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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Calem a boca, brancos!

De todas as asneiras que eu li nesse dia da consciência negra, a maior veio da Ana Paula do Volêi, que abdicou da aposentadoria como uma das melhores jogadoras do país para virar animadora de torcida do golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff no Twitter. Segundo ela, os negros não devem honrar a memória de Zumbi dos Palmares. É isso mesmo: uma pessoa branca, completamente alheia ao que significa ser negro no Brasil, quer dizer aos negros quem eles devem ter como herói de sua libertação. E o ídolo proposto por ela aos negros brasileiros sequer é brasileiro.

Crianças africanas libertadas de um navio negreiro em 1868.
Como a escravidão já havia sido abolida nos EUA, elas
provavelmente estavam vindo para o Brasil.
O líder quilombola Zumbi dos Palmares (1655–1695) pode até ter sido o monstro estuprador de mulheres e escravizador de pessoas, como faz crer uma direita iletrada que aprende história com Leandro Narloch, que se quer é historiador. É até provável que ele não buscasse a libertação de todos os negros e sim apenas reproduzir sua sociedade africana — que também mantinha relações de escravidão — no território liberto de Palmares, no atual estado de Alagoas. Mas é praticamente impossível que Zumbi tivesse cometido as mesmas atrocidades que qualquer homem branco de seu tempo.

A crueldade já começava na África, durante a captura dos escravos. Os negros eram tirados do convívio de suas famílias e perdiam filhos, cônjuges, pais, irmãos, tios, primos, avós. Eles eram acorrentados pelo pé e enfiados nos porões escuros de navios onde amontoavam-se até 600 pessoas num espaço de 300–360 metros quadrados em média. Sem ventilação, a temperatura dentro dos navios negreiros podiam atingir os 50°C, o que propiciava o surgimento de doenças como disenteria e escorbuto. Dos vinte milhões de africanos que foram colocados nesses navios, três milhões jamais chegariam ao continente americano.

Ser transportado como carne a ser exportada era apenas o começo do martírio dos negros. Quando chegavam no litoral brasileiro, eram vendidos em mercados de escravos, como o Cais de Valongo, no Rio de Janeiro, e marcados a ferro quente para indicar a quem pertenciam. Este procedimento causava infecções que muitas vezes levava à morte dos escravos. Nas fazendas, as torturas eram ainda mais intensas e sádicas. O negro — constantemente vigiado e punido pelos feitores — deveria aceitar a escravidão caso não quisesse morrer no açoite.

A condição do negro de membro subalterno da sociedade brasileira era reforçada até nos pequenos aspectos. Ele era obrigado a mudar seus costumes e assimilar e venerar o Deus dos brancos 
— que, embora tivesse surgido no Oriente Médio, foi embranquecido pela Igreja Católica, que fazia vistas grossas para o tráfico negreiro — e açoitado se não o fizesse. Foi assim que surgiu o sincretismo religioso que uniu o culto aos orixás aos santos católicos, ainda hoje forte em regiões litorâneas do país, apesar da forte investida contra das igrejas evangélicas.

O negro que se recusasse a ser inferiorizado pelos brancos, para os quais era obrigado a trabalhar de graça, era colocado no tronco (nas fazendas) ou no pelourinho (nas cidades) e espancado com chicotes, varas ou barras de ferro. Os outros negros eram forçados a assistir o que acontecia com quem não se dobrasse à escravidão. Após a sessão de espancamento, jogava-se sal sobre as feridas do escravo "insubordinado" para que elas não cicatrizassem e ele e os demais pudessem sempre ver qual era o preço da insubmissão. Ele era mantido preso, servindo de "exemplo" até que o senhor de engenho tivesse misericórdia dele.

Segundo os brancos, os negros deveriam receber os três Ps: pano, pão e porrada. Muitos, devido ao excesso de tortura, eram acometidos pelo banzo, um sentimento de melancolia que levavam-nos ao suicídio, comumente praticado por greve de fome ou geofagia (ingestão de terra). Muitos acreditavam que a África esperava-lhes após a morte. O suicídio entre escravos era duas ou três vezes maior do que entre os homens livres. Também mais comum entre a população negra do que a branca era a prática de aborto e infanticídio. As mães negras preferiam ver seus filhos mortos do que passando pela mesma privação de liberdade pela qual elas passavam.

Augusto Gomes Leal com sua ama-de-leite
 Monica
(1860). Foto de João Ferreira Villela.
Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro,
"o Brasil inteiro cabe nessa foto".
Os brancos não tinham mais misericórdia delas por elas serem mulheres. As negras eram frequentemente estupradas pelos senhores. Daí surge o nosso povo mestiço: da violência sexual contra as negras. Como muito bem defendem as feministas, o estupro não tem a ver com sexo e sim com poder e hoje o Brasil é um país mestiço porque os brancos violavam o corpo das negras para reafirmar seu poder sobre os escravos. Não bastasse o estupro das mulheres dos negros, os senhores de engenho ainda colocavam cintos de castidade neles, para que eles reproduzissem quando esses quisessem.

A tortura da mulher negra não parava por aí. Elas eram atacadas até em sua maternidade. Quando nascia uma criança na casa-grande, pegava-se uma negra da senzala que estivesse amamentando para servir de ama-de-leite para o filho do senhor e da senhora de engenho. Esta não podia ocupar-se de uma tarefa tão banal quanto amamentar seu próprio filho. A criança negra desmamada era privada do leite e do convívio de sua mãe, o que muitas vezes resultava em sua morte. Em alguns registros, é perceptível a saudade do filho no olhar duro das amas-de-leite para a câmera.

A vida na senzala não era uma colônia de férias, embora existam empresários criando colônia de férias inspirada na experiência brutal dos negros que foram escravizados no Brasil. Isso eu falo sem muita propriedade sobre o assunto. Sei pouco sobre a história colonial desta nação, mas penso que todo brasileiro — negro ou não — deveria saber e se envergonhar do que esse país fazia com os negros até 129 anos atrás. Está tudo documentado, assim como a presença da escravidão nos quilombos que, segundo alguns autores, em pouco se assemelhava à escravidão de negros por brancos.

Ao invés de acreditar em quem de fato pesquisa a história do Brasil, a maioria das pessoas preferem acreditar em quem tem pouca ou nenhuma propriedade para falar sobre esse assunto — graças à mídia, em grande medida, que abre espaço para figuras como a aposentada do vôlei falar sobre um tema que não lhe diz o mínimo respeito. Assim sendo, não só não conhecemos o martírio dos negros no Brasil como ainda não nos envergonhamos por ele. É o caso da minha avó que, aos noventa anos de idade, escreveu um livro onde conta que sua avó materna ganhou escravos de presente de casamento sem nenhum pudor.

Quem somos nós — brancos que não conhecemos nossa própria história — para dizer aos negros quem eles têm que ter como símbolo de luta? Calem a boca, brancos! Quem tem propriedade para dizer quem representa a luta pela libertação dos negros são os negros. Ou, no mínimo, pessoas que estudam a história afro-brasileira e não uma ex-jogadora de vôlei ou um ex-jornalista da desonesta revista Veja que decidiu escrever "história pop" para entrar na lista dos mais vendidos daquela publicação. Resta a nós, pessoas pouco entendidas sobre o assunto, reconhecermos nossa ignorância e calarmos nossas bocas — que só não passaram fome devido aos privilégios que este país historicamente dá a seus cidadãos de pele branca — e respeitar o povo negro, sua história, sua luta e seus ícones.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O calor repressivo e ignorante de Goiás

Cartaz do filme Volver.
Há cerca de dez anos, eu assisti ao filme Volver (2006), escrito e dirigido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar e, assim como havia acontecido quando assisti a seu Tudo Sobre Minha Mãe (1999), me apaixonei completamente por aquela trama. A história gira em torno de Raimunda, que se vê forçada a retornar a sua cidade natal na região de La Mancha quando sua tia senil morre (daí o título do filme, que significa "retornar" em português). Raimunda, magnificamente interpretada por Penélope Cruz — indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação —, deixou traumas do passado e uma rígida moral conservadora para trás quando se mudou para Madri. Em determinada cena ela diz à filha adolescente, com certo desdém, que o sul da Espanha é quente e que, por isso, as pessoas ali são mais ignorantes do que aquelas com as quais elas convivem na capital do país.

Aquele diálogo mexeu profundamente comigo na época. Eu era um jovem gay e morria de medo e vontade de me assumir como tal para a conservadora — e igualmente quente — sociedade goiana. Minha dificuldade em me aceitar e me assumir vinha dos valores sociais em voga em Goiânia, onde a polícia registra cerca de dez casos de violência contra a mulher por dia. Agora, no entanto, eu decidi que a ignorância do goiano médio não pode mais pautar minha vida e tenho me lembrado cada vez menos daquela cena. Não há muito o que eu possa fazer se as pessoas a meu redor foram educadas para achar a caverna de Platão confortável. Apesar disso, recentemente outra obra de arte também produzida por um homem espanhol gay fez eu me recordar daquela cena, que considero o momento de origem do meu divórcio da sociedade ignorante em que estou inserido.

