Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador documentário. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A terapia de choque no Brasil


A implementação à força de uma política econômica de desregulamentação e de livre mercado – os princípios guiadores do economista americano Milton Friedman – é quase sinônimo de desastre econômico, intervenção militar e aumento da pobreza. Os EUA têm utilizado táticas extremas para injetar instabilidade e depois o neoliberalismo em diversos países ao redor do mundo – mais notoriamente no Chile, na Rússia e no Iraque. Isto é o que afirma o documentário de 2009 The Shock Doctrine (Mat Whitecross/ Michael Winterbottom), baseado no livro epônimo da ativista e cineasta canadense Naomi Klein.

O Dirty Movies identificou um padrão comum entre o que aconteceu nesses três países e os desenvolvimentos políticos no Brasil. Esperamos que este artigo irá chamar a atenção para a atual situação no país latino-americano. A "doutrina de choque" inclui guerra e, às vezes, tortura como passos necessários rumo à mudança econômica. O Brasil não deveria se tornar mais um país nessa lista.

O psiquiatra nascido na Escócia Donald Ewen Cameron conduziu, de maneira controversa, terapia de eletrochoque em seus pacientes nos EUA sem o consentimento explícito deles nos anos 1940 e 1950. Muitos desses pacientes ficaram permanentemente em coma ou incapazes de viver sem assistência médica. Klein revela que Milton Friedman conduziu um experimento muito semelhante em várias nações ao redor do mundo como forma de provar sua teoria de economia de livre mercado e até mesmo utilizou a palavra "choque" para descrever suas táticas. Os resultados foram desastrosos, exceto que neste último caso as vítimas foram nações inteiras.

Três países, três batalhas

Os EUA tiveram papel fundamental na derrubada do governo democraticamente eleito de Allende no Chile em 1973. Ajudaram a acabar com 41 anos de governo pacífico a favor de um modelo neoliberal que se consolidou através de prisões massivas, tortura descontrolada e assassinatos, tudo isto personificado na figura militar do General Augusto Pinochet.

Essas táticas "chocaram" o país em ao caos ao inventar uma narrativa de guerra contra supostos marxistas. A premissa era "salvar o país do caos do comunismo", mas teve claramente o efeito precisamente oposto: o país mergulhou no horror e na pobreza, com as conquistas sociais de Allende sendo rapidamente desmontadas e a inflação atingindo 375% em 1974, a maior no mundo de então. Tornou-se evidente que a liberdade de mercado é incompatível com a liberdade individual e a prosperidade social.

Margareth Thatcher alegremente ofereceu ajuda aos EUA nos anos 1980 para destruir a União Soviética. O líder soviético Mikhael Gorbachev queria implementar uma mudança gradual na União, visando adotar um modelo escandinavo de socialismo, mas acabou sendo forçado a implementar reformas radicais por seus "amigos" ocidentais (os Friedianos descarados Thatcher e Reagan). Seu sucessor, Boris Yeltsin, aliou-se mais ainda aos interesses neoliberais e os EUA apoiavam-no enquanto ele literalmente travava uma guerra contra o parlamento.

Esta guerra – que incluiu o ataque de tanques à Casa Branca russa (foto abaixo) – "chocou" o país a aceitar as reformas profundamente impopulares de Yeltsin. Como resultado, quase metade da população da Rússia passou a viver abaixo da linha da pobreza em alguns anos, enquanto Moscou tinha a maior concentração de milionários por metro quadrado do mundo.

Um tanque atacando a Casa Branca russa em 1993.

O "choque" no Iraque foi igualmente beligerante. Os EUA e o Reino Unido travaram uma guerra ilegal contra o país rico em petróleo do Oriente Médio, derrubando Saddam Hussein e estabelecendo um regime altamente volátil que eles chamavam de "democrático". As duas nações invasoras rotineiramente prendiam e torturavam qualquer um que quisessem, e muitos eram mandados para o limbo legal chamado Baía de Guantánamo – apenas três pessoas detidas na infame prisão caribenha foram condenados de um crime. Estas prisões, os abusos sistemáticos e as malversações eram notavelmente similares às de Pinochet, explica o documentário.

O rico fica mais rico

Friedman era inflexível quanto ao sucesso de sua política econômica de desregulamentação e de livre mercado implementada através do "choque", a despeito das evidências em contrário por todos os lados. Pouco antes de sua morte, em 2006, ele sugeriu que o desastre provocado pelo furacão Katrina em Nova Orleans deveria ser utilizado como uma oportunidade para privatizar completamente o sistema educacional de todos os EUA. Ele acreditava firmemente que a dor intensa provocava ganhos, mas nunca reconheceu que tais ganhos estavam confinados a uns poucos oligarcas.

O impacto negativo do neoliberalismo não está restrito aos países que sofreram a "terapia de choque". Também abriu a fenda econômica nas próprias sociedades dos perpetradores, os EUA e o Reino Unido. O filme revela que antes da era Thatcher-Reagan um chefe executivo (CEO) no Reino Unio ganhava apenas 10 vezes mais do que seus empregados, o que se elevou para 100 vezes mais nos anos 1990. Nos EUA, o mesmo dado subiu de 43 para 430 no mesmo período de tempo.

A máquina belicista neoliberal criou outras oportunidades econômicas. Por exemplo, a indústria de Segurança Interna nos EUA agora é maior do que as indústrias cinematográfica e musical juntas. o que o filme descreve como "uma nova economia construída pelo medo". Enquanto isso, o petróleo continua a ser o combustível da indústria automobilística e a guerra alimenta o mercado de armas por todo o mundo.

