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sábado, 23 de julho de 2016

Viver em Cristo é viver em amor

Texto escrito em 29 de junho de 2016.

Ontem me coloquei no lugar dos cinco rapazes mortos por homofobia durante a última semana no Rio de Janeiro. É um exercício doloroso a empatia. Principalmente quando a vítima poderia muito bem ser você mesmo. Não é possível que em pleno século XXI — e com os olhos do mundo voltados para o Rio por causa das Olimpíadas — pessoas continuem sendo assassinadas por serem quem elas são, por terem o código genético que possuem. O fato é que gay is the new black em termos de opressão. Agora que é crime culpabilizar os negros pela penosa vida que o sistema capitalista lhe impõe, o povão encontrou nos LGBTs um novo bode expiatório. Junto com os imigrantes, é claro. Esqueça sobre o pagamento dos juros da dívida pública que rouba o dinheiro de nossos impostos e não contribui em absolutamente nada para o crescimento da economia; há dois homens se beijando em público na televisão e é mais importante debater costumes morais do que a extorsão de governos promovida pelo sistema financeiro a nível mundial.

Dois meses antes, Bolsonaro se converteu do catolicismo ao
pentecostalismo. Deve estar mais à vontade na nova igreja.
As cabeças cariocas fracas e pouco instruídas funcionam como oficinas de diabos como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia que, embora não tenham puxado o gatilho, deram a ordem para que puxassem. Essa seria a ordem de um Deus que não é mensageiro da paz e nem do amor, mas sim a representação do que há de pior na psique humana. Parte da culpa pela proliferação da intolerância é de quem sempre lutou contra ela. Ao priorizar mais o desenvolvimento econômico do que o social, os governos do Partido dos Trabalhadores acabaram produzindo uma legião de ingênuos úteis, que sabem tudo sobre o funcionamento de smartphones, carros e televisores e nada sobre o funcionamento da biologia ou de como deveria ser a vida em sociedade. Como minha mãe sempre diz, o poder não deixa vácuo. O vácuo na cultura e na educação foi ocupado por mercenários de almas, para quem seguir a lei judaica — de onde tiraram o famigerado "evangelho da prosperidade" — é mais importante do que ser um discípulo dos ensinamentos de Jesus Cristo.

É sintomático que Bolsonaro tenha saído da Igreja Católica romana cerca de dois meses antes do líder espiritual desta instituição milenar declarar que ela deve um pedido de desculpa aos homossexuais. A fé de Bolsonaro, assim como sua atuação parlamentar, é oportunista. Só tem serventia a ele enquanto ele puder utilizá-la para justificar sua visão torpe de mundo. Agora que não pode mais usar o Vaticano como justificativa para sua homofobia, este não lhe serve mais. Mesmo caminhando a passos mais lentos do que as igrejas protestantes tradicionais — a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceita fiéis homossexuais desde 1998  — a Igreja Católica evolui e pessoas como Bolsonaro e Malafaia são agentes anti-evolução social. A sobrevivência deles depende da manutenção do status quo. Num cenário em que todos recebam uma educação de qualidade, ninguém seria mais seduzido pelo discurso fácil deles de que os homossexuais e os haitianos são os culpados pela degradação da sociedade brasileira. Não é à toa que líderes evangélicos são entusiastas do "Escola sem partido".

Dá pra imaginar uma prostituta ungindo Malafaia?
Apesar do cenário desolador, não devemos esmorecer. Mesmo que caiam mil à nossa direita e outros mil à nossa esquerda devido ao ódio malafaiano, vamos triunfar. Porque nós sabemos o que é o amor. E a religião de Jesus não era o cristianismo, era o amor, sobretudo aos marginalizados pelo status quo de sua época. Se caminhasse entre nós, Cristo condenaria boa parte dos "cristãos" de nosso tempo e também seria condenado por eles. "Cristo" vem do grego e significa ungido, ungido que foi por uma mulher de moral duvidosa que o amava como ele a amava: incondicionalmente. Alguém imagina os principais líderes evangélicos do Brasil sendo ungidos por uma prostituta? O argentino Jorge Bergoglio — membro da Companhia de Jesus, que promoveu a evolução da Igreja com o Concílio do Vaticano, e o primeiro papa não-europeu em um milênio — com certeza seria. O que ele tenta resgatar é justamente o amor aos oprimidos presente no Evangelho. Pois viver em Cristo é viver em amor, independente da forma como ele se manifesta.

