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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Ainda não é tarde para aceitar a História

Semana retrasada, um pouco antes do segundo turno das eleições, assisti a um episódio do desenho animado She-Ra que é uma alegoria perfeita sobre a ascensão do fascismo a qual vivemos atualmente no Brasil. Exibido há pouco mais de 33 anos nos Estados Unidos, a atualidade do episódio é assustadora. E me admira que uma geração que cresceu vendo esse desenho agora apoie um cara que flerta abertamente com o fascismo. Isto é, para mim, uma aberração cognitiva. Mas não acreditem em mim, confiram a sinopse do episódio e vejam se não é verdade o que estou afirmando.

Os rebeldes Adora (disfarce de She-Ra) e Arqueiro vão numa escola ensinar às crianças a verdade sobre a Horda. Eles contam às crianças que Etéria era um planeta próspero e feliz antes da invasão e da dominação dos soldados da Horda. Um menino chamado Cory desafia-lhes. Ele acha que a verdade histórica é uma mentira e que o revisionismo promovido pela Horda é que é a verdade. Após uma visita de soldados, que constatam o teor "doutrinário" das aulas, à aldeia, a Horda decide censurar os livros didáticos e controlar o conteúdo ministrado durante as aulas.

Ainda mal-informado sobre a Horda, Cory aceita se tornar um informante desta organização. Sua primeira ação é delatar a professora, que mesmo demitida ainda dá aulas de História escondido para as crianças da aldeia. Ela é presa por este crime de opinião, mas acaba sendo resgatada da prisão e levada para um lugar seguro por She-Ra. Seus alunos, ainda apegados à sua maneira de lecionar, rejeitam às aulas do interventor da Horda, que se limita a ler uma cartilha que falseia a verdade na sala. Elas são ameaçadas de internação num centro de lavagem cerebral e, com medo, alertam os rebeldes.

Cory informa a Horda que as crianças alertaram os rebeldes sobre a internação compulsória delas e eles são presos assim que chegam na aldeia para resgatá-las. Apesar dos serviços prestados à Horda, os soldados também levam a irmã de Cory para o centro de lavagem cerebral. É então que ele descobre que ele nunca será um membro da Horda e que só foi usado pelos soldados para que esta instituição se perpetuasse no poder. Suas ações fizeram com que sua irmã e dezenas de crianças fossem tiradas de seus pais para que aprendessem "a verdade" sobre a Horda por alguns meses.

Percebendo a manipulação à qual foi submetido, Cory se redime libertando os rebeldes que foram presos devido a sua delação. Estes, por sua vez, resgatam as crianças e, no fim do episódio, recebem um pedido de desculpas de Cory. Segundo ele, sua crença fiel na "verdade" da Horda se devia à sua preguiça de estudar história. Por fim, o Geninho — um personagem que sempre aparece no final de cada episódio para comentá-lo —  ensina às crianças sobre o direito à informação: as pessoas devem ter acesso a qualquer livro que elas desejam ler, desde que eles sejam adequados à sua idade, é claro.

É triste constatar que o presidente-eleito do Brasil discorda do Geninho. Em sabatina no Jornal Nacional, ele pediu a censura nas escolas de um livro de educação sexual destinado a pré-adolescentes que nunca sequer fez parte do currículo escolar. Eis o nível em que chegamos enquanto nação: um personagem de desenho animado fictício entende mais de liberdade de expressão do que o futuro presidente de carne e osso de nossa nação. Infelizmente, no entanto, as possíveis analogias entre essa peça de ficção animada e a realidade de carne e osso não param por aí.

Cory se assemelha aos seguidores do presidente-eleito, que rejeitam a verdade factual dos acontecimentos para acreditar cegamente na "verdade" disseminada por seu líder. Livros considerados "impróprios" pela Horda são censurados nas escolas assim como O Diário de Anne Frank foi censurado aqui no Brasil porque, numa determinada passagem da obra, a narradora descreve como é sua vagina. Soldados da Horda invadiram a escola por discordarem da crítica de uma professora ao autoritarismo assim como a Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiu uma instituição universitária que se posicionou contra o fascismo. O currículo escolar foi modificado pela Horda para evitar que os alunos se tornassem seres conhecedores da verdade assim como o "Escola Sem Partido", em pauta há algum tempo, visa calar professores que estimulam o pensamento crítico de seus alunos. Isso sem mencionar a proliferação de fake news pelo WhatsApp que vimos durante as eleições.

Todas essas possíveis analogias entre desenho e realidade não são uma mera coincidência. She-Ra era um desenho que buscava alertar às pessoas sobre os perigos do autoritarismo. Não é para menos, visto que ele era produzido durante a Guerra Fria, numa época em que a URSS — assim como os EUA em menor escala, durante o macartismo dos anos 1950 — buscava se perpetuar no poder através da manipulação da verdade e da perseguição à liberdade de expressão, algo que é sentido na Federação Russa, acostumada com a tirania de seu atual governante, até os dias de hoje. 

As práticas anti-liberais da URSS, que dizia às pessoas o que ler, o que escutar e no que acreditar, foram denunciadas por um jovem Fernando Haddad antes mesmo desta acabar. Em 1990, sua tese de mestrado argumentava que a revolução soviética não havia sido socialista por não ter emancipado o cidadão russo. Mas a manipulação durante as eleições foi tamanha que o candidato defensor da liberdade de expressão foi pintado como uma "ameaça comunista" e o candidato censor de livro juvenil foi pintado como o "libertador" que vai salvar o país de uma ameaça comunista imaginária. 

Só espero que o brasileiro médio, assim como Cory, tome consciência da manipulação da qual está sendo vítima. Eu acredito que ainda não é tarde para que ele perceba que pessoas autoritárias e violentas estão se perpetuando no poder graças à sua ignorância no que diz respeito à verdade dos fatos históricos e que — tal como Cory — ele será descartado assim que esse projeto de poder for concluído. Espero que ainda não seja tarde para ser como Cory e tomar consciência do mal que está sendo causado a milhares de pessoas, que estão tendo suas liberdades tolhidas, pela adesão cega a líderes políticos que só se sustentam no poder graças à manipulação e à mentira. Ainda não é tarde para aceitar a História, espero.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O país do tapa-sexo

Há algumas semanas, conforme o Brasil celebrava o carnaval — festa de origem pagã regada a muito sexo e álcool que precede o período de penitência da quaresma — a jornalista Eliane Brum conduziu uma extensa entrevista com o artista Wagner Schwartz. No final de setembro do ano passado, ele foi acusado de pedofilia ao se apresentar durante a abertura do 35° Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Durante a performance La Bête, inspirada em obra de Lygia Clark, o artista mantém-se nu no meio de um palco e convida a plateia a manipular seu corpo como se ele fosse um boneco. A performance gerou uma onda de ódio ao artista na internet após uma criança, levada pela mãe ao museu, ser filmada interagindo com o artista. Assim como havia acontecido anteriormente com a mostra Queermuseu, suspensa em várias cidades após ser acusada de promover a homossexualidade para menores de idade, boa parte do ódio contra Schwartz partiu de militantes do Movimento Brasil Livre (MBL).

Esse tipo de nudez não ofende a moral e os bons costumes
do Movimento Brasil Livre e de seus seguidores.
Em novembro, a polêmica chegou a níveis próximos do realismo fantástico. A CPI dos Maus Tratos à Criança e ao Adolescente do Senado Federal, que discutia os limites da arte e ouviu os curadores do Queermuseu, aprovou a condução coercitiva de Wagner Schwartz para depor no plenário. O artista foi alvo da medida arbitrária após declarar que não poderia participar voluntariamente da CPI por estar em turnê na França. Ele recorreu da decisão dos senadores no Supremo Tribunal Federal (STF) e teve sua condução coercitiva barrada pelo ministro Alexandre de Moraes. Para começo de conversa, os senadores nem deveriam estar discutindo qual o valor artístico de obras de arte num país onde a liberdade de expressão é cláusula pétrea da Constituição. Se as instituições estão funcionando normalmente desde o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, como insiste em dizer a presidenta do STF, então por que diabos os senadores agem como ditadores com artistas? Embora tenha feito, nesse caso, o papel de herói contra o avanço do fascismo, o próprio STF tem responsabilidade pelo acossamento de artistas.

Alexandre de Moraes, antes de assumir a cadeira deixada vaga pela suspeitíssima morte de Teori Zavascki, era o ministro da Justiça do governo golpista e vazou informações da Polícia Federal para o MBL. Alimentou o monstro que agora, para desviar o foco do governo de Michel Temer, o mais impopular da história do Brasil e talvez do mundo, empreende uma campanha a favor da moral e dos bons costumes nas apresentações artísticas. Mas nunca foi a intenção de tucanos como Alexandre de Moraes fomentar o fascismo à brasileira, que agora atinge níveis alarmantes. Eles patrocinavam grupos como o MBL para difundir, na sociedade, o discurso moralizante apenas da política. Foram ingênuos em achar que radicalizariam o brasileiro médio e que o ódio deste acabaria no momento em que o PT saísse do poder. Criaram o terreno para tipos como os presidenciáveis homofóbicos Jair Bolsonaro e Flávio Rocha. O PSDB, na ânsia de tirar o PT do poder, criou e alimentou uma onda fascista que agora vai contra a plataforma liberal do partido no campo dos costumes e que terá cada vez mais dificuldade de conter.

