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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Dietrich ou Jannings?

O final de semana foi marcado pelas notícias sobre o reaparecimento do nazismo enquanto movimento político que se manifesta publicamente no estado da Virgínia, no sul dos Estados Unidos. Nesse cenário, me vem à mente duas figuras alemãs do século passado: o ator Emil Jannings (1884–1950) e a atriz e cantora Marlene Dietrich (1901–1992). Ambos foram atores que despontaram na indústria cinematográfica dos Estados Unidos entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930. Jannings venceu o primeiro Oscar de melhor ator em 1929, enquanto Dietrich foi indicada ao prêmio de melhor atriz na quarta cerimônia em 1931. Enquanto ambos encontravam fama em Hollywood, a nação deles experienciava um caos político, social e econômico sem precedentes que culminaria com o fim da breve experiência democrática conhecida como República de Weimar (1919–1933). Ambos estrelaram juntos no filme O Anjo Azul (1930), do cineasta austríaco judeu Josef von Sternberg. Mas as coincidências entre eles acabam por aí. Hoje ocupam papéis diametralmente diferentes no imaginário popular do ocidente.

Emil Jannings e Marlene Dietrich em O Anjo Azul (1930),
antes dele virar entusiasta do nazismo.
Marlene Dietrich, uma das raras figuras alemãs de seu tempo que defendia uma solução democrática para o fim da crise na qual seu país se encontrava, é lembrada hoje como a musa da resistência ao nazismo. Ela se apresentou para tropas aliadas em toda a Europa como forma de elevar a moral dos soldados que lutavam contra o avanço do nazismo no continente. Adolf Hitler, ciente da enorme popularidade da atriz no mundo, tentou levá-la de volta para o cinema alemão, a esta altura reduzido a um mero meio de propagação da ideologia ariana e da suposta superioridade alemã em relação aos outros povos do mundo. Enquanto filmava O Amor Nasceu do Ódio (1937) em Londres, membros do Partido Nazista se aproximaram dela e ofereceram-lhe um contrato lucrativo para retornar à Alemanha. Ela não só recusou a oferta como doou todo seu salário no filme — US$ 7,7 milhões em valores atuais — para iniciativas que ajudavam os refugiados do nazismo. Ao retornar aos Estados Unidos, deu entrada em seu processo de naturalização. Ela renunciaria à cidadania alemã ao se tornar cidadã estadunidense, em 1939.

Emil Jannings tomou um caminho completamente distinto. Com sua popularidade em declínio nos Estados Unidos — o que historiadores do cinema atribuem ao advento do cinema falado e ao forte sotaque do ator —, Jannings retornou à Alemanha em 1932 e aceitou ser o protagonista de uma série de filmes que exaltavam figuras históricas nacionalistas para o Terceiro Reich (1933–1945). Estrelou em doze filmes no período e foi, sem sombra de dúvidas, um dos atores mais famosos de seu país durante o reinado de Adolf Hitler. As filmagens de um décimo terceiro filme, Wo ist Herr Belling?, foram interrompidas quando as tropas aliadas invadiram a Alemanha na primavera de 1945. Segundo relatos, Jannings teria mostrado sua estatueta do Oscar aos soldados como prova de sua associação com os Estados Unidos e, consequentemente, evitar sua prisão. Devido a sua contribuição para a Alemanha Nazista, Jannings foi alvo de Berufsverbot (banimento profissional) pelos aliados, sendo proibido de exercer novamente sua profissão até a desnazificação do país. Ele preferiu se aposentar. Mudou-se para a Áustria, onde morreu em completo ostracismo em 1950.

Marlene Dietrich entretendo soldados aliados.
No final da década de 1940, Dietrich, por sua vez, recebeu as maiores honrarias civis dos governos estadunidense e francês. Seus esforços contra o nazismo começaram antes mesmo dos Estados Unidos declararem guerra à Alemanha. No final da década de 1930, ela se uniu ao diretor austríaco judeu Billy Wilder para criar um fundo de assistência aos judeus que desejavam escapar da Alemanha. Quando os Estados Unidos entraram no conflito, em 1941, Dietrich foi uma das primeiras celebridades a ajudar a vender títulos de crédito para financiar o exército estadunidense. Entre janeiro de 1942 e setembro de 1943 ela se apresentou para mais de 250 mil tropas no país. Em 1944 e 1945, ela se apresentou para tropas aliadas na Argélia, na Itália, no Reino Unido, na França e na Alemanha. Ao entrar na Alemanha, foi indagada do porquê faria isso, uma vez que estaria colocando sua própria vida em risco, estando a poucos quilômetros de distância dos nazistas. "Faço isso por decência", retrucou. Segundo Wilder, a atriz esteve presente em mais linhas de frente do que Dwight D. Eisenhower, general que comandava as Forças Expedicionárias Aliadas.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, e o
ator Emil Jannings.
Enquanto Dietrich usava seu talento para defender a "decência", Jannings — ainda hoje o único alemão vencedor do Oscar de melhor ator, descrito pela Encyclopædia Britannica como "um dos melhores atores de sua geração" — emprestava-o a um regime que matou aproximadamente 10 milhões de pessoas. Ele, na verdade, era o rosto deste regime. Jannings traduzia a ideologia nacionalista do regime para o alemão comum, ao interpretar a versão nazificada de heróis nacionais como Otto von Bismarck e Frederico Guilherme da Prússia nas telas. Em 1942, ano em que os trens da morte começavam a transportar os inimigos do nazismo para os campos de concentração, Jannings escreveu para a Nationalsozialistische Monatshefte, revista de cultura do Partido Nazista, sobre a meta do regime de mostrar, no cinema, homens e mulheres que conseguem dominar seus próprios destinos como modelos a serem seguidos pelo público. Do outro lado do Atlântico, Dietrich se tornava a celebridade que mais vendia títulos de crédito do exército estadunidense. Indagada sobre as atividades nazistas de seu ex-colega nas telas, Dietrich teria dito que ele era um "porco".

Embora tenha lutado incessantemente para livrar seu povo das garras do nazismo, o retorno da atriz à Alemanha não foi exatamente um sucesso. Em 1960, durante uma turnê em sua terra natal, Dietrich foi recebida de maneira amarga pela direita alemã. Os viúvos do nazismo acusavam-na de ser uma "traidora da pátria" e ameaçaram bombardear o palco de seus shows duas vezes. Durante sua apresentação no teatro Titania Palast, em Berlim, o público gritou "Fora Marlene!". Ela foi defendida pelo então prefeito da cidade, o social-democrata Willy Brandt, que, assim como ela, opôs-se ao nazismo e exilou-se do regime no exterior. A turnê foi um fracasso comercial e Dietrich, emocionalmente fragilizada pela hostilidade que encontrou em sua cidade natal, prometeu nunca mais retornar ao país. Na Alemanha Oriental, no entanto, ela foi melhor recebida. Em Israel, a turnê da artista que doou milhões de dólares para os refugiados judeus foi muito bem recebida. Ela cantou em alemão, quebrando o protocolo contra o uso do idioma no país, e ganhou a Medalha de Honra do governo, tornando-se a segunda mulher alemã a receber tal honraria. 

Goebbels (Sylvester Groth) mostrando o anel de honra que
deu para Jannings (Hilmar Eichhorn) em cena do filme
Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino.
Se a imagem de Dietrich não foi completamente reabilitada em vida, seria após sua morte em 1992. Naquele ano, uma placa comemorativa foi colocada no local de seu nascimento em Berlim, onde é possível ler: "Foi uma das poucas atrizes alemãs que conseguiram fama internacional e, apesar das ofertas tentadoras do regime nazista, emigrou para os EUA e se tornou cidadã americana". Um selo com sua imagem foi lançada pelos correios da Alemanha em 1997. No mesmo ano, uma praça na capital alemã foi inaugurada em sua homenagem. Lê-se numa placa no local: "Estrela berlinense do cinema e da música, dedicada à liberdade e à democracia, a Berlim e à Alemanha". Emil Jannings, por sua vez, foi "homenageado" no filme Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino, onde exibe para os outros personagens o anel de "artista do estado" que ganhou de Joseph Goebbels. Ele é apresentado não como um ator genial, mas como quem preferiu a fama à compaixão aos judeus, muitos dos quais ajudaram-no a construir sua carreira, como é o caso dos cineastas Sternberg, E.A. Dupont, Paul Leni e, principalmente, Ernst Lubitsch, que o dirigiu em sete filmes.

As ofertas tentadoras do regime nazista eram simplesmente boas demais para Emil Jannings recusar. Mesmo que se argumente que ele estava apenas tentando sobreviver num ambiente hostil à liberdade artística, um artista com o mínimo de decência — parafraseando Dietrich — não escreveria um artigo para a revista de cultura do Partido Nazista. Ao que tudo indica,  Jannings — ao contrário de outros artistas alemães do período, que mais tarde disseram que estavam apenas trabalhando na indústria sem apoiar os horrores da "solução final" para os judeus — foi um entusiasta do nazismo. Segundo Wagner Pinheiro Pereira, autor do livro O Poder das Imagens: Cinema e política nos governos de Adolf Hitler e de Franklin D. Roosevelt, o ator teria sugerido ao ministro da propaganda Joseph Goebbels a produção do filme Tio Krüger (1941), uma denúncia do imperialismo britânico, como forma de mostrar ao mundo que não foram os alemães que inventaram os campos de concentração, mas sim os britânicos, durante a Guerra dos Bôeres (1899–1902). Não coincidentemente, o ator recebeu o já mencionado anel de honra após esse filme.

