. Seriam oito, caso a bancada governista não tivesse conseguido reverter o corte de verbas do Programa Bolsa Família, que jogaria 8 milhões de pessoas de volta na miséria. O Brasil vai na contramão dos países mais desenvolvidos do mundo. Enquanto os brasileiros se deixam levar por preconceitos e soluções milagrosas para problemas complexos, outros povos analisam racionalmente seus problemas. Em 2015 a Suprema Corte dos EUA decidiu reconhecer todos os casamentos entre pessoas do mesmo sexo realizados no país. O Canadá, preocupado com o crescimento da desigualdade social, elegeu um primeiro-ministro de esquerda ―filho do popularíssimo Pierre Trudeau― que propôs aumentar o imposto dos mais ricos e diminuir o dos mais pobres. Os finlandeses elegeram o centrista Juha Sipilä, que prometeu pagar uma renda mínima ―uma espécie de Bolsa Família― a todos os cidadãos; esta proposta é apoiada por 7 em cada 10 finlandeses. EUA, Canadá e Finlândia possuem índices de desenvolvimento humanos muito superiores ao do Brasil. O Canadá inclusive liderou a lista entre 1992 e 2000.

Na permissão ao aborto, é clara a divisão norte-sul do mundo.
Mas vamos deixar a discussão para depois. Vamos primeiro à lista das sete decisões tomadas pelos deputados brasileiros em 2015 que distanciam nosso Brasil dos países mais desenvolvidos do mundo e colocam-no um pouquinho mais perto da Idade Média:

  1. PEC 99/11, de autoria de João Campos (PSDB-GO): Aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), permite que entidades religiosas entrem com ações de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Isso dá a igrejas, entidades privadas, o poder de questionar leis e jurisprudências, igualando-as à presidência da República, à Procuradoria Geral da República, aos governos de estados, às mesas da Câmara, do Senado e das Assembleias Legislativas, aos partidos políticos e ao Conselho Federal da OAB. Se a proposta for aprovada no plenário da Câmara, a Igreja Universal poderá questionar a validade do seu casamento. É a maior afronta ao Estado laico desde o advento da Constituição de 1988.
  2. PL 5069/15, de autoria de Eduardo Cunha (PMDB-RJ): Aprovado na CCJ, aumenta as restrições ao aborto, um direito previsto para casos de estupro e risco à vida da mulher desde 1940. O texto da lei ainda permite aos profissionais de saúde se recusar "a aconselhar, receitar ou administrar procedimentos ou medicamentos que considerem abortivos". Isso significa que o agente de saúde que entender que a pílula do dia seguinte provoca aborto pode se recusar a oferecê-la à paciente, mesmo aquela que tenha sido vítima de estupro. Em 30 de outubro, cerca de 15 mil mulheres protestaram nas ruas de São Paulo contra a medida que dificulta à mulher vítima de estupro o acesso ao atendimento-padrão nesses casos.
  3. PL 6583/13, de autoria de Anderson Ferreira (PR-PE): Aprovado numa comissão da Câmara no fim de setembro e mais conhecido como Estatuto da Família prevê a definição de entidade familiar como a "união entre um homem e uma mulher". Deve excluir do acesso a planos de saúde, entre outros serviços, cerca de 60 mil famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, assim como famílias de arranjos anaparentais ―quando não há relação direta de descendência entre pais e filhos, como tios que cuidam de sobrinhos ou irmãos mais velhos que cuidam de irmãos mais novos.
  4. PEC 171/93, de autoria de Benedito Domingues (PP-DF): Aprovada pelo plenário da Câmara, a proposta reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Não há qualquer evidência científica de que a proposta vá afetar os índices da violência. Por outro lado, especialistas em infância e juventude alertam que os menores podem ser vítimas de abusos e aliciamento por organizações criminosas que comandam os presídios estaduais.
  5. PL 3722/12, de autoria de Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC): Aprovada por uma comissão especial, a proposta revoga o Estatuto do Desarmamento. Nomeado de Estatuto de Controle de Armas de Fogo, o PL reduz de 25 para 21 anos a idade mínima para compra de revólveres e pistolas, elimina a taxa que os compradores de arma precisam pagar e amplia de três para dez anos o prazo para renovar o porte de armas. A proposta também autoriza diversos profissionais que não trabalham com segurança ―como fazendeiros― a ter acesso a armas. A tendência é que as milícias cresçam, assim como o número de assassinatos, que já é alto. Segundo pesquisa da UFRJ, o Estatuto do Desarmamento evitou mais de 121 mil mortes no Brasil de 2004 a 2012.
  6. PEC 215/00, de autoria de Almir Sá (PR/RR): Aprovada pela CCJ, transfere do Executivo para o Legislativo a atribuição de remarcar terras indígenas ou quilombolas. Prevê o pagamento de indenizações retroativas ―e em dinheiro!― pelas terras expropriadas para a criação de reservas indígenas/quilombolas. Isso criaria um passível impagável para a União. Alem disso, estabelece como marco temporal de ocupação das terras o dia 5 de outubro de 1988, o que significa que os indígenas ou quilombolas não terão direito à terra se não a ocupavam em 1988.
  7. PL 4330/04, de autoria de Sandro Mabel (PMDB-GO): Aprovado em plenário, o projeto revoga vários dispositivos da Consolidação das Leis Trabalhistas, a CLT, um dos maiores legados de Getúlio Vargas para a sociedade brasileira. Os trabalhadores terceirizados recebem salários 25% menores do que os trabalhadores celetistas, permanecem no emprego pela metade do tempo e cumprem jornadas de trabalho maiores ―ou seja, mais de 44 horas semanais. 

FHC acabou com Vargas na economia;
Cunha, na sociedade.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência do Brasil em 1995 e levou a cabo a privatização de empresas criadas por Getúlio Vargas, ele sentenciou: "a era Vargas acabou". Mas nem mesmo FHC, ícone maior da direita nativa, teve a coragem de mexer nos direitos dos trabalhadores ou naquilo que o Código Penal de 1940 previa sobre o aborto. Ele é o retrato de uma direita que o seu partido, o PSDB, preferiu não ser. É um intelectual, um homem polido. Desde as últimas eleições, no entanto, o PSDB preferiu que sua cara não mais seriam os intelectuais: seria a escória da direita. Gente como o já supracitado Eduardo Cunha ou o deputado-pastor João Campos. Campos, além de propôr o fim da laicidade com a PEC 99 ―que prevê que uma força estranha á organização do Estado (as igrejas) questione leis e decisões do STF―, quer sustar uma decisão interna do Conselho Federal de Psicologia que proíbe os psicoterapeutas de fazerem a chamada terapia de reorientação sexual com seus pacientes, ou seja, curar gays. Se FHC pôs fim aos pilares econômicos da era Vargas, o neo-PSDB parece interessado em pôr fim aos pilares sociais da mesma.