Uma invenção tipicamente brasileira.
A comoção proto-fascista gerada pelo MBL no segundo semestre do ano passado — muito útil para desviar o foco do presidente Michel Temer, que na época enfrentaria o julgamento da segunda denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra ele na Câmara dos Deputados — teria sido muito menor se Schwartz estivesse usando uma tanga ao invés de ter ficado completamente nu. Talvez ele não tivesse sido acusado de pedofilia. Ou então até tivesse sido, mas por um contingente bem menor de brasileiros "do bem" indignados com a suposta depravação moral presente nas artes. Inclusive penso que, se fosse esse o caso, muitos dos que acusaram-no de pedofilia teriam defendido-o, dizendo aos mais raivosos: "mas que bobeira, nem pelado ele estava". Mas, para o desespero geral da nação, o órgão genital do artista estava exposto. Como o desfile das escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro nos demonstra, o brasileiro médio aceita ver quase tudo em termos de nudez, desde que o sexo esteja estrategicamente escondido pelo bem das criancinhas. O MAM-SP deveria ter seguido o código da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), essa sim ciente da hipocrisia gritante que constitui a sociedade brasileira.

Mas por que a nudez se fez necessária na performance? Entendo-a como uma forma do artista mostrar-se vulnerável para o público, como se esse pudesse fazer o que bem entender com seu corpo. Afinal de contas, era essa a proposta de La Bête, não era mesmo? Schwartz escolheu apresentar-se nu porque pensou estar num país democrático que respeita a liberdade de expressão artística. Ingenuidade dele. Seu pênis — para ele ou para mim — é apenas mais um pedaço de pele e carne, não menos ofensivo do que um pé ou uma mão. Mas não o é para a maioria dos brasileiros, para os quais o MBL fala desde que os convenceu de que tudo o que o Brasil precisava era de um impeachment de base legal duvidosa, visto no exterior como um golpe frio, para nossas vidas melhorarem. A única intenção do coreógrafo com sua performance era provocar na plateia um questionamento sobre os limites do corpo humano e, também, gerar um sentimento de empatia. Ele queria que seu público pudesse enxergá-lo em sua vulnerabilidade e, assim, ser gentil ao manuseá-lo. Esse é um sentimento que o brasileiro médio, incitado por hordas fascistas como o MBL, não exercita há um bom tempo — se é que algum dia já o exercitou. 

Sim, o artista expôs seu pênis. E não cabe ao MBL ou à bancada evangélica do Congresso Nacional querer dizer a ele como ele deve se apresentar. O pênis é uma parte do corpo humano que pelo menos metade da nossa população — e mais da metade dos senadores — possui, não sendo mais sujo do que uma mão. Por que tanta hipocrisia ao lidar com ele? Será que nossa hipocrisia é tamanha que nossos representantes no Senado vão impor o uso de tapa-sexo nas apresentações feitas em museus e demais espaços mantidos com verba pública? Aliás, nada expõe tanto a hipocrisia do nosso país quanto o fato de termos inventado esse tipo de vestimenta. O tapa-sexo é uma invenção brasileira para que as escolas de samba burlassem a regra da LIESA que as impediam de mostrar nudez total na Marquês de Sapucaí. O regulamento foi baixado no começo dos anos 1990 depois de desfiles polêmicos organizados pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. Mostrar o corpo é aceitável, desde que ele esteja milimetricamente coberto para não ofender pudores cristãos que insistem se impôr numa festa originalmente pagã e numa sociedade oficialmente laica.

A emissora evangélica, que exibe cenas como essa à tarde,
está preocupadíssima com a exibição de nudez para crianças.
A hipocrisia é tamanha que é possível ver corpos seminus até mesma na maior emissora evangélica do país, a Rede Record, que promoveu uma verdadeira cruzada contra artistas que ela mesma chamou de "degenerados" em seus programas jornalísticos à época do incidente no MAM-SP. Há anos a emissora em questão explora o trabalho de W. Veríssimo, especialista em pintar corpos nus, cujos órgãos genitais ele esconde com minúsculos tapa-sexos em sua programação, inclusive em programas transmitidos no horário em que crianças estão acordadas. Assim como luta por uma arte "oficial", o jornalismo no Brasil deixou se ser o simples relato de fatos para se transformar na criação de uma narrativa única. A mesma que tornou possível o impeachment sem base legal de uma presidenta eleita com mais de 50 milhões de votos sem maiores questionamentos por parte da população em geral. Também foi graças à existência de uma narrativa oficial, sem espaço para questionamentos, que Adolf Hitler pôde convencer os alemães de que existia uma "arte degenerada" (Entartete Kunst) em seu país e convencê-los a lutar contra ela.

Os curadores do Queermuseu, Wagner Schwartz e o MAM-SP desrespeitaram o código de conduta moral do brasileiro médio. Este aceita a seminudez presente nos desfiles das escolas de samba durante o carnaval e nas ondas da Globo ou da Record. A mulata pode se expôr para o deleite masturbatório do público, em especial aquele formado por homens brancos de meia-idade, desde que um tapa-sexo mantenha a sua decência milimetricamente coberta para não chocar as criancinhas que possam estar vendo aquele programa na televisão. Esse mesmo público, no entanto, se levantou contra o pênis de Schwartz, apresentado num espetáculo lúdico e sem qualquer caráter sexual. Além de não entender que o pênis é esteticamente menos aceito do que a vagina para o brasileiro médio, ele desrespeitou a regra do tapa-sexo — expressão maior da nossa hipocrisia — e foi punido por isso. Afinal, precisamos proteger nossos pequenos deixando-os na ignorância. Assim, perpetua-se o abuso sexual de crianças que não podem aprender na escola (sem partido), na televisão ou no museu o que são vaginas e pênis. O país do tapa-sexo condena a si mesmo à perpetuação da violência sexual devido à hipocrisia. E ainda diz que está fazendo isso para combater a pedofilia!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O complexo de Gastão na comunidade gay

Ontem eu estava com uma insônia do cão causada por uma crise de ansiedade, então fui ler sobre A Bela e a Fera (2017), filme que eu havia assistido no cinema algumas horas antes. Num dos artigos que li descobri que as canções do filme original, a animação lançada em novembro de 1991, representavam uma metáfora para a epidemia da AIDS, que até 1991 havia matado cerca de 60 mil pessoas apenas nos EUA desde a descoberta do vírus causador da doença dez anos antes. As canções foram escritas por Howard Ashman, que morreu pouco antes da estreia do filme devido a complicações de saúde causadas pelo HIV, vírus até então indetectável por qualquer tipo de exame laboratorial.

É bastante óbvia de que a maldição que acomete o príncipe — jogando-lhe no ostracismo, afastando-lhe do convívio social e desgraçando também as vidas daqueles que cuidavam dele — é uma metáfora para a AIDS. A Fera, assim como um portador de HIV do início dos anos 1990, vive enclausurada, duvida da capacidade de ser amada incondicionalmente por quem quer que seja e luta contra o tempo para que um milagre a salve daquela maldição. Chamou-me mais atenção, no entanto, a relação entre a canção "Gaston", interpretada por LeFou (cuja versão de 2017 é o primeiro personagem gay de um filme da Disney) no bar, e a epidemia, muito menos óbvia.

Gastão.
Trata-se de uma canção altamente homoerótica que, na versão de 2017, com atores de verdade, tornou-se ainda mais provocativa. Ela exalta a força, a virilidade e a masculinidade do vilão, que deseja se casar com a Bela a qualquer custo. Mas o que isso tem a ver com a AIDS? Pois bem. Durante a epidemia da doença, os homens gays escondiam um de seus sintomas, a perda de peso, através da musculação excessiva. Como já havia dito, o HIV não era detectável em exames laboratoriais, então quem suspeitava que possuía a doença, para evitar um diagnóstico que lhe traria a mesma ruína da Fera, escondia os sintomas o máximo possível dos médicos e da sociedade em geral através da prática excessiva de atividades físicas.

A imagem que se tinha dos portadores do HIV na mídia era aquela de pessoas definhando na cama, emagrecendo até a morte. Como estratégia de sobrevivência num meio que já lhes era hostil antes mesmo do aparecimento da doença — inicialmente chamada pela comunidade médica de Deficiência Imunológica Relacionada aos Gays (GRID, na sigla em inglês) —, os homossexuais, mesmo aqueles que já haviam sido infectados, começaram a encher as academias para provar que eram sadios e que a doença atingia apenas uma pequena parte de sua comunidade. Essa é uma das teorias que explicam a ditadura do corpo musculoso ainda hoje vigente na comunidade gay.

