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terça-feira, 5 de setembro de 2017

O problema da educação não é não poder bater nas crianças

A diretora de um colégio decidiu filmar uma criança durante um ataque de cólera e expô-la no Facebook. Segundo ela, não há nada que ela possa fazer além de deixar a criança quebrar tudo por causa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que protege esses pequenos marginais. O vídeo está viralizando na rede social, mas não iriei compartilhá-lo porque porque se não vai ficar parecendo que apoio essa atitude e a mensagem do vídeo. Minha monografia foi justamente sobre a exposição indevida de menores em conflito com a lei pela imprensa.

O brasileiro médio adora citar o Primeiro Mundo quando lhe
convém, mas em toda Europa só é permitido o professor bater
nos alunos no Vaticano (em vermelho).
Diversas vezes, durante o vídeo, funcionários do colégio tentaram segurar a criança e evitar que ela virasse mesas e cadeiras. A diretora impede-os. Ela queria produzir uma evidência que reafirmasse sua ideologia pró-espancamento. Ela deixa a criança destruir o patrimônio do colégio — comprado com o dinheiro de todos nós — para provar seu argumento de que as crianças merecem apanhar dos professores, o que não ocorre em mais nenhum país da Europa. É um argumento do século XVIII, quando a pedagogia sequer era uma ciência ainda.

O entendimento corrente no campo da pedagogia é de que a criança é a parte mais frágil da sociedade e, assim sendo, tem o direito de receber educação sem ser submetida a tratamento degradante. Surpreende-me que uma pedagoga vá contra esse entendimento e defenda a punição corporal como forma de resolução do conflito entre aquele aluno e a escola. Que outras pessoas, alheias à situação, comentem a favor do espancamento só prova minha crença de que o brasileiro gosta de punir a revolta dos mais fracos ao invés da opressão dos poderosos.

A diretora deveria ser a parte racional da situação, tentando pôr fim ao que quer que seja que estivesse atormentando aquele ser, mas preferiu fazer ativismo político reacionário no Facebook. Além de desonesta — por manipular uma situação para defender seu ponto de vista — e anti-ética — por filmar uma criança sem a permissão de seus pais —, demonstra também que é anti-profissional, estando mais preocupada em publicar conteúdo na internet do que exercer sua função, a qual é paga pela coletividade. Se trabalhasse numa escola privada, com certeza seria demitida por justa causa.

Se dependesse de alguns, cenas como essa
sairiam dos livros de História e voltariam à
realidade. Diz muito sobre aquilo que somos
enquanto sociedade.
Por outro lado, duvido que ela deixaria a criança destruir tudo se trabalhasse numa escola particular. Mas no Brasil o que é público não é de todos (inclusive dela), é de ninguém. Ela fugiu de suas atribuições de zelar pelo patrimônio público e pelo bem-estar dos demais alunos. Só interessou-lhe, naquele momento, manipular uma situação para gerar "likes" contra o ECA. Afinal, é mais fácil culpar as crianças pelo atual estado do sistema educacional brasileiro ao invés de se olhar para o próprio descompromisso com as responsabilidades.

Aliás, ela culpa todo mundo pelo ocorrido — pais, assistentes sociais, polícia, políticos — menos a si mesma. É mais fácil culpar quem sequer estava na sala do que fazer o seu serviço, que nesse caso em específico se resumia a segurar a criança e tentar fazê-la se acalmar. É mais fácil também culpar a própria criança sem entender o motivo de sua raiva, o que poderia ajudá-la. Com certeza ela deve ter tido um motivo para o ataque de cólera, mas isso ficou sem explicação num vídeo que foi propositalmente tirado de contexto para defender um ponto de vista arcaico.

A educação no Brasil não está no estado atual porque porque o professor não pode mais bater nos alunos. É porque eles preferem postar vídeo no Facebook do que exercer as funções pelas quais são pagos pela coletividade para exercer. Não está escrito em lugar nenhum no ECA que não se pode conter uma criança durante um ataque de cólera. O que está escrito é que não se pode valer da violência para tal. Se a única forma que nós temos para resolver conflitos é abrir mão da violência, então é a nossa sociedade que tem um problema e não as crianças. As crises delas são apenas um reflexo disso.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O fascismo está ficando pessoal

Guilherme Silva Neto (1996-2016).
Guilherme Silva Neto, estudante de matemática da Universidade Federal de Goiás, foi baleado pelo próprio pai a apenas 1,8 quilômetros de distância de onde eu moro. Após correr por alguns metros para tentar salvar a vida da abordagem violenta não de um estranho, mas sim do próprio pai, o jovem de 20 anos tombou na  Avenida República do Líbano, no Setor Aeroporto, onde tantas vezes eu almocei com a minha família aos domingos. Segundo a mãe do rapaz, o motivo da discussão que levou ao assassinato seguido de suicídio foi a participação do jovem nas ocupações da universidade. Não conhecia Guilherme pessoalmente, mas ao entrar no perfil dele no Facebook, impressionou-me o fato de sua última publicação pública ser sobre a festa "Rocknbeats Goiânia", que acontecerá na boate Diablo no próximo dia 26. Eu também havia confirmado presença nessa festa.

Também me chamou a atenção o fato de termos 12 amigos em comum: Anny Borges, que comemorou meu aniversário comigo no sábado; Euzebio Carvalho, professor da Universidade Estadual de Goiás que foi preso arbitrariamente durante assembleia estudantil realizada naquela entidade; Rafaela Lincoln Lima, que já organizou três festas nas quais eu fui; Vinicius Rafael, que já vi em diversos eventos; a talentosíssima Regiane Mendonça, que faz música de protesto contra o governo golpista; Flavio Rezende, que concorreu à vereança e sempre vejo em manifestações contra o golpe; Cris Cardoso, que deve ser uma das pessoas mais sensatas que conheci em 2016. Os demais — Cleber Valdêz Barboza, Lara Aragão, Lô Santos, Marcus Vinícius Huttenlocher — não conheço tão bem, mas adoraria conhecer. Todas essas pessoas têm em comum o fato de serem contra a PEC 241 e o assalto que PSDB e PMDB fizeram ao poder central do Brasil.

Ao que tudo indica, Guilherme era muito parecido comigo. Só que a diferença — fatal — é que sua casa não era um local seguro para ele. Ele foi morto de maneira premeditada pelo pai, que padecida da histeria anti-esquerda que acomete o Brasil desde pelo menos 2013. Esse tipo de violência por motivações políticas eu só conheci na rua. O louco, ensandecido, baleou o próprio filho cerca de dois anos após eu apanhar por — suspeito eu — ser um viado que estava andando na rua à noite com o adesivo da Dilma no peito. A disseminação do discurso fascista na sociedade brasileira me atinge de maneira cada vez mais pessoal. A mídia e seus seguidores cegos vão tentar tirar a responsabilidade deles da reta. Vão afirmar que o ocorrido no Dia da República em Goiânia foi uma fatalidade, como se a morte de Guilherme não fizesse parte de um contexto mais amplo da disseminação de ideias fascistas na sociedade brasileira.

Vão dizer que a morte do rapaz não tem nada a ver com a pregação de "pastores" anti-esquerda como Marco Antônio Villa, Joice Hasselmann, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Cristiana Lobo, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, William Waak, Danilo Gentili e Rachel Sheherazade, entre outros, que são os porta-vozes da dúzia de famílias que controlam a disseminação das informações no país. Mas o discurso desses comunicadores foi justamente o gatilho que o pai mentalmente instável do Guilherme precisava para embarcar de corpo e alma em sua paranoia antissocialista. Quando munidas de muito poder, uma dúzia de pessoas são capazes de produzir um estrago incomensurável numa sociedade. Primeiro destruíram as perspectivas de recuperação da economia brasileira para colocar PSDB e PMDB no poder. Agora, o exército de ignorantes políticos raivosos que criaram fazem mães enterrar os próprios filhos.