Trata-se da peça A Casa de Bernarda Alba, do dramaturgo Federico García Lorca, que tive a oportunidade de assistir na abertura da mostra "Mulheres por Mulheres", realizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Nela, o calor simboliza não a ignorância, mas a repressão religiosa e a rígida moral sexual do sul da Espanha no início do século passado. Assim como Raimunda, García Lorca só conseguiu se livras das correntes da sociedade provinciana após se mudar para Madri. Não creio que o diálogo entre essas obras seja um mero acaso. Tampouco creio que a onda de calor pela qual Goiânia atravessa e a aparição dessas obras no meu imaginário nesse exato momento seja mera coincidência. O valor simbólico exato disso, eu não sei, mas suspeito que seja um sinal de alerta para que eu continue resistindo ao calor repressivo e ignorante de Goiás.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Somos todos filhos da puta

Gostaria de falar sobre putas. Não sobre as mulheres que têm como profissão a prostituição, mas aquelas que já receberam essa alcunha. Desde os primórdios, nas sociedades abraâmicas, mulheres livres e independentes têm sido punidas por sua sexualidade e recebido essa denominação. Eva, por exemplo, foi a primeira puta. É um exemplo de mulher a não ser seguida, pois não ouviu a seu homem e acabou condenando a ambos. Chamar uma mulher de puta é uma forma de diminuí-la por causa de seu suposto gosto pelo sexo. Enquanto um homem ser puto é esperado e até mesmo incentivado, a mulher é incentivada a casar e ter filhos. Quem não tem, em sua família, aquele tio que levou o primo num bordel quando ele fez 18 anos, mas que diz para a prima que ela deve ser "bela, recatada e do lar" para chamar a atenção do sexo oposto?

Numa sociedade ideal, ninguém se importaria com quem você transa. Todos nós transamos e todos nós nascemos porque duas pessoas transaram (exceto os "bebês de proveta"). No entanto, em nossa sociedade, tudo é organizado de uma forma que permita que o homem branco heterossexual fique no zênite das relações sociais. Assim, o sexo tem significados diferentes para um homem heterossexual e para uma mulher, seja ela hétero ou homossexual, branca ou negra. As mulheres existem para satisfazer os homens e quem está mais interessada em satisfazer a si mesma é uma puta. Mulher que se masturba é puta. Mulher que transa com outra mulher é puta. Mulher que transa por transar é puta. E, por fim, mulher cuja a existência independe da figura masculina é puta.

Todas as mulheres que ocupam o espaço dos homens
são, mais cedo ou mais tarde, chamadas de puta.
Essa dinâmica de dominação das relações sociais pelo sexo masculino se entende para além da cama, de forma que todas as mulheres icônicas da História da humanidade já foram chamadas de puta em algum momento de suas vidas, sem exceções. De Maria Madalena à Madonna, cantora mais popular do planeta. De Frida Khalo à Dilma Rousseff. A mulher que se nega a submeter-se ao homem ameaça a manutenção da ordem social vigente e deve ser neutralizada, o que quase sempre envolve difamá-la por causa de sua vida sexual. Ser uma mulher que não se coloca no seu lugar e se cala enquanto os homens conversam, ou seja, se negar a ser uma "mulherzinha", é uma agressão ao patriarcado. Acho que é por isso que esse tipo de mulher me atrai tanto. Gosto de me cercar de putas, sejam elas profissionais da prostituição ou não.

Certa vez, num almoço de família, minha mãe me chocou ao dizer que apoiava a Marcha das Vadias porque ela era uma. Não no sentido de quem tem vários parceiros sexuais (e, caso tivesse, isso não seria da minha conta e nem da conta de ninguém). Pelo contrário, era uma vadia porque recusa-se a se curvar para os homens, que assim chamam as mulheres que, como ela, ameaçam os privilégios masculinos através da conquista de visibilidade no campo social. Minha mãe já foi chamada de puta, certa vez, por ter colocado a vida social acima da maternidade (o que não significa negligenciar a segurança dos filhos). A mulher ideal para o tipo de sociedade em que vivemos é aquela cujo maior sonho é se casar e ter filhos e que para de viver — inclusive sexualmente — depois que vira esposa e mãe.

Não sei o que as pessoas têm a ver com aquilo que as outras fazem! Desde que você não coloque a vida de outras pessoas em perigo, não tenho nada a ver com aquilo que você faz. E se você é uma mulher e a sociedade te chama de puta: meus parabéns! Você deve estar fazendo algo de certo para irritar uma sociedade tão errada quanto a nossa, na qual homens são assassinados à sangue-frio na rua por cometerem o "revolucionário" ato de segurar a mão de outros homens. Saiba, puta, que eu te admiro e me espelho no seu espírito livre para ser mais autêntico e verdadeiro comigo mesmo e com as ideias que eu defendo, que não têm o mínimo intuito de entrar em consonância com esta sociedade doentia na qual vivemos.

Eva, a primeira puta.
Por isso, acho que cada um de nós deveria se orgulhar das vezes em que foi chamado de filho da puta. Uma vez um ex-namorado me chamou disso e eu fiquei morrendo de raiva dele por ter ofendido minha mãe — que sempre acolheu-o super bem, mesmo sem ter a obrigação de fazê-lo. Ele se esquivou, disse que não estava falando dela, que era só um xingamento geral. Mas por que motivos trazer a vida sexual da minha mãe à tona durante uma discussão que envolvia só nós dois? Desde então, tenho evoluído muito e agora percebo que as mulheres que a sociedade chama de puta são aquelas que eu mais admiro e que tenho como modelo a ser seguido na vida. Não ligo mais se me chamarem de filho da puta. Assim como a Madonna não pede desculpas por ser uma puta, eu também não peço desculpas por ser o filho de uma.

Na verdade, sou filho de várias putas. Eva, a primeira mulher e puta, Maria Madalena, Madonna, Dilma e — por que não? — minha mãe. Mulheres que só são putas porque se recusaram a assumir o papel de "mulherzinha", que tomaram as rédeas de sua própria vida e, por isso mesmo, ofendem profundamente o patriarcado, que não é a régua pela qual eu, um jovem homem gay, desejo ser medido. Obviamente não vim nesse mundo para agradar a este sistema de estratificação social baseado no gênero e na orientação sexual das pessoas. Se fosse para ser assim, Deus teria me feito homem e branco do mesmo jeito, mas heterossexual. Para o patriarcado, eu sou um viado, mas se eu fosse mulher, com certeza seria uma puta. Contento-me, no entanto, em ser um filho da puta, pois sem as putas eu não teria metade das liberdades que tenho hoje.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A ópera-bufa do combate ao terrorismo

A "relação especial" entre Estados Unidos e Arábia Saudita
deve continuar durante o governo Trump.
Desde 2015 tenho dito e repito: qualquer iniciativa antiterrorista que não inclua sanções à Arábia Saudita é pura demagogia. Osama Bin Laden, um membro da elite saudita, fundou o grupo terrorista mais famoso do mundo — a al-Qaeda — em 1988. O bando visa instituir o salafismo como religião oficial dos países do Oriente Médio. O salafismo ou wahhabismo é uma vertente ultra-conservadora do sunismo que defende que os muçulmanos devam viver como os primeiros seguidores do profeta Maomé. Os salafistas são contra inovações posteriores do mundo islâmico, como a separação entre o Estado e a religião, peregrinações a mausoléus — o que eles consideram como idolatria — e o convívio entre os sexos. Trata-se da religião oficial da Arábia Saudita que, pasmem, pune a idolatria com pena de morte. Dito isso, não é nenhuma surpresa que 15 dos 19 jihadistas que sequestraram os quatro aviões que jogaram contra o Pentágono, o World Tarde Center e um campo na Pensilvânia em 11 de setembro de 2001 eram cidadãos sauditas.

Embora o governo da Arábia Saudita negue possuir qualquer relação com grupos terroristas salafistas, a al-Qaeda é financiada por bilionários daquele país, como os banqueiros Saleh Kamel e Sulaiman Abdul Aziz Al Rajhi e o ex-ministro do petróleo Ahmad Turki Yamani. Segundo um memorando de 2009 do Departamento de Estado dos Estados Unidos, vazado pelo WikiLeaks, a Arábia Saudita é a principal fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo. Além da al-Qaeda, o país estaria financiando também outros grupos terroristas. Várias fontes, como o governo do Iraque, a revista The Atlantic, as emissoras de televisão BBC e NBC, o jornal The New York Times e o site de notícias Daily Beast acusam a elite ou o governo saudita de financiar também o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que também promove o jihadismo salafista. A Arábia Saudita exporta mais combatentes para este grupo do que qualquer outro país do mundo depois da Tunísia. Nas áreas controladas pelo grupo, professores lecionam com livros didáticos sauditas.

