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domingo, 29 de janeiro de 2017

A ópera-bufa do combate ao terrorismo

A "relação especial" entre Estados Unidos e Arábia Saudita
deve continuar durante o governo Trump.
Desde 2015 tenho dito e repito: qualquer iniciativa antiterrorista que não inclua sanções à Arábia Saudita é pura demagogia. Osama Bin Laden, um membro da elite saudita, fundou o grupo terrorista mais famoso do mundo — a al-Qaeda — em 1988. O bando visa instituir o salafismo como religião oficial dos países do Oriente Médio. O salafismo ou wahhabismo é uma vertente ultra-conservadora do sunismo que defende que os muçulmanos devam viver como os primeiros seguidores do profeta Maomé. Os salafistas são contra inovações posteriores do mundo islâmico, como a separação entre o Estado e a religião, peregrinações a mausoléus — o que eles consideram como idolatria — e o convívio entre os sexos. Trata-se da religião oficial da Arábia Saudita que, pasmem, pune a idolatria com pena de morte. Dito isso, não é nenhuma surpresa que 15 dos 19 jihadistas que sequestraram os quatro aviões que jogaram contra o Pentágono, o World Tarde Center e um campo na Pensilvânia em 11 de setembro de 2001 eram cidadãos sauditas.

Embora o governo da Arábia Saudita negue possuir qualquer relação com grupos terroristas salafistas, a al-Qaeda é financiada por bilionários daquele país, como os banqueiros Saleh Kamel e Sulaiman Abdul Aziz Al Rajhi e o ex-ministro do petróleo Ahmad Turki Yamani. Segundo um memorando de 2009 do Departamento de Estado dos Estados Unidos, vazado pelo WikiLeaks, a Arábia Saudita é a principal fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo. Além da al-Qaeda, o país estaria financiando também outros grupos terroristas. Várias fontes, como o governo do Iraque, a revista The Atlantic, as emissoras de televisão BBC e NBC, o jornal The New York Times e o site de notícias Daily Beast acusam a elite ou o governo saudita de financiar também o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que também promove o jihadismo salafista. A Arábia Saudita exporta mais combatentes para este grupo do que qualquer outro país do mundo depois da Tunísia. Nas áreas controladas pelo grupo, professores lecionam com livros didáticos sauditas.

Estado Islâmico e Arábia Saudita defendem a mesma versão do Islã.
Num outro documento vazado pelo WikiLeaks — um e-mail de agosto de 2014 direcionado a John Podesta, conselheiro do então presidente Barack Obama —, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton afirma que tanto a Arábia Saudita quanto o Qatar estão "fornecendo apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIS e outros grupos sunitas radicais na região". É questionável, no entanto, se ela faria algo para conter a situação que denuncia no e-mail caso estivesse hoje na Casa Branca. A Fundação Clinton já recebeu doação dos governos de ambos os países. Por este motivo, Clinton foi criticada pelo senador Bernie Sanders durante as primárias do Partido Democrata. Sanders disse ter um problema com uma secretária de Estado cuja fundação recebe milhões de dólares de governos estrangeiros que são ditaduras. Até mesmo o New York Times, que declarou apoio à candidata, afirmou em um editorial que havia razões para acreditar que, embora não há evidências de que Clinton tenha favorecido os doadores de sua fundação, havia um conflito de interesses no caso.

Seu oponente, o agora presidente Donald Trump, também acusou-a de conflito de interesses durante um dos debates presidenciais. Segundo ele, ela deveria devolver os US$ 25 milhões que a Arábia Saudita doou à fundação porque "essas pessoas tratam as mulheres horrivelmente". Noutra ocasião, no entanto, disse que gostava muito dos sauditas, pois eles estavam entre seus principais clientes no ramo imobiliário. Só que ele afirmou também que, uma vez eleito, tomaria medidas enérgicas contra o terrorismo islâmico. Segundo o jornal New York Daily News, no entanto, Trump possui negócios no ramo hoteleiro da Arábia Saudita, país que não foi afetado por seu decreto presidencial que baniu a entrada nos Estados Unidos de pessoas oriundas de sete países do mundo muçulmano — Irã, Iraque, Síria, Iêmen e os africanos Líbia, Somália e Sudão. Entre 1975 e 2015, 2.369 norte-americanos foram mortos em solo estadunidense por terroristas sauditas e, ainda assim, os sauditas podem obter visto e entrar nos Estados Unidos assim que quiserem. 

Os ignorantes confundem vítimas e perpetradores do terrorismo.
É para eles que Trump toca sua ópera-bufa sinistra.
Ao invés de punir quem espalha o fundamentalismo islâmico que gera o terrorismo, Trump vai punir as vítimas do terrorismo. Banir pessoas que, na maior parte dos casos, são sobreviventes de guerra e perseguidos políticos buscando refúgio noutro país, além de ser um tremendo descaso do ponto de vista humanitário, vai ter um efeito praticamente nulo na luta contra o terrorismo. Isso sem falar que foram os Estados Unidos e, mais especificamente, o partido de Donald Trump que transformaram o Iraque num campo fértil para as ações do Estado Islâmico. Ao vetar a entrada de sírios e iraquianos e não de sauditas, Trump demonstra que seu discurso não passa de pura balela. Uma demagogia para aqueles que temem o terrorismo islâmico sem entender muito bem como ele opera. E que nem buscam entender, pois parte significativa do medo vem justamente da ignorância. Em termos de combate ao terrorismo, Trump toca uma ópera-bufa sombria para uma plateia de ignorantes — lá nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil — aplaudir.