sábado, 18 de junho de 2016

Ignorância: o projeto da elite para o Brasil

Todos devem se lembrar dos resultados da pesquisa Perils of Perception ("Perigos da percepção", em tradução livre), conduzida pelo instituto Ipsos MORI e segundo a qual o brasileiro é o terceiro povo mais ignorante do mundo. Já conhecia a metodologia da pesquisa — os entrevistados deveriam fornecer os números corretos sobre determinados dados sócio-demográficos —, mas confesso que foi revelador descobrir quais eram as perguntas feitas e como o brasileiro médio possui uma visão distorcida da realidade que lhe cerca. A educação, segundo Paulo Freire, deveria fornecer aos educandos a possibilidade de interpretar o mundo que lhes cerca, formando, assim, cidadãos e não futuros integrantes do mercado de trabalho e de consumo, para os quais saber ler e escrever é o suficiente. O que a pesquisa revela é justamente que o brasileiro médio possui uma enorme dificuldade em interpretar a realidade.

Para Freire, a educação deveria formar cidadãos. "Fora Paulo
Freire" é, portanto, nada menos que "fora educação crítica".
Segundo Perils of Perception, o brasileiro subestima a desigualdade social. No Brasil, 48% da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população. Em termos absolutos: um trilhão de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. No entanto, o brasileiro médio acha que nosso país é menos desigual, que 40% da riqueza nacional está nas mãos de 1% da população. Pode parecer um erro razoável (8%) — e em países mais desiguais como Índia e Rússia a população subestima ainda mais a desigualdade —, mas em termos absolutos o brasileiro acha que 898 bilhões de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. Um erro de 100 bilhões de dólares. A todo o momento o senso comum nos bombardeia com a informação de que os empresários gastam demais com seus funcionários, que o Estado apeiam-lhes os lucros, mas há poucos dispostos em nos informar que somos o segundo país mais desigual da América do Sul.

Quando indagado sobre quanto da riqueza nacional o 1% mais rico da população deveria controlar, o brasileiro responde, em média, que deveria ser 33%, um percentual alto quando comparado a países desenvolvidos. É quase o dobro do que os 18% da riqueza que 1% dos belgas e neozelandeses mais ricos controlam em seus países. Em seguida, o brasileiro subestima, também, o problema da obesidade. Para a média dos brasileiros, 47% da população adulta do país está acima do peso, ou seja, quase 94,2 milhões de pessoas. Na realidade, 56% dos brasileiros acima dos 20 anos de idade estão acima do peso, o que equivale a 112,2 milhões de pessoas. Um erro de "apenas" 18 milhões de pessoas, ou seja, maior do que o número de pessoas que vivem no Estado do Rio de Janeiro. Além de ser piedoso com a exploração imposta por seus patrões, o brasileiro aparentemente não se olha muito no espelho — nem sobre muito na balança — também.

A próxima pergunta é sobre o número de ateus e agnósticos. Propagou-se, em especial através da pregação de pastores neo-pentecostais, a ideia de que há uma guerra em curso contra o cristianismo no Brasil e que os culpados disso seriam os movimentos sociais que lutam contra tradições cristãs como a submissão feminina e a proscrição da homossexualidade e dos cultos de origem africana. Criou-se, no imaginário popular a imagem de uma cristandade ameaçada por militantes ateus. Segundo Perils of Perception, o brasileiro acha que 35% da população, ou seja, 70 milhões de pessoas são ateístas ou agnósticas. Na realidade, segundo dados do Censo de 2010, apenas 8% dos brasileiros (16 milhões) não seguem uma religião organizada. A diferença entre percepção e realidade é de 54 milhões de pessoas, ou seja, quase o mesmo número de eleitores que Dilma Rousseff teve no segundo turno da última eleição presidencial brasileira.

