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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma

A grande mídia adora encomendar pesquisas, mas nunca traduz direito para seu público os números que ela mesma encontra nessas sondagens. Talvez por que não seja do seu interesse fazer uma manchete dizendo "PSDB perde 24 milhões de eleitores em quatro anos". Pois bem, me propus a fazer o serviço que as redações dos grandes jornais não fazem com os dados que têm em mãos. Considerando a média das pesquisas Datafolha (29—30/11), DataPoder 360 (8—11/12) e Paraná Pesquisas (18—21/12), cheguei aos seguintes percentuais de intenção de voto em cada um dos principais candidatos à presidência da República em 2018:

Lula (PT): 30%
Bolsonaro (PSL): 20%
Marina (Rede): 8,5%
Alckmin (PSDB): 7%
Ciro (PDT): 5,5%

Outros nomes testados pelos institutos de pesquisas — como os do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (sem partido), o do senador Álvaro Dias (Podemos), o do ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSDB), o do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) e o do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) — teriam, juntos, 11,7% dos votos. Isso faria com que uma média de 82,7% dos eleitores pesquisados decidissem pelo voto válido na próxima eleição. A soma de votos brancos e nulos e abstenções chegaria a 17,3% do eleitorado.

Faltou combinar com o povo. Apesar do fim do PT ter sido
anunciado diversas vezes, Lula teria 1,6 milhões de votos a
mais do que Dilma se a eleição fosse hoje.
E, por falar em eleitorado, foi preciso fazer uma estimativa deste para chegar ao número exato de votos que cada candidato a presidente teria caso a eleição de outubro ocorresse hoje. Em 2016, ano das últimas eleições municipais, o Brasil tinha 144.088.912 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número cresceu 4% em relação àquele de 2014. Se o número de eleitores em 2018 também apresentar um crescimento de 4% em relação ao de 2016, teremos em nosso país, no próximo mês de outubro, 149.852.466 eleitores aptos a votar. Lembrando que este número é uma estimativa. Pode ser maior ou menor no dia da eleição, após os eleitores regularizarem (ou não) sua situação junto à Justiça Eleitoral.

Vamos então aos números. Se as pesquisas estiverem certas e as eleições fossem hoje, teríamos o seguinte resultado no primeiro turno:

Lula (PT): 44.955.740
Bolsonaro (PSC): 29.970.493
Marina (Rede): 12.737.459
Alckmin (PSDB): 10.489.673
Ciro (PDT): 8.241.886


Os demais candidatos teriam, juntos, 17.532.738 votos. Isso significa que 123.927.989 eleitores fariam sua escolha pelo voto válido, o que representaria 82,7% do eleitorado total. Votos brancos e nulos e abstenções seria a escolha de 25.924.477 eleitores ou 17,3% do total.

Fazendo a ressalva de que não é possível, pela metodologia de alguns dos institutos, diferenciar o voto nulo e branco da abstenção, teríamos o seguinte percentual de votos para cada candidato:

Lula (PT): 36,27%
Bolsonaro (PSL): 24,18%
Marina (Rede): 10,28%
Alckmin (PSDB): 8,46%
Ciro (PDT): 6,65%
Outros candidatos: 14,15%

Em relação ao primeiro turno de 2014, teríamos que o candidato do PT teria um percentual menor de votos do que Dilma Rousseff, mas ainda assim Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma. Marina Silva, por sua vez, reduziria se percentual de votos pela metade e teria 9,4 milhões de votos a menos do que em 2014. Já o candidato do PSDB apresentaria uma queda de 25 pontos em relação ao percentual obtido por Aécio Neves em 2014. Em números absolutos, Geraldo Alckmin teria 24,4 milhões de votos a menos do que o senador mineiro. Não é possível traçar um paralelo entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, visto que seus partidos não lançaram candidatos em 2014.

Parece ter ocorrido uma pulverização do apoio às forças hegemônicas da política brasileira nos últimos 16 anos — mais acentuado no PSDB do que no PT. Isto se reflete pela grande quantidade de candidatos que se apresentam à população. Esta deve ser a eleição com mais candidatos desde o pleito de 1989, o primeiro após o fim da ditadura militar e que contou com 22 candidatos, inclusive o próprio Lula. Os candidatos de partidos menores conquistariam cerca de 17,5 milhões de votos se a eleição fosse hoje. Um aumento de quase 14 milhões em relação a 2014. Com mais candidatos na disputa, a abstenção e a soma de votos bancos e nulos deve cair, sendo a opção de 13 milhões a menos de eleitores brasileiros em 2018 em relação a 2014.

Num cenário de pulverização dos partidos tradicionais,
Jair Bolsonaro desponta em segundo lugar nas pesquisas.
Contanto, este é um retrato do cenário atual. Embora já tenha voltado suas baterias contra Lula, Bolsonaro e, mais recentemente, Ciro Gomes, a grande mídia ainda não começou sua tradicional campanha a favor do candidato do PSDB ou de qualquer outro partido liberal que lhe agrade ainda mais que o governador paulista Geraldo Alckmin. Este, por sua vez, demonstrou-se demasiadamente fraco no pleito de 2006, uma eleição que, segundo o relato de seu biógrafo Richard Bourne, o próprio Lula considerava perdida para o PSDB. Desanimado, o ex-presidente sequer engajou-se em sua própria campanha, tendo até mesmo faltado aos debates do primeiro turno na televisão.

