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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A democracia brasileira à beira do abismo


WASHINGTON — O estado de direito e a independência do judiciário são conquistas frágeis em muitos países — e suscetíveis a reveses bruscos.

Brasil, o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, é uma democracia bastante jovem, tendo emergido de uma ditadura há apenas três décadas. Nos últimos dois anos o que poderia ter sido uma conquista histórica ― a autonomia outorgada pelo governo do Partido dos Trabalhadores para investigar e punir a corrupção estatal ― se transformou no seu oposto. Como resultado, a democracia brasileira agora está mais fraca do que em qualquer outro período desde o fim do regime militar.

Esta semana, essa democracia pode erodir-se ainda mais quando os três juízes de uma corte de apelação decidirem se a figura política mais popular do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores, será barrado de disputar a eleição presidencial de 2018 ou até mesmo preso.

O juiz Sérgio Moro demonstrou seu partidarismo em diversas
ocasiões, diz Weisbrot.
Não há muita pretensão de que a corte seja imparcial. O presidente do tribunal de apelação já louvou a decisão do juiz de sentença de condenar o Sr. da Silva por corrupção como "tecnicamente irrepreensível" e sua chefe de gabinete postou em sua página no Facebook uma petição a favor da prisão do Sr. da Silva.

O juiz de sentença, Sérgio Moro, demonstrou seu próprio partidarismo em diversas ocasiões. Ele precisou pedir desculpas à Suprema Corte em 2016 por revelar escutas telefônicas gravadas entre o Sr. da Silva e a presidente Dilma Rousseff, e seu advogado, e sua esposa, e seus filhos. O juiz Moro montou um espetáculo para a imprensa quando policiais apareceram na casa do Sr. da Silva e levaram-no para interrogatório — embora o Sr. da Silva tivesse dito que se apresentaria de maneira voluntária para ser interrogado.

As provas contra o Sr. da Silva estão bem abaixo do limite do que seria levado a sério, por exemplo, no sistema judiciário dos Estados Unidos.

Ele é acusado de ter aceitado propina de uma grande empresa de construção, a OAS, que foi processada como parte do esquema de corrupção no Brasil investigado através da "Lava-Jato". Este escândalo multibilionário trouxe à tona empresas pagando grandes propinas para funcionários da empresa petrolífera estatal Petrobras para obter contratos a preços altamente inflados.

A propina que supostamente foi recebida pelo Sr. da Silva foi um apartamento de propriedade da OAS. Mas não há nenhuma prova documental de que tanto o Sr. da Silva quanto sua esposa jamais receberam um título de propriedade, alugaram ou sequer ficaram no apartamento nem de que eles tentaram aceitar esse presente.

A evidência contra o Sr. da Silva baseia-se no depoimento de um executivo condenado da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, que teve sua sentença à prisão reduzida em troca de entregar evidências ao estado. Segundo reportagem do proeminente jornal brasileiro Folha de São Paulo, o Sr. Pinheiro teve seu acordo de delação bloqueado quando ele contou a mesma história que o Sr. da Silva sobre o apartamento. Ele também permaneceu cerca de seis meses detido antes de seu julgamento. (Isso é discutido no documento de sentença de 238 páginas.)

Mas essa evidência escassa foi o suficiente para o juiz Moro. Em algo que os americanos considerariam ser um processo judicial canguru¹, ele sentenciou o Sr. da Silva a nove anos e meio de prisão.

O estado de direito no Brasil já havia sofrido um golpe devastador em 2016, quando a sucessora do Sr. da Silva, a Sra. Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014, sofreu um impeachment e foi removida do cargo. A maior parte do mundo (e possivelmente do Brasil) acredita que ela foi destituída por causa da corrupção. Na verdade, ela foi acusada de uma manobra contábil que fez com que o deficit do orçamento federal parecesse temporariamente menor do que era de verdade. É algo que outros presidente e governadores haviam feito sem maiores consequências. E o próprio procurador-geral da República concluiu que não se tratava de um crime.

Ainda que houvessem políticos de partidos de todo o espectro político envolvidos em corrupção, incluindo o Partido dos Trabalhadores, não houveram denúncias de corrupção contra a Sra. Rousseff no processo de impeachment.

O Sr. da Silva permanece o líder na eleição de outubro devido a seu êxito e ao êxito de seu partido na reversão de um longo declínio econômico. De 1980 a 2003, a economia brasileira mal se quer cresceu, cerca de 0,2 por cento anualmente per capita. O Sr. da Silva tomou posse em 2003 e a Sra. Rousseff em 2011. Até 2014 a pobreza havia sido reduzida em 55 por cento e a extrema pobreza em 65 por cento. O salário mínimo real aumentou 76 por cento, os salários reais aumentaram 35 por cento, o desemprego atingiu recordes históricos para baixo e a infame desigualdade social do Brasil finalmente havia caído.

A direita aproveitou a recessão de 2014 para orquestrar um
golpe de estado parlamentar, segundo o colunista.
Mas em 2014 uma recessão profunda começou e a direita brasileira foi capaz de tirar vantagem do declínio para orquestrar o que muitos brasileiros consideraram um golpe parlamentar.

Se o Sr. da Silva for barrado de participar da eleição presidencial, o resultado poderá ter muito pouca legitimidade; assim como na eleição hondurenha de novembro que foi amplamente vista como roubada. Uma pesquisa de opinião pública do ano passado descobriu que 42,7 por cento dos brasileiros acreditam que o Sr. da Silva estava sendo perseguido pela mídia e pelo judiciário. Uma eleição pouco crível pode ser politicamente desestabilizadora.

Talvez, mais importante de tudo, o Brasil terá se reconstituído numa democracia eleitoral muito limitada, onde um judiciário politizado pode excluir um líder político popular de concorrer a um cargo público. Isso seria uma calamidade para os brasileiros, para a região e para o mundo.


Mark Weisbrot é co-diretor do Centro para Pesquisa Econômica e Política de Washington e presidente da Just Foreign Policy. É o autor de "Failed: What the ‘Experts’ Got Wrong About the Global Economy".

Uma versão desta coluna apareceu na versão impressa em 24 de janeiro de 2018, na página A10 da edição nacional sob a manchete: A democracia do Brasil encara um abismo.


¹ Um processo judicial canguru ou kangaroo court é, segundo o Wikcionário, "um procedimento judicial ou semi-judicial ou o grupo que conduz tal procedimento, que é feito sem a autoridade adequada, de maneira abusiva e injusta".

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O "Escola sem Partido" não começou hoje – é parte da nazificação do Brasil

Ele. Deputado federal Izalci (PSDB-DF).
Muitos amigos, principalmente aqueles ligados às ciências humanas, estão chocados com o projeto de lei 867/2015, de autoria do deputado federal Izalci (PSDB-DF), que institui o programa "Escola sem Partido". Não estou assim tão chocado. Lembro-me bem quando essa história de que há "doutrinação marxista" nas escolas brasileiras começou. Foi em agosto de 2008 e eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo da PUC-GO (então UCG). A revista Veja distanciava-se cada vez mais da narrativa factual da vida brasileira para se tornar o panfleto semanário oficial dos opositores do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A linha editorial da revista deixou de ser formulada por jornalistas para ser ditada por militantes políticos de extrema-direita, discípulos do astrólogo e autodenominado filósofo Olavo de Carvalho, tais como Reinaldo de Azevedo e, posteriormente, Rodrigo Constantino. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu que para exercer o ofício de jornalismo não é preciso diploma de curso superior em comunicação social. Desde então, tornou-se cada vez mais recorrente a invasão da narrativa factual dos acontecimentos, ouvindo-se todos os lados de um assunto, por um discurso de pânico recauchutado do macartismo.

O que aconteceu, sem maiores delongas, foi o seguinte: um repórter da referida revista veio até Goiânia, onde assistiu a uma aula de história para alunos do ensino médio no Colégio Ateneu Dom Bosco. Trata-se de uma das mais tradicionais escolas privadas da capital goiana, de orientação católica romana e frequentada sobretudo por jovens oriundos de lares de classe média. Ao invés de simplesmente relatar o que ocorreu na sala de aula, o repórter escreveu uma matéria completamente tendenciosa, acusando o professor de tentar doutrinar seus alunos. O professor em questão discutia os efeitos nefastos do capitalismo sobre a experiência humana – algo que alguém que já ouviu os discursos do Papa Francisco perceberá que é completamente compatível com a doutrina social da Igreja, que nada tem de marxista. A discussão havia começado após os alunos terem ouvido a música "Homem Primata" da banda oitentista Titãs. Trata-se de uma canção extremamente popular, que foi a 25ª música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1987. O Titãs não é uma banda que se autodeclara comunista como o Rage Against The Machine e só porque eles têm uma música que critica o capitalismo liberal não significa que são comunistas. Podem ser capitalistas keynesianos.

Seguindo a lógica da Veja, os Titãs são comunistas perigosos
que deveriam ser banidos da rádio por doutrinação marxista.
O repórter responsável pela matéria fez uma grande flexão intelectual para ligar os versos "Ô, ô, ô / homem primata / capitalismo selvagem" aos cursos de pedagogia e à obra do pedagogo Paulo Freire, que ele mesmo julgou nula. Freire sequer é amplamente estudado nos ambientes acadêmicos. E, por falar nisso, uma das lições mais importantes que aprendi na faculdade é que "o jornalista só fala através de suas fontes". O repórter da Veja fez pior: valeu-se da boa fé de sua fonte para desmerecer o trabalho pedagógico de um professor que, a despeito de estar inserido num ambiente conservador, conseguiu iniciar um debate com seus alunos sobre a realidade que os cerca para além dos muros dos prédios onde vivem. O também católico Hélder Câmara resumiu bem a hipocrisia brasileira: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo, mas quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista". Debater os problemas gerados pelo capitalismo – e nenhum sistema econômico é perfeito – é algo perfeitamente normal. É o que democratas estão fazendo nesse exato momento na Convenção Nacional do Partido Democrata. Promover uma discussão sobre o capitalismo liberal, que sequer é a única forma de desenvolvimento capitalista, está longe de ser doutrinação marxista.

