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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Crítica: Agamenon está mais vivo do que nunca

A peça Homens e Caranguejos, apresentada no dia 23 pelo Coletivo Cênico Joanas Incendeiam de São Paulo, é um espetáculo incrível. Sua concepção visual, com um cenário de carrinhos de reciclagem que se transformam em palafitas, é fascinante. Mas o texto, baseado na obra homônima de Josué de Castro, consegue ser muito mais. Ele mexe com todos os nossos sentidos. É possível sentir a dor do pai que acabou de perder o filho engolido pela correnteza do Rio Capibaribe. Em outro momento, é possível sentir a alegria do menino que brinca tão feliz no mangue do Recife sem saber que existe um mundo de luxo a poucos quilômetros de distância dali.

Inspirada no movimento realista do século passado, a peça tem um forte caráter de denúncia social. Também pudera. O médico nutrólogo Josué de Castro foi presidente do conselho executivo da FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação, e um dos grandes ativistas no combate à fome na região do semiárido brasileiro. Devido à sua militância política e social, teve seus direitos políticos cassados após o golpe civil-militar de 1964. Logo em seguida, em 1967, escreveu Homens e Caranguejos, seu único romance, como uma denúncia ao problema que não merecia a devida atenção dos ditadores militares e da sociedade civil que mantinha-os no poder.

Narrando, em tempo psicológico, a história de uma família de retirantes que sobrevive à fome no interior do Nordeste para tentar a vida no Recife, a peça utiliza a figura mitológica do rei grego Agamenon como alegoria para os mandatários que, além de não fazerem nada para aliviar o sofrimento do povo pobre, ainda querem expulsá-los de suas casas para dar espaço ao “progresso”; progresso este que, embora esteja cravado na bandeira, ainda é um direito acessível a poucos brasileiros. Agamenon matou dezenas de troianos para recuperar Helena de Troia e sacrificou sua própria filha durante a guerra. O que torna sua escolha ainda mais significativa se considerarmos o caráter feminista do Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, formado apenas por mulheres. 

Em Homens e Caranguejos, a tragédia, gênero teatral desenvolvido pelos gregos, se mistura com a tragédia da realidade de miséria que castiga a vida de muitos brasileiros. Nesta tragédia do século XX (ou XXI), pai e filho ganham a vida catando caranguejos no mangue. Para o desespero do pai, a criança não está tão interessada em seguir carreira como catador de caranguejo. O menino brinca na lama suja do mangue e sonha em depor o déspota Agamenon com a ajuda de um vizinho idoso, já debilitado. Esse movimento pela mudança social tem seu auge com a chegada do boi-calemba – ou boi-bumbá, festa originária da lenda do boi voador do Recife – no mangue, quando ficção e realidade se misturam com um grito de “viva Marielle Franco” pelo menino. 

Isso fez com que a pergunta que já estava em minha cabeça, ficasse ainda mais forte: quem seria Agamenon? Seria Geraldo Alckmin, da terra das atrizes? Seria Paulo Câmara, governador do Pernambuco que, como o rei da peça não hesita em desocupar os pobres de áreas públicas para trazer o “progresso” para o Recife? Seria o general Castello Branco, ditador da época em que o texto de Josué de Castro foi originalmente escrito? Para uns será até mesmo Lula ou Dilma, que apesar de suas boas intenções sucumbiram a um sistema político fisiológico e corrupto. Mas não consigo deixar de pensar que Agamenon seja Michel Temer, o responsável por colocar o Brasil de volta no mapa da fome compilado pela mesma FAO de Josué de Castro. 

Enquanto “Agamenon” se reúne com empresários e parlamentares para decidir como o povo pode pagar ainda mais pela crise dos ricos, pobres são desocupados de suas casas pelas forças de repressão estatal para darem espaço a condomínios de luxo, crianças brincam em manguezais sujos, adultos não veem alternativa senão colocarem seus filhos para trabalhar mesmo correndo o risco de serem penalizados por esse mesmo Estado que vira-lhes a cara enquanto eles passam fome. E também meninos morrem afogados em enchentes. Pensando bem, talvez “Agamenon” não seja só Temer, talvez sejamos todos nós que, por ação ou por omissão, permitimos que ele continue no poder e que cenas como essas, retratadas num texto de meio século atrás, continuem sendo comuns na realidade do Brasil.

O texto, infelizmente, é atemporal. Após uma aliviada durante os anos Lula e Dilma, a fome agora volta a assolar os rincões do país. Enquanto isso, nos grandes centros urbanos como o Recife, a miséria se torna cada vez mais evidente conforme vendedores e pedintes se multiplicam e disputam espaço nos sinaleiros. É interessante que, num cenário de golpes à democracia, aos direitos civis e humanos e às próprias iniciativas de combate à fome (com o anúncio de cortes ao Bolsa Família no orçamento do ano que vem), o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam tenha decidido resgatar justamente esse texto. Num cenário de sacrifício do direito de muitos em prol do benefício de poucos, a alegoria do autoritário e insensível rei Agamenon se apresenta mais viva do que nunca. Em cada um de nós.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma

A grande mídia adora encomendar pesquisas, mas nunca traduz direito para seu público os números que ela mesma encontra nessas sondagens. Talvez por que não seja do seu interesse fazer uma manchete dizendo "PSDB perde 24 milhões de eleitores em quatro anos". Pois bem, me propus a fazer o serviço que as redações dos grandes jornais não fazem com os dados que têm em mãos. Considerando a média das pesquisas Datafolha (29—30/11), DataPoder 360 (8—11/12) e Paraná Pesquisas (18—21/12), cheguei aos seguintes percentuais de intenção de voto em cada um dos principais candidatos à presidência da República em 2018:

Lula (PT): 30%
Bolsonaro (PSL): 20%
Marina (Rede): 8,5%
Alckmin (PSDB): 7%
Ciro (PDT): 5,5%

Outros nomes testados pelos institutos de pesquisas — como os do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (sem partido), o do senador Álvaro Dias (Podemos), o do ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSDB), o do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) e o do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) — teriam, juntos, 11,7% dos votos. Isso faria com que uma média de 82,7% dos eleitores pesquisados decidissem pelo voto válido na próxima eleição. A soma de votos brancos e nulos e abstenções chegaria a 17,3% do eleitorado.