segunda-feira, 28 de março de 2016

2015-16: chocando o ovo da serpente

Muitas vezes a falta de distanciamento histórico não nos permite analisar os eventos como eles de fato ocorrem. Agora, no entanto, está mais do que nítido para mim que os dois últimos anos representam, para a contemporaneidade, aquilo que a década de 1920 representou para o século passado. E não, não estou falando da revolução tecnológica que permitiu o surgimento do cinema falado. Refiro-me à ascensão do nazifascismo na Europa. Em 2015, sob os efeitos do terrorismo global e de uma crise financeira tão avassaladora quanto a de 1929, inaugurou-se uma nova era de influência das ideias de extrema-direita sobre uma série de países, sobretudo aqueles cujas instituições políticas passam por uma acentuada crise de representatividade.

O primeiro exemplo que salta aos olhos é o da Alemanha, uma vez que foi este o país onde se originou o nazismo. Em meados de outubro de 2015 foi fundado, na cidade de Dresden, o grupo "Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente" (PEGIDA), que se opõe ao recebimento de refugiados sírios pela potência europeia. Atraiu 350 pessoas em sua primeira manifestação. Na semana posterior ao ataque terrorista à sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, entretanto, levou 250.000 pessoas às ruas da cidade. Nove em cada dez manifestantes do PEGIDA apoiam o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) que, desde então, tornou-se o terceiro maior nos parlamentos de dois estados e o segundo maior na casa legislativa de Saxônia-Anhalt.

Marine Le Pen posa com dois skinheads em 2006.
Na França, os efeitos das crises financeira e de imigração são sentidos de maneira mais intensa e, por isso mesmo, a extrema-direita tem feito avanços significativos. Em 2014 o país viu seu PIB ser ultrapassado pelo da Grã-Bretanha, ao passo em que a Frente Nacional (FN) elegeu 24 deputados para o Parlamento Europeu que deseja destruir. Os deputados desse partido valem-se de um ciclo vicioso que alimenta a xenofobia para angariar votos. Os muçulmanos são excluídos da sociedade que os teme e encontram refúgio em grupos que promovem uma visão radical do Islã o que, por vezes, resulta em atentados que justificam a exclusão dos muçulmanos da sociedade. Só em 2015 ocorreram três atentados promovidos por grupos islâmicos em Paris.

Julgava-se que a FN tinha se exaurido em 2002, quando seu então líder, Jean-Marie Le Pen, sofreu uma derrota acachapante para Jacques Chirac no segundo turno das eleições presidenciais daquele ano. Sua filha Marine, no entanto, reinventou o partido ao abandonar a retórica fascista do pai, embora defenda praticamente a mesma agenda que ele. Agora atraente aos jovens e politicamente viável, a FN obteve, pela primeira vez, o maior número de votos nas eleições regionais (equivalente às nossas eleições para governadores). Em Nord-Pas-de-Calais-Picardie e em Provence-Alpes-Côte d'Azur as candidatas da extrema-direita só não se tornaram governadoras graças a uma inesperada coalizão entre a centro-esquerda e a centro-direita no segundo turno.

A pesquisa mais recente para a eleição presidencial de 2017 indica que Marine Le Pen pode vir a se tornar a candidata mais votada no primeiro turno, embora sua vitória no segundo seja improvável. Entretanto, me pergunto se ela não emergirá como alternativa viável, sobretudo para os jovens desesperançosos com o sistema político, caso a centro-direita que deve substituir o atual presidente socialista François Hollande mostrar-se tão ou mais incapaz do que a centro-esquerda de resolver os problemas econômicos do país. A crise das instituições na França é profunda e recorrente. A xenofobia apenas ajuda a transformar os inimigos — muitos e difusos — em algo palpável. O fascismo nada mais é do que a forma que os capitalistas encontram de culpar outros pelas crises que geram.

O fascismo caracteriza-se pelo atropelo ao devido processo
legal e pela crença de que o país precisa de um líder forte.
O que nos leva até o caso dos Estados Unidos. Vimos despontar, em 2015, um candidato que debita nas costas dos imigrantes latino-americanos todos os problemas econômicos da nação e que que propõe construir um muro na fronteira com o México. No entanto, ele não se pronuncia sobre o sistema de financiamento eleitoral que gera a desconfiança do público ao sistema político. Baseia sua campanha na parcela do eleitorado que se ressente por ter que dividir seus espaços com hispânicos. Seria cômico, não fosse trágico, que a maior nação do mundo corre o risco sério de vir a ser governada por um fascista como Donald Trump. Quem diz isso não sou eu, mas Robert Paxton, professor emérito da Universidade de Colúmbia e um dos maiores pesquisadores contemporâneos sobre o fascismo da década de 1920.