Mas qual é o problema em debater as diversas formas de organização econômicas já existentes e propostas? O problema é que o debate torna os alunos conscientes para o fato de que o capitalismo liberal não é a única forma possível de organização econômica da sociedade. Questionar a realidade que nos é imposta incomoda os representantes do status quo. Os donos da Veja só são ricos graças ao capitalismo liberal. Mesmo o capitalismo estatista ou keynesiano desagrada-lhes. Querem que a sua seja a única revista presente nas salas de espera de consultórios médicos e salões de beleza. Lula subiu no ringue com a revista quando decidiu reduzir sua verba de publicidade para desenvolver a mídia independente e regional. A revista Veja, ao contrário do que insinua seu slogan, não é indispensável para se tornar bem-informado e inteligente. Ela mantém seus leitores na ignorância ao retratar todos aqueles que são contra o capitalismo liberal como comunistas comedores de criancinhas. E preocupa-lhe que alguns agentes sociais estejam esclarecendo as pessoas sobre as diferentes formas de organização econômica diferente daquela que é a sua preferida. A Veja tem medo que as pessoas se tornem esclarecidas e ela se torne dispensável.

À Veja não interessa que seus leitores saibam que o modelo
atual de capitalismo promove a desigualdade de renda.
E se algum daqueles jovens no Ateneu decidir que quer trabalhar como médico na periferia? É o fim da rígida sociedade de castas à brasileira. Para manter os privilégios de uns poucos no capitalismo liberal, a maioria deve ser sacrificada. Isto está ficando cada dia mais claro, inclusive nos Estados Unidos. Este é um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno que é Donald Trump. Sim, ele é bilionário, mas se apresenta como o candidato do anti-status quo. E ninguém chamaria-o de comunista. Ser contra as coisas como elas estão está muito, muito longe de ser comunista. O próprio Paulo Freire, figura tão execrada ultimamente em seu país, estava longe de ser um militante comunista. Ele baseou sua análise sobre a forma de organização da sociedade em Marx, é claro, mas isso não transforma alguém automaticamente em comunista. De forma semelhante, sua obra agora é a terceira mais citada em trabalhos acadêmicos de universidades estadunidenses, o que não significa que os acadêmicos sejam marxistas ou sequer freirianos. Além do mais, Freire era membro do Partido dos Trabalhadores que, no poder, mostrou ser um tradicional partido social-democrata, ou seja, que promove o capitalismo estatista. E foi justamente isto que me atraiu no PT.

Aqui é permitido ler e discutir a obra freiriana.
Em 2010, quando passei um mês no Canadá, em intercâmbio, vi A Pedagogia do Oprimido numa estante da livraria da Universidade de Victoria. Imediatamente lembrei-me da ofensa proferida contra Freire no panfleto político da Editora Abril. Fiquei emocionado por ver um brasileiro que não era jogador de futebol sendo reconhecido no exterior. Ao mesmo tempo, fiquei triste pela forma como ele é tratado pelos pseudointelectuais do Brasil. Pensei comigo mesmo: precisei vir a 10.000 quilômetros de casa para finalmente ver Paulo Freire sendo reconhecido pela revolução que propôs na pedagogia e que serviu de modelo para o sistema educacional dos países escandinavos – países capitalistas estatistas, diga-se de passagem –, mas jamais para seu próprio país. Aqui damos crédito àqueles que querem livrar a escola de uma suposta "doutrinação marxista" sem nem saber explicar por quê. Não há como manter um debate inteligente com quem quer interditar o debate baseando seus argumentos numa revista que, a despeito de estar presente em todas as salas de espera do país e também nas salas de aula do estado de São Paulo, não consegue sobreviver sem a teta generosa da Secom e teve que promover um golpe de Estado para não ir à falência.

Essa história de "Escola sem Partido" não começou hoje, infelizmente. Estamos presenciando apenas o seu apogeu. Tudo começou quando a mídia brasileira decidiu agir como um partido político, dando espaço para pseudointelectuais como Constantino e Azevedo e permitindo que eles atacassem a nata do pensamento acadêmico pátrio para prejudicar o PT. Também deve-se destacar a guinada à direita do PSDB, que percebeu que teria mais chances de derrotar o PT se apostasse no neoconservadorismo. No meio disso tudo está a classe média, que, ansiando por uma mudança ainda maior do que aquela que os governos do PT propiciaram, permitiu ser utilizada como massa de manobra das forças conservadoras. No entanto, os idiotas úteis não estão voltando para os braços do PSDB. Já perceberam seu jogo sujo e se desencantaram com a política como um todo. O resultado final do processo de destruição do PT – indesejado pelas forças conservadoras da mídia e da política – é a nazificação do Brasil. E o nazismo não é muito exigente ao escolher suas presas. Não adianta falar "não somos do PT". Vai ser preciso provar, pois o maior desejo do nazista é eliminar seus inimigos e qualquer desculpa serve para justificar sua sede de extermínio. Enxergam apenas o que querem, pois bebem sempre a água da mesma fonte.

O nazismo não é muito exigente com suas vítimas.
Uma dessas fontes é a Veja, que, em medos da década passada, decidiu que seria uma revista feita por e para comentaristas de portal. A política nunca deveria ter se tornado o reino das emoções. Até líderes de organizações criminosas sabem que a pior coisa que se pode fazer é agir no calor do momento, pois os resultados são difíceis de serem previstos. Mas a mídia brasileira, que nunca sobreviveu sem a verba de publicidade dos governos decidiu arriscar e colocar esse elemento na política. A Veja foi a pioneira, justamente por ser a que mais corria o risco de desaparecer, junto com o resto da mídia impressa. Podem até sobreviver, mas não pagarão o preço por terem introduzido as emoções, principalmente o ódio, na político. Nós, as vítimas do ódio, é que vamos pagar esse preço. Busco, cada vez mais, colocar a razão na frente da emoção. Meu crescimento enquanto ser humano depende disso e não estou disposto a retroceder porque alguns idiotas úteis decidiram que o PT e a esquerda seriam a válvula de escape para todos os problemas do universo conhecido e desconhecido. É uma tarefa cada vez mais homérica. Qualquer que seja o resultado dessa história de "Escola sem Partido", já perdemos, pois permitimos que nossos instintos mais básicos entrassem no debate político.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quem cria corvos...

Por que em 2003 Bolsonaro não chocava a Rede Globo?
Há um provérbio espanhol que deveria estar em voga no Brasil atual: cría cuervos y te sacarán los ojos ("cria corvos e te arrancarão os olhos"). É particularmente útil porque, na sua sanha antipetista, a direita moderada que era o PSDB, alinhou-se aos elementos mais delirantes da direita nacional. Teóricos da conspiração que acusam a Pepsi de fabricar seus refrigerantes a partir de fetos abortados e gente que acusa o ex-presidente Lula de tanta coisa que quando apresentam uma denúncia consistente contra ele eu simplesmente não consigo acreditar nela. No meio de tantos lunáticos, um extremista chama a atenção pelo tamanho de seu apelo junto à classe média que foi ao paraíso sob o lulismo e agora se volta contra o PT devido à crise econômica. Trata-se do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que tem, entre as personalidades políticas brasileiras, a terceira página mais curtida no Facebook.

Apoiador de Lula em 2002, quando era do PTB, Bolsonaro logo terminou sua lua-de-mel com o PT e, já no ano seguinte, agrediu verbalmente a colega Maria do Rosário (PT-RS) enquanto esta dava uma entrevista para a equipe de jornalismo da RedeTV no corredor da Câmara dos Deputados. Foi a primeira vez que ele disse a outro ser humano "não estupraria você porque você não merece". Na época não existiam redes sociais e a agressão passou relativamente despercebida. A partir de 2005, no entanto, o PT foi sendo transformado pela grande mídia na razão de todo o mal da nação com a revelação do escândalo do mensalão por repórteres que se diziam chocados, mas que se recusaram a cobrir o mensalão de FHC. Conforme figuras até então restritas às entranhas da internet foram se tornando parte do mainstream do debate político midiático, cada vez mais as discussões foram sendo pautadas pelo ódio a Lula e a seu partido e por questões de ordem moral.

Em 2011 o STF arquivou uma denúncia contra o deputado
devido sua fala racista em um episódio do CQC.
Se na campanha de 2006 Geraldo Alckmin teve que prometer que não privatizaria as empresas estatais, em 2010 Dilma Rousseff teve que prometer que não legalizaria a interrupção voluntária da gravidez no país que é o campeão mundial em morte de mulheres por abortos malfeitos. Aquela foi a campanha mais suja até então. E o ódio latente ao PT e seus apoiadores (pobres, negros, LGBTs, feministas, etc.) estava pronto para reemergir a qualquer momento. Logo após a posse de Dilma eis que a Band resolve colocar Bolsonaro num episódio de seu CQC. No programa em questão, ele diz à cantora Preta Gil que seu filho jamais namoraria uma negra porque ele recebeu boa educação dos pais. Como todo bom fascista, ele covardemente nega a afirmação e diz que entendeu errado a pergunta, embora a dicção de Preta seja a mais clara possível. O episódio, massificado pelas redes sociais, rendeu-lhe seus primeiros questionamentos na Justiça e também os primeiros fãs fora do estado do Rio de Janeiro, justo aqueles que mais odeiam o PT e tudo aquilo que ele representa.

Em junho de 2013, Dilma Rousseff enfrentou, pela primeira vez, amplos protestos antigoverno. A narrativa de que o PT era a fonte de todo o mal colou, ajudada por uma péssima equipe de comunicação no Palácio do Planalto e por uma certa reclusão da mandatária. A mídia se apressou para pintar Marina Silva (Rede) como a musa dos manifestantes. Antes fosse só ela. Com seu caráter apartidário, os protestos logo foram sendo tomados por elementos de extrema-direita, ao ponto dos próprios organizadores serem expulsos de um ato na Avenida Paulista. Bandeiras do PT foram rasgadas, militantes negros e LGBT foram agredidos. O brasileiro, até então mais preocupado com a final da novela e/ou do campeonato de futebol, sentiu-se empoderado para tomar as ruas e participar do debate político de seu país. Principalmente os analfabetos políticos e aqueles que aprenderam história e sociologia através da revista Veja.