Faltou combinar com o povo. Apesar do fim do PT ter sido
anunciado diversas vezes, Lula teria 1,6 milhões de votos a
mais do que Dilma se a eleição fosse hoje.
E, por falar em eleitorado, foi preciso fazer uma estimativa deste para chegar ao número exato de votos que cada candidato a presidente teria caso a eleição de outubro ocorresse hoje. Em 2016, ano das últimas eleições municipais, o Brasil tinha 144.088.912 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número cresceu 4% em relação àquele de 2014. Se o número de eleitores em 2018 também apresentar um crescimento de 4% em relação ao de 2016, teremos em nosso país, no próximo mês de outubro, 149.852.466 eleitores aptos a votar. Lembrando que este número é uma estimativa. Pode ser maior ou menor no dia da eleição, após os eleitores regularizarem (ou não) sua situação junto à Justiça Eleitoral.

Vamos então aos números. Se as pesquisas estiverem certas e as eleições fossem hoje, teríamos o seguinte resultado no primeiro turno:

Lula (PT): 44.955.740
Bolsonaro (PSC): 29.970.493
Marina (Rede): 12.737.459
Alckmin (PSDB): 10.489.673
Ciro (PDT): 8.241.886


Os demais candidatos teriam, juntos, 17.532.738 votos. Isso significa que 123.927.989 eleitores fariam sua escolha pelo voto válido, o que representaria 82,7% do eleitorado total. Votos brancos e nulos e abstenções seria a escolha de 25.924.477 eleitores ou 17,3% do total.

Fazendo a ressalva de que não é possível, pela metodologia de alguns dos institutos, diferenciar o voto nulo e branco da abstenção, teríamos o seguinte percentual de votos para cada candidato:

Lula (PT): 36,27%
Bolsonaro (PSL): 24,18%
Marina (Rede): 10,28%
Alckmin (PSDB): 8,46%
Ciro (PDT): 6,65%
Outros candidatos: 14,15%

Em relação ao primeiro turno de 2014, teríamos que o candidato do PT teria um percentual menor de votos do que Dilma Rousseff, mas ainda assim Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma. Marina Silva, por sua vez, reduziria se percentual de votos pela metade e teria 9,4 milhões de votos a menos do que em 2014. Já o candidato do PSDB apresentaria uma queda de 25 pontos em relação ao percentual obtido por Aécio Neves em 2014. Em números absolutos, Geraldo Alckmin teria 24,4 milhões de votos a menos do que o senador mineiro. Não é possível traçar um paralelo entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, visto que seus partidos não lançaram candidatos em 2014.

Parece ter ocorrido uma pulverização do apoio às forças hegemônicas da política brasileira nos últimos 16 anos — mais acentuado no PSDB do que no PT. Isto se reflete pela grande quantidade de candidatos que se apresentam à população. Esta deve ser a eleição com mais candidatos desde o pleito de 1989, o primeiro após o fim da ditadura militar e que contou com 22 candidatos, inclusive o próprio Lula. Os candidatos de partidos menores conquistariam cerca de 17,5 milhões de votos se a eleição fosse hoje. Um aumento de quase 14 milhões em relação a 2014. Com mais candidatos na disputa, a abstenção e a soma de votos bancos e nulos deve cair, sendo a opção de 13 milhões a menos de eleitores brasileiros em 2018 em relação a 2014.

Num cenário de pulverização dos partidos tradicionais,
Jair Bolsonaro desponta em segundo lugar nas pesquisas.
Contanto, este é um retrato do cenário atual. Embora já tenha voltado suas baterias contra Lula, Bolsonaro e, mais recentemente, Ciro Gomes, a grande mídia ainda não começou sua tradicional campanha a favor do candidato do PSDB ou de qualquer outro partido liberal que lhe agrade ainda mais que o governador paulista Geraldo Alckmin. Este, por sua vez, demonstrou-se demasiadamente fraco no pleito de 2006, uma eleição que, segundo o relato de seu biógrafo Richard Bourne, o próprio Lula considerava perdida para o PSDB. Desanimado, o ex-presidente sequer engajou-se em sua própria campanha, tendo até mesmo faltado aos debates do primeiro turno na televisão.

De qualquer forma, estes dados são interessantes para a confirmação ou negação de algumas hipóteses que tem sido ventiladas desde o início da atual crise sociopolítica no país. A ascensão da extrema-direita de Jair Bolsonaro às custas dos liberais é uma delas. Tucanos e seus aliados atacaram as políticas do Estado brasileiro durante os 13 anos dos governos petistas, imaginando que colheriam os frutos disso, mas pavimentaram o caminho para reacionários que desejam ver implementado o conservadorismo não só na política econômica. O centro político — tanto a centro-esquerda representada pelo PT quanto a centro-direita representada pelo PSDB, passando pelo fisiologismo do PMDB — está em baixa e Bolsonaro parece ter tirado votos até mesmo da moderada Marina Silva. Antes, quem estava cansado da polarização PT—PSDB votava na centrista. Hoje, num precedente perigoso para a democracia brasileira, vota num radical de direita.

Mesmo com a desintegração de partidos e políticos tradicionais, exemplificado pela ascensão de Bolsonaro e diversos candidatos de partidos pequenos, o suposto fim do PT, anunciado diversas vezes na capa da Veja, parece estar longe de ocorrer. Escorado na figura de seu eterno líder, o partido ainda possui o potencial para conquistar quase 45 milhões de votos. Embora acossado por diversas denúncias e uma condenação na Lava Jato que pode lhe tirar da disputa, Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma se a eleição fosse hoje. Se a ascensão do fascismo ou o favoritismo do PT vão se manter uma vez que a campanha começar e a pregação pró-liberalismo da grande mídia e seus reprodutores nas redes sociais se intensificar são questões que só o tempo dirá. Entretanto, o cenário atual e com o qual políticos e militantes deveriam trabalhar, é o de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

USexit

Algo surpreendente tem acontecido nos Estados Unidos. Segundo a média das últimas quatro pesquisas (Rasmussen, YouGov/Economist, IBD/TIPP e ABC News/Washington Post) para a eleição presidencial, que ocorre na próxima terça-feira, 8 de novembro, a democrata Hillary Clinton tem 45% das intenções de voto e o republicano Donald Trump tem 44,25%. Gary Johnson, do Partido Libertário, tem 4% e a Dra. Jill Stein, do Partido Verde, tem 2%. Mesmo na única pesquisa em que ainda lidera, a YouGov, Hillary encontra-se em situação de empate técnico com o adversário republicano, ou seja, dentro da margem de erro. O mercado tem reagido negativamente à ascensão de Trump na reta final da campanha. Os pregões da NASDAQ, da S&P e da Dow Jones fecharam em queda nos dois últimos dias. A disputa pela presidência dos EUA também tem causado uma desvalorização do dólar frente às moedas nacionais, embora o Governo Temer deva estar dizendo nas redes sociais que o real se valorizou graças a seus esforços de retomar o crescimento econômico.