Nada irá trazer o Guilherme de volta. Sua luta, no entanto, não morre com ele. Mesmo com medo de sermos mortos por nossos próprios conhecidos, enxugamos nossas lágrimas e seguimos em frente. De minha parte, fico contente em saber que tinha uma dúzia de amigos em comum com a vítima dessa tragédia horrível em que fui envolvido indiretamente. Guilherme viverá nas lembranças dessas pessoas que, assim como ele, lutam a favor da justiça social e da solidariedade entre as pessoas. Guilherme vive nelas e espero que, através da partilha de experiências e lembranças, possa viver um pouquinho em mim também. Sinto como se já vivesse, devido às semelhanças entre nós que me fazem, ao mesmo tempo, temer pela minha vida e querer continuar lutando. Continuar a luta é algo que devo ao Guilherme, assassinado; ao Euzebio, preso arbitrariamente e a mim mesmo, espancado. Podem até ter levado sua presença física, mas Guilherme está presente!

sábado, 17 de setembro de 2016

O problema do Brasil não é a Dilma; é o Setor Bueno

Estou cada vez mais convicto de que o problema do Brasil nunca foi o PT. O problema do Brasil é que o Estado deve servir a uma classe minoritária que nada produz. As grandes fortunas do país não existiriam se não fossem as generosas tetas do Estado. O PT errou, na minha opinião, por não promover um desmembramento completo disso. Enquanto o cenário externo favoreceu a economia do país, as gestões petistas na máquina federal mantiveram um sistema que favoreceu tanto os parasitas do Estado quanto o grosso da população. Com o arrefecimento da economia global a partir de 2013, o partido (mais especificamente Dilma) viu-se numa encruzilhada: ou rompia com a elite financeira que locupleta-se do Estado ou com o povo. Dilma acabou tentando servir aos dois senhores e caiu. Michel Temer surgiu em seu lugar para acabar com o tímido Estado de bem-estar social criado pelo PT. Ele está no Palácio do Planalto para promover o retorno do modelo anterior, segundo o qual todos são iguais em direitos e deveres aos olhos do Estado, mas uns são mais iguais do que os outros. O Estado possui seus filhos preferidos e Temer governa para eles. Caso o contrário, ou seja, se tivesse se mantido fiel ao programa de governo que o elegeu em 2014, o golpe teria sido dado para colocar o mau perdedor e garoto de ouro das elites, Aécio Neves, no poder. 

Meu carro não tem o direito de existir no
Setor Bueno assim como "atores petistas"
não têm o direito de viver.
Agora que o golpe foi dado, os mamadores da teta do Estado estão empoderados. Aqueles que acham que fazem parte desse grupo também. Digo isto pois, como diz um amigo meu, o brasileiro compra um carro e um apartamento no Setor Bueno (pagando consórcio durante anos e anos) e acha que faz parte da elite, que compreende aquela parcela mínima da sociedade que mantém sua riqueza intacta por mais de 400 anos. E não é que um episódio interessante ocorreu comigo justamente no dia do golpe final contra Dilma e no referido setor, o bairro de Goiânia com mais eleitores de Aécio Neves por metro quadrado. Estava eu atrasado para a minha sessão de terapia, quando passei pela Panificadora Della. Havia um carro saindo do local, mas, por estar com pressa, não dei-lhe passagem. Meu carro é um Uno Mille velho, mas que tem o mesmo direito de estar transitando pelas vias da cidade quanto o Honda Civic daquele condutor. Mas essa não é a mentalidade dos moradores daquele bairro. Eles acham que têm mais direito ao espaço público por fazerem parte de uma determinada classe social. Assim sendo, o condutor esbarrou propositalmente no meu carro, a despeito da minha buzina estar anunciando "ei, você está invadindo o meu espeço pessoal!". Eu poderia ter sido mais simpático e lhe dado passagem, mas imagina se fôssemos nos vingar de todos que não nos dão passagem no trânsito?

No Brasil pós-golpe, as leis não têm mais validade alguma. Vale a lei da rua. E a lei da rua no Setor Bueno é que aquele é um bairro de elite e que tem mais direito à rua quem tem o melhor automóvel (tadinho do meu Uno velho e batido!). Lá não está em vigor o Código Brasileiro de Trânsito, está em vigor a mentalidade do brasileiro coxinha. E digo "coxinha" (ou seja, aquele que faz parte de um grupo social, mas julga-se melhor por causa da roupa que veste na origem do termo) porque a elite goianiense não habita entre nós desde o final dos anos 1990, quando houve um êxodo dessa classe social para os condomínios fechados. O Setor Bueno é o bairro onde a classe média se reúne para achar que é rica. Os ricos de verdade estão segregados da classe média. Agora que Dilma e o PT foram solapados do poder, a mentalidade do Setor Bueno vai ganhar espaço para triunfar. Estão empoderados. A invasão ao espaço do outro por quem julga-se portador de mais direitos está apenas começando. O problema do Brasil, como sempre suspeitei, não é a Dilma e sua lambança na economia. O problema do Brasil é a mentalidade do Setor Bueno que não enxerga o outro como portador dos mesmos direitos e deveres que si próprio. E, sinto informar, a tendência é só vermos ainda mais violações em relação ao direito de existir do outro que não se encaixa nesse padrão.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Obrigado, golpistas!

Hoje a farsa contra a presidenta Dilma Rousseff foi finalmente consumada e seu mandato foi oficialmente abreviado pelo Congresso Nacional. Por não terem conseguido provar qual crime Dilma teria cometido, os senadores cassaram-na, mas deixaram seus direitos políticos intactos. Transformaram o mecanismo do impeachment previsto na Constituição de 1988 num voto de confiança, embora o regime de governo no Brasil seja o presidencialismo e não o parlamentarismo. Na Espanha, seria perfeitamente legal afastar o presidente de governo pelo "conjunto da obra", mas no Brasil isto é — ou era — juridicamente impossível em razão do fato do presidente ser também o chefe de Estado e o cargo, acumulando as duas funções, necessitar de certa estabilidade institucional. Assim sendo, não há outra forma de classificar o impeachment de Dilma Rousseff que não seja através da palavra "golpe". É o golpe frio do qual a revista alemã Der Spiegel falou.

Apesar de terem ajudado a instituir uma nova modalidade de golpe na América Latina, que até mesmo o jornal conservador argentino Clarín vê com cautela, não guardo rancor em relação aos partidários do golpe contra Dilma. Pelo contrário, gostaria de agradecer aos golpistas do fundo do meu coração. Desde que vocês decidiram se fechar ao diálogo e se isolar do resto da sociedade que não pensa como vocês, minha vida só melhorou. Quando vocês decidiram que sua estratégia de ação política para derrotar Dilma e o Partido dos Trabalhadores seria o ataque à própria democracia, percebi que seria obrigado a me afastar de vocês. Não quis conviver no mesmo ambiente tóxico de ódio e rancor no qual vocês vivem. Vocês desnudaram sua falta de caráter e valores morais e isso me desagradou. Assim sendo, a única opção que me restou foi conviver com pessoas que pensam de maneira semelhante a mim. Graças a vocês, golpistas, entrei em contato com pessoas maravilhosas.

Busquei me afastar de pessoas cujos valores eu percebia como dúbios. Não conseguia mais aturar mesquinhos, hipócritas e falsos moralistas. Gente que falava que não tinha "bandido de estimação", mas que celebrou o fato de Eduardo Cunha ter estado do seu lado na luta contra o PT. Gente que cobrava retidão de caráter dos políticos, mas que pede pro colega bater o ponto em seu lugar no trabalho. Gente que se diz cristã, mas que xingava uma senhora de 68 anos de idade, avó de duas crianças, de "puta" no protesto de domingo após a missa ou culto. Gente que nunca vai suportar ter que dividir as vias públicas com pobres em carros mais humildes. Gente que grita quando contrariada. Gente cujo ódio é o próprio combustível que as move e as faz sair da cama todas as manhãs. Num primeiro momento, parecia que eu havia me isolado do mundo e que não havia mais ninguém como eu ao meu redor. Mas isto não era verdade.

Lentamente, fui me aproximando de um variado leque de pessoas que também não suportam o "dois pesos, duas medidas" tão característicos dos brasileiros que se julgam informados quando na verdade estão sendo manipulados. São pessoas que, sob circunstâncias normais, eu não teria tido a oportunidade de conhecer no meu até então restrito círculo de convivência social. A primeira demonstração de hipocrisia ocorreu num templo da Igreja Católica, da qual me desvinculei logo em seguida para, felizmente, encontrar uma igreja mais afinada com os meus valores. Em seguida, ao voltar a participar de protestos de rua, descobri o quão rica é a militância progressista no Brasil. Me abri para pessoas com as quais, num passado recente, eu teria vergonha de ser visto em público. Se hoje tenho diversos amigos — virtuais ou não — de diversas partes do Brasil e do mundo, de várias etnias, orientações sexuais e identidades de gênero, é por causa do terremoto político que o golpismo causou.

Além disso, voltei a prestar a atenção na produção musical nacional. Redescobri a obra de muitos artistas graças a sua militância anti-golpe. Quem poderia imaginar que eu tenho tanto em comum com o Tico Santa Cruz, por exemplo? São artistas que fazem cultura de primeira e que dificilmente terão o reconhecimento que merecem do grande público. Nesse sentido, o serviço sueco de streaming Spotify foi de grande importância para me fazer romper o boicote à música popular brasileira imposto pelas rádios FM de Goiânia. Assim como a reação popular às organizadíssimas neo-marchas da Família com Deus pela Liberdade me aproximou de negras e negros que não escondem suas raízes, pessoas trans que não escondem sua identidade e muitos — muitos mesmo — homossexuais que, num passado recente eu teria considerado "espalhafatosos" demais. Houve também o que chamo de "invasão nordestina" aos meus perfis nas redes sociais.