Em 2013 a extrema-direita perdeu a vergonha e tomou as ruas.
Após mais de uma década no poder, a esquerda envelheceu e saiu de moda. O cool agora é se opor ao PT, mas não de maneira crítica e racional. E sim como gado em boiada, o que significa dar um belo tiro no próprio pé. Não importa o histórico do PT em defesa dos trabalhadores; a discussão é emocional. E, justamente por isso, cresce de maneira assustadora o apoio à extrema-direita em todo o país. Bolsonaro possui hoje 7% das intenções de voto segundo a última pesquisa Vox Populi e é o candidato a presidente menos rejeitado pela população, com 34% de rejeição segundo o Ibope. A criminalização do PT e de partidos outrora aliados, fomentada por anos pela grande mídia, não favoreceu seu queridinho PSDB. Justo pelo contrário, fez com que todos os políticos associados a partidos e ideologias tradicionais fossem igualmente repudiados pela população.

Não é incrível a inversão de valores na sociedade brasileira que faz com que o candidato a presidente da extrema-direita seja o menos rejeitado? Aquele que em 2014 disse novamente à Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merece e que homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra — reconhecido pela Justiça como torturador — durante a votação do impeachment. Como o fim da escravidão, o término da ditadura não colocou curativos sobre as feridas abertas daquele período. Tivemos a oportunidade de fazê-lo em 2010, quando o STF analisou um pedido para rever a lei de anistia e punir os torturadores do regime militar, já que tortura é um crime imprescritível e impassível de anistia. Mas não o fizemos e volta e meia essas feridas voltam a sangrar. Talvez se tivéssemos seguido as recomendações da ONU para redemocratização figuras como Bolsonaro hoje não existiriam, como elas não existem na Argentina, no Uruguai e no Chile, referências em transição democrática no Cone Sul. Preferimos seguir o Paraguai (e agora teremos um golpe paraguaio).

Só agora a direita descobriu que estava andando com fascistas?
A Globo, que até então se manteve alheia ao fenômeno Bolsonaro, decidiu fazer uma matéria em tom crítico ao deputado no Fantástico do último domingo. Confesso que não assisti à matéria. O boicote à emissora continua de vento em popa aqui em casa. No entanto, não preciso assistir à matéria para dizer que o efeito almejado pela Globo não será conquistado. Ao dar espaço para Bolsonaro, mesmo que em tom crítico, a emissora dá visibilidade a ele. Deviam ter se posicionado contra Bolsonaro muito antes do episódio da homenagem a Ustra. Mas a sanha da mídia para tirar o PT do poder a qualquer custo não permitia isso. Bolsonaro lhes era útil. Agora que desfecharam o golpe final contra o PT, se voltam contra a direita radical cuja existência ignoraram, como se o antipetismo já não se confundisse com o próprio fascismo. Criam corvos e não querem ser bicados por eles?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Os jovens vão às ruas para defender a democracia no Brasil


Há um pouco de notícia boa vindo de uma situação horrível no Brasil, onde o governo do Partido dos Trabalhadores (ou PT) está em retirada, alijado pela corrupção auto-infligida e pelo ataque da direita a suas políticas distribucionistas: os jovens estão aparecendo para defender a social-democracia. 

Mês passado o Brasil testemunhou dois enormes protestos de rua, cada um deles reunindo cerca de um milhão de pessoas. O primeiro, em 13 de março, pedia o impeachment da presidente Dilma Rousseff e recebeu ampla cobertura da mídia nos Estados Unidos. O segundo, em apoio a Dilma e ao Partido dos Trabalhadores, ocorreu cinco dias depois, em 18 de março. Quase não foi noticiado nos veículos de mídia de língua inglesa.

Segundo uma comparação estatística, significativamente mais pessoas de 12 a 35 anos de idade participaram do segundo protesto em comparação ao primeiro. O PT governa o Brasil há 13 anos, sob dois presidentes: Luiz Inácio Lula da Silva (2003—2011) e Dilma Rousseff. Isso significa que a maioria daqueles que saíram às ruas em defesa do PT tem pouca experiência com a vida política antes da governança do PT. Mesmo assim, acham que os valores de esquerda que o partido representa — democracia econômica, democracia participativa, inclusão racial e solidariedade social — valem a pena serem defendidos. Pelo menos o futuro parece pertencer à esquerda, embora o presente nem tanto.

O segundo ponto de polarização é a riqueza: 43 porcento daqueles que tomaram as ruas em 13 de março exigindo a saída de Dilma ganha 10 vezes (ou mais) do que o salário mínimo brasileiro. E, como muitos notaram, o protesto antigoverno em 13 de março tendeu a ser mais pálido, uma vez que a riqueza no Brasil é correlata a tons de pele mais claros.

A fotografia que, segundo Stephanie Nolan, tornou-se um
"emblema" dos protestos antipetistas.
Uma fotografia, como Stephanie Nolan do The Globe and Mail notou, tornou-se um "emblema" do protesto anti-PT, viralizando nas redes sociais. Ela mostra um "casal branco que mora numa rua arborizada de Ipanema. Eles trouxeram com eles seu cachorrinho branco, numa coleira com cores coordenadas, e suas duas filhas bebês, empurradas num carrinho por uma empregada negra trajando o uniforme todo branco que alguns brasileiros ricos insistem que seus trabalhadores domésticos vistam" — o que, num país que "foi a maior e mais contínua sociedade escravista do mundo" e onde a escravidão racial só foi abolida na década de 1880, lembrou a alguns observadores as roupas das escravas domésticas.

O PT vem se desviando das acusações de corrupção desde o primeiro mandato de Lula, com o Congresso brasileiro realizando, de diferentes formas, uma investigação quase que contínua de transações políticas ilegais desde 2005. Como nos EUA, subornos, recompensas ilegais, propinas e favores por baixo dos panos são rotineiros e, no Brasil, envolvem todos os partidos, grandes ou pequenos. Mas foi só após a reeleição de Dilma por uma margem estreita em 2014, enquanto a economia começava a piorar, que as investigações tomaram um rumo hiper-partidarizado, impulsionadas por um Congresso altamente conservador e oposicionista e animadas por uma mídia oligárquica inclinada a tirar o PT do poder. Glenn Greenwald, David Miranda e Andrew Fishman do Intercept esmiuçaram a crise e as dinâmicas classistas e raciais, assim como as maquinações políticas por trás dela.

Durante o último ano, o alvo desta campanha não tem sido tanto assim Dilma — embora agora ela enfrente a ameaça real do impeachment — e sim Lula, visto por muitos como principal chance do PT. Limitado a exercer dois mandatos consecutivos em seu governo, ele poderia tentar um terceiro mandato em 2018, o que muitos na esquerda brasileira veem não apenas como uma oportunidade do PT em manter o poder, mas também (como Gianpaolo Baiocchi discute abaixo) de renovar os princípios de movimento social do partido.

Na América Latina e no Caribe, golpes e tentativas de golpe recentes provocaram a captura de presidentes por formas de segurança — na Venezuela, de Hugo Chávez em 2002; no Haiti, de Jean-Bertrand Aristide em 2004; e, em Honduras, de Manuel Zelaya em 2009. É algo como um ritual a captura servir de humilhação pública. Em 1954, o presidente deposto da Guatemala, o democraticamente eleito Jacobo Arbenz, foi forçado a ficar só de cueca e ser fotografado assim como condição para que pudesse deixar o país. Em Honduras, em 2009, Manuel Zelaya foi preso no meio da noite, vestindo seu pijama.

Pense no que está acontecendo no Brasil como um golpe antecipatório: o esforço coordenado para prejudicar Lula antes de 2018. No mês passado  a polícia levou o ex-presidente em custódia, interrogando-o por três horas e vasculhando sua casa. Mais recentemente, um juiz liberou interceptações telefônicas de uma conversa que ele teve com Rousseff, na qual eles discutiam sua nomeação como ministro-chefe da Casa Civil dela. Em seguida a Justiça impediu a nomeação. Agora um promotor pede que o ex-presidente seja colocado em "prisão preventiva". Lula tem responsabilidade significativa pela crise atual, não apenas por qualquer corrupção na qual o PT esteja envolvido, mas também por seu papel em transformar o PT de um movimento social num partido mais tradicional, separado de sua base mobilizada. Esta separação funcionou razoavelmente bem enquanto a economia estava crescendo, mas tornou-se catastrófica quando ela contraiu. Divorciado de sua fonte original de poder social, o governo do PT, durante o segundo mandato de Dilma, adotou a austeridade.

Mesmo assim, por mais que a crise seja auto-infligida, não dúvida de que a campanha anticorrupção é um véu para um projeto coordenado de restaurar o poder classista das elites econômicas e políticas, brancas, do Brasil. Até os eventos recentes, Lula, apesar de seu próprio papel na transformação do PT, se colocava como porta-estandarte dos esforços para devolver o partido às suas raízes operárias. Este esforço sofreu um grande revés e permanece incerto se Lula, hoje com 70 anos de idade, conseguirá recuperar-se da queda nas pesquisas de intenção de voto e dos promotores audaciosos. Se ele conseguir, será apenas através da mobilização dos jovens que saíram às ruas em 18 de março e que estão chamando a campanha "anticorrupção" daquilo que ela é: um golpe.

Seria difícil relatar a crise atual de maneira exagerada, tanto para a sociedade brasileira quanto para a esquerda latino-americana em geral. Menos de uma década atrás, Lula era uma peça-chave num bloco ascendente de países, que incluía a Argentina e a Venezuela, que efetivamente empurrou para trás a ortodoxia militarista e de livre-mercado de Washington. Como maior e mais diversificada economia da região, o Brasil serviu de contra-pesa para Washington. acreditando que uma nova economia política regional se aglutinaria em torno de sua força gravitacional. Agora o Brasil (e a Venezuela) encontram-se em caos político e a Argentina foi devolvida aos negociantes de títulos.