É possível que Ashman exaltasse os músculos de Gastão porque era isso que ele desejava para si: um corpo que negasse a doença que lhe estigmatizava perante os olhos da sociedade. Creio, no entanto, que a canção, dado o contexto maior do filme, seja uma denúncia aos gays do tipo Gastão. Ela apresenta as características de um vilão, o que num desenho infantil sempre significa um modelo de vida a não ser seguido. Ao mesmo tempo em que exalta o corpo musculoso de Gastão, o letrista de A Bela e a Fera queria que ele não fosse seguido como exemplo pelas crianças que assistiriam ao desenho. Não é isso que deveria fazer alguém tornar-se aceito pela sociedade.

No contexto maior do filme, Gastão seria o gay saudável aos olhos da sociedade, que ataca o homossexual "amaldiçoado" para satisfazer uma multidão que canta "não gostamos do que não entendemos". O esforço de Gastão para matar a Fera e ser bem visto pelos habitantes de seu vilarejo equivale aos esforços dos gays musculosos em invisibilizar os gays magros — vistos como portadores de HIV — e conquistarem o respeito da sociedade ao se afastarem do estigma da "doença dos gays". Esta minha leitura é reforçada pela versão de 2017, pois há uma cena em que LeFou abandona o parceiro ao reconhecer que ele é o verdadeiro monstro e não a Fera.

Ainda hoje a comunidade gay reproduz a ditadura do corpo musculoso, o que não faz o menor sentido, visto que há toda uma geração de homossexuais cuja vida sexual iniciou-se quando a epidemia da AIDS já estava sob controle. Embora ainda exista a associação entre magreza e HIV tanto dentro da comunidade LGBT quanto na sociedade em geral, agora os corpos musculosos simbolizam, para os homens gays, a reconquista da virilidade que eles sentem que perdem quando saem do armário. É como se seus músculos servissem para provar para a sociedade não só que eles não têm AIDS como também que ainda são homens.

Estar satisfeito com seu próprio corpo é algo maravilhoso e se as pessoas sentem que atingem isso através da musculação, fico feliz por elas. O problema é que ainda persiste a estigmatização dos gays magros, mesmo com os estudiosos afirmando que nossa comunidade vive na era pós-AIDS. Isso ocorre porque nossa sociedade é heteronormativa e os gays dão mais valor ao que os héteros pensam deles e, assim, buscam parceiros que aparentar ter a virilidade dos homens heterossexuais. Mesmo que nós, magros, sejamos tão sadios quanto os musculosos, parte da nossa comunidade ainda está sob efeito do complexo de Gastão e continua a nos tratar como inferiores. Espero que isso não se torne um "conto tão antigo como o tempo".

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Calem a boca, brancos!

De todas as asneiras que eu li nesse dia da consciência negra, a maior veio da Ana Paula do Volêi, que abdicou da aposentadoria como uma das melhores jogadoras do país para virar animadora de torcida do golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff no Twitter. Segundo ela, os negros não devem honrar a memória de Zumbi dos Palmares. É isso mesmo: uma pessoa branca, completamente alheia ao que significa ser negro no Brasil, quer dizer aos negros quem eles devem ter como herói de sua libertação. E o ídolo proposto por ela aos negros brasileiros sequer é brasileiro.

Crianças africanas libertadas de um navio negreiro em 1868.
Como a escravidão já havia sido abolida nos EUA, elas
provavelmente estavam vindo para o Brasil.
O líder quilombola Zumbi dos Palmares (1655–1695) pode até ter sido o monstro estuprador de mulheres e escravizador de pessoas, como faz crer uma direita iletrada que aprende história com Leandro Narloch, que se quer é historiador. É até provável que ele não buscasse a libertação de todos os negros e sim apenas reproduzir sua sociedade africana — que também mantinha relações de escravidão — no território liberto de Palmares, no atual estado de Alagoas. Mas é praticamente impossível que Zumbi tivesse cometido as mesmas atrocidades que qualquer homem branco de seu tempo.

A crueldade já começava na África, durante a captura dos escravos. Os negros eram tirados do convívio de suas famílias e perdiam filhos, cônjuges, pais, irmãos, tios, primos, avós. Eles eram acorrentados pelo pé e enfiados nos porões escuros de navios onde amontoavam-se até 600 pessoas num espaço de 300–360 metros quadrados em média. Sem ventilação, a temperatura dentro dos navios negreiros podiam atingir os 50°C, o que propiciava o surgimento de doenças como disenteria e escorbuto. Dos vinte milhões de africanos que foram colocados nesses navios, três milhões jamais chegariam ao continente americano.

Ser transportado como carne a ser exportada era apenas o começo do martírio dos negros. Quando chegavam no litoral brasileiro, eram vendidos em mercados de escravos, como o Cais de Valongo, no Rio de Janeiro, e marcados a ferro quente para indicar a quem pertenciam. Este procedimento causava infecções que muitas vezes levava à morte dos escravos. Nas fazendas, as torturas eram ainda mais intensas e sádicas. O negro — constantemente vigiado e punido pelos feitores — deveria aceitar a escravidão caso não quisesse morrer no açoite.

A condição do negro de membro subalterno da sociedade brasileira era reforçada até nos pequenos aspectos. Ele era obrigado a mudar seus costumes e assimilar e venerar o Deus dos brancos 
— que, embora tivesse surgido no Oriente Médio, foi embranquecido pela Igreja Católica, que fazia vistas grossas para o tráfico negreiro — e açoitado se não o fizesse. Foi assim que surgiu o sincretismo religioso que uniu o culto aos orixás aos santos católicos, ainda hoje forte em regiões litorâneas do país, apesar da forte investida contra das igrejas evangélicas.

O negro que se recusasse a ser inferiorizado pelos brancos, para os quais era obrigado a trabalhar de graça, era colocado no tronco (nas fazendas) ou no pelourinho (nas cidades) e espancado com chicotes, varas ou barras de ferro. Os outros negros eram forçados a assistir o que acontecia com quem não se dobrasse à escravidão. Após a sessão de espancamento, jogava-se sal sobre as feridas do escravo "insubordinado" para que elas não cicatrizassem e ele e os demais pudessem sempre ver qual era o preço da insubmissão. Ele era mantido preso, servindo de "exemplo" até que o senhor de engenho tivesse misericórdia dele.

Segundo os brancos, os negros deveriam receber os três Ps: pano, pão e porrada. Muitos, devido ao excesso de tortura, eram acometidos pelo banzo, um sentimento de melancolia que levavam-nos ao suicídio, comumente praticado por greve de fome ou geofagia (ingestão de terra). Muitos acreditavam que a África esperava-lhes após a morte. O suicídio entre escravos era duas ou três vezes maior do que entre os homens livres. Também mais comum entre a população negra do que a branca era a prática de aborto e infanticídio. As mães negras preferiam ver seus filhos mortos do que passando pela mesma privação de liberdade pela qual elas passavam.

Augusto Gomes Leal com sua ama-de-leite
 Monica
(1860). Foto de João Ferreira Villela.
Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro,
"o Brasil inteiro cabe nessa foto".
Os brancos não tinham mais misericórdia delas por elas serem mulheres. As negras eram frequentemente estupradas pelos senhores. Daí surge o nosso povo mestiço: da violência sexual contra as negras. Como muito bem defendem as feministas, o estupro não tem a ver com sexo e sim com poder e hoje o Brasil é um país mestiço porque os brancos violavam o corpo das negras para reafirmar seu poder sobre os escravos. Não bastasse o estupro das mulheres dos negros, os senhores de engenho ainda colocavam cintos de castidade neles, para que eles reproduzissem quando esses quisessem.

A tortura da mulher negra não parava por aí. Elas eram atacadas até em sua maternidade. Quando nascia uma criança na casa-grande, pegava-se uma negra da senzala que estivesse amamentando para servir de ama-de-leite para o filho do senhor e da senhora de engenho. Esta não podia ocupar-se de uma tarefa tão banal quanto amamentar seu próprio filho. A criança negra desmamada era privada do leite e do convívio de sua mãe, o que muitas vezes resultava em sua morte. Em alguns registros, é perceptível a saudade do filho no olhar duro das amas-de-leite para a câmera.

A vida na senzala não era uma colônia de férias, embora existam empresários criando colônia de férias inspirada na experiência brutal dos negros que foram escravizados no Brasil. Isso eu falo sem muita propriedade sobre o assunto. Sei pouco sobre a história colonial desta nação, mas penso que todo brasileiro — negro ou não — deveria saber e se envergonhar do que esse país fazia com os negros até 129 anos atrás. Está tudo documentado, assim como a presença da escravidão nos quilombos que, segundo alguns autores, em pouco se assemelhava à escravidão de negros por brancos.

Ao invés de acreditar em quem de fato pesquisa a história do Brasil, a maioria das pessoas preferem acreditar em quem tem pouca ou nenhuma propriedade para falar sobre esse assunto — graças à mídia, em grande medida, que abre espaço para figuras como a aposentada do vôlei falar sobre um tema que não lhe diz o mínimo respeito. Assim sendo, não só não conhecemos o martírio dos negros no Brasil como ainda não nos envergonhamos por ele. É o caso da minha avó que, aos noventa anos de idade, escreveu um livro onde conta que sua avó materna ganhou escravos de presente de casamento sem nenhum pudor.

