Mostrando postagens com marcador García Lorca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador García Lorca. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de março de 2017

O calor repressivo e ignorante de Goiás

Cartaz do filme Volver.
Há cerca de dez anos, eu assisti ao filme Volver (2006), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e, assim como havia acontecido quando assisti a seu Tudo Sobre Minha Mãe (1999), me apaixonei completamente por aquela trama. A história gira em torno de Raimunda, que se vê forçada a retornar a sua cidade natal na região de La Mancha quando sua tia senil morre (daí o título do filme, que significa "retornar" em português). Raimunda, magnificamente interpretada por Penélope Cruz — indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação —, deixou traumas do passado e uma rígida moral conservadora para trás quando se mudou para Madri. Em determinada cena ela diz à filha adolescente, com certo desdém, que o sul da Espanha é quente e que, por isso, as pessoas ali são mais ignorantes do que aquelas com as quais elas convivem na capital do país.

Aquele diálogo mexeu profundamente comigo na época. Eu era um jovem gay e morria de medo e vontade de me assumir como tal para a conservadora — e igualmente quente — sociedade goiana. Minha dificuldade em me aceitar e me assumir vinha dos valores sociais em voga em Goiânia, onde a polícia registra cerca de dez casos de violência contra a mulher por dia. Agora, no entanto, eu decidi que a ignorância do goiano médio não pode mais pautar minha vida e tenho me lembrado cada vez menos daquela cena. Não há muito o que eu possa fazer se as pessoas a meu redor foram educadas para achar a caverna de Platão confortável. Apesar disso, recentemente outra obra de arte também produzida por um homem espanhol gay fez eu me recordar daquela cena, que considero o momento de origem do meu divórcio da sociedade ignorante em que estou inserido.

Trata-se da peça A Casa de Bernarda Alba, do dramaturgo Federico García Lorca, que tive a oportunidade de assistir na abertura da mostra "Mulheres por Mulheres", realizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Nela, o calor simboliza não a ignorância, mas a repressão religiosa e a rígida moral sexual do sul da Espanha no início do século passado. Assim como Raimunda, García Lorca só conseguiu se livras das correntes da sociedade provinciana após se mudar para Madri. Não creio que o diálogo entre essas obras seja um mero acaso. Tampouco creio que a onda de calor pela qual Goiânia atravessa e a aparição dessas obras no meu imaginário nesse exato momento seja mera coincidência. O valor simbólico exato disso, eu não sei, mas suspeito que seja um sinal de alerta para que eu continue resistindo ao calor repressivo e ignorante de Goiás.

sábado, 17 de setembro de 2016

Agora é a vez do PSOL

Passado o espírito olímpico, o Brasil se prepara para as primeiras eleições pós-golpe. No primeiro conjunto de debates foi notória a exclusão de alguns candidatos de esquerda. Seguindo a nova legislação eleitoral – aprovada em 2015 durante a minirreforma eleitoral realizada pela Câmara dos Deputados – a Rede Bandeirantes não convidou os candidatos do PSOL em algumas capitais. Os paulistanos não puderam conhecer as propostas da ex-prefeita Luiza Erundina, terceira colocada nas pesquisas de intenção de votos, assim como os cariocas foram subtraídos da visão do deputado estadual Marcelo Freixo, segundo colocado no Rio. Segundo a nova legislação, as emissoras são obrigadas a convidar aos debates os candidatos que concorrem por partidos que possuem menos de dez deputados federais – e o PSOL possui seis. Anteriormente, a lei exigia a participação de todos os candidatos cujos partidos possuíam representação no Congresso, independente do número de deputados. A exclusão dos candidatos do PSOL deve se repetir em várias cidades e em várias emissoras até o dia 2 de outubro, quando será realizado o primeiro turno das eleições.