O fato é que, como bem observou Rodrigo Martins, repórter da Carta Capital, o Brasil "até hoje não entendeu o sentido da Revolução Francesa". Liberdade significa que todos os cidadãos devem ser livres para viver de maneira lícita como quiserem, sem a interferência do Estado. Igualdade significa que todos os cidadãos são iguais, independente de serem indígenas, quilombolas, jovens em conflito com a lei, homossexuais ou irreligiosos. Fraternidade significa que os cidadãos devem ajudar uns aos outros, com enfoque especial aos mais vulneráveis, na construção de uma sociedade mais justa. O que vemos no Brasil atual é a completa negação desses valores. Vemos evangélicos que querem se tornar supercidadãos, com poder de questionar as leis, algo que ateus, agnósticos e irreligiosos não poderão fazer. Vemos a completa subjugação da mulher aos preceitos religiosos (minoritários na sociedade) seguidos por Eduardo Cunha ―que no entanto não segue aquele mandamento "não roubarás". Vemos a negação de gays e lésbicas ―e até mesmo irmãos mais velhos e tios― do conceito de "pai" e "mãe". Vemos a negação da recuperação a jovens que cometem crimes.

Ainda não derrubamos a Bastilha, mas julgamos ser possível
alcançar o nível de desenvolvimento social da França.
Na contramão dos Estados Unidos, que começa a debater o controle mais rígido de armas, queremos ainda mais armas e punições ainda mais severas para pequenos criminosos (os de colarinho-branco parecem não incomodar tanto). Na nossa vã ingenuidade, achamos que os problemas sociais podem ser resolvidos na base da bala e da tortura. Se resolvessem, os regimes ditatoriais da África e da Ásia ―de esquerda e de direita― seriam verdadeiros paraísos na Terra. E a Inglaterra, país onde é dificílimo conseguir uma arma, seria um caos. Da mesma forma, achamos que vamos resolver o conflito entre homens brancos e indígenas com o uso de força bruta. O Brasil é o país que mais mata indígenas no mundo e mesmo assim os povos originais não cansaram de lutar pelas terras que são, há um milênio, deles. Por fim, os deputados que se dizem tão preocupados com o "homem de bem" quer tirar dele seu sustento. Enquanto eles recebem todos os direitos possíveis para trabalhar de terça a sexta-feira, querem aprovar um projeto de lei que não só vai reduzir o rendimento médio dos trabalhadores como os farão trabalhar ainda mais.

O Brasil sonha em ficar rico elegendo deputados do ancien régime. Sonhamos com o nível de desenvolvimento que só o Iluminismo é capaz de promover e, ainda assim, não tomamos cuidado para não elegermos os representantes das trevas. É impossível perseguir o desenvolvimento flertando com o atraso. Alguém realmente acredita que é possível conter a desigualdade social com a criminalização da pobreza? Alguém realmente acha que se diminui a taxa de homicídio colocando alguns jovens na cadeia para "servir de exemplo" e liberando indiscriminadamente o porte de armas de fogo? Assim fosse, o sul dos Estados Unidos seria maravilhoso, com suas armas e presos sendo executados para "servir de exemplo" para outros criminosos. Não se resolve os problemas sociais à força da bala ou da lei. Conforme Jesus disse certa vez, pobres e sofredores sempre existirão. Não é fingindo que eles não existem que vamos nos tornar uma sociedade melhor, onde o seu filho pode andar com o iPhone na rua sem medo de ser assaltado. Ao virarmos as costas para eles, condenamos nossa nação inteira.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O evangelicalismo está embrutecendo o Brasil

Relutei em escrever esse texto. Primeiro porque não quero correr o risco de soar como aqueles trogloditas que estigmatizam as comunidades minoritárias. Segundo porque o propósito da minha escrita não é ofender ninguém. Desejo questionar ideias e não pessoas. No entanto, penso que precisamos, enquanto nação, discutir o movimento evangélico, que vem mudando drasticamente não só o perfil religioso do Brasil, como também seu perfil societário e comportamental. Conforme o país adota cada vez mais o evangelicalismo como doutrina religiosa, bancadas conservadoras crescem nos espaços de formulação de políticas públicas, tensões religiosas entram em estado de ebulição e o discurso do senso comum se torna cada vez mais intransigente com quem é visto como pecador — não raro são pessoas que já se encontram a margem da sociedade como indígenas, homo e transsexuais e usuários de drogas.

Cunha saiu desse Congresso.
Em 2015 o Congresso mais conservador desde a redemocratização tomou posse e, junto com ele, um número inédito de deputados evangélicos. Logo em seguida, foi eleito o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência do Poder Legislativo nacional. Cunha e a maioria dos deputados evangélicos — um exceção notável é a também carioca Benedita da Silva, do PT — defendem, por um lado, projetos de lei que dão mais liberdade à atividade econômica (lei da terceirização) e, por outro, restringem as liberdades individuais (fim do acesso à pílula do dia seguinte no SUS e do reconhecimento de famílias formadas por casais homoafetivos). Isso demonstra o quão o evangelicalismo brasileiro é alinhado ao americano, para o qual o sucesso financeiro seria uma dádiva de Deus àqueles que creem nele. Isso só não explica porque a maioria dos moradores de rua são cristãos e não ateus.

O Tea Party, embora não seja oficialmente um movimento político de cunho evangélico como o Revoltados Online, atua no mesmo sentido. Defende o fim do intervencionismo do Estado na economia enquanto enche o Congresso americano de políticos evangélicos como Carly Fiorina e Ben Carson, que são brilhantes ao questionar os direitos das minorias, mas omitem-se em questionar os escandalosos benefícios dos mais ricos. Ambos são pré-candidatos á presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. O neurocirurgião Carson seria o rosto de uma nova direita: apesar de ser negro, é conservador no campo dos costumes e liberal na economia. Uma tentativa de reaproximar os negros do partido que, num passado distante, libertou-os da escravidão. Contudo, a maioria deles apoia os pré-candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders. Carson é visto como um negro que deu sorte e agora representa a minoria rica como ele e não os negros do gueto. 

Apesar de sua retórica da meritocracia, da qual seria um exemplo vivo, o candidato desagrada aos negros menos por defender a plutocracia e mais por ser percebido como um fanático religioso, que chegou até mesmo a contradizer arqueólogos para sustentar sua fé. Os evangélicos, após anos propagando o ódio contra os grupos mais excluídos da sociedade americana na política, conseguiram se tornar politicamente inviáveis. Mesmo tendo sido os principais responsáveis pela vitória de Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980, hoje são a parcela da população que mais desperta a desconfiança do eleitorado em geral. Um quarto dos eleitores americanos — que são, em sua maioria, protestantes (21,2%), católicos (20,8%) e não-religiosos (22,8%) — afirma que não votaria num candidato evangélico para a presidência da República. Só não conseguiram os muçulmanos,  os ateus e os socialistas em rejeição.

No Brasil, no entanto, o movimento evangélico ainda está em trajetória ascendente, embora, penso eu, figuras polêmicas como Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Marco Feliciano e o próprio Eduardo Cunha contribuem para a saturação do mesmo. Aqui em nosso país convencionou-se, por ignorância e preconceito, chamar todo e qualquer cristão que não fosse católico de "evangélico", o que distorce o real número de adeptos do evangelicalismo. As denominações luterana, anglicana (da qual faço parte), presbiteriana, metodista e batista em nada se assemelham à leitura do Evangelho proposta pelas igrejas evangélicas. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma tentativa de fazer uma leitura mais literal da palavra de Cristo. Buscam seguir os primeiros cristãos — que na verdade eram judeu-cristãos, pois não haviam rompido por completo com o rabinato —, como se fosse possível aplicar as normas sociais vigentes em Israel do século I no Brasil de vinte séculos depois.