Placa na Praça Marlene Dietrich em Berlim. Não existem
homenagens públicas a Emil Jannings no país.
A relativização dos campos de concentração criados pela Alemanha segue a mesma lógica das tentativas de muitos conservadores de relativizar as manifestações nazistas que ocorreram no último final de semana nos Estados Unidos. Trata-se de denunciar quem está denunciando: os alemães construíram 1.200 campos de concentração, mas os britânicos operaram 45 três décadas antes; a direita está pedindo abertamente a morte de minorias na rua, mas a esquerda também tem os seus crimes. A adoção dessa estratégia goebbeliana de defesa política mostra que o nazismo novamente faz a cabeça dos conservadores no mundo todo. Novamente a dita civilização chegou num ponto de radicalização e precisamos decidir se vamos agir pela decência ou se vamos aderir à opressão das minorias para recebermos as ofertas tentadoras de um movimento ideológico que, sete décadas após devastar a Europa, está novamente virando moda entre cidadãos histéricos e inconsequentes. Precisamos decidir a quem vamos querer ser comparados no futuro: Dietrich ou Jannings? Basicamente, trata-se de uma escolha entre a democracia e a barbárie.

domingo, 23 de abril de 2017

A dosagem do controle nos relacionamentos

A melhor atuação de um ator é sempre aquela em que dá vida a um personagem próximo de sua realidade, pois sua interpretação sai o mais natural possível. Joan Crawford basicamente interpretou a si mesma em A Dominadora (1950), onde dá vida a Harriet Craig, – título original do filme –, uma mulher obcecada por limpeza e organização que, para evitar brigas, precisa que as coisas sejam feitas do seu jeito. Em determinada cena do filme a governanta da Sra. Harriet diz à cozinheira: "se ela pudesse, embrulharia a casa toda em celofane". De fato, os móveis de Crawford eram embrulhados em celofane, tamanha sua obsessão em mantê-los limpos. Mas as semelhanças entre interpretador e interpretado não terminam por aí: tanto Harriet Craig quanto Joan Crawford nasceram na miséria, foram abandonadas por seus pais na infância, trabalharam em lavanderias e abandonaram a escola. E, apesar disso, ambas encontraram êxito profissional.

A arte imita a vida: "Se ela pudesse, embrulharia a
casa toda em celofane". 
Segundo o diretor Vincent Sherman, em entrevista para o episódio sobre Crawford da série documental The Hollywood Greats da BBC, ele incorporou muito da personalidade da atriz no filme sem que ela percebesse. Mas eu acho que ela percebeu sim. Tanto que, segundo o Internet Movie Database, baseou-se em sua própria experiência pessoal para entregar a cena final do filme, na qual Harriet Craig explica porque se tornou uma mulher controladora que duvida das intenções dos homens que se aproximam dela. O final deveria ter servido de advertência para a atriz. A protagonista quer controlar tanto o mundo ao seu redor que acaba afugentando as pessoas mais próximas de si. O mesmo ocorreu com Crawford, embora não da noite pro dia. Ao longo de sua vida, ela afastou companheiros, filhos e até a governanta, que mais tarde teria dito que decidiu voltar para sua Alemanha natal porque havia se cansado de se desviar de coisas jogadas em sua direção.

Ao que tudo indica, Crawford gostava que gostassem dela. Mantinha uma relação pessoal com seus fãs e regularmente realizava atos de caridade para estranhos. No entanto, isso deveria ocorrer nos termos dela. Eu creio que não podemos ser seletivos em relação à afeição que recebemos. Temos de aceitar o carinho e o amor que recebemos da forma que o recebemos. Mas não a julgo. O patriarcado sempre impôs regras bem rígidas para os relacionamentos. Mas ninguém – nem o homem e nem a mulher – tem que controlar os rumos de um relacionamento. Só que ainda hoje essa é uma opinião impopular e, para não sermos dominados, acabamos nos tornando dominadores nós mesmos. Como bem diz Harriet Craig, a dominação é um mecanismo de defesa contra o amor. Tememos que o amor nos deixe de quatro e que nos anulemos para satisfazer as vontades do outro. É preciso dosar a vontade de controlar e de ser controlado nos relacionamentos.

Quando queremos controlar a vida de todos ao nosso redor,
acaba sobrando só a nossa mesmo para controlar.
Joan Crawford gostava que as coisas fossem feitas do seu jeito – e não do jeito dos homens. Afinal de contas, ela não precisava (e nunca precisou) de nenhum deles para se sustentar. É algo que incomoda nossa realidade machista e é claro que ao transpor para a tela a mulher que age dessa maneira, transformariam-na numa "bitch", num exemplo a não ser seguido. Mas Crawford e Craig são apenas casos extremos. Me identifiquei muito com a filosofia de vida de Harriet Craig e continuarei me identificando com ela. O que me assusta, no entanto, é o extremismo. Se, por um lado, identifico e admiro Crawford por ter sido uma mulher pioneira, que tomou o controle de sua vida para si, por outro lado me assusta a intensidade com a qual ela o fez. Essa é a parte de Crawford e Craig com a qual tenho medo de me identificar. Controlar a própria vida é bom, mas fazê-lo em excesso nos torna insuportáveis e nos afasta do convívio humano.

sábado, 18 de junho de 2016

Ignorância: o projeto da elite para o Brasil

Todos devem se lembrar dos resultados da pesquisa Perils of Perception ("Perigos da percepção", em tradução livre), conduzida pelo instituto Ipsos MORI e segundo a qual o brasileiro é o terceiro povo mais ignorante do mundo. Já conhecia a metodologia da pesquisa — os entrevistados deveriam fornecer os números corretos sobre determinados dados sócio-demográficos —, mas confesso que foi revelador descobrir quais eram as perguntas feitas e como o brasileiro médio possui uma visão distorcida da realidade que lhe cerca. A educação, segundo Paulo Freire, deveria fornecer aos educandos a possibilidade de interpretar o mundo que lhes cerca, formando, assim, cidadãos e não futuros integrantes do mercado de trabalho e de consumo, para os quais saber ler e escrever é o suficiente. O que a pesquisa revela é justamente que o brasileiro médio possui uma enorme dificuldade em interpretar a realidade.

Para Freire, a educação deveria formar cidadãos. "Fora Paulo
Freire" é, portanto, nada menos que "fora educação crítica".
Segundo Perils of Perception, o brasileiro subestima a desigualdade social. No Brasil, 48% da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população. Em termos absolutos: um trilhão de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. No entanto, o brasileiro médio acha que nosso país é menos desigual, que 40% da riqueza nacional está nas mãos de 1% da população. Pode parecer um erro razoável (8%) — e em países mais desiguais como Índia e Rússia a população subestima ainda mais a desigualdade —, mas em termos absolutos o brasileiro acha que 898 bilhões de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. Um erro de 100 bilhões de dólares. A todo o momento o senso comum nos bombardeia com a informação de que os empresários gastam demais com seus funcionários, que o Estado apeiam-lhes os lucros, mas há poucos dispostos em nos informar que somos o segundo país mais desigual da América do Sul.

Quando indagado sobre quanto da riqueza nacional o 1% mais rico da população deveria controlar, o brasileiro responde, em média, que deveria ser 33%, um percentual alto quando comparado a países desenvolvidos. É quase o dobro do que os 18% da riqueza que 1% dos belgas e neozelandeses mais ricos controlam em seus países. Em seguida, o brasileiro subestima, também, o problema da obesidade. Para a média dos brasileiros, 47% da população adulta do país está acima do peso, ou seja, quase 94,2 milhões de pessoas. Na realidade, 56% dos brasileiros acima dos 20 anos de idade estão acima do peso, o que equivale a 112,2 milhões de pessoas. Um erro de "apenas" 18 milhões de pessoas, ou seja, maior do que o número de pessoas que vivem no Estado do Rio de Janeiro. Além de ser piedoso com a exploração imposta por seus patrões, o brasileiro aparentemente não se olha muito no espelho — nem sobre muito na balança — também.

A próxima pergunta é sobre o número de ateus e agnósticos. Propagou-se, em especial através da pregação de pastores neo-pentecostais, a ideia de que há uma guerra em curso contra o cristianismo no Brasil e que os culpados disso seriam os movimentos sociais que lutam contra tradições cristãs como a submissão feminina e a proscrição da homossexualidade e dos cultos de origem africana. Criou-se, no imaginário popular a imagem de uma cristandade ameaçada por militantes ateus. Segundo Perils of Perception, o brasileiro acha que 35% da população, ou seja, 70 milhões de pessoas são ateístas ou agnósticas. Na realidade, segundo dados do Censo de 2010, apenas 8% dos brasileiros (16 milhões) não seguem uma religião organizada. A diferença entre percepção e realidade é de 54 milhões de pessoas, ou seja, quase o mesmo número de eleitores que Dilma Rousseff teve no segundo turno da última eleição presidencial brasileira.