De qualquer forma, estes dados são interessantes para a confirmação ou negação de algumas hipóteses que tem sido ventiladas desde o início da atual crise sociopolítica no país. A ascensão da extrema-direita de Jair Bolsonaro às custas dos liberais é uma delas. Tucanos e seus aliados atacaram as políticas do Estado brasileiro durante os 13 anos dos governos petistas, imaginando que colheriam os frutos disso, mas pavimentaram o caminho para reacionários que desejam ver implementado o conservadorismo não só na política econômica. O centro político — tanto a centro-esquerda representada pelo PT quanto a centro-direita representada pelo PSDB, passando pelo fisiologismo do PMDB — está em baixa e Bolsonaro parece ter tirado votos até mesmo da moderada Marina Silva. Antes, quem estava cansado da polarização PT—PSDB votava na centrista. Hoje, num precedente perigoso para a democracia brasileira, vota num radical de direita.

Mesmo com a desintegração de partidos e políticos tradicionais, exemplificado pela ascensão de Bolsonaro e diversos candidatos de partidos pequenos, o suposto fim do PT, anunciado diversas vezes na capa da Veja, parece estar longe de ocorrer. Escorado na figura de seu eterno líder, o partido ainda possui o potencial para conquistar quase 45 milhões de votos. Embora acossado por diversas denúncias e uma condenação na Lava Jato que pode lhe tirar da disputa, Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma se a eleição fosse hoje. Se a ascensão do fascismo ou o favoritismo do PT vão se manter uma vez que a campanha começar e a pregação pró-liberalismo da grande mídia e seus reprodutores nas redes sociais se intensificar são questões que só o tempo dirá. Entretanto, o cenário atual e com o qual políticos e militantes deveriam trabalhar, é o de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quem cria corvos...

Por que em 2003 Bolsonaro não chocava a Rede Globo?
Há um provérbio espanhol que deveria estar em voga no Brasil atual: cría cuervos y te sacarán los ojos ("cria corvos e te arrancarão os olhos"). É particularmente útil porque, na sua sanha antipetista, a direita moderada que era o PSDB, alinhou-se aos elementos mais delirantes da direita nacional. Teóricos da conspiração que acusam a Pepsi de fabricar seus refrigerantes a partir de fetos abortados e gente que acusa o ex-presidente Lula de tanta coisa que quando apresentam uma denúncia consistente contra ele eu simplesmente não consigo acreditar nela. No meio de tantos lunáticos, um extremista chama a atenção pelo tamanho de seu apelo junto à classe média que foi ao paraíso sob o lulismo e agora se volta contra o PT devido à crise econômica. Trata-se do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que tem, entre as personalidades políticas brasileiras, a terceira página mais curtida no Facebook.

Apoiador de Lula em 2002, quando era do PTB, Bolsonaro logo terminou sua lua-de-mel com o PT e, já no ano seguinte, agrediu verbalmente a colega Maria do Rosário (PT-RS) enquanto esta dava uma entrevista para a equipe de jornalismo da RedeTV no corredor da Câmara dos Deputados. Foi a primeira vez que ele disse a outro ser humano "não estupraria você porque você não merece". Na época não existiam redes sociais e a agressão passou relativamente despercebida. A partir de 2005, no entanto, o PT foi sendo transformado pela grande mídia na razão de todo o mal da nação com a revelação do escândalo do mensalão por repórteres que se diziam chocados, mas que se recusaram a cobrir o mensalão de FHC. Conforme figuras até então restritas às entranhas da internet foram se tornando parte do mainstream do debate político midiático, cada vez mais as discussões foram sendo pautadas pelo ódio a Lula e a seu partido e por questões de ordem moral.

Em 2011 o STF arquivou uma denúncia contra o deputado
devido sua fala racista em um episódio do CQC.
Se na campanha de 2006 Geraldo Alckmin teve que prometer que não privatizaria as empresas estatais, em 2010 Dilma Rousseff teve que prometer que não legalizaria a interrupção voluntária da gravidez no país que é o campeão mundial em morte de mulheres por abortos malfeitos. Aquela foi a campanha mais suja até então. E o ódio latente ao PT e seus apoiadores (pobres, negros, LGBTs, feministas, etc.) estava pronto para reemergir a qualquer momento. Logo após a posse de Dilma eis que a Band resolve colocar Bolsonaro num episódio de seu CQC. No programa em questão, ele diz à cantora Preta Gil que seu filho jamais namoraria uma negra porque ele recebeu boa educação dos pais. Como todo bom fascista, ele covardemente nega a afirmação e diz que entendeu errado a pergunta, embora a dicção de Preta seja a mais clara possível. O episódio, massificado pelas redes sociais, rendeu-lhe seus primeiros questionamentos na Justiça e também os primeiros fãs fora do estado do Rio de Janeiro, justo aqueles que mais odeiam o PT e tudo aquilo que ele representa.

