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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma

A grande mídia adora encomendar pesquisas, mas nunca traduz direito para seu público os números que ela mesma encontra nessas sondagens. Talvez por que não seja do seu interesse fazer uma manchete dizendo "PSDB perde 24 milhões de eleitores em quatro anos". Pois bem, me propus a fazer o serviço que as redações dos grandes jornais não fazem com os dados que têm em mãos. Considerando a média das pesquisas Datafolha (29—30/11), DataPoder 360 (8—11/12) e Paraná Pesquisas (18—21/12), cheguei aos seguintes percentuais de intenção de voto em cada um dos principais candidatos à presidência da República em 2018:

Lula (PT): 30%
Bolsonaro (PSL): 20%
Marina (Rede): 8,5%
Alckmin (PSDB): 7%
Ciro (PDT): 5,5%

Outros nomes testados pelos institutos de pesquisas — como os do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (sem partido), o do senador Álvaro Dias (Podemos), o do ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSDB), o do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) e o do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) — teriam, juntos, 11,7% dos votos. Isso faria com que uma média de 82,7% dos eleitores pesquisados decidissem pelo voto válido na próxima eleição. A soma de votos brancos e nulos e abstenções chegaria a 17,3% do eleitorado.

Faltou combinar com o povo. Apesar do fim do PT ter sido
anunciado diversas vezes, Lula teria 1,6 milhões de votos a
mais do que Dilma se a eleição fosse hoje.
E, por falar em eleitorado, foi preciso fazer uma estimativa deste para chegar ao número exato de votos que cada candidato a presidente teria caso a eleição de outubro ocorresse hoje. Em 2016, ano das últimas eleições municipais, o Brasil tinha 144.088.912 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número cresceu 4% em relação àquele de 2014. Se o número de eleitores em 2018 também apresentar um crescimento de 4% em relação ao de 2016, teremos em nosso país, no próximo mês de outubro, 149.852.466 eleitores aptos a votar. Lembrando que este número é uma estimativa. Pode ser maior ou menor no dia da eleição, após os eleitores regularizarem (ou não) sua situação junto à Justiça Eleitoral.

Vamos então aos números. Se as pesquisas estiverem certas e as eleições fossem hoje, teríamos o seguinte resultado no primeiro turno:

Lula (PT): 44.955.740
Bolsonaro (PSC): 29.970.493
Marina (Rede): 12.737.459
Alckmin (PSDB): 10.489.673
Ciro (PDT): 8.241.886


Os demais candidatos teriam, juntos, 17.532.738 votos. Isso significa que 123.927.989 eleitores fariam sua escolha pelo voto válido, o que representaria 82,7% do eleitorado total. Votos brancos e nulos e abstenções seria a escolha de 25.924.477 eleitores ou 17,3% do total.

Fazendo a ressalva de que não é possível, pela metodologia de alguns dos institutos, diferenciar o voto nulo e branco da abstenção, teríamos o seguinte percentual de votos para cada candidato:

Lula (PT): 36,27%
Bolsonaro (PSL): 24,18%
Marina (Rede): 10,28%
Alckmin (PSDB): 8,46%
Ciro (PDT): 6,65%
Outros candidatos: 14,15%

Em relação ao primeiro turno de 2014, teríamos que o candidato do PT teria um percentual menor de votos do que Dilma Rousseff, mas ainda assim Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma. Marina Silva, por sua vez, reduziria se percentual de votos pela metade e teria 9,4 milhões de votos a menos do que em 2014. Já o candidato do PSDB apresentaria uma queda de 25 pontos em relação ao percentual obtido por Aécio Neves em 2014. Em números absolutos, Geraldo Alckmin teria 24,4 milhões de votos a menos do que o senador mineiro. Não é possível traçar um paralelo entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, visto que seus partidos não lançaram candidatos em 2014.

Parece ter ocorrido uma pulverização do apoio às forças hegemônicas da política brasileira nos últimos 16 anos — mais acentuado no PSDB do que no PT. Isto se reflete pela grande quantidade de candidatos que se apresentam à população. Esta deve ser a eleição com mais candidatos desde o pleito de 1989, o primeiro após o fim da ditadura militar e que contou com 22 candidatos, inclusive o próprio Lula. Os candidatos de partidos menores conquistariam cerca de 17,5 milhões de votos se a eleição fosse hoje. Um aumento de quase 14 milhões em relação a 2014. Com mais candidatos na disputa, a abstenção e a soma de votos bancos e nulos deve cair, sendo a opção de 13 milhões a menos de eleitores brasileiros em 2018 em relação a 2014.

Num cenário de pulverização dos partidos tradicionais,
Jair Bolsonaro desponta em segundo lugar nas pesquisas.
Contanto, este é um retrato do cenário atual. Embora já tenha voltado suas baterias contra Lula, Bolsonaro e, mais recentemente, Ciro Gomes, a grande mídia ainda não começou sua tradicional campanha a favor do candidato do PSDB ou de qualquer outro partido liberal que lhe agrade ainda mais que o governador paulista Geraldo Alckmin. Este, por sua vez, demonstrou-se demasiadamente fraco no pleito de 2006, uma eleição que, segundo o relato de seu biógrafo Richard Bourne, o próprio Lula considerava perdida para o PSDB. Desanimado, o ex-presidente sequer engajou-se em sua própria campanha, tendo até mesmo faltado aos debates do primeiro turno na televisão.

De qualquer forma, estes dados são interessantes para a confirmação ou negação de algumas hipóteses que tem sido ventiladas desde o início da atual crise sociopolítica no país. A ascensão da extrema-direita de Jair Bolsonaro às custas dos liberais é uma delas. Tucanos e seus aliados atacaram as políticas do Estado brasileiro durante os 13 anos dos governos petistas, imaginando que colheriam os frutos disso, mas pavimentaram o caminho para reacionários que desejam ver implementado o conservadorismo não só na política econômica. O centro político — tanto a centro-esquerda representada pelo PT quanto a centro-direita representada pelo PSDB, passando pelo fisiologismo do PMDB — está em baixa e Bolsonaro parece ter tirado votos até mesmo da moderada Marina Silva. Antes, quem estava cansado da polarização PT—PSDB votava na centrista. Hoje, num precedente perigoso para a democracia brasileira, vota num radical de direita.