A tentativa de "purificar" o cristianismo, de fazê-lo retornar a suas raízes, gera anomalias sócio-comportamentais. A repressão sexual imposta pela moral cristã evangélica consegue a façanha de ser ainda pior do que a católica. Porque a interpretação deles diz que Jesus era contra a homossexualidade e o amor livre, querem impor essa interpretação para todos. Desejam impor ao Brasil a sharia cristã. Quem nunca ouviu um fiel evangélico dizer que a Bíblia é mais importante do que a Constituição? É muito cômodo apontar os horrores do Daesh (ISIS), que deseja criar um Estado Islâmico entre a Síria e o Iraque e fecharmos os olhos para o projeto de poder semelhante de alguns líderes evangélicos. Os militantes islâmicos são loucos por se sujeitarem a uma dinâmica social onde o prazer é pecado e a vida limita-se a observar as leis de Deus escritas por homens há milhares de anos. Mas só os islâmicos, os evangélicos radicias não?

Métodos diferentes, mesmo propósito.
Graças a Deus, nem todo evangélico é assim. A rejeição a estudos, análises e interpretações da palavra de Deus à realidade concreta dos fiéis não ocorre em todas as igrejas evangélicas, assim como nem todos os seguidores de Maomé desejam subjugar os seguidores de outras religiões.  Da mesma forma que há uma ímã mulher em Los Angeles, há pastores evangélicos gays. Nem todo evangélico crê na necessidade de se engajar numa jihad (guerra santa) contra os valores que percebem como contrários à palavra de Deus para propagar o Evangelho de Jesus Cristo. No entanto, são as figuras mais barulhentas, odientas e explosivas que chamam mais a atenção da população em geral para o movimento evangélico. Por que entrevistar um teólogo esclarecido como Ricardo Gondim se o pregador do ódio Silas Malafaia dá mais ibope? A imprensa também tem sua parcela de culpa na proliferação do discurso de ódio entre os evangélicos.

Mas a quem serve um Evangelho que oprime as criaturas de Deus? De que adianta seguir o carpinteiro humilde da Galileia que salvava adúlteras do linchamento e condenava o acúmulo de riquezas se hoje aplaudimos o homem que espanca a esposa infiel pega no motel com outro e valorizamos os bens materiais mais do que nossas próprias vidas? A Reforma Protestante, sem a qual nenhuma dessas igrejas existiriam, surgiu da revolta contra a mercantilização da fé e também contra as doutrinas, regras e normas inexistentes na Bíblia inventadas pelos bispos de Roma — tais como o celibato de sacerdotes, a proibição do divórcio e a virgindade perpétua de Maria. E, por falar em Maria, é interessante notar que a repressão religiosa recai sempre de forma mais severa sobre os corpos femininos. Não foi à toa que 15 mil mulheres marcharam na Avenida Paulista contra o projeto de poder de Eduardo Cunha, que não prevê o aborto em casos de estupro. 

A alguns líderes evangélicos não basta orientar suas próprias fiéis quanto à questão reprodutiva. Querem regular os corpos de todas as brasileiras, sejam elas católicas, protestantes, espíritas, judias ou ateias. O Brasil deve retroceder vários anos enquanto nação e se livrar da pílula do dia seguinte e do aborto. Não porque a comunidade científica regulou que são invasivos. Mas porque uma parcela minoritária da comunidade religiosa nacional se incomoda com tais métodos que, embora invasivos, evitam o nascimento de crianças que podem ser abusadas, maltratadas e abandonadas por mães que não lhes queriam, o que traz consequências desconhecidas para a coletividade. Interessante notar que a violência sexual contra as mulheres propriamente dita — motivos pelos quais o SUS distribui pílulas do dia seguinte e realiza abortos — parece não incomodar esses líderes religiosos. Condenam mais o aborto do que o estupro que leva as mulheres a procurar tal procedimento.

Charge de Vitor Teixeira.
A liberdade de culto garantida por nossa Constituição federal não é absoluta. Um conceito interessante do Direito é que nenhum direito termina em si mesmo e pode se sobrepor sobre os demais. É o famoso "o meu direito acaba quando começa o do outro" no ditado popular. O cidadão pode escolher, sem moléstia, se quer seguir uma religião. Mas ele não pode querer impor sua religião sobre as religiões dos demais cidadãos. A partir do momento em que líderes religiosos passam a decidir o que professores devem ensinar na sala de aula, que medida o SUS deve adotar para atender mulheres vítimas de estupro e quais arranjos podem ser considerados famílias, observa-se uma invasão do Estado laico por forças religiosas, estranhas ao Direito. Tais forças atuam em defesa da visão de mundo de apenas alguns em detrimento da coletividade, ampla e plural.

Aos poucos, o evangelicalismo embrutece o Brasil. Seus líderes radicais querem substituir a defesa do bem estar — seja de mulheres vítimas de estupro ou de crianças que podem ganhar um lar com um casal gay — pela interpretação que a igreja deles fazem do Evangelho. Interpretação essa que não é consensual nem mesmo entre os teólogos. Ao contrário da Constituição, a Bíblia admite várias interpretações. Na minha igreja, por exemplo, entende-se há mais de 15 anos que Jesus não rejeitou os homossexuais. De fato, não há uma menção sequer à homossexualidade em nenhum dos quatro Evangelhos — há em escritos posteriores, de autoria de homens que, ao contrário de Jesus, eram falíveis, e em escritos anteriores, como o Levítico, que o próprio Jesus violou. Por que então é a visão da Assembleia de Deus e não a da Igreja Episcopal Anglicana que deve ser ecoada na legislação brasileira? O Estado ser laico significa que ele deve respeitar ambas as visões, e não colocar uma acima da outra, observando sempre o princípio maior que é a garantia da dignidade humana.