A ignorância dos brasileiros quanto ao número de ateus e agnósticos só não é maior do que sobre o número de imigrantes. Durante a campanha presidencial de 2014, semeou-se, entre os eleitores da direita, a noção de que o Partido dos Trabalhadores fraudou a eleição valendo-se de refugiados haitianos. É uma ideia absurda — como o PT traria um contingente tão grande de pessoas em tão curto espaço de tempo sem ser pego? —, mas que é levada a sério por 42% dos brasileiros que saíram às ruas em 2015 para protestar a favor da queda da presidenta Dilma. Como resultado da campanha de desinformação da direita, os brasileiros acreditam, em média, que 25% de nossa população é composta por imigrantes, ou seja, 50 milhões de pessoas. Na verdade, apenas 601.200 brasileiros nasceram em outros países. É essa distorção, amplificada pelo medo, a responsável por ataques xenófobos a imigrantes, sobretudo haitianos.

A "invasão haitiana" começou como uma mentirinha para
ajudar o Aécio a vencer as eleições, mas já distorce a
percepção que os brasileiros possuem da realidade.
Mas o medo não surge do nada. Ele precisa ser fomentado. Além dos grupos ligados ao PSDB, a mídia também possui uma parcela de responsabilidade muito grande por jogar a população contra os imigrantes. Sempre que os meios de comunicação relatam casos de imigrantes é sobre o viés negativo. "Quando aparecem na mídia estão atrelados a problemas, crises, marginalizações, ou ligados à ideia de invasão", afirma o pesquisador Gustavo Barreto, que analisou mais de 11 mil edições de jornais e revistas publicados entre 1808 e 2015. A desinformação possui uma correlação direta com o medo. Os alemães supervalorizavam o impacto dos judeus em sua sociedade assim como os brasileiros fazem agora com os haitianos. Ainda hoje é possível encontrar, mesmo na esquerda, quem afirme que, sem Adolf Hitler, os judeus tomariam conta da Alemanha na década de 1930, sendo que correspondiam a apenas 0,77% da população alemã em 1933.

Além disso, o brasileiro também subestima o real impacto da juventude na sociedade. Em nenhum outro país a resposta à pergunta "qual a idade média da população em seu país?" foi tão dissonante da realidade quanto no Brasil. Os brasileiros acham que a média de idade da população é de 56 anos, 25 a mais do que os 31 anos que de fato é a média de idade dos brasileiros. Deve ser por isso que o governo interino de Michel Temer consegue enganar tão facilmente a população sobre a necessidade de (mais) uma reforma da Previdência Social. Segundo uma outra pesquisa, mais recente, 75% dos brasileiros apoiam mudanças na regra de concessão da aposentadoria. Talvez se não superestimassem o número de pessoas com mais de 55 anos seriam capazes de perceber que a Previdência consegue se sustentar por mais algumas décadas com o percentual ainda elevado de jovens que possuímos em idade de trabalho.

É engraçado que o brasileiro também subestima o número de crianças, o que chega a ser ilógico se formos parar para pensar. Segundo Perils of Perception, em média o brasileiro acha que 39% da população tem menos de 15 anos de idade. Na verdade, o número é de 24%, novamente a maior dissonância entre percepção e realidade nos 28 países pesquisados. Em relação ao percentual de mulheres na política, o brasileiro também erra, embora por pouco. Diz que 18% dos membros do Congresso Nacional são mulheres, quando na verdade são 10%. Esse erro pode ser explicado pela visibilidade que a figura da presidenta Dilma Rousseff tinha no imaginário popular. Por ser uma mulher e ter chegado ao cargo máximo da nação, acabou gerando a percepção — errônea — de que mais mulheres estavam ocupando posições de destaque na sociedade, o que não era necessariamente verdade, como o governo Temer depois veio a provar.

As novelas são, em parte, responsáveis pela percepção de que
há mais gente morando em áreas rurais do que na verdade.
Por fim, a pesquisa Perils of Perception indaga os entrevistados quanto ao número de pessoas que moram em áreas rurais e aquelas que possuem acesso à internet em casa e novamente o brasileiro erra feio. Talvez por influência de novelas que destacam um passado bucólico, os brasileiros, em média, acreditam que 34% da população (68 milhões de pessoas) mora em áreas rurais, número mais de duas vezes maior do que o verdadeiro (15% ou 30 milhões). Uma tendência do brasileiro é generalizar a sociedade através de sua experiência individual e isso se expressa na resposta dada à pergunta "qual o percentual de pessoas que você acha que possui acesso à internet em casa?". O brasileiro, em média, crê que esse número é de 72% quando na verdade é de 53%. Em números absolutos, a percepção é de que são 144,2 milhões de pessoas quando na verdade são 106,2. A diferença de 38 milhões é pouco menor que o número de habitantes do Estado de São Paulo.

Uma das máximas mais antigas da humanidade é "conhece-te a ti mesmo e assim conhecerá os deuses". Só é possível enfrentar nossos demônios conhecendo-os. Só é possível mudar algo através da percepção. Se não encaro algo como um problema, nunca serei capaz de transformá-lo. Isso vale tanto para mudanças individuais quanto sociais. O Brasil não conhece a real dimensão de seus problemas e, assim sendo, é incapaz de lidar com eles. Se superestimamos o número de mulheres na política, achamos uma bobagem a proposta de implementar uma quota feminina nos partidos políticos. Se subestimamos a desigualdade social, aplaudimos quando Temer decide cortar o Bolsa Família para manter o bolsa banqueiro intacto. Se superestimamos o número de imigrantes, fechamos nossas fronteiras para quem precisa de ajuda humanitária. Se superestimamos o número de idosos, jovens e pessoas que moram no campo, executamos políticas públicas erradas para eles.

Parte da ignorância do brasileiro em relação a si mesmo é intencional. Como afirmava Darcy Ribeiro, "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto". Não interessa aos mais ricos — como ficou claro em cartazes exibidos nas brancas manifestações anti-Dilma — uma educação que forme cidadãos conscientes da realidade que lhes cerca. "Fora Paulo Freire" nada mais é do que "a educação não pode ser crítica". Se a educação não conscientiza, a mídia, por sua vez, distorce a percepção da grave situação socioeconômica do país para promover a agenda econômica que seus patrocinadores defendem. Propaga a ideia de que o pobre é acomodado e não merece assistência do Estado, quase como se a culpa da pobreza fosse dele mesmo e não do sistema que lhe nega oportunidades. Enquanto isso, defende que o Estado pague religiosamente a imoral dívida pública que mantém o status de uma dúzia de famílias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O termo "marxismo cultural" foi popularizado
pelo comentarista Pat Buchanan, que nega o
Holocausto e apóia Donald Trump.
Quase todas as igrejas evangélicas e parte da Católica, por sua vez, distorcem a mensagem de Jesus Cristo para dar mais ênfase à conquista de bens materiais do que à saúde espiritual de seus fiéis. Os "cristãos" do século XXI são levados a crer por pregadores parecidos com apresentadores de programa de auditório que Deus quer que sejamos ricos e que é doando para igrejas suntuosas que iremos aumentar nossas riquezas. Cristo — parte indivisível de Deus para os trinitarianos —, porém, recusou o luxo. Ele andava com ex-prostitutas e ladrões e expulsou da porta do Templo de Salomão aqueles que ousavam lucrar às custas de Seu Pai. A lavagem cerebral, no entanto, é bem feita. Os fiéis das igrejas que seguem a teologia da prosperidade são manipulados de forma a acreditarem que um ataque a seu Evangelho distorcido é um ataque ao próprio Jesus Cristo. Já conseguiram até mesmo uma data para lutar contra a "cristofobia" (sabe-se lá o que seja isso) na cidade de São Paulo.

Semear a desinformação para colher a apatia dos oprimidos parece ser o projeto dos grupos dominantes do país, sejam eles religiosos, políticos, sociais e/ou econômicos. Não é à toa que se arrepiam com a ideia da implementação de uma educação que forme cidadãos e não operários. Discutir a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros e orientações sexuais, entre raças, conhecer a contribuição das religiões de matriz africana para a formação da cultura brasileira, tudo isso é abominado e colocado na vala comum do "marxismo cultural". São questões debatidas nas escolas da Suécia e da Noruega (que ocupam as posições de número 21° e 23° na lista dos 28 países mais ignorantes do mundo, respectivamente). São países capitalistas. Suas elites, no entanto, são humanistas — seu projeto não é deixar a maior parte de sua população na escuridão da ignorância. No Brasil, a ignorância é o projeto da elite. A ignorância faz com que o brasileiro minimize seus problemas, enfrente os inimigos errados e, por consequência, não atinja a temível igualdade.

sábado, 28 de maio de 2016

Temer e a retórica nazista

Algumas coisas é definitivamente preciso ver para crer. Já tinha visto várias vezes, nas redes sociais, fotos de outdoors com a inscrição "Não pense em crise, trabalhe!", mas o impacto foi completamente diferente quando vi um anúncio com a frase ao vivo. Estava na Avenida T-6. Na ocasião, tinha ido ao Fujioka com minha mãe para comprar uma televisão e, saindo da loja, vejo o outdoor que conseguiu tirar toda a alegria da compra que havíamos terminado de fazer. A sensação que tive foi de morar numa ditadura totalitária onde é proibido discutir o porquê de uma minoria ser rica e frequentar os melhores restaurantes e bares enquanto a maioria labuta duro e nem tem o que comer direito. Parece a China onde colocam redes nas janelas das fábricas de produtos eletrônicos para evitar que os operários cometam suicídio. "Não pense em suicídio, trabalhe!". O correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, foi certeiro ao dizer que a frase do novo presidente brasileiro parecia saída do departamento de propaganda da antiga União Soviética.