Mesmo com a desintegração de partidos e políticos tradicionais, exemplificado pela ascensão de Bolsonaro e diversos candidatos de partidos pequenos, o suposto fim do PT, anunciado diversas vezes na capa da Veja, parece estar longe de ocorrer. Escorado na figura de seu eterno líder, o partido ainda possui o potencial para conquistar quase 45 milhões de votos. Embora acossado por diversas denúncias e uma condenação na Lava Jato que pode lhe tirar da disputa, Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma se a eleição fosse hoje. Se a ascensão do fascismo ou o favoritismo do PT vão se manter uma vez que a campanha começar e a pregação pró-liberalismo da grande mídia e seus reprodutores nas redes sociais se intensificar são questões que só o tempo dirá. Entretanto, o cenário atual e com o qual políticos e militantes deveriam trabalhar, é o de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dilma e a lei

Sim, o impeachment está previsto na Constituição Federal. No artigo 85, para ser mais preciso. Este trecho da Carta Magna trata dos crimes de responsabilidade do presidente da República, os únicos pelos quais o mandatário pode ser cassado pelo Congresso (crimes comuns devem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal). Porém, os deputados constituintes determinaram que os crimes de responsabilidade que justificam a destituição do presidente deveriam ser definidos por uma lei especial, o que simplesmente não existe no nosso ordenamento jurídico. Nos últimos 28 anos, os membros do nosso eficientíssimo Congresso Nacional não criaram tal lei, sendo que o processo de impeachment atual contra a presidenta Dilma Rousseff deverá ser regido, em parte, pela lei federal N° 1.079 de 1950. "Como o impeachment não é cogitado com frequência,  o Congresso Nacional não se preocupou em adaptar o procedimento previsto na Lei n. 1.079/50 aos novos ditames constitucionais", argumentou o PCdoB em pedido ao STF para anular a eleição secreta para a escolha dos membros da comissão do impeachment.

Uma oportunidade para regulamentar o processo de impeachment veio em 1992, após o processo que levou à renúncia de Fernando Collor, mas a Câmara dos Deputados se limitou a promover algumas alterações em seu regimento, esquecendo-se de sua obrigação constitucional de criar regras para o processo de impeachment. Apesar dos 38 anos que os separam, tanto a lei 1.079/50 quanto o artigo 85 da Constituição definem como crimes de responsabilidade os atos do presidente que atentem contra a Constituição e, em especial, a existência da União, o livre exercício dos demais poderes federais e estaduais, o exercício dos direitos individuais e político-sociais, a segurança interna do país, a probidade administrativa, a lei orçamentária e o cumprimento das leis e das decisões judiciais. Nesse aspecto, a redação dos textos é praticamente idêntica. A única diferença é que a lei 1.079/50 também define como crime de responsabilidade o atentado à guarda e ao emprego do dinheiro público. Justamente o item que mais caberia na tese de que pedalada fiscal é crime não pôde ser utilizado porque não consta da Carta Magna.

Assim sendo, os formuladores do pedido de impeachment — dentre os quais estão um ex-petista ressentido com Lula pelo fato deste não ter-lhe convidado para ser Ministro da Justiça — argumentam que Dilma teria atentado contra a lei orçamentária. Citam os incisos 6, 7, 8 e 9 do artigo 10 da lei 1.079/50. Nestes incisos está escrito que o governo não pode realizar operação de crédito com outros órgãos da Administração Pública sem base na lei orçamentária. Os autores do pedido de impeachment parecem desconhecer a definição de operação de crédito, que é, segundo o site do Ministério da Fazenda, o "levantamento de empréstimo pelas entidades da administração pública, com o objetivo de financiar seus projetos e/ou atividades, podendo ser interna ou externa". O que ocorreu no caso das pedaladas fiscais não foi um empréstimo: o governo atrasou o repasse de verbas públicas aos bancos estatais. O governo não possuía dinheiro em caixa para transferir os recursos do Bolsa Família à Caixa, daí o banco pagou o benefício e recebeu o montante referente ao programa mais tarde. A grosso modo, foi isso que ocorreu.

Em momento algum o governo emprestou dinheiro à Caixa. Se o Tribunal de Contas da União — numa manobra suspeita, que parece tomada sob medida para os defensores do impeachment — mudou sua jurisprudência em 2015, depois de décadas aceitando a prática das pedaladas, então essa nova jurisprudência só vale a partir do ano fiscal de 2016. Uma vez que o impeachment provoca uma ruptura muito forte na instituição da presidência, os crimes de responsabilidades não podem ter interpretação ampla. Conforme escrevem Tavares e Prado, "os crimes de responsabilidade não são infrações administrativas abertas que possam ser preenchidas por obra da interpretação do agente sancionador". Por sua vez, Victor Cezar Rodrigues defende que "se a conduta imputada não corresponder a alguma das hipóteses previstas nesses artigos [da lei 1.079/50], seja em seus elementos objetivos ou subjetivos, não há que se falar em crime de responsabilidade". Só uma interpretação ampla igualaria dívida a empréstimo. Conforme escreve Ricardo Lodi, "um inadimplemento contratual não sofre as mesmas sanções" que uma operação de crédito, definida pelo artigo 3° da Resolução 43/01 do Senado Federal.

Dilma é uma mulher tão correta que, de todos os crimes de responsabilidade previstos na lei 1.079/59, só conseguiram pegá-la utilizando uma interpretação torta do artigo 10. Interessante contrastar o artigo 7° à fala do procurador da Lava Jato, segundo o qual a presidenta jamais interferiu nas investigações. Este sim é um crime de responsabilidade previsto pela lei, que governadores praticam a direito e a torto por todo o país. Interessante notar também que os próprios conspiradores poderiam ser cassados com base na lei que desejam usar contra Dilma. Gilmar Mendes, por exemplo, quando se reúne com políticos da oposição, fere o artigo 39, inciso 3, que determina que os ministros do Supremo Tribunal Federal cometem crime de responsabilidade quando exercem atividade político-partidária. Para tentar justificar a cassação de uma presidente sobre a qual não pesa nenhuma acusação, valem-se de um suposto atentado à lei orçamentária, mas fundamentam-se na lei de responsabilidade fiscal, a qual sequer é citada no artigo 85 da Constituição. Violar a lei de responsabilidade não é o mesmo que violar a lei orçamentária.