Gianpaolo Baiocchi, professor da
Universidade de Nova York.
Pedi a opinião de Gianpaolo Baiocchi, sociólogo e colega na Universidade de Nova York — onde ele é diretor do Laboratório de Democracia Urbana — que tem escrito amplamente sobre a política brasileira (incluindo uma série de livros pioneiros sobre as experiências radicais do Brasil em orçamento e governança participativa, incluindo Bootstrapping Democracy e Militants and Citizens), sobre a crise. Há um número de questões importantes em seus comentários abaixo, mas um ponto especial que se deve manter em mente é que a perseguição da elite não é motivada pelos fracassos do PT — apesar das atuais condições econômicas sombrias — e sim por seu notável sucesso em reduzir a pobreza e democratizar a sociedade.

Greg Grandin: Os acontecimentos estão fluídos no Brasil, você poderia nos dar uma visão geral da situação e o que, na sua opinião, levou ao impasse atual?

Gianpaolo Baiocchi:
Enquanto escrevo, tivemos uma semana de protestos de rua contra e a favor do governo. As elites brasileiras e muitas figuras políticas na direita e na centro-direita estão apostando num tipo de ruptura institucional — seja ela uma renúncia ou a remoção aberta de Dilma Rousseff, a atual presidente, no segundo mandato pelo Partido dos Trabalhadores. Notavelmente, o Judiciário pareceu desistir de qualquer pretensa imparcialidade, elevando os ataques a Rousseff e ao ex-presidente Lula e revelando publicamente horas de grampos do ex-presidente Lula.

Dilma está enfrentando um processo de impeachment no Congresso desde o ano passado. A alegação legal para o impeachment é na verdade uma tecnicalidade relativa ao orçamento nacional: a liberação de recursos do orçamento de um ano para o seguinte, uma manobra fiscal questionável, mas amplamente praticada no Brasil em todos os níveis de governo. Ao mesmo tempo, há uma abrangente investigação de corrupção, a chamada "Operação Lava Jato", que desenterrou uma série de esquemas de pagamentos envolvendo a empresa petrolífera estatal, muitos políticos de todo o espectro político e empreiteiras. Até recentemente o processo de impeachment parecia improvável de obter êxito — sua base legal era fraca, Rousseff e o Partido dos Trabalhadores tinham aliados o suficiente no Congresso para barrá-lo e uma porção significativa do público parecia não ter apetite para o que parecia um assalto velado ao poder contra uma presidente impopular, mas democraticamente eleita. Rousseff, é claro, está numa posição tênue há algum tempo, presa entre o ódio da elite, o isolamento das bases de apoio do partido, por ter levado a cabo medidas de austeridade, e uma economia sem crescimento.

Mas se até agora havia uma chance razoável de uma resolução e que ela terminaria seu mandato, no momento o país se encontra mergulhado numa crise muito complexa. O ex-presidente Lula foi acusado de posse indevida de um pequeno apartamento e foi temporariamente preso e interrogado no início de março. Rousseff então nomeou-o para um cargo de ministro — uma medida que iria transferir os procedimentos legais contra ele para a Suprema Corte e reforçar a popularidade em declínio dela. Sua nomeação tem sido questionada nos tribunais e é incerto se ele poderá assumir o cargo. Mas, numa medida absolutamente sem precedentes — e legalmente questionável — projetada para inflamar o descontentamento popular, o juiz que executa a investigação de corrupção divulgou ao público os arquivos de áudio de uma escuta que ele havia ordenado entre Lula e Rousseff. Embora os arquivos de áudio na verdade não revelam muita coisa, o ato simbólico da escuta, a audácia da liberação do áudio, a humilhação de uma "condução coercitiva" e interrogatório numa delegacia de polícia assinalaram para muitos brasileiros que o Judiciário não é mais uma entidade neutra.

A situação no Brasil é hoje acelerada e muito complexa, com uma sobreposição de crises — econômica, política, legal-institucional — diante de um vácuo processual para o qual não há, literalmente, procedimentos estabelecidos. Para muitos brasileiros há a sensação de que não há regras, de que os conflitos políticos são resolvidos através da mobilização nas ruas ou sob uma lógica de vale tudo. Os precedentes que estes acontecimentos estão definindo para a democracia brasileira são muito perigosos do ponto de vista de uma democracia institucionalmente estável.

Leitores da cobertura de língua inglesa (com a exceção de alguns meios, como The Intercept) têm recebido um relato muito enviesado do escândalo de corrupção, calçado numa narrativa que foca mais na queda de popularidade do partido governista e de Dilma. O que falta nesse relato?

Muitos na mídia internacional têm apenas repetido o viés editorial e de reportagem da mídia dominante do Brasil, que tem, na maior parte do tempo, essencialmente feito agitação a favor do impeachment por vários meses. Essas coberturas têm sido completamente parciais, frequentemente enganadoras, e não há sequer a pretensão de apresentar perspectivas diferentes. Como resultado falta, à mídia internacional, várias peças importantes da história.

Em primeiro lugar, os leitores do New York Times ficariam surpresos ao descobrir que há muita oposição ao impeachment. A marcha em apoio ao governo atraiu, segundo estimativas da mídia independente, mais de um milhão de brasileiros às ruas. Embora os movimentos sociais tenham mantido uma postura crítica às políticas recentes de Rousseff, está claro que eles vão se mobilizar e sair às ruas para defender as instituições democráticas e as conquistas sociais das administrações do PT. Os protestos em defesa do governo também atraíram uma população mais ampla e diversa do que os comícios pró-impeachment. Negros, pobres e ativistas abertamente gays são mais visivelmente presentes nos protestos pró-governo de uma maneira que simplesmente não é o caso nas mobilizações pró-impeachment (embora pesquisas tenham mostrado que os muito pobres estejam essencialmente ausentes de ambos). Um grande número de intelectuais brasileiros tem similarmente se oposto ao impeachment, incluindo acadêmicos, juristas e figuras públicas de todo o espectro político. Figuras como Caetano Veloso, Gilberto Gil e o ex-ministro Bresser-Pereira têm sido vozes ativas na questão e, curiosamente, suas declarações nunca aparecem na mídia internacional.

Em segundo lugar, há pouca discussão sobre o revanchismo conservador do passado recente do Brasil. Os protestos antigoverno e o impeachment precisam ser entendidos como parte de uma reação crescente no Brasil contra os últimos doze anos de distribuição de renda dirigida pelo PT. Há muito mais em jogo para os defensores do impeachment do que apenas a corrupção. É certo que Rousseff nunca foi implicada nas investigações de corrupção ela mesma. E as investigações de corrupção têm implicado políticos de muitos partidos, com a vasta maioria dos implicados pertencentes ao direitista Partido Progressista. Ainda assim, os protestos são feitos sempre visando Rousseff e o PT. Então eles não são só sobre a corrupção, mas, ao invés disso, são sobre o ressentimento à esquerda. Nos últimos anos tem havido uma hostilidade aberta da elite e da classe média contra as minorias, os pobres e o PT (visto como patrono político deles) de forma que simplesmente não se via antes. Há, hoje, uma expressão de sentimentos de direita na política que tem se aproveitado desse descontentamento da elite. O Congresso atual é, por exemplo, mais conservador do que em qualquer outra época da história recente. Alguns dos políticos mais populares do Congresso atualmente defendem políticas como a tortura e o extermínio dos povos indígenas. O Congresso agora possui uma expressiva "bancada da bala", que apoia respostas militaristas ao crime, assim como uma substancial bancada fundamentalista cristã que se opõe aos direitos dos gays e uma bancada ruralista muito grande, que se opõe à reforma agrária e aos direitos indígenas.

Você poderia comentar sobre a dimensão racial da crise? Há uma sensação de que as leves políticas distribucionistas do PT provocaram nos ricos e brancos uma histeria racial e, agora, com a economia nocauteada, eles estão agindo para recuperar sua vantagem e restaurar a "correta" hierarquia racial.

Eu acho que sim. Este é, como você sabe, um tópico difícil de se discutir abertamente no Brasil. A composição dos grupos sociais mobilizados contra Rousseff é completamente diferente dos setores que apoiam-na. Não há assim tantos dados em si sobre os participantes dos últimos protestos, mas os dados que nós temos mostram pelo menos um perfil classista claro — os manifestantes pró-impeachment levam uma vida melhor e todas as reportagens mostram claramente que os negros e os pobres estiveram em maior volume para defender o governo. E sabemos que os sentimentos políticos sobre o Partido dos Trabalhadores e suas plataformas se tonaram polarizados.

Se considerarmos o que ocorreu no Brasil nos últimos doze anos ou mais sob o PT, houve uma grande ascensão social. A pobreza extrema foi reduzida em 75 porcento e a pobreza no geral em 65 porcento, em maior parte através das transferências diretas de dinheiro, hoje recebidas por 44 milhões de brasileiros, ou um em cada quatro. O salário mínimo, ajustado pela inflação, dobrou. Essas são políticas generalistas, mas dadas as profundas hierarquias raciais do Brasil, seus principais beneficiários foram os negros. E uma das questões mais perturbadoras para os brasileiros da elite — aquela que realmente traz à tona seus piores sentimentos e preconceitos — tem sido a ação afirmativa ("quotas") nas universidades. Um bastião tradicional do privilégio elitista, a maioria das universidades de elite agora reservam quase metade de suas vagas para os candidatos da ação afirmativa. Embora o Brasil esteja longe de se tornar uma verdadeira democracia racial e ainda existam questões terríveis em relação aos assassinatos de homens negros pela polícia, a ordem racial foi perturbada.