Não é do pôster que a tropa de Cunha quer se livrar.
O que interfere na vida de um evangélico se há membros de outras doutrinas religiosas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e abortam? Ora, se eles acreditam que a homossexualidade e o aborto são pecados, que não cometam nem um nem outro. Devem respeitar os outros como eles os respeitam. Duvido que um militante gay ou feminista se julgaria apto a ensinar o padre a rezar a missa, ou melhor, o pastor a celebrar o culto. A tentativa de impor um único ponto de vista sobre os demais, sobretudo através da violência, seja ela simbólica (episódio do chute na santa ou quando Malafaia disse que gays mereciam apanhar) ou real (agressões a praticantes de religiões afro e destruição de seus templos), é o primeiro passo rumo ao fascismo. Cabe a nós, cristãos moderados, lutar contra o embrutecimento que impõem ao Brasil. Devemos agir enquanto é tempo, porque o que os radicais querem não é se livrar do pôster exposto nos corredores da Câmara que mostrava Daniela e Malu se beijando. Eles querem é se livrar delas!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

2015: Ano de denunciar a corrupção... dos outros

A moda do ano de 2015 na política foi vestir a camisa da seleção brasileira e ir para as ruas protestar contra a corrupção. A parcela da população que nunca esteve aí para a política nacional decidiu que acordou, que cansou e que daria um basta à roubalheira do governo. Roubalheira esta que acontece desde que o Brasil foi usurpado dos indígenas pelos portugueses no século VXI e tornou-se, oficialmente, Brasil. A roubalheira não gerava protestos quando o presidente comprou deputados por R$ 200 mil cada. A súbita indignação dos manifestantes com a corrupção tem essa mania de não atingir os escândalos envolvendo outros partidos que não sejam o PT. O mensalão foi uma brincadeira de criança perto do rombo do metrô de São Paulo, um dos mais cheios e ineficazes do mundo. Nenhum manifestante, no entanto, se diz preocupado com a morosidade das investigações no Ministério Público de São Paulo, sempre tão prestativo aos políticos do PSDB e seus aliados.

O presidente Clinton chegou a sofrer impeachment na Câmara
por mentir ao Congresso. O Senado, no entanto, absolveu-o.
Já contra a corrupção do PT, vale até mesmo aliar-se a corruptos. Para derrubar a presidente Dilma Rousseff por um suposto crime de responsabilidade fiscal cometido por todos os gestores públicos, de Marconi Perillo a Geraldo Alckmin, vale a ajuda de Eduardo Cunha, que disse numa CPI do Congresso que não possuía conta bancária no exterior. Alguns meses depois, o Ministério Público Federal recebeu, de presente dos promotores suíços, extratos bancários da conta do presidente do Congresso no país alpino. Mentir em CPI é crime. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton foi processado e sofreu uma tentativa de impeachment por tal motivo. Disse, numa investigação do Congresso, que jamais tinha mantido relações sexuais com sua ex-estagiária Monica Lewinsky, que mais tarde revelou à imprensa o sêmen de Bill num de seus vestidos. Trair a primeira-dama é imoral, mas não é crime. Mentir para o Congresso é.

A atual mandatária brasileira pode até ter cometido algo imoral com as chamadas "pedaladas fiscais", mas não cometeu um crime, ao contrário de Eduardo Cunha. A lei responsabiliza o secretário do Tesouro Nacional por repasses irregulares de recursos a órgãos estatais. Mas os manifestantes gostam de pensar que Dilma é uma espécie de Deus, onipotente e onipresente no cenário político nacional. Se o colégio estadual vai mal, a culpa é da Dilma. Se o posto de saúde municipal está caindo aos pedaços, a culpa é da Dilma. Como é que a Dilma não sabia da roubalheira da Petrobras? A Operação Lava Jato já dura mais do que as novelas da Rede Record e, mesmo assim, nenhum dos corruptos e corruptores presos jamais denunciou a presidente numa de suas delações premiadas. Caem deputados, senadores, diretores da estatal e jamais levantou-se suspeição sobre Dilma. A única suspeição foi aquela da Veja na véspera da votação, valendo-se de declaração falsa atribuída a Alberto Youssef.

Eu mesmo tenho uma série de restrições à política econômica do Governo Dilma II. Dilma, que era apontada como estatista demais na campanha de 2010, rompeu consigo mesma e agora faz um governo acanhado, controlado pelos bancos e sem ouvir as demandas de seus 54,5 milhões de eleitores. Na campanha, ela acusou Marina Silva de querer tirar o prato de comida da mesa dos brasileiros com sua proposta de entregar a formulação da política econômica aos bancos. Ao assumir, a presidente nomeou o homem de confiança do Bradesco para formular a política econômica do país. Vieram os cortes no Orçamento e a sólida base de apoio que Dilma havia conquistado para si no final de outubro de 2014 esfacelou-se. Talvez ela pensou que poderia conter os ânimos dos eleitores oposicionistas se começasse a aplicar a política econômica proposta pelo PSDB. Não só não conseguiu o apoio deles, como perdeu o que já tinha.

Isso, no entanto, não é motivo para derrubar um governo sob o regime em que vivemos; o presidencialismo. No parlamentarismo, cabe ao Legislativo decidir se um governo continua ou não. Se a maioria dos deputados avaliar que a política econômica é ruim para o país, pode derrubar o governo. Foi assim que Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido. Os trabalhistas costuraram uma coalizão com os nacionalistas escoceses mas, quando eles voltaram-se contra o governo, este perdeu o apoio necessário para aprovar seus projetos e foi derrubado pelo parlamento. Novas eleições foram convocadas e a oposição ganhou. Isso ocorre porque no parlamentarismo o chefe de governo é oriundo do legislativo. Não aparecia o nome "Margaret Thatcher" nas cédulas dos eleitores britânicos. Ela venceu as eleições internas de seu partido e, assim, garantiu o direito de governar caso seu partido recebesse a maioria dos votos.

No Brasil, não é assim que funciona. O chefe de governo é eleito diretamente pelo povo para governar por um período determinado; no parlamentarismo pode haver eleições antes da data estabelecida se o governo não conseguir o apoio do parlamento para aprovar seus projetos. No presidencialismo, embora importante, tal apoio não é necessário. Ronald Reagan governou oito anos com um Congresso hostil a sua administração. O Brasil já teve três presidentes em um ano. Foi para evitar situações assim e para garantir que a decisão soberana do povo em eleições livres e democráticas fosse respeitada que o legislador constituinte impôs regras tão rígidas para a derrubada de governos. O povo elege o presidente e o povo pode derrubá-lo. No entanto, mediante apresentação ao Congresso Nacional de denúncia comprovada de que o mandatário cometeu um crime. Quem diz isso não sou eu, é a Constituição.

Caiado adora denunciar o mensalão... dos outros, é claro!
A Carta Magna não prevê impeachment por motivo de política econômica ruim e tampouco por baixa popularidade. Se assim fosse, FHC deveria ter sido derrubado quando seu índice de popularidade também atingiu a casa de um dígito devido a sua incapacidade de lidar com a crise econômica do início da década passada. Mas nada disso importa para as pessoas preocupadas em combater a corrupção do PT. Parar carro de som no meio da ciclofaixa, como os manifestantes fizeram no domingo, não é corrupção? O dia em que marcharem contra toda a corrupção de todos os partidos e não aceitarem em suas manifestações atos que violem o Código Brasileiro de Trânsito nem a presença de gente como Ronaldo Caiado, que recebia um mensalinho do Bumlai, podem me chamar que eu vou. Mas enquanto estiverem achando que o inferno são os outros, me esqueçam. Não sou adepto de macartismos. E, dado o baixo número de manifestantes do último protesto (virtualmente inexistente fora de São Paulo), parece que o povo brasileiro também não é.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A felicidade é grátis

No final de semana assisti ao documentário Happy (2011) no Netflix. Nele, o cineasta Rolo Belić busca, através de entrevistas com neurocientistas, psicólogos e pessoas comuns, desvendar o segredo por trás da felicidade. Cientificamente falando, o que torna um indivíduo feliz? Segundo os especialistas ouvidos no documentário, 50% da nossa felicidade é determinada por fatores genéticos, 40% é determinado por nossas ações individuais e 10% é determinado por fatores ambientais. Mas que ações são essas que podemos fazer para encontrarmos a felicidade? A principal delas é a prática de atividade física, que libera dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e cuja deficiência pode causar, dentre outros males, a doença de Parkinson.