A lei de responsabilidade fiscal não é citada na lei 1.079/50 nem no artigo 85 da Constituição Federal. Se desejam incluí-la, os deputados oposicionistas deveriam fazê-lo pelo meio legal: aprovar uma nova lei do impeachment, já que a de 1950 não agrada-lhes. Ao usar a lei de responsabilidade fiscal para condenar um crime contra a lei orçamentária, os deputados correm o risco de desvirtuar todo o ordenamento jurídico do país. E vão fazê-lo pelo simples fato de que a popularidade da presidenta, para a qual muitos deles fizeram campanha no passado, está baixa. Como já afirmou várias vezes o presidenciável pedetista Ciro Gomes, partidos e políticos são rechaçados nas urnas. O impeachment não é — ou pelo menos não deveria ser — um instrumento político. Trata-se de um instrumento jurídico a ser utilizado apenas nos casos previstos pela lei. E, em momento algum o texto constitucional ou a lei 1.079/50 fala em pedalada fiscal. Quando Dilma e seu Ministro da Fazenda fizeram as pedaladas fiscais sequer havia jurisprudência contra elas. Por isso, o impeachment, embora previsto em lei, é, sim, um golpe. Este impeachment contra esta presidenta é um golpe.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Brasil: um museu de grandes novidades

Cada vez mais a história recente do Brasil lembra a da República de Weimar. Este é o nome não-oficial dado à Alemanha entre a queda da monarquia em 1918-19 e a ascensão de Adolf Hitler em 1933. Ontem foi divulgada uma nova pesquisa para a eleição presidencial de 2018. Nela, o ícone da extrema-direita Jair Bolsonaro (PP-RJ) aparece com intenção de voto maior do que Ciro Gomes (PDT-CE), que em tese seria um nome mais conhecido do eleitorado, tendo sido ministro dos governos Itamar Franco e Lula e duas vezes candidato a presidente. Venho alertando para o crescimento do candidato da extrema-direita já há algum tempo. Entretanto, a esquerda prefere subestimá-lo, tratando-o como uma piada, como um personagem extremista demais para ser eleito. Jean-Marie Le Pen também era visto como uma piada, extremista demais para ter alguma chance dentro do jogo tradicional da política francesa. Em 2002, no entanto, emergiu para o segundo turno da disputa presidencial francesa, chocando a centro-esquerda e a direita moderada, que volta e meia deixa suas diferenças de lado e forjam coalizões para evitar a vitória da Frente Nacional.

A luta fratricida entre SPD e KPD levou à
morte de Rosa Luxemburgo e inviabilizou
uma aliança entre os partidos até 2001.
Desde meados do ano passado digo que Bolsonaro deve ter cerca de 15% dos votos em 2018. Um percentual comparável àquele obtido por Adolf Hitler, que também era subestimado pela esquerda, em 1930. O grande percentual de votos obtido pelo Partido Nazista tirou o Partido Social Democrata (SPD) do poder. Criado no final do século XIX por simpatizantes de Karl Marx, o SPD promoveu reformas tímidas a favor dos trabalhadores sem reformar a estrutura do Estado alemão. Chegou a defender a monarquia quando viu que tinha chances reais de eleger o chanceler. Em 1918, no entanto, com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, aliou-se a monarquistas revoltados e tomou o poder, proclamando a República na cidade de Weimar (daí o nome). Foi aí que surgiu o Partido Comunista (KPD), que defendia uma revolução mais profunda. Durante a revolução de 1919, o SPD se aliou aos anticomunistas para garantir a estabilidade do novo regime, o que levou ao assassinato de Rosa Luxemburgo. Isto inviabilizou uma aliança SPD-KPD por décadas. Em 2001 Klaus Wowereit, então prefeito-eleito de Berlim, forjou uma aliança do SPD com o Die Linke, sucessor do KPD.

O relativo sucesso dos nazistas na eleição de 1930 pode ser explicado por dois fatores: a incapacidade do SPD em lidar com a crise de 1929 e o fim dos ataques da imprensa ao gênio louco que era Adolf Hitler. Assim como no Brasil atual, o último governo de centro-esquerda da República de Weimar foi marcado pela falta de maioria no parlamento, o que obrigava o chanceler Hermann Müller a fazer concessões à direita e impossibilitava-o de enfrentar a crise econômica. Os direitistas, em especial ex-militares, culpavam uma conspiração de socialistas e minorias étnicas (judeus e polacos) pelos problemas econômicos do país. Discurso que começa a ganhar força aqui. A imprensa viu nesse discurso perigosíssimo a oportunidade de tirar o SPD do poder. Hitler forjou uma aliança com o magnata da imprensa e político Alfred Hugenberg, cujos jornais pararam de atacá-lo. Os nazistas passaram de 2,6% para 18,25% dos votos. Prevejo cenário semelhante em 2018: a mídia brasileira – tão oligopolizada quanto a alemã era – não atacará Bolsonaro porque ele é útil para seu plano de tirar o PT do poder. Não vai exaltá-lo, pois finge ser democrática, mas também não o atacará.

Prevejo também a esquerda mais radical do país culpando o PT pela ascensão da extrema-direita, assim como o KPD culpava o SPD pela ascensão do nazismo. Embora o PT nunca tenha perseguido e provocado a morte de dirigentes do PSOL, as divergências entre os dois partidos permanecem tão fortes quanto as de social-democratas e luxemburguistas. Assim como alguns no PSOL hoje falam do PT, os membros do KPD encaravam o SPD – e não o Partido Nazista – como o maior inimigo da classe trabalhadora. Entendo perfeitamente de onde vem essas críticas. O PT se apresenta como revolucionário no Horário Eleitoral e atua como o PSDB light no poder. Enganou a classe trabalhadora. Mas o próprio PSOL também está sendo vítima da encruzilhada anti-PT. O partido teve seu único prefeito, de Itaocara-RJ, cassado sem nenhum motivo legal aparente, assim como Franz von Papen depôs o governo de esquerda da Prússia para agradar os nazistas. E isso foi só o começo. Ninguém ficará a salvo da sanha anti-esquerdista. Nem mesmo Marina Silva, que se julga acima das ideologias. Em 2014 mesmo ela começou a ser atacada pela direita hidrófoba por ter pertencido ao PT até 2009. 