Estado Islâmico e Arábia Saudita defendem a mesma versão do Islã.
Num outro documento vazado pelo WikiLeaks — um e-mail de agosto de 2014 direcionado a John Podesta, conselheiro do então presidente Barack Obama —, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton afirma que tanto a Arábia Saudita quanto o Qatar estão "fornecendo apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIS e outros grupos sunitas radicais na região". É questionável, no entanto, se ela faria algo para conter a situação que denuncia no e-mail caso estivesse hoje na Casa Branca. A Fundação Clinton já recebeu doação dos governos de ambos os países. Por este motivo, Clinton foi criticada pelo senador Bernie Sanders durante as primárias do Partido Democrata. Sanders disse ter um problema com uma secretária de Estado cuja fundação recebe milhões de dólares de governos estrangeiros que são ditaduras. Até mesmo o New York Times, que declarou apoio à candidata, afirmou em um editorial que havia razões para acreditar que, embora não há evidências de que Clinton tenha favorecido os doadores de sua fundação, havia um conflito de interesses no caso.

Seu oponente, o agora presidente Donald Trump, também acusou-a de conflito de interesses durante um dos debates presidenciais. Segundo ele, ela deveria devolver os US$ 25 milhões que a Arábia Saudita doou à fundação porque "essas pessoas tratam as mulheres horrivelmente". Noutra ocasião, no entanto, disse que gostava muito dos sauditas, pois eles estavam entre seus principais clientes no ramo imobiliário. Só que ele afirmou também que, uma vez eleito, tomaria medidas enérgicas contra o terrorismo islâmico. Segundo o jornal New York Daily News, no entanto, Trump possui negócios no ramo hoteleiro da Arábia Saudita, país que não foi afetado por seu decreto presidencial que baniu a entrada nos Estados Unidos de pessoas oriundas de sete países do mundo muçulmano — Irã, Iraque, Síria, Iêmen e os africanos Líbia, Somália e Sudão. Entre 1975 e 2015, 2.369 norte-americanos foram mortos em solo estadunidense por terroristas sauditas e, ainda assim, os sauditas podem obter visto e entrar nos Estados Unidos assim que quiserem. 

Os ignorantes confundem vítimas e perpetradores do terrorismo.
É para eles que Trump toca sua ópera-bufa sinistra.
Ao invés de punir quem espalha o fundamentalismo islâmico que gera o terrorismo, Trump vai punir as vítimas do terrorismo. Banir pessoas que, na maior parte dos casos, são sobreviventes de guerra e perseguidos políticos buscando refúgio noutro país, além de ser um tremendo descaso do ponto de vista humanitário, vai ter um efeito praticamente nulo na luta contra o terrorismo. Isso sem falar que foram os Estados Unidos e, mais especificamente, o partido de Donald Trump que transformaram o Iraque num campo fértil para as ações do Estado Islâmico. Ao vetar a entrada de sírios e iraquianos e não de sauditas, Trump demonstra que seu discurso não passa de pura balela. Uma demagogia para aqueles que temem o terrorismo islâmico sem entender muito bem como ele opera. E que nem buscam entender, pois parte significativa do medo vem justamente da ignorância. Em termos de combate ao terrorismo, Trump toca uma ópera-bufa sombria para uma plateia de ignorantes — lá nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil — aplaudir.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ano em que me tornei forte

Meu lado forte que 2016 revelou.
Há alguns meses, publiquei um texto atribuindo à deusa grega do amor, Afrodite, a regência desta nova fase de minha vida. Agora, no entanto, percebo que esta mudança não ocorreu por obra de um agente externo. Trata-se do meu lado feminino (daí a confusão com Afrodite) tomando as rédeas de minha vida. Meu lado masculino sempre foi uma bagunça. Inseguro, frágil e confuso, nunca soube como ir atrás daquilo que eu desejo e percebo como sendo o melhor para mim. Meu lado feminino, por outro lado, é sagaz, calculista e empoderou-me para a luta. Foi só quando deixei de lutar contra ele que percebi as maravilhas que ele pode fazer por mim.

Com o perdão da palavra, 2016 foi um ano de merda. Parece que o caos sociopolítico do Brasil passou a se refletir sobre minha vida também. Diversas vezes, minha saúde física e mental encontrou-se fragilizada nesse ano. Mas eu me levantei todas as vezes que caí. Eu vim, eu vi, eu venci. Não me entrego mais ao caos. O caos pode sim ser construtivo e ter seus momentos de beleza, mas nunca mais vou parar minha vida para contemplá-lo. Demorou, mas finalmente compreendi que a função da desordem é fazer com que possamos tirar um aprendizado dela. A vida nos derruba para que possamos aprender a nos levantar, quantas vezes preciso for, e seguir em frente.

Ver os atletas e não poder sequer me levantar da cama sem
 que meu pé doesse atormentava terrivelmente minha alma.
De tanto cair em 2016, mesmo que metaforicamente, acabei machucando justamente o tendão de Aquiles — olha a mitologia grega aparecendo aqui de novo —, que é o responsável pelo ato de levantar-se. E do lado esquerdo, o lado do subconsciente. Este talvez tenha sido o maior baque que levei neste ano. Fui obrigado a parar de me exercitar justamente quando a maior festa do esporte mundial, as Olimpíadas, estava em nosso país. Num primeiro momento, agi sob a influência do meu lado marciano e entreguei-me à enfermidade, esperando que a inflamação curasse sozinha. Em seguida, meu lado feminino, venusiano, tomou conta de mim e colocou-me em ação para recuperar minha mobilidade.

A Vênus que habita dentro de mim também ensinou-me a lidar melhor com outras doenças: as da alma. Não quero mais agradar a todos e perdi a vergonha de me expressar em público, porque percebi que não tenho nada a perder, a não ser o medo de ser julgado. Aprendi que a língua do brasileiro não é o português, mas sim o cinismo. E que ele teria me levado longe se eu tivesse lançado mão dele, mas eu teria perdido uma parte importante de mim que é a honestidade. Aprendi também que "gostei de você" e "vamos nos ver" são só palavras, utilizadas por pessoas emocionalmente confusas, e o significado cruel da expressão ghosting e como reagir a ele. Aprendi até mesmo a gostar de Goiânia, uma vez que percebi que o que importa numa cidade não é sua infraestrutura ou seus costumes, mas sim como construímos nossas relações afetivas dentro dela.

Começar um diário ajudou-me a reconhecer minhas forças
 e fraquezas. Enquanto eu não fugir delas, tudo vai ficar bem.
Agora sei que não há nada de errado em ser só e até gosto da minha companhia. Tomei o controle da minha sexualidade e consigo usar os homens para me satisfazer assim como fui usado por eles por tanto tempo. Deixei o lado passivo, marciano, de lado. Não é irônico que, pelo menos no meu caso, a passividade seja decorrente justamente de um desequilíbrio espiritual a favor do lado masculino? Se bem que ser um homem no patriarcado, mesmo que seja gay, significa que você não precisará lutar tanto quanto uma mulher para conseguir conquistar as coisas. Daí a proatividade advir do lado feminino em nosso mundo que, infelizmente, não é venusiano.

2016 foi um ano de merda. Mas estou mais forte do que estava em 2015. Estou mais forte do que eu imaginava que pudesse ser. Agora sei como me levantar dos inevitáveis baques da vida. Havia um desequilíbrio na minha vida no ano passado e agora sei que é porque eu tentava reprimir o meu lado feminino, que era justamente o meu lado forte. Não só aprendi a reconhecê-lo como também a respeitá-lo. Agora que há um equilíbrio, estou bem. O amanhã sempre vai ser melhor, pois sei que se eu cair saberei me levantar. 2016 foi um ano ruim, mas eu viveria-o de novo se fosse preciso, porque 2016 foi o ano em que me tornei forte. Essa força pode até ter sido estimulada a se revelar através de fatores externos, como meu diário, minha terapia ou minhas crenças sobrenaturais, mas ela vem de dentro e é feminina. Enquanto eu não fugir dela, tudo vai ficar bem.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Pode o novo nascer de práticas antigas?