E, socialmente falando, o que determina a felicidade? Definitivamente não é o dinheiro. Os americanos de 50 anos atrás, apesar de possuírem renda média muito inferior, eram mais felizes que os americanos de hoje. É inconcebível imaginar que pessoas que gastavam horas com tarefas consideradas simples hoje em dia - como lavar e passar roupa, fazer comida e limpar a casa - eram mais felizes do que nós. Mas é comprovado que, após supridas as necessidades básicas, como comprar comida e pagar as contas, o dinheiro deixa de ter efeito significativo sobre a felicidade de um indivíduo. Se é verdadeira a afirmação de que a felicidade não paga as contas, é mais verdadeira ainda a afirmação de que o dinheiro não compra a felicidade.

As pessoas felizes respondem mais facilmente às adversidades da vida e satisfazem mais suas necessidades intrínsecas do que as extrínsecas. Aceitar o fato de que adversidades vão acontecer é uma regra entre as pessoas mais felizes. Uma das entrevistadas, que foi miss durante a adolescência, teve parte do rosto paralisado após ser atropelada por uma picape. Ela diz que só conseguiu retomar sua vida após aceitar o que lhe ocorreu: "Eu percebi que não entendo [o ocorrido], mas não preciso entender". Desde então, conseguiu reconstruir sua vida e tornou-se uma pessoa feliz. Ter uma boa aparência era, no final das contas, uma necessidade extrínseca de seu ser, enquanto as necessidades intrínsecas envolvem o crescimento pessoal, as relações interpessoais e a vida comunitária. Quanto mais buscamos agir no sentido de suprir nossas necessidades intrínsecas, mais felizes somos.

Duas regiões mostradas no documentário, consideradas lares de pessoas felizes, valorizam justamente a vida comunitária: a Dinamarca e a ilha de Okinawa, no Japão. A Dinamarca, além de oferecer uma série de benefícios universais para seus cidadãos, como a saúde e a educação, ainda estimula a vida em conjuntos habitacionais, verdadeiras comunas onde as tarefas são divididas e o afeto idem. Já em Okinawa os cidadãos valorizam o ichariba chode, expressão que traduz o ato de tornar-se irmão de quem você acabou de conhecer, ajudando-o naquilo que ele precisar. De fato, todas as pessoas apontadas como felizes pelos pesquisadores, sem exceção, possuíam tinham proximidade com familiares e amigos. Não que se dessem bem com todos seus familiares, mas essa era uma característica comum.

Deve-se notar, no entanto, que nem todas as relações comunitárias levam o indivíduo à felicidade. Pessoas envolvidas em grupos religiosos radicais são tão infelizes quanto aquelas que não participam de comunidade alguma. Além disso, o ambiente de trabalho, apesar de comunitário, pode levar também à infelicidade. Na maior parte do Japão as pessoas trabalham tanto que são comuns os casos de infarto no trabalho, síndrome essa chamada de karoshi. Segundo o documentário, o Japão é o país mais infeliz do mundo industrializado. Isso se justifica historicamente. Após a destruição do país pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês mobilizou a mão-de-obra para reconstruir a nação e, para isso, criou uma cultura que valorizasse o trabalho árduo e a conquista de bens materiais.

Quanto às relações interpessoais, descobriu-se que ajudar os outros libera tanta dopamina no organismo quanto o consumo de cocaína. Trata-se da forma mais fácil, segura e barata de se ter um "barato". É comum ouvirmos de nossas mães que elas têm prazer de cuidar de nós. Eu nunca entendi muito bem isso, até agora. Ao cuidar de seu filho, uma mãe recebe um fluxo maior de dopamina em seu organismo que se tivesse fumado maconha. E, segundo os cientistas, é algo quase que natural. Se precisarem escolher entre a competição e a cooperação, os indivíduos escolhem sempre a última opção. Segundo o Dalai Lama, são nossas mães que nos transmitem a compaixão. Nascemos e, instintivamente, a primeira coisa que ela faz é nos amamentar, como se a compaixão estivesse no sangue dela.

Nosso mundo está cheio de pessoas ansiosas, depressivas, insatisfeitas com a vida e, consequentemente, infelizes, devido ao fato de que o sistema econômico vigente na maior parte do planeta não valoriza a realização pessoal. Devemos ter coisas para sermos alguém e, quando não conseguimos acumular bens materiais, nos frustramos. E, mesmo que tenhamos coisas, somos comparados com pessoas que têm mais o tempo todo, pois a essência do capitalismo é a competição. Pensando nisso, o pequeno Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia, decidiu parar de destruir seu meio-ambiente para seguir as metas econômicas impostas por organismos internacionais e decidiu criar seu próprio medidor de desempenho: a Felicidade Interna Bruta, que substituiu o Produto Interno Bruto.

Ainda não é possível dizer se a experiência butanesa foi bem sucedida, mas é uma bênção o fato do país ter invertido a ordem econômica vigente, priorizando a manutenção dos recursos naturais para garantir o bem-estar de seu povo. Na pequena nação a lei determina que 60% de seu território será sempre composto por florestas. Poderia-se, por exemplo, construir hidrelétricas e vender o excedente de energia para a Índia, mas a que custo? Um custo altíssimo para a qualidade de vida da população. Ao garantir o direito à felicidade inscrito na Constituição americana, mas nunca encarado como uma obrigação pelos governos daquele país, as nações podem caminhar rumo à paz social. Pessoas felizes não  roubam, não matam e não descontam suas frustrações de ordem pessoal nas outras pessoas em geral.

Ao nos focarmos mais no que nós esperamos de nós mesmos do que naquilo que a sociedade espera de nós - o dinheiro, o status social e a aparência física (as tais das necessidades extrínsecas) - poderíamos construir uma comunidade mais feliz e, consequentemente, uma sociedade mais harmoniosa. Não precisaríamos agir de modo anti-ético, o que envolve desde a corrupção generalizada em todas as classes sociais do Brasil até o assalto à mão armada, passando pela interminável pilhagem de terras indígenas, para atingir nossos objetivos, que seriam verdadeiramente nossos e não da sociedade. Se você acha que precisa eliminar alguém para atingir a felicidade, então provavelmente aquilo que você busca não é a felicidade, pois esta envolve, conforme dito anteriormente, as necessidades intrínsecas do ser humano (atingir metas pessoais, viver em comunidade e manter relações interpessoais).

"As coisas que geram a felicidade são grátis e, quanto mais alguém é feliz, mais todos são felizes", conclui Belić no final de seu documentário, 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A guerra civil brasileira

Eu entendo seu sofrimento, morador da orla de Copacabana. Afinal, também sou homem, cisgênero, branco, de classe média alta, com diploma de ensino superior e cristão no Brasil. Nossa vida realmente é muito sofrida!  
Adaptado de um comentário de um americano numa página do Facebook ironizando outro americano, islamofóbico.