Quem somos nós — brancos que não conhecemos nossa própria história — para dizer aos negros quem eles têm que ter como símbolo de luta? Calem a boca, brancos! Quem tem propriedade para dizer quem representa a luta pela libertação dos negros são os negros. Ou, no mínimo, pessoas que estudam a história afro-brasileira e não uma ex-jogadora de vôlei ou um ex-jornalista da desonesta revista Veja que decidiu escrever "história pop" para entrar na lista dos mais vendidos daquela publicação. Resta a nós, pessoas pouco entendidas sobre o assunto, reconhecermos nossa ignorância e calarmos nossas bocas — que só não passaram fome devido aos privilégios que este país historicamente dá a seus cidadãos de pele branca — e respeitar o povo negro, sua história, sua luta e seus ícones.

sábado, 9 de setembro de 2017

Como a esquerda criou o "Bolsomito"

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) era um zé ninguém até aparecer no CQC em 2011. O programa humorístico da Rede Bandeirantes, exibido entre 2008 e 2015, gostava de abrir espaço para figuras bizarras da vida nacional, em especial do baixo clero da Câmara dos Deputados, como uma forma de aumentar sua audiência, sobretudo no Twitter. Emissoras como Record, SBT e Bandeirantes, que lutam entre si pelo segundo lugar nos índices de audiência, passaram a usar os trending topics daquele rede social como forma de atrair investimentos, mostrando para os anunciantes que possuíam um público mais jovem e antenado com as novas tecnologias do que a dominante Rede Globo. O IBOPE já era considerado um mecanismo defasado de medição de audiência naquela época.

A mídia tradicional precisava de um fascista para quando
estivesse precisando aumentar sua audiência.
A estratégia dos produtores do programa funcionou. Assim que o quadro em que o deputado respondia às perguntas da cantora Preta Gil foi ao ar, o CQC entrou para os trending topics. As barbaridades racistas ditas pelo até então desconhecido deputado foram repercutidas ad nauseum nas redes sociais por militantes de esquerda revoltados com suas palavras. São pessoas que acham que sua missão — na vida e nas redes — é combater as injustiças. Só que nessa luta incansável e sem tréguas a favor da justiça social, acabam dando espaço para as ideias que dizem combater. Depois de sua aparição no programa, amplificada pelos tuítes e retuítes de quem se propunha a denunciá-lo, Bolsonaro finalmente conseguiu o palanque que tanto desejava para suas ideias reacionárias.

Preciso fazer aqui um mea culpa. Na época, eu também ajudar a propagandear essa figura nefasta da política brasileira acreditando estar combatendo-o. Durante o tempo em que usava o Twitter, me tornei um extremista da justiça social, ao ponto em que não conseguia mais assistir a um episódio de um seriado qualquer sem problematizá-lo. O exemplo mais emblemático disso era quando eu assistia à comédia The Big Bang Theory. Para mim, o personagem Raj era utilizado pelos roteiristas do programa como mecanismo de afirmação da supremacia dos EUA sobre os países do terceiro mundo. Militantes de direita, percebendo o extremismo de certas problematizações, cunharam o termo pejorativo social justice warriors (guerreiros da justiça social) para se referir à esquerda, ainda em 2011.

Logo o Twitter virou um campo de batalha entre extremistas da justiça social e militantes que lutam contra a ditadura do politicamente correto. Em comum entre ambos está a falta de bom senso. E, num espaço onde a expressão é limitada a 140 caracteres, os xingamentos tornaram-se a lei. O debate político infantilizou-se desde então, como evidenciado pela recente troca de insultos entre o jornalista americano radicado no Brasil Glenn Greenwald e o deputado Bolsonaro. Longe de mim defender Bolsonaro, mas Greenwald não deveria ter esperado outra resposta do deputado ao chamá-lo de "cretino". A impressão que tive, ao ler a troca de mensagens entre os dois, foi a de que se tratavam de duas crianças brigando no pátio de uma escola:
— cretino!
— viado!

Greenwald também deve acreditar, como eu acreditava, que atacar o deputado, mesmo quando ele está quieto, é a menor maneira de derrotá-lo. Só que isso tem se provado falso. Depois que ele ganhou notoriedade ao aparecer no CQC e nas timelines de milhares de pessoas de esquerda revoltadas com suas ideias, militantes até então ligados à direita tradicional perceberam que ele incomodava muito mais a esquerda do que os políticos do DEM e do PSDB e elegeram-no como seu novo líder. Só não perceberam — ou fingiram não perceber — que isso se deve ao fato de que ele é fascista, o que deveria ser repudiado por todo o espectro político. Assim sendo, Bolsonaro se tornou o deputado mais votado em seu estado, saindo de pouco mais de 120 mil votos em 2010 para quase 470 mil em 2014. Hoje, encontra-se em segundo lugar nas pesquisas para a eleição presidencial de 2018.

Bolsonaro lidera as pesquisas em cinco estados e está em
situação de empate técnico com Lula em Goiás.
Faltou malícia, para mim e para os demais militantes de esquerda, em 2011, para perceber que a intenção da Bandeirantes era justamente a de criar um ícone fascista que eles pudessem explorar sempre que seus programas estivessem com problemas de audiência. A falta de bom senso dos empresários do setor e de regulamentação da mídia criou Jair Bolsonaro como um candidato viável para o futuro de uma nação decepcionada com seu sistema político. Desde que ele emergiu no imaginário nacional como solução para todos os problemas do Brasil, o baixo clero da Câmara cresceu, tomou o poder com Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e promoveu um golpe de Estado para conter a vontade soberana da nação de continuar no caminho da tímida inclusão social dos governos do PT.

A mídia empoderou o lixo político para gerar o caos, porque o caos — como admitiu cinicamente o presidente da CBS ao responder, em 2016, sobre o porquê de sua emissora dar tanto espaço para o então candidato a presidente Donald Trump — pode até ser ruim para a nação, mas é ótimo para os índices de audiência. E a militância da internet, que surgiu como uma promessa de revolucionar a comunicação e a política, tornou-se meramente um jogador de uma partida cujas regras já foram definidas pela mídia tradicional. Esta jogou sua isca e os twitters morderam-na cegamente. A militância de internet atendeu ao pedido da Bandeirantes e criou o "Bolsomito". E, o mais triste de tudo, é que eu não sei dizer se foi a de direita ou a de esquerda — que segue criando palanque para ele, como vimos Greenwald fazer.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O problema da educação não é não poder bater nas crianças

A diretora de um colégio decidiu filmar uma criança durante um ataque de cólera e expô-la no Facebook. Segundo ela, não há nada que ela possa fazer além de deixar a criança quebrar tudo por causa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que protege esses pequenos marginais. O vídeo está viralizando na rede social, mas não iriei compartilhá-lo porque porque se não vai ficar parecendo que apoio essa atitude e a mensagem do vídeo. Minha monografia foi justamente sobre a exposição indevida de menores em conflito com a lei pela imprensa.

O brasileiro médio adora citar o Primeiro Mundo quando lhe
convém, mas em toda Europa só é permitido o professor bater
nos alunos no Vaticano (em vermelho).
Diversas vezes, durante o vídeo, funcionários do colégio tentaram segurar a criança e evitar que ela virasse mesas e cadeiras. A diretora impede-os. Ela queria produzir uma evidência que reafirmasse sua ideologia pró-espancamento. Ela deixa a criança destruir o patrimônio do colégio — comprado com o dinheiro de todos nós — para provar seu argumento de que as crianças merecem apanhar dos professores, o que não ocorre em mais nenhum país da Europa. É um argumento do século XVIII, quando a pedagogia sequer era uma ciência ainda.

O entendimento corrente no campo da pedagogia é de que a criança é a parte mais frágil da sociedade e, assim sendo, tem o direito de receber educação sem ser submetida a tratamento degradante. Surpreende-me que uma pedagoga vá contra esse entendimento e defenda a punição corporal como forma de resolução do conflito entre aquele aluno e a escola. Que outras pessoas, alheias à situação, comentem a favor do espancamento só prova minha crença de que o brasileiro gosta de punir a revolta dos mais fracos ao invés da opressão dos poderosos.

A diretora deveria ser a parte racional da situação, tentando pôr fim ao que quer que seja que estivesse atormentando aquele ser, mas preferiu fazer ativismo político reacionário no Facebook. Além de desonesta — por manipular uma situação para defender seu ponto de vista — e anti-ética — por filmar uma criança sem a permissão de seus pais —, demonstra também que é anti-profissional, estando mais preocupada em publicar conteúdo na internet do que exercer sua função, a qual é paga pela coletividade. Se trabalhasse numa escola privada, com certeza seria demitida por justa causa.

Se dependesse de alguns, cenas como essa
sairiam dos livros de História e voltariam à
realidade. Diz muito sobre aquilo que somos
enquanto sociedade.
Por outro lado, duvido que ela deixaria a criança destruir tudo se trabalhasse numa escola particular. Mas no Brasil o que é público não é de todos (inclusive dela), é de ninguém. Ela fugiu de suas atribuições de zelar pelo patrimônio público e pelo bem-estar dos demais alunos. Só interessou-lhe, naquele momento, manipular uma situação para gerar "likes" contra o ECA. Afinal, é mais fácil culpar as crianças pelo atual estado do sistema educacional brasileiro ao invés de se olhar para o próprio descompromisso com as responsabilidades.