Desde que vocês, golpistas, decidiram não reconhecer o resultado da eleição presidencial de 2014, eu cresci bastante. Muitas vezes, as adversidades nos impõem o crescimento. Romper laços é doloroso, mas nem sempre é maligno. Isolar-me de vocês forçou meu crescimento nas relações interpessoais — e garantiu-me uma paz de espírito inédita em minha vida. Resistir ao golpe parlamentar tem sido uma experiência fascinante de auto-conhecimento através do outro. Finalmente entendi o que significa ser cristão. Não significa dar a outra face para vocês o tempo todo. Significa estender a mão para todos que são rejeitados por vocês, que são a expressão política de uma minoria gananciosa. Significa aceitar-me e poder assumir, por exemplo, que acho um homem trans bonito e que ficaria com ele. Libertei-me do fardo que vocês representavam em minha vida. Por isso, obrigado, golpistas! O ódio de vocês me uniu em amor a pessoas incríveis. E o que o amor une, o ódio não pode separar.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Há 80 anos, fascistas matavam a poesia na Espanha


Federico García Lorca (1898–1936)
Há exatos oitenta anos, no início da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o conhecido poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado por soldados fascistas. Um mês antes de morrer, aos 38 anos de idade, Lorca havia terminado de escrever a peça A Casa de Bernarda Alba que, com Bodas de Sangue Yerma, faz parte de sua trilogia rural. A morte, presente nas três peças, é um tema artístico central de sua breve vida. Dez anos antes de ser assassinado, quando morava em Nova York e acompanhou o desespero gerado nas pessoas pela quebra da bolsa, Lorca parece ter previsto o destino violento que encontraria ao compor os seguintes versos: "Então eu percebi que fui assassinado / Me procuraram em cafés, cemitérios e igrejas / Mas não me acharam / Eles nunca me acharam? / Não, eles nunca me acharam". O mais assustador em sua premonição é que até hoje seu corpo não foi, de fato, encontrado.

Poucos artistas representaram e encarnaram o espírito coletivo de sua nação tão bem quanto Lorca – o que torna sua morte ainda mais emblemática. A morte de Lorca precedeu a censura que matou a arte na Espanha. Logo após a eclosão da Guerra Civil, em julho de 1936, Lorca tomou a decisão desastrada de deixar o seguro enclave de Madri para ficar com seus familiares em Granada, a região conservadora em que nasceu. O interior da Espanha e seus costumes fascinavam Lorca, que retratou-o em suas peças. Imediatamente após sua chegada, Granada foi sitiada pelo partido político paramilitar que orquestrou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Azaña, a Falange Espanhola. Apesar de cultivar uma imagem pública de artista apolítico, sua associação com a República, suas peças contra a repressão e algumas declarações anti-católicas em entrevistas transformaram Lorca num alvo em potencial dos conservadores. Outro fator que contribuiu para o ódio dos falangistas ao poeta era sua homossexualidade.

Lorca manteve-se escondido, mas os falangistas caçaram-no até o dia 16 de agosto, quando foi preso e condenado à morte sem base legal ou julgamento. Às três da madrugada de 19 de agosto, foi algemado a um outro prisioneiro – um professor – e lavado de carro a um prédio chamado La Colina na cidade Viznar, que a Falange havia transformado em presídio para prisioneiros políticos. Pouco após o amanhecer, Lorca foi levado para o lado de fora do edifício, onde foi fuzilado ao lado do professor e de dois toureiros, membros do sindicato anarquista CNT. Segundo uma testemunha, o poeta foi levado para uma sala antes da morte, onde foi torturado devido a sua homossexualidade. Lá, balas foram enfiadas em seu ânus. Após o fuzilamento, o corpo de Federico García Lorca, um dos maiores escritores do século XX e um dos filhos pródigos da Espanha, foi lançado sem cerimônia num barranco, que em breve se tornaria uma vala comum para as vítimas dos falangistas.

Barranco de Viznar, onde o corpo de Lorca teria sido jogado.
Após seu fuzilamento, os livros de Lorca foram queimados publicamente na Plaza del Carmen em Granada e, com a ascensão ao poder do caudilho Francisco Franco, sua obra foi rapidamente banida de todas as províncias da Espanha. Anticlericalismo, republicanismo e liberdade não eram valores que interessavam ao novo regime integralista, que promovia o nacionalismo, o militarismo, o catolicismo, o anti-comunismo e o anti-libertarismo. E a homossexualidade? Existe algo mais subversivo para um governo escorado no fundamentalismo católico da Opus Dei do que relações entre pessoas do mesmo sexo? Em 1953, uma versão censurada das Obras Completas de Lorca foi lançada. Entre as ausências mais notáveis da antologia encontra-se o poema homoerótico "Sonetos do Amor Obscuro", escrito em 1935. Este era considerado perdido até os anos 1980, quando foi publicado na forma de rascunho, uma vez que a versão final do poema jamais foi encontrada.

A última peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, só foi encenada pela primeira vez em 1945 em Buenos Aires. Vinte anos mais tarde, uma versão censurada da peça foi apresentada na Espanha, mas a censura ao resto da obra do poeta só terminou após a morte do caudilho em 1975. Durante o francoísmo, menções à vida e à morte do poeta também foram censuradas. Para a narrativa oficial dos vencedores da guerra, Lorca nunca existiu. Foi somente após a morte de Franco, em 1975, que a Espanha pôde finalmente discutir abertamente sobre a morte de um de seus maiores ícones literários. Além da censura política, havia uma relutância da família García Lorca em permitir a publicação de seus poemas e de suas peças. Era um trauma que não estavam prontos para reviver. Devido ao fato de ter se tornado um assunto proibido por 36 anos, até hoje não se sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Atualmente suas peças são encenadas frequentemente na Espanha.

Monumento em Viznar: "Lorca era todos". Era? A depender
da direita brasileira, histérica, Lorca serei eu.
Embora imagina-se que exista um dossiê sobre o assassinato de Lorca, a falta de emersão do mesmo continua a atormentar sua família. Em 2009, um juiz espanhol abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato de Lorca e a família do poeta finalmente permitiu que fosse realizada uma busca a seus restos mortais no Barranco de Viznar. Segundo Ian Gibson, biógrafo de Lorca, esta ação foi adiada por tempo demais: "Acho que é essencial encontrar o corpo, em respeito à memória de Lorca. Só sua morte renderia 100 livros... Lorca pertence à humanidade e não a sua família. Ele é um emblema que deu sua vida pela Espanha. Ele é um mártir". Apesar da iniciativa, nada foi encontrado no local. Enquanto o assassinato de um dos maiores poetas do século passado é relembrado em todo o mundo, o Brasil ataca seus poetas e deixa-se fascinar pela mesma histeria fascista que permitiu à Espanha matar sua arte e embarcar em 36 anos de trevas. Como escritor, gay e libertário (assim como Lorca) não posso deixar de me incomodar com este paralelo histórico.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O "Escola sem Partido" não começou hoje – é parte da nazificação do Brasil

Ele. Deputado federal Izalci (PSDB-DF).
Muitos amigos, principalmente aqueles ligados às ciências humanas, estão chocados com o projeto de lei 867/2015, de autoria do deputado federal Izalci (PSDB-DF), que institui o programa "Escola sem Partido". Não estou assim tão chocado. Lembro-me bem quando essa história de que há "doutrinação marxista" nas escolas brasileiras começou. Foi em agosto de 2008 e eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo da PUC-GO (então UCG). A revista Veja distanciava-se cada vez mais da narrativa factual da vida brasileira para se tornar o panfleto semanário oficial dos opositores do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A linha editorial da revista deixou de ser formulada por jornalistas para ser ditada por militantes políticos de extrema-direita, discípulos do astrólogo e autodenominado filósofo Olavo de Carvalho, tais como Reinaldo de Azevedo e, posteriormente, Rodrigo Constantino. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu que para exercer o ofício de jornalismo não é preciso diploma de curso superior em comunicação social. Desde então, tornou-se cada vez mais recorrente a invasão da narrativa factual dos acontecimentos, ouvindo-se todos os lados de um assunto, por um discurso de pânico recauchutado do macartismo.