"O trabalho liberta", frase contida na entrada dos campos
de concentração construídos pela Alemanha.
A crise brasileira — que não é só econômica — não é o Beetlejuice. Ela não vai desaparecer contanto que não falemos dela. Ela está por todos os lados: está no mendigo que lhe estende a mão no sinal e até mesmo na notícia da moça que foi estuprada por três dezenas de homens numa favela da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Questionar qual a ligação entre ambos os fatos e a decadência política-econômica e, principalmente, moral do Brasil, é algo que incomoda as autoridades, sobretudo aquelas filiadas a partidos que defendem que as injustiças sejam resolvidas com a intervenção da polícia ostensiva. Não é por acaso que governos autoritários interditam o debate sobre questões sociais. Quem pensa incomoda. "Não pense, trabalhe!". A negação, seguida de um verbo de discussão me lembra uma frase dita pelo ditador português António Salazar: "Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever". "Não discutimos". Como é possível uma nação crescer sem questionar seus problemas e, no caso do Brasil, sem questionar a relação desigual entre capital e trabalho?

O Brasil já tentou avançar valendo-se da retórica nazista que, ao mesmo tempo em que exigia servidão, negava à população o direito de debater sobres os problemas que afligiam-na. Em 1974, o "país do futuro" enfrentava uma crise de meningite que matou quase 3.000 crianças apenas nas duas maiores cidades do país. A ditadura militar, valendo-se da censura prévia em vigência desde 1968, proibiu os veículos de comunicação de informar à população sobre a epidemia, contribuindo para ainda mais mortes. A população não podia descobrir que o governo que reorganizaria o Brasil, que tirou-o das mãos dos comunistas comedores de criancinhas e que promovia o "milagre econômico" falhava naquilo que deveria ser o mais básico num país civilizado: garantir o direito à vida dos pequenos. Questionar o governo era questionar a própria nação e um agressivo slogan convidava os insatisfeitos com o regime a deixar o país: "Brasil: Ame-o ou deixe-o!". Assim como no governo atual, um outro slogan exigia da população que trabalhasse, ou melhor, servisse ao país: "Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil". Não é à toa que a bandeira presente no logo do governo Temer seja aquela usada até 1968. Sua publicidade inspira-se no regime militar!

"Enquanto estivermos lutando, trabalhe pela
vitória
". Pôster da Alemanha Nazista.
A servidão, ou melhor, o sacrifício coletivo pelo bem da nação é uma ideia reforçada a todo o momento nos governos autoritários, que se impõem pela força e não pelo voto (como é o caso de Michel Temer). Certa vez, Adolf Hitler proclamou que a Alemanha teria sido mais bem sucedida caso tivesse sido uma nação não-cristã: "Por que não temos a religião dos japoneses, que coloca o sacrifício pela pátria como maior bem? (...) Por que tinha que ser o cristianismo, com sua resignação e flacidez?". Por que Hitler disse isso se a ideia de que o trabalho dignifica o homem é bastante presente na Alemanha, onde Max Weber publicou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo? Porque nas mentes dos líderes autoritários Estado e governo confundem-se e quem não está pronto para se sacrificar pelo governo é visto como um traidor da nação. É essa a ideia que Michel Temer busca incutir nas mentes dos brasileiros. Conta para isso, com a ajuda de líderes religiosos como Silas Malafaia e Marco Feliciano, que incorporam mais o espírito capitalista do que o Espírito Santo. A esses líderes, não interessa um povo pensante. "Não pense em crise, pague o dízimo!".

Apesar da exigência do sacrifício, quase sempre os líderes autoritários moram em palácios luxuosos e andam em carros de luxo. No entanto, não se pode enganar a todos ao mesmo tempo. O tabloide britânico Daily Mail já percebeu a dissimulação de um presidente que propõe cortes nos gastos orçamentários com a área social manter os muitos caprichos da esposa, descrita como sendo uma versão tropical de Maria Antonieta. Tenho certeza de que até mesmo os alemães de meados da década de 1940 percebiam que seu führer levava uma vida relativamente tranquila enquanto seus filhos morriam nos campos de batalha em sacrifício pela nação. Só que, obviamente, tinham medo de dizê-lo publicamente. E aí é que está uma questão essencial para a sobrevivência do governo Temer. Começa a cair sua máscara — e também a dos grupos "apartidários" que colocaram-no no poder. Como ele fará para mantê-la e garantir-se no cargo? Será que a única coisa que ele — que assim como Hitler ascendeu ao poder graças a um golpe parlamentar — vai tomar emprestado dos nazistas será a retórica? Espero que sim.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Golpe frio: a crise de Estado no Brasil


Jens Glüsing.
Os oponentes de Lula conseguiram aquilo que sua frágil sucessora Dilma Rousseff falhou em conseguir desde que tomou posse: unir a base do Partido dos Trabalhadores do Brasil, os sindicatos e os movimentos sociais, ao governo.

Centenas de milhares de apoiadores de Lula protestaram na sexta-feira á noite em todo o país contra a tentativa de expulsar a presidenta do cargo por meio de um processo de impeachment. Na Avenida Paulista, em São Paulo, considerada o termômetro dos protestos, ocuparam onze quarteirões. As manifestações transcorreram com calma e Lula foi conciliador; ele não atacou o Judiciário e fez um apelo ao diálogo. Dificilmente pôde-se ouvir incitação ao ódio nas demonstrações no Rio e em São Paulo.

Ao contrários dos protestos massivos contra o governo do fim de semana passado, nos quais se reúnem cada vez mais revoltados de extrema-direita. Eles não representam a maioria dos manifestantes, mas crescem em popularidade. Isto é preocupante para a ainda jovem democracia brasileira.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em meados dos anos oitenta, uma crise política que pode destruir muitas realizações dos últimos trinta anos ameaça o maior país da América Latina. Parte da oposição e o Judiciário tem inflamado, juntamente com o poderoso grupo de TV Rede Globo, uma verdadeira caça às bruxas contra o ex-presidente Lula.

Sérgio Moro, um ambicioso juiz de Curitiba, no sul do Brasil, tem aparentemente apenas uma meta: colocar o ex-presidente atrás das grades. Moro conduz os inquéritos de um escândalo de corrupção envolvendo a empresa petrolífera estatal Petrobras, no qual centenas de gestores, lobistas e políticos, incluindo vários membros de primeiro escalão do Partido dos Trabalhadores de Lula, estão implicados.

Como um furacão, o juiz varreu as elites políticas e econômicas do Brasil. Ele descobriu bilhões pagos em propina. Mais de cem suspeitos estão presos, a maioria dos quais sem uma condenação. Muitos brasileiros celebram o juiz como um herói nacional.

Evidências escassas

Os oponentes de Lula conseguiram o que Dilma falhou em
conseguir: unir sindicatos e movimentos sociais ao governo.
Mas nos últimos meses o sucesso de Moro aparentemente lhe subiu à cabeça. O juiz faz política, o que não é para ele. A divulgação de conversas telefônicas entre Lula e a presidenta Rousseff, interceptadas poucas horas antes da nomeação de Lula como premier, persegue fins políticos por si só e foi legalmente duvidosa para se dizer o mínimo.

Moro até agora não foi capaz de forjar uma acusação contra Lula, embora dezenas de promotores e agentes da Polícia Federal em Curitiba tenham vasculhado as finanças e a vida pessoal do ex-presidente durante meses. As evidências ainda são escassas.

Lula não tem milhões na Suíça como o poderoso presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro; um juiz do Supremo Tribunal Federal se referiu a ele como bandido. Mas isso não o impede de assumir a presidência da comissão que é responsável pelo impeachment da presidenta.

Nesta honrosa comissão sentam-se, dentre outros, um ex-governador de São Paulo que foi condenado na França sob acusação de corrupção, mas que não foi entregue pelas autoridades brasileiras por ser um cidadão brasileiro. O fato de que tais figuras sejam peças-chave na derrubada de uma presidenta contra a qual não pesam acusações mina a legitimidade de todo o processo.

Os apoiadores de Lula alertam para um golpe frio contra a democracia. Tal preocupação não é completamente destituída de fundamentos.

Jens Glüsing é correspondente do Spiegel no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 28 de março de 2016

2015-16: chocando o ovo da serpente

Muitas vezes a falta de distanciamento histórico não nos permite analisar os eventos como eles de fato ocorrem. Agora, no entanto, está mais do que nítido para mim que os dois últimos anos representam, para a contemporaneidade, aquilo que a década de 1920 representou para o século passado. E não, não estou falando da revolução tecnológica que permitiu o surgimento do cinema falado. Refiro-me à ascensão do nazifascismo na Europa. Em 2015, sob os efeitos do terrorismo global e de uma crise financeira tão avassaladora quanto a de 1929, inaugurou-se uma nova era de influência das ideias de extrema-direita sobre uma série de países, sobretudo aqueles cujas instituições políticas passam por uma acentuada crise de representatividade.