Em junho de 2013, Dilma Rousseff enfrentou, pela primeira vez, amplos protestos antigoverno. A narrativa de que o PT era a fonte de todo o mal colou, ajudada por uma péssima equipe de comunicação no Palácio do Planalto e por uma certa reclusão da mandatária. A mídia se apressou para pintar Marina Silva (Rede) como a musa dos manifestantes. Antes fosse só ela. Com seu caráter apartidário, os protestos logo foram sendo tomados por elementos de extrema-direita, ao ponto dos próprios organizadores serem expulsos de um ato na Avenida Paulista. Bandeiras do PT foram rasgadas, militantes negros e LGBT foram agredidos. O brasileiro, até então mais preocupado com a final da novela e/ou do campeonato de futebol, sentiu-se empoderado para tomar as ruas e participar do debate político de seu país. Principalmente os analfabetos políticos e aqueles que aprenderam história e sociologia através da revista Veja.

Em 2013 a extrema-direita perdeu a vergonha e tomou as ruas.
Após mais de uma década no poder, a esquerda envelheceu e saiu de moda. O cool agora é se opor ao PT, mas não de maneira crítica e racional. E sim como gado em boiada, o que significa dar um belo tiro no próprio pé. Não importa o histórico do PT em defesa dos trabalhadores; a discussão é emocional. E, justamente por isso, cresce de maneira assustadora o apoio à extrema-direita em todo o país. Bolsonaro possui hoje 7% das intenções de voto segundo a última pesquisa Vox Populi e é o candidato a presidente menos rejeitado pela população, com 34% de rejeição segundo o Ibope. A criminalização do PT e de partidos outrora aliados, fomentada por anos pela grande mídia, não favoreceu seu queridinho PSDB. Justo pelo contrário, fez com que todos os políticos associados a partidos e ideologias tradicionais fossem igualmente repudiados pela população.

Não é incrível a inversão de valores na sociedade brasileira que faz com que o candidato a presidente da extrema-direita seja o menos rejeitado? Aquele que em 2014 disse novamente à Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merece e que homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra — reconhecido pela Justiça como torturador — durante a votação do impeachment. Como o fim da escravidão, o término da ditadura não colocou curativos sobre as feridas abertas daquele período. Tivemos a oportunidade de fazê-lo em 2010, quando o STF analisou um pedido para rever a lei de anistia e punir os torturadores do regime militar, já que tortura é um crime imprescritível e impassível de anistia. Mas não o fizemos e volta e meia essas feridas voltam a sangrar. Talvez se tivéssemos seguido as recomendações da ONU para redemocratização figuras como Bolsonaro hoje não existiriam, como elas não existem na Argentina, no Uruguai e no Chile, referências em transição democrática no Cone Sul. Preferimos seguir o Paraguai (e agora teremos um golpe paraguaio).

Só agora a direita descobriu que estava andando com fascistas?
A Globo, que até então se manteve alheia ao fenômeno Bolsonaro, decidiu fazer uma matéria em tom crítico ao deputado no Fantástico do último domingo. Confesso que não assisti à matéria. O boicote à emissora continua de vento em popa aqui em casa. No entanto, não preciso assistir à matéria para dizer que o efeito almejado pela Globo não será conquistado. Ao dar espaço para Bolsonaro, mesmo que em tom crítico, a emissora dá visibilidade a ele. Deviam ter se posicionado contra Bolsonaro muito antes do episódio da homenagem a Ustra. Mas a sanha da mídia para tirar o PT do poder a qualquer custo não permitia isso. Bolsonaro lhes era útil. Agora que desfecharam o golpe final contra o PT, se voltam contra a direita radical cuja existência ignoraram, como se o antipetismo já não se confundisse com o próprio fascismo. Criam corvos e não querem ser bicados por eles?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Brasil: um museu de grandes novidades

Cada vez mais a história recente do Brasil lembra a da República de Weimar. Este é o nome não-oficial dado à Alemanha entre a queda da monarquia em 1918-19 e a ascensão de Adolf Hitler em 1933. Ontem foi divulgada uma nova pesquisa para a eleição presidencial de 2018. Nela, o ícone da extrema-direita Jair Bolsonaro (PP-RJ) aparece com intenção de voto maior do que Ciro Gomes (PDT-CE), que em tese seria um nome mais conhecido do eleitorado, tendo sido ministro dos governos Itamar Franco e Lula e duas vezes candidato a presidente. Venho alertando para o crescimento do candidato da extrema-direita já há algum tempo. Entretanto, a esquerda prefere subestimá-lo, tratando-o como uma piada, como um personagem extremista demais para ser eleito. Jean-Marie Le Pen também era visto como uma piada, extremista demais para ter alguma chance dentro do jogo tradicional da política francesa. Em 2002, no entanto, emergiu para o segundo turno da disputa presidencial francesa, chocando a centro-esquerda e a direita moderada, que volta e meia deixa suas diferenças de lado e forjam coalizões para evitar a vitória da Frente Nacional.