Não é à toa que Trump é aclamado pelos camisas-amarelas do Brasil. Embora jurem de pé junto que sejam democratas, em momento algum os manifestantes anti-Dilma denunciaram as forças fascistas (que não eram poucas) presentes em suas manifestações. O fascismo, segundo Paxton, caracteriza-se pelo nacionalismo exacerbado, ataques a inimigos tácitos e explícitos sem respeito ao devido processo legal, uma certa obsessão em dizer que a nação em questão declinou e a crença de que o país precisa de um líder forte. Todas essas características estão presentes nos comícios e discursos tanto de Trump quanto dos camisas amarelas. A comparação entre os dois movimentos políticos, feita por Glenn Greenwald não é descabida. Afinal de contas, o ovo da serpente está sendo chocado no mundo inteiro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O evangelicalismo está embrutecendo o Brasil

Relutei em escrever esse texto. Primeiro porque não quero correr o risco de soar como aqueles trogloditas que estigmatizam as comunidades minoritárias. Segundo porque o propósito da minha escrita não é ofender ninguém. Desejo questionar ideias e não pessoas. No entanto, penso que precisamos, enquanto nação, discutir o movimento evangélico, que vem mudando drasticamente não só o perfil religioso do Brasil, como também seu perfil societário e comportamental. Conforme o país adota cada vez mais o evangelicalismo como doutrina religiosa, bancadas conservadoras crescem nos espaços de formulação de políticas públicas, tensões religiosas entram em estado de ebulição e o discurso do senso comum se torna cada vez mais intransigente com quem é visto como pecador — não raro são pessoas que já se encontram a margem da sociedade como indígenas, homo e transsexuais e usuários de drogas.

Cunha saiu desse Congresso.
Em 2015 o Congresso mais conservador desde a redemocratização tomou posse e, junto com ele, um número inédito de deputados evangélicos. Logo em seguida, foi eleito o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência do Poder Legislativo nacional. Cunha e a maioria dos deputados evangélicos — um exceção notável é a também carioca Benedita da Silva, do PT — defendem, por um lado, projetos de lei que dão mais liberdade à atividade econômica (lei da terceirização) e, por outro, restringem as liberdades individuais (fim do acesso à pílula do dia seguinte no SUS e do reconhecimento de famílias formadas por casais homoafetivos). Isso demonstra o quão o evangelicalismo brasileiro é alinhado ao americano, para o qual o sucesso financeiro seria uma dádiva de Deus àqueles que creem nele. Isso só não explica porque a maioria dos moradores de rua são cristãos e não ateus.

O Tea Party, embora não seja oficialmente um movimento político de cunho evangélico como o Revoltados Online, atua no mesmo sentido. Defende o fim do intervencionismo do Estado na economia enquanto enche o Congresso americano de políticos evangélicos como Carly Fiorina e Ben Carson, que são brilhantes ao questionar os direitos das minorias, mas omitem-se em questionar os escandalosos benefícios dos mais ricos. Ambos são pré-candidatos á presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. O neurocirurgião Carson seria o rosto de uma nova direita: apesar de ser negro, é conservador no campo dos costumes e liberal na economia. Uma tentativa de reaproximar os negros do partido que, num passado distante, libertou-os da escravidão. Contudo, a maioria deles apoia os pré-candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders. Carson é visto como um negro que deu sorte e agora representa a minoria rica como ele e não os negros do gueto. 

Apesar de sua retórica da meritocracia, da qual seria um exemplo vivo, o candidato desagrada aos negros menos por defender a plutocracia e mais por ser percebido como um fanático religioso, que chegou até mesmo a contradizer arqueólogos para sustentar sua fé. Os evangélicos, após anos propagando o ódio contra os grupos mais excluídos da sociedade americana na política, conseguiram se tornar politicamente inviáveis. Mesmo tendo sido os principais responsáveis pela vitória de Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980, hoje são a parcela da população que mais desperta a desconfiança do eleitorado em geral. Um quarto dos eleitores americanos — que são, em sua maioria, protestantes (21,2%), católicos (20,8%) e não-religiosos (22,8%) — afirma que não votaria num candidato evangélico para a presidência da República. Só não conseguiram os muçulmanos,  os ateus e os socialistas em rejeição.

No Brasil, no entanto, o movimento evangélico ainda está em trajetória ascendente, embora, penso eu, figuras polêmicas como Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Marco Feliciano e o próprio Eduardo Cunha contribuem para a saturação do mesmo. Aqui em nosso país convencionou-se, por ignorância e preconceito, chamar todo e qualquer cristão que não fosse católico de "evangélico", o que distorce o real número de adeptos do evangelicalismo. As denominações luterana, anglicana (da qual faço parte), presbiteriana, metodista e batista em nada se assemelham à leitura do Evangelho proposta pelas igrejas evangélicas. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma tentativa de fazer uma leitura mais literal da palavra de Cristo. Buscam seguir os primeiros cristãos — que na verdade eram judeu-cristãos, pois não haviam rompido por completo com o rabinato —, como se fosse possível aplicar as normas sociais vigentes em Israel do século I no Brasil de vinte séculos depois.

A tentativa de "purificar" o cristianismo, de fazê-lo retornar a suas raízes, gera anomalias sócio-comportamentais. A repressão sexual imposta pela moral cristã evangélica consegue a façanha de ser ainda pior do que a católica. Porque a interpretação deles diz que Jesus era contra a homossexualidade e o amor livre, querem impor essa interpretação para todos. Desejam impor ao Brasil a sharia cristã. Quem nunca ouviu um fiel evangélico dizer que a Bíblia é mais importante do que a Constituição? É muito cômodo apontar os horrores do Daesh (ISIS), que deseja criar um Estado Islâmico entre a Síria e o Iraque e fecharmos os olhos para o projeto de poder semelhante de alguns líderes evangélicos. Os militantes islâmicos são loucos por se sujeitarem a uma dinâmica social onde o prazer é pecado e a vida limita-se a observar as leis de Deus escritas por homens há milhares de anos. Mas só os islâmicos, os evangélicos radicias não?