O segundo turno das eleições municipais no Brasil não poderia ter sido marcado em data mais apropriada. Será no dia 30 de outubro, véspera do Dia das Bruxas. A disputa em cidades como Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia — todas elas antigos redutos do Partido dos Trabalhadores — mais parece o enredo de um filme de terror. Candidatos de partidos de direita se digladiam naquela que deve ser a campanha mais baixa e menos propositiva de toda a história recente desses locais. Após ter subtraído 54,5 milhões de votos e tomado o poder central de assalto, a direita, que falou em voz uníssona durante o processo que culminou no golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, agora digladia entre si para definir quem irá ditar os rumos da política nacional. Aqui em Goiânia a disputa será entre o velho coronel Iris Rezende (PMDB), patrocinado pelo senador Ronaldo Caiado (DEM), e o empresário Vanderlan Cardoso (PSB), ex-prefeito de Senador Canedo e candidato do governador Marconi Perillo (PSDB). Nenhum desses golpistas merecem o meu voto, mas precisamos falar sobre aquele que vem se apresentando como o "novo" para a população da capital.

Em qual Vanderlan devemos acreditar? No de 2010...
Em outubro de 2010, o então candidato a governador Iris Rezende fez um comício na Região Noroeste de Goiânia para receber o presidente Lula e a então candidata à presidência Dilma Rousseff. É inútil repetir que Iris e seu PMDB mais tarde trairiam Lula e entregariam Dilma aos lobos golpistas; isso todos já sabem. Vale frisar, no entanto, que neste comício Iris recebeu o apoio e o elogio de Vanderlan Cardoso, que também concorreu ao governo, mas não avançou para o segundo turno da disputa. Segundo Lula, a oposição aos tucanos em Goiás procurou-lhe para definir os nomes que concorreriam ao governo e ele abençoou as candidaturas tanto de Iris — com quem seu PT estava coligado — quanto de Vanderlan. Eu sei disso porque eu estava lá. Presenciei o discurso de Lula e também presenciei quando Vanderlan disse que o melhor para o futuro de Goiás era a eleição do ex-governador Iris Rezende, então recém-saído da prefeitura de Goiânia. Hoje, o mesmo Vanderlan ataca o peemedebista por sua aliança com o PT no passado, da qual ele também fez parte no segundo turno de 2010, e coloca-se como seu rival na disputa pela prefeitura da capital do Estado.

Vanderlan apresenta-se na televisão como uma espécie de "João Dória goiano". O empresário, dono da fábrica dos salgadinhos Micos, apresenta-se como um gestor que irá revolucionar a prefeitura ao aplicar à administração pública as práticas do mundo empresarial. Se há algo que o fenômeno Donald Trump nos ensinou é que a melhor maneira de construir uma candidatura viável nas democracias liberais hoje em dia é, além de denunciar os inimigos que estão destruindo a família tradicional, apresentar-se como o "não-político". Segundo a campanha do candidato socialista, Iris Rezende, do alto de seus quase 83 anos de idade, possui práticas políticas obsoletas. Não discordo, mas substituir as práticas paternalistas do velho coronel por "novas" práticas que incluem a privatização e a diminuição da máquina pública me parece como trocar seis por meia-dúzia. Além do mais, gostaria de saber o que provocou uma mudança tão súbita em Vanderlan em seis anos para que ele negasse tudo aquilo que disse para mim e outros eleitores goianienses naquele comício de 2010. Não padeço da doença da amnésia, tão comum a grandes parcelas do eleitorado brasileiro.

Em qual Vanderlan o eleitorado de Goiânia deve acreditar? No de 2010 ou no de 2016? E, mais importante de tudo, o que fez com que ele mudasse tão radicalmente de opinião sobre o governador Marconi Perillo, contra quem concorreu nas eleições de 2010 e 2014? Teria algo a ver com o enorme aporte financeiro que sua campanha recebeu desde que aceitou coligar-se com o PSDB, que governa, aparelha e dilapida o Estado há 18 anos? A rejeição aos tucanos em Goiânia é notória, então dessa vez o governador preferiu concorrer com alguém distante de seu grupo político e que apresenta-se como o "não-político", para conseguir a chance de abocanhar as finanças municipais também. A enorme estrutura de campanha que o PSDB forneceu a Vanderlan seria, segundo alguns, bancada pelos recentes desvios promovidos pelos tucanos na empresa estatal de saneamento, a Saneago. Vanderlan apresenta-se na disputa pela prefeitura de Goiânia como o novo, mas para ter uma chance real de finalmente chegar ao poder aliou-se com os políticos sujos e corruptos que tanto criticava em campanhas passadas. Fica a dúvida: pode o novo nascer de práticas antigas?

...ou no de 2016?
Ao aliar-se ao PSDB, Vanderlan incorreu na prática mais comum da "velha" política de Iris: o conchavo. O peemedebista já esteve coligado com todos os grupos políticos imagináveis, do PT ao DEM. Ao incorrer no primeiro e mais grave pecado do político ordinário, passou a diferenciar-se do oponente apenas no discurso. Na prática, são iguais: dois políticos que só visam o poder a qualquer custo e não estão nem aí para a ideologia dos partidos com os quais se coligam. O povo, que dizem representar, é um mero espectador na construção de suas alianças programáticas e partidárias. Por um momento, antes da eleição de 2010, cogitei votar em Vanderlan Cardoso para governador. A eterna polarização entre Iris e Marconi, que perdura desde que eu tinha oito anos de idade, me causa náuseas. No entanto, em determinado programa eleitoral, ele propôs conceder a administração das comunidades terapêuticas que tratam dependentes químicos para igrejas. Aquele foi o momento em que percebi que havia algo de velho no "novo" candidato. Foi ali que percebi que se tratava de um político "mais do mesmo", que confunde o Estado laico com sua crença religiosa pessoal.

Agora que Vanderlan aliou-se ao PSDB de Marconi Perillo. prometendo governar Goiânia, mas na verdade visando a eleição de 2018, tenho certeza absoluta de que ele é um político como outro qualquer. Por que uma pessoa que sequer mora em nossa cidade e que exerceu o cargo de prefeito de outra cidade completamente diferente está tão interessada em governá-la? Não é para "gerir" nossa Goiânia e melhorar a qualidade de vida de nosso povo. É para fazer palanque para o próximo pleito de governador. Marconi Perillo não pode concorrer ao governo em 2018, então nada melhor do que colocar alguém "novo", que não enfrentou grandes casos de corrupção em seu histórico político, para substituí-lo. Vanderlan apesenta-se como o "pós-político", mas a política dele é a mesma de sempre. Não sintam-se surpresos caso ele seja eleito prefeito e abandone a cidade para concorrer ao governo do Estado como o candidato pós-Marconi e, uma vez eleito, reproduza todas as práticas de Marconi Perillo e seu PSDB. Vocês foram avisados por quem percebeu a incongruência entre o discurso e a prática de Vanderlan Cardoso desde o início.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Obrigado, golpistas!

Hoje a farsa contra a presidenta Dilma Rousseff foi finalmente consumada e seu mandato foi oficialmente abreviado pelo Congresso Nacional. Por não terem conseguido provar qual crime Dilma teria cometido, os senadores cassaram-na, mas deixaram seus direitos políticos intactos. Transformaram o mecanismo do impeachment previsto na Constituição de 1988 num voto de confiança, embora o regime de governo no Brasil seja o presidencialismo e não o parlamentarismo. Na Espanha, seria perfeitamente legal afastar o presidente de governo pelo "conjunto da obra", mas no Brasil isto é — ou era — juridicamente impossível em razão do fato do presidente ser também o chefe de Estado e o cargo, acumulando as duas funções, necessitar de certa estabilidade institucional. Assim sendo, não há outra forma de classificar o impeachment de Dilma Rousseff que não seja através da palavra "golpe". É o golpe frio do qual a revista alemã Der Spiegel falou.

Apesar de terem ajudado a instituir uma nova modalidade de golpe na América Latina, que até mesmo o jornal conservador argentino Clarín vê com cautela, não guardo rancor em relação aos partidários do golpe contra Dilma. Pelo contrário, gostaria de agradecer aos golpistas do fundo do meu coração. Desde que vocês decidiram se fechar ao diálogo e se isolar do resto da sociedade que não pensa como vocês, minha vida só melhorou. Quando vocês decidiram que sua estratégia de ação política para derrotar Dilma e o Partido dos Trabalhadores seria o ataque à própria democracia, percebi que seria obrigado a me afastar de vocês. Não quis conviver no mesmo ambiente tóxico de ódio e rancor no qual vocês vivem. Vocês desnudaram sua falta de caráter e valores morais e isso me desagradou. Assim sendo, a única opção que me restou foi conviver com pessoas que pensam de maneira semelhante a mim. Graças a vocês, golpistas, entrei em contato com pessoas maravilhosas.