Às vezes minha mente entra em curto-circuito com algumas informações. Recentemente isso aconteceu quando recebi a notícia de que jovens – brancos – do Rio de Janeiro estavam marcando, via WhatsApp, ataques a ônibus que trazem outros jovens – negros – para as praias mais famosas do mundo. Simultaneamente, no município vizinho de Niterói, pipocaram cartazes, imediatamente retirados pela prefeitura, de um grupo que afirma ser o capítulo local da Ku Klux Klan. Para quem não sabe, a KKK é um grupo formado por estadunidenses brancos e protestantes que perseguem violentamente as minorias sócio-políticas daquele país: negros, judeus, católicos, ateus, imigrantes e socialistas. O motivo para a escalada do fascismo à carioca seria o aumento dos arrastões nas praias do município, amplamente divulgados pela mídia comercial. Em Portugal, o discurso irresponsável da mídia ao noticiar um falso arrastão gerou uma onda xenófoba na sociedade. O caso é estudado nas faculdades de jornalismo como um exemplo do poder da mídia para reforçar preconceitos.

O fato concreto é que o Brasil está passando por uma guerra civil que se intensificou desde que a presidenta Dilma Rousseff, do outrora socialista Partido dos Trabalhadores, foi reeleita há cerca de um ano. Embora o PT seja mais semelhante a um partido europeu de centro-direita, ele é percebido, devido à demografia de seus eleitores, como uma ameaça à manutenção do status quo. Mesmo que Dilma tenha cedido ao Deus mercado e esteja governando seguindo a cartilha liberal de seu adversário, o barco fascista no qual os eleitores anti-PT mais fervorosos embarcaram não foi afundado. Pelo contrário, foi fortalecido por uma mídia e por uma oposição que deixou-se guiar por pupilos de um astrólogo que se diz filósofo e luta contra uma ameaça comunista inexistente na sociedade brasileira (o PT foi o partido que mais trouxe lucros aos bancos, alardeou Lula diversas vezes). É interessante para a mídia e para a oposição manter esse barco no mar da política brasileira como forma de pressionar a Dilma a governar para os ricos. Assim que ela hesita em tomar uma medida impopular, eles organizam e promovem atos pró-impeachment.

Agora que a presidenta enfim cedeu às pressões daqueles que nada produzem e vivem de roubar o patrimônio dos brasileiros, a Rede Globo, ela mesma alvo dos fascistas em tais manifestações, arrefeceu seus ânimos golpistas. No entanto, a mídia criou e alimentou por anos uma legião de fascistas que odeia todo mundo que não se parece com os membros da turba (um gari, negro, foi expulso de um protesto anti-Dilma acusado de ser petista). Essa turma não irá desaparecer tão cedo. De maneira semelhante, o principal partido de oposição, que ironicamente se chama Partido da Social Democracia Brasileira, na ânsia de ganhar a eleição presidencial após três derrotas sucessivas, atraiu para si o pior tipo de ser humano. Não estou generalizando. Há gente boa e ruim em todos os locais e partidos políticos não são exceção. Mas tenho razões – pessoais, inclusive – para acreditar que o eleitorado do PSDB caiu de nível desde 2010. Ao invés de apresentar propostas, o partido vale-se do ódio ao PT e aos que votam nele para tentar ganhar a presidência da República. Se chegar lá, seu eleitorado recém-conquistado exigirá do PSDB a exclusão daqueles identificados como petistas – negros, índios, LGBTs, mulheres emancipadas, etc.

Eu senti na pele o ódio ao eleitorado petista. Na véspera do segundo turno da eleição presidencial do ano passado, na madrugada de 25 para 26 de outubro, saí com um amigo, também gay. Fomos a uma boate e depois a uma lanchonete no centro da cidade. Foi então que tivemos a "brilhante" ideia de pegarmos um táxi na porta de outra boate. No caminho, parou um carro com rapazes – brancos – muito bem vestidos. Um deles, visivelmente com a consciência alterada por alguma droga, desceu com uma arma na mão e levou a carteira e o celular do meu amigo. Quando chegou minha vez, congelei e não consegui sequer colocar a mão no bolso. Aí ele viu que eu estava com um adesivo escrito "Comunidade LGBT apoia Dilma" no peito e me espancou. Levei uma coronhada no rosto e um chute que fraturou uma vértebra. Por um milagre ainda estou vivo, afinal de contas ele poderia muito bem ter dado um tiro na minha cara e fugido diante da minha recusa. Eu seria apenas mais uma vítima da guerra civil brasileira que silenciosamente extermina negros, índios e LGBTs todo santo dia. Quando penso que o PSDB se tornou representante de gente que faz isso, tenho muito medo.

A elite brasileira, como demonstra um vídeo de uma reportagem do final dos anos 1980 que viralizou essa semana, sempre existiu. No entanto, as novas tecnologias permitem aos fascistas coordenarem seus ataques contra aqueles que são encarados como ameaça a seus direitos (que não foram construídos, mas sim herdados), sejam eles índios Guarani-Kaiowá ou jovens de pele escura que querem curtir a praia de Copacabana ou Ipanema após trabalharem 44 horas por semana no morro. Uma fala que ouvi no meu primeiro ano na faculdade de jornalismo me marcou muito. Eliani Covem, professora e coordenadora do curso, disse algo como "temos que nos lembrar que, apesar da favela sempre ser mostrada como local de crimes, a maioria das pessoas que moram nela são honestas". Até então eu – e tenho até vergonha de admitir isso – tinha uma ideia lombrosiana de que a pessoa seria mais propensa para o crime devido ao local geográfico em que ela nasceu. Infelizmente, por uma série de fatores socialmente construídos, é assim que a maioria dos brasileiros pensa. 

As escolas privadas que aprovam quase todos seus alunos em vestibulares concorridíssimos ensinam a seus alunos tudo sobre a biologia humana, mas falham em ensinar o básico: que somos todos iguais, independente de onde nascemos. As emissoras de televisão, que pertencem a todos nós e são concedidas pelo Estado a empresários privados, mostram as favelas como antros do crime. É risível o tratamento dispensado a criminosos pobres e ricos. Ao cobrir os arrastões, os jovens negros são retratados pela mídia como "menores", mesmo as vítimas. Por outro lado, ao cobrir os linchamentos marcados por WhatsApp, a mídia se refere aos jovens brancos como "jovens", mesmo que eles estejam em flagrante conflito com a lei, que não permite ações paramilitares. Quando os filhos de figurões cariocas atropelaram e mataram pessoas, a mídia só faltou dizer que os carros de luxo deles foram atropelados por um ciclista e por um pedestre. A mídia promove um dualismo que nem sempre existe no mundo real, afinal o real é complexo e o virtual é simplificado. Dessa simplificação, nasce a ideia de que certos setores da sociedade são intrinsecamente ruins e devem ser extirpados.