Retrocedendo

Gostaríamos de acreditar que a humanidade está constantemente movendo-se adiante e evoluindo, mas infelizmente nem sempre é o caso. A História tem provado que nunca devemos tomar o progresso por garantido.

O Brasil experimentou crescimento econômico por 13 anos e muitas conquistas sociais pareciam consolidadas. Quase 30 milhões de brasileiros foram retirados da pobreza, houve melhoria massiva no sistema educacional e o país até mesmo pagou sua dívida externa, pondo fim a sua dependência ao FMI. Até que em 11 de maio um golpe de estado parlamentar foi encenado, derrubando a democraticamente eleita Dilma Rousseff e colocando em seu lugar o neoliberal e corrupto Michel Temer. Em apenas 10 dias, ele agressivamente começou a desmantelar essas conquistas, suspendendo a construção de moradias e benefícios de milhões de brasileiros para favorecer os plutocratas, oligarcas e o grande sistema corporativo que ele representa.

Ele tem o apoio entusiástico – embora tácito – dos EUA. Não coincidentemente, a atual embaixadora dos EUA no Brasil é Liliana Ayalde: ela também foi embaixadora em Honduras e no Paraguai quando ambos os países sofreram um golpe de estado. Os Irmãos Koch, industriais americanos de refino do petróleo, financiaram o pseudo-movimento estudantil MBL, que ajudou a injetar instabilidade nas ruas do Brasil com o apoio da mídia brasileira. E, caso ainda haja alguma dúvida do envolvimento dos americanos no golpe, o golpista Aloysio Nunes viajou para se encontrar com Thomas Shannon – o oficial mais antigo em Washington no que diz respeito a assuntos latino-americanos – pouco antes da materialização do golpe, enquanto Obama nem chegou a denunciar o golpe ou até mesmo criticar os desenvolvimentos sombrios e ilegais no país.

O golpe no início do mês não representa, no entanto, uma vitória inequívoca do neoliberalismo. Os brasileiros estão indo às ruas protestar contra os desenvolvimentos recentes. A presidente Dilma foi suspensa, mas ela poderá ser restabelecida em novembro caso seja inocentada de "crime de responsabilidade" pelo Senado da nação. Uma conversa telefônica vazada revelou a trama para derrubá-la e a presidente suspensa e os apoiadores da democracia sentem-se energizados.

No momento atual, o Brasil passa por uma enorme convulsão social. De maneira muito preocupante, isto pode vir a se tornar um gatilho para a "teoria de choque" em todo o seu horror. A História tem mostrado que os neoliberais nunca têm medo de usar a intervenção militar e a tortura como forma de instilar o medo e implementar o modelo econômico desejado por eles. É por isso que os campeões da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo devem denunciar os desenvolvimentos trágicos no maior país da América Latina – antes que o país seja vítima do eletrochoque e entre em estado de coma.

domingo, 8 de novembro de 2015

Brasil, terra turbulenta

Hoje a blogosfera progressista repercutiu bastante (veja aqui) a redescoberta de um documentário muito comentado nos meios acadêmicos e que julgava-se perdido. Trata-se de Brazil, the troubled land (Brasil, terra turbulenta, numa tradução livre), dirigido e produzido pela jornalista estadunidense Helen Jean Rogers e transmitido em junho de 1961 pela rede de televisão americana ABC. Na película, de quase meia-hora de duração, a jornalista busca explicar as razões por trás do apelo do comunismo entre camponeses da Região Nordeste do Brasil no período imediatamente anterior ao golpe de Estado de 1964. Alinhado à política externa do breve governo Kennedy, defende uma reforma agrária dentro das estruturas capitalistas, o que encontrou a resistência da elite local.

Se na Europa Ocidental o avanço do comunismo foi contido a partir da união da burguesia local com a burguesia americana para a criação de um Estado de bem-estar social que se tratava de uma tentativa de aplacar os movimentos revolucionários a partir de concessões da plutocracia à classe trabalhadora, na América Latina os movimentos revolucionários foram contidos basicamente através da força. No momento em que o documentário foi produzido, no entanto, o governo de John F. Kennedy, eleito com a bandeira de conter o comunismo e melhorar a qualidade de vida de seu povo, debatia se a melhor maneira de conter movimentos como os de Che Guevara no continente americano era recorrer ao incentivo ao desenvolvimento ou às armas.


**
Captura de tela do documentário.
Brasil, terra turbulenta acompanha o cotidiano dos camponeses que se organizavam ao redor das Ligas Camponesas lideradas por Francisco Julião (descrito como "o mais importante líder camponês da América Latina") no estado do Pernambuco. Mais do que simplesmente demonizar o movimento, caracterizando-o como uma organização comunista que deve ser extirpada da sociedade, tenta explicar didaticamente sua razão de ser, que possui fortes raízes na herança histórica brasileira, marcada por profundas desigualdades entre quem tem e quem produz as riquezas. O Brasil, "a terra do samba", é descrito como "fabulosamente rico... para alguns". O Recife, cidade construída e mantida pelo açúcar, por exemplo, é "desconhecida pelo homem que cultiva a cana-de-açúcar".

Numa reunião na sede do Partido Socialista Brasileiro (muito diferente do atual PSB), o então deputado estadual Julião dá conselhos legais para os camponeses que tinham problemas com seus arrendadores ao mesmo tempo em que doutrinava-os para suas teses marxistas. As Ligas Camponesas assumiam o papel que deveria ser de defensores públicos e, de uma maneira geral, do Estado, executando "ações simples que demonstram fé nos 20 milhões [de camponeses]". Analfabetos em sua maioria, ganhando US$ 0,25 por dia e morando em com suas famílias inteiras em pequenos casebres de barro, os camponeses se vêem seduzidos por um discurso que lhes promete liberdade e educação para seus filhos. 