O que aconteceu, sem maiores delongas, foi o seguinte: um repórter da referida revista veio até Goiânia, onde assistiu a uma aula de história para alunos do ensino médio no Colégio Ateneu Dom Bosco. Trata-se de uma das mais tradicionais escolas privadas da capital goiana, de orientação católica romana e frequentada sobretudo por jovens oriundos de lares de classe média. Ao invés de simplesmente relatar o que ocorreu na sala de aula, o repórter escreveu uma matéria completamente tendenciosa, acusando o professor de tentar doutrinar seus alunos. O professor em questão discutia os efeitos nefastos do capitalismo sobre a experiência humana – algo que alguém que já ouviu os discursos do Papa Francisco perceberá que é completamente compatível com a doutrina social da Igreja, que nada tem de marxista. A discussão havia começado após os alunos terem ouvido a música "Homem Primata" da banda oitentista Titãs. Trata-se de uma canção extremamente popular, que foi a 25ª música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1987. O Titãs não é uma banda que se autodeclara comunista como o Rage Against The Machine e só porque eles têm uma música que critica o capitalismo liberal não significa que são comunistas. Podem ser capitalistas keynesianos.

Seguindo a lógica da Veja, os Titãs são comunistas perigosos
que deveriam ser banidos da rádio por doutrinação marxista.
O repórter responsável pela matéria fez uma grande flexão intelectual para ligar os versos "Ô, ô, ô / homem primata / capitalismo selvagem" aos cursos de pedagogia e à obra do pedagogo Paulo Freire, que ele mesmo julgou nula. Freire sequer é amplamente estudado nos ambientes acadêmicos. E, por falar nisso, uma das lições mais importantes que aprendi na faculdade é que "o jornalista só fala através de suas fontes". O repórter da Veja fez pior: valeu-se da boa fé de sua fonte para desmerecer o trabalho pedagógico de um professor que, a despeito de estar inserido num ambiente conservador, conseguiu iniciar um debate com seus alunos sobre a realidade que os cerca para além dos muros dos prédios onde vivem. O também católico Hélder Câmara resumiu bem a hipocrisia brasileira: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo, mas quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista". Debater os problemas gerados pelo capitalismo – e nenhum sistema econômico é perfeito – é algo perfeitamente normal. É o que democratas estão fazendo nesse exato momento na Convenção Nacional do Partido Democrata. Promover uma discussão sobre o capitalismo liberal, que sequer é a única forma de desenvolvimento capitalista, está longe de ser doutrinação marxista.

Mas qual é o problema em debater as diversas formas de organização econômicas já existentes e propostas? O problema é que o debate torna os alunos conscientes para o fato de que o capitalismo liberal não é a única forma possível de organização econômica da sociedade. Questionar a realidade que nos é imposta incomoda os representantes do status quo. Os donos da Veja só são ricos graças ao capitalismo liberal. Mesmo o capitalismo estatista ou keynesiano desagrada-lhes. Querem que a sua seja a única revista presente nas salas de espera de consultórios médicos e salões de beleza. Lula subiu no ringue com a revista quando decidiu reduzir sua verba de publicidade para desenvolver a mídia independente e regional. A revista Veja, ao contrário do que insinua seu slogan, não é indispensável para se tornar bem-informado e inteligente. Ela mantém seus leitores na ignorância ao retratar todos aqueles que são contra o capitalismo liberal como comunistas comedores de criancinhas. E preocupa-lhe que alguns agentes sociais estejam esclarecendo as pessoas sobre as diferentes formas de organização econômica diferente daquela que é a sua preferida. A Veja tem medo que as pessoas se tornem esclarecidas e ela se torne dispensável.

À Veja não interessa que seus leitores saibam que o modelo
atual de capitalismo promove a desigualdade de renda.
E se algum daqueles jovens no Ateneu decidir que quer trabalhar como médico na periferia? É o fim da rígida sociedade de castas à brasileira. Para manter os privilégios de uns poucos no capitalismo liberal, a maioria deve ser sacrificada. Isto está ficando cada dia mais claro, inclusive nos Estados Unidos. Este é um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno que é Donald Trump. Sim, ele é bilionário, mas se apresenta como o candidato do anti-status quo. E ninguém chamaria-o de comunista. Ser contra as coisas como elas estão está muito, muito longe de ser comunista. O próprio Paulo Freire, figura tão execrada ultimamente em seu país, estava longe de ser um militante comunista. Ele baseou sua análise sobre a forma de organização da sociedade em Marx, é claro, mas isso não transforma alguém automaticamente em comunista. De forma semelhante, sua obra agora é a terceira mais citada em trabalhos acadêmicos de universidades estadunidenses, o que não significa que os acadêmicos sejam marxistas ou sequer freirianos. Além do mais, Freire era membro do Partido dos Trabalhadores que, no poder, mostrou ser um tradicional partido social-democrata, ou seja, que promove o capitalismo estatista. E foi justamente isto que me atraiu no PT.

Aqui é permitido ler e discutir a obra freiriana.
Em 2010, quando passei um mês no Canadá, em intercâmbio, vi A Pedagogia do Oprimido numa estante da livraria da Universidade de Victoria. Imediatamente lembrei-me da ofensa proferida contra Freire no panfleto político da Editora Abril. Fiquei emocionado por ver um brasileiro que não era jogador de futebol sendo reconhecido no exterior. Ao mesmo tempo, fiquei triste pela forma como ele é tratado pelos pseudointelectuais do Brasil. Pensei comigo mesmo: precisei vir a 10.000 quilômetros de casa para finalmente ver Paulo Freire sendo reconhecido pela revolução que propôs na pedagogia e que serviu de modelo para o sistema educacional dos países escandinavos – países capitalistas estatistas, diga-se de passagem –, mas jamais para seu próprio país. Aqui damos crédito àqueles que querem livrar a escola de uma suposta "doutrinação marxista" sem nem saber explicar por quê. Não há como manter um debate inteligente com quem quer interditar o debate baseando seus argumentos numa revista que, a despeito de estar presente em todas as salas de espera do país e também nas salas de aula do estado de São Paulo, não consegue sobreviver sem a teta generosa da Secom e teve que promover um golpe de Estado para não ir à falência.

Essa história de "Escola sem Partido" não começou hoje, infelizmente. Estamos presenciando apenas o seu apogeu. Tudo começou quando a mídia brasileira decidiu agir como um partido político, dando espaço para pseudointelectuais como Constantino e Azevedo e permitindo que eles atacassem a nata do pensamento acadêmico pátrio para prejudicar o PT. Também deve-se destacar a guinada à direita do PSDB, que percebeu que teria mais chances de derrotar o PT se apostasse no neoconservadorismo. No meio disso tudo está a classe média, que, ansiando por uma mudança ainda maior do que aquela que os governos do PT propiciaram, permitiu ser utilizada como massa de manobra das forças conservadoras. No entanto, os idiotas úteis não estão voltando para os braços do PSDB. Já perceberam seu jogo sujo e se desencantaram com a política como um todo. O resultado final do processo de destruição do PT – indesejado pelas forças conservadoras da mídia e da política – é a nazificação do Brasil. E o nazismo não é muito exigente ao escolher suas presas. Não adianta falar "não somos do PT". Vai ser preciso provar, pois o maior desejo do nazista é eliminar seus inimigos e qualquer desculpa serve para justificar sua sede de extermínio. Enxergam apenas o que querem, pois bebem sempre a água da mesma fonte.

O nazismo não é muito exigente com suas vítimas.
Uma dessas fontes é a Veja, que, em medos da década passada, decidiu que seria uma revista feita por e para comentaristas de portal. A política nunca deveria ter se tornado o reino das emoções. Até líderes de organizações criminosas sabem que a pior coisa que se pode fazer é agir no calor do momento, pois os resultados são difíceis de serem previstos. Mas a mídia brasileira, que nunca sobreviveu sem a verba de publicidade dos governos decidiu arriscar e colocar esse elemento na política. A Veja foi a pioneira, justamente por ser a que mais corria o risco de desaparecer, junto com o resto da mídia impressa. Podem até sobreviver, mas não pagarão o preço por terem introduzido as emoções, principalmente o ódio, na político. Nós, as vítimas do ódio, é que vamos pagar esse preço. Busco, cada vez mais, colocar a razão na frente da emoção. Meu crescimento enquanto ser humano depende disso e não estou disposto a retroceder porque alguns idiotas úteis decidiram que o PT e a esquerda seriam a válvula de escape para todos os problemas do universo conhecido e desconhecido. É uma tarefa cada vez mais homérica. Qualquer que seja o resultado dessa história de "Escola sem Partido", já perdemos, pois permitimos que nossos instintos mais básicos entrassem no debate político.

sábado, 23 de julho de 2016

Viver em Cristo é viver em amor

Texto escrito em 29 de junho de 2016.