O atentado ao Reichstag, praticado pelos próprios nazistas
teve sua culpa atribuída ao KPD, o que justificou a aplicação
da cláusula anti-terrorismo da Constituição por Hitler.
Com a aprovação da mal-fadada lei "antiterrorismo" ficará ainda mais fácil criminalizar tanto o bloco PT/PCdoB quanto o PSOL. A Alemanha também reprimia duramente os "terroristas" (só os de esquerda, porém) durante a República de Weimar. Sua Constituição permitia a suspensão dos direitos individuais em situações que o próprio governo definia como sendo "de emergência". Foi esse dispositivo legal que permitiu a Hitler dar início a seu regime de exceção, tendo como justificativa o "atentado terrorista" no prédio do Reichstag, supostamente praticado por membros do KPD. Ele suspendeu direitos individuais e todos os partidos políticos valendo-se da própria ordem legal estabelecida. A lei aprovada no Congresso Nacional repete o dispositivo constitucional alemão e pode acabar sendo usada para fins absolutamente estranhos àqueles que o legislador imaginou ao criá-la. Enquanto isso, o PT tenta defender as concessões indefensáveis que Dilma Rousseff pratica para tentar se manter no poder e o PSOL, megalômano, crê ter musculatura o suficiente para reverter a guinada conservadora da sociedade sozinho.

No entanto, equivoca-se quem acha que a direita já estabelecida é a principal beneficiária do atual caos político. De maneira semelhante à Alemanha dos anos 1930, a direita parlamentar também perde espaço para a direita marginal. Mesmo que o PSDB consiga eleger o presidente em 2018, o partido vai se deteriorar no poder de forma muito mais rápida do que o PT, em especial se a crise econômica prevalecer. Os tucanos não vão conseguir "arrumar a economia" tão rápido quanto prometem e, como já provaram no passado, vão tentar fazê-lo às custas do povo, já irritado. Isso vai revoltar parte significativa de sua base eleitoral, que vai cair de bandeja nas mãos de Bolsonaro. É algo que a crise econômica mundial vem provocando nas principais economias do mundo: a descrença com os representantes da política tradicional ou, como preferem dizer alguns analistas políticos, "o fim do centro político". Tanto Donald Trump quanto Bernie Sanders, por exemplo, definem-se como políticos anti-establishment. É assim que os eleitores de Bolsonaro vêem seu "mito", como um outsider da política, embora ele já esteja no Congresso há 30 anos.

Seria o povo brasileiro os ratos de Hamelin?
Por tudo o que foi dito acima, dói conhecer a História. Aqueles que conhecem-na vêem os que não a conhecem – que são a grande maioria atualmente – repetindo-a sem poder fazer nada. Como convencer uma pessoa que sequer ouviu falar de Mein Kampf que ela está caindo no discurso de um flautista de Hamelin que vai conduzir a todos nós para o abismo? A sensação de impotência é enorme. Mesmo aqueles que presumivelmente conhecem a História repetem-na. As concessões de Dilma à direita para tentar agradar à elite que quer derrubá-la e criminalizar o PT também foram tentadas, sem êxito, pelo SPD, que com isso traiu por completo o ideal de seus fundadores e perdeu para sempre o apoio da classe trabalhadora. A recusa do PSOL em aliar-se estrategicamente com o PT para evitar a ascensão de um mal maior se assemelha à recusa do KPD em compor com o SPD por orientação da Comintern. Não é à toa que pipocam nas redes sociais, desde o ano passado, páginas antifascistas que têm como símbolo o círculo idealizado pelo SPD no crepúsculo da República de Weimar.

Às vezes sinto como se a História se repetisse num loop constante. "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades", já dizia o poeta. Espero, do fundo do meu coração, estar errado. Não sou nenhum cientista político, mas cada vez mais vejo o destino da República de Weimar se repetir aqui no Brasil. Até grupos monarquistas lutando contra a ordem democrática nós também temos! Em escala bem menor, é claro, mas mesmo assim temos. Sem falar na adesão ao discurso genocida por parte das próprias vítimas deste. Há hoje no Brasil negros apoiando a extrema-direita, assim como haviam judeus anticomunistas apoiando Hitler na Alemanha. Segundo eles, a esquerda os vê como vítimas enquanto a direita acredita em sua capacidade individual. O individualismo exacerbado, aliás, é uma característica do nazismo. O que importa é o que o indivíduo pode fazer pela sociedade e não o contrário. Sinto-me num filme de Fritz Lang. Vejo a ascensão do Dr. Mabuse através da hipnose da massa, disposta a renunciar à civilidade e adotar a violência sem questionamento. E, o pior de tudo, é que, como personagem coadjuvante, sinto que não posso fazer nada para evitar isso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Facebook, o Grande Irmão

Em 1984, sua obra-prima, o escritor britânico George Orwell prevê uma realidade distópica para o futuro da humanidade. O mundo se encontra dividido em três blocos supranacionais governados por líderes autoritários e que vivem em guerra entre si. O pensamento é desencorajado, pois pode levar ao dissenso, e os indivíduos são constantemente vigiados através de telões (que o autor chama de tele-telas) instalados em todas as residências, lojas e fábricas, possuindo o mínimo possível de privacidade. Na Oceania, onde mora o protagonista Winston Smith e onde a história se desenrola, o Grande Irmão (Big Brother, em inglês) é o responsável pela vigilância, estando sua imagem presente em todas as tele-telas acompanhada do anúncio "Big Brother is watching you" ("O Grande Irmão está te observando"). Muito já foi debatido se o Big Brother, que é o líder da Oceania, existia de verdade ou se ele era apenas um mecanismo de intimidação da burocracia estatal.
Tele-tela conforme imaginada no filme de Michael Radford.
Quando a televisão se popularizou no Ocidente em meados da década de 1950, críticos sociais começaram a se indagar se as tele-telas orwellianas não teriam finalmente se tornado realidade. No entanto, os aparelhos de televisão da época apenas recebiam os sinais enviados pelas antenas de tevê. Não eram capazes de captar imagens e, muito menos, enviá-las para alguma empresa ou órgão de controle estatal. Hoje em dia, no entanto, as tele-telas já existem. São os computadores e os aparelhos celulares e televisores "inteligentes" (os smartphones e as smart TVs), onde se acumula um número cada vez maior de informação sobre seus usuários. Quantas vezes não vamos preencher um formulário on-line e nossas informações já estão gravadas no navegador? Da nossa data de nascimento ao número de nosso cartão de crédito, nossos celulares sabem tudo sobre nós. E, o que é mais chocante de tudo, são empresas privadas (e não o Estado) que estão gerenciando essas informações!