O primeiro exemplo que salta aos olhos é o da Alemanha, uma vez que foi este o país onde se originou o nazismo. Em meados de outubro de 2015 foi fundado, na cidade de Dresden, o grupo "Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente" (PEGIDA), que se opõe ao recebimento de refugiados sírios pela potência europeia. Atraiu 350 pessoas em sua primeira manifestação. Na semana posterior ao ataque terrorista à sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, entretanto, levou 250.000 pessoas às ruas da cidade. Nove em cada dez manifestantes do PEGIDA apoiam o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) que, desde então, tornou-se o terceiro maior nos parlamentos de dois estados e o segundo maior na casa legislativa de Saxônia-Anhalt.

Marine Le Pen posa com dois skinheads em 2006.
Na França, os efeitos das crises financeira e de imigração são sentidos de maneira mais intensa e, por isso mesmo, a extrema-direita tem feito avanços significativos. Em 2014 o país viu seu PIB ser ultrapassado pelo da Grã-Bretanha, ao passo em que a Frente Nacional (FN) elegeu 24 deputados para o Parlamento Europeu que deseja destruir. Os deputados desse partido valem-se de um ciclo vicioso que alimenta a xenofobia para angariar votos. Os muçulmanos são excluídos da sociedade que os teme e encontram refúgio em grupos que promovem uma visão radical do Islã o que, por vezes, resulta em atentados que justificam a exclusão dos muçulmanos da sociedade. Só em 2015 ocorreram três atentados promovidos por grupos islâmicos em Paris.

Julgava-se que a FN tinha se exaurido em 2002, quando seu então líder, Jean-Marie Le Pen, sofreu uma derrota acachapante para Jacques Chirac no segundo turno das eleições presidenciais daquele ano. Sua filha Marine, no entanto, reinventou o partido ao abandonar a retórica fascista do pai, embora defenda praticamente a mesma agenda que ele. Agora atraente aos jovens e politicamente viável, a FN obteve, pela primeira vez, o maior número de votos nas eleições regionais (equivalente às nossas eleições para governadores). Em Nord-Pas-de-Calais-Picardie e em Provence-Alpes-Côte d'Azur as candidatas da extrema-direita só não se tornaram governadoras graças a uma inesperada coalizão entre a centro-esquerda e a centro-direita no segundo turno.

A pesquisa mais recente para a eleição presidencial de 2017 indica que Marine Le Pen pode vir a se tornar a candidata mais votada no primeiro turno, embora sua vitória no segundo seja improvável. Entretanto, me pergunto se ela não emergirá como alternativa viável, sobretudo para os jovens desesperançosos com o sistema político, caso a centro-direita que deve substituir o atual presidente socialista François Hollande mostrar-se tão ou mais incapaz do que a centro-esquerda de resolver os problemas econômicos do país. A crise das instituições na França é profunda e recorrente. A xenofobia apenas ajuda a transformar os inimigos — muitos e difusos — em algo palpável. O fascismo nada mais é do que a forma que os capitalistas encontram de culpar outros pelas crises que geram.

O fascismo caracteriza-se pelo atropelo ao devido processo
legal e pela crença de que o país precisa de um líder forte.
O que nos leva até o caso dos Estados Unidos. Vimos despontar, em 2015, um candidato que debita nas costas dos imigrantes latino-americanos todos os problemas econômicos da nação e que que propõe construir um muro na fronteira com o México. No entanto, ele não se pronuncia sobre o sistema de financiamento eleitoral que gera a desconfiança do público ao sistema político. Baseia sua campanha na parcela do eleitorado que se ressente por ter que dividir seus espaços com hispânicos. Seria cômico, não fosse trágico, que a maior nação do mundo corre o risco sério de vir a ser governada por um fascista como Donald Trump. Quem diz isso não sou eu, mas Robert Paxton, professor emérito da Universidade de Colúmbia e um dos maiores pesquisadores contemporâneos sobre o fascismo da década de 1920.

Não é à toa que Trump é aclamado pelos camisas-amarelas do Brasil. Embora jurem de pé junto que sejam democratas, em momento algum os manifestantes anti-Dilma denunciaram as forças fascistas (que não eram poucas) presentes em suas manifestações. O fascismo, segundo Paxton, caracteriza-se pelo nacionalismo exacerbado, ataques a inimigos tácitos e explícitos sem respeito ao devido processo legal, uma certa obsessão em dizer que a nação em questão declinou e a crença de que o país precisa de um líder forte. Todas essas características estão presentes nos comícios e discursos tanto de Trump quanto dos camisas amarelas. A comparação entre os dois movimentos políticos, feita por Glenn Greenwald não é descabida. Afinal de contas, o ovo da serpente está sendo chocado no mundo inteiro.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O golpe frio

No sábado passado a revista alemã Der Spiegel se referiu à tentativa de destituir a presidenta Dilma Rousseff como um Kalter putsch ou golpe frio. Ao contrário do golpe civil-militar de 1964, que ocorreu tão às pressas que pegou todos de surpresa, o golpe de estado atual vem sendo extremamente calculado. Desde 2003 a grande imprensa atua como um partido de oposição (algo que já foi confirmado até pela própria presidenta da Associação Brasileira de Jornais), tentando destruir a imagem de Lula e do PT, criminalizando-os com provas falsas e fontes duvidosas que jamais apareceriam na maior revista alemã, mas que aparecem na maior revista brasileira.

Ciente da perseguição da grande mídia ao PT, o juiz federal Sérgio Moro entrou em cena para o último ato: seria ele o personagem responsável por aplicar o último golpe ao partido. Sob o pretexto de investigar um mega esquema de corrupção na Petrobrás, que data do governo FHC, armou um circo midiático responsável por jogar amplos setores da população contra o PT. Nos protestos insuflados pela mídia, adivinhe só, Moro é aclamado como o herói salvador do Brasil, embora receba um salário muito maior que o da presidenta supostamente corrupta que ele combate (o que é ilegal). Segundo a Al Jazeera, "a estratégia de Moro começou há uma década, antes mesmo do início da Operação Lava Jato".

Em 2004 o juiz paranaense escreveu um artigo em tom elogioso sobre a Operação Mani Pulite (Mãos Limpas), que destruiu os principais partidos políticos italianos sob o pretexto de combater a relação deles com a máfia. O que se seguiu foi uma descrença generalizada da população com os políticos tradicionais e a eleição de um magnata da mídia —Silvio Berlusconi— que, aí sim, institucionalizou a corrupção no governo. Segundo a BBC, após a Mãos Limpas a corrupção na Itália ficou ainda mais sofisticada e difícil de ser combatida. Só um imbecil para achar que no Brasil seria diferente. Sem uma reforma do financiamento de campanha, nada mudará em nosso país como não mudou na Itália. Pode destruir todos os partidos que a corrupção não acabará.

A impressão que eu tenho, no entanto, é que Sérgio Moro não deseja combater a corrupção. Se eu ainda acreditava nisso, as dúvidas se dissiparam na semana passada quando, tomado pela raiva de não poder mais investigar Lula, ele agiu acima da lei e divulgou ilegalmente um áudio que atrapalharia a posse do ex-mandatário como ministro-chefe da Casa Civil. Por ter captado a presidenta da República, o grampo não poderia ter sido divulgado sem a permissão do STF. Estranhamente, no dia seguinte, antes mesmo da posse de Lula, um juiz do Distrito Federal já havia redigido uma liminar suspendendo-a tendo como base o grampo ilegal. Nas redes sociais da criatura, ataques os mais abjetos possíveis contra o PT.

Fui, então, pesquisar mais sobre a história do novo "herói" nacional e eis que descubro que ele foi assessor da ministra Rosa Weber durante o julgamento do mensalão no STF em 2012. Rosa é a prima de Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, e notabilizou-se por declarar, durante o julgamento, que não haviam provas contra José Dirceu, mas que condenaria-o mesmo assim porque a "literatura jurídica" permitia. Percebe-se, assim, o nível raso da assessoria jurídica prestada por Moro à ministra. Eu achava, na minha inocência, que todo mundo era inocente até provado o contrário, ou seja, que ninguém pode ser condenado sem provas. A dúvida sobre as provas livrou O.J. Simpson no "julgamento do século".

O fato é que a farsa jurídica de Moro contra o PT vem sendo preparada desde então. Ele vem ajudando a distorcer a lei para criminalizar o partido. No entanto, ele não daria conta de fazê-lo sozinho. Em seu artigo, citado pela Al Jazeera, Moro escreveu sobre o papel fundamental da mídia na consolidação da Mãos Limpas. Assim sendo, usa e é usado pela mídia para atingir o grande sonho de sua vida: entrar para a história como o cara que destruiu o PT. Fazer aquilo que o general Golbery não deu conta de fazer. O problema dele, no entanto, é que nem todo mundo está disposto a acreditar cegamente na sua benevolente luta contra a corrupção. A internet expõe sua seletividade e até mesmo quando quis se valer do "jeitinho" para continuar lecionando na UFPR enquanto assessorava Weber.