Podemos esperar alguma notícia boa? Há alguma chance dessa crise provocar uma revitalização do PT? A história tradicional do PT é que, após as três primeiras candidaturas fracassadas de Lula à presidência, o partido, para finalmente vencer em 2002, precisou se afastar de suas raízes nos movimentos sociais e se tornou um veículo eleitoral tradicional, engajando-se em pactos desmobilizantes com os partidos tradicionais, contando com consultores e construindo uma parede de fogo entre sua liderança e os operários. Há algumas chance de que a mobilização em defesa de Dilma, e agora Lula, possa forçá-lo a recuperar sua energia de oposição? E, se isso acontecer, o que isso significaria para as eleições presidenciais de 2018?

Algumas pessoas estão esperançosas sobre o papel de Lula no governo Dilma, se permitirem que ele assuma. Ele tem sido crítico das políticas de austeridade e tem mobilizado sindicatos e movimentos sociais contras as políticas de austeridade. Poderíamos esperar a baixa da taxa de juros, mais gastos com políticas sociais e infraestrutura se ele assumir o cargo. Há conversas sobre sua tentativa de articular um novo pacto social em torno de sua plataforma desenvolvimentista. Ele realmente possui um carisma tremendo e é um político muito apto e muitos esperam que ele seja capaz de mobilizar uma aliança nacional em torno desse projeto progressista. O que aterroriza as elites no Brasil é a possibilidade de uma candidatura presidencial de Lula em 2018, razão pela qual há um enorme esforço para desacreditá-lo agora.

Mas eu acho que independente dele assumir ou não, este tem sido um período importante de reflexão para a esquerda no Brasil e para o PT em particular. Há um número de pessoas engajadas num processo de repensar o que a próxima iteração do que uma estratégia eleitoral de esquerda deve ser. Pessoas como o ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, têm levantado essas questões, assim como pessoas em partidos semelhantes que surgiram do PT, como o PSOL e o PSTU. A novidade do PT era que ele era um partido "onde os movimentos têm voz", E uma coisa que se tornou abruptamente clara nos protestos de 2013 foi que o partido — após todo este tempo no governo — se tornou muito distante de alguns dos novos movimentos emergentes na sociedade brasileira, Há várias questões que precisam ser tratadas — é certo que ninguém esperava tamanha quantidade de reação da elite; outra questão é a necessidade de uma estratégia de mídia capaz de competir com os grandes meios de comunicação do Brasil; e, é claro, há várias questões sobre democracia interna no partido e como lidar com a corrupção. Alguns sugeriram até uma refundação do partido, enquanto outros agora questionam a própria estratégia de priorizar as eleições em primeiro lugar. Há muitas lições a serem aprendidas, uma série de realizações importantes, assim como reveses que servem de aprendizado nessas últimas três décadas de PT. Eu verdadeiramente acho que há um caminho para as forças progressistas saírem desta crise e que pode lhes reenergizar para as eleições de 2018 e além.

Isto, é claro, presumindo que ainda haverão instituições políticas no Brasil quando esta crise acabar, razão pela qual a maioria dos ativistas progressistas no Brasil estão fazendo da defesa da democracia social sua primeira prioridade.

domingo, 24 de abril de 2016

Lições do Brasil

Editorial do Buenos Aires Herald (Argentina)

Uma linha de argumentação sendo colocada a favor da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, enquanto ela luta contra o impeachment é que ela é vítima da seletividade, uma vez que as mesmas questões não estão sendo levantadas sobre seus perseguidores políticos amplamente corruptos — tal raciocínio é tão certo quanto errado. É errado porque, de várias formas, governos que defendem ideais progressistas e de esquerda devem ter padrões éticos mais elevados do que aqueles que abraçam descaradamente o capitalismo selvagem, em especial no que diz respeito à má alocação de recursos públicos — mesmo assim, tais críticos também estão certos, porque no fim das contas ainda estamos discutindo sobre a seletividade.

Autoridades que roubam do povo devem de fato ser presas se julgadas com todas as garantias legais, mas a simplicidade básica deste princípio é enlameada por juízes do establishment e pela mídia de direita, que contradizem a sinceridade republicana em cada etapa do processo que cobrem — com a magnitude que dão a eventos menores, com seus vazamentos intencionais, etc. Saindo um pouco do exemplo brasileiro, tomemos um episódio local — o caso Hotesur evolvendo hotéis patagonianos ligados à família Kirchner. Se julgado conforme a acusação, este caso expõe uma transferência sistemática de recursos públicos para contas em bancos privados — isto é extremamente sério e deve ir a julgamento. Mas não sob um juiz como Claudio Bonadío, com um passado obscuro e que invade sem o devido mandato e joga as garantias legais no lixo. Tampouco o processo permanece totalmente limpo se, enquanto o procedimento jurídico está sendo abusado, a imprensa silencia-se sobre escândalos igualmente graves.

Contudo, por mais válidos que sejam, nenhum dos argumentos acima são suficientes para aqueles que defendem governos progressista, uma vez que seus líderes estão sendo acusados de corrupção e há todas as chances de que as acusações sejam válidas em pelo menos alguns casos. Tais defensores podem sempre choramingar contra o golpismo, que muitas vezes pode ser verdadeiro (como no caso do Brasil), mas a única solução real é garantir que nenhum líder roube para começo de conversa. Isto, por sua vez, pode implicar numa certa mudança estrutural nos movimentos progressistas, de cima para baixo e de cima para baixo — em vez de líderes carismáticos e onipotentes dando nome aos movimentos insistindo que os fins justificam os meios, militantes lúcidos devem reivindicar o controle para garantir que a riqueza não seja extraviada antes que possa ser redistribuída. E se puderem fazê-lo antes de O Globo e Bonadío começarem a ditar as regras, tanto melhor.

sábado, 23 de abril de 2016

Por que alguns falam que o Brasil está no meio de um “golpe suave”?

Por Héctor Perla Jr., em The Washington Post (EUA)

Héctor Perla, Jr.
O governo democraticamente eleito do Brasil está no noticiário, mas estaria ele no meio de um golpe? Ao contrário dos golpes latino-americanos do século XX, a turbulência atual no Brasil não envolve o Exército nem derramamento de sangue – mas o Brasil pode passar por uma mudança de regime, um “golpe suave”.

Tenho estudado a política latino-americana pelos últimos 20 anos e documentado as estratégias utilizadas pela direita para manipular a opinião pública e desacreditar governos socialistas. O que está acontecendo no Brasil já aconteceu em outros lugares.

Breve resumo da crise política no Brasil

No Brasil, gigante da América do Sul do tamanho de um continente e rico em recursos naturais, o Partido dos Trabalhadores (PT) venceu a presidência em 2003 e permaneceu no poder nos últimos 13 anos. Comandado por Luis Inácio Lula da Silva, líder carismático que a Newsweek uma vez chamou de “o político mais popular da Terra”, o PT consolidou seu amplo apelo através de políticas econômicas que geraram crescimento com baixa inflação e de programas sociais para distribuir renda num dos países mais desiguais do mundo.

Em 2011, Dilma Rousseff substituiu seu mentor e se tornou a primeira presidenta do país. Rousseff nunca teve o mesmo nível de popularidade que Lula, que em 2016 foi implicado num caso de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a empresa estatal de petróleo, Petrobras. Os promotores nunca acusaram Rousseff de envolvimento com corrupção, mas o presidente da Câmara dos Deputados levou adiante um processo de impeachment contra ela por suposto mau uso de dinheiro de bancos públicos para cobrir lacunas no orçamento do governo. Em 11 de abril, uma comissão na Câmara votou a favor do impeachment.

Espera-se que a totalidade dos membros da Câmara vote sobre o impeachment em 17 de abril. Se uma maioria de dois terços votar pelo impeachment, então o processo segue para o Senado brasileiro.

Tanto Lula quanto Rousseff acusam os partidos de direita do Brasil se conspirar para derrubar o governo do PT, chamando isso de uma tentativa de golpe. Numa entrevista em 12 de abril, Rousseff acusou o vice-presidente Michel Temer de conspirar abertamente para “desestabilizar uma presidente legitimamente eleita”. No início de abril, milhares de apoiadores de Rousseff se manifestaram nas cidades brasileiras, cantando “não vai ter golpe”.

Mas há uma história mais profunda do que apenas a corrupção ou o oportunismo dos adversários políticos de Rousseff. Eventos recentes na América Latina sugerem que o que está acontecendo no Brasil faz parte de uma ampla campanha da direita para manchar o PT e derrubar tanto Rousseff quanto Lula.

Usando um verdadeiro leque de táticas, os partidos de direita procuram difamar os políticos de esquerda que estão no poder através de meios institucionais, assim como meios não-eleitorais e antidemocráticos.

Vimos uma reação similar da direita contra os regimes socialistas obter êxito no Paraguai e em Honduras. Os partidos de direita tentaram minar regimes de esquerda na Bolívia, em Equador, em El Salvador e na Venezuela. Aqueles na esquerda que são vítimas da direita latino-americana veem esta estratégia como equivalente do século XXI a um golpe de estado.

Investigações corruptas da corrupção?

No caso brasileiro, os pedidos de afastamento baseiam-se em acusações inconsistentes, indiretas e seletivas. Até hoje não há evidências que liguem Rousseff ao escândalo de corrupção. Enquanto isso, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que está liderando o processo de impeachment, foi apontado nos Panama Papers como recebedor de propina de uma empresa multinacional envolvida no caso de corrupção da Petrobras. De maneira semelhante, muitos dos políticos de direita que lideram e apoiam os esforços pelo impeachment estão de fato enfrentando acusações de corrupção eles mesmos.

Se o processo de impeachment tiver êxito, Michel Temer se tornará o primeiro presidente do Brasil a representar seu partido (o PMDB) em mais de 25 anos. Mas o próprio Temer pode, em breve, enfrentar um processo de impeachment por corrupção.

Embora o alvejamento de Rousseff pela direita possa ser considerado antiético, é legal e está sendo levado a cabo através de canais institucionais formais. Mas os processos de impeachment são apenas um dos elementos da reação da direita contra governos socialistas da América Latina.