A luta fratricida entre SPD e KPD levou à
morte de Rosa Luxemburgo e inviabilizou
uma aliança entre os partidos até 2001.
Desde meados do ano passado digo que Bolsonaro deve ter cerca de 15% dos votos em 2018. Um percentual comparável àquele obtido por Adolf Hitler, que também era subestimado pela esquerda, em 1930. O grande percentual de votos obtido pelo Partido Nazista tirou o Partido Social Democrata (SPD) do poder. Criado no final do século XIX por simpatizantes de Karl Marx, o SPD promoveu reformas tímidas a favor dos trabalhadores sem reformar a estrutura do Estado alemão. Chegou a defender a monarquia quando viu que tinha chances reais de eleger o chanceler. Em 1918, no entanto, com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, aliou-se a monarquistas revoltados e tomou o poder, proclamando a República na cidade de Weimar (daí o nome). Foi aí que surgiu o Partido Comunista (KPD), que defendia uma revolução mais profunda. Durante a revolução de 1919, o SPD se aliou aos anticomunistas para garantir a estabilidade do novo regime, o que levou ao assassinato de Rosa Luxemburgo. Isto inviabilizou uma aliança SPD-KPD por décadas. Em 2001 Klaus Wowereit, então prefeito-eleito de Berlim, forjou uma aliança do SPD com o Die Linke, sucessor do KPD.

O relativo sucesso dos nazistas na eleição de 1930 pode ser explicado por dois fatores: a incapacidade do SPD em lidar com a crise de 1929 e o fim dos ataques da imprensa ao gênio louco que era Adolf Hitler. Assim como no Brasil atual, o último governo de centro-esquerda da República de Weimar foi marcado pela falta de maioria no parlamento, o que obrigava o chanceler Hermann Müller a fazer concessões à direita e impossibilitava-o de enfrentar a crise econômica. Os direitistas, em especial ex-militares, culpavam uma conspiração de socialistas e minorias étnicas (judeus e polacos) pelos problemas econômicos do país. Discurso que começa a ganhar força aqui. A imprensa viu nesse discurso perigosíssimo a oportunidade de tirar o SPD do poder. Hitler forjou uma aliança com o magnata da imprensa e político Alfred Hugenberg, cujos jornais pararam de atacá-lo. Os nazistas passaram de 2,6% para 18,25% dos votos. Prevejo cenário semelhante em 2018: a mídia brasileira – tão oligopolizada quanto a alemã era – não atacará Bolsonaro porque ele é útil para seu plano de tirar o PT do poder. Não vai exaltá-lo, pois finge ser democrática, mas também não o atacará.

Prevejo também a esquerda mais radical do país culpando o PT pela ascensão da extrema-direita, assim como o KPD culpava o SPD pela ascensão do nazismo. Embora o PT nunca tenha perseguido e provocado a morte de dirigentes do PSOL, as divergências entre os dois partidos permanecem tão fortes quanto as de social-democratas e luxemburguistas. Assim como alguns no PSOL hoje falam do PT, os membros do KPD encaravam o SPD – e não o Partido Nazista – como o maior inimigo da classe trabalhadora. Entendo perfeitamente de onde vem essas críticas. O PT se apresenta como revolucionário no Horário Eleitoral e atua como o PSDB light no poder. Enganou a classe trabalhadora. Mas o próprio PSOL também está sendo vítima da encruzilhada anti-PT. O partido teve seu único prefeito, de Itaocara-RJ, cassado sem nenhum motivo legal aparente, assim como Franz von Papen depôs o governo de esquerda da Prússia para agradar os nazistas. E isso foi só o começo. Ninguém ficará a salvo da sanha anti-esquerdista. Nem mesmo Marina Silva, que se julga acima das ideologias. Em 2014 mesmo ela começou a ser atacada pela direita hidrófoba por ter pertencido ao PT até 2009. 

O atentado ao Reichstag, praticado pelos próprios nazistas
teve sua culpa atribuída ao KPD, o que justificou a aplicação
da cláusula anti-terrorismo da Constituição por Hitler.
Com a aprovação da mal-fadada lei "antiterrorismo" ficará ainda mais fácil criminalizar tanto o bloco PT/PCdoB quanto o PSOL. A Alemanha também reprimia duramente os "terroristas" (só os de esquerda, porém) durante a República de Weimar. Sua Constituição permitia a suspensão dos direitos individuais em situações que o próprio governo definia como sendo "de emergência". Foi esse dispositivo legal que permitiu a Hitler dar início a seu regime de exceção, tendo como justificativa o "atentado terrorista" no prédio do Reichstag, supostamente praticado por membros do KPD. Ele suspendeu direitos individuais e todos os partidos políticos valendo-se da própria ordem legal estabelecida. A lei aprovada no Congresso Nacional repete o dispositivo constitucional alemão e pode acabar sendo usada para fins absolutamente estranhos àqueles que o legislador imaginou ao criá-la. Enquanto isso, o PT tenta defender as concessões indefensáveis que Dilma Rousseff pratica para tentar se manter no poder e o PSOL, megalômano, crê ter musculatura o suficiente para reverter a guinada conservadora da sociedade sozinho.