Métodos diferentes, mesmo propósito.
Graças a Deus, nem todo evangélico é assim. A rejeição a estudos, análises e interpretações da palavra de Deus à realidade concreta dos fiéis não ocorre em todas as igrejas evangélicas, assim como nem todos os seguidores de Maomé desejam subjugar os seguidores de outras religiões.  Da mesma forma que há uma ímã mulher em Los Angeles, há pastores evangélicos gays. Nem todo evangélico crê na necessidade de se engajar numa jihad (guerra santa) contra os valores que percebem como contrários à palavra de Deus para propagar o Evangelho de Jesus Cristo. No entanto, são as figuras mais barulhentas, odientas e explosivas que chamam mais a atenção da população em geral para o movimento evangélico. Por que entrevistar um teólogo esclarecido como Ricardo Gondim se o pregador do ódio Silas Malafaia dá mais ibope? A imprensa também tem sua parcela de culpa na proliferação do discurso de ódio entre os evangélicos.

Mas a quem serve um Evangelho que oprime as criaturas de Deus? De que adianta seguir o carpinteiro humilde da Galileia que salvava adúlteras do linchamento e condenava o acúmulo de riquezas se hoje aplaudimos o homem que espanca a esposa infiel pega no motel com outro e valorizamos os bens materiais mais do que nossas próprias vidas? A Reforma Protestante, sem a qual nenhuma dessas igrejas existiriam, surgiu da revolta contra a mercantilização da fé e também contra as doutrinas, regras e normas inexistentes na Bíblia inventadas pelos bispos de Roma — tais como o celibato de sacerdotes, a proibição do divórcio e a virgindade perpétua de Maria. E, por falar em Maria, é interessante notar que a repressão religiosa recai sempre de forma mais severa sobre os corpos femininos. Não foi à toa que 15 mil mulheres marcharam na Avenida Paulista contra o projeto de poder de Eduardo Cunha, que não prevê o aborto em casos de estupro. 

A alguns líderes evangélicos não basta orientar suas próprias fiéis quanto à questão reprodutiva. Querem regular os corpos de todas as brasileiras, sejam elas católicas, protestantes, espíritas, judias ou ateias. O Brasil deve retroceder vários anos enquanto nação e se livrar da pílula do dia seguinte e do aborto. Não porque a comunidade científica regulou que são invasivos. Mas porque uma parcela minoritária da comunidade religiosa nacional se incomoda com tais métodos que, embora invasivos, evitam o nascimento de crianças que podem ser abusadas, maltratadas e abandonadas por mães que não lhes queriam, o que traz consequências desconhecidas para a coletividade. Interessante notar que a violência sexual contra as mulheres propriamente dita — motivos pelos quais o SUS distribui pílulas do dia seguinte e realiza abortos — parece não incomodar esses líderes religiosos. Condenam mais o aborto do que o estupro que leva as mulheres a procurar tal procedimento.

Charge de Vitor Teixeira.
A liberdade de culto garantida por nossa Constituição federal não é absoluta. Um conceito interessante do Direito é que nenhum direito termina em si mesmo e pode se sobrepor sobre os demais. É o famoso "o meu direito acaba quando começa o do outro" no ditado popular. O cidadão pode escolher, sem moléstia, se quer seguir uma religião. Mas ele não pode querer impor sua religião sobre as religiões dos demais cidadãos. A partir do momento em que líderes religiosos passam a decidir o que professores devem ensinar na sala de aula, que medida o SUS deve adotar para atender mulheres vítimas de estupro e quais arranjos podem ser considerados famílias, observa-se uma invasão do Estado laico por forças religiosas, estranhas ao Direito. Tais forças atuam em defesa da visão de mundo de apenas alguns em detrimento da coletividade, ampla e plural.

Aos poucos, o evangelicalismo embrutece o Brasil. Seus líderes radicais querem substituir a defesa do bem estar — seja de mulheres vítimas de estupro ou de crianças que podem ganhar um lar com um casal gay — pela interpretação que a igreja deles fazem do Evangelho. Interpretação essa que não é consensual nem mesmo entre os teólogos. Ao contrário da Constituição, a Bíblia admite várias interpretações. Na minha igreja, por exemplo, entende-se há mais de 15 anos que Jesus não rejeitou os homossexuais. De fato, não há uma menção sequer à homossexualidade em nenhum dos quatro Evangelhos — há em escritos posteriores, de autoria de homens que, ao contrário de Jesus, eram falíveis, e em escritos anteriores, como o Levítico, que o próprio Jesus violou. Por que então é a visão da Assembleia de Deus e não a da Igreja Episcopal Anglicana que deve ser ecoada na legislação brasileira? O Estado ser laico significa que ele deve respeitar ambas as visões, e não colocar uma acima da outra, observando sempre o princípio maior que é a garantia da dignidade humana.