O golpe é frio, sim. Calculado e planejado meticulosamente há pelo menos dois anos, quando a seletivíssima Operação Lava Jato —que prende o petista Delcídio do Amaral e não o peemedebista Eduardo Cunha, peça-chave do golpe— começou. Mas engana-se quem pensa que a reação ao golpe será fria também. Moro criou um clima de instabilidade política e jurídica que se assemelha ao prenúncio de uma guerra civil. Seus partidários acham que ele, um juiz de primeira instância, é mais importante do que a Suprema Corte. É possível que quando Moro for reivindicar o papel de herói salvador da pátria que calculadamente construiu para si com a ajuda da mídia, sequer haverá mais pátria para aclamá-lo.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A pobreza intelectual do Brasil

O Brasil não é um país que pode ser levado a sério. Aqui é possível um indivíduo chegar ao cargo de promotor do maior estado da nação sem saber quem foi o parceiro de Karl Marx na elaboração da obra O Manifesto do Partido Comunista, estudada por cientistas políticos em todo o planeta – e sem saber usar o Google também, aparentemente. Segundo o trio de promotores que pediu a prisão preventiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira, o parceiro de Marx é Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que faleceu quando o teórico comunista tinha apenas 13 anos de idade. Embora Marx tivesse de fato sido hegeliano no começo de sua carreira, ele mais tarde abandonou a escola de pensamento do filósofo alemão mais popular de seu tempo, um idealista, para seguir o materialismo. A grosso modo o idealista julga que a realidade é abstrata, enquanto o materialista julga que ela é concreta.


Além de confundir Friedrich Engels com Hegel, os promotores referiram-se aos teóricos comunistas para fazer uma citação sem pé nem cabeça. Segundo eles, Lula envergonhá-los-ia por ter ascendido ao poder e praticado supostos malfeitos. Só que Marx considerava o processo democrático burguês viciado e incapaz de atender às demandas da classe operária. Segundo Vladimir Lênin em O Estado e a Revolução, "Marx compreendeu a essência da democracia capitalista esplendidamente quando (...) disse que aos oprimidos é permitido, de ano em ano, decidir em quais representantes específicos da classe opressora deverão ser eleitos para representá-los e reprimi-los no parlamento". Há, na esquerda, quem critique o PT por ter entrado no jogo da democracia burguesa, ou seja, por ter se deixado corromper pelo sistema viciado que desejava implodir. O PT agora faz parte desse sistema e dificilmente seira considerado por Marx como um instrumento da revolução operária.

Em outro momento a peça jurídica faz uma citação a Friedrich "Nietszche" – sim, Nietzsche é um nome difícil de escrever, mas é para isso que existe o Google! Os promotores tentam resumir a obra teórica de Assim Falou Zaratustra num pequeno parágrafo com o intuito de afirmarem que Lula deve ser investigado porque ele não está acima da lei – ao contrário do chato da propina, Aécio Neves. Nietzsche, assim como Marx, desprezava a democracia moderna. Ele também julgava que o conceito de igualdade era supervalorizado, sendo que alguns consideram sua obra precursora da eugenia. Em seu livro, Nietzsche apresenta o conceito de "super-homem" (Übermensch), o indivíduo ideal para ele. Trata-se de alguém que não segue os valores morais da maioria cristã, está acima do bem e do mal e não se deixa levar pelo comportamento de manada. Não conheço a obra do filósofo alemão em profundidade, apenas fiz uma pesquisa rápida na internet, o que aparentemente não ocorre no MP-SP.

Sim, Lula não é um "super-homem", como brilhantemente concluíram os autores da peça jurídica, mas ninguém também é, porque aquilo que Nietzsche apresenta em sua obra é um ideal e não algo concreto – falamos sobre isso no final do primeiro parágrafo. Além das liberdades filosóficas, os promotores pedem a prisão de Lula porque impressionantes 20 pessoas disseram que ele é o dono do apartamento do Guarujá. No entanto, não conseguem demonstrar, em momento algum, a ligação direta ou indireta de Lula com o imóvel. Não há prova de que ele seja o dono do local. É como o The New York Times publicou na manhã da mesma sexta-feira fatídica: "Não está claro quais são as acusações específicas" contra Lula. No Direito brasileiro, primeiro se acusa e depois se prova. Talvez se os promotores tivessem de fato lido "Nietszche", teriam aprendido que seguir a manada que quer o justiçamento de Lula não faz parte do comportamento ideal do ser humano.

O que mais me impressionou nessa história toda foi que três promotores escreveram essa aberração jurídica – que já foi desmerecida até mesmo pelo garoto-propaganda do golpe, Kim Kataguiri, que deve conhecer tanto de Direito quanto eu. Será que eles não tiveram aula de Ciência Política ou de Filosofia na faculdade? O concurso que prestaram para ingressar no MP-SP não trazia questões dessas matérias? Há um bom tempo venho sendo crítico das faculdades de Direito do Brasil, que formam analfabetos funcionais que reproduzem o senso comum – e, portanto, as injustiças sociais que prevalecem desde sempre –, mas na última sexta-feira tive a certeza de que o modelo de ensino do Direito no país precisa mudar. Se quisermos ser um país sério, precisamos de acusadores, defensores e julgadores, ou seja, operadores de Direito, sérios. Não dá para continuar delegando funções essenciais para o funcionamento da democracia para qualquer um que decora uma apostila e passa numa prova. 

Talvez de todas as pobrezas que afligem o Brasil, a pobreza intelectual seja a pior, pois é ela que sustenta todas as demais. Como se espera que um operador da Justiça seja justo se ele sequer conhece o básico sobre aquilo que grandes pensadores da humanidade escreveram sobre a justiça social? Não quero que os alunos de Direito saiam da faculdade prontos para fazer a revolução comunista. Quero apenas que saibam quem foi Marx e Engels – o que propunham, como propunham, quando propunham, onde propunham e por que propunham. Do mesmo jeito que quero que saiam de lá sabendo o mínimo sobre a obra de Nietzsche e Hegel. Não se trata de doutrinação. Se trata de conhecimento. Talvez seja por falta de conhecimento que parcelas cada vez maiores dos brasileiros sucumbam tão facilmente a discursos claramente fascistas, como o de algumas pessoas que saíram às ruas ontem pedindo o retorno da ditadura militar. A pobreza intelectual ainda vai nos matar enquanto fingimos conhecimento citando Marx e Engels e "Nietszche" erroneamente.

terça-feira, 8 de março de 2016

"Os judeus elegeram Hitler"

Adoro um título provocativo. Este, no entanto, aparece entre aspas por se tratar da fabulação mais incrível que eu já ouvi em toda a minha breve existência. No final do ano passado o professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Karnal escreveu que jamais imaginou que ouviria um impropério tão grande quanto aquele que ouviu no ano da Primavera Amarela, segundo o qual o nazismo é uma ideologia de esquerda. Tal teoria, marginal até o surgimento do Tea Party nos Estados Unidos e amplamente difundida através das redes sociais, já é antiga conhecida minha. Desde os tempos de Orkut ouço, ou melhor, leio isso. O que realmente me chocou na versão atual do Festival de Besteiras que Assola o País foi ouvir que os judeus elegeram Adolf Hitler para o cargo de chanceler da Alemanha. Esta teoria encontra eco em fóruns de discussões de "orgulho branco" (me recuso a ligar os links aqui e sujar meu blog com literatura pseudo-científica), que tentam responsabilizar os judeus, de uma forma ou de outra, pelo seu próprio genocídio.

Que a neodireita brasileira não presta atenção alguma nas aulas de História do Ensino Médio já tornou-se uma constatação inegável até mesmo para a direita erudita, envergonhada das faixas erguidas pelos camisas-amarelas nos protestos anti-PT. Entretanto, reimaginar acontecimentos históricos eleva a histeria para o nível do delírio; é como querer provar que 2 + 2 = 5. A despeito do que os membros do Partido orwelliano (que cresce como nunca antes no Brasil) possam pensar, o que já aconteceu – e, portanto, já foi historicamente testado e provado – é uma realidade concreta que não pode ser mais passível de modificações. A opinião pessoal do historiador é nula quando os fatos históricos são documentados. Pode-se divergir, por exemplo, do número total de mortos nos campos de concentração, mas o que os registros históricos da Alemanha Nazista mostram são campanhas de internação compulsória das populações vistas como inferiores, assim como fotos e vídeos feitos pelos Aliados mostram milhares de corpos empilhados em Auschwitz e demais abatedouros de seres humanos.

No Hospital Judeu de Berlim, onde nem todos os pacientes eram
judeus, os sociais democratas tiveram 44% dos votos em 1932
.
Que parte significativa da classe trabalhadora brasileira vota contra seus próprios interesses já é de conhecimento até do mundo mineral. Sim, Dilma traiu os operários que reelegeram-na. Não nego isso. Mas trocar o PT pelo Jair Messias Bolsonaro (esse é o nome dele) não me parece a atitude mais sensata a ser tomada pelos membros da classe oprimida. Mas isso é recorrente na História brasileira. Antes mesmo do PT virar a fonte de todo o mal e o bode expiatório da corrupção na política, o falecido cantor e compositor Tim Maia já havia cunhado um dos grandes aforismos nacionais: "o Brasil é o único país do mundo em que prostituta apaixona, cafetão sente ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita". Parece-me que inventar (ainda mais uma) fábula sobre os judeus ajuda os brasileiros pobres a racionalizarem sua escolha suicida pela extrema-direita. Acreditando nessa fábula podem votar em quem quer exterminá-los sem culpa ou remorso. Afinal de contas, até mesmo os judeus teriam feito isso! Só que o fato é que eles não fizeram. É o que dizem pesquisadores que ouviram sobreviventes do Holocausto e cruzaram dados censitários e eleitorais da Alemanha pré-Hitler.