Severino, um dos camponeses acompanhados pela jornalista estadunidense, têm seis filhos, um dos quais teve paralisia nas pernas devido à desnutrição. Seus filhos "vivem num mundo onde há apenas um brinquedo" e apenas um deles frequentava a escola, o que ajuda a perpetuar o regime de semiescravidão em que vivia, visto que o direito ao voto era garantido apenas aos cidadãos alfabetizados. Segundo seu contrato, Severino tem o direito de usar uma porção de terra, "não a melhor", para cultivar milho e feijão. Sua pobreza contrasta com a riqueza de seu arrendador, o ex-governador Constâncio Maranhão, que possui uma luxosa casa na fazenda. Sua família explora as terras pernambucanas há 400 anos.

O "senhor" de Severino (palavras do documentário) usa um anel de 15 quilates de ouro e diz que seus arrendatários são felizes, ricos e gordos. "O 38 é a lei aqui, ele decide tudo. Não é a polícia nem a lei, mas a minha arma", diz sorridente o ex-governador do estado enquanto aponta sua arma para o cinegrafista e atira ao redor dele, numa tentativa patética de demonstrar quem é o macho aos que ousam vir do norte questionar-lhe sobre as injustiças que ele perpetua. "As coisas sempre foram assim, meus camponeses são preguiçosos e se alguém tentar vir aqui e organizá-los, eu o mato". Parece um discurso bastante atual, não é mesmo?

Enquanto isso, na casa de Severino, um dos 20 milhões de brasileiros que viviam sob o fantasma da fome, a família se alimenta de uma única refeição diária composta de arroz, milho e feijão. As crianças não tomam leite e nunca comeram carne. Jamais sentiram o gosto dessa fonte de proteína. "A terra que faz crescer açúcar não pode ser desperdiçada com comida", conclui o narrador. Severino, em discussão com a esposa, diz que não aguenta mais esperar as coisas melhorarem. Afinal de contas, "US$ 0,25 por dia não é o caminho para a riqueza nem para um pedaço de terra". Mas, para os que tiveram o azar de nascerem Severinos e não Costâncios tem sido assim desde o dias da escravidão.

Na loteria genética do "retrógrado Nordeste", apenas 5% do povo detinha 65% da terra (se brincar esse número continua o mesmo ainda hoje, mais de cinco décadas após a exibição do documentário). Os camponeses, em sua maioria analfabetos, têm na figura do trovador um importante comunicador. "Os violeiros são parte importante da vida camponesa, uma instituição tão velha quanto a terra", diz o narrador. No início dos anos 1960, no entanto, as canções mudaram. Agora eles cantam, influenciados por Julião, sobre a importância do proletariado em receber um salário decente e a necessidade de se fazer uma revolução castrista no Nordeste.

Ao voltar do intervalo, o documentário tenta desmerecer as ações de Julião e mostra os projetos do governo Jango para o Nordeste. "Bons planos, excelentes planos para industrialização e reforma agrária" que, devido ao assalto dos militares ao poder em 1964, jamais foram concretizados. Por trás da lenta implementação desses planos estava um "brilhante economista", o jovem Celso Furtado, então presidente da Sudene. a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. Visivelmente incomodado ao ser indagado por Rogers sobre Julião, ele descreve-o como um político que descobriu que as Ligas Camponesas eram importantes veículos para se obter ganhos políticos.

Em seguida, o documentário caracteriza Julião como "um homem ambicioso", cujo poder repousava nos camponeses e seu inegável descontentamento. "De todos os políticos do Brasil, ele é o que passa mais tem com os camponeses que não podem votar". Para Rogers, ele organiza a "vasta massa analfabeta para que consigam o direito de votar e obter o poder com sua maioria política, tornando-se senador, governador do estado ou presidente da nação". Sua retórica é cínica, segundo a documentarista, pois não oferece projetos específicos para o futuro dos camponeses. "Seu chamamento às armas ecoa mais forte entre os camponeses do que os planos construtivos, mas não vistos do governo".

O documentário se mostra preocupado com a influência de um líder anticapitalista e antiamericanista numa "região tão grande como o meio-oeste", que promete o paraíso comunista cubano e chinês aos camponeses. Isso dá esperança às pessoas "cujos problemas vitais são os mais básicos": alimentar-se hoje e amanhã. O contato de Julião com os camponeses é uma das coisas mais mostradas pelo documentário, talvez como forma de alertar ao público sobre a doutrinação marxista do político pernambucano. Em determinado momento, ele se aproxima de um camponês que lhe diz: "A aposentadoria do camponês é o cemitério". Uma das garantias da Constituição de 1988 foi justamente a aposentadoria rural, tão desmerecida por juristas de direita.

No terceiro e último bloco são exibidos mais alguns trechos da entrevista de Rogers com Furtado. "Se eu não acreditasse nisso [solução pacífica e democrática para o problema da terra], não estaria aqui", diz o entrevistado. Indagado se os Estados Unidos poderia ajudar a resolver a questão fundiária brasileira, ele responde: "Esse é um problema nosso. Se não estivermos preparados para fazer o sacrifício para uma solução, qualquer ajuda será inútil", diz. E completa: "Se as coisas não mudarem, podemos ter uma situação explosiva em dois anos". Celso Furtado errou a data do golpe de Estado de 1964 por um apenas ano. 