A ignorância dos brasileiros quanto ao número de ateus e agnósticos só não é maior do que sobre o número de imigrantes. Durante a campanha presidencial de 2014, semeou-se, entre os eleitores da direita, a noção de que o Partido dos Trabalhadores fraudou a eleição valendo-se de refugiados haitianos. É uma ideia absurda — como o PT traria um contingente tão grande de pessoas em tão curto espaço de tempo sem ser pego? —, mas que é levada a sério por 42% dos brasileiros que saíram às ruas em 2015 para protestar a favor da queda da presidenta Dilma. Como resultado da campanha de desinformação da direita, os brasileiros acreditam, em média, que 25% de nossa população é composta por imigrantes, ou seja, 50 milhões de pessoas. Na verdade, apenas 601.200 brasileiros nasceram em outros países. É essa distorção, amplificada pelo medo, a responsável por ataques xenófobos a imigrantes, sobretudo haitianos.

A "invasão haitiana" começou como uma mentirinha para
ajudar o Aécio a vencer as eleições, mas já distorce a
percepção que os brasileiros possuem da realidade.
Mas o medo não surge do nada. Ele precisa ser fomentado. Além dos grupos ligados ao PSDB, a mídia também possui uma parcela de responsabilidade muito grande por jogar a população contra os imigrantes. Sempre que os meios de comunicação relatam casos de imigrantes é sobre o viés negativo. "Quando aparecem na mídia estão atrelados a problemas, crises, marginalizações, ou ligados à ideia de invasão", afirma o pesquisador Gustavo Barreto, que analisou mais de 11 mil edições de jornais e revistas publicados entre 1808 e 2015. A desinformação possui uma correlação direta com o medo. Os alemães supervalorizavam o impacto dos judeus em sua sociedade assim como os brasileiros fazem agora com os haitianos. Ainda hoje é possível encontrar, mesmo na esquerda, quem afirme que, sem Adolf Hitler, os judeus tomariam conta da Alemanha na década de 1930, sendo que correspondiam a apenas 0,77% da população alemã em 1933.

Além disso, o brasileiro também subestima o real impacto da juventude na sociedade. Em nenhum outro país a resposta à pergunta "qual a idade média da população em seu país?" foi tão dissonante da realidade quanto no Brasil. Os brasileiros acham que a média de idade da população é de 56 anos, 25 a mais do que os 31 anos que de fato é a média de idade dos brasileiros. Deve ser por isso que o governo interino de Michel Temer consegue enganar tão facilmente a população sobre a necessidade de (mais) uma reforma da Previdência Social. Segundo uma outra pesquisa, mais recente, 75% dos brasileiros apoiam mudanças na regra de concessão da aposentadoria. Talvez se não superestimassem o número de pessoas com mais de 55 anos seriam capazes de perceber que a Previdência consegue se sustentar por mais algumas décadas com o percentual ainda elevado de jovens que possuímos em idade de trabalho.

É engraçado que o brasileiro também subestima o número de crianças, o que chega a ser ilógico se formos parar para pensar. Segundo Perils of Perception, em média o brasileiro acha que 39% da população tem menos de 15 anos de idade. Na verdade, o número é de 24%, novamente a maior dissonância entre percepção e realidade nos 28 países pesquisados. Em relação ao percentual de mulheres na política, o brasileiro também erra, embora por pouco. Diz que 18% dos membros do Congresso Nacional são mulheres, quando na verdade são 10%. Esse erro pode ser explicado pela visibilidade que a figura da presidenta Dilma Rousseff tinha no imaginário popular. Por ser uma mulher e ter chegado ao cargo máximo da nação, acabou gerando a percepção — errônea — de que mais mulheres estavam ocupando posições de destaque na sociedade, o que não era necessariamente verdade, como o governo Temer depois veio a provar.

As novelas são, em parte, responsáveis pela percepção de que
há mais gente morando em áreas rurais do que na verdade.
Por fim, a pesquisa Perils of Perception indaga os entrevistados quanto ao número de pessoas que moram em áreas rurais e aquelas que possuem acesso à internet em casa e novamente o brasileiro erra feio. Talvez por influência de novelas que destacam um passado bucólico, os brasileiros, em média, acreditam que 34% da população (68 milhões de pessoas) mora em áreas rurais, número mais de duas vezes maior do que o verdadeiro (15% ou 30 milhões). Uma tendência do brasileiro é generalizar a sociedade através de sua experiência individual e isso se expressa na resposta dada à pergunta "qual o percentual de pessoas que você acha que possui acesso à internet em casa?". O brasileiro, em média, crê que esse número é de 72% quando na verdade é de 53%. Em números absolutos, a percepção é de que são 144,2 milhões de pessoas quando na verdade são 106,2. A diferença de 38 milhões é pouco menor que o número de habitantes do Estado de São Paulo.