Busquei me afastar de pessoas cujos valores eu percebia como dúbios. Não conseguia mais aturar mesquinhos, hipócritas e falsos moralistas. Gente que falava que não tinha "bandido de estimação", mas que celebrou o fato de Eduardo Cunha ter estado do seu lado na luta contra o PT. Gente que cobrava retidão de caráter dos políticos, mas que pede pro colega bater o ponto em seu lugar no trabalho. Gente que se diz cristã, mas que xingava uma senhora de 68 anos de idade, avó de duas crianças, de "puta" no protesto de domingo após a missa ou culto. Gente que nunca vai suportar ter que dividir as vias públicas com pobres em carros mais humildes. Gente que grita quando contrariada. Gente cujo ódio é o próprio combustível que as move e as faz sair da cama todas as manhãs. Num primeiro momento, parecia que eu havia me isolado do mundo e que não havia mais ninguém como eu ao meu redor. Mas isto não era verdade.

Lentamente, fui me aproximando de um variado leque de pessoas que também não suportam o "dois pesos, duas medidas" tão característicos dos brasileiros que se julgam informados quando na verdade estão sendo manipulados. São pessoas que, sob circunstâncias normais, eu não teria tido a oportunidade de conhecer no meu até então restrito círculo de convivência social. A primeira demonstração de hipocrisia ocorreu num templo da Igreja Católica, da qual me desvinculei logo em seguida para, felizmente, encontrar uma igreja mais afinada com os meus valores. Em seguida, ao voltar a participar de protestos de rua, descobri o quão rica é a militância progressista no Brasil. Me abri para pessoas com as quais, num passado recente, eu teria vergonha de ser visto em público. Se hoje tenho diversos amigos — virtuais ou não — de diversas partes do Brasil e do mundo, de várias etnias, orientações sexuais e identidades de gênero, é por causa do terremoto político que o golpismo causou.

Além disso, voltei a prestar a atenção na produção musical nacional. Redescobri a obra de muitos artistas graças a sua militância anti-golpe. Quem poderia imaginar que eu tenho tanto em comum com o Tico Santa Cruz, por exemplo? São artistas que fazem cultura de primeira e que dificilmente terão o reconhecimento que merecem do grande público. Nesse sentido, o serviço sueco de streaming Spotify foi de grande importância para me fazer romper o boicote à música popular brasileira imposto pelas rádios FM de Goiânia. Assim como a reação popular às organizadíssimas neo-marchas da Família com Deus pela Liberdade me aproximou de negras e negros que não escondem suas raízes, pessoas trans que não escondem sua identidade e muitos — muitos mesmo — homossexuais que, num passado recente eu teria considerado "espalhafatosos" demais. Houve também o que chamo de "invasão nordestina" aos meus perfis nas redes sociais.

Desde que vocês, golpistas, decidiram não reconhecer o resultado da eleição presidencial de 2014, eu cresci bastante. Muitas vezes, as adversidades nos impõem o crescimento. Romper laços é doloroso, mas nem sempre é maligno. Isolar-me de vocês forçou meu crescimento nas relações interpessoais — e garantiu-me uma paz de espírito inédita em minha vida. Resistir ao golpe parlamentar tem sido uma experiência fascinante de auto-conhecimento através do outro. Finalmente entendi o que significa ser cristão. Não significa dar a outra face para vocês o tempo todo. Significa estender a mão para todos que são rejeitados por vocês, que são a expressão política de uma minoria gananciosa. Significa aceitar-me e poder assumir, por exemplo, que acho um homem trans bonito e que ficaria com ele. Libertei-me do fardo que vocês representavam em minha vida. Por isso, obrigado, golpistas! O ódio de vocês me uniu em amor a pessoas incríveis. E o que o amor une, o ódio não pode separar.

sábado, 23 de julho de 2016

Viver em Cristo é viver em amor

Texto escrito em 29 de junho de 2016.

Ontem me coloquei no lugar dos cinco rapazes mortos por homofobia durante a última semana no Rio de Janeiro. É um exercício doloroso a empatia. Principalmente quando a vítima poderia muito bem ser você mesmo. Não é possível que em pleno século XXI — e com os olhos do mundo voltados para o Rio por causa das Olimpíadas — pessoas continuem sendo assassinadas por serem quem elas são, por terem o código genético que possuem. O fato é que gay is the new black em termos de opressão. Agora que é crime culpabilizar os negros pela penosa vida que o sistema capitalista lhe impõe, o povão encontrou nos LGBTs um novo bode expiatório. Junto com os imigrantes, é claro. Esqueça sobre o pagamento dos juros da dívida pública que rouba o dinheiro de nossos impostos e não contribui em absolutamente nada para o crescimento da economia; há dois homens se beijando em público na televisão e é mais importante debater costumes morais do que a extorsão de governos promovida pelo sistema financeiro a nível mundial.

Dois meses antes, Bolsonaro se converteu do catolicismo ao
pentecostalismo. Deve estar mais à vontade na nova igreja.
As cabeças cariocas fracas e pouco instruídas funcionam como oficinas de diabos como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia que, embora não tenham puxado o gatilho, deram a ordem para que puxassem. Essa seria a ordem de um Deus que não é mensageiro da paz e nem do amor, mas sim a representação do que há de pior na psique humana. Parte da culpa pela proliferação da intolerância é de quem sempre lutou contra ela. Ao priorizar mais o desenvolvimento econômico do que o social, os governos do Partido dos Trabalhadores acabaram produzindo uma legião de ingênuos úteis, que sabem tudo sobre o funcionamento de smartphones, carros e televisores e nada sobre o funcionamento da biologia ou de como deveria ser a vida em sociedade. Como minha mãe sempre diz, o poder não deixa vácuo. O vácuo na cultura e na educação foi ocupado por mercenários de almas, para quem seguir a lei judaica — de onde tiraram o famigerado "evangelho da prosperidade" — é mais importante do que ser um discípulo dos ensinamentos de Jesus Cristo.

É sintomático que Bolsonaro tenha saído da Igreja Católica romana cerca de dois meses antes do líder espiritual desta instituição milenar declarar que ela deve um pedido de desculpa aos homossexuais. A fé de Bolsonaro, assim como sua atuação parlamentar, é oportunista. Só tem serventia a ele enquanto ele puder utilizá-la para justificar sua visão torpe de mundo. Agora que não pode mais usar o Vaticano como justificativa para sua homofobia, este não lhe serve mais. Mesmo caminhando a passos mais lentos do que as igrejas protestantes tradicionais — a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceita fiéis homossexuais desde 1998  — a Igreja Católica evolui e pessoas como Bolsonaro e Malafaia são agentes anti-evolução social. A sobrevivência deles depende da manutenção do status quo. Num cenário em que todos recebam uma educação de qualidade, ninguém seria mais seduzido pelo discurso fácil deles de que os homossexuais e os haitianos são os culpados pela degradação da sociedade brasileira. Não é à toa que líderes evangélicos são entusiastas do "Escola sem partido".

Dá pra imaginar uma prostituta ungindo Malafaia?
Apesar do cenário desolador, não devemos esmorecer. Mesmo que caiam mil à nossa direita e outros mil à nossa esquerda devido ao ódio malafaiano, vamos triunfar. Porque nós sabemos o que é o amor. E a religião de Jesus não era o cristianismo, era o amor, sobretudo aos marginalizados pelo status quo de sua época. Se caminhasse entre nós, Cristo condenaria boa parte dos "cristãos" de nosso tempo e também seria condenado por eles. "Cristo" vem do grego e significa ungido, ungido que foi por uma mulher de moral duvidosa que o amava como ele a amava: incondicionalmente. Alguém imagina os principais líderes evangélicos do Brasil sendo ungidos por uma prostituta? O argentino Jorge Bergoglio — membro da Companhia de Jesus, que promoveu a evolução da Igreja com o Concílio do Vaticano, e o primeiro papa não-europeu em um milênio — com certeza seria. O que ele tenta resgatar é justamente o amor aos oprimidos presente no Evangelho. Pois viver em Cristo é viver em amor, independente da forma como ele se manifesta.

sábado, 18 de junho de 2016

Ignorância: o projeto da elite para o Brasil

Todos devem se lembrar dos resultados da pesquisa Perils of Perception ("Perigos da percepção", em tradução livre), conduzida pelo instituto Ipsos MORI e segundo a qual o brasileiro é o terceiro povo mais ignorante do mundo. Já conhecia a metodologia da pesquisa — os entrevistados deveriam fornecer os números corretos sobre determinados dados sócio-demográficos —, mas confesso que foi revelador descobrir quais eram as perguntas feitas e como o brasileiro médio possui uma visão distorcida da realidade que lhe cerca. A educação, segundo Paulo Freire, deveria fornecer aos educandos a possibilidade de interpretar o mundo que lhes cerca, formando, assim, cidadãos e não futuros integrantes do mercado de trabalho e de consumo, para os quais saber ler e escrever é o suficiente. O que a pesquisa revela é justamente que o brasileiro médio possui uma enorme dificuldade em interpretar a realidade.