O documentário, otimista, não acreditava numa solução explosiva, pois "o Brasil não é uma terra violenta". Prevê o êxodo rural desordenado para o Rio e São Paulo, onde há "fábricas e trabalho", e indaga: "Pode um homem viver de promessas quando sua criança precisa de comida?".  Os Severinos da América Latina foram excluídos da marcha de 3.000 anos da civilização ocidental, conclui o documentário, antes de defender que o antídoto para as promessas comunistas é o resultado de ações governamentais. "Os planos do governo para a reforma agrária e o desenvolvimento devem se tornar reais, o primeiro passo deve ser dele".


**
O documentário defende uma solução democrática ao conflito rural, que seria executada pelo governo trabalhista de João Goulart. No entanto, num cenário de radicalizações à esquerda e à direita, essa solução falhou. Um dos entrevistados no documentário, o economista Celso Furtado, mostrava-se confiante nesse governo e nessa solução. Ele próprio, entretanto, demonstra preocupação com a radicalização presente na sociedade brasileira de então (qualquer semelhança com a atual não é mera coincidência): de um lado, as elites se recusavam a conceder privilégios às camadas desfavorecidas e, do outro, os pobres, cada vez mais cientes de sua condição, não aceitavam mais serem explorados. E foi essa a receita que levou ao golpe civil-militar de 1964 e que alimenta a crise atual.

Celso Furtado e demais figuras do governo Jango esperavam que, em algum momento, a plutocracia brasileira cedesse. No entanto, a elite brasileira não está acostumada a fazer sacrifícios. Nem mesmo para garantir a paz social. Ou seja, para garantir que seus filhos possam andar despreocupados pelos calçadões das praias. Nos países do norte, por outro lado, uma parcela da elite se recusa a acreditar na militarização como resposta para os problemas sociais. Opõe-se tanto ao comunismo quanto às desigualdades, defendendo o que se convencionou chamar de democracia radical. No Brasil, por outro lado, em pleno 2015 a defesa de uma sociedade menos desigual ainda é confundida com comunismo, às vésperas do 24° aniversário de queda do comunismo soviético.

Assim como Além do Cidadão Kane, o documentário foi obviamente banido no Brasil. A nascente televisão, feita por e para a elite, não tinha o menor interesse em educar os brasileiros sobre as raízes dos problemas socioeconômicos de nossa nação. Em 1964, o Ministério da Justiça baixou decreto censurando oficialmente o documentário. Apesar de seu tom claramente pró-capitalista e pró-americanista, o documentário tocava em feridas ainda hoje abertas de nossa sociedade e poderia trazer problemas para quem achava (e ainda acha) que os problemas sociais se resolvem com a presença de mais policiais na rua.

É salutar que o documentário tenha reaparecido nesse ano de 2015. Novamente o Brasil se encontra como uma terra turbulenta. Esgotadas as possibilidades de ambos ricos e pobres lucrarem com o lulismo, as pessoas novamente se voltam para soluções fáceis para problemas complexos. As evidências históricas - e o documentário da ABC se consiste como tal - existem para que não cometamos os mesmos erros do passado. Nossos avós podem argumentar que foram ignorantes ao apoiar um golpe de Estado em 1964. E nós, argumentaremos o quê? A abundância informativa proporcionada pela internet não nos permite adotarmos posturas ignorantes quanto aos graves problemas de nosso país. 


O documentário foi doado pelo arquivo de Hugh Hefner, o fundador da revista Playboy, à Escola de Artes Cinematográficas da Universidade do Sul da Califórnia e está disponível no canal da instituição no portal de compartilhamento de vídeos Vimeo. Infelizmente está disponível apenas em inglês sem legendas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A felicidade é grátis

No final de semana assisti ao documentário Happy (2011) no Netflix. Nele, o cineasta Rolo Belić busca, através de entrevistas com neurocientistas, psicólogos e pessoas comuns, desvendar o segredo por trás da felicidade. Cientificamente falando, o que torna um indivíduo feliz? Segundo os especialistas ouvidos no documentário, 50% da nossa felicidade é determinada por fatores genéticos, 40% é determinado por nossas ações individuais e 10% é determinado por fatores ambientais. Mas que ações são essas que podemos fazer para encontrarmos a felicidade? A principal delas é a prática de atividade física, que libera dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e cuja deficiência pode causar, dentre outros males, a doença de Parkinson.

E, socialmente falando, o que determina a felicidade? Definitivamente não é o dinheiro. Os americanos de 50 anos atrás, apesar de possuírem renda média muito inferior, eram mais felizes que os americanos de hoje. É inconcebível imaginar que pessoas que gastavam horas com tarefas consideradas simples hoje em dia - como lavar e passar roupa, fazer comida e limpar a casa - eram mais felizes do que nós. Mas é comprovado que, após supridas as necessidades básicas, como comprar comida e pagar as contas, o dinheiro deixa de ter efeito significativo sobre a felicidade de um indivíduo. Se é verdadeira a afirmação de que a felicidade não paga as contas, é mais verdadeira ainda a afirmação de que o dinheiro não compra a felicidade.