Não é do pôster que a tropa de Cunha quer se livrar.
O que interfere na vida de um evangélico se há membros de outras doutrinas religiosas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e abortam? Ora, se eles acreditam que a homossexualidade e o aborto são pecados, que não cometam nem um nem outro. Devem respeitar os outros como eles os respeitam. Duvido que um militante gay ou feminista se julgaria apto a ensinar o padre a rezar a missa, ou melhor, o pastor a celebrar o culto. A tentativa de impor um único ponto de vista sobre os demais, sobretudo através da violência, seja ela simbólica (episódio do chute na santa ou quando Malafaia disse que gays mereciam apanhar) ou real (agressões a praticantes de religiões afro e destruição de seus templos), é o primeiro passo rumo ao fascismo. Cabe a nós, cristãos moderados, lutar contra o embrutecimento que impõem ao Brasil. Devemos agir enquanto é tempo, porque o que os radicais querem não é se livrar do pôster exposto nos corredores da Câmara que mostrava Daniela e Malu se beijando. Eles querem é se livrar delas!

domingo, 6 de dezembro de 2015

José e Maria, os refugiados

Hoje a comunidade cristã comemora o segundo domingo do Advento, ou seja, há uma semana iniciaram-se as preparações para a festa mais importante da fé cristã: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse momento, somos instigados a lembrarmos da narrativa bíblica, onde um jovem casal de Nazaré se dirige para Belém com a finalidade de serem contados pelos oficiais do recenseamento como cidadãos do Império Romano, estado que dominava a região. Ao chegarem na cidade, se depararam com uma situação atípica: todas as estalagens estavam ocupadas. O casal acaba encontrando refúgio num estábulo, onde a jovem Maria de Nazaré dá à luz o profeta da maior religião do mundo. O Salvador do Mundo nasceu junto de animais de fazenda, sem luxo ou  conforto. Apesar da distorção teológica contemporânea de alguns cristãos,  a simplicidade e a humildade são marcas essenciais da narrativa cristã.

Como já virou recorrente na história do cristianismo, as pessoas revisitam a história de Jesus sem apreender a mensagem por trás dela. Nesse novo Advento, início do 2.016° ano da era cristã, muitas famílias montam seus presépios, que retratam uma família de refugiados do século I, enquanto atacam Marias e Josés de uma nova era. Assim como os pais de Jesus, os casais sírios precisam de nossa ajuda. Assim como o menino Jesus, os bebês haitianos que também nascem em condições insalubres antes de partirem para o exílio precisam de nossa compaixão. A alma caridosa que cedeu um teto, mesmo que de um estábulo, para os pais de Jesus de Nazaré sequer é citada nominalmente na narrativa bíblica, mas sua lição ecoa até os dias de hoje como exemplo de compaixão e amor ao próximo. É o ponto central do ministério de Jesus. E, para os que distorcem a teologia e valorizam mais o Antigo Testamento do que o Novo, é o ponto central também da narrativa de Sodoma e Gomorra. As cidades foram destruídas porque não sabiam acolher os estrangeiros.

Trecho da minissérie The Bible.
De que adianta ler a Bíblia, saber citá-la ipsis litteris, se não se incorporou a mensagem dela no âmago de sua alma? Hoje o mundo cristão se fecha para os refugiados de outras religiões – nomeadamente o vudu haitiano e o Islã das vertentes minoritárias. Logo os cristãos, que foram tão perseguidos por judeus e pelos seguidores da religião mitológica greco-romana nos primeiros séculos de sua caminhada, jogados aos leões no Coliseu como forma de entretenimento da elite romana. Logo os cristãos, cujo Cristo desafiava as normas sociais vigentes em sua época e se misturava com os samaritanos, minoria religiosa ainda hoje perseguida pelo status quo judaico em Israel. Ler a Bíblia é muito legal, mas interpretá-la é o que diferencia um conhecedor de um fiel. Ser um seguidor de Jesus Cristo, para mim, significa apreender todas as lições de seu Evangelho e não somente aqueles trechos que melhor me convém.

No debate sobre os refugiados, deixamo-nos tomar pelo medo. Medo de que os muçulmanos que estão vindo da Síria sejam extremistas (embora eles estejam fugindo dos extremistas), medo de que os haitianos tomem nossos empregos (embora a maioria deles tenha tido uma educação precária ao extremo e não ofereçam grandes riscos). Quando indagado sobre quem seria o vizinho que deveria se amar, Jesus não apontou para um judeu como ele, mas para um samaritano. O bom samaritano, que importou-se em cuidar de um homem – que não era de sua religião ou cultura – caído e ferido na beira da estrada após um assalto. Apesar de não seguir a religião majoritária, ele demonstrou, para Jesus, agir mais conforme a palavra de Deus do que  aqueles que ficavam no Templo de Jerusalém ditando como os religiosos deveriam agir para agradar a Deus. No momento estamos passando pela estrada e deixando o homem ferido caído lá.

José e Maria também dependeram da bondade de um estranho para terem a criança que mudaria o mundo com seus ensinamentos sobre amor e compaixão. Eram refugiados, mesmo que temporários (se você acredita na história da fuga para o Egito, então foram ainda mais do que refugiados temporários), e precisaram contar com a ajuda de estranhos. Se a história do casal se repetisse hoje, eles teriam o pedido de refúgio negado por aqueles que montam presépios que retratam a história deles mesmos! Não estamos fechando a porta para casais sírios ou haitianos, estamos fechando a porta para José e Maria. A lição do cristianismo é uma lição de cuidado e ajuda ao próximo, em especial àqueles que estão à margem da sociedade, mas em algum ponto do desenvolvimento da nossa religião nos esquecemos disso. Enquanto montamos nossos presépios com José e Maria, os refugiados, falamos mal de sírios e haitianos que tentam uma vida melhor em nosso país, dito cristão.

domingo, 15 de novembro de 2015

O que 11/09 e 13/11 têm em comum?