Ontem me coloquei no lugar dos cinco rapazes mortos por homofobia durante a última semana no Rio de Janeiro. É um exercício doloroso a empatia. Principalmente quando a vítima poderia muito bem ser você mesmo. Não é possível que em pleno século XXI — e com os olhos do mundo voltados para o Rio por causa das Olimpíadas — pessoas continuem sendo assassinadas por serem quem elas são, por terem o código genético que possuem. O fato é que gay is the new black em termos de opressão. Agora que é crime culpabilizar os negros pela penosa vida que o sistema capitalista lhe impõe, o povão encontrou nos LGBTs um novo bode expiatório. Junto com os imigrantes, é claro. Esqueça sobre o pagamento dos juros da dívida pública que rouba o dinheiro de nossos impostos e não contribui em absolutamente nada para o crescimento da economia; há dois homens se beijando em público na televisão e é mais importante debater costumes morais do que a extorsão de governos promovida pelo sistema financeiro a nível mundial.

Dois meses antes, Bolsonaro se converteu do catolicismo ao
pentecostalismo. Deve estar mais à vontade na nova igreja.
As cabeças cariocas fracas e pouco instruídas funcionam como oficinas de diabos como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia que, embora não tenham puxado o gatilho, deram a ordem para que puxassem. Essa seria a ordem de um Deus que não é mensageiro da paz e nem do amor, mas sim a representação do que há de pior na psique humana. Parte da culpa pela proliferação da intolerância é de quem sempre lutou contra ela. Ao priorizar mais o desenvolvimento econômico do que o social, os governos do Partido dos Trabalhadores acabaram produzindo uma legião de ingênuos úteis, que sabem tudo sobre o funcionamento de smartphones, carros e televisores e nada sobre o funcionamento da biologia ou de como deveria ser a vida em sociedade. Como minha mãe sempre diz, o poder não deixa vácuo. O vácuo na cultura e na educação foi ocupado por mercenários de almas, para quem seguir a lei judaica — de onde tiraram o famigerado "evangelho da prosperidade" — é mais importante do que ser um discípulo dos ensinamentos de Jesus Cristo.

É sintomático que Bolsonaro tenha saído da Igreja Católica romana cerca de dois meses antes do líder espiritual desta instituição milenar declarar que ela deve um pedido de desculpa aos homossexuais. A fé de Bolsonaro, assim como sua atuação parlamentar, é oportunista. Só tem serventia a ele enquanto ele puder utilizá-la para justificar sua visão torpe de mundo. Agora que não pode mais usar o Vaticano como justificativa para sua homofobia, este não lhe serve mais. Mesmo caminhando a passos mais lentos do que as igrejas protestantes tradicionais — a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceita fiéis homossexuais desde 1998  — a Igreja Católica evolui e pessoas como Bolsonaro e Malafaia são agentes anti-evolução social. A sobrevivência deles depende da manutenção do status quo. Num cenário em que todos recebam uma educação de qualidade, ninguém seria mais seduzido pelo discurso fácil deles de que os homossexuais e os haitianos são os culpados pela degradação da sociedade brasileira. Não é à toa que líderes evangélicos são entusiastas do "Escola sem partido".

Dá pra imaginar uma prostituta ungindo Malafaia?
Apesar do cenário desolador, não devemos esmorecer. Mesmo que caiam mil à nossa direita e outros mil à nossa esquerda devido ao ódio malafaiano, vamos triunfar. Porque nós sabemos o que é o amor. E a religião de Jesus não era o cristianismo, era o amor, sobretudo aos marginalizados pelo status quo de sua época. Se caminhasse entre nós, Cristo condenaria boa parte dos "cristãos" de nosso tempo e também seria condenado por eles. "Cristo" vem do grego e significa ungido, ungido que foi por uma mulher de moral duvidosa que o amava como ele a amava: incondicionalmente. Alguém imagina os principais líderes evangélicos do Brasil sendo ungidos por uma prostituta? O argentino Jorge Bergoglio — membro da Companhia de Jesus, que promoveu a evolução da Igreja com o Concílio do Vaticano, e o primeiro papa não-europeu em um milênio — com certeza seria. O que ele tenta resgatar é justamente o amor aos oprimidos presente no Evangelho. Pois viver em Cristo é viver em amor, independente da forma como ele se manifesta.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Tentativas de afastar a presidente do Brasil são sexistas


Os ataques sexistas à presidenta Dilma Rousseff começaram durante os protestos antigovernamentais de 2013. Foi a primeira vez em que vi pessoas atacando Dilma por causa de sua condição de mulher. Mas eram protestos esparsos. Só mais recentemente é que os ataques sexistas se tornaram mais orquestrados.

Durante a Copa do Mundo de 2014, no jogo de abertura, sempre que Dilma aparecia no telão, os torcedores brasileiros cantavam "Ei, Dilma, vai tomar no c*" (Não me orgulho em repetir isso, mas as pessoas precisam saber).

Ano passado, os manifestantes anti-Dilma fizeram um adesivo para colocar no buraco de gasolina de seus carros. Ele retratava Dilma com as pernas abertas de forma que seu órgão sexual estava posicionado onde o bocal está. Assim sendo, toda vez que uma pessoa com este adesivo colocava gasolina em seu carro, Dilma seria simbolicamente estuprada.

A "querida" é a chefe das Forças Armadas e está em posição
hierárquica superior à dos deputados.
Mais recentemente, a revista de notícias Istoé fez uma capa sobre as "explosões nervosas de Dilma" — caso clássico de associar uma postura profissional de uma mulher a uma condição mental histérica. Cristina Kirchner, que está passando por seu próprio inferno pessoal na Argentina, usou a capa da revista como exemplo de como a mídia tem se baseado no sexismo para criticar tanto ela quanto Dilma.

Durante a votação do impeachment, deputados seguraram cartazes dizendo "Tchau, querida". "Querida" é a comandante-chefe do Brasil, alguém que é hierarquicamente superior a eles.

Veja, a maior revista de notícias, fez um perfil de Marcela Temer, a esposa bem mais nova do principal opositor de Dilma, Michel Temer, e a elogiou por ser "bela, recatada e do lar". Tudo aquilo que Dilma não é.

Punida por ser mulher

Tenho a impressão de que Dilma não teria sido tão punida por seus erros se ela fosse um homem. Incomoda aos deputados e demais homens ver uma mulher sentada numa cadeira que era um privilégio de homens.

Dilma fala como um homem, age como um homem e não se coloca em seu devido lugar — o que a arquetípica Marcela faz. Ela deu um "mau exemplo" para as mulheres brasileiras ao sugerir que as mulheres são capazes de gerenciar um país.

É interessante notar que 40 por cento das deputadas votaram contra o impeachment, ao passo em que mais de 70 por cento dos deputados votaram a favor. Mas apenas 8 por cento dos deputados são mulheres, embora as mulheres representam 60 por cento do eleitorado.

Se o Brasil tivesse uma representação de gênero mais equânime no Congresso, talvez Dilma não teria sido afastada em primeiro lugar, o que prova que este impeachment também possui uma conotação sexista que muitas pessoas — incluindo as próprias mulheres — parecem não perceber.

Atualização (12/05/2016 às 15:18): Consumada a destituição de Dilma, minhas previsões de que se tratava de um golpe sexista contra a primeira presidenta do Brasil infelizmente confirmaram-se. O governo Temer será o primeiro desde 1979 a não contar com ministra alguma, para a decepção até mesmo de mulheres de direita como Míriam Leitão.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Não podemos ter tempo para o ódio

Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao terrorismo?
Na minha terra prometida,
No Oriente Médio,
O que faremos quanto ao fanatismo?
Você e eu em paralelo
Você e eu, somos a chave
(Ofra Haza — "Middle East")

Uma de minhas cantoras favoritas é a israelense Ofra Haza. Nascida em 1957 numa periferia de Tel-Aviv, é a mais nova de nove filhos de Yefet e Shoshana Haza, um casal de imigrantes do Iêmen. As oportunidades eram escassas para os jovens do bairro de Hatikvah, negligenciado por sucessivos governos israelenses, sendo o teatro uma das poucas portas de saída da pobreza. Assim sendo, aos doze anos de idade Ofra se juntou a uma trupe de teatro local gerenciada por Bezalel Aloni, que mais tarde se tornaria seu empresário. Em 1979 ela atingiu o sucesso nacional após protagonizar o filme Schlager, sendo a canção "Shir Ha'frecha", que interpretou no  longa-metragem, um de seus primeiros sucessos. Após lançar três álbuns com o Shechunat Hatikvah Workshop Theatre, Haza finalmente se tornou conhecida o suficiente para lançar seu primeiro disco solo aos 22 anos de idade.