Um olhar profundo sobre as táticas contra governos de esquerda

Os ataques mais poderosos – e ilegais – contra a esquerda na América Latina envolvem espionagem, hackeamento on-line e cyberataques, incluindo campanhas de difamação através de mídias sociais e veículos de notícias. Times de operadores políticos high-tech conduzem espionagem ilegal, o que inclui a instalação de spywares em escritórios da oposição e subsequente roubo das estratégias de campanha e da base de dados de doadores de seus oponentes. Estas equipes hackeiam e desfiguram sites de campanha e caluniam adversários. Segundo uma análise, o uso de contas falsas em mídias sociais para manipular a opinião pública foi peça-chave nas tentativas de desacreditar candidatos socialistas na Nicarágua, na Colômbia, na Costa Rica, no México e em outros países.

Conforme discutido aqui, um juiz ordenou que fossem grampeadas as conversas telefônicas entre Rousseff e Lula – para que houvesse uma aparência de justificativa legal. Numa medida altamente incomum, o juiz que ordenou os grampos imediatamente revelou o conteúdo das gravações entre os dois para o público. Instantaneamente, veículos de informação e perfis nas redes sociais começaram a manipular as conversas para dar-lhes a aparência de infração criminal e inflamar a opinião pública contra o governo Rousseff.

Enquanto tudo isso pode soar como uma teoria da conspiração, um artigo recente na Bloomberg, “Como hackear uma eleição”, desnudou a profundidade e a difusão dessa estratégia da direita.

O hacker internacional Andres Sepulveda enfrenta um período na cadeia por seu papel num movimento internacional da direita para interferir em várias eleições latino-americanas. Através de suas revelações, podemos conhecer as táticas institucionais, psicológicas, midiáticas e de redes sociais que a direita desenvolveu para desafiar o socialismo do século XXI na América Latina. Embora Sepulveda não tenha sido contratado para trabalhar no Brasil, a campanha de difamação contra Rousseff adota várias ideias de sua cartilha.

Por ora o PT está reagindo. Um partido político bem organizado nacionalmente, o PT não deve ceder nem mesmo se o impeachment de Rousseff avançar. Mas o que acontecerá nas próximas semanas no Brasil trará implicações de longo prazo para os governos socialistas democraticamente eleitos de toda a América Latina.

Héctor Perla, Jr. é professor-assistente de estudos latino-americanos e hispânicos na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Seu livro “Sandinista Nicaragua's Resistance to US Coercion” será publicado em junho pela Universidade de Cambridge.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Como transformaram o PT em inodiável para mim

Já inventaram tanta asneira sobre Luiz Inácio Lula da Silva e sua família que me tornei indiferente às denúncias contra a família Silva mais famosa do Brasil. Mesmo que o tal sítio em Atibaia seja dele e que tenha sido ampliado através de tráfico de influências, não vou acreditar. Afinal de contas a Froboi, a Oi e até mesmo a Escola Superior de Agricultura da USP já foram apontadas como propriedades dos Silva no passado. Os opositores do ex-presidente me saturaram com tantas denúncias – a maioria delas falsas – sobre Lula. E isso vale para a imprensa também. Certa vez saiu num jornal que Lula estaria se divorciando de sua companheira de longa data, Marisa Letícia – que, ao contrário das esposas de tucanos, está sempre ao lado dele e não só de 4 em 4 anos – para se casar com sua "amante", a ex-modelo Luiz Brunet. Como Lula não se divorciou de Marisa e como até hoje jamais conseguiu se provar a participação dele no chamado "mensalão", que até hoje não entendi ao certo do que se trata (e nenhum opositor do presidente jamais foi capaz de me explicar), parei de acreditar no que a imprensa publica sobre ele.

A atual leva de denúncias contra o ex-presidente nos jornais – que a veterana atriz Eva Wilma chama de "caça às bruxas" – não surte efeito nenhum em mim, além da vontade de nunca mais ligar a televisão ou o rádio ou de abrir uma revista ou um jornal. O efeito das denúncias, em mim, é o contrário daquele que é surtido na maioria das pessoas: quanto mais acusam Lula, mais o emissário (e não o acusado) perde a credibilidade. Denunciar Lula perdeu o sentido para mim. Acusam-no pelo simples prazer de acusar, enquanto some dos jornais a denúncia de Mirian Dutra, amante de Fernando Henrique Cardoso, de que o ex-presidente tucano usou uma offshore (empresa aberta em paraíso fiscal para não pagar imposto de renda) para sustentar o filho dos dois no exterior. Isto tem sua razão de ser. Nas palavras de sua amante, Fernando Henrique é um membro "da aristocracia de São Paulo" que no mundo irreal desta. Já Lula é um retirante nordestino que experimentou a fome, o descaso do poder público com a educação e a saúde (sua primeira esposa e o filho que ela esperava morreram de infecção hospitalar). Ele não cresceu no mundo irreal de sítios luxuosos em Atibaia que tentam imputar a ele.

Dá pra confiar a nação em quem faz chacota com deficiência?
Boa parte das denúncias contra Lula – na imprensa e fora dela – são carregadas de ódio de classe e de preconceito regional. Sem falar na última moda das "manifestações democráticas" que eclodiram em 2015 que é ridicularizar o ex-presidente pelo fato dele ser amputado. O que ser pobre, nordestino e deficiente físico tem a ver com a capacidade de gerir a coisa pública? Franklin D. Roosevelt é considerado o maior presidente dos Estados Unidos no século XX e ele era deficiente físico. Abraham Lincoln é considerado o maior presidente da mesma nação no século anterior e ele teve uma infância pobre. Desmerecer o indivíduo devido a características pessoais que ele não pode mudar é o cúmulo da cretinice. Pessoas que não respeitam a trajetória e a individualidade do outro não têm credibilidade nenhuma para mim e tudo o que falam é nulo. As denúncias contra Lula, quando proferidas por gente assim, deixam de ser relevantes para mim. Até porque eu também sofro preconceito por não ser aquilo que a sociedade espera de mim. Sou homossexual e encontrei no Partido dos Trabalhadores a aceitação que jamais tive na sociedade em geral.

Sou um underdog (desprivilegiado que é atacado por todos) e transformar Lula e o PT em underdogs só vai fazer aumentar minha identificação com eles. A imprensa teria conseguido me fazer abandonar o partido se seus ataques fossem mais pontuais e referentes às suas falhas reais como, por exemplo, o fim da democracia interna. À grande imprensa surgida no período ditatorial, no entanto, não interessa criticar ninguém por falta de democracia. Ela não deseja uma sociedade democrática, pois sociedades democráticas não toleram a concentração dos meios de comunicação nas mãos de uma dezena de famílias. Da maneira como atuam desde 2005, atacando o PT por ser o partido dos trabalhadores que agora anseiam por tudo aquilo que os outros partidos e seus eleitores têm acesso, só fazem aumentar minha identificação com o partido. E o fato dos perseguidores dos underdogs, como os pastores evangélicos, estarem contra o PT, ajuda. A imprensa, para mim, também é inimiga de underdogs como eu e seus constantes ataques ao PT reduziram meu senso crítico para com o partido. Baseando minhas informações apenas na imprensa nacional, não sei mais dizer o que é verdadeiro e o que é falso em relação ao partido e a seu maior ícone, o ex-presidente Lula.

Quando quero saber se um programa do governo petista é bom ou quando quero saber a real dimensão das denúncias contra Lula consulto a imprensa internacional. O Los Angeles Times fez uma reportagem maravilhosa sobre o programa Mais Médicos e a BBC Brasil colocou em perspectiva as denúncias contra o ex-presidente, tendo o cuidado de ouvir os advogados dele em relação a todas elas. A impressão que tenho quando leio à imprensa nacional é que estou me deixando alienar por um grupo cuja única razão de existência é derrubar projetos políticos que não favorecem os grandes grupos de mídia e a plutocracia nacional. E a desconfiança é geral. Não é só sobre Lula e o PT. Duvido de tudo aquilo que sai na imprensa. E a culpa disso é da própria, de seu sensacionalismo contra o PT – e só contra o PT. Tirando entrevistas e algumas poucas colunas que ainda não foram tomadas pelos discípulos do astrólogo, tudo o que sai na imprensa é sem valor para mim. Podem até conseguir desconstruir o PT para a maioria da população, mas jamais vão destruir minha admiração pelos underdogs e pelas iniciativas políticas deles. Mesmo que tenha sido "clintonizado" pela  turma do José Dirceu nos anos 1990, o ideal de transformação social permanece, com ou sem PT, com ou sem  Lula. Por serem tão odiáveis em suas críticas, transformaram o PT em inodiável para mim.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Que gritem, Chico!

Não queria mais escrever nenhum texto esse ano. Mas sinto-me na obrigação de comentar o episódio ocorrido com Chico Buarque, talvez o maior intelectual vivo do Brasil na última segunda-feira na saída de um restaurante no bairro carioca do Leblon. O cantor, compositor e escritor saía do local com alguns amigos ilustres, entre eles o cineasta Cacá Diegues, o músico Edu Lobo e o jornalista Eric Nepomuceno, quando foi abordado por uma trupe de desocupados filhos da elite, do tipo que só países extremamente desiguais como o Brasil produzem, questionando o posicionamento político do artista. O grande feito de um deles foi ter namorado a atriz Cléo Pires; do outro, ser filho do Álvaro Garnero e ter dado um selinho no ex-jogador de futebol Ronaldo. O primeiro defende o ataque ao cantor, dizendo não entender como um cara inteligente como Chico Buarque pode apoiar o PT. Geralmente o não-dito fala mais do que o dito. Ele, na verdade, não consegue entender como pode um cara tão rico como Chico Buarque não reconhecer a hierarquia social do Brasil. Na cabeça deles, o poder político pertence aos filhos dos ricos como eles mesmos, Aécio Neves ou Donald J. Trump.

Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar.
Chico Buarque é, de fato, uma anomalia política. Nasceu na elite, estudou nos melhores colégios, come nos melhores restaurantes. Mas, por alguma razão, decidiu combater o cancro brasileiro. Como todos nós, Chico cresceu e vive na "Belíndia" (bairros nobres dignos da Bélgica e favelas iguais às da Índia), mas decidiu denunciá-la desde cedo em sua obra, o que lhe valeu a perseguição do regime militar, que confiscou todas as cópias do compacto simples de "Apesar de Você". Com sua enorme sensibilidade de poeta, Chico se sente insultado com o que, para os demais herdeiros da Casa Grande, é normal. E enxergou no PT uma forma de transformar tal sociedade injusta. Apesar de não ter rompido com o modelo capitalista brasileiro, que distribui o dinheiro de nossos impostos para bancos privados e da torcida contra da mídia nacional, os governos do PT aumentaram a renda dos mais pobres em 129% e tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU. Nos anos 1980, a fome era tão intensa no Nordeste que crianças do sertão nasciam com massa encefálica reduzida e Chico organizou uma versão local de "We Are The World", intitulada "Nordeste Já", para ajudar as vítimas da seca. 

Trinta anos se passaram desde o "Nordeste Já" e a realidade brasileira mudou. Talvez não tão intensamente quanto desejássemos, mas ela mudou. 2015 foi o ano mais quente da história do planeta e, pela primeira vez, nenhum dos nove estados do Nordeste declarou estado de calamidade pública por causa da seca. Pode-se discordar do PT o tanto que for, mas dizer que o Brasil não mudou ou que piorou desde 2003 é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Mas os playboys cariocas, assim como a versão deles no Senado (Aécio Neves) ou no Partido Republicano (Donald Trump), não desejam discutir fatos. Querem discutir pessoas, fazer ataques pessoais baseados em preconceitos. Isso é perigosíssimo, porque é assim que surge o nazismo. A classe dominante da Alemanha conseguiu convencer o povo de que os judeus faziam parte de uma superclasse que controlava as finanças do país do mesmo jeito que agora os aecistas querem nos convencer de que os petistas são a raiz de toda a corrupção no Brasil e os partidários de Trump defendem que os muçulmanos são a raiz de todo o terrorismo mundial.

Se Chico tem alguma responsabilidade pelos desvios do PT, então qualquer eleitor do PSDB tem responsabilidade pela construção de dois aeroportos por Aécio na fazenda de seus parentes. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela compra de votos feita por FHC para aprovar a emenda da reeleição. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela nomeação de Paulo Roberto Costa ao cargo de presidente de gás e petróleo da Petrobras. Era essa a indagação implícita que estava contida na resposta irônica de Chico a seus inquisidores: "eu acho que é o PSDB que é ladrão". Ou seja, o partido do Aécio, colega de balada do papai de Alvarinho, não é nenhum santo no puteiro e a discussão política no Brasil deve superar, para o bem de toda nação, a lógica pré-escolar do "o seu partido é mais corrupto do que o meu". Mas eu acho que os leitores da Veja não têm a capacidade cognitiva para entender isso. Para eles, o mundo se divide em dois pólos o "do bem" (nós / elite) e o "do mal" (eles / povo), e toda e qualquer pessoa que vota no PT é má, mesmo que seja um cara íntegro e honesto como Chico Buarque. Não foi à toa que um dos slogans de José Serra em 2010 foi "Serra é do bem".

Bogart e Bacall marchando em Washington, D.C.
contra o macartismo.
O serviço que a Veja presta ao país é semelhante ao do Senador republicano Joseph McCarthy nos EUA dos anos 1950. Foi de sua inquisição aos comunistas que surgiu o termo macartismo, que agora voltou à tona com a perseguição de Donald Trump a mexicanos e muçulmanos. No final da Segunda Guerra Mundial, conforme o mundo se tornava cada vez mais refém de uma ordem bipolar, Josef Stálin passava de "nosso companheiro" para "nosso inimigo" segundo a propaganda americana. Os roteiristas ligados ao Partido Comunista dos EUA deixaram de ser louvados por seus esforços de unir americanos e soviéticos na guerra para serem denunciados como anti-patrióticos. Afinal de contas, o que eles supostamente desejavam era promover uma Revolução Bolchevique que derrubasse o governo. Logo uma histeria tomou conta da sociedade americana. Dashiel Hammett, Lillian Hellman, Dalton Trumbo e até mesmo Lucille Ball, ninguém estava a salvo da sanha de McCarthy. Alguns, como Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tentaram reagir, mas foi o jornalista Edward Murrow da CBS o responsável por lembrar aos americanos que eles têm o direito constitucional de escolher o partido de sua preferência.

Aqui no Brasil, a cópia patética da CBS que é a Globo faz é alimentar o macartismo. Para o telespectador da Globo, a corrupção surgiu depois do escândalo do mensalão e só é praticada pelos membros de um único partido: o PT. A corrupção existe em todos os partidos, até mesmo no PSOL. É inerente aos grupos sociais. Ainda mais no sistema capitalista, onde o status é adquirido pela acumulação de riquezas. Ninguém diz: "já acumulei o bastante, agora vou parar". A intenção é ter (ou pelo menos parecer ter) sempre mais, porque é acumulando que se adquire status. No entanto, quando mais gente passa a ter (ou pelo menos mais gente parece ter) como é o caso do Brasil pós-PT, a elite se sente ameaçada. Ela só tem status na sociedade por causa do dinheiro. Enquanto o Bolsa Família estava sendo usado para comprar apenas comida, a elite estava tranquila. Quando uma mãe insinuou na televisão que estava usando o dinheiro para comprar calça de marca para a filha, a elite começou a ficar apreensiva. Era preciso, então, usar seu exército fiel que é a classe média (que respeita e obedece a elite porque deseja ser ela) para amedrontar as pessoas e instaurar o macartismo no país.

O que será desse país eu ainda não sei. Mas só sei que precisamos reagir. Já alertei para isso antes e continuarei alertando quantas vezes for preciso. "Ninguém pode aterrorizar uma nação inteira sem que todos nós sejamos seus cúmplices", disse Murrow certa vez. O silêncio dos bons é tão nocivo quanto os gritos dos maus, já dizia o reverendo Martin Luther King. Quem melhor descreveu o que está ocorrendo com o debate político no país foi o cineasta Cacá Diegues: "Esta cena de repressão nazista é um exemplo do que está acontecendo no Brasil: a absoluta intolerância. As discussões políticas estão indialogáveis. A disputa política se transformou em duelo. Eles não queriam argumentar, só xingar". Os playboys do Leblon temem que as conquistas sociais do Brasil se aprofundem e que logo a sociedade perceba os inúteis que eles realmente são para a coletividade. Não produzem nada, não geram emprego ou renda. Vivem da mesada de seus pais famosos. É preciso parar esse processo de "desindianação" do Brasil. Nem que seja através da calúnia, da difamação, da ameaça vermelha. Nem que seja no grito. Pois que gritem, então! De qualquer forma, vão entrar para a história do Brasil como Joseph McCarthy e seus colegas entraram para a dos EUA: como um bando de oportunistas histéricos.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Jornalismo de torcida

Minha mãe me contou que, zapeando os canais da televisão fechada na última segunda, acabou ouvindo o seguinte de Cristiana Lobo, uma das apesentadoras da Globo News: "se os protestos [a favor do impeachment] tivessem sido maiores, Dilma estaria em apuros". Ora, mas não foram. Atenha-se aos fatos. O jornalista deve amar os fatos, pois esta é a matéria-prima de seu trabalho. Com certeza Cristiana deve ter ouvido isso de seus professores no curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG), que digo sem hesitar que é o melhor do estado. Mas ela foi obrigada a se esquecer disso assim que passou a vender sua mão-de-obra para uma empresa que, embora se diga jornalística, cada dia preza menos pela realidade dos fatos.

Quando nos tornamos assinantes da Globo News aqui em casa, no início da década passada, Roberto Marinho ainda era vivo, Ali Kamel ainda não era o déspota da Central Globo de Jornalismo e a emissora era qualquer coisa menos a cópia mal-feita da FOX News em que se transformou. Não era apresentada, no canal, a realidade do Kamel, e sim as diversas realidades do Brasil e do mundo. A linha editorial era claramente de centro-direita, mas era possível ter acesso a outras visões de mundo. Jamais vou me esquecer de uma entrevista com a ativista social canadense Naomi Klein, musa da esquerda altermundista. À época, a direita brasileira ainda não se deixava pautar por figuras iletradas como Olavo de Carvalho e permitia o mínimo de debate inteligente.

Isso começou a mudar, no entanto, a partir de 2009. Nessa altura, Lula já havia escolhido Dilma Rousseff para sucedê-lo e a emissora passou a adotar uma postura abertamente hostil à pré-candidata, ao Partido dos Trabalhadores e, por conseguinte, a toda a esquerda em sua cobertura do universo político brasileiro. Choquei-me quando foi apresentada a (então) nova comentarista de política do canal de notícias, Lucia Hippolito. Uma mulher sem bagagem intelectual, rancorosa em relação ao partido do qual fez parte na juventude e que frequentemente usava termos chulos para atacar políticos que lhe desagradavam. Uma versão local de Ann Coulter da FOX News. Parei, então, de assistir à Globo News porque sentia-me atacado. A emissora não só decidiu não representar mais quem seguisse as ideias da esquerda como também passou a nos atacar como inimigos.

A situação chegou a tal ponto que um historiador carioca, comentarista habitual do canal de notícias, decidiu parar de conceder entrevistas ao mesmo devido a sua tentativa de caracterizar jovens manifestantes de esquerda do Rio de Janeiro como delinquentes. Não há mais realidades. Há a realidade do Kamel. E ela é sombria, distópica e contribui para que o público ache que a realidade também é assim. Numa pesquisa recente, os brasileiros foram apontados como o 3° povo mais ignorante do mundo. Os entrevistados não conseguir citar corretamente dados socioeconômicos do país, como nível de distribuição de renda ou poder de compra do salário mínimo. Ligamos a televisão na Globo News com o pretexto de nos mantermos informados, mas isso não só não ocorre como ainda ficamos ainda mais ignorantes quanto à realidade que nos cerca.