As pessoas felizes respondem mais facilmente às adversidades da vida e satisfazem mais suas necessidades intrínsecas do que as extrínsecas. Aceitar o fato de que adversidades vão acontecer é uma regra entre as pessoas mais felizes. Uma das entrevistadas, que foi miss durante a adolescência, teve parte do rosto paralisado após ser atropelada por uma picape. Ela diz que só conseguiu retomar sua vida após aceitar o que lhe ocorreu: "Eu percebi que não entendo [o ocorrido], mas não preciso entender". Desde então, conseguiu reconstruir sua vida e tornou-se uma pessoa feliz. Ter uma boa aparência era, no final das contas, uma necessidade extrínseca de seu ser, enquanto as necessidades intrínsecas envolvem o crescimento pessoal, as relações interpessoais e a vida comunitária. Quanto mais buscamos agir no sentido de suprir nossas necessidades intrínsecas, mais felizes somos.

Duas regiões mostradas no documentário, consideradas lares de pessoas felizes, valorizam justamente a vida comunitária: a Dinamarca e a ilha de Okinawa, no Japão. A Dinamarca, além de oferecer uma série de benefícios universais para seus cidadãos, como a saúde e a educação, ainda estimula a vida em conjuntos habitacionais, verdadeiras comunas onde as tarefas são divididas e o afeto idem. Já em Okinawa os cidadãos valorizam o ichariba chode, expressão que traduz o ato de tornar-se irmão de quem você acabou de conhecer, ajudando-o naquilo que ele precisar. De fato, todas as pessoas apontadas como felizes pelos pesquisadores, sem exceção, possuíam tinham proximidade com familiares e amigos. Não que se dessem bem com todos seus familiares, mas essa era uma característica comum.

Deve-se notar, no entanto, que nem todas as relações comunitárias levam o indivíduo à felicidade. Pessoas envolvidas em grupos religiosos radicais são tão infelizes quanto aquelas que não participam de comunidade alguma. Além disso, o ambiente de trabalho, apesar de comunitário, pode levar também à infelicidade. Na maior parte do Japão as pessoas trabalham tanto que são comuns os casos de infarto no trabalho, síndrome essa chamada de karoshi. Segundo o documentário, o Japão é o país mais infeliz do mundo industrializado. Isso se justifica historicamente. Após a destruição do país pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês mobilizou a mão-de-obra para reconstruir a nação e, para isso, criou uma cultura que valorizasse o trabalho árduo e a conquista de bens materiais.

Quanto às relações interpessoais, descobriu-se que ajudar os outros libera tanta dopamina no organismo quanto o consumo de cocaína. Trata-se da forma mais fácil, segura e barata de se ter um "barato". É comum ouvirmos de nossas mães que elas têm prazer de cuidar de nós. Eu nunca entendi muito bem isso, até agora. Ao cuidar de seu filho, uma mãe recebe um fluxo maior de dopamina em seu organismo que se tivesse fumado maconha. E, segundo os cientistas, é algo quase que natural. Se precisarem escolher entre a competição e a cooperação, os indivíduos escolhem sempre a última opção. Segundo o Dalai Lama, são nossas mães que nos transmitem a compaixão. Nascemos e, instintivamente, a primeira coisa que ela faz é nos amamentar, como se a compaixão estivesse no sangue dela.

Nosso mundo está cheio de pessoas ansiosas, depressivas, insatisfeitas com a vida e, consequentemente, infelizes, devido ao fato de que o sistema econômico vigente na maior parte do planeta não valoriza a realização pessoal. Devemos ter coisas para sermos alguém e, quando não conseguimos acumular bens materiais, nos frustramos. E, mesmo que tenhamos coisas, somos comparados com pessoas que têm mais o tempo todo, pois a essência do capitalismo é a competição. Pensando nisso, o pequeno Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia, decidiu parar de destruir seu meio-ambiente para seguir as metas econômicas impostas por organismos internacionais e decidiu criar seu próprio medidor de desempenho: a Felicidade Interna Bruta, que substituiu o Produto Interno Bruto.

Ainda não é possível dizer se a experiência butanesa foi bem sucedida, mas é uma bênção o fato do país ter invertido a ordem econômica vigente, priorizando a manutenção dos recursos naturais para garantir o bem-estar de seu povo. Na pequena nação a lei determina que 60% de seu território será sempre composto por florestas. Poderia-se, por exemplo, construir hidrelétricas e vender o excedente de energia para a Índia, mas a que custo? Um custo altíssimo para a qualidade de vida da população. Ao garantir o direito à felicidade inscrito na Constituição americana, mas nunca encarado como uma obrigação pelos governos daquele país, as nações podem caminhar rumo à paz social. Pessoas felizes não  roubam, não matam e não descontam suas frustrações de ordem pessoal nas outras pessoas em geral.

Ao nos focarmos mais no que nós esperamos de nós mesmos do que naquilo que a sociedade espera de nós - o dinheiro, o status social e a aparência física (as tais das necessidades extrínsecas) - poderíamos construir uma comunidade mais feliz e, consequentemente, uma sociedade mais harmoniosa. Não precisaríamos agir de modo anti-ético, o que envolve desde a corrupção generalizada em todas as classes sociais do Brasil até o assalto à mão armada, passando pela interminável pilhagem de terras indígenas, para atingir nossos objetivos, que seriam verdadeiramente nossos e não da sociedade. Se você acha que precisa eliminar alguém para atingir a felicidade, então provavelmente aquilo que você busca não é a felicidade, pois esta envolve, conforme dito anteriormente, as necessidades intrínsecas do ser humano (atingir metas pessoais, viver em comunidade e manter relações interpessoais).