Uma das máximas mais antigas da humanidade é "conhece-te a ti mesmo e assim conhecerá os deuses". Só é possível enfrentar nossos demônios conhecendo-os. Só é possível mudar algo através da percepção. Se não encaro algo como um problema, nunca serei capaz de transformá-lo. Isso vale tanto para mudanças individuais quanto sociais. O Brasil não conhece a real dimensão de seus problemas e, assim sendo, é incapaz de lidar com eles. Se superestimamos o número de mulheres na política, achamos uma bobagem a proposta de implementar uma quota feminina nos partidos políticos. Se subestimamos a desigualdade social, aplaudimos quando Temer decide cortar o Bolsa Família para manter o bolsa banqueiro intacto. Se superestimamos o número de imigrantes, fechamos nossas fronteiras para quem precisa de ajuda humanitária. Se superestimamos o número de idosos, jovens e pessoas que moram no campo, executamos políticas públicas erradas para eles.

Parte da ignorância do brasileiro em relação a si mesmo é intencional. Como afirmava Darcy Ribeiro, "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto". Não interessa aos mais ricos — como ficou claro em cartazes exibidos nas brancas manifestações anti-Dilma — uma educação que forme cidadãos conscientes da realidade que lhes cerca. "Fora Paulo Freire" nada mais é do que "a educação não pode ser crítica". Se a educação não conscientiza, a mídia, por sua vez, distorce a percepção da grave situação socioeconômica do país para promover a agenda econômica que seus patrocinadores defendem. Propaga a ideia de que o pobre é acomodado e não merece assistência do Estado, quase como se a culpa da pobreza fosse dele mesmo e não do sistema que lhe nega oportunidades. Enquanto isso, defende que o Estado pague religiosamente a imoral dívida pública que mantém o status de uma dúzia de famílias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O termo "marxismo cultural" foi popularizado
pelo comentarista Pat Buchanan, que nega o
Holocausto e apóia Donald Trump.
Quase todas as igrejas evangélicas e parte da Católica, por sua vez, distorcem a mensagem de Jesus Cristo para dar mais ênfase à conquista de bens materiais do que à saúde espiritual de seus fiéis. Os "cristãos" do século XXI são levados a crer por pregadores parecidos com apresentadores de programa de auditório que Deus quer que sejamos ricos e que é doando para igrejas suntuosas que iremos aumentar nossas riquezas. Cristo — parte indivisível de Deus para os trinitarianos —, porém, recusou o luxo. Ele andava com ex-prostitutas e ladrões e expulsou da porta do Templo de Salomão aqueles que ousavam lucrar às custas de Seu Pai. A lavagem cerebral, no entanto, é bem feita. Os fiéis das igrejas que seguem a teologia da prosperidade são manipulados de forma a acreditarem que um ataque a seu Evangelho distorcido é um ataque ao próprio Jesus Cristo. Já conseguiram até mesmo uma data para lutar contra a "cristofobia" (sabe-se lá o que seja isso) na cidade de São Paulo.

Semear a desinformação para colher a apatia dos oprimidos parece ser o projeto dos grupos dominantes do país, sejam eles religiosos, políticos, sociais e/ou econômicos. Não é à toa que se arrepiam com a ideia da implementação de uma educação que forme cidadãos e não operários. Discutir a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros e orientações sexuais, entre raças, conhecer a contribuição das religiões de matriz africana para a formação da cultura brasileira, tudo isso é abominado e colocado na vala comum do "marxismo cultural". São questões debatidas nas escolas da Suécia e da Noruega (que ocupam as posições de número 21° e 23° na lista dos 28 países mais ignorantes do mundo, respectivamente). São países capitalistas. Suas elites, no entanto, são humanistas — seu projeto não é deixar a maior parte de sua população na escuridão da ignorância. No Brasil, a ignorância é o projeto da elite. A ignorância faz com que o brasileiro minimize seus problemas, enfrente os inimigos errados e, por consequência, não atinja a temível igualdade.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bancada cristã: me incluam fora dessa