É justo culpar os pobres por estarem desesperados por mudança?
Mas o que explica essa arrancada de Trump agora, na reta final da campanha, uma vez que todos os veículos de comunicação previam uma vitória tranquila da candidata democrata até duas semanas atrás? Tenho uma teoria bastante razoável para isso, baseada na minha observação da campanha do referendo que decidiria a continuação do Reino Unido na União Europeia. Como todos nós sabemos, o "Brexit" (a saída da Grã-Bretanha da UE) venceu. No entanto, poucos previam isso até a semana da votação. Minha teoria é que os eleitores "saíram do armário" e declararam sua posição só na reta final da campanha, momentos antes da votação. Além disso, muitos sequer se dão ao trabalho de ir votar, confiantes da vitória de sua opção. Assim como nos EUA, votar não é obrigatório no Reino Unido e não provoca nenhuma penalidade de âmbito legal. Assim sendo, parte dos eleitores, confiantes na vitória de seu candidato ou de sua causa, sequer sai de casa no dia da eleição. Outros farão o "serviço sujo" de votar em Hillary Clinton ou no Remain a member of the European Union para eles.

Essa decisão de última hora dos eleitores se vão votar ou não acaba se refletindo nas pesquisas de opinião. Há, nos EUA, dois tipos de pesquisa. Aquelas realizadas com quem está apto a votar (registered voters — RVs) e aquelas feitas com quem diz que vai votar (likely voters — LVs). O número de LVs é variável e as últimas pesquisas levam em consideração apenas a intenção de voto desse grupo demográfico. Há duas hipóteses que explicam a ascensão de Trump e a queda de Hillary nas pesquisas mais recentes: um contingente grande de RVs está virando LVs para votar em Trump ou um número significativo de LVs que declaravam voto em Hillary está virando RVs. Mas o que teria levado-os ao desencanto com sua candidata? Em parte, aquilo que a mídia vem chamando de October suprise. A "surpresa de outubro" foi a decisão do FBI de retomar as investigações sobre os mais de 16.000 e-mails que Hillary enviou, enquanto secretária de Estado (muitos deles deletados), usando um servidor privado, em violação às diretrizes oficiais do governo norte-americano.

Hillary reagiu da pior maneira possível. Assim como Trump reage às denúncias atacando a credibilidade de seus críticos, a democrata colocou em xeque a parcialidade de James Comey, o diretor-geral da polícia federal dos EUA, nomeado ao cargo em 2013 por seu ex-chefe e maior cabo eleitoral, o atual presidente Barack Obama. A investigação dos e-mails ressurgiu após a denúncia de que o ex-congressista Anthony Weiner, marido de Huma Abedin, assistente de campanha de Hillary, teria utilizado o tal servidor privado para enviar "nudes" para uma jovem de 15 anos de idade. Sempre que o assunto dos e-mails privados de Hillary ressurge na mídia, a disposição do eleitorado em apoiá-la cai. A omissão de verdade praticada por Hillary fazem os eleitores se lembrarem das mentiras de Bill Clinton, a mais famosa das quais quase lhe custou o cargo de presidente. É nessa hora que os eleitores em potencial da democrata deixam de ser LVs e passam a ser apenas RVs. É nessa hora também que os eleitores de Trump sentem-se empoderados para sair do armário.

Antigo Parque Industrial de Detroit, destruído pelo NAFTA.
Mas por que as pessoas votam em Trump para começo de conversa? Por mais que a mídia alerte para os riscos de colocá-lo na Casa Branca, os norte-americanos mais pobres estão cansados do neoliberalismo e sentem que não têm mais nada a perder. A base do eleitorado de Trump é justamente a classe baixa branca, que ficou ainda mais empobrecida nos últimos 20 anos. Votar em Trump ou no "Brexit" é, para as pessoas comuns, votar contra pessoas e causas que representam o modelo econômico que lhes castiga. Nos EUA de 2016, o trumpismo é o movimento que melhor incorpora o antiliberalismo. A culpa é do eleitorado se ele rejeita o neoliberalismo e se a candidata do campo progressista é justamente a esposa do cara que, nos anos 1990, assinou o NAFTA? O NAFTA, ou tratado de livre-comércio da América do Norte, para quem não sabe, fez com que milhares de empregos na indústria americana migrassem para o México, onde é bem mais barato contratar um empregado. A culpa não é do eleitorado por querer romper com esse modelo econômico e ver em Trump a única alternativa a isso.

Embora agora diga-se contrária ao Tratado Transpacífico (TTP), Hillary apoiava o projeto do presidente Obama de expandir a área de livre-comércio dos EUA até meados do ano passado, quando o senador Bernie Sanders entrou na disputa para ser o candidato democrata à presidência. Assim sendo, sua oposição a práticas neoliberais não inspira confiança no eleitorado. Havia, dentro do Partido Democrata, uma alternativa ao neoliberalismo que inspirava o eleitorado mais jovem e que derrotaria Trump com uma vantagem de mais de dez pontos percentuais, mas ela foi minada pela própria direção do partido, que jogou a democracia interna às favas, e agiu como bunker de campanha de Hillary Clinton. Mesmo com vergonha, as pessoas votam em Trump ou no "Brexit" porque elas estão desesperadas com as opções que a política tradicional apresenta-lhes. Trump, assim como Sanders, apresenta-se como forasteiro dos grandes partidos. Ele foi repudiado, inclusive, por Mitt Romney, candidato republicano à presidência em 2012.

Às vezes, na ânsia de ficarmos livre de algo ruim, damos
poder a algo ainda pior.
Assim como os britânicos rejeitaram a União Europeia por enxergarem nela o símbolo do modelo econômico que penaliza-lhes, enquanto concentra renda em 1% da população, o mesmo ocorre com a rejeição a Hillary Clinton. Claro que ela tenta se afastar das medidas econômicas de Bill, mas o sobrenome é o mesmo e evoca muitas lembranças. Tanto que, para se defender das acusações de assédio sexual que surgiram há duas semanas, quando sua campanha já era dada por encerrada, Trump relembrou o longo histórico de acusações contra o ex-presidente. O fato é que a eleição do magnata dos imóveis, caso se confirme, será a versão norte-americana do "Brexit". Atrapalhadamente, os EUA terão dito não ao modelo neoliberal. O "USexit", assim como seu paralelo do outro lado do Atlântico, terá muitos de seus partidários arrependidos logo após a votação. Às vezes, na ânsia de ficarmos livres de algo ruim, damos poder a algo ainda pior. Os brasileiros que estavam batendo panela até abril e que agora encontram-se num silêncio de vergonha sepulcral, que o digam.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Pode o novo nascer de práticas antigas?