Para Freire, a educação deveria formar cidadãos. "Fora Paulo
Freire" é, portanto, nada menos que "fora educação crítica".
Segundo Perils of Perception, o brasileiro subestima a desigualdade social. No Brasil, 48% da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população. Em termos absolutos: um trilhão de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. No entanto, o brasileiro médio acha que nosso país é menos desigual, que 40% da riqueza nacional está nas mãos de 1% da população. Pode parecer um erro razoável (8%) — e em países mais desiguais como Índia e Rússia a população subestima ainda mais a desigualdade —, mas em termos absolutos o brasileiro acha que 898 bilhões de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. Um erro de 100 bilhões de dólares. A todo o momento o senso comum nos bombardeia com a informação de que os empresários gastam demais com seus funcionários, que o Estado apeiam-lhes os lucros, mas há poucos dispostos em nos informar que somos o segundo país mais desigual da América do Sul.

Quando indagado sobre quanto da riqueza nacional o 1% mais rico da população deveria controlar, o brasileiro responde, em média, que deveria ser 33%, um percentual alto quando comparado a países desenvolvidos. É quase o dobro do que os 18% da riqueza que 1% dos belgas e neozelandeses mais ricos controlam em seus países. Em seguida, o brasileiro subestima, também, o problema da obesidade. Para a média dos brasileiros, 47% da população adulta do país está acima do peso, ou seja, quase 94,2 milhões de pessoas. Na realidade, 56% dos brasileiros acima dos 20 anos de idade estão acima do peso, o que equivale a 112,2 milhões de pessoas. Um erro de "apenas" 18 milhões de pessoas, ou seja, maior do que o número de pessoas que vivem no Estado do Rio de Janeiro. Além de ser piedoso com a exploração imposta por seus patrões, o brasileiro aparentemente não se olha muito no espelho — nem sobre muito na balança — também.

A próxima pergunta é sobre o número de ateus e agnósticos. Propagou-se, em especial através da pregação de pastores neo-pentecostais, a ideia de que há uma guerra em curso contra o cristianismo no Brasil e que os culpados disso seriam os movimentos sociais que lutam contra tradições cristãs como a submissão feminina e a proscrição da homossexualidade e dos cultos de origem africana. Criou-se, no imaginário popular a imagem de uma cristandade ameaçada por militantes ateus. Segundo Perils of Perception, o brasileiro acha que 35% da população, ou seja, 70 milhões de pessoas são ateístas ou agnósticas. Na realidade, segundo dados do Censo de 2010, apenas 8% dos brasileiros (16 milhões) não seguem uma religião organizada. A diferença entre percepção e realidade é de 54 milhões de pessoas, ou seja, quase o mesmo número de eleitores que Dilma Rousseff teve no segundo turno da última eleição presidencial brasileira.

A ignorância dos brasileiros quanto ao número de ateus e agnósticos só não é maior do que sobre o número de imigrantes. Durante a campanha presidencial de 2014, semeou-se, entre os eleitores da direita, a noção de que o Partido dos Trabalhadores fraudou a eleição valendo-se de refugiados haitianos. É uma ideia absurda — como o PT traria um contingente tão grande de pessoas em tão curto espaço de tempo sem ser pego? —, mas que é levada a sério por 42% dos brasileiros que saíram às ruas em 2015 para protestar a favor da queda da presidenta Dilma. Como resultado da campanha de desinformação da direita, os brasileiros acreditam, em média, que 25% de nossa população é composta por imigrantes, ou seja, 50 milhões de pessoas. Na verdade, apenas 601.200 brasileiros nasceram em outros países. É essa distorção, amplificada pelo medo, a responsável por ataques xenófobos a imigrantes, sobretudo haitianos.

A "invasão haitiana" começou como uma mentirinha para
ajudar o Aécio a vencer as eleições, mas já distorce a
percepção que os brasileiros possuem da realidade.
Mas o medo não surge do nada. Ele precisa ser fomentado. Além dos grupos ligados ao PSDB, a mídia também possui uma parcela de responsabilidade muito grande por jogar a população contra os imigrantes. Sempre que os meios de comunicação relatam casos de imigrantes é sobre o viés negativo. "Quando aparecem na mídia estão atrelados a problemas, crises, marginalizações, ou ligados à ideia de invasão", afirma o pesquisador Gustavo Barreto, que analisou mais de 11 mil edições de jornais e revistas publicados entre 1808 e 2015. A desinformação possui uma correlação direta com o medo. Os alemães supervalorizavam o impacto dos judeus em sua sociedade assim como os brasileiros fazem agora com os haitianos. Ainda hoje é possível encontrar, mesmo na esquerda, quem afirme que, sem Adolf Hitler, os judeus tomariam conta da Alemanha na década de 1930, sendo que correspondiam a apenas 0,77% da população alemã em 1933.

Além disso, o brasileiro também subestima o real impacto da juventude na sociedade. Em nenhum outro país a resposta à pergunta "qual a idade média da população em seu país?" foi tão dissonante da realidade quanto no Brasil. Os brasileiros acham que a média de idade da população é de 56 anos, 25 a mais do que os 31 anos que de fato é a média de idade dos brasileiros. Deve ser por isso que o governo interino de Michel Temer consegue enganar tão facilmente a população sobre a necessidade de (mais) uma reforma da Previdência Social. Segundo uma outra pesquisa, mais recente, 75% dos brasileiros apoiam mudanças na regra de concessão da aposentadoria. Talvez se não superestimassem o número de pessoas com mais de 55 anos seriam capazes de perceber que a Previdência consegue se sustentar por mais algumas décadas com o percentual ainda elevado de jovens que possuímos em idade de trabalho.

É engraçado que o brasileiro também subestima o número de crianças, o que chega a ser ilógico se formos parar para pensar. Segundo Perils of Perception, em média o brasileiro acha que 39% da população tem menos de 15 anos de idade. Na verdade, o número é de 24%, novamente a maior dissonância entre percepção e realidade nos 28 países pesquisados. Em relação ao percentual de mulheres na política, o brasileiro também erra, embora por pouco. Diz que 18% dos membros do Congresso Nacional são mulheres, quando na verdade são 10%. Esse erro pode ser explicado pela visibilidade que a figura da presidenta Dilma Rousseff tinha no imaginário popular. Por ser uma mulher e ter chegado ao cargo máximo da nação, acabou gerando a percepção — errônea — de que mais mulheres estavam ocupando posições de destaque na sociedade, o que não era necessariamente verdade, como o governo Temer depois veio a provar.

As novelas são, em parte, responsáveis pela percepção de que
há mais gente morando em áreas rurais do que na verdade.
Por fim, a pesquisa Perils of Perception indaga os entrevistados quanto ao número de pessoas que moram em áreas rurais e aquelas que possuem acesso à internet em casa e novamente o brasileiro erra feio. Talvez por influência de novelas que destacam um passado bucólico, os brasileiros, em média, acreditam que 34% da população (68 milhões de pessoas) mora em áreas rurais, número mais de duas vezes maior do que o verdadeiro (15% ou 30 milhões). Uma tendência do brasileiro é generalizar a sociedade através de sua experiência individual e isso se expressa na resposta dada à pergunta "qual o percentual de pessoas que você acha que possui acesso à internet em casa?". O brasileiro, em média, crê que esse número é de 72% quando na verdade é de 53%. Em números absolutos, a percepção é de que são 144,2 milhões de pessoas quando na verdade são 106,2. A diferença de 38 milhões é pouco menor que o número de habitantes do Estado de São Paulo.

Uma das máximas mais antigas da humanidade é "conhece-te a ti mesmo e assim conhecerá os deuses". Só é possível enfrentar nossos demônios conhecendo-os. Só é possível mudar algo através da percepção. Se não encaro algo como um problema, nunca serei capaz de transformá-lo. Isso vale tanto para mudanças individuais quanto sociais. O Brasil não conhece a real dimensão de seus problemas e, assim sendo, é incapaz de lidar com eles. Se superestimamos o número de mulheres na política, achamos uma bobagem a proposta de implementar uma quota feminina nos partidos políticos. Se subestimamos a desigualdade social, aplaudimos quando Temer decide cortar o Bolsa Família para manter o bolsa banqueiro intacto. Se superestimamos o número de imigrantes, fechamos nossas fronteiras para quem precisa de ajuda humanitária. Se superestimamos o número de idosos, jovens e pessoas que moram no campo, executamos políticas públicas erradas para eles.