Se por um lado Orwell acertou ao imaginar um futuro onde o pensamento e a privacidade são mínimos, ele errou ao imaginar que seriam os governos os principais promotores dessa nova realidade. Uma empresa em particular se destaca pelo número absurdamente exagerado de informações que guarda sobre seus usuários: o Facebook. Ao aceitarmos os termos de uso daquela rede social estamos, consciente ou inconscientemente, abdicando de nossa privacidade e de nosso interesse em buscar um diálogo mais calcado na racionalidade do que na passionalidade. Os erros de Orwell foram os acertos de Aldous Huxley, outro escritor britânico do século passado que também previu um futuro distópico da humanidade em seu Admirável Mundo Novo. Confesso que não sou familiarizado com a obra de Huxley, mas o crítico social Neil Postman escreveu o seguinte sobre as diferenças entre 1984 e Admirável Mundo Novo:

"O que Orwell temia era aqueles que queimariam livros. O que Huxley temia era que não haveria razão para queimar livros, uma vez que ninguém mais teria interesse em lê-los. Orwell temia os que nos privariam de informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que nos tornaríamos apáticos e egotistas. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade se tornaria irrelevante. Orwell temia que nossa cultura seria aprisionada. Huxley temia que nossa cultura seria banalizada (...) Em resumo, Orwell temia que o medo nos arruinaria. Huxley temia que nosso desejo nos arruinaria". In: POSTMAN, Neil. Amusing Ouselves to Death. Nova York: Viking, 1985.

O Big Brother não é um ditador autoritário que nos oprime. Não é Edgar Hoover que usa todos os meios possíveis para eliminar o pensamento anti-establishment da sociedade. Não é tampouco a NSA, que viola a privacidade tanto do jovem jovem muçulmano do subúrbio de Detroit quanto da presidenta do Brasil. Afinal de contas, a NSA só consegue informações sobre cidadãos, comuns ou não, porque empresas privadas como o Facebook estão dispostas a repassá-las ao órgão de espionagem do governo estadunidense. O Big Brother é um logotipo azul e branco que nos indaga: "No que você está pensando?", como se guardar os pensamentos para si mesmo fosse algo ruim. O Big Brother é uma empresa que sabe quando nascemos, para onde viajamos nas férias, qual nossa preferência político-partidária e quando estamos de bom e mau humor. E ela nos incentiva a sermos todos Grandes Irmãos. Afinal de contas, nossos amigos e seguidores estão acompanhando todo e qualquer movimento nosso, assim como estamos acompanhando os passos deles.

O mais interessante disso tudo é que não percebemos a invasão de nossa privacidade como uma opressão. Segundo Noel Sharkey, professor de inteligência artificial da Universidade de Sheffield, as novas gerações estão dispostas a conceder sua privacidade para uma empresa privada porque não estão familiarizadas com a obra de Orwell. Elas não imaginam que o extermínio da privacidade possa ser algo ruim até que se vêem como vítimas dele - caso, por exemplo, de pessoas comuns que têm suas vidas arruinadas pela divulgação de fotos íntimas. No momento em que postamos algo na rede, mesmo que em mensagem privada (uma foto nua para o namorado, por exemplo), perdemos o controle sobre aquilo. E, ao contrário do que se pensa, mesmo após deletada aquela informação está guardada para sempre. Sua foto nua está salva no servidor do Facebook em algum canto do mundo. Como diz uma piada que vi recentemente: "se a NSA está guardando todas nossas informações da internet, então ela possui a maior coleção de pornografia da história".

Como disse Postman, o desejo nos arruína. Pelo desejo de ser popular e encontrar pessoas com quem possamos compartilhar nossas ideias, entramos num mundo sem privacidade. Esse desejo é maior do que o de resguardar nossa imagem pessoal. No Facebook, temos tanta informação que não sabemos lidar com elas. Afinal, qual tragédia é mais importante, a de Mariana ou a de Paris? Nos tornamos apáticos à morte de outros seres humanos por causa do grupo ideológico ao qual pertencemos. E não adianta apontar para o indivíduo que ele está sendo egotista, ou seja, que está olhando apenas para seu próprio universo, pois no Facebook não somos encorajados a embasar nossas opiniões e argumentos em leituras ou análises críticas da realidade. Para fazer isso, é preciso sair do espaço virtual, o que aquela rede social não deseja que façamos. No Facebook temos a falsa sensação de que estamos obtendo todas as informações necessárias e perdemos a ânsia pelo verdadeiro conhecimento.

O conhecimento surge, muitas vezes, do embate de ideias. O professor apresenta ao aluno os diferentes modelos de organização social existentes, cada um com seus prós e contras, e este último decide escolher um com o qual se identifica. Os pais apresentam ao filho as diferentes religiões existentes e este decide escolher uma com a qual se identifica. Mas o Facebook é a terra da interdição da coexistência pacífica entre as ideias diferentes. O que importa é vencer a discussão com aquele religioso alienado que mora a 1.000 quilômetros de distância de mim ou com aquele tucano alienado que mora a 2.500 quilômetros de distância e que jamais vou conhecer pessoalmente. Os algoritmos da rede social faz com que tenhamos acesso apenas às pessoas e páginas que pensam de maneira semelhante à nossa. De repente o mundo, composto por várias verdades na sua dimensão real, passa a ser composto por apenas uma verdade na sua dimensão virtual.