O segundo turno das eleições municipais no Brasil não poderia ter sido marcado em data mais apropriada. Será no dia 30 de outubro, véspera do Dia das Bruxas. A disputa em cidades como Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia — todas elas antigos redutos do Partido dos Trabalhadores — mais parece o enredo de um filme de terror. Candidatos de partidos de direita se digladiam naquela que deve ser a campanha mais baixa e menos propositiva de toda a história recente desses locais. Após ter subtraído 54,5 milhões de votos e tomado o poder central de assalto, a direita, que falou em voz uníssona durante o processo que culminou no golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, agora digladia entre si para definir quem irá ditar os rumos da política nacional. Aqui em Goiânia a disputa será entre o velho coronel Iris Rezende (PMDB), patrocinado pelo senador Ronaldo Caiado (DEM), e o empresário Vanderlan Cardoso (PSB), ex-prefeito de Senador Canedo e candidato do governador Marconi Perillo (PSDB). Nenhum desses golpistas merecem o meu voto, mas precisamos falar sobre aquele que vem se apresentando como o "novo" para a população da capital.

Em qual Vanderlan devemos acreditar? No de 2010...
Em outubro de 2010, o então candidato a governador Iris Rezende fez um comício na Região Noroeste de Goiânia para receber o presidente Lula e a então candidata à presidência Dilma Rousseff. É inútil repetir que Iris e seu PMDB mais tarde trairiam Lula e entregariam Dilma aos lobos golpistas; isso todos já sabem. Vale frisar, no entanto, que neste comício Iris recebeu o apoio e o elogio de Vanderlan Cardoso, que também concorreu ao governo, mas não avançou para o segundo turno da disputa. Segundo Lula, a oposição aos tucanos em Goiás procurou-lhe para definir os nomes que concorreriam ao governo e ele abençoou as candidaturas tanto de Iris — com quem seu PT estava coligado — quanto de Vanderlan. Eu sei disso porque eu estava lá. Presenciei o discurso de Lula e também presenciei quando Vanderlan disse que o melhor para o futuro de Goiás era a eleição do ex-governador Iris Rezende, então recém-saído da prefeitura de Goiânia. Hoje, o mesmo Vanderlan ataca o peemedebista por sua aliança com o PT no passado, da qual ele também fez parte no segundo turno de 2010, e coloca-se como seu rival na disputa pela prefeitura da capital do Estado.

Vanderlan apresenta-se na televisão como uma espécie de "João Dória goiano". O empresário, dono da fábrica dos salgadinhos Micos, apresenta-se como um gestor que irá revolucionar a prefeitura ao aplicar à administração pública as práticas do mundo empresarial. Se há algo que o fenômeno Donald Trump nos ensinou é que a melhor maneira de construir uma candidatura viável nas democracias liberais hoje em dia é, além de denunciar os inimigos que estão destruindo a família tradicional, apresentar-se como o "não-político". Segundo a campanha do candidato socialista, Iris Rezende, do alto de seus quase 83 anos de idade, possui práticas políticas obsoletas. Não discordo, mas substituir as práticas paternalistas do velho coronel por "novas" práticas que incluem a privatização e a diminuição da máquina pública me parece como trocar seis por meia-dúzia. Além do mais, gostaria de saber o que provocou uma mudança tão súbita em Vanderlan em seis anos para que ele negasse tudo aquilo que disse para mim e outros eleitores goianienses naquele comício de 2010. Não padeço da doença da amnésia, tão comum a grandes parcelas do eleitorado brasileiro.

Em qual Vanderlan o eleitorado de Goiânia deve acreditar? No de 2010 ou no de 2016? E, mais importante de tudo, o que fez com que ele mudasse tão radicalmente de opinião sobre o governador Marconi Perillo, contra quem concorreu nas eleições de 2010 e 2014? Teria algo a ver com o enorme aporte financeiro que sua campanha recebeu desde que aceitou coligar-se com o PSDB, que governa, aparelha e dilapida o Estado há 18 anos? A rejeição aos tucanos em Goiânia é notória, então dessa vez o governador preferiu concorrer com alguém distante de seu grupo político e que apresenta-se como o "não-político", para conseguir a chance de abocanhar as finanças municipais também. A enorme estrutura de campanha que o PSDB forneceu a Vanderlan seria, segundo alguns, bancada pelos recentes desvios promovidos pelos tucanos na empresa estatal de saneamento, a Saneago. Vanderlan apresenta-se na disputa pela prefeitura de Goiânia como o novo, mas para ter uma chance real de finalmente chegar ao poder aliou-se com os políticos sujos e corruptos que tanto criticava em campanhas passadas. Fica a dúvida: pode o novo nascer de práticas antigas?

...ou no de 2016?
Ao aliar-se ao PSDB, Vanderlan incorreu na prática mais comum da "velha" política de Iris: o conchavo. O peemedebista já esteve coligado com todos os grupos políticos imagináveis, do PT ao DEM. Ao incorrer no primeiro e mais grave pecado do político ordinário, passou a diferenciar-se do oponente apenas no discurso. Na prática, são iguais: dois políticos que só visam o poder a qualquer custo e não estão nem aí para a ideologia dos partidos com os quais se coligam. O povo, que dizem representar, é um mero espectador na construção de suas alianças programáticas e partidárias. Por um momento, antes da eleição de 2010, cogitei votar em Vanderlan Cardoso para governador. A eterna polarização entre Iris e Marconi, que perdura desde que eu tinha oito anos de idade, me causa náuseas. No entanto, em determinado programa eleitoral, ele propôs conceder a administração das comunidades terapêuticas que tratam dependentes químicos para igrejas. Aquele foi o momento em que percebi que havia algo de velho no "novo" candidato. Foi ali que percebi que se tratava de um político "mais do mesmo", que confunde o Estado laico com sua crença religiosa pessoal.