Aliás, ela culpa todo mundo pelo ocorrido — pais, assistentes sociais, polícia, políticos — menos a si mesma. É mais fácil culpar quem sequer estava na sala do que fazer o seu serviço, que nesse caso em específico se resumia a segurar a criança e tentar fazê-la se acalmar. É mais fácil também culpar a própria criança sem entender o motivo de sua raiva, o que poderia ajudá-la. Com certeza ela deve ter tido um motivo para o ataque de cólera, mas isso ficou sem explicação num vídeo que foi propositalmente tirado de contexto para defender um ponto de vista arcaico.

A educação no Brasil não está no estado atual porque porque o professor não pode mais bater nos alunos. É porque eles preferem postar vídeo no Facebook do que exercer as funções pelas quais são pagos pela coletividade para exercer. Não está escrito em lugar nenhum no ECA que não se pode conter uma criança durante um ataque de cólera. O que está escrito é que não se pode valer da violência para tal. Se a única forma que nós temos para resolver conflitos é abrir mão da violência, então é a nossa sociedade que tem um problema e não as crianças. As crises delas são apenas um reflexo disso.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O calor repressivo e ignorante de Goiás

Cartaz do filme Volver.
Há cerca de dez anos, eu assisti ao filme Volver (2006), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e, assim como havia acontecido quando assisti a seu Tudo Sobre Minha Mãe (1999), me apaixonei completamente por aquela trama. A história gira em torno de Raimunda, que se vê forçada a retornar a sua cidade natal na região de La Mancha quando sua tia senil morre (daí o título do filme, que significa "retornar" em português). Raimunda, magnificamente interpretada por Penélope Cruz — indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação —, deixou traumas do passado e uma rígida moral conservadora para trás quando se mudou para Madri. Em determinada cena ela diz à filha adolescente, com certo desdém, que o sul da Espanha é quente e que, por isso, as pessoas ali são mais ignorantes do que aquelas com as quais elas convivem na capital do país.

Aquele diálogo mexeu profundamente comigo na época. Eu era um jovem gay e morria de medo e vontade de me assumir como tal para a conservadora — e igualmente quente — sociedade goiana. Minha dificuldade em me aceitar e me assumir vinha dos valores sociais em voga em Goiânia, onde a polícia registra cerca de dez casos de violência contra a mulher por dia. Agora, no entanto, eu decidi que a ignorância do goiano médio não pode mais pautar minha vida e tenho me lembrado cada vez menos daquela cena. Não há muito o que eu possa fazer se as pessoas a meu redor foram educadas para achar a caverna de Platão confortável. Apesar disso, recentemente outra obra de arte também produzida por um homem espanhol gay fez eu me recordar daquela cena, que considero o momento de origem do meu divórcio da sociedade ignorante em que estou inserido.

Trata-se da peça A Casa de Bernarda Alba, do dramaturgo Federico García Lorca, que tive a oportunidade de assistir na abertura da mostra "Mulheres por Mulheres", realizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Nela, o calor simboliza não a ignorância, mas a repressão religiosa e a rígida moral sexual do sul da Espanha no início do século passado. Assim como Raimunda, García Lorca só conseguiu se livras das correntes da sociedade provinciana após se mudar para Madri. Não creio que o diálogo entre essas obras seja um mero acaso. Tampouco creio que a onda de calor pela qual Goiânia atravessa e a aparição dessas obras no meu imaginário nesse exato momento seja mera coincidência. O valor simbólico exato disso, eu não sei, mas suspeito que seja um sinal de alerta para que eu continue resistindo ao calor repressivo e ignorante de Goiás.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Não sou negro, mas não sou cego

Fevereiro é o Mês da História Negra nos Estados Unidos e no Canadá. A data foi proposta em 1926 pelo historiador negro Carter G. Woodson. Desde o final do século XIX, os negros comemoravam o aniversário de Abraham Lincoln (12 de fevereiro), o presidente que os liberou do cativeiro da escravidão, e do líder abolicionista Frederick Douglass (14 de fevereiro). Assim sendo, Woodson propôs que a segunda ou a terceira semana de fevereiro fosse comemorada como Semana da História Negra. Em 1976, o Mês da História Negra foi oficialmente reconhecido pelo então presidente Gerald Ford e, desde então, várias atividades são realizadas no país para homenagear a contribuição dos negros para a sociedade norte-americana, sobretudo nas escolas.

Acho louvável a proposta. Não possuo ascendência negra — não que eu saiba —, mas julgo ser de extrema importância conhecer a história e, sobretudo, as lutas do povo negro. É o conhecimento que evita que eu seja mais um ignorante repetidor de chavões. Mesmo que a história negra não seja a minha história, busco conhecê-la para entender como opera o racismo em nossa sociedade e a quem ele favorece. E também para questionar minha própria posição nessa sociedade dividida por raças e como a cor da minha pele me favorece em detrimento a outras pessoas, pelo simples fator biológico de que elas possuem mais melanina em seus organismos. Mesmo que eu não seja um branco puro, fui favorecido na loteria biológica e isso faz toda a diferença num país como o Brasil.

Não hesito em dizer que o Brasil é a sociedade mais racista do Hemisfério Ocidental. Os negros são caçados como animais nas favelas e, embora tenhamos uma população negra imensamente superior àquela dos EUA, jamais tivemos aqui pessoas da expressão de Barack Obama ou Oprah Winfrey. A classe média negra no Brasil é imensamente inferior àquela dos EUA. E se os marxistas brasileiros criticam a Beyoncé por oferecer uma resposta de classe média ao problema do racismo, sequer temos Beyoncés por aqui. O racismo no Brasil não é casual. Não começou ontem e não é um fenômeno difundido entre os menos instruídos. Desde 1526, quando os portugueses começaram a trazer negros à força para cá, o racismo favorece às mesmas pessoas que mandavam na sociedade brasileira naquela época.

Isto é algo que deveria ser dito sempre, toda vez que um negro sem passagens pela polícia fosse assassinado pela PM. Mas não é. Porque afirmar que o racismo é a pedra fundamental sobre a qual nossa sociedade foi fundada é como tornar o Brasil menos Brasil. Mas o conhecimento traz à tona a verdade, derrubando os mitos da democracia racial ou de que o Brasil é menos racista do que os EUA. A segregação aqui nunca foi legalizada, mas ela é visível. Os prédios possuem elevadores de "serviço" e babás negras são obrigadas a vestir uniformes. O Brasil acha que não precisa de um Mês da História Negra porque julga não possuir um problema racial, embora em muitos aspectos o racismo à brasileira seja ainda mais sentido e evidente do que o racismo à americana. Negar os problemas não os fará sumir. Conscientizar-se sobre eles, por outro lado, talvez nos ajude a entendê-los e propor soluções para os mesmos. Não sou negro, mas também não sou cego.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A ópera-bufa do combate ao terrorismo

A "relação especial" entre Estados Unidos e Arábia Saudita
deve continuar durante o governo Trump.
Desde 2015 tenho dito e repito: qualquer iniciativa antiterrorista que não inclua sanções à Arábia Saudita é pura demagogia. Osama Bin Laden, um membro da elite saudita, fundou o grupo terrorista mais famoso do mundo — a al-Qaeda — em 1988. O bando visa instituir o salafismo como religião oficial dos países do Oriente Médio. O salafismo ou wahhabismo é uma vertente ultra-conservadora do sunismo que defende que os muçulmanos devam viver como os primeiros seguidores do profeta Maomé. Os salafistas são contra inovações posteriores do mundo islâmico, como a separação entre o Estado e a religião, peregrinações a mausoléus — o que eles consideram como idolatria — e o convívio entre os sexos. Trata-se da religião oficial da Arábia Saudita que, pasmem, pune a idolatria com pena de morte. Dito isso, não é nenhuma surpresa que 15 dos 19 jihadistas que sequestraram os quatro aviões que jogaram contra o Pentágono, o World Tarde Center e um campo na Pensilvânia em 11 de setembro de 2001 eram cidadãos sauditas.

Embora o governo da Arábia Saudita negue possuir qualquer relação com grupos terroristas salafistas, a al-Qaeda é financiada por bilionários daquele país, como os banqueiros Saleh Kamel e Sulaiman Abdul Aziz Al Rajhi e o ex-ministro do petróleo Ahmad Turki Yamani. Segundo um memorando de 2009 do Departamento de Estado dos Estados Unidos, vazado pelo WikiLeaks, a Arábia Saudita é a principal fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo. Além da al-Qaeda, o país estaria financiando também outros grupos terroristas. Várias fontes, como o governo do Iraque, a revista The Atlantic, as emissoras de televisão BBC e NBC, o jornal The New York Times e o site de notícias Daily Beast acusam a elite ou o governo saudita de financiar também o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que também promove o jihadismo salafista. A Arábia Saudita exporta mais combatentes para este grupo do que qualquer outro país do mundo depois da Tunísia. Nas áreas controladas pelo grupo, professores lecionam com livros didáticos sauditas.