"As coisas que geram a felicidade são grátis e, quanto mais alguém é feliz, mais todos são felizes", conclui Belić no final de seu documentário, 

sábado, 22 de agosto de 2015

Globo: Uma TV da ditadura em plena democracia

Não existe, em nenhuma nação democrática do mundo, uma emissora comercial de televisão tão poderosa quanto a Rede Globo. Até mesmo emissoras estatais como a britânica BBC, cujo monopólio foi quebrado em 1955, enfrentam alguma competição em seus mercados. Na meca do capitalismo e da produção audiovisual, os Estados Unidos, quatro emissoras disputam igualmente a liderança da audiência, sendo comum empates e mudanças súbitas na medição. Para se ter uma ideia da dominância da Globo no mercado de televisão do Brasil, o maior share da história da emissora – e do país – foi conquistado em 22 de fevereiro de 1986, quando o capítulo final da telenovela Roque Santeiro atingiu 100%, o que significa dizer que todos os televisores ligados do Brasil naquele momento estavam sintonizados na Globo. Em comparação, o maior share conquistado pela teledramaturgia norte-americana ocorreu em 28 de fevereiro de 1983, quando “Goodbye, Farewell and Amen”, episódio final do seriado de comédia M*A*S*H, deu à CBS um share de 77%. Isso antes do advento da FOX como quarta emissora comercial dos EUA e da popularização dos serviços de televisão por assinatura.

Ainda hoje, mesmo em queda, a Rede Globo ainda consegue obter proporcionalmente mais audiência do que a CBS. O seriado NCIS, programa de ficção mais assistido da emissora e dos EUA durante a temporada 2014-15, foi visto semanalmente em uma média de 14,56 milhões de lares. A telenovela Império, programa mais assistido da temporada 2014-15 no Brasil, foi assistido em uma média de 7,2 milhões de domicílios no Brasil. À primeira vista parece que a audiência de NCIS é o dobro da de Império. Sim, é verdade, mas o impacto da telenovela sobre o público brasileiro é quase três vezes maior do que o impacto do seriado de investigação criminal sobre o público norte-americano. A população dos EUA é quase duas vezes maior do que a do Brasil. Segundo o Instituto Nielsen, que mede a audiência naquele país, há 115,6 milhões de domicílios com televisor nos EUA. Segundo o IBOPE, há 21,7 milhões de lares com televisor no Brasil. Isso significa que o share de NCIS é de 12,6% e que o share de Império foi de 33%. O programa de maior audiência da temporada 2014-15 nos EUA foi assistido em menos de 13% dos lares americanos, enquanto que o programa de maior audiência da mesma temporada no Brasil foi visto em 1/3 dos lares brasileiros. 

A prevalência da Rede Globo sobre as demais emissoras de televisão do Brasil não deve ser encarado como um case de sucesso empresarial. Trata-se de uma história de benesses recebidas do Estado e de esforços para minar a liberdade econômica que a emissora tanto defende nas vozes de comentaristas como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardemberg. Nos anos 1970, a ditadura militar implementou uma política de modernização das telecomunicações que muito favoreceu a emissora. Em 1965 criou a Embratel e fez com que o país se juntasse à rede mundial de satélites quatro anos mais tarde. A intenção do regime era se opor à hegemonia cultural libertária da época, predominante nas rádios e nos teatros locais, usando para isso a televisão. Através da construção de uma fonte de entretenimento nacional, o governo poderia minar as vozes regionais. Assim sendo, as emissoras se transformaram em redes e só continuaria recebendo verba publicitária do governo aquelas que endossassem a política de hegemonia cultural do regime. Assim sendo, a Rede Excelsior, líder de audiência em São Paulo, que mantinha uma linha crítica ao regime, fechou as portas em 30 de setembro de 1970. Ao mesmo tempo, o regime militar fazia vistas grossas à parceria ilegal entre Roberto Marinho e o grupo multinacional Time–Life que deu origem à Rede Globo.

Enquanto as demais emissoras nacionais – Tupi e Excelsior – começaram com poucos recursos e muita dificuldade tecnológica, a Globo iniciou suas operações com equipamentos de ponta. Isso só foi possível devido ao acordo firmado entre Marinho e a Time–Life. Mesmo com a legislação brasileira proibindo que empresas de telecomunicações tivessem participação de capital estrangeiro em sua formação, o acordo seguiu inconteste pelas autoridades por um determinado período de tempo até que Roberto Marinho comprasse as ações da Globo pertencentes ao grupo norte-americano. Aos amigos do regime, tudo. Aos inimigos, a falência. As ligações da Globo com o poder militar eram tão estreitas que Walter Clark, diretor-geral da emissora, confessou em sua autobiografia que recebia o ditador Médici em seu gabinete na Globo para, juntos, assistirem aos jogos de futebol transmitidos pela emissora. Nas palavras de Clark o “padrão Globo de qualidade” era uma “vitrine de um regime com o qual os profissionais da TV Globo jamais concordaram”. Mas Roberto Marinho concordava – e muito. Médici elogiava a cobertura que o Jornal Nacional fazia da política nacional, o ministro-censor Armando Falcão lembra com carinho de sua relação com Marinho em documentário e o próprio dono da emissora confessou seu apoio ao regime em editorial escrito por ele e publicado no jornal O Globo em 7 de outubro de 1984.