Ofra Haza
Em 1983 Ofra derrotou Yardena Arazi num concurso para representar Israel no Festival Eurovisão. Ela interpretou "Chai", canção escrita por Ehud Manor em homenagem aos atletas israelenses mortos por terroristas árabes nas Olimpíadas de 1972 em Munique, mesmo local em que era realizado o festival. A despeito da resistência que enfrentou de parte da própria sociedade israelense, que se incomodava com sua origem operária e seu sotaque típico de judeus oriundos de outros países do Oriente Médio, Ofra conquistou para Israel uma de suas melhores colocações no festival (o segundo lugar). Em 1988, despontou na Europa e na América do Norte com um remix de "Im Nin'alu", canção tradicional dos judeus iemenitas, composta no século XVII pelo rabino Shalom Shabazi. Ofra atingiu o Top 10 de oito países e o álbum Shaday, que continha o hit, vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

No auge de sua carreira, Ofra Haza se apresentava na Europa e nos EUA, apareceu no Tonight Show de Johnny Carson e se tornou a primeira israelense a ser indicada a um Grammy em 1993. No ano seguinte, cantou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. Apesar do sucesso, Ofra estava dividida entre a carreira profissional e o desejo de sua mãe de que ela formasse uma família, conflito este retratado na canção "Ya Ba Ye", que compôs com Aloni e gravou em 1989 no álbum Desert Wind. Em 1997, sucumbiu à pressão familiar e se casou com o empresário Doron Ashkenazi. Entretanto, ela não só não conseguiu engravidar como ainda teria sido infectada com o vírus da AIDS pelo marido. A doença ainda era alvo de forte estigma na sociedade israelense e, envergonhada de sua condição, Ofra optou por não buscar tratamento médico.

A morte da jovem cantora, aos 42 anos de idade, pegou a todos de surpresa em 2000. Afinal de contas, em 1998 ela havia gravado a canção "Deliver Us" para a animação O Príncipe do Egito, o que significava que as portas de Hollywood estavam se abrindo para ela. Sua morte foi destaque na CNN, sendo uma das poucas, se não a única cantora israelense a ser destaque no canal de notícias. A decisão do jornal Ha'aretz de divulgar a causa da morte de Ofra foi polêmica. Tanto Aloni quanto a família da cantora acusaram Ashkenazi de ter transmitido a doença para a esposa. O viúvo, sob intenso escrutínio da mídia, se defendeu dizendo que Ofra contraiu a doença após uma transfusão de sangue num hospital turco. A família Haza e o viúvo disputaram entre si o espólio da cantora até que Ashkenazi morreu de uma overdose de metanfetamina em 2001.

Além do inglês, Ofra Haza gravava tanto em hebraico quanto em árabe, idioma de seus pais. Em 1984 lançou o álbum Yemenite Songs que incluía canções tradicionais dos judeus iemenitas. Apesar de ser bem vendido, foi boicotado por algumas estações de rádio por ser interpretado em árabe. Apesar disso, a canção "Galbi" foi remixada e fez sucesso nas pistas de dança da Inglaterra, abrindo caminho para o sucesso de "Im Nin'alu" na Europa. Algumas das canções de Ofra, como "Eshal" ou aquela que escolhi para introduzir este post, estendem a mão aos palestinos. Algo que pouquíssimos cantores israelenses fazem hoje em dia. Ofra Haza é o retrato de um Estado de Israel que não existe mais — para o bem (como no caso dos costumes que evoluíram) e para o mal (como no aumento da segregação racial). Deve ser por isso que gosto tanto dela.


Em seu último álbum, epônimo, lançado em dezembro de 1997, Ofra canta que não tem tempo para o ódio. O que mais vejo nos dias de hoje são pessoas arranjando tempo para odiar outras pessoas. Por mais atarefadas que estejam, sempre sobra um tempinho na agenda para manifestar seu ódio. E não apenas em Israel, infelizmente. Em relação ao século passado, a islamofobia tomou o espaço do antissemitismo e a homofobia do racismo. Já o preconceito de classe, esse nunca sai de moda enquanto for mais importante entrar nos portões dos ricos do que no de Deus. Mudam os tempos, mudam os personagens, mas não muda a perseguição e nem o ódio. Nesses tempos de cólera em que vivemos, a música de Ofra Haza me traz um pouco de paz e de esperança, tão difíceis de se encontrar ultimamente. Ela me ensina que não podemos ter tempo para o ódio.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

As Olimpíadas da desesperança

Brasil olímpico: do orgulho...
Há quase quatro anos, lembro-me de assistir à festa de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres e ficar extasiado pelo segmento de oito minutos criado pelos diretores de cinema Cao Hamburger e Daniela Thomas para apresentar ao mundo um pouco do Rio de Janeiro, próxima cidade-sede do evento. Intitulado “Embrace” (Abraço), o segmento começou com o limpador de rua Renato Sorriso, ícone do Carnaval carioca, sambando, passou por uma performance de Marisa Monte vestida da deusa africana das águas Iemanjá e terminou com Pelé vestido com sua icônica camisa número 10 da seleção brasileira. Me enchi de orgulho e esperança de que o mundo finalmente veria o melhor de nós.

Dois anos se passaram e o Brasil se mostrou um país extremamente feio para o mundo. Na abertura da Copa do Mundo de 2014, a presidenta Dilma Rousseff foi mandada tomar no cu por gritos que ecoaram inicialmente da área VIP do Estádio de Itaquera. Mesmo com esse episódio, minha esperança não se esvaiu. A reeleição de Dilma em outubro daquele ano me provou que, embora crescente, a feiura ainda não era majoritária. Até que veio o ano de 2015. Acuada pela mesma elite paulista que a queria ver tomar no cu, Dilma decidiu adotar um programa de austeridade fiscal. Não só não conseguiu agradar a elite como também se distanciou da base trabalhadora que a reelegeu.

Durante todo o ano de 2015, Dilma enfrentou o fantasma do impeachment. Conseguiu afastá-lo graças ao apoio do PMDB do vice-presidente Michel Temer. Em dezembro, no entanto, trocou o ministro da Fazenda pró-austeridade por um nome mais ligado ao PT. Foi quando foi traída por Temer, que recebeu da elite econômica a incumbência de derrubar o governo e colocar a ordem de volta na casa, ou seja, tirar dinheiro de programas sociais para colocar no pagamento dos juros da dívida pública. O imbróglio deveria ter sido resolvido já no início do ano, mas o PT conseguiu barrar seu andamento no Supremo Tribunal Federal após questionar a forma de eleição dos membros da comissão do impeachment.

O Supremo decidiu que a eleição deveria ser aberta. Eleitos os membros da Comissão, a Câmara se apressou para tirar Dilma do poder, o que culminou com a votação do dia 17 de abril, um domingo, quando os deputados votaram a favor de tudo, menos do relatório que condenava Dilma. Agora o circo mudou de picadeiro. Está no Senado onde, após discussões inflamadas, a presidente deverá ser afastada por 180 dias. Enquanto Dilma prepara sua defesa contra o afastamento final, que deve ser referendado por 2/3 dos senadores, Temer deve apresentar seu pacote de maldades à nação: desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, fim do reajuste automático do mínimo com base na inflação, entrega do pré-sal para as empresas petrolíferas estrangeiras, etc.

Nesse cenário de perda de direitos é impossível nutrir algum sentimento bom pelas Olimpíadas. No mesmo dia em que a tocha olímpica era acesa em Atenas, uma ponte caiu no Rio de Janeiro e matou duas pessoas. Desde 2010 o estado é governado pelo PMDB e desde 2012 a cidade está nas mãos do mesmo partido, que foi o responsável pela execução das obras olímpicas. Muitas delas, como a despoluição da Baía de Guanabara, ficaram só no papel. Outras, como a construção de locais de competição, foram realizadas às custas da retirada ilegal de moradores de suas casas. Muitos fizeram uma analogia entre a ponte caída e o título do projeto do PMDB para o Brasil: "Uma Ponte para o Futuro".

...à desesperança.
Qualquer clima de orgulho foi morto pelo PMDB. Mostramo-nos para o mundo em Londres como um país que respeita as religiões de origem africana. Temer já recebeu a bênção do pastor Silas Malafaia, que abomina qualquer religião que não é cristã. Mostramo-nos como um país que respeita seus trabalhadores. Porém em 2013 o prefeito carioca ameaçou de demissão 1.200 limpadores de rua em greve por melhores condições de trabalho. Temer, por sua vez, deve apresentar projetos anti-sindicais nas próximas semanas. O orgulho foi destruído para satisfazer aos anseios insaciáveis de uma pequena parcela da população brasileira, que, a despeito de sua fortuna, sempre quer mais. E vai até mesmo derrubar uma presidente honesta e democraticamente eleita se ela estiver atrapalhando seu lucro. Por isso, essas são, pelo menos para mim, as Olimpíadas da desesperança.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quem cria corvos...