O fascismo brasileiro, que alimenta a guerra civil invisível, surge nos pequenos comentários que por vezes deixamos passar batido. Começa na tentativa de eliminar o ritmo musical mais ouvido pelo povo e termina na tentativa de eliminar o próprio povo. Transforma o Brasil no campeão mundial de assassinatos de transhomossexuais e ativistas do campo e em vice-campeão de assassinatos de jovens negros. São os bodes expiatórios da guerra contra o povo. É comum as elites elegerem um bode expiatório para continuarem lucrando, sobretudo durante crises. Nos anos 1930, Hitler prometeu o enriquecimento dos alemães de classe média e alta através da expropriação das propriedades de judeus que, segundo ele, seriam os responsáveis por controlar a maior parte da riqueza nacional. Donald Trump pretende expulsar os imigrantes mexicanos que estariam roubando os empregos dos americanos, enquanto Marine Le Pen pretende se tornar a primeira presidenta da França valendo-se do medo dos imigrantes algerianos. Vale notar que mexicanos e algerianos estão mudando rapidamente a demografia de ambos os países, assim como a Era Lula mudou a demografia de shoppings, universidades e aeroportos.

Enquanto eu puder escrever, denunciarei as tentativas de calar a voz dos oprimidos. Embora homem, cisgênero, branco, de classe média alta, cristão e com ensino superior completo, como afirmei na epígrafe desse texto, também sou homossexual. E isso muda toda a minha percepção de mundo, fazendo-me identificar com os membros de outros grupos igualmente oprimidos. Creio ter sido isso que motivou a rebelião poética de Cazuza contra sua classe social. Assim como na época do poeta, os tempos atuais são duros, mas eu não tenho medo. Um dia os oprimidos perceberão que são maioria e, quando isso acontecer, não haverá grupo de WhatsApp, comentário de jornal ou textão do Facebook capaz de conter a verdadeira expressão popular do Brasil. É uma pena termos perdido um importante aliado nessa luta: o PT, que escolheu trilhar o caminho do SPD dos anos 1930, quando perdeu sua influência e seus votos para o Partido Nazista após ter capitulado para a direita. Tenho, no entanto, confiança na maturidade dos movimentos sociais, que cada vez mais se unem contra as tentativas de criminalização e extirpação dos oprimidos. Como afirma Kiko Nogueira, é preciso lutar contra essa loucura, mesmo que não dê em nada.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O genocídio indígena nunca acabará?

Com informações de Brasil Post, EBC e DCM.

Genocídio começou com os portugueses em 1500 e continua
com os brasileiros, muitos dos quais frutos da miscigenação.
Como boa parte da população desse país, tenho ascendência indígena. No entanto, o processo de embranquecimento da minha tataravó não foi sofisticada igual ao ocorrido na Austrália entre 1905 e 1969. Como a eugenia sempre fez parte do discurso oficial dos brasileiros, era comum antigamente que homens brancos sequestrassem mulheres indígenas para se casarem com elas sem sequer serem questionados por um Estado que tinha vergonha de ser multirracial. Era o famoso "peguei ela no laço" que aposto que muitos de vocês já devem ter ouvido falar. Meu finado avô contava isso sobre sua avó sem entender muito a dimensão racista e machista da expressão. Para ele, era mais uma forma de exaltar nossa ascendência indígena do que de normalizar o genocídio. Discursos assim invisibilizam o fato de que a população indígena do Brasil - ou pelo menos o que restou dela após a dominação portuguesa - foi praticamente dizimada no início do século passado. Segundo Alexander Hinton, 800.000 ameríndios foram mortos no Brasil entre 1900 e 1957.

É um número chocante que não deixou de existir durante a ditadura que foi colocada no poder pela elite, com o apoio da classe média, para acabar com os problemas sócio-econômicos e trazer a estabilidade de volta para o Brasil. Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, pelo menos 8.350 indígenas foram mortos entre 1964 e 1985. O documento alerta que o número "deve ser exponencialmente maior, uma vez que apenas uma parcela muito restrita dos povos indígenas afetados foi analisada e que há casos em que a quantidade de mortos é alta o bastante para desencorajar estimativas". Os mais afetados, segundo relatório foram os Cinta-Larga, que vivem na divisa entre os estados do Mato Grosso e de Rondônia. Dentre as medidas adotadas pelos fazendeiros para expulsar o povo milenar de sua terra estavam o envenenamento dos frutos de árvores por arsênico, a "doação" de brinquedos contaminados com vírus do sarampo e da varíola e, é claro, assassinatos em emboscadas. 3.500 indígenas dessa etnia morreram durante a ditadura e o total de mortes é de mais de 5.000 desde a década de 1950.

Uma etnia que vem sendo constantemente atacada no Centro-Oeste do país, conforme a fronteira agrícola se expande para áreas ambientais e indígenas, é a dos Guarani-Kaiowá. Há uns dois anos, uma ação de solidariedade a favor da demarcação de terra desses indígenas fez com que milhares de membros do Facebook trocassem seus sobrenomes na rede social para Guarani-Kaiowá. Apesar de bonita e de chamar a atenção para o genocídio dos Guarani-Kaiowá, o ato não foi o suficiente para convencer os agricultores da região a deixarem de atacar os indígenas da etnia. No feriado da Independência, enquanto a maioria comemorava a independência do Brasil de Portugal, os indígenas lamentavam sua dependência a homens brancos corruptos para investigar e punir os responsáveis pela morte de uma de suas lideranças. Em 29 de agosto, o jovem Simião Vilhalva Guarani, de 24 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, na microrregião de Dourados (MS), município localizado a 235 quilômetros da capital estadual Campo Grande. 

Parentes choram a morte de Vilhalva.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) exigiu intervenção federal na apuração dos fatos e punição dos responsáveis, visto que o poder público estadual é alinhado aos interesses dos produtores rurais. "Como é sabido, são subservientes a este segmento do poder econômico em Mato Grosso do Sul", afirmou a ONG em nota pública. O governo estadual permite desde sempre que as terras indígenas sejam ocupadas por fazendeiros com documentos falsificados de posse de terra. Estima-se que pelo menos metade dos documentos de posse de terra no Brasil sejam falsos. Dessa forma, indígenas que foram expulsos de suas terras há 30, 40 anos por jagunços retornaram agora numa tentativa de pressionar o Governo Federal pela demarcação de suas terras, cansados que estão da pobreza e da miséria nos arredores dos centros urbanos e de "fugirem desenganados para viver um cultura diferente", parafraseando a cantora argentina Mercedes Sosa, ela mesma ascendente de ameríndios. Mas eles são encarados como "invasores" pela mídia e pela parte da população que se deixa enganar por ela. É muito conveniente para os agricultores quando a namoradinha dos brasileiros - brancos - se posiciona contra os indígenas.