Estado Islâmico e Arábia Saudita defendem a mesma versão do Islã.
Num outro documento vazado pelo WikiLeaks — um e-mail de agosto de 2014 direcionado a John Podesta, conselheiro do então presidente Barack Obama —, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton afirma que tanto a Arábia Saudita quanto o Qatar estão "fornecendo apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIS e outros grupos sunitas radicais na região". É questionável, no entanto, se ela faria algo para conter a situação que denuncia no e-mail caso estivesse hoje na Casa Branca. A Fundação Clinton já recebeu doação dos governos de ambos os países. Por este motivo, Clinton foi criticada pelo senador Bernie Sanders durante as primárias do Partido Democrata. Sanders disse ter um problema com uma secretária de Estado cuja fundação recebe milhões de dólares de governos estrangeiros que são ditaduras. Até mesmo o New York Times, que declarou apoio à candidata, afirmou em um editorial que havia razões para acreditar que, embora não há evidências de que Clinton tenha favorecido os doadores de sua fundação, havia um conflito de interesses no caso.

Seu oponente, o agora presidente Donald Trump, também acusou-a de conflito de interesses durante um dos debates presidenciais. Segundo ele, ela deveria devolver os US$ 25 milhões que a Arábia Saudita doou à fundação porque "essas pessoas tratam as mulheres horrivelmente". Noutra ocasião, no entanto, disse que gostava muito dos sauditas, pois eles estavam entre seus principais clientes no ramo imobiliário. Só que ele afirmou também que, uma vez eleito, tomaria medidas enérgicas contra o terrorismo islâmico. Segundo o jornal New York Daily News, no entanto, Trump possui negócios no ramo hoteleiro da Arábia Saudita, país que não foi afetado por seu decreto presidencial que baniu a entrada nos Estados Unidos de pessoas oriundas de sete países do mundo muçulmano — Irã, Iraque, Síria, Iêmen e os africanos Líbia, Somália e Sudão. Entre 1975 e 2015, 2.369 norte-americanos foram mortos em solo estadunidense por terroristas sauditas e, ainda assim, os sauditas podem obter visto e entrar nos Estados Unidos assim que quiserem. 

Os ignorantes confundem vítimas e perpetradores do terrorismo.
É para eles que Trump toca sua ópera-bufa sinistra.
Ao invés de punir quem espalha o fundamentalismo islâmico que gera o terrorismo, Trump vai punir as vítimas do terrorismo. Banir pessoas que, na maior parte dos casos, são sobreviventes de guerra e perseguidos políticos buscando refúgio noutro país, além de ser um tremendo descaso do ponto de vista humanitário, vai ter um efeito praticamente nulo na luta contra o terrorismo. Isso sem falar que foram os Estados Unidos e, mais especificamente, o partido de Donald Trump que transformaram o Iraque num campo fértil para as ações do Estado Islâmico. Ao vetar a entrada de sírios e iraquianos e não de sauditas, Trump demonstra que seu discurso não passa de pura balela. Uma demagogia para aqueles que temem o terrorismo islâmico sem entender muito bem como ele opera. E que nem buscam entender, pois parte significativa do medo vem justamente da ignorância. Em termos de combate ao terrorismo, Trump toca uma ópera-bufa sombria para uma plateia de ignorantes — lá nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil — aplaudir.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Porque o boicote da elite do entretenimento contra Trump irá falhar


Poucos artistas parecem dispostos a se apresentar e entreter o país quando o novo presidente assumir no dia 20 de janeiro. Com a notícia na semana passada de que o cantor de ópera Andrea Bocelli cedeu à pressão e desistiu de fazer um show na posse e com uma membro das Rockettes liderando uma rebelião nas redes sociais contra o presidente, Kid Rock é atualmente o maior nome agendado para se apresentar.

E a esquerda é tonta. Porque ela ainda não entendeu o que está acontecendo.

Robert Reich quer ser o Bob Geldof do anti-trumpismo.
Robert Reich, secretário de trabalho de Bill Clinto que se transformou no Michael Moore do Facebook está promovendo algo chamado o Concerto da Liberdade Unida que será transmitido ao mesmo tempo que a posse presidencial. O show beneficiará todas as entidades de caridade progressistas de sempre e Reich espera conseguir grandes nomes como Jay-Z e Madonna para se apresentar. "Simples", escreveu, "a posse de Trump perde toda a audiência na TV. Basicamente, ninguém assistirá".

Isso deve impedi-lo. Jay-Z e Madonna ambos já haviam se apresentado durante a eleição para angariar apoio para Hillary Clinton — e obviamente falharam. Mas, claro, mais um show deve fazer o país virar para o lado de Reich.

A verdadeira questão é a bolha criada pela exclusão estalinizada que a esquerda faz dos não-progressistas da cultura popular americana.

Lin Manuel Miranda está fazendo um concurso para angariar fundos para a Planned Parenthood. Para cada doação de US$10, você entra numa seleção para ver o musical dele, "Hamilton", em três cidades. A mãe de Miranda está no conselho nacional de diretores do Fundo de Ação da Planned Parenthood, então esta é obviamente uma causa pela qual ele se importa.

Não houve controvérsia alguma para seu concurso — só imagine se fosse para a Associação Nacional do Rifle ou qualquer outra causa popular conservadora. Quando Mike Pence assistiu àquela infame apresentação de "Hamilton", o vídeo dele entrando no teatro mostrava muito mais aplausos do que vaias. Ainda assim, o elenco pagou um sermão a ele do palco como se fosse impossível que houvessem eleitores de Trump na plateia ou, Deus proíba, no elenco ou na equipe técnica.

A inclinação progressista em tudo vai além da Broadway ou de Hollywood. Permeia tudo. E envelhece rápido. A edição de setembro da revista de dicas domésticas Real Simple trazia um esbravejo político incoerente da escritora Terry McMillan. Nele, ela acusa o Partido Republicano de conspirar contra o presidente Obama porque ele é negro e os estados de "fraudar" as leis eleitorais. Ela escreveu que as pessoas brancas reclamam de pessoas negras que tomam seus empregos e que ela tem medo de que seu filho saia de casa sozinho e seja morto pela polícia.

Real Simple é uma revista conhecida por receitas e dicas de organização. É um mundo no qual os democratas não deveriam habitar. Eles jamais leriam uma revista sobre dicas domésticas caso se encontrariam até o joelho em teorias conspiratórias conservadoras. O mesmo vale para as revistas femininas, que são todas automaticamente progressistas vestidas com uniformes opinativos sobre "questões femininas", como se as mulheres conservadoras não existissem. Então há o choque de que 53 porcento das mulheres escolheram Trump.

Numa eleição que se resumiu ao fracasso dos democratas em manter o apoio dos estados industriais, aumentar o risco de falar apenas com outros progressistas enquanto se assiste aos artistas progressistas é temerário. Escrevendo na esquerdista revista online de artes The Baffler, Jacob Silverman apontou para o culto às celebridades como uma das principais razões pelo fracasso de Hillary.

Katy Perry não vai mudar o que a maioria dos eleitores pensa.
Ele escreveu que esses "apelos pela atenção das celebridades parecem refletir o desejo dos progressistas de verem suas políticas validadas, até mesmo receberem uma aura de glamour, por colegas da elite. Os tweets enérgicos de Clinton e aparições no show do Jay-Z recorrem aos já convertidos enquanto não oferece nada aos milhões de trabalhadores americanos que estão pensando se, talvez, falta um toque de povo à mulher que cobra US$250.000 por palestras secretas para banqueiros".

Um número astronômico de 68 porcento dos entrevistados numa pesquisa de boca-de-urna da Reuters/Ipsos no dia da eleição disse que "partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas como eu". É um número muito grande de pessoas se sentindo completamente abandonadas — e a Katy Perry não vai incidir nisso.

Enquanto os progressistas continuam a desenhar linhas culturais que excluem os conservadores, eles têm que notar que isso está se traduzindo em perdas nas urnas. Os republicanos não controlam apenas a presidência, a Câmara e o Senado, mas cerca de dois-terços das assembleias legislativas e a maioria dos governos estaduais.

O abrangente progressismo na cultura popular pode não estar prejudicando os resultados financeiros dos artistas (até agora), mas certamente não está fazendo nada para ajudar suas causas políticas também. Como aprendemos nessa eleição, ignoramos segmentos inteiros da população sob nosso próprio risco.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O fascismo está ficando pessoal

Guilherme Silva Neto (1996-2016).
Guilherme Silva Neto, estudante de matemática da Universidade Federal de Goiás, foi baleado pelo próprio pai a apenas 1,8 quilômetros de distância de onde eu moro. Após correr por alguns metros para tentar salvar a vida da abordagem violenta não de um estranho, mas sim do próprio pai, o jovem de 20 anos tombou na  Avenida República do Líbano, no Setor Aeroporto, onde tantas vezes eu almocei com a minha família aos domingos. Segundo a mãe do rapaz, o motivo da discussão que levou ao assassinato seguido de suicídio foi a participação do jovem nas ocupações da universidade. Não conhecia Guilherme pessoalmente, mas ao entrar no perfil dele no Facebook, impressionou-me o fato de sua última publicação pública ser sobre a festa "Rocknbeats Goiânia", que acontecerá na boate Diablo no próximo dia 26. Eu também havia confirmado presença nessa festa.