Parte de mim sente-se na obrigação de pedir desculpas aos cidadãos brasileiros pelo episódio grotesco promovido no último domingo pela bancada cristã na Câmara dos Deputados durante a votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Teve deputado dito "cristão" exaltando um notório torturador do regime militar, teve uma overdose da utilização do santo nome em vão e teve até mesmo deputado católico negando a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil por esta ter se posicionado ao lado de nossa frágil democracia. Quero muito pedir desculpas, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada a ver com aquilo. Minha igreja não deturpa o Evangelho para tornar seus líderes ricos e influentes politicamente. Justo ao contrário, ela prega o Evangelho social de Jesus Cristo, acolhendo a todos e se posicionando a favor das liberdades democráticas do povo brasileiro. Minha igreja está do lado do povo.

Num artigo recente para o Huffington Post, a professora de inglês Mary Ann Ware enumerou dez estereótipos comuns sobre os cristãos, que as denominações neopentecostais tanto ajudam a propagar. Muitas vezes sou vítimas desses estereótipos sem comungar com o discurso dessas igrejas. Graças a incendiários de orixás e espancadores de crianças candomblecistas, os não-cristãos têm uma imagem muito negativa de nós. Se pudesse, eu mesmo proibia essas pessoas de usarem o rótulo "cristão". Elas sofreram lavagem cerebral e foram levadas a crer que só o caminho delas leva a Deus. No entanto, nem todo mundo que escolhe ser cristão tem a mente fraca. Eu, por exemplo, escolhi minha própria igreja e meu QI é superior ao de 70% da população mundial. Não nego a ciência e a evolução das espécies e jamais compraria a "fragrância de Jesus" que deixa televangelistas podres de ricos. Também nunca votaria num candidato de extrema-direita porque o pastor mandou.

Assim como Dilma Rousseff,
Jesus também foi torturado.
Não faço do meu cristianismo uma questão de ativismo. Sim, o que Jesus pregou tem muito a ver com a atualidade, em especial com as desigualdades sociais — e o Papa Francisco expõe isso de maneira brilhante. No entanto, usar o nome de Cristo para defender seu ponto de vista é admitir que suas ideias são tão frágeis que não se sustentam sem o manto da religião. O debate político, que deveria pertencer a todos os cidadãos, vira uma questão exclusiva de quem crê em Deus. E logo bandidos que não têm nada a ver com a mensagem de Cristo se escondem sobre esse manto. Duvido muito que o nazareno, vítima de tortura dos romanos, faria campanha para o mais novo garoto-propaganda do Partido Social Cristão (PSC), Jair Bolsonaro, que saudou o torturador de Dilma, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao falar ao microfone no último domingo. Um cristão de verdade ama seus inimigos e não se vale do episódio mais brutal de sua vida para humilhá-lo.

O que se viu na Câmara dos Deputados no domingo foi um escárnio aos valores cristãos. Foi, nas palavras do deputado Chico Lopes, um "encontro de bons maridos e bons pais". Seres humanos quase perfeitos diante de uma Dilma Rousseff imperfeita. Conforme escreve Mary Ann, "a ideia principal do cristianismo é que Deus estende a nós sua graça e seu perdão através de seu filho". Ora, seres perfeitos, pais e maridos exemplares, não precisam de perdão, logo não são cristãos. Felizmente a máscara da perfeição da bancada cristã não demorou a cair. Um dia após a votação o marido da deputada Raquel Muniz — eleita pelo PSC e hoje no Partido Social Democrático (PSD) — foi preso pelos crimes de estelionato, prevaricação, peculato, falsidade ideológica e dispensa de licitação pública. Seria retribuição divina por tantas violações ao 3° mandamento (2° na tradição católica) num curto período de tempo?