O que os recentes atentados de terroristas islâmicos em Paris têm em comum com os atentados de 11 de setembro em Nova York? Ambas as cidades são símbolos de seus respectivos países e continentes. Paris é a capital cultural da Europa e Nova York, da América Norte. São cidades onde concepções de mundo se chocam o tempo todo. Por exemplo: no início do ano judeus anti e pró-ocupação da Palestina entraram em confronto na Times Square. Tanto em Paris quanto em Nova York há uma guerra cultural que está sendo amplificada pela atual crise econômica global. Já é de conhecimento até do mundo mineral que crises propiciam o surgimento do radicalismo ideológico, seja ele de cunho político ou religioso.

Quando Osama bin Laden orquestrou os atentados de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York, ele quis atingir não só o sistema financeiro da cidade que possui o maior PIB do mundo. Ele quis também atacar seu multiculturalismo. Nova York é a cidade mais etnicamente diversa do mundo. É o município dos Estados Unidos com mais negros, latinos, judeus, muçulmanos, asiáticos e gays. Catolicismo, judaísmo e islã são as três religiões mais praticadas na cidade, respectivamente, enquanto cerca de 800 idiomas são falados localmente. Aceitar o desafio de ser um cidadão desse município implica num exercício diário de convivência e tolerância ao diferente, ao Outro da psicologia.

Na Cabul homogeneizada por radicais islâmicos, Nova York era vista como o Outro que deveria ser atacado. Para os radicais – aqueles que recusam a interpretação do Outro para os fenômenos sócio-políticos e sobrenaturais – conviver com o Outro implica em aceitar e até mesmo endossar sua ideologia. Em seus vídeos, bin Laden afirmava que os Estados Unidos foram punidos com os atentados de 11 de setembro devido à "corrupção moral" de seus cidadãos. Nem mesmo a existência de uma mesquita no World Trade Center poupou a destruição do edifício. Na visão dos radicais islâmicos, se um muçulmano aceita se expor ao "estilo de vida degradante" dos americanos, é tão infiel quanto eles.

Os vídeos de Osama bin Laden pouco se diferenciam dos vídeos caseiros que viraram febre nos grupos de WhatsApp administrados por membros da direita raivosa do Brasil. Tudo começou com Olavo de Carvalho, um expert em teorias da conspiração – como a predominância do "marxismo cultural" nas universidades brasileiras ou a produção de refrigerantes a partir de fetos abortados – que denunciava para seus seguidores a necessidade de se combater as ideias progressistas na sociedade brasileira. Estes, por sua vez, entraram na onda de seu mestre e agora gravam vídeos pedindo do assassinato da presidenta Dilma Rousseff à aniquilação dos membros do Partido dos Trabalhadores, em vídeos que orgulhariam ao próprio bin Laden.

Paris, assim como Nova York, é uma cidade muito heterogênea, embora em escala um pouco menor. A capital francesa abriga diversas comunidades de estrangeiros, sobretudo das ex-colônias francesas na África. Cerca de 20% dos parisienses nasceram fora da França, segundo dados do censo de 2011. É uma cidade tão etnicamente diversa ao ponto de que o policial assassinado pelos terroristas em fuga que haviam acabado de atacar a sede do semanário Charlie Hebdo era muçulmano. Só que, ao contrário de Nova York, a atual crise econômica castiga mais duramente a capital da França. É aí que a narrativa de eliminação do Outro, que estaria impedindo a sociedade de prosperar, seja ele muçulmano, judeu, socialista ou ateu, ganha força.

No começo do ano, presenciamos ataques de franceses de origem muçulmana que não foram integrados à sociedade local e acabaram sendo atraídos pelo discurso radical, que nega a coexistência com o diferente e aponta-o como um empecilho à felicidade pessoal. O Outro que estaria impedindo a prosperidade dos muçulmanos na França era composto pelos ateus (chargistas do Charlie Hebdo) e pelos judeus (comerciantes do mercado kosher de Porte de Vincennes). Agora, os ataques foram organizados por uma entidade externa, o Estado Islâmico, assumindo um discurso parecido ao da al-Qaeda quando dos atentados de 11 de setembro. Paris foi descrita pelos terroristas como sendo "a capital da abominação e da perversão da Europa".

Os ataques em Paris (13/11/2015) e Nova York (11/09/2001) têm em comum o fato de que ambos representam ataques à heterogeneidade. Foram orquestrados por mentes que não aceitam a ideia de viver num mundo onde as culturas coexistam pacificamente, respeitando umas às outras. Não é à toa que o Facebook – que facilmente nos divide em grupos: democratas e republicanos, petistas e tucanos, crentes e não-crentes, reacionários e revolucionários, etc. – seja uma ferramenta tão eficaz para o Estado Islâmico recrutar novos soldados. Dividimo-nos em grupos, recebemos informações filtradas segundo nossa visão de mundo e nos tornamos cada vez mais intolerantes ao pensamento divergente. É uma ágora de pombos enxadristas.