Também me chamou a atenção o fato de termos 12 amigos em comum: Anny Borges, que comemorou meu aniversário comigo no sábado; Euzebio Carvalho, professor da Universidade Estadual de Goiás que foi preso arbitrariamente durante assembleia estudantil realizada naquela entidade; Rafaela Lincoln Lima, que já organizou três festas nas quais eu fui; Vinicius Rafael, que já vi em diversos eventos; a talentosíssima Regiane Mendonça, que faz música de protesto contra o governo golpista; Flavio Rezende, que concorreu à vereança e sempre vejo em manifestações contra o golpe; Cris Cardoso, que deve ser uma das pessoas mais sensatas que conheci em 2016. Os demais — Cleber Valdêz Barboza, Lara Aragão, Lô Santos, Marcus Vinícius Huttenlocher — não conheço tão bem, mas adoraria conhecer. Todas essas pessoas têm em comum o fato de serem contra a PEC 241 e o assalto que PSDB e PMDB fizeram ao poder central do Brasil.

Ao que tudo indica, Guilherme era muito parecido comigo. Só que a diferença — fatal — é que sua casa não era um local seguro para ele. Ele foi morto de maneira premeditada pelo pai, que padecida da histeria anti-esquerda que acomete o Brasil desde pelo menos 2013. Esse tipo de violência por motivações políticas eu só conheci na rua. O louco, ensandecido, baleou o próprio filho cerca de dois anos após eu apanhar por — suspeito eu — ser um viado que estava andando na rua à noite com o adesivo da Dilma no peito. A disseminação do discurso fascista na sociedade brasileira me atinge de maneira cada vez mais pessoal. A mídia e seus seguidores cegos vão tentar tirar a responsabilidade deles da reta. Vão afirmar que o ocorrido no Dia da República em Goiânia foi uma fatalidade, como se a morte de Guilherme não fizesse parte de um contexto mais amplo da disseminação de ideias fascistas na sociedade brasileira.

Vão dizer que a morte do rapaz não tem nada a ver com a pregação de "pastores" anti-esquerda como Marco Antônio Villa, Joice Hasselmann, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Cristiana Lobo, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, William Waak, Danilo Gentili e Rachel Sheherazade, entre outros, que são os porta-vozes da dúzia de famílias que controlam a disseminação das informações no país. Mas o discurso desses comunicadores foi justamente o gatilho que o pai mentalmente instável do Guilherme precisava para embarcar de corpo e alma em sua paranoia antissocialista. Quando munidas de muito poder, uma dúzia de pessoas são capazes de produzir um estrago incomensurável numa sociedade. Primeiro destruíram as perspectivas de recuperação da economia brasileira para colocar PSDB e PMDB no poder. Agora, o exército de ignorantes políticos raivosos que criaram fazem mães enterrar os próprios filhos.

Nada irá trazer o Guilherme de volta. Sua luta, no entanto, não morre com ele. Mesmo com medo de sermos mortos por nossos próprios conhecidos, enxugamos nossas lágrimas e seguimos em frente. De minha parte, fico contente em saber que tinha uma dúzia de amigos em comum com a vítima dessa tragédia horrível em que fui envolvido indiretamente. Guilherme viverá nas lembranças dessas pessoas que, assim como ele, lutam a favor da justiça social e da solidariedade entre as pessoas. Guilherme vive nelas e espero que, através da partilha de experiências e lembranças, possa viver um pouquinho em mim também. Sinto como se já vivesse, devido às semelhanças entre nós que me fazem, ao mesmo tempo, temer pela minha vida e querer continuar lutando. Continuar a luta é algo que devo ao Guilherme, assassinado; ao Euzebio, preso arbitrariamente e a mim mesmo, espancado. Podem até ter levado sua presença física, mas Guilherme está presente!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O "Escola sem Partido" não começou hoje – é parte da nazificação do Brasil

Ele. Deputado federal Izalci (PSDB-DF).
Muitos amigos, principalmente aqueles ligados às ciências humanas, estão chocados com o projeto de lei 867/2015, de autoria do deputado federal Izalci (PSDB-DF), que institui o programa "Escola sem Partido". Não estou assim tão chocado. Lembro-me bem quando essa história de que há "doutrinação marxista" nas escolas brasileiras começou. Foi em agosto de 2008 e eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo da PUC-GO (então UCG). A revista Veja distanciava-se cada vez mais da narrativa factual da vida brasileira para se tornar o panfleto semanário oficial dos opositores do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A linha editorial da revista deixou de ser formulada por jornalistas para ser ditada por militantes políticos de extrema-direita, discípulos do astrólogo e autodenominado filósofo Olavo de Carvalho, tais como Reinaldo de Azevedo e, posteriormente, Rodrigo Constantino. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu que para exercer o ofício de jornalismo não é preciso diploma de curso superior em comunicação social. Desde então, tornou-se cada vez mais recorrente a invasão da narrativa factual dos acontecimentos, ouvindo-se todos os lados de um assunto, por um discurso de pânico recauchutado do macartismo.

O que aconteceu, sem maiores delongas, foi o seguinte: um repórter da referida revista veio até Goiânia, onde assistiu a uma aula de história para alunos do ensino médio no Colégio Ateneu Dom Bosco. Trata-se de uma das mais tradicionais escolas privadas da capital goiana, de orientação católica romana e frequentada sobretudo por jovens oriundos de lares de classe média. Ao invés de simplesmente relatar o que ocorreu na sala de aula, o repórter escreveu uma matéria completamente tendenciosa, acusando o professor de tentar doutrinar seus alunos. O professor em questão discutia os efeitos nefastos do capitalismo sobre a experiência humana – algo que alguém que já ouviu os discursos do Papa Francisco perceberá que é completamente compatível com a doutrina social da Igreja, que nada tem de marxista. A discussão havia começado após os alunos terem ouvido a música "Homem Primata" da banda oitentista Titãs. Trata-se de uma canção extremamente popular, que foi a 25ª música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1987. O Titãs não é uma banda que se autodeclara comunista como o Rage Against The Machine e só porque eles têm uma música que critica o capitalismo liberal não significa que são comunistas. Podem ser capitalistas keynesianos.

Seguindo a lógica da Veja, os Titãs são comunistas perigosos
que deveriam ser banidos da rádio por doutrinação marxista.
O repórter responsável pela matéria fez uma grande flexão intelectual para ligar os versos "Ô, ô, ô / homem primata / capitalismo selvagem" aos cursos de pedagogia e à obra do pedagogo Paulo Freire, que ele mesmo julgou nula. Freire sequer é amplamente estudado nos ambientes acadêmicos. E, por falar nisso, uma das lições mais importantes que aprendi na faculdade é que "o jornalista só fala através de suas fontes". O repórter da Veja fez pior: valeu-se da boa fé de sua fonte para desmerecer o trabalho pedagógico de um professor que, a despeito de estar inserido num ambiente conservador, conseguiu iniciar um debate com seus alunos sobre a realidade que os cerca para além dos muros dos prédios onde vivem. O também católico Hélder Câmara resumiu bem a hipocrisia brasileira: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo, mas quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista". Debater os problemas gerados pelo capitalismo – e nenhum sistema econômico é perfeito – é algo perfeitamente normal. É o que democratas estão fazendo nesse exato momento na Convenção Nacional do Partido Democrata. Promover uma discussão sobre o capitalismo liberal, que sequer é a única forma de desenvolvimento capitalista, está longe de ser doutrinação marxista.

Mas qual é o problema em debater as diversas formas de organização econômicas já existentes e propostas? O problema é que o debate torna os alunos conscientes para o fato de que o capitalismo liberal não é a única forma possível de organização econômica da sociedade. Questionar a realidade que nos é imposta incomoda os representantes do status quo. Os donos da Veja só são ricos graças ao capitalismo liberal. Mesmo o capitalismo estatista ou keynesiano desagrada-lhes. Querem que a sua seja a única revista presente nas salas de espera de consultórios médicos e salões de beleza. Lula subiu no ringue com a revista quando decidiu reduzir sua verba de publicidade para desenvolver a mídia independente e regional. A revista Veja, ao contrário do que insinua seu slogan, não é indispensável para se tornar bem-informado e inteligente. Ela mantém seus leitores na ignorância ao retratar todos aqueles que são contra o capitalismo liberal como comunistas comedores de criancinhas. E preocupa-lhe que alguns agentes sociais estejam esclarecendo as pessoas sobre as diferentes formas de organização econômica diferente daquela que é a sua preferida. A Veja tem medo que as pessoas se tornem esclarecidas e ela se torne dispensável.