No entanto, equivoca-se quem acha que a direita já estabelecida é a principal beneficiária do atual caos político. De maneira semelhante à Alemanha dos anos 1930, a direita parlamentar também perde espaço para a direita marginal. Mesmo que o PSDB consiga eleger o presidente em 2018, o partido vai se deteriorar no poder de forma muito mais rápida do que o PT, em especial se a crise econômica prevalecer. Os tucanos não vão conseguir "arrumar a economia" tão rápido quanto prometem e, como já provaram no passado, vão tentar fazê-lo às custas do povo, já irritado. Isso vai revoltar parte significativa de sua base eleitoral, que vai cair de bandeja nas mãos de Bolsonaro. É algo que a crise econômica mundial vem provocando nas principais economias do mundo: a descrença com os representantes da política tradicional ou, como preferem dizer alguns analistas políticos, "o fim do centro político". Tanto Donald Trump quanto Bernie Sanders, por exemplo, definem-se como políticos anti-establishment. É assim que os eleitores de Bolsonaro vêem seu "mito", como um outsider da política, embora ele já esteja no Congresso há 30 anos.

Seria o povo brasileiro os ratos de Hamelin?
Por tudo o que foi dito acima, dói conhecer a História. Aqueles que conhecem-na vêem os que não a conhecem – que são a grande maioria atualmente – repetindo-a sem poder fazer nada. Como convencer uma pessoa que sequer ouviu falar de Mein Kampf que ela está caindo no discurso de um flautista de Hamelin que vai conduzir a todos nós para o abismo? A sensação de impotência é enorme. Mesmo aqueles que presumivelmente conhecem a História repetem-na. As concessões de Dilma à direita para tentar agradar à elite que quer derrubá-la e criminalizar o PT também foram tentadas, sem êxito, pelo SPD, que com isso traiu por completo o ideal de seus fundadores e perdeu para sempre o apoio da classe trabalhadora. A recusa do PSOL em aliar-se estrategicamente com o PT para evitar a ascensão de um mal maior se assemelha à recusa do KPD em compor com o SPD por orientação da Comintern. Não é à toa que pipocam nas redes sociais, desde o ano passado, páginas antifascistas que têm como símbolo o círculo idealizado pelo SPD no crepúsculo da República de Weimar.

Às vezes sinto como se a História se repetisse num loop constante. "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades", já dizia o poeta. Espero, do fundo do meu coração, estar errado. Não sou nenhum cientista político, mas cada vez mais vejo o destino da República de Weimar se repetir aqui no Brasil. Até grupos monarquistas lutando contra a ordem democrática nós também temos! Em escala bem menor, é claro, mas mesmo assim temos. Sem falar na adesão ao discurso genocida por parte das próprias vítimas deste. Há hoje no Brasil negros apoiando a extrema-direita, assim como haviam judeus anticomunistas apoiando Hitler na Alemanha. Segundo eles, a esquerda os vê como vítimas enquanto a direita acredita em sua capacidade individual. O individualismo exacerbado, aliás, é uma característica do nazismo. O que importa é o que o indivíduo pode fazer pela sociedade e não o contrário. Sinto-me num filme de Fritz Lang. Vejo a ascensão do Dr. Mabuse através da hipnose da massa, disposta a renunciar à civilidade e adotar a violência sem questionamento. E, o pior de tudo, é que, como personagem coadjuvante, sinto que não posso fazer nada para evitar isso.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

2015: Ano de denunciar a corrupção... dos outros

A moda do ano de 2015 na política foi vestir a camisa da seleção brasileira e ir para as ruas protestar contra a corrupção. A parcela da população que nunca esteve aí para a política nacional decidiu que acordou, que cansou e que daria um basta à roubalheira do governo. Roubalheira esta que acontece desde que o Brasil foi usurpado dos indígenas pelos portugueses no século VXI e tornou-se, oficialmente, Brasil. A roubalheira não gerava protestos quando o presidente comprou deputados por R$ 200 mil cada. A súbita indignação dos manifestantes com a corrupção tem essa mania de não atingir os escândalos envolvendo outros partidos que não sejam o PT. O mensalão foi uma brincadeira de criança perto do rombo do metrô de São Paulo, um dos mais cheios e ineficazes do mundo. Nenhum manifestante, no entanto, se diz preocupado com a morosidade das investigações no Ministério Público de São Paulo, sempre tão prestativo aos políticos do PSDB e seus aliados.

O presidente Clinton chegou a sofrer impeachment na Câmara
por mentir ao Congresso. O Senado, no entanto, absolveu-o.
Já contra a corrupção do PT, vale até mesmo aliar-se a corruptos. Para derrubar a presidente Dilma Rousseff por um suposto crime de responsabilidade fiscal cometido por todos os gestores públicos, de Marconi Perillo a Geraldo Alckmin, vale a ajuda de Eduardo Cunha, que disse numa CPI do Congresso que não possuía conta bancária no exterior. Alguns meses depois, o Ministério Público Federal recebeu, de presente dos promotores suíços, extratos bancários da conta do presidente do Congresso no país alpino. Mentir em CPI é crime. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton foi processado e sofreu uma tentativa de impeachment por tal motivo. Disse, numa investigação do Congresso, que jamais tinha mantido relações sexuais com sua ex-estagiária Monica Lewinsky, que mais tarde revelou à imprensa o sêmen de Bill num de seus vestidos. Trair a primeira-dama é imoral, mas não é crime. Mentir para o Congresso é.