Presenciamos o começo do ataque ao multiculturalismo (por grupos internos) também aqui no Brasil, em nossa metrópole mais heterogênea. Os haitianos foram eleitos por uma minoria que se julga prejudicada como o Outro que atrapalha o bem-estar da sociedade. Eles estariam vindo ao Brasil para "roubar os empregos" dos brasileiros e, assim sendo, precisam ser eliminados. Há poucos meses, refugiados haitianos foram atacados na porta de uma igreja em São Paulo. Apenas mais um pequeno exemplo de que o grande conflito do mundo contemporâneo é saber lidar com sua diversidade cultural. Enquanto não aprendermos a aceitar uns aos outros, cidades que simbolizam o multiculturalismo continuarão sendo vítimas de ataques.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Para onde vão os refugiados?

Qualquer cidadão desavisado, que se informa apenas pela mídia comercial, pode pensar que maioria dos refugiados oriundos de países em conflito estão fugindo para a Europa. É comum, inclusive, ouvir das vozes propagadoras do senso comum o discurso de que os países vizinhos aos conflitos na Síria e no Iraque não oferecem ajuda aos refugiados. Enquanto isso pode ser verdade para a Arábia Saudita - monarquia ultra-sunita apoiada pelos Estados Unidos e cuja elite apoia e investe pesado no Estado Islâmico anti-xiita -, não se aplica aos demais países da região.

Uma reportagem da National Public Radio evidencia isso. Enquanto parte dos refugiados perdeu as esperanças e pensa ser inútil continuar na região, por não avistarem um fim próximo do conflito, outra parte sonha com o fim das batalhas, quando poderão retornar para suas casas. Tanto é verdade que a maioria busca refúgio em países vizinhos às suas pátrias devastadas pelos conflitos militares. Muitas vezes, o local de origem dos refugiados e o local para onde eles fugiram fazem até divisa. Entre os refugiados sírios, por exemplo, apenas 10 a 15% foram para a Europa.

Principais destinos dos refugiados.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de refugiados atingiu a marca de 60 milhões de pessoas nesse ano, o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Desse total, 5,25 milhões de refugiados saem da Palestina, 3,96 milhões da Síria, 2,68 milhões do Afeganistão, 1,32 milhão do Sudão ou do Sudão do Sul e 1,16 milhão da Somália. Ainda segundo a agência, nenhum país europeu estava entre os dez destinos mais procurados pelos refugiados na primeira metade do ano.

Dentre os países da Europa, destaca-se o apoio que a Alemanha vem dando aos refugiados. No início do ano, o país recebeu 440 mil refugiados, ficando na décima-terceira posição entre as nações mais procuradas pelos refugiados, pouco atrás do Chade na África Central. No entanto, a mídia comercial não se refere a uma suposta "crise de imigração" no Chade. Quando os refugiados são de países pobres e estão indo para outros países pobres, não há crise. No entanto, quando eles ousam atravessar o Estreito de Bósforo, marca indelével entre o progresso e o subdesenvolvimento, tornam-se um problema.

Países de origem dos refugiados.

A postura do governo alemão realmente é notável se considerarmos o conjunto dos países europeus. Na próxima atualização da lista de refugiados do ACNUR o país deve ficar entre os dez maiores destinos de refugiados no mundo. Deve-se, no entanto, apontar um padrão de dois pesos e duas medidas: enquanto Angela Merkel é indicada ao Prêmio Nobel da Paz por receber 440 mil refugiados, o governo da Jordânia já recebeu quase três milhões deles. Se fosse uma cidade, o campo de refugiados de Zaatari, com 80 mil habitantes, seria a segunda maior da Jordânia, atrás apenas da capital Amã, o que traz grandes pressões para os serviços públicos locais.


Refugiados eternos

O maior grupo de refugiados do mundo, segundo o ACNUR é o dos palestinos. A guerra árabe-israelense de 1948 deu origem à população original de refugiados palestinos, composta por cerca de 700.000 pessoas. Seus filhos e netos também são considerados refugiados e a maioria habita no Líbano, na Jordânia e na Síria, além, é claro, dos territórios palestinos (Faixa de Gaza e Cisjordânia). A guerra síria provocou o deslocamento de alguns desses palestinos, o que fez com que eles se tornassem refugiados pela segunda vez.

Num mundo cada vez mais globalizado e conectado, os países ocidentais não podem mais ignorar cenas como as do menino Aylan morto na praia. Urge aos governos ocidentais encarar a questão de maneira frontal e não apenas de maneira periódica e a uma distância segura. Atacar as causas dos conflitos, apoiar o ACNUR e investir na infra-estrutura (local ou não) para receber os refugiados é o mínimo que se espera. Que não fiquemos parados enquanto mais uma geração de refugiados eternos surge. É o mais humano a se fazer.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Jovens socialistas foram massacrados na Turquia – e ninguém dá a mínima

Essa semana, entrei na página do People's World (atual encarnação do Daily Worker) por acaso. Gostaria de saber se o Partido Comunista dos Estados Unidos – que abandou o leninismo e hoje segue uma linha socialdemocrata – estava acompanhando a atual crise política do Brasil. Depois de ler uma matéria datada de março (muito bem contextualizada, por sinal), me deparei com a seguinte manchete: “Turquia: 30 jovens socialistas foram massacrados em Suruç por homem-bomba”. Como poderia eu – que me considero bem informado sobre a esquerda mundial – não estar sabendo disso?