À Veja não interessa que seus leitores saibam que o modelo
atual de capitalismo promove a desigualdade de renda.
E se algum daqueles jovens no Ateneu decidir que quer trabalhar como médico na periferia? É o fim da rígida sociedade de castas à brasileira. Para manter os privilégios de uns poucos no capitalismo liberal, a maioria deve ser sacrificada. Isto está ficando cada dia mais claro, inclusive nos Estados Unidos. Este é um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno que é Donald Trump. Sim, ele é bilionário, mas se apresenta como o candidato do anti-status quo. E ninguém chamaria-o de comunista. Ser contra as coisas como elas estão está muito, muito longe de ser comunista. O próprio Paulo Freire, figura tão execrada ultimamente em seu país, estava longe de ser um militante comunista. Ele baseou sua análise sobre a forma de organização da sociedade em Marx, é claro, mas isso não transforma alguém automaticamente em comunista. De forma semelhante, sua obra agora é a terceira mais citada em trabalhos acadêmicos de universidades estadunidenses, o que não significa que os acadêmicos sejam marxistas ou sequer freirianos. Além do mais, Freire era membro do Partido dos Trabalhadores que, no poder, mostrou ser um tradicional partido social-democrata, ou seja, que promove o capitalismo estatista. E foi justamente isto que me atraiu no PT.

Aqui é permitido ler e discutir a obra freiriana.
Em 2010, quando passei um mês no Canadá, em intercâmbio, vi A Pedagogia do Oprimido numa estante da livraria da Universidade de Victoria. Imediatamente lembrei-me da ofensa proferida contra Freire no panfleto político da Editora Abril. Fiquei emocionado por ver um brasileiro que não era jogador de futebol sendo reconhecido no exterior. Ao mesmo tempo, fiquei triste pela forma como ele é tratado pelos pseudointelectuais do Brasil. Pensei comigo mesmo: precisei vir a 10.000 quilômetros de casa para finalmente ver Paulo Freire sendo reconhecido pela revolução que propôs na pedagogia e que serviu de modelo para o sistema educacional dos países escandinavos – países capitalistas estatistas, diga-se de passagem –, mas jamais para seu próprio país. Aqui damos crédito àqueles que querem livrar a escola de uma suposta "doutrinação marxista" sem nem saber explicar por quê. Não há como manter um debate inteligente com quem quer interditar o debate baseando seus argumentos numa revista que, a despeito de estar presente em todas as salas de espera do país e também nas salas de aula do estado de São Paulo, não consegue sobreviver sem a teta generosa da Secom e teve que promover um golpe de Estado para não ir à falência.

Essa história de "Escola sem Partido" não começou hoje, infelizmente. Estamos presenciando apenas o seu apogeu. Tudo começou quando a mídia brasileira decidiu agir como um partido político, dando espaço para pseudointelectuais como Constantino e Azevedo e permitindo que eles atacassem a nata do pensamento acadêmico pátrio para prejudicar o PT. Também deve-se destacar a guinada à direita do PSDB, que percebeu que teria mais chances de derrotar o PT se apostasse no neoconservadorismo. No meio disso tudo está a classe média, que, ansiando por uma mudança ainda maior do que aquela que os governos do PT propiciaram, permitiu ser utilizada como massa de manobra das forças conservadoras. No entanto, os idiotas úteis não estão voltando para os braços do PSDB. Já perceberam seu jogo sujo e se desencantaram com a política como um todo. O resultado final do processo de destruição do PT – indesejado pelas forças conservadoras da mídia e da política – é a nazificação do Brasil. E o nazismo não é muito exigente ao escolher suas presas. Não adianta falar "não somos do PT". Vai ser preciso provar, pois o maior desejo do nazista é eliminar seus inimigos e qualquer desculpa serve para justificar sua sede de extermínio. Enxergam apenas o que querem, pois bebem sempre a água da mesma fonte.

O nazismo não é muito exigente com suas vítimas.
Uma dessas fontes é a Veja, que, em medos da década passada, decidiu que seria uma revista feita por e para comentaristas de portal. A política nunca deveria ter se tornado o reino das emoções. Até líderes de organizações criminosas sabem que a pior coisa que se pode fazer é agir no calor do momento, pois os resultados são difíceis de serem previstos. Mas a mídia brasileira, que nunca sobreviveu sem a verba de publicidade dos governos decidiu arriscar e colocar esse elemento na política. A Veja foi a pioneira, justamente por ser a que mais corria o risco de desaparecer, junto com o resto da mídia impressa. Podem até sobreviver, mas não pagarão o preço por terem introduzido as emoções, principalmente o ódio, na político. Nós, as vítimas do ódio, é que vamos pagar esse preço. Busco, cada vez mais, colocar a razão na frente da emoção. Meu crescimento enquanto ser humano depende disso e não estou disposto a retroceder porque alguns idiotas úteis decidiram que o PT e a esquerda seriam a válvula de escape para todos os problemas do universo conhecido e desconhecido. É uma tarefa cada vez mais homérica. Qualquer que seja o resultado dessa história de "Escola sem Partido", já perdemos, pois permitimos que nossos instintos mais básicos entrassem no debate político.

sábado, 23 de julho de 2016

Viver em Cristo é viver em amor

Texto escrito em 29 de junho de 2016.

Ontem me coloquei no lugar dos cinco rapazes mortos por homofobia durante a última semana no Rio de Janeiro. É um exercício doloroso a empatia. Principalmente quando a vítima poderia muito bem ser você mesmo. Não é possível que em pleno século XXI — e com os olhos do mundo voltados para o Rio por causa das Olimpíadas — pessoas continuem sendo assassinadas por serem quem elas são, por terem o código genético que possuem. O fato é que gay is the new black em termos de opressão. Agora que é crime culpabilizar os negros pela penosa vida que o sistema capitalista lhe impõe, o povão encontrou nos LGBTs um novo bode expiatório. Junto com os imigrantes, é claro. Esqueça sobre o pagamento dos juros da dívida pública que rouba o dinheiro de nossos impostos e não contribui em absolutamente nada para o crescimento da economia; há dois homens se beijando em público na televisão e é mais importante debater costumes morais do que a extorsão de governos promovida pelo sistema financeiro a nível mundial.

Dois meses antes, Bolsonaro se converteu do catolicismo ao
pentecostalismo. Deve estar mais à vontade na nova igreja.
As cabeças cariocas fracas e pouco instruídas funcionam como oficinas de diabos como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia que, embora não tenham puxado o gatilho, deram a ordem para que puxassem. Essa seria a ordem de um Deus que não é mensageiro da paz e nem do amor, mas sim a representação do que há de pior na psique humana. Parte da culpa pela proliferação da intolerância é de quem sempre lutou contra ela. Ao priorizar mais o desenvolvimento econômico do que o social, os governos do Partido dos Trabalhadores acabaram produzindo uma legião de ingênuos úteis, que sabem tudo sobre o funcionamento de smartphones, carros e televisores e nada sobre o funcionamento da biologia ou de como deveria ser a vida em sociedade. Como minha mãe sempre diz, o poder não deixa vácuo. O vácuo na cultura e na educação foi ocupado por mercenários de almas, para quem seguir a lei judaica — de onde tiraram o famigerado "evangelho da prosperidade" — é mais importante do que ser um discípulo dos ensinamentos de Jesus Cristo.

É sintomático que Bolsonaro tenha saído da Igreja Católica romana cerca de dois meses antes do líder espiritual desta instituição milenar declarar que ela deve um pedido de desculpa aos homossexuais. A fé de Bolsonaro, assim como sua atuação parlamentar, é oportunista. Só tem serventia a ele enquanto ele puder utilizá-la para justificar sua visão torpe de mundo. Agora que não pode mais usar o Vaticano como justificativa para sua homofobia, este não lhe serve mais. Mesmo caminhando a passos mais lentos do que as igrejas protestantes tradicionais — a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceita fiéis homossexuais desde 1998  — a Igreja Católica evolui e pessoas como Bolsonaro e Malafaia são agentes anti-evolução social. A sobrevivência deles depende da manutenção do status quo. Num cenário em que todos recebam uma educação de qualidade, ninguém seria mais seduzido pelo discurso fácil deles de que os homossexuais e os haitianos são os culpados pela degradação da sociedade brasileira. Não é à toa que líderes evangélicos são entusiastas do "Escola sem partido".

Dá pra imaginar uma prostituta ungindo Malafaia?
Apesar do cenário desolador, não devemos esmorecer. Mesmo que caiam mil à nossa direita e outros mil à nossa esquerda devido ao ódio malafaiano, vamos triunfar. Porque nós sabemos o que é o amor. E a religião de Jesus não era o cristianismo, era o amor, sobretudo aos marginalizados pelo status quo de sua época. Se caminhasse entre nós, Cristo condenaria boa parte dos "cristãos" de nosso tempo e também seria condenado por eles. "Cristo" vem do grego e significa ungido, ungido que foi por uma mulher de moral duvidosa que o amava como ele a amava: incondicionalmente. Alguém imagina os principais líderes evangélicos do Brasil sendo ungidos por uma prostituta? O argentino Jorge Bergoglio — membro da Companhia de Jesus, que promoveu a evolução da Igreja com o Concílio do Vaticano, e o primeiro papa não-europeu em um milênio — com certeza seria. O que ele tenta resgatar é justamente o amor aos oprimidos presente no Evangelho. Pois viver em Cristo é viver em amor, independente da forma como ele se manifesta.