Segundo The Jews in Weimar Germany, obra de Donald L. Niewyk, professor de História contemporânea da Europa na Universidade Metodista do Sul (EUA), "com o desaparecimento de quase todos os partidos moderados de classe média durante a Grande Depressão, os votos (e o dinheiro) dos judeus ficaram disponíveis. Os principais competidores eram os partidos de Centro e Social Democrata, ambos com histórico de apoio ao sistema republicano e de denúncia da judeofobia". Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o controle da Alemanha, o Partido de Centro, de orientação católica, fez campanha para conseguir o voto dos judeus, afirmando não se opor à educação religiosa num cenário cada vez mais laico. Segundo Niewyk, "a resposta foi positiva num amplo espectro da opinião judaica". O principal jornal da comunidade judaica, Israelitisches Familienblatt (Jornal da Família Israelita), fez editoriais a favor do partido, assim como organizações sionistas. No entanto, "a ligação do Partido de Centro com sionistas proeminentes pode ter prejudicado suas chances com os judeus de esquerda, que eram bem mais numerosos", alerta o pesquisador.

Sim, os judeus alemães eram de esquerda, mas não eram comunistas. Outra ideia amplamente divulgada nos fóruns de "orgulho branco" é que os judeus teriam causado o colapso da Alemanha ao votarem em massa no Partido Comunista, o que também não é verdade. "Os adultos judeus moveram-se para a esquerda moderada durante os últimos anos da República de Weimar", escreve Niewyk, que em seguida afirma que os jovens judeus foram atraídos pelo Partido Comunista. A reação dos grupos sionistas foi forte e orquestrada. Começaram a alertar os jovens para o perigo da "assimilação vermelha" e para os horrores cometidos contra os judeus por Josef Stálin – à época o líder soviético apostava numa campanha antissemita para perseguir o dissidente Léon Trotsky e seus seguidores. O editor do Israelitisches Familienblatt, Esriel Carlebach, foi vítima de uma tentativa de assassinato em 1933 após escrever uma série de artigos críticos ao tratamento dispensado pela URSS aos judeus; ele havia visitado o país no verão de 1932. Embora jamais tenha ficado claro se o perpetrador do ataque foi um comunista ou um nazista, este fato acabou afastando os eleitores judeus dos comunistas.

Pôster associando o comunismo ao judaísmo.
Niewyk nota que foi a esquerda moderada a responsável por eleger e nomear os primeiros funcionários públicos judeus. Pouco antes do colapso da República de Weimar os comunistas deixaram de apresentar candidatos judeus ao Parlamento. Foi uma forma que encontraram de contradizer a propaganda nazista, segundo a qual os judeus haviam se aliado aos bolcheviques para tomar o controle do mundo. Vendo-se preteridos pela extrema-esquerda e perseguidos pela extrema-direita, os judeus encontraram no Partido Social Democrata seu porto seguro. "O Partido Social Democrata, prejudicado perenemente [entre a esquerda] por cultivar uma imagem mais radical do que suas políticas,  conseguia o apoio dos judeus ao manter o proletariado relativamente livre do antissemitismo e por combater os nazistas mais militantemente do que qualquer outro", afirma Niewyk. Ele nota que o jornal ortodoxo Der Israelit (O Israelita), que até 1930 condenava o socialismo por causa de sua ligação com o ateísmo, aplacou o tom de suas críticas e, em 1932, recomendou voto no Partido Social Democrata ou no Partido de Centro.

Outro dado interessante é uma pesquisa feita por Arnold Paucker com cerca de cem sobreviventes judeus do Holocausto, a maioria dos quais haviam sido apoiadores de classe média do Partido Democrático até o declínio deste em 1930. Os resultados sugerem que, após 1930, cerca de 62% dos eleitores judeus votaram no Partido Social Democrata, enquanto 19% votaram no Partido do Estado (ex-Partido Democrático) e 5% no Partido de Centro. O pesquisador alerta que não conseguiu localizar um grande contingente de judeus da Bavária e que os habitantes de fé judaica deste estado conservador podem ter votado em massa no Partido do Povo da Bavária tanto antes quanto após o pleito de 1930. Niewyk, interpretando os dados da pesquisa do colega historiador, afirma que a falta de judeus de classe alta na pesquisa pode indicar que o católico Partido de Centro teve na verdade mais votos entre os judeus do que Paucker indicou. Isto nos leva até os dados de outro pesquisador, Peter Pulzer, que cruzou dados censitários e eleitorais. Ele confirma a preferência dos judeus pelo Partido Democrático até 1930 e afirma que os judeus ortodoxos e de áreas rurais preferiam o Partido do Povo da Bavária e o Partido de Centro durante os anos 1920. 

Pulzer analisou os resultados eleitorais de dezenove distritos onde os judeus constituíam uma maioria significativa segundo o Censo alemão – em especial nas cidades de Berlim, Frankfurt-am-Main e Hamburgo. Ele afirma, com a ressalva de que é difícil separar o votos dos judeus e dos gentios, que a minoria etno-religiosa continuou apoiando o Partido do Estado nas eleições locais, mas, ameaçados pela ascensão de um partido claramente antissemita ao poder central, passaram a apoiar o Partido de Centro e o Partido Social Democrata nas eleições federais. Niewyk escreve que, conforme indica Pulzer, a resposta dos judeus ao declínio da democracia e à ascensão do nazismo foi qualquer coisa menos irracional. Sim, eles subestimaram e interpretaram errado as ideias de Adolf Hitler, mas todo mundo na época também fez isso (muitos acreditavam que seus discursos antissemitas eram apenas retórica eleitoral). A título de curiosidade, vale notar a existência de uma Associação Alemã de Judeus Nacionalistas, que defendia a assimilação dos judeus pela cultura alemã. Posteriormente o grupo apoiou Adolf Hitler, mas sempre foi pouco significativo. Segundo a Wikipédia, tinha pouco mais de 3.500 membros num universo de 522.000 judeus (menos de 0,7% do total).

"Se ainda há quem imagine que os judeus alemães foram politicamente complacentes [com o nazismo], que fugiram para um mundo de fantasia onde o racionalismo iluminado e a simbiose perfeita reinavam, este livro deve convencê-los do contrário" – Niewyk, em resenha do livro de Pulzer.

De fato os judeus votaram em massa em Adolf Hitler – depois
que já estavam em Dachau.
É perfeitamente compreensível que alguns judeus tenham tentado assimilar a ideologia nazista como forma de escapar da perseguição oficial do Estado alemão. Uma matéria do jornal norte-americano The New York Times, datada de 20 de agosto de 1934, aponta isso. Com a morte do presidente Paul von Hindenburg no início daquele mês, Hitler realizou um plebiscito perguntando ao povo alemão se os cargos de presidente e chanceler deveriam ser unificados, o que lhe daria controle absoluto sobre o Estado alemão. "Cada opinião contrária foi suprimida", relata o correspondente do jornal, e Hitler foi sagrado führer da Alemanha com 90% dos votos. "Uma cédula continha a inscrição: 'como nada aconteceu comigo até agora, voto sim'. Estava assinada: 'não-ariano'." Não me parece o voto de um cidadão politizado e consciente, mas sim o voto de protesto irônico de um cidadão com tanto medo que sequer assinou a cédula. Os votos "sim" foram imensamente populares nas instituições judaicas. "Isso é explicável, é claro, pelo medo de repressão caso o resultado fosse diferente", diz o jornal, antes de afirmar que a maior votação de Hitler na Bavária havia sido no campo de concentração de Dachau.

Dito tudo isso, prefiro acreditar nas palavras dos professores Niewyk e Pulzer, assim como no correspondente do New York Times que esteve em Berlim para acompanhar a votação do plebiscito de 1934, do que em alguém que acredita em tudo aquilo que lê no Facebook. Numa época em que a comunicação se tornou extremamente rápida e eficiente, as palavras parecem sair da mente e se materializar na tela do computador sem reflexão alguma. O debate político agora se resume a 140 caracteres cheios de frases de efeito (as hashtags). Nesse cenário, explica-se porque um dado histórico falso é divulgado sem maiores questionamentos. É feio fazer a Glória Pires e assumir a falta de conhecimento em determinado assunto. Somos obrigados a opinar sobre tudo e, assim sendo, tornamo-nos especialistas em tudo sem sabermos absolutamente nada. Mas o problema é que é bem ofensivo dizer que milhões de judeus morreram porque eles mesmos teriam votado em Hitler como uma massa de manobra acéfala e suicida. Se é isso que desejam que os brasileiros façam, assumam. Não há necessidade de promover seu anseio às custas de 6 milhões de almas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Brasil: um museu de grandes novidades

Cada vez mais a história recente do Brasil lembra a da República de Weimar. Este é o nome não-oficial dado à Alemanha entre a queda da monarquia em 1918-19 e a ascensão de Adolf Hitler em 1933. Ontem foi divulgada uma nova pesquisa para a eleição presidencial de 2018. Nela, o ícone da extrema-direita Jair Bolsonaro (PP-RJ) aparece com intenção de voto maior do que Ciro Gomes (PDT-CE), que em tese seria um nome mais conhecido do eleitorado, tendo sido ministro dos governos Itamar Franco e Lula e duas vezes candidato a presidente. Venho alertando para o crescimento do candidato da extrema-direita já há algum tempo. Entretanto, a esquerda prefere subestimá-lo, tratando-o como uma piada, como um personagem extremista demais para ser eleito. Jean-Marie Le Pen também era visto como uma piada, extremista demais para ter alguma chance dentro do jogo tradicional da política francesa. Em 2002, no entanto, emergiu para o segundo turno da disputa presidencial francesa, chocando a centro-esquerda e a direita moderada, que volta e meia deixa suas diferenças de lado e forjam coalizões para evitar a vitória da Frente Nacional.