Por que em 2003 Bolsonaro não chocava a Rede Globo?
Há um provérbio espanhol que deveria estar em voga no Brasil atual: cría cuervos y te sacarán los ojos ("cria corvos e te arrancarão os olhos"). É particularmente útil porque, na sua sanha antipetista, a direita moderada que era o PSDB, alinhou-se aos elementos mais delirantes da direita nacional. Teóricos da conspiração que acusam a Pepsi de fabricar seus refrigerantes a partir de fetos abortados e gente que acusa o ex-presidente Lula de tanta coisa que quando apresentam uma denúncia consistente contra ele eu simplesmente não consigo acreditar nela. No meio de tantos lunáticos, um extremista chama a atenção pelo tamanho de seu apelo junto à classe média que foi ao paraíso sob o lulismo e agora se volta contra o PT devido à crise econômica. Trata-se do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que tem, entre as personalidades políticas brasileiras, a terceira página mais curtida no Facebook.

Apoiador de Lula em 2002, quando era do PTB, Bolsonaro logo terminou sua lua-de-mel com o PT e, já no ano seguinte, agrediu verbalmente a colega Maria do Rosário (PT-RS) enquanto esta dava uma entrevista para a equipe de jornalismo da RedeTV no corredor da Câmara dos Deputados. Foi a primeira vez que ele disse a outro ser humano "não estupraria você porque você não merece". Na época não existiam redes sociais e a agressão passou relativamente despercebida. A partir de 2005, no entanto, o PT foi sendo transformado pela grande mídia na razão de todo o mal da nação com a revelação do escândalo do mensalão por repórteres que se diziam chocados, mas que se recusaram a cobrir o mensalão de FHC. Conforme figuras até então restritas às entranhas da internet foram se tornando parte do mainstream do debate político midiático, cada vez mais as discussões foram sendo pautadas pelo ódio a Lula e a seu partido e por questões de ordem moral.

Em 2011 o STF arquivou uma denúncia contra o deputado
devido sua fala racista em um episódio do CQC.
Se na campanha de 2006 Geraldo Alckmin teve que prometer que não privatizaria as empresas estatais, em 2010 Dilma Rousseff teve que prometer que não legalizaria a interrupção voluntária da gravidez no país que é o campeão mundial em morte de mulheres por abortos malfeitos. Aquela foi a campanha mais suja até então. E o ódio latente ao PT e seus apoiadores (pobres, negros, LGBTs, feministas, etc.) estava pronto para reemergir a qualquer momento. Logo após a posse de Dilma eis que a Band resolve colocar Bolsonaro num episódio de seu CQC. No programa em questão, ele diz à cantora Preta Gil que seu filho jamais namoraria uma negra porque ele recebeu boa educação dos pais. Como todo bom fascista, ele covardemente nega a afirmação e diz que entendeu errado a pergunta, embora a dicção de Preta seja a mais clara possível. O episódio, massificado pelas redes sociais, rendeu-lhe seus primeiros questionamentos na Justiça e também os primeiros fãs fora do estado do Rio de Janeiro, justo aqueles que mais odeiam o PT e tudo aquilo que ele representa.

Em junho de 2013, Dilma Rousseff enfrentou, pela primeira vez, amplos protestos antigoverno. A narrativa de que o PT era a fonte de todo o mal colou, ajudada por uma péssima equipe de comunicação no Palácio do Planalto e por uma certa reclusão da mandatária. A mídia se apressou para pintar Marina Silva (Rede) como a musa dos manifestantes. Antes fosse só ela. Com seu caráter apartidário, os protestos logo foram sendo tomados por elementos de extrema-direita, ao ponto dos próprios organizadores serem expulsos de um ato na Avenida Paulista. Bandeiras do PT foram rasgadas, militantes negros e LGBT foram agredidos. O brasileiro, até então mais preocupado com a final da novela e/ou do campeonato de futebol, sentiu-se empoderado para tomar as ruas e participar do debate político de seu país. Principalmente os analfabetos políticos e aqueles que aprenderam história e sociologia através da revista Veja.

Em 2013 a extrema-direita perdeu a vergonha e tomou as ruas.
Após mais de uma década no poder, a esquerda envelheceu e saiu de moda. O cool agora é se opor ao PT, mas não de maneira crítica e racional. E sim como gado em boiada, o que significa dar um belo tiro no próprio pé. Não importa o histórico do PT em defesa dos trabalhadores; a discussão é emocional. E, justamente por isso, cresce de maneira assustadora o apoio à extrema-direita em todo o país. Bolsonaro possui hoje 7% das intenções de voto segundo a última pesquisa Vox Populi e é o candidato a presidente menos rejeitado pela população, com 34% de rejeição segundo o Ibope. A criminalização do PT e de partidos outrora aliados, fomentada por anos pela grande mídia, não favoreceu seu queridinho PSDB. Justo pelo contrário, fez com que todos os políticos associados a partidos e ideologias tradicionais fossem igualmente repudiados pela população.

Não é incrível a inversão de valores na sociedade brasileira que faz com que o candidato a presidente da extrema-direita seja o menos rejeitado? Aquele que em 2014 disse novamente à Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merece e que homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra — reconhecido pela Justiça como torturador — durante a votação do impeachment. Como o fim da escravidão, o término da ditadura não colocou curativos sobre as feridas abertas daquele período. Tivemos a oportunidade de fazê-lo em 2010, quando o STF analisou um pedido para rever a lei de anistia e punir os torturadores do regime militar, já que tortura é um crime imprescritível e impassível de anistia. Mas não o fizemos e volta e meia essas feridas voltam a sangrar. Talvez se tivéssemos seguido as recomendações da ONU para redemocratização figuras como Bolsonaro hoje não existiriam, como elas não existem na Argentina, no Uruguai e no Chile, referências em transição democrática no Cone Sul. Preferimos seguir o Paraguai (e agora teremos um golpe paraguaio).

Só agora a direita descobriu que estava andando com fascistas?
A Globo, que até então se manteve alheia ao fenômeno Bolsonaro, decidiu fazer uma matéria em tom crítico ao deputado no Fantástico do último domingo. Confesso que não assisti à matéria. O boicote à emissora continua de vento em popa aqui em casa. No entanto, não preciso assistir à matéria para dizer que o efeito almejado pela Globo não será conquistado. Ao dar espaço para Bolsonaro, mesmo que em tom crítico, a emissora dá visibilidade a ele. Deviam ter se posicionado contra Bolsonaro muito antes do episódio da homenagem a Ustra. Mas a sanha da mídia para tirar o PT do poder a qualquer custo não permitia isso. Bolsonaro lhes era útil. Agora que desfecharam o golpe final contra o PT, se voltam contra a direita radical cuja existência ignoraram, como se o antipetismo já não se confundisse com o próprio fascismo. Criam corvos e não querem ser bicados por eles?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bancada cristã: me incluam fora dessa

Parte de mim sente-se na obrigação de pedir desculpas aos cidadãos brasileiros pelo episódio grotesco promovido no último domingo pela bancada cristã na Câmara dos Deputados durante a votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Teve deputado dito "cristão" exaltando um notório torturador do regime militar, teve uma overdose da utilização do santo nome em vão e teve até mesmo deputado católico negando a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil por esta ter se posicionado ao lado de nossa frágil democracia. Quero muito pedir desculpas, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada a ver com aquilo. Minha igreja não deturpa o Evangelho para tornar seus líderes ricos e influentes politicamente. Justo ao contrário, ela prega o Evangelho social de Jesus Cristo, acolhendo a todos e se posicionando a favor das liberdades democráticas do povo brasileiro. Minha igreja está do lado do povo.

Num artigo recente para o Huffington Post, a professora de inglês Mary Ann Ware enumerou dez estereótipos comuns sobre os cristãos, que as denominações neopentecostais tanto ajudam a propagar. Muitas vezes sou vítimas desses estereótipos sem comungar com o discurso dessas igrejas. Graças a incendiários de orixás e espancadores de crianças candomblecistas, os não-cristãos têm uma imagem muito negativa de nós. Se pudesse, eu mesmo proibia essas pessoas de usarem o rótulo "cristão". Elas sofreram lavagem cerebral e foram levadas a crer que só o caminho delas leva a Deus. No entanto, nem todo mundo que escolhe ser cristão tem a mente fraca. Eu, por exemplo, escolhi minha própria igreja e meu QI é superior ao de 70% da população mundial. Não nego a ciência e a evolução das espécies e jamais compraria a "fragrância de Jesus" que deixa televangelistas podres de ricos. Também nunca votaria num candidato de extrema-direita porque o pastor mandou.