Agora que Vanderlan aliou-se ao PSDB de Marconi Perillo. prometendo governar Goiânia, mas na verdade visando a eleição de 2018, tenho certeza absoluta de que ele é um político como outro qualquer. Por que uma pessoa que sequer mora em nossa cidade e que exerceu o cargo de prefeito de outra cidade completamente diferente está tão interessada em governá-la? Não é para "gerir" nossa Goiânia e melhorar a qualidade de vida de nosso povo. É para fazer palanque para o próximo pleito de governador. Marconi Perillo não pode concorrer ao governo em 2018, então nada melhor do que colocar alguém "novo", que não enfrentou grandes casos de corrupção em seu histórico político, para substituí-lo. Vanderlan apesenta-se como o "pós-político", mas a política dele é a mesma de sempre. Não sintam-se surpresos caso ele seja eleito prefeito e abandone a cidade para concorrer ao governo do Estado como o candidato pós-Marconi e, uma vez eleito, reproduza todas as práticas de Marconi Perillo e seu PSDB. Vocês foram avisados por quem percebeu a incongruência entre o discurso e a prática de Vanderlan Cardoso desde o início.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pátria educadora ou Haiti?

Quando escolheu "Pátria Educadora" como slogan de seu segundo mandato, Dilma Rousseff estava pensando nos royalties do pré-sal que ela, enquanto ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula (2003—2010), havia garantido para a educação. Com o início da exploração da camada pré-sal dos campos petrolíferos descobertos pela Petrobras, a educação brasileira veria aportes de recursos jamais imaginados para o setor na história do Brasil. Inclusive, se houve um ministério que Dilma não descuidou no seu segundo e breve mandato, este ministério foi o MEC. Primeiro ela nomeou como ministro o ex-governador do Ceará, Cid Gomes, responsável por uma revolução no ensino médio daquele estado. Após um bate-boca com Eduardo Cunha, Gomes foi substituído pelo brilhante professor de filosofia da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, que introduziu o tema da violência de gênero no ENEM, para o desespero dos misóginos.

O pré-sal é, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição. Trata-se da maior riqueza mineral encontrada no século XXI. O PSDB, partido que representa os interesses das empresas internacionais na política brasileira, não iria deixar o PT usá-lo como bem entendesse. Primeiro, acionou seus contatos na imprensa (que, segundo a própria presidente da Associação Nacional de Jornais, virou um partido de oposição) para demonizar o PT de forma que os brasileiros passassem a achar que se tratava do partido mais corrupto da história da Via Láctea, embora o nível de corrupção em ambos os partidos seja praticamente o mesmo. Depois, demonizou a própria Petrobras, de forma a inviabilizar sua participação na exploração do pré-sal. Para isso, acionou seus contatos no Ministério Público e na Justiça para promover uma devassa nos contratos da empresa. A ideia a ser vendida à população era simples: o PT destruiu a empresa e só Sérgio Moro seria capaz de moralizá-la.

Ficou claro agora, no entanto, que a "moralização" da Petrobras não passou de um espetáculo político-midiático para justificar a entrega de nossa maior riqueza mineral para os estrangeiros. A empresa, supostamente destruída pelo PT — embora sua saúde financeira estivesse bem antes de ser atacada por agentes do próprio Estado brasileiro —, só irá se recuperar com a ajuda dos estrangeiros "bonzinhos". Afinal, tudo o que vem de fora é melhor, não é mesmo? Um próprio exemplo disso é o juiz Moro, que volta e meia faz cursos de treinamento, quer dizer, reciclagem nos Estados Unidos. Era preciso, no entanto, derrubar a presidente Dilma para concluir a transição do nosso petróleo para o estrangeiro. Entra em cena o PMDB. Michel Temer tentou negociar com Dilma para que ela entregasse o poder e mantivesse o cargo, mas ela não aceitou. Recentemente, o traidor confessou para empresários norte-americanos que Dilma caiu porque não aceitou sua Ponte Para o Futuro, que nada mais é do que a negação completa do projeto vencedor da eleição de 2014.

Pense no Haiti. Reze pelo Haiti. O Haiti é aqui.
Dilma preferiu cair do que sucumbir à pressão entreguista dos peemedebistas. Embora tenha colocado em prática uma tímida política de austeridade, ela jamais defendeu o corte de gastos na área social. Sua crença no Estado enquanto agente de transformação social custou-lhe o poder, assim como havia custado a João Goulart em 1964. Estava inflexível e precisava ser derrubada. Agora que foi feito isso, não há mais empecilhos para o desmonte do Estado social brasileiro. Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4567/16, que desobriga a Petrobras a participar na exploração de pelo menos 30% de cada bloco do pré-sal. Os argumentos dos deputados é que a Petrobras, após a devassa que sofreu na Lava Jato, não teria condições de arcar com as despesas de explorar os campos de petróleo. Estima-se que o Fundo Social do Petróleo, cuja 75% da arrecadação iria para a educação, deve perder quase 50 bilhões de reais com a mudança na legislação.

O referido projeto é de autoria do senador paulista José Serra que, segundo o WikiLeaks, é um informante da multinacional petrolífera Chevron no Brasil. Políticos como ele morrem de medo da melhoria do sistema educacional. A votação do último dia 5 fez-me lembrar de Caetano e Gil: "na TV, se você vir um deputado em pânico, mal dissimulado, diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer plano de educação que pareça fácil, que pareça fácil e rápido, e vá representar uma ameaça de democratização do ensino de primeiro grau (...) pense no Haiti, reze pelo Haiti. O Haiti é aqui". O Brasil tinha uma escolha em suas mãos. Ou virava a "Pátria Educadora" ou virava o Haiti. Protestou nas ruas contra o primeiro e escolheu o segundo. Espero que estejam orgulhosos de sua escolha! Agora está claro para mim: nunca foi por passe livre, por "escola padrão FIFA" ou por uma política livre de corrupção. Foi para o Brasil voltar a ser o Haiti. Pode até não ter sido esse o desejo de todos que saíram às ruas, mas era o desejo dos organizadores e é o resultado que teremos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O "Escola sem Partido" não começou hoje – é parte da nazificação do Brasil

Ele. Deputado federal Izalci (PSDB-DF).
Muitos amigos, principalmente aqueles ligados às ciências humanas, estão chocados com o projeto de lei 867/2015, de autoria do deputado federal Izalci (PSDB-DF), que institui o programa "Escola sem Partido". Não estou assim tão chocado. Lembro-me bem quando essa história de que há "doutrinação marxista" nas escolas brasileiras começou. Foi em agosto de 2008 e eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo da PUC-GO (então UCG). A revista Veja distanciava-se cada vez mais da narrativa factual da vida brasileira para se tornar o panfleto semanário oficial dos opositores do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A linha editorial da revista deixou de ser formulada por jornalistas para ser ditada por militantes políticos de extrema-direita, discípulos do astrólogo e autodenominado filósofo Olavo de Carvalho, tais como Reinaldo de Azevedo e, posteriormente, Rodrigo Constantino. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu que para exercer o ofício de jornalismo não é preciso diploma de curso superior em comunicação social. Desde então, tornou-se cada vez mais recorrente a invasão da narrativa factual dos acontecimentos, ouvindo-se todos os lados de um assunto, por um discurso de pânico recauchutado do macartismo.