A verdade se tornou irrelevante. Assim como Winston Smith, somos desencorajados a pensar, pois pensar pode nos tornar párias sociais. Recentemente, Ciro Gomes e Roberto Requião, que fazem críticas acertadíssimas à política econômica da presidenta Dilma Rousseff, passaram a ser atacados pelos defensores da verdade petista, pois podem levar ao dissenso entre os membros daquele grupo que se acredita coeso. Foram logo atacados e desmerecidos no plano pessoal, pois, como disse anteriormente, o Facebook é o reino do passional e não do racional. Quem decidir apoiar o senador ou o ex-ministro vai virar pária para os petistas. O fato é que, com as redes sociais, voltamos à sociedade tribal. As contendas são vencidas através da violência virtual, através da união dos membros dos grupos virtuais para derrubar páginas, promover hashtags e xingamentos orquestrados e denunciar passionalmente os partidários da ideologia contrária. Às vezes a violência virtual escorre para o mundo real, como ocorreu em Brasília durante a marcha das mulheres negras.

Facebook is watching you.
Orwell imaginou um futuro caótico onde três Estados nacionais fortes suprimiriam o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. Imagino um futuro caótico onde empresas multinacionais fortes suprimirão o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. E, o que é pior de tudo, essa dominação não é vista como tal pelas pessoas comuns. O Facebook soube trabalhar muito bem com o desejo do ser humano de se sentir aceito e de viver em comunidade para solapar-nos de nossas privacidades. Em troca de pertencermos a tribos virtuais, oferecemos nossas informações mais íntimas, que são registradas e acessadas a qualquer minuto pela rede social, que vende-as para empresas de comércio virtual e repassa-as para órgãos de espionagem. O futuro é sombrio.Viveremos numa sociedade tribal, inepta à resolução de conflitos através do diálogo, criada por empresas que sabem tudo sobre nós. Eis o admirável mundo novo: Facebook is watching you.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Falácias não ganham debate

Quando Nelson Motta escreveu um texto ofensivo e misógino para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa dona Marisa Letícia, o editor do Diário do Centro do Mundo, Kiko Nogueira, escreveu um texto apelando à razão do ex-produtor musical, indagando-lhe se ele gostaria que suas ex-esposas e filhas fossem tratadas da mesma forma. No entanto, desde o ano passado, naquela que vem sendo a eleição mais longa da história, a razão deixou de nortear o debate político. Não basta derrotar o Partido dos Trabalhadores nas urnas. É preciso eliminá-lo, simbólica e às vezes até mesmo materialmente, como os ataques a militantes e sedes do partido têm demonstrado. Assim sendo, o dito colunista usou sua página no Facebook para escrever um texto tão cheio de falácias que deveria ser estudado nas aulas de Lógica como exemplo de que argumentos não empregar num debate. Diz o seguinte:
Nenhuma de minhas mulheres foi casada com um homem como Lula e tem filhos como os dele. Minhas filhas são muito mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa – e nunca fizeram parte de nenhuma organização criminosa.

E quem imagina que dona Marisa tem um milésimo do talento de Marilia Pêra e fez mais pelo país do que ela? Só um fanático lulista, cada vez mais perto da cadeia. Que vergonha.

Que tal analisarmos o texto seguindo a ciência grega da lógica, ou seja, o estudo da validade dos argumentos, sem entrar na questão partidária? Vamos lá:
"Nenhuma de minhas mulheres foi casada com um homem como Lula e tem filhos como os dele. Minhas filhas são muito mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa – e nunca fizeram parte de nenhuma organização criminosa."

Nesse pequeno trecho de texto, Nelson Motta incorre em falácias típicas do mau debatedor. Primeiro tenta desqualificar o adversário, imputando-lhe a pecha de "criminoso", embora Lula jamais tenha sido condenado na justiça. Trata-se do argumento ad hominem. Tenta-se provar seu ponto de vista através da desqualificação do outro sem embasamento para tal desqualificação. Em seguida, ele diz "minhas filhas são mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa". Segundo quem? Ao contrário de fatores como escolarização e renda, inteligência é uma questão difícil de ser mensurada. "Tem muito diplomado que é pior do que selvagem", como bem lembra Clementina de Jesus. Esse parece ser o caso de Nelson Motta, que julga suas filhas como sendo melhores do que as dos outros pelo simples fato delas terem mais educação formal do que os filhos dos outros. Quanto a fazer parte de uma organização criminosa, pode-se dizer o mesmo do próprio Nelson Motta, afinal ele trabalha na Rede Globo, organização que deve nada menos que 615 milhões de reais à Receita Federal, incorrendo do crime de evasão de divisas fiscais. Seria Nelson Motta um criminoso por estar envolvido com uma organização criminosa? Segundo a lógica do próprio, sim. Isso é o que os gregos chamavam de explicação superficial.

"E quem imagina que dona Marisa tem um milésimo do talento de Marilia Pêra e fez mais pelo país do que ela? Só um fanático lulista, cada vez mais perto da cadeia. Que vergonha."

Essa é a parte mais risível do texto. Juro que gargalhei ao lê-la. Aqui, Nelson Motta vale-se da famosa falácia de autoridade. Em relação à Marília Pêra! Ora, poupe-me! Por mais que Marília Pêra seja uma grande atriz, celebrada no Brasil e no exterior, ela jamais foi mulher de político para poder ser comparada com dona Marisa Letícia. E, assim como a inteligência, o talento é uma coisa relativa. Marília Pêra possui um grande talento para as artes cênicas e dona Marisa Letícia possui um excelente talento para jardinagem e afazeres domésticos. Isso a torna uma pessoa menos especial com quem é injustamente comparada? Na cabeça do misógino Motta, que parece pensar em preto-e-branco, bem-e-mal, nós-e-eles, sim. Por fim, novamente o colunista se vale de um argumento ad hominem, desqualificando todos que pensam de maneira diferente dele de "fanáticos". Aqui, novamente há uma explicação superficial. Quem está cada vez mais perto da cadeia? Kiko Nogueira? Duvido que o pobre jornalista tenha 1/3 da renda do ex-presidente. Incorre-se, além disso, da falácia da associação. Funciona assim: 1) Alguns petistas são ladrões e estão perto de serem presos. 2) Kiko Nogueira é petista (pelo menos na cabeça de Motta). 3) Logo, Kiko Nogueira é ladrão e está perto de ser preso. Cai muito isso em concurso. Duvido que Nelson Motta conseguiria acertar uma questão dessas.