A luta fratricida entre SPD e KPD levou à
morte de Rosa Luxemburgo e inviabilizou
uma aliança entre os partidos até 2001.
Desde meados do ano passado digo que Bolsonaro deve ter cerca de 15% dos votos em 2018. Um percentual comparável àquele obtido por Adolf Hitler, que também era subestimado pela esquerda, em 1930. O grande percentual de votos obtido pelo Partido Nazista tirou o Partido Social Democrata (SPD) do poder. Criado no final do século XIX por simpatizantes de Karl Marx, o SPD promoveu reformas tímidas a favor dos trabalhadores sem reformar a estrutura do Estado alemão. Chegou a defender a monarquia quando viu que tinha chances reais de eleger o chanceler. Em 1918, no entanto, com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, aliou-se a monarquistas revoltados e tomou o poder, proclamando a República na cidade de Weimar (daí o nome). Foi aí que surgiu o Partido Comunista (KPD), que defendia uma revolução mais profunda. Durante a revolução de 1919, o SPD se aliou aos anticomunistas para garantir a estabilidade do novo regime, o que levou ao assassinato de Rosa Luxemburgo. Isto inviabilizou uma aliança SPD-KPD por décadas. Em 2001 Klaus Wowereit, então prefeito-eleito de Berlim, forjou uma aliança do SPD com o Die Linke, sucessor do KPD.

O relativo sucesso dos nazistas na eleição de 1930 pode ser explicado por dois fatores: a incapacidade do SPD em lidar com a crise de 1929 e o fim dos ataques da imprensa ao gênio louco que era Adolf Hitler. Assim como no Brasil atual, o último governo de centro-esquerda da República de Weimar foi marcado pela falta de maioria no parlamento, o que obrigava o chanceler Hermann Müller a fazer concessões à direita e impossibilitava-o de enfrentar a crise econômica. Os direitistas, em especial ex-militares, culpavam uma conspiração de socialistas e minorias étnicas (judeus e polacos) pelos problemas econômicos do país. Discurso que começa a ganhar força aqui. A imprensa viu nesse discurso perigosíssimo a oportunidade de tirar o SPD do poder. Hitler forjou uma aliança com o magnata da imprensa e político Alfred Hugenberg, cujos jornais pararam de atacá-lo. Os nazistas passaram de 2,6% para 18,25% dos votos. Prevejo cenário semelhante em 2018: a mídia brasileira – tão oligopolizada quanto a alemã era – não atacará Bolsonaro porque ele é útil para seu plano de tirar o PT do poder. Não vai exaltá-lo, pois finge ser democrática, mas também não o atacará.

Prevejo também a esquerda mais radical do país culpando o PT pela ascensão da extrema-direita, assim como o KPD culpava o SPD pela ascensão do nazismo. Embora o PT nunca tenha perseguido e provocado a morte de dirigentes do PSOL, as divergências entre os dois partidos permanecem tão fortes quanto as de social-democratas e luxemburguistas. Assim como alguns no PSOL hoje falam do PT, os membros do KPD encaravam o SPD – e não o Partido Nazista – como o maior inimigo da classe trabalhadora. Entendo perfeitamente de onde vem essas críticas. O PT se apresenta como revolucionário no Horário Eleitoral e atua como o PSDB light no poder. Enganou a classe trabalhadora. Mas o próprio PSOL também está sendo vítima da encruzilhada anti-PT. O partido teve seu único prefeito, de Itaocara-RJ, cassado sem nenhum motivo legal aparente, assim como Franz von Papen depôs o governo de esquerda da Prússia para agradar os nazistas. E isso foi só o começo. Ninguém ficará a salvo da sanha anti-esquerdista. Nem mesmo Marina Silva, que se julga acima das ideologias. Em 2014 mesmo ela começou a ser atacada pela direita hidrófoba por ter pertencido ao PT até 2009. 

O atentado ao Reichstag, praticado pelos próprios nazistas
teve sua culpa atribuída ao KPD, o que justificou a aplicação
da cláusula anti-terrorismo da Constituição por Hitler.
Com a aprovação da mal-fadada lei "antiterrorismo" ficará ainda mais fácil criminalizar tanto o bloco PT/PCdoB quanto o PSOL. A Alemanha também reprimia duramente os "terroristas" (só os de esquerda, porém) durante a República de Weimar. Sua Constituição permitia a suspensão dos direitos individuais em situações que o próprio governo definia como sendo "de emergência". Foi esse dispositivo legal que permitiu a Hitler dar início a seu regime de exceção, tendo como justificativa o "atentado terrorista" no prédio do Reichstag, supostamente praticado por membros do KPD. Ele suspendeu direitos individuais e todos os partidos políticos valendo-se da própria ordem legal estabelecida. A lei aprovada no Congresso Nacional repete o dispositivo constitucional alemão e pode acabar sendo usada para fins absolutamente estranhos àqueles que o legislador imaginou ao criá-la. Enquanto isso, o PT tenta defender as concessões indefensáveis que Dilma Rousseff pratica para tentar se manter no poder e o PSOL, megalômano, crê ter musculatura o suficiente para reverter a guinada conservadora da sociedade sozinho.

No entanto, equivoca-se quem acha que a direita já estabelecida é a principal beneficiária do atual caos político. De maneira semelhante à Alemanha dos anos 1930, a direita parlamentar também perde espaço para a direita marginal. Mesmo que o PSDB consiga eleger o presidente em 2018, o partido vai se deteriorar no poder de forma muito mais rápida do que o PT, em especial se a crise econômica prevalecer. Os tucanos não vão conseguir "arrumar a economia" tão rápido quanto prometem e, como já provaram no passado, vão tentar fazê-lo às custas do povo, já irritado. Isso vai revoltar parte significativa de sua base eleitoral, que vai cair de bandeja nas mãos de Bolsonaro. É algo que a crise econômica mundial vem provocando nas principais economias do mundo: a descrença com os representantes da política tradicional ou, como preferem dizer alguns analistas políticos, "o fim do centro político". Tanto Donald Trump quanto Bernie Sanders, por exemplo, definem-se como políticos anti-establishment. É assim que os eleitores de Bolsonaro vêem seu "mito", como um outsider da política, embora ele já esteja no Congresso há 30 anos.

Seria o povo brasileiro os ratos de Hamelin?
Por tudo o que foi dito acima, dói conhecer a História. Aqueles que conhecem-na vêem os que não a conhecem – que são a grande maioria atualmente – repetindo-a sem poder fazer nada. Como convencer uma pessoa que sequer ouviu falar de Mein Kampf que ela está caindo no discurso de um flautista de Hamelin que vai conduzir a todos nós para o abismo? A sensação de impotência é enorme. Mesmo aqueles que presumivelmente conhecem a História repetem-na. As concessões de Dilma à direita para tentar agradar à elite que quer derrubá-la e criminalizar o PT também foram tentadas, sem êxito, pelo SPD, que com isso traiu por completo o ideal de seus fundadores e perdeu para sempre o apoio da classe trabalhadora. A recusa do PSOL em aliar-se estrategicamente com o PT para evitar a ascensão de um mal maior se assemelha à recusa do KPD em compor com o SPD por orientação da Comintern. Não é à toa que pipocam nas redes sociais, desde o ano passado, páginas antifascistas que têm como símbolo o círculo idealizado pelo SPD no crepúsculo da República de Weimar.

Às vezes sinto como se a História se repetisse num loop constante. "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades", já dizia o poeta. Espero, do fundo do meu coração, estar errado. Não sou nenhum cientista político, mas cada vez mais vejo o destino da República de Weimar se repetir aqui no Brasil. Até grupos monarquistas lutando contra a ordem democrática nós também temos! Em escala bem menor, é claro, mas mesmo assim temos. Sem falar na adesão ao discurso genocida por parte das próprias vítimas deste. Há hoje no Brasil negros apoiando a extrema-direita, assim como haviam judeus anticomunistas apoiando Hitler na Alemanha. Segundo eles, a esquerda os vê como vítimas enquanto a direita acredita em sua capacidade individual. O individualismo exacerbado, aliás, é uma característica do nazismo. O que importa é o que o indivíduo pode fazer pela sociedade e não o contrário. Sinto-me num filme de Fritz Lang. Vejo a ascensão do Dr. Mabuse através da hipnose da massa, disposta a renunciar à civilidade e adotar a violência sem questionamento. E, o pior de tudo, é que, como personagem coadjuvante, sinto que não posso fazer nada para evitar isso.