Não é uma surpresa que o PSOL seja a nova vítima da máquina estatal. A única maneira através da qual a esquerda consegue acesso à mídia hegemônica no Brasil é através da força da lei. A articulação pelo golpe de Estado uniu Parlamento, Judiciário e mídia, que tentaram dar um véu de legalidade ao processo de impeachment para tentar vendê-lo como legítimo para a opinião pública, insatisfeita com o governo de Dilma Rousseff. Essas mesmas forças agora se unem contra o PSOL. O Legislativo, que se tornou um balcão de negócios, está pouco interessado na promoção de um partido que não se pauta pelos interesses das grandes empresas e, assim sendo, excluiu seu acesso aos veículos de comunicação de massa. O Judiciário, por sua vez, aplica a legislação eleitoral com um rigor ímpar contra os candidatos psolistas. A campanha de Freixo está sendo alvo de uma fiscalização rigorosa do TRE-RJ, o mesmo tribunal que faz vistas grossas para a relação incestuosa entre candidatos e milícias nas favelas. O Estado tão rigoroso contra o candidato que mobiliza a juventude carioca do asfalto, inexiste no morro.

Embora eu esteja ideologicamente distante do PSOL, solidarizo-me com seus candidatos e militantes. Eles agregam muito ao fétido ambiente político nacional e ao debate político apodrecido, pautado pelo falso moralismo de uma direita que aponta os desvios do PT, mas não deixa ninguém investigar seus próprios delitos. O PSOL luta para que a hipocrisia não seja a força motora da política brasileira. Para tal, apresenta soluções práticas e coerentes para a moralização da política, para além dos gritos vazios de "Fora Dilma". Preocupa-me que, em período de "pausa na democracia" (segundo as palavras de um ex-presidente do STF), um cara como Freixo, um ícone da luta contra a confusão entre o público e o privado – que está na raiz da injustiça social e do nosso índice Gini, um dos mais elevados do mundo – esteja sendo perseguido de maneira tão descarada pelas forças da burguesia infiltradas no Estado brasileiro. Entretanto, não posso dizer que isso me surpreende. Já havia alertado para o fato de que, liquidado o PT enquanto legenda naturalmente identificada pelos trabalhadores, a próxima vítima do macartismo à brasileira seria o PSOL. Não podem deixar o substituto do PT sequer nascer.

Parece-me óbvio que as forças conservadoras da máquina estatal (e paraestatal, no caso da mídia) do Brasil voltariam suas baterias contra o PSOL em determinado momento. O Poder Judiciário que agora quer multar Freixo por um deslize da cantora Fernanda Abreu num comício é o mesmo que permitiu que o Legislativo fizesse o impeachment sem base constitucional da presidenta Dilma Rousseff. É o mesmo Judiciário que deixou Sérgio Moro se eleger como herói da classe média "oprimida" pelos programas sociais (e não pelos banqueiros) às custas da própria imagem do Judiciário enquanto estrutura justa e imparcial. Por sua vez, a grande imprensa, da qual a Bandeirantes orgulha-se de fazer parte, está mancomunada com os perseguidores da esquerda no Judiciário desde que viram a oportunidade de manipular a opinião pública contra Dilma e o PT. Destruídas as chances de elegibilidade do PT, que os jornais anunciam a todo o momento que está "em crise" – uma crise que eles mesmos cultivaram com todo o carinho do mundo desde a eclosão do escândalo do mensalão – a tríplice aliança golpista que engloba Judiciário, Legislativo e mídia agora se volta contra o PSOL.