Por fim, há o que é bastante comum nos discursos políticos de hoje em dia: o apelo à moralidade: "Que vergonha". Não é vergonhoso que Kiko Nogueira expresse sua opinião. Vergonhoso é o estado atual da imprensa brasileira, onde basta atacar um certo Luiz Inácio da Silva e um certo Partido dos Trabalhadores para se ganhar espaço nos jornais. Vergonhoso é atacar pessoas na rua por elas estarem usando vermelho. Vergonhoso é o ódio de classes sendo usado como argumento contra Lula e a misoginia sendo usado como argumento contra Dilma. Vergonhoso é que as pessoas não possam mais expressar livremente suas opiniões por medo de serem vítimas da falácia da associação. E mais: vergonhoso é que a direita tenha renunciado à lógica e que pessoas que acham que falácias ganham debates sejam consideradas formadoras de opinião. Como bem afirmou Ciro Gomes em sua entrevista à TV Brasil, a direita perdeu o pudor. Mas não foi só isso. Perdeu a lógica também. A causa disso deve ser a irritação por estar todos esses anos fora dos círculos do poder.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Um candidato para 2018

O ex-ministro da Fazenda, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes foi o entrevistado de ontem do programa Espaço Público da TV Brasil. Confesso que eu tinha algumas ressalvas ao político cearense, nascido em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Minha primeira ressalva diz respeito ao episódio em que ele, enquanto candidato à presidência da República em 2002, disse a repórteres que o papel de sua então esposa, a atriz Patrícia Pillar, na campanha dele era dormir com ele. No final da entrevista, Ciro fez um mea culpa pelo incidente. Outra ressalva que eu tinha em relação a ele era quanto a sua origem política. Ciro Gomes surgiu politicamente como correligionário do tucano Tasso Jeirissati, um dos representantes do coronelismo local no Ceará. No entanto, Ciro rompeu com Tasso em 2010 e denunciou tanto a plutocracia brasileira durante a entrevista que fica difícil acreditar que tenha sido um discurso só da boca para fora.

Ciro Gomes.
No início do programa, as perguntas foram sobre a opinião do entrevistado quanto ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ciro lembrou que só dois presidentes foram afastados na história do Direito contemporâneo: Fernando Collor no Brasil (feito em clima de consenso, pois este desagradou tanto os pobres quanto à elite) e Carlos Andrés Pérez na Venezuela e que até hoje a Venezuela segue ingovernável devido à crença de que é aceitável derrubar um governo do qual se discorda. Ele lembrou também que quando era ministro de Integração Nacional no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ordem para conter a crise do mensalão era "infantaria e diplomacia", ou seja, dialogar com o povo, partindo para o ataque com os que queriam derrubar o governo, e fazer o trabalho de bastidores que, segundo o ex-ministro, se perdeu. Quando foi revelado que o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti não passava de um corrupto, logo a tese de impeachment caiu em descrédito. Para Ciro é chocante que pessoas como Fernando Henrique Cardoso, que tem uma biografia a preservar, e Aécio Neves, que tem um sobrenome a zelar, apoiem a retirada de Dilma ("pessoa seriíssima") sem que ela tenha cometido crime algum. "Tancredo construiu o caminho para a democracia e Aécio joga tudo na lata de lixo", disse.

Em seguida, Ciro narrou o episódio de criação do Plano Real. Ele disse que estava esperando ansiosamente aos debates da eleição presidencial de 1998 para tirar a máscara que FHC construiu para si mesmo de "pai do Real". No entanto, FHC manipulou a mídia para que nenhuma emissora de televisão realizasse debates. Ciro contou que ele, então filiado ao PSDB, e Tasso Jeirissati montaram uma grande equipe econômica - "que na época gostava do Brasil, mas hoje gosta de dinheiro" - para resolver o problema da hiperinflação. Segundo ele, FHC foi nomeado ministro da Fazenda após uma desavença de Itamar com Tasso, então pré-candidato do PSDB à presidência. FHC não se elegia mais para o Senado em São Paulo e estava encerrando sua carreira política, tendo sido escolhido para o cargo como forma de implementar o projeto econômico idealizado pelo PSDB sem prejudicar a imagem de Itamar. Quando apresentaram o Plano Real a Itamar, José Serra tentou sabotar o projeto, levando, por isso, um pito de Mário Covas. Cientes de que o plano seria um sucesso e de que o PSDB, como idealizador do mesmo, teria boas chances de eleger o próximo presidente da República, se reuniram para determinar quem seria o candidato. FHC atropelou todo mundo para declarar sua intenção, deixando Tasso, que de fato idealizou o Plano, de lado, para a fúria de Ciro.

O ex-ministro contou que ficou tão decepcionado com a atitude arrogante de FHC que decidiu sair do país durante o primeiro ano de governo dele. Ciro havia defendido homericamente o Plano Real porque acreditava que seu colega seria o candidato do PSDB. Foi estudar economia em Harvard, onde permaneceu por um ano e meio. Se é verdade que a idade costuma fazer aflorar características da personalidade do indivíduo, não sei, mas no caso de FHC parece ser verdadeira a afirmação. Seu estrelismo parece não conhecer limites ultimamente. Como um dos líderes do maior partido de oposição do país, nem se ruboriza mais ao defender a quebra da institucionalidade, a mesma que lhe fez refugiar no exterior na década de 1960. "Covas, vivo, jamais admitiria isso", afirma Ciro. O ex-ministro acha que FHC e Lula deveriam agir como "pais da pátria", emitindo suas opiniões apenas quando for absolutamente necessário. Para ele, a crise política atual só existe devido ao medo que os tucanos têm de que Lula seja candidato em 2018. Caso o ex-presidente se candidate e consiga desvincular sua imagem das políticas desastrosas de Dilma, o PSDB ficará 20 anos fora do poder. No entanto, se a crise se aprofundar teremos uma eleição semelhante ao pleito de 1989.