Segundo a matéria, escrita especialmente para o site, 300 militantes socialistas se encontravam na cidade de Suruç, na fronteira sul do país, para um encontro da Federação de Associações de Jovens Socialistas (SGDF na sigla em inglês). A SGDF é o braço juvenil do Partido Socialista dos Oprimidos (ESP na sigla em turco), de orientação marxista–leninista e que luta pelo estabelecimento de uma república federativa operária/sindical na Turquia e também no Curdistão. Durante o final do encontro, em 20 de julho, os membros da SGDF realizavam uma coletiva de imprensa no jardim do Centro Cultural Amara antes de partirem para Kobani, no norte da Síria, onde ajudariam a população curda a reconstruir suas casas, destruídas pelo Estado Islâmico (EI) após este último grupo ser expulso do local. As duas cidades distam apenas 10 km uma da outra. Foi nesse momento que uma bomba foi detonada, matando 30 jovens. Segundo o Partido Democrático das Regiões, pró-independência curda, a explosão foi causada por um homem-bomba.

Os 30 mártires de Suruç. O Ocidente lhes esqueceu rápido.
Espero que os curdos façam diferente.
O atentado teria sido cometido por um militante do EI. Foi nessa hora que eu pensei: “mas que diabos o EI está fazendo na Turquia se esse país se diz em guerra contra o grupo?”. Foi então que me deparei com um vídeo que está circulando pelas redes sociais em páginas de esquerda que explica os últimos desdobramentos da Guerra Civil na Síria, tendo como foco a expansão da presença militar turca no conflito. Nele, o narrador explica que a Turquia aceitou recentemente deixar que as forças lideradas pelos Estados Unidos usem suas bases aéreas na luta contra o EI. Simultaneamente, o país começou a lançar bombas contra os nacionalistas curdos iraquianos, o que evidencia que a grande preocupação da Turquia não é combater o grupo islâmico que choca o mundo ao perseguir cristãos, xiitas e homossexuais, e sim evitar que um Iraque e uma Síria desestabilizados pela ação dos radicais sunitas do EI venham a favorecer a luta pela independência do Curdistão, cujas fronteiras também se encontram dentro do atual estado turco.

Aí é que veio a grande revelação para mim: a Turquia não fechou suas fronteiras com a Síria, o que só comprova que seu atual foco militar não é combater o EI. Segundo o vídeo, o país compra petróleo do grupo e faz vistas grossas às células terroristas que agem dentro de suas fronteiras no treinamento de novos militantes islâmicos. Nesse cenário, é esperado que membros de partidos como o ESP sejam atacados, uma vez que o EI se opõe ao secularismo que é intrínseco às ideias socialistas e o governo turco tampouco está preocupado em livrar o país do grupo e de suas ideias islamitas. Muito pelo contrário, não é segredo para ninguém que o atual presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, se opõe ao secularismo e está a destruir o legado de Mustafa Atatürk, líder socialdemocrata que transformou a Turquia na primeira democracia laica do Oriente Médiono início do século passado. Portanto, não me causa espanto saber que Erdogan faz vistas grossas ao EI internamente enquanto “condena e amaldiçoa” os assassinos dos 30 jovens pró-curdos perante à comunidade internacional.

Sua decisão de se juntar à coalizão anti–EI visa defender claramente seus próprios interesses políticos. Um deles é limitar a expansão dos grupos nacionalistas curdos ao longo da fronteira turca. Os curdos, que representam 18% da população turca, professam diversas fés, sendo descritos como o povo mais religiosamente diverso do Oriente Médio. E é por isso que políticos islamitas – dos moderados como Erdogan aos radicais como os líderes do EI – se opõem a eles. O medo do crescimento do movimento faz sentido, uma vez que os curdos aproveitaram a fragilidade do governo sírio para tomar o controle de extensas áreas no norte do país, junto à fronteira sul da Turquia. Por esse motivo, Erdogan teria negociado com a coalizão anti–EI o estabelecimento de uma “zona tampão” que adentraria 50 km na província síria de Aleppo e permitiria à Turquia abater todos os aviões que ali circulassem. Isso evitaria que os curdos conquistassem a cidade de Aleppo – a segunda maior da Síria, sob controle do EI –, reafirmando a dominância dos islamitas e garantindo o abastecimento do grupo via Turquia. O acordo, no entanto, foi negado. Mas ele demonstra que a decisão turca de se integrar à coalizão anti–EI tem como propósito garantir que a campanha liderada pelos Estados Unidos evolua de acordo com sua própria agenda.

Considerando tudo isso, não é surpreendente que a mídia ocidental tenha dado pouco destaque ao caso dos estudantes socialistas assassinados em Suruç. Afinal, as forças ocidentais acabaram de ganhar um forte aliado anti–Curdistão na sua campanha contra o EI. Não é – apesar de que deveria ser – através da promoção dos nacionalistas curdos, religiosamente diversos, que o Ocidente pretende vencer o EI. É através da valorização de atores políticos já estabelecidos na região e que visam ainda mais a sua islamização, desde que ela não seja nociva aos interesses do Ocidente. Pelo bem da pluralidade religiosa, espero que as forças curdas ganhem cada vez mais terreno na Síria e que os jovens massacrados em Suruç sejam lembrados como mártires em sua luta por um estado que respeite a diversidade religiosa de seus cidadãos. Que a morte deles não tenha sido em vão!