Parte da ignorância do brasileiro em relação a si mesmo é intencional. Como afirmava Darcy Ribeiro, "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto". Não interessa aos mais ricos — como ficou claro em cartazes exibidos nas brancas manifestações anti-Dilma — uma educação que forme cidadãos conscientes da realidade que lhes cerca. "Fora Paulo Freire" nada mais é do que "a educação não pode ser crítica". Se a educação não conscientiza, a mídia, por sua vez, distorce a percepção da grave situação socioeconômica do país para promover a agenda econômica que seus patrocinadores defendem. Propaga a ideia de que o pobre é acomodado e não merece assistência do Estado, quase como se a culpa da pobreza fosse dele mesmo e não do sistema que lhe nega oportunidades. Enquanto isso, defende que o Estado pague religiosamente a imoral dívida pública que mantém o status de uma dúzia de famílias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O termo "marxismo cultural" foi popularizado
pelo comentarista Pat Buchanan, que nega o
Holocausto e apóia Donald Trump.
Quase todas as igrejas evangélicas e parte da Católica, por sua vez, distorcem a mensagem de Jesus Cristo para dar mais ênfase à conquista de bens materiais do que à saúde espiritual de seus fiéis. Os "cristãos" do século XXI são levados a crer por pregadores parecidos com apresentadores de programa de auditório que Deus quer que sejamos ricos e que é doando para igrejas suntuosas que iremos aumentar nossas riquezas. Cristo — parte indivisível de Deus para os trinitarianos —, porém, recusou o luxo. Ele andava com ex-prostitutas e ladrões e expulsou da porta do Templo de Salomão aqueles que ousavam lucrar às custas de Seu Pai. A lavagem cerebral, no entanto, é bem feita. Os fiéis das igrejas que seguem a teologia da prosperidade são manipulados de forma a acreditarem que um ataque a seu Evangelho distorcido é um ataque ao próprio Jesus Cristo. Já conseguiram até mesmo uma data para lutar contra a "cristofobia" (sabe-se lá o que seja isso) na cidade de São Paulo.

Semear a desinformação para colher a apatia dos oprimidos parece ser o projeto dos grupos dominantes do país, sejam eles religiosos, políticos, sociais e/ou econômicos. Não é à toa que se arrepiam com a ideia da implementação de uma educação que forme cidadãos e não operários. Discutir a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros e orientações sexuais, entre raças, conhecer a contribuição das religiões de matriz africana para a formação da cultura brasileira, tudo isso é abominado e colocado na vala comum do "marxismo cultural". São questões debatidas nas escolas da Suécia e da Noruega (que ocupam as posições de número 21° e 23° na lista dos 28 países mais ignorantes do mundo, respectivamente). São países capitalistas. Suas elites, no entanto, são humanistas — seu projeto não é deixar a maior parte de sua população na escuridão da ignorância. No Brasil, a ignorância é o projeto da elite. A ignorância faz com que o brasileiro minimize seus problemas, enfrente os inimigos errados e, por consequência, não atinja a temível igualdade.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O golpe à saúde das mulheres

Na última quinta-feira, após muitos meses de articulações, o golpe contra Dilma Rousseff foi finalmente concretizado. Uma das primeiras notícias veiculadas sobre o governo do presidente interino, Michel Temer, é de que se trata do primeiro sem ministras desde 1979. Esta notícia não me surpreendeu nem um pouco. Eu já havia indicado o caráter sexista do golpe de Estado em texto escrito para a United Society, serviço de missão da Igreja da Inglaterra. O que me surpreende, no entanto, é que até hoje a direita brasileira não tenha aberto espaço para as mulheres em suas agremiações partidárias. O recado que passaram para mim na composição do novo gabinete é de que mais da metade do eleitorado brasileiro não importa para eles.

Simone Veil: Na França a direita política não
está necessariamente ligada à religiosa.
Isto me faz recordar a trajetória política de Simone Veil, ministra da saúde da França entre 1974 e 1979 no governo de centro-direita do presidente Valéry Giscard d'Estaing. Ela apresentou ao Parlamento francês um projeto de lei descriminalizando o aborto até 12 semanas após a concepção e até 14 semanas após a última menstruação. O projeto foi aprovado, após ataques de grupos católicos à família da ministra, no dia 17 de janeiro de 1975 e é conhecido, desde então, como "Lei Veil". A política se tornou símbolo da saúde das mulheres e foi eleita para o Parlamento Europeu em 1979, se tornando a primeira presidenta daquele órgão legislativo. Por seus esforços civilizatórios, Simone Veil foi transformada em dama do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II em 1998.

No Brasil a direita política parece não sobreviver sem a direita religiosa, com quem forma uma relação de simbiose. Em 2006 a deputada federal fluminense Jandira Feghali foi alvo de intensa campanha apócrifa durante a eleição para o Senado após ter sugerido que o aborto deveria ser tratado pelo viés da saúde pública e não da moral religiosa. Quatro anos mais tarde, Dilma Rousseff foi acusada de ser favorável a "matar bebês" por Mônica Allende, esposa do então candidato a presidente José Serra (mais tarde foi revelado que ela própria, hipócrita, havia abortado no Chile). A tentativa de associar Dilma à legalização do aborto contou até mesmo com a ajuda do Papa Bento XVI, que divulgou mensagem aos brasileiros para que não votassem em candidatos pró-escolha.

Desde que Serra e o PSDB optaram pela aliança com a direita religiosa para derrubar o PT, o discurso irresponsável contra a consolidação dos direitos individuais ganhou força no país. Ano passado o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, conseguiu emplacar um projeto de lei que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte em hospitais públicos. Na posse de seu correligionário, Michel Temer, era possível ver o pastor pentecostal Silas Malafaia, maior ativista pró-vida do país, ao lado dos membros do novo governo. Para marcar sua posição no debate, o deputado Jean Wyllys apresentou, em 2015, um projeto de lei despenalizando o aborto. Mesmo com chances mínimas de ser aprovado no Congresso mais conservador da história, o deputado sofreu toda sorte de ataques de grupos religiosos.

Ao invés de escutarmos os profissionais de saúde e as próprias mulheres na hora de escolher o que é melhor para a saúde delas, deixamos Cunha, o cirurgião da propina de Furnas, decidir. Enquanto o "doutor" Cunha (palavra banalizada nos trópicos) decide quem pode ou não tomar a pílula do dia seguinte no Brasil, o projeto de descriminalização do aborto no Reino Unido, no longínquo ano de 1967, foi supervisionado pelo Dr. John Peel, presidente da Faculdade Real de Obstetrícia e Ginecologia e ginecologista pessoal da Rainha Elizabeth II de 1961 a 1973. Ao deixar as mulheres de escanteio em seu gabinete e privilegiar religiosos como Malafaia em sua cerimônia de posse, o governo Temer mostra ao que veio: aumentar o já escandaloso número de mulheres que morrem ao se submeter a abortos insalubres.

Eduardo Cunha, correligionário de Temer, já deu o recado.
Até mesmo o aborto legal — previsto desde 1940 para casos de gestações fruto de estupro e que oferecem risco à vida da mulher — está sob o ataque dos grupos religiosos do Congresso. Isto se dá porque o Brasil não é governado por damas e cavalheiros. E parece se orgulhar disso! Só não sei porque ainda nos damos ao trabalho de fingir que somos civilizados quando estamos na presença de europeus ou americanos do norte. Não adianta ir na página dos jornais gringos reclamar da cobertura desses veículos ao golpe machista a Dilma e às mulheres brasileiras. Eles já sacaram qual é a nossa. Somos hipócritas. Nossa moral só é relaxada durante o Carnaval. No resto do ano varremos nossos problemas para debaixo do tapete. E é exatamente isso que Temer vai fazer com os cadáveres das vítimas de aborto insalubre. O golpe por ele liderado foi orquestrado com grupos da direita religiosa e, por isso mesmo, também será um golpe à saúde das mulheres.

Atualização 1 (18/05/2016 às 05:15): Um dia após a publicação desse artigo o novo ministro da saúde, Ricardo Barros, afirmou que o governo interino não deve se posicionar sobre a questão do aborto sem antes ouvir as igrejas. É um recado claro às mulheres: a saúde delas está submetida à moral cristã num Estado que se diz laico.

Atualização 2 (12/06/2016 às 08:29): A Secretária de Políticas para Mulheres de Michel Temer, a ex-deputada evangélica Fátima Pelaes (PMDB-AP), é contra o aborto até mesmo para gravidezes resultantes de estupro.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bancada cristã: me incluam fora dessa

Parte de mim sente-se na obrigação de pedir desculpas aos cidadãos brasileiros pelo episódio grotesco promovido no último domingo pela bancada cristã na Câmara dos Deputados durante a votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Teve deputado dito "cristão" exaltando um notório torturador do regime militar, teve uma overdose da utilização do santo nome em vão e teve até mesmo deputado católico negando a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil por esta ter se posicionado ao lado de nossa frágil democracia. Quero muito pedir desculpas, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada a ver com aquilo. Minha igreja não deturpa o Evangelho para tornar seus líderes ricos e influentes politicamente. Justo ao contrário, ela prega o Evangelho social de Jesus Cristo, acolhendo a todos e se posicionando a favor das liberdades democráticas do povo brasileiro. Minha igreja está do lado do povo.