Me desculpem a franqueza, mas foi muito ingênuo quem achou que os autores da narrativa oficial brasileira permitiriam que o PT fosse trucidado e que o PSOL continuasse livre para denunciar o apartheid social brasileiro livremente. Se o pouco que o PT fez – Bolsa Família, ProUni, FIES, Luz para Todos, Mais Médicos, etc. – já ameaçou a manutenção do status quo nas três esferas de poder, imagina aquilo que o PSOL propõe fazer nas prefeituras? Não é preciso ser nenhum gênio ou visionário para saber que os psolistas seriam os novos petistas em termos de perseguição política. Basta olhar para as experiências de golpe de Estado contra forças progressistas ocorridas no passado. Durante a Guerra Civil Espanhola, cuja eclosão completou 80 anos no último mês de julho, foram perseguidos todos aqueles que defendiam a função social do Estado: de trotskistas a social-democratas, de marxistas a liberais e não apenas os militantes do PSOE. Não era possível na Espanha dos anos 1930 – assim como não é possível no Brasil de hoje – manter o status quo sem eliminar as entidades que denunciam e lutam contra a injustiça social.

O poeta Federico García Lorca, por exemplo, estava longe de ser um militante radical, mas defendia a separação entre o Estado e a Igreja Católica e, por isso mesmo, foi uma das primeiras vítimas do golpe de 17 de julho de 1936. Lorca era homossexual e queria viver num país onde pudesse amar quem quisesse; onde o amor consensual entre adultos não fosse crime para satisfazer à visão torta do Evangelho defendida pela Opus Dei. Os perseguidores tanto de Dilma quanto de Freixo odeiam os excluídos do apartheid brasileiro e aqueles que vêem como representantes deles. Quiseram separar o Brasil do Nordeste devido à identificação daquela região com Dilma na eleição presidencial de 2014. Chamam Dilma de "sapatão" desde 2010. De maneira semelhante, Freixo não pode participar dos debates porque é o candidato mais identificado com as minorias no Rio. Minha solidariedade a ele perpassa questões partidárias. É um apoio àquilo que ele representa para nós, membros de grupos oprimidos deste país que buscam a liberdade. Agora é a vez do PSOL ser a vítima dos ataques de um Estado que persegue aqueles que denuncia suas mazelas. Mas este não fala em meu nome e é por isso que eu grito: Viva Freixo! Viva aquilo que ele representa.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Há 80 anos, fascistas matavam a poesia na Espanha


Federico García Lorca (1898–1936)
Há exatos oitenta anos, no início da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o conhecido poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado por soldados fascistas. Um mês antes de morrer, aos 38 anos de idade, Lorca havia terminado de escrever a peça A Casa de Bernarda Alba que, com Bodas de Sangue Yerma, faz parte de sua trilogia rural. A morte, presente nas três peças, é um tema artístico central de sua breve vida. Dez anos antes de ser assassinado, quando morava em Nova York e acompanhou o desespero gerado nas pessoas pela quebra da bolsa, Lorca parece ter previsto o destino violento que encontraria ao compor os seguintes versos: "Então eu percebi que fui assassinado / Me procuraram em cafés, cemitérios e igrejas / Mas não me acharam / Eles nunca me acharam? / Não, eles nunca me acharam". O mais assustador em sua premonição é que até hoje seu corpo não foi, de fato, encontrado.

Poucos artistas representaram e encarnaram o espírito coletivo de sua nação tão bem quanto Lorca – o que torna sua morte ainda mais emblemática. A morte de Lorca precedeu a censura que matou a arte na Espanha. Logo após a eclosão da Guerra Civil, em julho de 1936, Lorca tomou a decisão desastrada de deixar o seguro enclave de Madri para ficar com seus familiares em Granada, a região conservadora em que nasceu. O interior da Espanha e seus costumes fascinavam Lorca, que retratou-o em suas peças. Imediatamente após sua chegada, Granada foi sitiada pelo partido político paramilitar que orquestrou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Azaña, a Falange Espanhola. Apesar de cultivar uma imagem pública de artista apolítico, sua associação com a República, suas peças contra a repressão e algumas declarações anti-católicas em entrevistas transformaram Lorca num alvo em potencial dos conservadores. Outro fator que contribuiu para o ódio dos falangistas ao poeta era sua homossexualidade.