É fácil perder a paciência com quem se esconde sob o manto
religioso para agredir quem tem outra concepção de mundo.
A situação deplorável do Congresso se dá porque muitos acreditam que ser cristão é um atestado de bons antecedentes criminais. Me recuso a acreditar em qualquer candidato (e cidadão) só porque ele diz ser cristão. Saber citar versos bíblicos não significa nada. Que lindo você saber que o Levítico condena os homossexuais, mas você sabia que o próprio Jesus Cristo o violou? Jesus foi enviado a este mundo para reformar a lei judaica e em sua comitiva aceitava a participação de ex-prostitutas e ladrões. Enquanto Jair Messias Bolsonaro gritava "queima-rosca" para Jean Wyllys enquanto este votava, o outro Messias disse a uma turba de homens prestes a linchar uma prostituta que eles não poderiam julgá-la porque não eram Deus e também tinham seus muitos pecados. Noutra ocasião, disse "não julgueis para não serdes julgados", lembrando que somos medidos com a mesma régua que usamos para medir os outros. E foi assim que um empurrão deu origem a uma cusparada.

Por fim, a obsessão dos cristãos — fora e dentro do Congresso — com questões de ordem "moral" é fascinante. Como se existisse uma única "moral" que deveria se aplicar a todos os 200 milhões de brasileiros, muitos dos quais nem são cristãos. Dentro do próprio cristianismo existem várias morais. Apesar do culto debochado de domingo na Câmara e da cruz pendurada no plenário do Supremo Tribunal Federal, o Estado brasileiro ainda é laico e impor um único conjunto de valores morais à totalidade da população é inconstitucional — se bem que derrubar presidente sem crime de responsabilidade também é. Nem o próprio Jesus andava só com aqueles que possuíam os mesmos valores que ele. Como ser iluminado que era, ele sabia que é na diferença que crescemos. Viver numa bolha contraria os ensinamentos de Cristo. Mas parece que isso é o de menos para deputados que violam muitos senão quase todos mandamentos enquanto se escondem sob legendas ditas cristãs.

Sim, sou cristão, mas minha turma é outra.
Por mais que o escárnio religioso de domingo me entristeça, não tenho porque pedir desculpas por aquilo. Fui criado na Igreja Católica e ano passado decidi abraçar a fé anglicana. Sequer conheço o conjunto de crenças dos evangélicos, a não ser aquilo que a mídia apresenta. O censo do IBGE me classifica como um "evangélico", embora comparar a Igreja Anglicana às principais denominações evangélicas do Brasil equivale a comparar o Partido da Causa Operária (PCO) ao Democratas. Temos outra visão de mundo, outra concepção do que significa ser cristão. A fé deles foi individualizada, afastada do contexto social pelo neoliberalismo, e isso está nítido nas declarações dos membros da bancada dita cristã ao votar pelo afastamento de Dilma Rousseff — "pela minha família", "minha esposa", "meus filhos", "meus pais", etc. Minha fé, por sua vez, não é individualista, portanto não me exijam um pedido de desculpas; sou cristão, mas não sou responsável pela bancada cristã e estou tão chocado quanto um não-cristão. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Como é bom contar com a igreja na luta contra a injustiça!

Ontem os bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) lançaram uma nota onde, mais uma vez, rechaçam o golpe frio orquestrado pelas forças políticas mais reacionárias e corruptas do país e reafirmam sua defesa do devido processo legal. Já no final da manifestação pela democracia aqui em Goiânia fui informado que dom Francisco de Assis da Silva, que atualmente lidera a igreja no Brasil, não só compareceu ao ato na Praça da Sé em São Paulo como ainda fez um discurso contra o golpe.

Antes de conhecer a IEAB jamais imaginei que a experiência religiosa pudesse ser remotamente libertária. No entanto, agora sei que existe, no amplo mar das igrejas cristãs do Brasil, pelo menos uma que abraça o século XXI e seus desafios. Ainda bem que conheci a IEAB! Agora faço parte de uma igreja que não tem medo de descer de cima do muro e se posicionar perante os desafios da realidade, escolhendo o lado que mais se assemelha à mensagem de Cristo. 

Tenho muito orgulho de pertencer a uma comunidade religiosa cujos líderes compreendem que Jesus foi um homem a frente de seu tempo e que veio até nós para romper com a tradição, que imobilizava a implementação da experiência divina. Achava que eu era o único que pensava assim. Me sentia como um alienígena durante as missas, pois parecia-me que, para os padres — em especial os que pregam em comunidades de classe média —, só importava a observação dos dogmas.