Num artigo recente para o Huffington Post, a professora de inglês Mary Ann Ware enumerou dez estereótipos comuns sobre os cristãos, que as denominações neopentecostais tanto ajudam a propagar. Muitas vezes sou vítimas desses estereótipos sem comungar com o discurso dessas igrejas. Graças a incendiários de orixás e espancadores de crianças candomblecistas, os não-cristãos têm uma imagem muito negativa de nós. Se pudesse, eu mesmo proibia essas pessoas de usarem o rótulo "cristão". Elas sofreram lavagem cerebral e foram levadas a crer que só o caminho delas leva a Deus. No entanto, nem todo mundo que escolhe ser cristão tem a mente fraca. Eu, por exemplo, escolhi minha própria igreja e meu QI é superior ao de 70% da população mundial. Não nego a ciência e a evolução das espécies e jamais compraria a "fragrância de Jesus" que deixa televangelistas podres de ricos. Também nunca votaria num candidato de extrema-direita porque o pastor mandou.

Assim como Dilma Rousseff,
Jesus também foi torturado.
Não faço do meu cristianismo uma questão de ativismo. Sim, o que Jesus pregou tem muito a ver com a atualidade, em especial com as desigualdades sociais — e o Papa Francisco expõe isso de maneira brilhante. No entanto, usar o nome de Cristo para defender seu ponto de vista é admitir que suas ideias são tão frágeis que não se sustentam sem o manto da religião. O debate político, que deveria pertencer a todos os cidadãos, vira uma questão exclusiva de quem crê em Deus. E logo bandidos que não têm nada a ver com a mensagem de Cristo se escondem sobre esse manto. Duvido muito que o nazareno, vítima de tortura dos romanos, faria campanha para o mais novo garoto-propaganda do Partido Social Cristão (PSC), Jair Bolsonaro, que saudou o torturador de Dilma, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao falar ao microfone no último domingo. Um cristão de verdade ama seus inimigos e não se vale do episódio mais brutal de sua vida para humilhá-lo.

O que se viu na Câmara dos Deputados no domingo foi um escárnio aos valores cristãos. Foi, nas palavras do deputado Chico Lopes, um "encontro de bons maridos e bons pais". Seres humanos quase perfeitos diante de uma Dilma Rousseff imperfeita. Conforme escreve Mary Ann, "a ideia principal do cristianismo é que Deus estende a nós sua graça e seu perdão através de seu filho". Ora, seres perfeitos, pais e maridos exemplares, não precisam de perdão, logo não são cristãos. Felizmente a máscara da perfeição da bancada cristã não demorou a cair. Um dia após a votação o marido da deputada Raquel Muniz — eleita pelo PSC e hoje no Partido Social Democrático (PSD) — foi preso pelos crimes de estelionato, prevaricação, peculato, falsidade ideológica e dispensa de licitação pública. Seria retribuição divina por tantas violações ao 3° mandamento (2° na tradição católica) num curto período de tempo?

É fácil perder a paciência com quem se esconde sob o manto
religioso para agredir quem tem outra concepção de mundo.
A situação deplorável do Congresso se dá porque muitos acreditam que ser cristão é um atestado de bons antecedentes criminais. Me recuso a acreditar em qualquer candidato (e cidadão) só porque ele diz ser cristão. Saber citar versos bíblicos não significa nada. Que lindo você saber que o Levítico condena os homossexuais, mas você sabia que o próprio Jesus Cristo o violou? Jesus foi enviado a este mundo para reformar a lei judaica e em sua comitiva aceitava a participação de ex-prostitutas e ladrões. Enquanto Jair Messias Bolsonaro gritava "queima-rosca" para Jean Wyllys enquanto este votava, o outro Messias disse a uma turba de homens prestes a linchar uma prostituta que eles não poderiam julgá-la porque não eram Deus e também tinham seus muitos pecados. Noutra ocasião, disse "não julgueis para não serdes julgados", lembrando que somos medidos com a mesma régua que usamos para medir os outros. E foi assim que um empurrão deu origem a uma cusparada.

Por fim, a obsessão dos cristãos — fora e dentro do Congresso — com questões de ordem "moral" é fascinante. Como se existisse uma única "moral" que deveria se aplicar a todos os 200 milhões de brasileiros, muitos dos quais nem são cristãos. Dentro do próprio cristianismo existem várias morais. Apesar do culto debochado de domingo na Câmara e da cruz pendurada no plenário do Supremo Tribunal Federal, o Estado brasileiro ainda é laico e impor um único conjunto de valores morais à totalidade da população é inconstitucional — se bem que derrubar presidente sem crime de responsabilidade também é. Nem o próprio Jesus andava só com aqueles que possuíam os mesmos valores que ele. Como ser iluminado que era, ele sabia que é na diferença que crescemos. Viver numa bolha contraria os ensinamentos de Cristo. Mas parece que isso é o de menos para deputados que violam muitos senão quase todos mandamentos enquanto se escondem sob legendas ditas cristãs.

Sim, sou cristão, mas minha turma é outra.
Por mais que o escárnio religioso de domingo me entristeça, não tenho porque pedir desculpas por aquilo. Fui criado na Igreja Católica e ano passado decidi abraçar a fé anglicana. Sequer conheço o conjunto de crenças dos evangélicos, a não ser aquilo que a mídia apresenta. O censo do IBGE me classifica como um "evangélico", embora comparar a Igreja Anglicana às principais denominações evangélicas do Brasil equivale a comparar o Partido da Causa Operária (PCO) ao Democratas. Temos outra visão de mundo, outra concepção do que significa ser cristão. A fé deles foi individualizada, afastada do contexto social pelo neoliberalismo, e isso está nítido nas declarações dos membros da bancada dita cristã ao votar pelo afastamento de Dilma Rousseff — "pela minha família", "minha esposa", "meus filhos", "meus pais", etc. Minha fé, por sua vez, não é individualista, portanto não me exijam um pedido de desculpas; sou cristão, mas não sou responsável pela bancada cristã e estou tão chocado quanto um não-cristão. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Como é bom contar com a igreja na luta contra a injustiça!

Ontem os bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) lançaram uma nota onde, mais uma vez, rechaçam o golpe frio orquestrado pelas forças políticas mais reacionárias e corruptas do país e reafirmam sua defesa do devido processo legal. Já no final da manifestação pela democracia aqui em Goiânia fui informado que dom Francisco de Assis da Silva, que atualmente lidera a igreja no Brasil, não só compareceu ao ato na Praça da Sé em São Paulo como ainda fez um discurso contra o golpe.

Antes de conhecer a IEAB jamais imaginei que a experiência religiosa pudesse ser remotamente libertária. No entanto, agora sei que existe, no amplo mar das igrejas cristãs do Brasil, pelo menos uma que abraça o século XXI e seus desafios. Ainda bem que conheci a IEAB! Agora faço parte de uma igreja que não tem medo de descer de cima do muro e se posicionar perante os desafios da realidade, escolhendo o lado que mais se assemelha à mensagem de Cristo. 

Tenho muito orgulho de pertencer a uma comunidade religiosa cujos líderes compreendem que Jesus foi um homem a frente de seu tempo e que veio até nós para romper com a tradição, que imobilizava a implementação da experiência divina. Achava que eu era o único que pensava assim. Me sentia como um alienígena durante as missas, pois parecia-me que, para os padres — em especial os que pregam em comunidades de classe média —, só importava a observação dos dogmas.

Não me sinto mais esquisito desde que comecei a frequentar a IEAB. Minha igreja e eu caminhamos na mesma direção: para frente, para um futuro no qual homens e mulheres são iguais, homo e heterossexuais têm os mesmos direitos, a natureza é vista como uma dádiva divina e não como um negócio e todos os brasileiros são respeitados independente de seus rendimentos. Não caminhamos para trás, para um passado no qual brasileiros morriam de fome por falta de assistência do Estado.

Como afirma a nota dos bispos, a igreja não tem envolvimento direto com partidos, mas defende "conquistas sociais e econômicas que reduziram vergonhosos índices de miséria extrema e possibilitaram acesso à moradia, educação e saúde a milhões de pessoas totalmente excluídas destes direitos inalienáveis da pessoa humana". Inalienáveis e missionários. Como é bom poder contar também com a minha igreja na luta contra a normatização das injustiças sociais no Brasil.