Corrupção

ACM e Roberto Marinho de braços dados.
Interessante notar que, assim como os golpistas de hoje, Marinho afirma ter apoiado o Golpe de Estado de 1964 para conter a “corrupção generalizada” que se alastrava pelo país. Mais de uma vez, no entanto, a Globo viu-se envolvida em casos de corrupção. Em 1986, por exemplo, o então ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães atuou à margem da lei para favorecer a emissora. Ele suspendeu os contratos do governo com a empresa NEC do Brasil. Com o grupo em crise, ele foi comprado pela NEC do Japão, que o revendeu para as Organizações Globo por um milhão de dólares. Em seguida, ACM restabeleceu os contratos do Ministério com a NEC do Brasil e a empresa passou a valer 350 milhões de dólares. Como recompensa pela atitude criminosa, ACM recebeu da Globo o direito de retransmitir o sinal da emissora no estado da Bahia. Em janeiro de 1987, a TV Bahia subitamente substituiu o sinal da Rede Manchete pelo da Rede Globo. A TV Aratu, então retransmissora da Globo na Bahia, ficou sem sinal e decidiu processar a rival. A contenda terminou três dias depois com a TV Aratu aceitando retransmitir o sinal da Manchete. A quebra de contrato de maneira unilateral por parte de Roberto Marinho gerou uma queda de 80% no lucro da TV Aratu.

Além disso, a Rede Globo é uma das maiores devedoras de impostos ao Estado brasileiro. Entre 2010 e 2012, a emissora foi notificada 776 vezes por sonegação fiscal. A maior parte das notificações envolve a importação de equipamentos sem o recolhimento dos devidos impostos. Segundo a Receita Federal, a empresa praticou fraude contábil ao negociar uma perdão de 158 milhões de reais em dívidas com o banco JP Morgan em 2005. Multada em 730 milhões de reais, a emissora contesta a cobrança, mas foi derrotada no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Além disso, a Globo é acusada de sonegar o Imposto de Renda referente à compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002. A empresa teria usado um paraíso fiscal para realizar a transação com o intuito de evitar o pagamento do IR à Receita Federal. Em outubro de 2006, a Receita tentou cobrar multa de 615 milhões de reais da emissora pelo episódio, mas o processo desapareceu do prédio da Receita no Rio. Uma funcionária da Receita, Cristina Maris Meinick Ribeiro, sumiu com o processo. Ela foi condenada a quatro anos de prisão, mas afirmou ter agido sozinha no caso. A Globo também já foi acusada de desviar os recursos arrecadados pela campanha filantrópica Criança Esperança.


Interferência na política

Debate presidencial de 1989.
Talvez uma herança do período em que era porta-voz da ditadura, a família Marinho desconfia da capacidade do povo brasileiro de escolher seus próprios líderes. Em 25 de janeiro de 1984, no ocaso do regime militar, a emissora ignorou solenemente o movimento suprapartidário que pedia o fim do regime e a realização de eleições diretas para presidente da República. Naquela ocasião, 300.000 pessoas protestavam na Praça da Sé. No Jornal Nacional daquela noite, o evento virou um ato em comemoração aos 430 anos da cidade de São Paulo. Segundo Boni, ex-vice-presidente da Globo, partiu de Roberto Marinho a decisão de censurar as Diretas Já. Segundo ele, a censura no caso foi dupla: da emissora e do regime. Dois anos antes, o Brasil vivia suas primeiras eleições estaduais pluripartidárias desde o início dos anos 1960. Leonel Brizola, recém-chegado do exílio com a promulgação da Lei de Anistia, liderava as pesquisas de intenção de voto para governador do Rio de Janeiro. A Globo se ateve à apuração oficial, realizada pela empresa Proconsult, e se negou a dar voz às denúncias de fraude feitas por policiais civis. Brizola denunciou a farsa a correspondentes estrangeiros e o regime militar, já extremamente fragilizado em seu apoio lá fora, viu-se obrigado a divulgar os números verdadeiros e conceder a vitória ao político oposicionista.

Em 1989, após cinco anos de um governo civil não-eleito, o povo brasileiro finalmente iria às urnas escolher seu presidente. Os favoritos eram Brizola e o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Após uma disputa acirrada com Brizola para ver quem iria para o segundo turno, Lula acabou ascendendo ao segundo lugar da disputa. Seu rival seria Fernando Collor, dono de uma afiliada da Globo em Alagoas e ligado ao coronelismo local. Ambos os candidatos apareciam com o mesmo percentual de intenção de votos. Assim sendo, os debates na televisão seriam decisivos para definir a disputa. Lula se saiu mal no debate e a Globo selecionou suas piores falas para serem exibidas na reportagem do Jornal Nacional sobre o evento. Até então, a emissora tinha buscado manter-se isenta na cobertura do processo eleitoral. Inclusive a reportagem exibida pelo Jornal Hoje no mesmo dia era muito mais equilibrada do que aquela exibida pelo Jornal Nacional. A campanha de Lula moveu uma ação no STF contra a Globo, exigindo que a emissora exibisse uma nova reportagem, mais isenta, mas o pedido foi negado. A emissora sempre negou ter agido de má-fé no episódio, mas admite que a reportagem não foi isenta. Em 2009, o próprio Collor admitiu ter sido favorecido pela Globo. Coberturas eleitorais tendenciosas seguiram-se nas disputas de 2006, 2010 e 2014. Em 2006, o Jornal Nacional deixou de noticiar a tragédia do voo 1907, destaque em todos os telejornais, para exibir uma denúncia contra o partido de Lula. Em 2010, o telejornal corroborou uma afirmação de José Serra de que foi agredido por petistas, versão desmentida pelo Jornal do SBT.