O que aconteceu, sem maiores delongas, foi o seguinte: um repórter da referida revista veio até Goiânia, onde assistiu a uma aula de história para alunos do ensino médio no Colégio Ateneu Dom Bosco. Trata-se de uma das mais tradicionais escolas privadas da capital goiana, de orientação católica romana e frequentada sobretudo por jovens oriundos de lares de classe média. Ao invés de simplesmente relatar o que ocorreu na sala de aula, o repórter escreveu uma matéria completamente tendenciosa, acusando o professor de tentar doutrinar seus alunos. O professor em questão discutia os efeitos nefastos do capitalismo sobre a experiência humana – algo que alguém que já ouviu os discursos do Papa Francisco perceberá que é completamente compatível com a doutrina social da Igreja, que nada tem de marxista. A discussão havia começado após os alunos terem ouvido a música "Homem Primata" da banda oitentista Titãs. Trata-se de uma canção extremamente popular, que foi a 25ª música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1987. O Titãs não é uma banda que se autodeclara comunista como o Rage Against The Machine e só porque eles têm uma música que critica o capitalismo liberal não significa que são comunistas. Podem ser capitalistas keynesianos.

Seguindo a lógica da Veja, os Titãs são comunistas perigosos
que deveriam ser banidos da rádio por doutrinação marxista.
O repórter responsável pela matéria fez uma grande flexão intelectual para ligar os versos "Ô, ô, ô / homem primata / capitalismo selvagem" aos cursos de pedagogia e à obra do pedagogo Paulo Freire, que ele mesmo julgou nula. Freire sequer é amplamente estudado nos ambientes acadêmicos. E, por falar nisso, uma das lições mais importantes que aprendi na faculdade é que "o jornalista só fala através de suas fontes". O repórter da Veja fez pior: valeu-se da boa fé de sua fonte para desmerecer o trabalho pedagógico de um professor que, a despeito de estar inserido num ambiente conservador, conseguiu iniciar um debate com seus alunos sobre a realidade que os cerca para além dos muros dos prédios onde vivem. O também católico Hélder Câmara resumiu bem a hipocrisia brasileira: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo, mas quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista". Debater os problemas gerados pelo capitalismo – e nenhum sistema econômico é perfeito – é algo perfeitamente normal. É o que democratas estão fazendo nesse exato momento na Convenção Nacional do Partido Democrata. Promover uma discussão sobre o capitalismo liberal, que sequer é a única forma de desenvolvimento capitalista, está longe de ser doutrinação marxista.

Mas qual é o problema em debater as diversas formas de organização econômicas já existentes e propostas? O problema é que o debate torna os alunos conscientes para o fato de que o capitalismo liberal não é a única forma possível de organização econômica da sociedade. Questionar a realidade que nos é imposta incomoda os representantes do status quo. Os donos da Veja só são ricos graças ao capitalismo liberal. Mesmo o capitalismo estatista ou keynesiano desagrada-lhes. Querem que a sua seja a única revista presente nas salas de espera de consultórios médicos e salões de beleza. Lula subiu no ringue com a revista quando decidiu reduzir sua verba de publicidade para desenvolver a mídia independente e regional. A revista Veja, ao contrário do que insinua seu slogan, não é indispensável para se tornar bem-informado e inteligente. Ela mantém seus leitores na ignorância ao retratar todos aqueles que são contra o capitalismo liberal como comunistas comedores de criancinhas. E preocupa-lhe que alguns agentes sociais estejam esclarecendo as pessoas sobre as diferentes formas de organização econômica diferente daquela que é a sua preferida. A Veja tem medo que as pessoas se tornem esclarecidas e ela se torne dispensável.

À Veja não interessa que seus leitores saibam que o modelo
atual de capitalismo promove a desigualdade de renda.
E se algum daqueles jovens no Ateneu decidir que quer trabalhar como médico na periferia? É o fim da rígida sociedade de castas à brasileira. Para manter os privilégios de uns poucos no capitalismo liberal, a maioria deve ser sacrificada. Isto está ficando cada dia mais claro, inclusive nos Estados Unidos. Este é um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno que é Donald Trump. Sim, ele é bilionário, mas se apresenta como o candidato do anti-status quo. E ninguém chamaria-o de comunista. Ser contra as coisas como elas estão está muito, muito longe de ser comunista. O próprio Paulo Freire, figura tão execrada ultimamente em seu país, estava longe de ser um militante comunista. Ele baseou sua análise sobre a forma de organização da sociedade em Marx, é claro, mas isso não transforma alguém automaticamente em comunista. De forma semelhante, sua obra agora é a terceira mais citada em trabalhos acadêmicos de universidades estadunidenses, o que não significa que os acadêmicos sejam marxistas ou sequer freirianos. Além do mais, Freire era membro do Partido dos Trabalhadores que, no poder, mostrou ser um tradicional partido social-democrata, ou seja, que promove o capitalismo estatista. E foi justamente isto que me atraiu no PT.

Aqui é permitido ler e discutir a obra freiriana.
Em 2010, quando passei um mês no Canadá, em intercâmbio, vi A Pedagogia do Oprimido numa estante da livraria da Universidade de Victoria. Imediatamente lembrei-me da ofensa proferida contra Freire no panfleto político da Editora Abril. Fiquei emocionado por ver um brasileiro que não era jogador de futebol sendo reconhecido no exterior. Ao mesmo tempo, fiquei triste pela forma como ele é tratado pelos pseudointelectuais do Brasil. Pensei comigo mesmo: precisei vir a 10.000 quilômetros de casa para finalmente ver Paulo Freire sendo reconhecido pela revolução que propôs na pedagogia e que serviu de modelo para o sistema educacional dos países escandinavos – países capitalistas estatistas, diga-se de passagem –, mas jamais para seu próprio país. Aqui damos crédito àqueles que querem livrar a escola de uma suposta "doutrinação marxista" sem nem saber explicar por quê. Não há como manter um debate inteligente com quem quer interditar o debate baseando seus argumentos numa revista que, a despeito de estar presente em todas as salas de espera do país e também nas salas de aula do estado de São Paulo, não consegue sobreviver sem a teta generosa da Secom e teve que promover um golpe de Estado para não ir à falência.