A atual mandatária brasileira pode até ter cometido algo imoral com as chamadas "pedaladas fiscais", mas não cometeu um crime, ao contrário de Eduardo Cunha. A lei responsabiliza o secretário do Tesouro Nacional por repasses irregulares de recursos a órgãos estatais. Mas os manifestantes gostam de pensar que Dilma é uma espécie de Deus, onipotente e onipresente no cenário político nacional. Se o colégio estadual vai mal, a culpa é da Dilma. Se o posto de saúde municipal está caindo aos pedaços, a culpa é da Dilma. Como é que a Dilma não sabia da roubalheira da Petrobras? A Operação Lava Jato já dura mais do que as novelas da Rede Record e, mesmo assim, nenhum dos corruptos e corruptores presos jamais denunciou a presidente numa de suas delações premiadas. Caem deputados, senadores, diretores da estatal e jamais levantou-se suspeição sobre Dilma. A única suspeição foi aquela da Veja na véspera da votação, valendo-se de declaração falsa atribuída a Alberto Youssef.

Eu mesmo tenho uma série de restrições à política econômica do Governo Dilma II. Dilma, que era apontada como estatista demais na campanha de 2010, rompeu consigo mesma e agora faz um governo acanhado, controlado pelos bancos e sem ouvir as demandas de seus 54,5 milhões de eleitores. Na campanha, ela acusou Marina Silva de querer tirar o prato de comida da mesa dos brasileiros com sua proposta de entregar a formulação da política econômica aos bancos. Ao assumir, a presidente nomeou o homem de confiança do Bradesco para formular a política econômica do país. Vieram os cortes no Orçamento e a sólida base de apoio que Dilma havia conquistado para si no final de outubro de 2014 esfacelou-se. Talvez ela pensou que poderia conter os ânimos dos eleitores oposicionistas se começasse a aplicar a política econômica proposta pelo PSDB. Não só não conseguiu o apoio deles, como perdeu o que já tinha.

Isso, no entanto, não é motivo para derrubar um governo sob o regime em que vivemos; o presidencialismo. No parlamentarismo, cabe ao Legislativo decidir se um governo continua ou não. Se a maioria dos deputados avaliar que a política econômica é ruim para o país, pode derrubar o governo. Foi assim que Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido. Os trabalhistas costuraram uma coalizão com os nacionalistas escoceses mas, quando eles voltaram-se contra o governo, este perdeu o apoio necessário para aprovar seus projetos e foi derrubado pelo parlamento. Novas eleições foram convocadas e a oposição ganhou. Isso ocorre porque no parlamentarismo o chefe de governo é oriundo do legislativo. Não aparecia o nome "Margaret Thatcher" nas cédulas dos eleitores britânicos. Ela venceu as eleições internas de seu partido e, assim, garantiu o direito de governar caso seu partido recebesse a maioria dos votos.

No Brasil, não é assim que funciona. O chefe de governo é eleito diretamente pelo povo para governar por um período determinado; no parlamentarismo pode haver eleições antes da data estabelecida se o governo não conseguir o apoio do parlamento para aprovar seus projetos. No presidencialismo, embora importante, tal apoio não é necessário. Ronald Reagan governou oito anos com um Congresso hostil a sua administração. O Brasil já teve três presidentes em um ano. Foi para evitar situações assim e para garantir que a decisão soberana do povo em eleições livres e democráticas fosse respeitada que o legislador constituinte impôs regras tão rígidas para a derrubada de governos. O povo elege o presidente e o povo pode derrubá-lo. No entanto, mediante apresentação ao Congresso Nacional de denúncia comprovada de que o mandatário cometeu um crime. Quem diz isso não sou eu, é a Constituição.

Caiado adora denunciar o mensalão... dos outros, é claro!
A Carta Magna não prevê impeachment por motivo de política econômica ruim e tampouco por baixa popularidade. Se assim fosse, FHC deveria ter sido derrubado quando seu índice de popularidade também atingiu a casa de um dígito devido a sua incapacidade de lidar com a crise econômica do início da década passada. Mas nada disso importa para as pessoas preocupadas em combater a corrupção do PT. Parar carro de som no meio da ciclofaixa, como os manifestantes fizeram no domingo, não é corrupção? O dia em que marcharem contra toda a corrupção de todos os partidos e não aceitarem em suas manifestações atos que violem o Código Brasileiro de Trânsito nem a presença de gente como Ronaldo Caiado, que recebia um mensalinho do Bumlai, podem me chamar que eu vou. Mas enquanto estiverem achando que o inferno são os outros, me esqueçam. Não sou adepto de macartismos. E, dado o baixo número de manifestantes do último protesto (virtualmente inexistente fora de São Paulo), parece que o povo brasileiro também não é.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Um candidato para 2018

O ex-ministro da Fazenda, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes foi o entrevistado de ontem do programa Espaço Público da TV Brasil. Confesso que eu tinha algumas ressalvas ao político cearense, nascido em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Minha primeira ressalva diz respeito ao episódio em que ele, enquanto candidato à presidência da República em 2002, disse a repórteres que o papel de sua então esposa, a atriz Patrícia Pillar, na campanha dele era dormir com ele. No final da entrevista, Ciro fez um mea culpa pelo incidente. Outra ressalva que eu tinha em relação a ele era quanto a sua origem política. Ciro Gomes surgiu politicamente como correligionário do tucano Tasso Jeirissati, um dos representantes do coronelismo local no Ceará. No entanto, Ciro rompeu com Tasso em 2010 e denunciou tanto a plutocracia brasileira durante a entrevista que fica difícil acreditar que tenha sido um discurso só da boca para fora.