Não me sinto mais esquisito desde que comecei a frequentar a IEAB. Minha igreja e eu caminhamos na mesma direção: para frente, para um futuro no qual homens e mulheres são iguais, homo e heterossexuais têm os mesmos direitos, a natureza é vista como uma dádiva divina e não como um negócio e todos os brasileiros são respeitados independente de seus rendimentos. Não caminhamos para trás, para um passado no qual brasileiros morriam de fome por falta de assistência do Estado.

Como afirma a nota dos bispos, a igreja não tem envolvimento direto com partidos, mas defende "conquistas sociais e econômicas que reduziram vergonhosos índices de miséria extrema e possibilitaram acesso à moradia, educação e saúde a milhões de pessoas totalmente excluídas destes direitos inalienáveis da pessoa humana". Inalienáveis e missionários. Como é bom poder contar também com a minha igreja na luta contra a normatização das injustiças sociais no Brasil.

terça-feira, 29 de março de 2016

O bandido bom

Nascia, há cerca de 2020 anos, no Oriente Médio, um dos maiores líderes políticos e religiosos que a Terra já conheceu. Numa época em que o ódio ditava o tom dos debates, esse rabino da cidade de Nazaré ousou dizer que devemos amar nossos inimigos. Numa época em que a xenofobia e o preconceito eram extremos, ele abraçou estrangeiros, leprosos e prostitutas e ousou dizer que devemos amar nossos vizinhos como amamos a nós mesmos. Irritou, assim, os líderes políticos e religiosos de seu tempo, que alimentavam o ódio entre os destituídos para manter seu status social. Os oprimidos estavam muito ocupados odiando a si mesmos para perceber o quão explorados estavam sendo por religiosos hipócritas e seus aliados da potência invasora.

Além disso, o rabino defendia a igualdade social. Ele ensinou a seus seguidores a dividir o pão. Disse a um jovem rico que queria segui-lo: vá e dê tudo o que possui aos pobres. Logo o jovem entusiasta perdeu o interesse em acompanhá-lo. É fácil agir como um hipócrita e querer levar uma vida simples quando, no final da jornada, se tem uma casa confortável para onde voltar. Não são com essas pessoas que devemos nos preocupar, ensinou o rabino. O reino dos céus não pertence a elas; é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um rico entrar no céu, disse certa vez. Pouco antes de morrer afirmou que a doação vinda de quem tira de suas necessidades é muito mais digna de graça do que a oferta de quem tira do supérfluo.

Continuamos a matar Jesus todos os dias,
enquanto lembramo-nos de sua morte na Páscoa.
Conforme seu número de seguidores crescia, irritava os possuidores do monopólio da espiritualidade e da política na Palestina, ou seja, os fariseus (preocupados com a exposição de sua hipocrisia) e os romanos (preocupados que seu modelo alternativo resultasse no fim do pagamento de impostos). Não podiam aceitar a concorrência de um simples carpinteiro iletrado, ouvido, aclamado e seguido pelas massas destituídas. Forjaram-lhe, então, um julgamento político, uma farsa com o intuito único de condenar-lhe. O responsável pelo julgamento sequer entendeu o crime do acusado e tentou libertar-lhe, mas acabou preferindo sentenciar-lhe à morte para não dar margem para uma revolta dos justiceiros que, raivosos, gritavam na porta de seu palácio: "crucifique-o".

Na cruz, o rabino perdoou os pecados de um bandido antes de falecer. Jesus morreu como ele e como qualquer ladrão de celular que é linchado até a morte por turbas nos rincões do Brasil. Foi condenado sem provas e feito de bode expiatório para servir de lição a rabinos radicais assim como Rafael Braga, jovem negro condenado por carregar um garrafa de Pinho Bril na mochila durante as manifestações de junho de 2013. Jesus foi executado sumariamente como Manuel Fiel Filho, que defendia ideias tão perigosas para o poder dominante de sua época quanto ele. Dito isso, tenho a convicção de que Jesus é um desses bandidos bons dos quais os comentaristas histriônicos de tevê falam. Jesus é um bandido bom porque é um bandido morto. E continuamos a matá-lo, todos os dias, enquanto lembramo-nos de sua vida e morte durante a quaresma. Amém?