Lorca manteve-se escondido, mas os falangistas caçaram-no até o dia 16 de agosto, quando foi preso e condenado à morte sem base legal ou julgamento. Às três da madrugada de 19 de agosto, foi algemado a um outro prisioneiro – um professor – e lavado de carro a um prédio chamado La Colina na cidade Viznar, que a Falange havia transformado em presídio para prisioneiros políticos. Pouco após o amanhecer, Lorca foi levado para o lado de fora do edifício, onde foi fuzilado ao lado do professor e de dois toureiros, membros do sindicato anarquista CNT. Segundo uma testemunha, o poeta foi levado para uma sala antes da morte, onde foi torturado devido a sua homossexualidade. Lá, balas foram enfiadas em seu ânus. Após o fuzilamento, o corpo de Federico García Lorca, um dos maiores escritores do século XX e um dos filhos pródigos da Espanha, foi lançado sem cerimônia num barranco, que em breve se tornaria uma vala comum para as vítimas dos falangistas.

Barranco de Viznar, onde o corpo de Lorca teria sido jogado.
Após seu fuzilamento, os livros de Lorca foram queimados publicamente na Plaza del Carmen em Granada e, com a ascensão ao poder do caudilho Francisco Franco, sua obra foi rapidamente banida de todas as províncias da Espanha. Anticlericalismo, republicanismo e liberdade não eram valores que interessavam ao novo regime integralista, que promovia o nacionalismo, o militarismo, o catolicismo, o anti-comunismo e o anti-libertarismo. E a homossexualidade? Existe algo mais subversivo para um governo escorado no fundamentalismo católico da Opus Dei do que relações entre pessoas do mesmo sexo? Em 1953, uma versão censurada das Obras Completas de Lorca foi lançada. Entre as ausências mais notáveis da antologia encontra-se o poema homoerótico "Sonetos do Amor Obscuro", escrito em 1935. Este era considerado perdido até os anos 1980, quando foi publicado na forma de rascunho, uma vez que a versão final do poema jamais foi encontrada.

A última peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, só foi encenada pela primeira vez em 1945 em Buenos Aires. Vinte anos mais tarde, uma versão censurada da peça foi apresentada na Espanha, mas a censura ao resto da obra do poeta só terminou após a morte do caudilho em 1975. Durante o francoísmo, menções à vida e à morte do poeta também foram censuradas. Para a narrativa oficial dos vencedores da guerra, Lorca nunca existiu. Foi somente após a morte de Franco, em 1975, que a Espanha pôde finalmente discutir abertamente sobre a morte de um de seus maiores ícones literários. Além da censura política, havia uma relutância da família García Lorca em permitir a publicação de seus poemas e de suas peças. Era um trauma que não estavam prontos para reviver. Devido ao fato de ter se tornado um assunto proibido por 36 anos, até hoje não se sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Atualmente suas peças são encenadas frequentemente na Espanha.

Monumento em Viznar: "Lorca era todos". Era? A depender
da direita brasileira, histérica, Lorca serei eu.
Embora imagina-se que exista um dossiê sobre o assassinato de Lorca, a falta de emersão do mesmo continua a atormentar sua família. Em 2009, um juiz espanhol abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato de Lorca e a família do poeta finalmente permitiu que fosse realizada uma busca a seus restos mortais no Barranco de Viznar. Segundo Ian Gibson, biógrafo de Lorca, esta ação foi adiada por tempo demais: "Acho que é essencial encontrar o corpo, em respeito à memória de Lorca. Só sua morte renderia 100 livros... Lorca pertence à humanidade e não a sua família. Ele é um emblema que deu sua vida pela Espanha. Ele é um mártir". Apesar da iniciativa, nada foi encontrado no local. Enquanto o assassinato de um dos maiores poetas do século passado é relembrado em todo o mundo, o Brasil ataca seus poetas e deixa-se fascinar pela mesma histeria fascista que permitiu à Espanha matar sua arte e embarcar em 36 anos de trevas. Como escritor, gay e libertário (assim como Lorca) não posso deixar de me incomodar com este paralelo histórico.