Ciro Gomes.
No início do programa, as perguntas foram sobre a opinião do entrevistado quanto ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ciro lembrou que só dois presidentes foram afastados na história do Direito contemporâneo: Fernando Collor no Brasil (feito em clima de consenso, pois este desagradou tanto os pobres quanto à elite) e Carlos Andrés Pérez na Venezuela e que até hoje a Venezuela segue ingovernável devido à crença de que é aceitável derrubar um governo do qual se discorda. Ele lembrou também que quando era ministro de Integração Nacional no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ordem para conter a crise do mensalão era "infantaria e diplomacia", ou seja, dialogar com o povo, partindo para o ataque com os que queriam derrubar o governo, e fazer o trabalho de bastidores que, segundo o ex-ministro, se perdeu. Quando foi revelado que o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti não passava de um corrupto, logo a tese de impeachment caiu em descrédito. Para Ciro é chocante que pessoas como Fernando Henrique Cardoso, que tem uma biografia a preservar, e Aécio Neves, que tem um sobrenome a zelar, apoiem a retirada de Dilma ("pessoa seriíssima") sem que ela tenha cometido crime algum. "Tancredo construiu o caminho para a democracia e Aécio joga tudo na lata de lixo", disse.

Em seguida, Ciro narrou o episódio de criação do Plano Real. Ele disse que estava esperando ansiosamente aos debates da eleição presidencial de 1998 para tirar a máscara que FHC construiu para si mesmo de "pai do Real". No entanto, FHC manipulou a mídia para que nenhuma emissora de televisão realizasse debates. Ciro contou que ele, então filiado ao PSDB, e Tasso Jeirissati montaram uma grande equipe econômica - "que na época gostava do Brasil, mas hoje gosta de dinheiro" - para resolver o problema da hiperinflação. Segundo ele, FHC foi nomeado ministro da Fazenda após uma desavença de Itamar com Tasso, então pré-candidato do PSDB à presidência. FHC não se elegia mais para o Senado em São Paulo e estava encerrando sua carreira política, tendo sido escolhido para o cargo como forma de implementar o projeto econômico idealizado pelo PSDB sem prejudicar a imagem de Itamar. Quando apresentaram o Plano Real a Itamar, José Serra tentou sabotar o projeto, levando, por isso, um pito de Mário Covas. Cientes de que o plano seria um sucesso e de que o PSDB, como idealizador do mesmo, teria boas chances de eleger o próximo presidente da República, se reuniram para determinar quem seria o candidato. FHC atropelou todo mundo para declarar sua intenção, deixando Tasso, que de fato idealizou o Plano, de lado, para a fúria de Ciro.

O ex-ministro contou que ficou tão decepcionado com a atitude arrogante de FHC que decidiu sair do país durante o primeiro ano de governo dele. Ciro havia defendido homericamente o Plano Real porque acreditava que seu colega seria o candidato do PSDB. Foi estudar economia em Harvard, onde permaneceu por um ano e meio. Se é verdade que a idade costuma fazer aflorar características da personalidade do indivíduo, não sei, mas no caso de FHC parece ser verdadeira a afirmação. Seu estrelismo parece não conhecer limites ultimamente. Como um dos líderes do maior partido de oposição do país, nem se ruboriza mais ao defender a quebra da institucionalidade, a mesma que lhe fez refugiar no exterior na década de 1960. "Covas, vivo, jamais admitiria isso", afirma Ciro. O ex-ministro acha que FHC e Lula deveriam agir como "pais da pátria", emitindo suas opiniões apenas quando for absolutamente necessário. Para ele, a crise política atual só existe devido ao medo que os tucanos têm de que Lula seja candidato em 2018. Caso o ex-presidente se candidate e consiga desvincular sua imagem das políticas desastrosas de Dilma, o PSDB ficará 20 anos fora do poder. No entanto, se a crise se aprofundar teremos uma eleição semelhante ao pleito de 1989.

FHC e Lula aprofundam a crise, diz Ciro.
Em 1989 o "moralismo difuso" de Collor venceu a eleição contra o "comunismo" petista. Atualmente, segundo Ciro, quem mais representa isso é Marina Silva, que em momento algum fala em  mexer nas estruturas que geram desigualdades sociais. Justo pelo contrário, em 2014, a candidata falou em dar autonomia ao Banco Central, o que significa, na prática, colocar os bancos para controlar a política monetária do país. Seria dar aos bancos o poder de determinar a já altíssima taxa de juros do Brasil. Ele aponta que a política econômica brasileira, baseada no chamado tripé macroeconômico, é um erro crasso. A única coisa que justifica a prevalência dos interesses financeiros sobre a vida dos cidadãos é o lucro dos bancos que, aliás, batem recorde há duas décadas, independente se a economia vai bem ou não e se o governo é petista ou tucano. Elevar os juros não contém a inflação, pois o Brasil importa produtos de primeira necessidade, do trigo à química dos remédios. Se o preço do dólar aumentar, a inflação vai aumentar. A elevação dos juros só serve para garantir o lucro dos bancos, naquilo que este blogueiro chamou anteriormente de "o maior escândalo de corrupção do Brasil".