Essa história de "Escola sem Partido" não começou hoje, infelizmente. Estamos presenciando apenas o seu apogeu. Tudo começou quando a mídia brasileira decidiu agir como um partido político, dando espaço para pseudointelectuais como Constantino e Azevedo e permitindo que eles atacassem a nata do pensamento acadêmico pátrio para prejudicar o PT. Também deve-se destacar a guinada à direita do PSDB, que percebeu que teria mais chances de derrotar o PT se apostasse no neoconservadorismo. No meio disso tudo está a classe média, que, ansiando por uma mudança ainda maior do que aquela que os governos do PT propiciaram, permitiu ser utilizada como massa de manobra das forças conservadoras. No entanto, os idiotas úteis não estão voltando para os braços do PSDB. Já perceberam seu jogo sujo e se desencantaram com a política como um todo. O resultado final do processo de destruição do PT – indesejado pelas forças conservadoras da mídia e da política – é a nazificação do Brasil. E o nazismo não é muito exigente ao escolher suas presas. Não adianta falar "não somos do PT". Vai ser preciso provar, pois o maior desejo do nazista é eliminar seus inimigos e qualquer desculpa serve para justificar sua sede de extermínio. Enxergam apenas o que querem, pois bebem sempre a água da mesma fonte.

O nazismo não é muito exigente com suas vítimas.
Uma dessas fontes é a Veja, que, em medos da década passada, decidiu que seria uma revista feita por e para comentaristas de portal. A política nunca deveria ter se tornado o reino das emoções. Até líderes de organizações criminosas sabem que a pior coisa que se pode fazer é agir no calor do momento, pois os resultados são difíceis de serem previstos. Mas a mídia brasileira, que nunca sobreviveu sem a verba de publicidade dos governos decidiu arriscar e colocar esse elemento na política. A Veja foi a pioneira, justamente por ser a que mais corria o risco de desaparecer, junto com o resto da mídia impressa. Podem até sobreviver, mas não pagarão o preço por terem introduzido as emoções, principalmente o ódio, na político. Nós, as vítimas do ódio, é que vamos pagar esse preço. Busco, cada vez mais, colocar a razão na frente da emoção. Meu crescimento enquanto ser humano depende disso e não estou disposto a retroceder porque alguns idiotas úteis decidiram que o PT e a esquerda seriam a válvula de escape para todos os problemas do universo conhecido e desconhecido. É uma tarefa cada vez mais homérica. Qualquer que seja o resultado dessa história de "Escola sem Partido", já perdemos, pois permitimos que nossos instintos mais básicos entrassem no debate político.

domingo, 26 de junho de 2016

O Brexit e a falência da esquerda entreguista

De 1979 a 1997, o Reino Unido ficou sob o comando do Partido Conservador. Primeiramente sob Margaret Thatcher (1979—1990) e, depois, sob John Major (1990—1997). A ascensão dos conservadores, que propunham uma agenda econômica até então inédita no país, o neoliberalismo, deveu-se sobretudo devido à crise do petróleo e da queda das bolsas de valores entre 1973 e 1974. A Grã-Bretanha desenvolveu um robusto Estado de bem-estar social no pós-Guerra que mostrava-se instável em tempos de crise. Assim sendo, os conservadores foram tirados do poder em março de 1974. Os trabalhistas lideraram o país numa aliança com nacionalistas escoceses até o final da década sob recessão e tentando implementar um programa de austeridade. O crescimento econômico era inviabilizado pela alta do desemprego e uma inflação que excedia os 10% ao ano. Em 1976, o Reino Unido pediu um empréstimo de £2,3 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em contrapartida, o governo deveria implementar um programa de cortes de gastos públicos, o que gerou um ciclo vicioso na economia local. Após uma série de greves no setor público em março de 1979, o então primeiro-ministro perdeu uma votação no Parlamento e novas eleições foram convocadas. Em maio daquele ano, Thatcher foi eleita primeira-ministra, a primeira chefa de governo de uma nação europeia.

Blair tornou o Partido Trabalhista palatável para os eleitores
de Thatcher nos anos 1990.
O programa de Thatcher era, basicamente, minimizar a influência do Estado sobre a economia, através de um robusto programa de privatizações, corte de impostos e reformas nas leis trabalhistas. Inicialmente a economia reagiu mal, caindo 6%, mas o crescimento foi de 5% em seu pico em 1988, um dos maiores da Europa. As privatizações geraram um aumento significativo no desemprego. Fábricas e minas de carvão que não eram viáveis foram fechadas, em especial na região Norte do país, onde ainda hoje os trabalhistas conseguem a maioria de seus assentos no Parlamento. Até o final da década de 1980, no entanto, o desemprego havia caído para menos de 1,6 milhão de pessoas. Em 1990, uma nova recessão global levou à queda do PIB em 8% e à renúncia de Thatcher. O desemprego voltou a crescer no período 1990—1993. Sob Major, menos liberalizante que sua antecessora, a recuperação econômica foi extremamente forte e, ao contrário do que ocorreu nos anos 1980, relativamente rápida. Apesar disso, os conservadores perderam a eleição de 1997 para os trabalhistas, então liderados por um jovem e ambicioso político chamado Tony Blair. Nos dezoito anos em que o Partido Trabalhista compôs a oposição muita coisa mudou no cenário global. A URSS se desintegrou e a globalização era uma realidade cada vez maior. Sob esse contexto, diversos teóricos propuseram o fim da divisão entre esquerda e direita, pelo menos na economia.

O sociólogo Anthony Giddens criou o termo "terceira via", que definia como uma síntese entre o capitalismo e o socialismo. Em termos mais claros: uma síntese entre uma política econômica thatcherista e uma política social trabalhista. Sua filosofia política inspirou a criação do movimento New Labour, que visava construir um partido político de esquerda para o século XXI. Embora num primeiro momento a política de Blair de abandonar a política trabalhista de propriedade pública dos meios de produção tenha desenvolvido o Reino Unido, sobretudo a partir de investimentos estrangeiros, o período de bonança acabou de repente em 2008 com a eclosão da crise financeira global. Bancos entraram em colapso e tiveram de ser nacionalizados pelo governo. O desemprego praticamente dobrou em 20 meses. Blair renunciou e foi precedido no cargo de primeiro-ministro por seu protégé Gordon Brown, que liderou o Partido Trabalhista durante as eleições de 2010, quando obteve o pior resultado eleitoral desde 1983. David Cameron, após entrar num acordo com o centrista Partido Liberal Democrata, formou um governo de coalizão que cortou cerca de um milhão de empregos no setor público. A desvalorização da libra continuou e, em maio de 2013, foi revelado que entre 2005 e 2011 o Reino Unido caiu do 5° para o 12° lugar entre os países de maior renda per capita.