Desde 22 de agosto, os indígenas Guarani-Kaiowá ocupam fazendas que estão em terras que legalmente lhes pertencem. A demarcação de reservas indígenas deveria ter sido concluída 5 anos após a promulgação da Constituição Federal de 1988, ou seja, em 1994. No entanto, a Justiça representa um empecilho ao processo, o que leva à invasão das terras por fazendeiros e à consequente expulsão dos indígenas por jagunços. Em 2005, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva homologou a demarcação das terras Ñande Ru Marangatu em Mato Grosso do Sul. Entretanto, o Supremo Tribunal Federal, atropelando a divisão de poderes estabelecida pela República, suspendeu os efeitos do decreto presidencial. Desde então, a matéria está parada no STF o que, segundo os indígenas, leva morte e destruição a sua tribo. Ao mesmo tempo em que o Judiciário atropela o Executivo, o Legislativo - composto por 160 defensores de fazendeiros na Câmara (31% do total de assentos) e 18 no Senado (26% do total de assentos) - decidiu fazer o mesmo. A Proposta de Emenda à Constituição 215/2000, em tramitação no Congresso, transfere do Executivo para o Legislativo a prerrogativa da demarcação de terras, sob a desculpa de que o Executivo é leniente na questão. Outra proposta, a PEC 71, prevê a indenização da União aos produtores rurais em terras indígenas.


Milícia, boataria e descompromisso


Segundo o Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul, os fazendeiros do Estado criaram uma milícia no feriado prolongado para atacar os indígenas. Como prova disso, o MPF apresentou mensagens enviadas no WhatsApp pelo presidente do Sindicato Rural local a fazendeiros da região de Dourados. Nas mensagens, o líder dos ruralistas convocava seus pares a remover os Guarani-Kaiowá à força das fazendas que eles ocupam. Menos de uma semana após a morte de Vilhalva, em 3 de setembro, de 30 a 40 caminhonetes com jagunços atacaram a tribo Guyrakamby'i, fazendo mais de 55 disparos contra os indígenas. A terra já consta como demarcada no site da Fundação Nacional do Índio (Funai), mas uma liminar da Justiça Federal em Dourados, datada de janeiro de 2012, suspendeu o procedimento de demarcação da reserva. No início de agosto, o Tribunal Regional Federal da 3a. Região cassou a liminar e determinou a retomada dos trabalhos da Funai para demarcar a área.

Os ataques recentes a indígenas em conflitos por terra soam como uma antiga canção em nossos ouvidos. O Mato Grosso do Sul é o Estado que mais mata índios no Brasil, seja direta ou indiretamente. Em 2014, foram 41 indígenas assassinados no Estado, o que corresponde a 30% de todos os casos no país. Em 2013, por sua vez, 73 indígenas se suicidaram, o que representou o maior índice em 28 anos. Desde que os Guarani-Kaiowá reocuparam suas terras, espalharam-se boatos de que eles teriam incendiado as fazendas. Um dos principais responsáveis pela boataria foi o ex-governador Pedro Pedrossian Filho, que postou em sua página no Facebook fotos de um celeiro e de máquinas carbonizadas, alegando que retratavam a destruição promovida pelos indígenas após a invasão a uma fazenda da região. A imprensa local repercutiu o boato como fato. O Conselho Indigenista Missionário, por sua vez, comprovou que as imagens ilustram matéria publicada pelo jornal paraguaio Itapuá en Notícias sobre um incêndio ocorrido no último dia 24 numa fazenda do país. Como jornalista por formação, é uma vergonha presenciar colegas se prestando ao serviço de porta-vozes oficiais de um segmento econômico corrupto e assassino. 

O avô a que me referi anteriormente prosperou apesar do Estado durante a ditadura militar e comprou uma fazenda. Sua propriedade nunca foi atacada por indígenas ou sem-terra, e sim por aqueles que se dizem atacados por eles. Grileiros pagavam miseráveis para invadir a terra do meu avô para depois apresentarem um documento falso afirmando serem eles os verdadeiros donos da fazenda. Graças à persistência de meu avô, que conseguia convencer os invasores a sair de suas terras, as investidas deles não prosperaram. Esse é o modus operandi de quem se diz responsável pelo progresso do Brasil, um progresso que nos custa a harmonia ambiental e a paz social. De quem acusa os que colocam a vida acima dos bens materiais de comunistas, como foi o caso da proprietária de uma das fazendas ocupadas, que se apresenta como responsável por colocar alimento na mesa dos brasileiros. A vida não vale nada por aquelas bandas. Após a confirmação da morte de Vilhalva, o ex-governador mostrou-se alinhadíssimo com a criação da força paramilitar: "Na ausência do Estado, temos que fazer a nossa própria segurança". Se o ex-governador escreve isso e sai impune, imagina se algum dia irão punir os assassinos de indígenas, que movimentam milhões e financiam as campanhas dos políticos sul-mato-grossenses. Imagina se irão punir os membros da Bancada Ruralista investigados na Operação Lava-Jato, que representam 63% do total de envolvidos nos desvios de verbas da Petrobrás.

Seria cômico, não fosse trágico, o fato de que quem se apresenta como os responsáveis pela produção do alimento dos brasileiros são os responsáveis pela morte de crianças indígenas por inanição. O Estado brasileiro é uma piada de mal gosto. Garante a todos o direito à vida, mas não consegue nem mesmo pôr fim a um genocídio que já se arrasta por 500 anos. Em 13 de setembro de 2007, o Brasil assumiu um compromisso de assegurar o direito à vida dos indígenas perante a comunidade mundial de nações, ao assinar a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Autóctones. Pelo menos o procurador federal Marco Antônio Delfino de Almeida, responsável pelas investigações contra a milícia, parece ter entendido o recado. "A gente não pode, em hipótese alguma, entender que aspectos patrimoniais podem prevalecer em relação à integridade física das pessoas", afirmou. Resta saber se policiais e juízes entenderam o compromisso feito pelo Estado brasileiro. Pelo grande histórico de impunidade nos julgamentos de conflitos no campo, tendo a crer que não. Como disse o poeta, há quase trinta anos, "quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante, mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".

De um lado, um país desenvolvido. Do outro, um país pobre.
Rezo para que o desenvolvimento nunca chegue à Bolívia.
Um dia, quando não restar mais floresta alguma e a temperatura na superfície da Terra for insuportável, quando a água doce estiver toda poluída e a falta de camada de ozônio obrigar as pessoas a ficar em casa o dia inteiro, quando os frutos das árvores já nascerem podres e o dinheiro não tiver mais valor algum, porque não haverá mais nada para comprar... Aí sim nos lembraremos das "mais belas tribos dos mais belos índios", dizimadas por não fazerem parte da atual lógica consumista, e de como sua relação harmoniosa com o meio-ambiente poderia ter salvado a todos nós. "Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender". É por isso que escrevo. E foi por isso que entrei na faculdade de jornalismo. A questão indígena me toca devido à minha ascendência ameríndia, isso é verdade, mas deveria sensibilizar a todos nós, cidadãos preocupados com o futuro do Brasil, pois nenhum fato é isolado dos demais. Com a vitória dos ruralistas, estamos transformando nosso país num deserto verde, o que já está cobrando sua conta. Assustei-me ontem ao me deparar ontem com uma foto da fronteira entre a Bolívia, país que é referência em assegurar os direitos dos indígenas, e o Brasil. Se a destruição é a chave para o progresso, por que o Brasil é mais desigual que a Bolívia? Com a palavra, os fazendeiros e seus defensores na mídia.