Assim como Dilma Rousseff,
Jesus também foi torturado.
Não faço do meu cristianismo uma questão de ativismo. Sim, o que Jesus pregou tem muito a ver com a atualidade, em especial com as desigualdades sociais — e o Papa Francisco expõe isso de maneira brilhante. No entanto, usar o nome de Cristo para defender seu ponto de vista é admitir que suas ideias são tão frágeis que não se sustentam sem o manto da religião. O debate político, que deveria pertencer a todos os cidadãos, vira uma questão exclusiva de quem crê em Deus. E logo bandidos que não têm nada a ver com a mensagem de Cristo se escondem sobre esse manto. Duvido muito que o nazareno, vítima de tortura dos romanos, faria campanha para o mais novo garoto-propaganda do Partido Social Cristão (PSC), Jair Bolsonaro, que saudou o torturador de Dilma, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao falar ao microfone no último domingo. Um cristão de verdade ama seus inimigos e não se vale do episódio mais brutal de sua vida para humilhá-lo.

O que se viu na Câmara dos Deputados no domingo foi um escárnio aos valores cristãos. Foi, nas palavras do deputado Chico Lopes, um "encontro de bons maridos e bons pais". Seres humanos quase perfeitos diante de uma Dilma Rousseff imperfeita. Conforme escreve Mary Ann, "a ideia principal do cristianismo é que Deus estende a nós sua graça e seu perdão através de seu filho". Ora, seres perfeitos, pais e maridos exemplares, não precisam de perdão, logo não são cristãos. Felizmente a máscara da perfeição da bancada cristã não demorou a cair. Um dia após a votação o marido da deputada Raquel Muniz — eleita pelo PSC e hoje no Partido Social Democrático (PSD) — foi preso pelos crimes de estelionato, prevaricação, peculato, falsidade ideológica e dispensa de licitação pública. Seria retribuição divina por tantas violações ao 3° mandamento (2° na tradição católica) num curto período de tempo?

É fácil perder a paciência com quem se esconde sob o manto
religioso para agredir quem tem outra concepção de mundo.
A situação deplorável do Congresso se dá porque muitos acreditam que ser cristão é um atestado de bons antecedentes criminais. Me recuso a acreditar em qualquer candidato (e cidadão) só porque ele diz ser cristão. Saber citar versos bíblicos não significa nada. Que lindo você saber que o Levítico condena os homossexuais, mas você sabia que o próprio Jesus Cristo o violou? Jesus foi enviado a este mundo para reformar a lei judaica e em sua comitiva aceitava a participação de ex-prostitutas e ladrões. Enquanto Jair Messias Bolsonaro gritava "queima-rosca" para Jean Wyllys enquanto este votava, o outro Messias disse a uma turba de homens prestes a linchar uma prostituta que eles não poderiam julgá-la porque não eram Deus e também tinham seus muitos pecados. Noutra ocasião, disse "não julgueis para não serdes julgados", lembrando que somos medidos com a mesma régua que usamos para medir os outros. E foi assim que um empurrão deu origem a uma cusparada.

Por fim, a obsessão dos cristãos — fora e dentro do Congresso — com questões de ordem "moral" é fascinante. Como se existisse uma única "moral" que deveria se aplicar a todos os 200 milhões de brasileiros, muitos dos quais nem são cristãos. Dentro do próprio cristianismo existem várias morais. Apesar do culto debochado de domingo na Câmara e da cruz pendurada no plenário do Supremo Tribunal Federal, o Estado brasileiro ainda é laico e impor um único conjunto de valores morais à totalidade da população é inconstitucional — se bem que derrubar presidente sem crime de responsabilidade também é. Nem o próprio Jesus andava só com aqueles que possuíam os mesmos valores que ele. Como ser iluminado que era, ele sabia que é na diferença que crescemos. Viver numa bolha contraria os ensinamentos de Cristo. Mas parece que isso é o de menos para deputados que violam muitos senão quase todos mandamentos enquanto se escondem sob legendas ditas cristãs.

Sim, sou cristão, mas minha turma é outra.
Por mais que o escárnio religioso de domingo me entristeça, não tenho porque pedir desculpas por aquilo. Fui criado na Igreja Católica e ano passado decidi abraçar a fé anglicana. Sequer conheço o conjunto de crenças dos evangélicos, a não ser aquilo que a mídia apresenta. O censo do IBGE me classifica como um "evangélico", embora comparar a Igreja Anglicana às principais denominações evangélicas do Brasil equivale a comparar o Partido da Causa Operária (PCO) ao Democratas. Temos outra visão de mundo, outra concepção do que significa ser cristão. A fé deles foi individualizada, afastada do contexto social pelo neoliberalismo, e isso está nítido nas declarações dos membros da bancada dita cristã ao votar pelo afastamento de Dilma Rousseff — "pela minha família", "minha esposa", "meus filhos", "meus pais", etc. Minha fé, por sua vez, não é individualista, portanto não me exijam um pedido de desculpas; sou cristão, mas não sou responsável pela bancada cristã e estou tão chocado quanto um não-cristão. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Golpe frio: a crise de Estado no Brasil


Jens Glüsing.
Os oponentes de Lula conseguiram aquilo que sua frágil sucessora Dilma Rousseff falhou em conseguir desde que tomou posse: unir a base do Partido dos Trabalhadores do Brasil, os sindicatos e os movimentos sociais, ao governo.

Centenas de milhares de apoiadores de Lula protestaram na sexta-feira á noite em todo o país contra a tentativa de expulsar a presidenta do cargo por meio de um processo de impeachment. Na Avenida Paulista, em São Paulo, considerada o termômetro dos protestos, ocuparam onze quarteirões. As manifestações transcorreram com calma e Lula foi conciliador; ele não atacou o Judiciário e fez um apelo ao diálogo. Dificilmente pôde-se ouvir incitação ao ódio nas demonstrações no Rio e em São Paulo.

Ao contrários dos protestos massivos contra o governo do fim de semana passado, nos quais se reúnem cada vez mais revoltados de extrema-direita. Eles não representam a maioria dos manifestantes, mas crescem em popularidade. Isto é preocupante para a ainda jovem democracia brasileira.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em meados dos anos oitenta, uma crise política que pode destruir muitas realizações dos últimos trinta anos ameaça o maior país da América Latina. Parte da oposição e o Judiciário tem inflamado, juntamente com o poderoso grupo de TV Rede Globo, uma verdadeira caça às bruxas contra o ex-presidente Lula.

Sérgio Moro, um ambicioso juiz de Curitiba, no sul do Brasil, tem aparentemente apenas uma meta: colocar o ex-presidente atrás das grades. Moro conduz os inquéritos de um escândalo de corrupção envolvendo a empresa petrolífera estatal Petrobras, no qual centenas de gestores, lobistas e políticos, incluindo vários membros de primeiro escalão do Partido dos Trabalhadores de Lula, estão implicados.

Como um furacão, o juiz varreu as elites políticas e econômicas do Brasil. Ele descobriu bilhões pagos em propina. Mais de cem suspeitos estão presos, a maioria dos quais sem uma condenação. Muitos brasileiros celebram o juiz como um herói nacional.

Evidências escassas

Os oponentes de Lula conseguiram o que Dilma falhou em
conseguir: unir sindicatos e movimentos sociais ao governo.
Mas nos últimos meses o sucesso de Moro aparentemente lhe subiu à cabeça. O juiz faz política, o que não é para ele. A divulgação de conversas telefônicas entre Lula e a presidenta Rousseff, interceptadas poucas horas antes da nomeação de Lula como premier, persegue fins políticos por si só e foi legalmente duvidosa para se dizer o mínimo.

Moro até agora não foi capaz de forjar uma acusação contra Lula, embora dezenas de promotores e agentes da Polícia Federal em Curitiba tenham vasculhado as finanças e a vida pessoal do ex-presidente durante meses. As evidências ainda são escassas.

Lula não tem milhões na Suíça como o poderoso presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro; um juiz do Supremo Tribunal Federal se referiu a ele como bandido. Mas isso não o impede de assumir a presidência da comissão que é responsável pelo impeachment da presidenta.

Nesta honrosa comissão sentam-se, dentre outros, um ex-governador de São Paulo que foi condenado na França sob acusação de corrupção, mas que não foi entregue pelas autoridades brasileiras por ser um cidadão brasileiro. O fato de que tais figuras sejam peças-chave na derrubada de uma presidenta contra a qual não pesam acusações mina a legitimidade de todo o processo.

Os apoiadores de Lula alertam para um golpe frio contra a democracia. Tal preocupação não é completamente destituída de fundamentos.

Jens Glüsing é correspondente do Spiegel no Rio de Janeiro.