Nesse cenário, os trabalhistas tinham tudo para eleger um governo. Lideravam as pesquisas há um bom tempo já. Entretanto, colocaram-se numa armadilha ao apoiar a permanência da Escócia na União. Até a década de 1920, o Partido Trabalhista era favorável à independência escocesa, mas abandou tal posição. Como resultado, surgiu na esquerda o Partido Nacional da Escócia (SNP), que começou a se destacar nas eleições na década de 1960. A aliança entre trabalhistas e nacionalistas escoceses de 1974 até 1979 resultou na devolução de vários poderes — sistema judiciário, polícia, bombeiros, saúde, educação, etc. — para o governo da Escócia. Em 2014 o governo do SNP na Escócia realizou um referendo sobre a independência da região e, apesar do resultado favorável pela permanência no Reino Unido, aumentou a visibilidade da líder do partido e chefa do Executivo local, Nicola Sturgeon. Os trabalhistas, por sua vez, ao participarem de debates televisivos contra a independência escocesa, imediatamente indispuseram-se com pelo menos 45% dos habitantes locais, que votaram a favor da secessão. Deveriam ter mantido a neutralidade, uma vez que sua derrota na eleição de 2008 só não foi mais desastrosa graças à Escócia. Seja por buscar uma conciliação impossível entre capital e trabalho, seja por adotar o thatcherismo em suas feições econômicas e até mesmo imperialista (com a invasão anglo-americana do Iraque), o partido se descolou da realidade daqueles que diz representar.

Jeremy Corbyn lidera o Partido Trabalhista há 9 meses e tem
sido alvo dos centristas do New Labour.
Após mais uma derrota eleitoral, causada em parte por sua decisão desastrosa de apoiar a permanência da Escócia na União, o que deu ao SNP sua melhor performance da História, o Partido Trabalhista realizou novas eleições internas. Cansados da distância entre o partido e a realidade, seus eleitores e filiados decidiram colocar o esquerdista Jeremy Corbyn na liderança do Partido Trabalhista no final do ano passado, pondo fim a duas décadas da política New Labour de aproximação com o liberalismo econômico. No entanto, Corbyn ainda precisa lidar com os entreguistas dentro do partido. Hoje mesmo viu-se obrigado a demitir do Governo Paralelo o Secretário Paralelo de Relações Exteriores, Hilary Benn (que foi Secretário de Comércio Exterior de Tony Blair), acusado de fazer lobby por sua saída. Corbyn, que no passado manifestou posições eurocéticas, foi criticado pelos membros do New Labour por sua suposta frouxidão em fazer campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. Mas será que o Comitê Executivo Nacional está certo em conceder apoio à permanência da nação na União Europeia? Esta posição não parece ser unanimidade entre os eleitores do partido. Deveriam deixar de ser condescendentes e ouvir os trabalhadores que diz representar. Quando se compara os resultados das eleições gerais de 2015 com os resultados do referendo verifica-se que, com exceção de Londres, todos os redutos trabalhistas votaram a favor do chamado "Brexit".

As melhores performances eleitorais dos trabalhistas deram-se, por ordem, nas seguintes regiões: Nordeste da Inglaterra (90% dos assentos), Noroeste da Inglaterra (68%), País de Gales (62,5%), Londres (61,6%) e Yorkshire & Humber (61,1%). Apenas em Londres a maioria dos eleitores (60%) votou pela permanência do Reino Unido na UE. 58% no Nordeste da Inglaterra, 54% no Noroeste da Inglaterra, 52,5% no País de Gales e 57,7% em Yorkshire & Humber votaram pela saída da nação da UE. O "Brexit" representou, além de tudo, uma rejeição à política de austeridade de Cameron que é vista com bons olhos pela troika. Não foi à toa que ele anunciou sua renúncia do cargo de primeiro-ministro logo após a divulgação do resultado do referendo. Embora tenha declarado neutralidade durante a campanha, 25 de seus 30 ministros declararam apoio à permanência. Ao não se distanciar do Partido Conservador, os trabalhistas correm o risco de se tornarem uma força coadjuvante da cena política britânica. O principal vencedor do referendo foi o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), de extrema-direita, um dos dois únicos partidos com representação em Westminster a apoiar a saída da UE (o outro foi o Partido Unionista Democrático, que representa os protestantes na Irlanda do Norte). Entretanto, o Partido Trabalhista, sob a liderança de Corbyn, tem tudo para ampliar o diálogo com seus eleitores.

O Partido Trabalhista apoia uma medida e seus eleitores outra.
Corbyn foi eleito para restabelecer as pontes queimadas entre trabalhadores e trabalhistas há aproximadamente duas décadas, quando Tony Blair despontava nacionalmente na cena política. Depois de fazer o Partido Trabalhista perder a simpatia dos escoceses, o New Labour quer fazê-lo desperdiçar a oportunidade histórica de reavaliar seus erros do passado recente (incluindo a Guerra do Iraque). Aproximar-se do thatcherismo foi uma tática eleitoral interessante nos anos 1990, mas esta década já passou há muito tempo. Vivemos em tempos diferentes, onde uma crise econômica global, reforçada pela política de austeridade dos governos neoliberais, ameaça os trabalhadores. Não faz mais sentido falar em "fim das ideologias", conciliação entre capital e trabalho ou qualquer outra baboseira que Giddens tenha escrito que tanto seduziu Blair quando eu ainda era um bebê. Como o New Labour imagina que o Partido Trabalhista vai se sustentar daqui para a frente? Apenas com os votos de Londres? A esquerda está encurralada no Reino Unido. Não por seus méritos, mas por ter se tornado uma versão light do Partido Conservador. O sucesso do "Brexit" representa, também, a falência do entreguismo enquanto tática eleitoral da esquerda. Mas nem tudo é terra arrasada. A derrota da esquerda entreguistas no referendo deve reforçar a liderança de Corbyn, empoderando-o para provocar as reformas necessárias no partido.