Somos o terceiro povo mais ignorante do mundo.
Recentemente a Folha de S. Paulo, propondo-se a analisar o Brasil pós-PT, publicou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que confirmam que, nos últimos doze anos, todos os brasileiros tiveram aumento em seus níveis de renda, descontada a inflação; em especial os mais pobres, cujo aumento foi da ordem de 129%. São dados que, segundo o jornal, jamais ocorreram na história do país. Acompanhando a matéria, uma reportagem, uma pesquisa do Instituto Datafolha que diz que, para 68% dos entrevistados, o Brasil não mudou após os governos do PT. O jornal optou por trazer na chamada de capa o dado negativo e representante da realidade falsa. Como se quisesse debochar do nosso posto na lista dos povos mais ignorantes do mundo a respeito de nossa própria situação.

O resto da mídia – Globo News incluída – seguiu o jornal, preferindo enfatizar a percepção ao invés da realidade. A mídia comercial brasileira deixou de fazer jornalismo, que nada mais é do que reportar fatos, para fazer torcida anti-PT. Todo e qualquer dado que possa desmerecer os doze anos de governo petista tem uma ênfase descomunal. Já os dados que possam favorecer o governo são escondidos. A realidade vai sendo moldada para parecer que moramos no pior dos mundos possível. E as pessoas, confiando na autoridade dos jornais, acreditam nessa realidade paralela, distópica. A mídia comercial presta um desserviço à sociedade. Se soubéssemos a verdadeira dimensão de nossos problemas, talvez pudéssemos enfrentá-los com mais propriedade. 

Aos patrocinadores da mídia comercial, como Vale e Bradesco, não interessa que o povo brasileiro saiba a real dimensão do problema da queda da barragem de Mariana (MG) nem a quantidade de dinheiro público que vai para os bancos. Por isso, as Cristianas estão mais preocupadas com hipóteses e suposições. Tornamo-nos espectadores da torcida anti-PT dos grandes jornais, para os quais o fim do Brasil é iminente. Por mais absurdo que pareça, os fatos deixaram de ser importantes nas redações. Na construção da realidade anti-PT vale qualquer coisa – como uma pesquisa que atesta nossa ignorância em relação à nossa realidade – para pintar um cenário apocalíptico que vai derrubar a Dilma. Só não vale o princípio fundador do jornalismo: a fidelidade à realidade dos fatos concretos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Wall Street aplaude líder congressista corrupto que alimenta impeachment no Brasil para se salvar


O presidente da câmara baixa do Congresso do Brasil, Eduardo Cunha, voltou ao assunto, levando adiante o pedido de impeachment da presidente na quarta-feira. Wall Street comemorou a notícia, ao elevar os fundos iShare MSCI Brazil (EWZ), o negócio mais quente do mercado nessa quinta-feira, em quase 2,5% no fechamento.

Cunha cerrou fileiras com Dilma não porque ela está atolada
em escândalos, mas porque ele é parte do escândalo.
Infelizmente, ninguém além dos investidores de longo prazo tem algo a comemorar. Essa semana, a Goldman Sachs alertou que o Brasil estava além da recessão e agora enfrenta uma depressão. Uma das razões para a inércia econômica é o ponto morto no Congresso. Parece que todos na elite política em Brasília agora são criminosos procurados. Cunha com certeza é um deles. Membro do Partido do Movimento Democrático (PMDB), Cunha cerrou fileiras com o governante Partido dos Trabalhadores (PT) não porque este está atolado nos escândalos da Petrobras, mas porque ele mesmo é parte do escândalo e a presidente Dilma Rousseff e seu vice do PMDB, Michel Temer, não fizeram nada para impedi-lo de ser acusado de lavagem de dinheiro e outros crimes de colarinho branco. Na verdade este é o homem que o mercado e alguns nas ruas brasileiras aplaudem (nota do blog: na verdade Temer seria um dos articuladores do impeachment).

Um juiz (N.B.: promotor, na verdade) no Brasil acusou Cunha de receber US$ 5 milhões em propinas na Petrobras de uma firma de lobby que trabalhava para os parceiros de construção da gigante do petróleo. Ele negou que tinha dinheiro numa conta bancária suíça. Mas autoridades suíças descobriram o dinheiro e reportaram-no às autoridades brasileiras.

Dilma pode muito bem ser um pesadelo. Mas pelo menos nenhuma corte ou investigador policial ouviu nas confissões das dúzias de homens presos na operação da Petrobras que Dilma permitiu que a entidade governamental cometesse fraude.

O que ela fez, no entanto, segundo o Tribunal de Contas, foi maquiar as contas do governo brasileiro. É nisso que Cunha decidiu apostar suas fichas. Antes que o martelo ponha fim a sua carreira política, ele decidiu arruinar a de Dilma. É isso que as pessoas estão comemorando: um teatro político que não trará nada de positivo a curto prazo. Talvez o Congresso deveria se unir para arrumar essa bagunça? Esqueça. Para que serve o Congresso além de estercar as coisas?

"Nossa reação inicial é que esse evento vai trazer mais volatilidade e incerteza, ao invés de aliviar as preocupações do mercado", diz Bruno Rovai, analista de renda fixa da Barclays em Nova York.

A habilidade de Dilma governar a essa altura já está ridiculamente baixa. Isso coloca a relação entre os poderes Executivo e Legislativo numa posição bastante prejudicial.

Vários fatores tornam longe de ser claro se o processo de impeachment será aprovado na câmara baixa do Congresso. O que ele realmente faz é adicionar mais barulho à já turbulenta agenda do governo brasileiro e aumenta a probabilidade de que mais agências de crédito, nomeadamente a Fitch e a Moodys, irão reclassificar a dívida soberana brasileira para sucata.

Manifestantes anti-PT têm pouco a comemorar.
Manifestantes anti-PT segurando efígies de Dilma em uniforme de prisão têm pouco a comemorar. No melhor cenário deles, a eleição do ano passado seria anulada e uma nova eleição provavelmente colocaria o social-democrata (PSDB) Aécio Neves no palácio presidencial com o ex-banqueiro central Armínio Fraga no comando da economia. Isso faria o mercado feliz, mas por pouco tempo. Não esqueçamos que o PSDB também teve dificuldade em gerenciar a crise da dívida brasileira no final dos anos 1990 e estava no bolso de trás do FMI. Fraga estava no Banco Central na época. A inflação superava os dois dígitos, mais do que a atual taxa de 9,5%.

Assim que a admissão do processo de impeachment for publicada, Cunha irá organizar uma comissão de investigação para verificar as alegações contidas no pedido e preparar uma petição final a ser votada no plenário da Câmara.

"Achamos muito improvável que tal petição estará pronta antes do recesso parlamentar que começa em 22 de dezembro", diz Rovai. "Se não estiver, o pedido de impeachment só poderá ser votado em fevereiro e nada garante que os desdobramentos da Lava Jato não irão mudar a configuração do Congresso, como demonstrado pela prisão do senador Delcídio Amaral na semana passada, aumentando a incerteza do processo".

Cunha pode nem sobreviver também, conforme as investigações sobre sua participação no chamado esquema Lava Jato da Petrobras estão em andamento. As coisas também não estão boas para ele. Não precisa ser gênio para entender porque ele está tão ansioso para remover Dilma de seu cargo.

Cunha dá credibilidade zero a todo o processo. Sua carreira está atualmente ameaçada por uma decisão a ser tomada pelo conselho de ética nesta quinta-feira, 8 de dezembro (N.B.: a reunião do conselho foi adiada novamente). Se o conselho decidir removê-lo de seu cargo, fica incerto se o processo de impeachment sequer obterá qualquer tração. Além disso, Cunha disse que o pedido de impeachment a ser apresentado cobrirá apenas as contas de 2015, que ainda não foram analisadas por completo pelo Tribunal de Contas e estão longe de serem aprovadas ou rejeitadas pelo Congresso, já que o ano ainda não acabou.

Por último, há o PT. O Brasil e Wall Street se esqueceram do quão indisciplinados esses caras podem ser. Eles estão no poder, atualmente, por 13 longos anos, pelo menos 8 dos quais de muito sucesso graças, em parte, a fatores externos. O PT irá recorrer de qualquer processo de impeachment até à Suprema Corte.

Em última análise, o efeito do [impeachment] nas perspectivas fiscais ainda é negativo, se ela permanecer ou for embora. Isso porque a agenda política terá muito pouco espaço para discutir e votar as medidas fiscais e de ajuste no orçamento no ano que vem graças a esse espetáculo de feira apresentado por um suspeito de fraude na câmara baixa do Congresso.

O processo de impeachment vai destruir a razão, já na sarjeta.
O processo de impeachment será longo e tornará as coisas piores para os brasileiros comuns. Vai destruir a razão, já na sarjeta. Mais incerteza não ajuda no momento. O barulho político, com Cunha, uma máquina humana de barulho, apresenta riscos descendentes para as estimativas consensuais de queda de 3,5% do PIB nesse ano e de 2,8% no ano que vem.

O Brasil está, de fato, numa depressão. Impedir Dilma não vai tirá-lo dela. Impedir Dilma a mando de um Congresso liderado por um homem que ajudou a Petrobras a perder 80% do seu valor de mercado nos últimos cinco anos não só faz com que os brasileiros pareçam bobos, mas dá ao PT e seus amigos sindicalistas razão para se intrometer caso a oposição assuma.

Cunha pediu o impeachment com a bênção de três juristas proeminentes e do PSDB. O processo marca uma derrota política fundamental para as políticas de Dilma dos últimos quatro anos. Sua taxa de aprovação está num recorde negativo de 10%, em maior parte devido ao escândalo da Petrobras e não às medidas de austeridade, em relação às quais a opinião do mercado continua confusa.