Novos adversários, mesmos métodos.
Temida pelos governos, a Globo chantageia os Poderes do Estado e geralmente consegue sair impune das situações ilegais e antiéticas em que se encontra. Há quem acredite que o processo de 615 milhões contra a emissora na Receita Federal tenha “desaparecido” em troca de uma cobertura mais amigável a Lula no segundo turno das eleições de 2006. Quatro anos antes, no crepúsculo do Governo FHC, a Rede Globo recebeu um empréstimo de 280 milhões de reais do BNDES para sanar suas dívidas. É notável a atuação da Bancada da Globo no Congresso Federal. Nos anos 1990, a emissora valeu-se de sua influência entre senadores e deputados para conseguir alterar um artigo da Constituição Federal que proibia a entrada de capital estrangeiro nas empresas de mídia, legalizando a forma como a emissora havia surgido em 1965. Agora a emissora mobilizou seu lobby contra o Netflix, acusando a empresa de não pagar os impostos devidos ao Estado brasileiro. Que ironia! Uma empresa que sonegou o Imposto de Renda referente à compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002 acusando outra empresa de não pagar impostos. Em seguida, deve propor pesados impostos sobre o serviço de streaming, que já é maior do que a Band e a RedeTV. Trata-se de mais uma tentativa da Globo de manter sua dominação sobre o mercado de televisão e, consequentemente, sobre corações e mentes dos brasileiros. A Globo quer continuar construindo o discurso cultural hegemônico a ser reproduzido pela sociedade. Que ela tenha esse poder numa democracia é assustador!

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"É dever do artista refletir o espírito do tempo em que ele vive"

A autora da frase que serve de título para esse texto é a cantora e compositora estadunidense Nina Simone. Está em cartaz no Netflix um documentário sobre sua brilhante e turbulenta vida, What Happened, Miss Simone? Como toda boa obra audiovisual, deixou minha mente a mil quando terminei de assistir. Vou explicar porque, mas primeiro, caso você não queira spoilers aconselho que pare de ler o texto aqui. Eunice Waymon (nome verdadeiro da cantora) começou a tocar piano ainda na infância, nos cultos pentecostais que sua família frequentava. Ao ser vista por uma senhora branca, professora de piano, essa resolveu ensinar-lhe os clássicos da música. Ela queria que Eunice se tornasse a primeira pianista clássica "de cor" dos Estados Unidos. No entanto, seu sonho foi destruído pela segregação racial. E isso, aliado à repressão religiosa, transformou Eunice em Nina Simone.

Inicialmente, Nina Simone (o nome artístico veio do espanhol niña e da atriz francesa Simone Signoret) cantava baladas românticas, influenciada pelo marido, um ex-chefe de polícia controlador. Todos os aspectos da vida da cantora eram controlados pelo marido, que a mantinha subjugada através de surras e até mesmo agressão sexual caso ela não o obedecesse. No início dos anos 1960, no entanto, simultaneamente à ascensão de Nina ao estrelato, os Estados Unidos vivia o início do Movimento pelos Direitos Civis. Nina, que negou suas raízes desde o início, sentiu-se acolhida por pessoas como Malcolm X (de quem era vizinha), Dr. Martin Luther King e tantos outros ativistas e artistas que refletiam o zeitgeist daquele momento. Presa a um casamento miserável, ela enfim achou uma maneira de ser feliz. Escreveu "Mississippi Goddam" e se tornou cada vez mais uma cantora de protesto.


Só que isso lhe custou o sucesso comercial. Ao expressar seu verdadeiro espírito - livre - foi acusada de ser radical demais. Logo ela, que foi oprimida a vida toda: pela religião, por ser negra no Sul racista, por não poder se expressar abertamente sobre o que pensava sobre ser negra nos Estados Unidos e, principalmente, por ser oprimida e abusada pelo marido. É como aquele aforismo atribuído ao escritor alemão Bertolt Brecht: "Falam que o rio que tudo arrasta é violento, mas nada dizem das margens que o oprimem". A impressão que tive de Nina é que ela nasceu no tempo errado, no lugar errado e com a cor de pele errada. Tivesse nascido sob outras circunstâncias, teria conseguido a felicidade que apenas a liberdade poderia propiciar a um espírito livre como ela.

O estopim, para a cantora, foi quando assassinaram o Dr. Martin Luther King. Nina deixou a aliança na mesa de centro e partiu para a Libéria, país fundado no século XIX como colônia para escravos libertos do sul dos Estados Unidos. Lá, finalmente pôde experimentar a felicidade que um espírito livre só consegue ao ser desamarrar das correntes que a sociedade nos impõe. Entendo perfeitamente isso. Assim como Nina, sinto que não nasci no lugar ou no tempo certo. A explicação que os meus amigos espíritas me dão é que eu sou um espírito evoluído demais. Voltando ao documentário, Nina precisava de dinheiro para sobreviver, como qualquer um que vive nesse sistema nefasto chamado capitalismo.

Foi em Paris que ela tentou retomar a carreira. Sem controle emocional e sem empresário, ela se vê no fundo do poço, fazendo apresentações em verdadeiras espeluncas. Com a ajuda de amigos que moravam na cidade, ela consegue se reerguer. Muda-se para a Holanda e, ao ser visitada por um médico, é diagnosticada com transtorno bipolar. Começa a tocar piano novamente e, impulsionada por uma propaganda da Chanel que usou uma de suas composições, volta a fazer shows para grandes públicos. Mudou-se para o Sul da França no final da vida e, dois dias antes de morrer, aos 70 anos de idade - ironias da vida - recebeu um diploma honorário da instituição que lhe recusou o sonho de ser a primeira pianista clássica "de cor" dos Estados Unidos.

Isso aqui é apenas um pequeno resumo da experiência magnífica que tive ao assistir o filme. Recomendo que assistam e tentem absorver o máximo dele. Vale muito a pena!