FHC e Lula aprofundam a crise, diz Ciro.
Em 1989 o "moralismo difuso" de Collor venceu a eleição contra o "comunismo" petista. Atualmente, segundo Ciro, quem mais representa isso é Marina Silva, que em momento algum fala em  mexer nas estruturas que geram desigualdades sociais. Justo pelo contrário, em 2014, a candidata falou em dar autonomia ao Banco Central, o que significa, na prática, colocar os bancos para controlar a política monetária do país. Seria dar aos bancos o poder de determinar a já altíssima taxa de juros do Brasil. Ele aponta que a política econômica brasileira, baseada no chamado tripé macroeconômico, é um erro crasso. A única coisa que justifica a prevalência dos interesses financeiros sobre a vida dos cidadãos é o lucro dos bancos que, aliás, batem recorde há duas décadas, independente se a economia vai bem ou não e se o governo é petista ou tucano. Elevar os juros não contém a inflação, pois o Brasil importa produtos de primeira necessidade, do trigo à química dos remédios. Se o preço do dólar aumentar, a inflação vai aumentar. A elevação dos juros só serve para garantir o lucro dos bancos, naquilo que este blogueiro chamou anteriormente de "o maior escândalo de corrupção do Brasil".

O grande pecado de Lula, segundo o entrevistado, foi não mexer nas estruturas do Brasil. Apesar de progressista na política social, garantindo aos maios pobres o acesso à alimentação, manteve uma política econômica conservadora. Graças aos avanços de Lula, o Nordeste passa por uma seca prolongada - há três anos já - e não sofre mais com saques a supermercados, lembra o entrevistado. Entretanto, ao invés de reformar a economia, taxando os mais ricos, Lula garantiu o absurdo lucro dos bancos. Ao invés de reformar a política, Lula cometeu o erro histórico de empoderar o PMDB, que é hoje um dos maiores combustíveis da atual crise. Ciro lembrou que, num evento em São Paulo, o vice-presidente Michel Temer, que Lula impôs à presidenta Dilma, disse que um governo com 8% de aprovação não se mantém no poder. O ex-ministro disse ter vontade de perguntar a Temer, advogado constitucionalista, em qual alínea da Constituição Federal está escrito isso. José Alencar, lembra o ex-ministro, defendia o mandato que conquistou com Lula até as últimas consequências. Ciro acredita que o povo, mesmo insatisfeito com a política econômica de Dilma, defenderia a democracia. Se, por um lado, o PT perdeu o apoio dos movimentos sociais, por outro, nenhuma entidade nacional apoia o impeachment de Dilma Rousseff, o que não era o caso durante o processo de impedimento de Collor.

Para Ciro Gomes, a direita perdeu o pudor. Segurando a bandeira da moralidade, tudo se torna justificável, inclusive agredir pessoas em público. "É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que quer derrubar a Dilma?", indagou. No entanto, ele acha que Lula tem sua parcela de culpa: "estão passando do limite porque ele perdeu a majestade". Ele acha que o ex-presidente deveria ter se recolhido após sair do poder e julga negativo para o país a eleição de Lula para um terceiro mandato, pois seria a continuidade da crise atual, sem falar que estaríamos replicando o personalismo político presente em outros países da América Latina. Segundo o ex-ministro, a oposição está fechada em bloco contra o governo, pois dos 411 milhões de reais que Eduardo Cunha desviou para a Suíça, "uns 350 milhões ele rachou com essa turma [que o elegeu]". Enquanto isso, o governo está de braços cruzados, sem fazer aquilo que o povo espera dele. Ciro acredita que se Dilma não mudar sua política econômica, terá chances reais de não completar o mandato. No entanto, ela precisa mexer em toda a estrutura do país, o que incomoda a plutocracia que vive dos juros. Precisa dar um jeito à defasagem de 106 bilhões entre as importações e exportações de produtos industrializados, ou seja. à balança comercial negativa que a venda de commodities (com preço em queda) não consegue mais compensar.

"É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que
quer derrubar a Dilma?", indagou Ciro.
Mexer com a plutocracia pode ser fatal. Quando Collor confiscou a poupança ele paralisou 1/3 da dívida pública nacional, lembrou Ciro. Ou seja, ao mesmo tempo em que tirou dinheiro de pessoas comuns, impediu que parcela significativa do orçamento fosse para o pagamento da dívida da União com os bancos. Nesse momento, as hoje tão noticiadas agências de risco colocaram o Brasil como país completamente inseguro para investimentos estrangeiros. Os ricos então apresentaram à opinião pública um delito cometido por Collor e derrubaram-no. Dilma, por outro lado, pensa que conciliar com os banqueiros (ou "plutocratas", como prefere Ciro) garantirá a sobrevivência de seu governo. No entanto, só a desgasta cada vez mais com o povo. Enquanto a economia vai bem, o povo tolera os desvios. No entanto agora que a economia azedou, Dilma, que desde o início tenta moralizar a máquina pública, acabou tendo sua imagem manchada pela corrupção - dos outros, com os quais ela precisa se aliar para governar. Enquanto isso, em São Paulo, a população tolera os desvios do governo Alckmin. Como aponta Ciro, num estado com rios em abundância parte da população da maior cidade da América do Sul passa sede. A Sabesp, depois de privatizada, deixou de investir na ampliação da rede de captação d'água; seu foco passou a ser em dividir o lucro entre seus acionistas.

Indagado se seria candidato em 2018, Ciro se esquivou da pergunta. Se disse cansado da política brasileira, que atinge níveis graves de baixeza, e afirma não saber se tem estômago para concorrer à presidência mais uma vez. No entanto, seu discurso é de candidato - e de um que o Brasil precisa. Um candidato que fala em reformas estruturais, fim de privilégios à plutocracia, desenvolver a indústria nacional e, sobretudo, garantir as conquistas sociais dos últimos doze anos. Discurso claro para resolver problemas concretos. A esquerda está, atualmente, de braços cruzados. Deixa o governo à própria sorte pois este vai contra tudo o que sempre defendeu na economia. A sociedade , por sua vez, se divide em dois grupos que, apesar de defenderem e implementarem a mesma política econômica, se apresentam para a população como antagônicos. Nesse cenário, Ciro Gomes pode muito bem ser a solução que buscávamos para resolvermos nossos graves problemas. Só quem os conhece profundamente pode fazê-lo.