O grande pecado de Lula, segundo o entrevistado, foi não mexer nas estruturas do Brasil. Apesar de progressista na política social, garantindo aos maios pobres o acesso à alimentação, manteve uma política econômica conservadora. Graças aos avanços de Lula, o Nordeste passa por uma seca prolongada - há três anos já - e não sofre mais com saques a supermercados, lembra o entrevistado. Entretanto, ao invés de reformar a economia, taxando os mais ricos, Lula garantiu o absurdo lucro dos bancos. Ao invés de reformar a política, Lula cometeu o erro histórico de empoderar o PMDB, que é hoje um dos maiores combustíveis da atual crise. Ciro lembrou que, num evento em São Paulo, o vice-presidente Michel Temer, que Lula impôs à presidenta Dilma, disse que um governo com 8% de aprovação não se mantém no poder. O ex-ministro disse ter vontade de perguntar a Temer, advogado constitucionalista, em qual alínea da Constituição Federal está escrito isso. José Alencar, lembra o ex-ministro, defendia o mandato que conquistou com Lula até as últimas consequências. Ciro acredita que o povo, mesmo insatisfeito com a política econômica de Dilma, defenderia a democracia. Se, por um lado, o PT perdeu o apoio dos movimentos sociais, por outro, nenhuma entidade nacional apoia o impeachment de Dilma Rousseff, o que não era o caso durante o processo de impedimento de Collor.

Para Ciro Gomes, a direita perdeu o pudor. Segurando a bandeira da moralidade, tudo se torna justificável, inclusive agredir pessoas em público. "É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que quer derrubar a Dilma?", indagou. No entanto, ele acha que Lula tem sua parcela de culpa: "estão passando do limite porque ele perdeu a majestade". Ele acha que o ex-presidente deveria ter se recolhido após sair do poder e julga negativo para o país a eleição de Lula para um terceiro mandato, pois seria a continuidade da crise atual, sem falar que estaríamos replicando o personalismo político presente em outros países da América Latina. Segundo o ex-ministro, a oposição está fechada em bloco contra o governo, pois dos 411 milhões de reais que Eduardo Cunha desviou para a Suíça, "uns 350 milhões ele rachou com essa turma [que o elegeu]". Enquanto isso, o governo está de braços cruzados, sem fazer aquilo que o povo espera dele. Ciro acredita que se Dilma não mudar sua política econômica, terá chances reais de não completar o mandato. No entanto, ela precisa mexer em toda a estrutura do país, o que incomoda a plutocracia que vive dos juros. Precisa dar um jeito à defasagem de 106 bilhões entre as importações e exportações de produtos industrializados, ou seja. à balança comercial negativa que a venda de commodities (com preço em queda) não consegue mais compensar.

"É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que
quer derrubar a Dilma?", indagou Ciro.
Mexer com a plutocracia pode ser fatal. Quando Collor confiscou a poupança ele paralisou 1/3 da dívida pública nacional, lembrou Ciro. Ou seja, ao mesmo tempo em que tirou dinheiro de pessoas comuns, impediu que parcela significativa do orçamento fosse para o pagamento da dívida da União com os bancos. Nesse momento, as hoje tão noticiadas agências de risco colocaram o Brasil como país completamente inseguro para investimentos estrangeiros. Os ricos então apresentaram à opinião pública um delito cometido por Collor e derrubaram-no. Dilma, por outro lado, pensa que conciliar com os banqueiros (ou "plutocratas", como prefere Ciro) garantirá a sobrevivência de seu governo. No entanto, só a desgasta cada vez mais com o povo. Enquanto a economia vai bem, o povo tolera os desvios. No entanto agora que a economia azedou, Dilma, que desde o início tenta moralizar a máquina pública, acabou tendo sua imagem manchada pela corrupção - dos outros, com os quais ela precisa se aliar para governar. Enquanto isso, em São Paulo, a população tolera os desvios do governo Alckmin. Como aponta Ciro, num estado com rios em abundância parte da população da maior cidade da América do Sul passa sede. A Sabesp, depois de privatizada, deixou de investir na ampliação da rede de captação d'água; seu foco passou a ser em dividir o lucro entre seus acionistas.

Indagado se seria candidato em 2018, Ciro se esquivou da pergunta. Se disse cansado da política brasileira, que atinge níveis graves de baixeza, e afirma não saber se tem estômago para concorrer à presidência mais uma vez. No entanto, seu discurso é de candidato - e de um que o Brasil precisa. Um candidato que fala em reformas estruturais, fim de privilégios à plutocracia, desenvolver a indústria nacional e, sobretudo, garantir as conquistas sociais dos últimos doze anos. Discurso claro para resolver problemas concretos. A esquerda está, atualmente, de braços cruzados. Deixa o governo à própria sorte pois este vai contra tudo o que sempre defendeu na economia. A sociedade , por sua vez, se divide em dois grupos que, apesar de defenderem e implementarem a mesma política econômica, se apresentam para a população como antagônicos. Nesse cenário, Ciro Gomes pode muito bem ser a solução que buscávamos para resolvermos nossos graves problemas. Só quem os conhece profundamente pode fazê-lo.