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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Porque o boicote da elite do entretenimento contra Trump irá falhar


Poucos artistas parecem dispostos a se apresentar e entreter o país quando o novo presidente assumir no dia 20 de janeiro. Com a notícia na semana passada de que o cantor de ópera Andrea Bocelli cedeu à pressão e desistiu de fazer um show na posse e com uma membro das Rockettes liderando uma rebelião nas redes sociais contra o presidente, Kid Rock é atualmente o maior nome agendado para se apresentar.

E a esquerda é tonta. Porque ela ainda não entendeu o que está acontecendo.

Robert Reich quer ser o Bob Geldof do anti-trumpismo.
Robert Reich, secretário de trabalho de Bill Clinto que se transformou no Michael Moore do Facebook está promovendo algo chamado o Concerto da Liberdade Unida que será transmitido ao mesmo tempo que a posse presidencial. O show beneficiará todas as entidades de caridade progressistas de sempre e Reich espera conseguir grandes nomes como Jay-Z e Madonna para se apresentar. "Simples", escreveu, "a posse de Trump perde toda a audiência na TV. Basicamente, ninguém assistirá".

Isso deve impedi-lo. Jay-Z e Madonna ambos já haviam se apresentado durante a eleição para angariar apoio para Hillary Clinton — e obviamente falharam. Mas, claro, mais um show deve fazer o país virar para o lado de Reich.

A verdadeira questão é a bolha criada pela exclusão estalinizada que a esquerda faz dos não-progressistas da cultura popular americana.

Lin Manuel Miranda está fazendo um concurso para angariar fundos para a Planned Parenthood. Para cada doação de US$10, você entra numa seleção para ver o musical dele, "Hamilton", em três cidades. A mãe de Miranda está no conselho nacional de diretores do Fundo de Ação da Planned Parenthood, então esta é obviamente uma causa pela qual ele se importa.

Não houve controvérsia alguma para seu concurso — só imagine se fosse para a Associação Nacional do Rifle ou qualquer outra causa popular conservadora. Quando Mike Pence assistiu àquela infame apresentação de "Hamilton", o vídeo dele entrando no teatro mostrava muito mais aplausos do que vaias. Ainda assim, o elenco pagou um sermão a ele do palco como se fosse impossível que houvessem eleitores de Trump na plateia ou, Deus proíba, no elenco ou na equipe técnica.

A inclinação progressista em tudo vai além da Broadway ou de Hollywood. Permeia tudo. E envelhece rápido. A edição de setembro da revista de dicas domésticas Real Simple trazia um esbravejo político incoerente da escritora Terry McMillan. Nele, ela acusa o Partido Republicano de conspirar contra o presidente Obama porque ele é negro e os estados de "fraudar" as leis eleitorais. Ela escreveu que as pessoas brancas reclamam de pessoas negras que tomam seus empregos e que ela tem medo de que seu filho saia de casa sozinho e seja morto pela polícia.

Real Simple é uma revista conhecida por receitas e dicas de organização. É um mundo no qual os democratas não deveriam habitar. Eles jamais leriam uma revista sobre dicas domésticas caso se encontrariam até o joelho em teorias conspiratórias conservadoras. O mesmo vale para as revistas femininas, que são todas automaticamente progressistas vestidas com uniformes opinativos sobre "questões femininas", como se as mulheres conservadoras não existissem. Então há o choque de que 53 porcento das mulheres escolheram Trump.

Numa eleição que se resumiu ao fracasso dos democratas em manter o apoio dos estados industriais, aumentar o risco de falar apenas com outros progressistas enquanto se assiste aos artistas progressistas é temerário. Escrevendo na esquerdista revista online de artes The Baffler, Jacob Silverman apontou para o culto às celebridades como uma das principais razões pelo fracasso de Hillary.

Katy Perry não vai mudar o que a maioria dos eleitores pensa.
Ele escreveu que esses "apelos pela atenção das celebridades parecem refletir o desejo dos progressistas de verem suas políticas validadas, até mesmo receberem uma aura de glamour, por colegas da elite. Os tweets enérgicos de Clinton e aparições no show do Jay-Z recorrem aos já convertidos enquanto não oferece nada aos milhões de trabalhadores americanos que estão pensando se, talvez, falta um toque de povo à mulher que cobra US$250.000 por palestras secretas para banqueiros".

Um número astronômico de 68 porcento dos entrevistados numa pesquisa de boca-de-urna da Reuters/Ipsos no dia da eleição disse que "partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas como eu". É um número muito grande de pessoas se sentindo completamente abandonadas — e a Katy Perry não vai incidir nisso.

Enquanto os progressistas continuam a desenhar linhas culturais que excluem os conservadores, eles têm que notar que isso está se traduzindo em perdas nas urnas. Os republicanos não controlam apenas a presidência, a Câmara e o Senado, mas cerca de dois-terços das assembleias legislativas e a maioria dos governos estaduais.

O abrangente progressismo na cultura popular pode não estar prejudicando os resultados financeiros dos artistas (até agora), mas certamente não está fazendo nada para ajudar suas causas políticas também. Como aprendemos nessa eleição, ignoramos segmentos inteiros da população sob nosso próprio risco.

domingo, 26 de junho de 2016

O Brexit e a falência da esquerda entreguista

De 1979 a 1997, o Reino Unido ficou sob o comando do Partido Conservador. Primeiramente sob Margaret Thatcher (1979—1990) e, depois, sob John Major (1990—1997). A ascensão dos conservadores, que propunham uma agenda econômica até então inédita no país, o neoliberalismo, deveu-se sobretudo devido à crise do petróleo e da queda das bolsas de valores entre 1973 e 1974. A Grã-Bretanha desenvolveu um robusto Estado de bem-estar social no pós-Guerra que mostrava-se instável em tempos de crise. Assim sendo, os conservadores foram tirados do poder em março de 1974. Os trabalhistas lideraram o país numa aliança com nacionalistas escoceses até o final da década sob recessão e tentando implementar um programa de austeridade. O crescimento econômico era inviabilizado pela alta do desemprego e uma inflação que excedia os 10% ao ano. Em 1976, o Reino Unido pediu um empréstimo de £2,3 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em contrapartida, o governo deveria implementar um programa de cortes de gastos públicos, o que gerou um ciclo vicioso na economia local. Após uma série de greves no setor público em março de 1979, o então primeiro-ministro perdeu uma votação no Parlamento e novas eleições foram convocadas. Em maio daquele ano, Thatcher foi eleita primeira-ministra, a primeira chefa de governo de uma nação europeia.

Blair tornou o Partido Trabalhista palatável para os eleitores
de Thatcher nos anos 1990.
O programa de Thatcher era, basicamente, minimizar a influência do Estado sobre a economia, através de um robusto programa de privatizações, corte de impostos e reformas nas leis trabalhistas. Inicialmente a economia reagiu mal, caindo 6%, mas o crescimento foi de 5% em seu pico em 1988, um dos maiores da Europa. As privatizações geraram um aumento significativo no desemprego. Fábricas e minas de carvão que não eram viáveis foram fechadas, em especial na região Norte do país, onde ainda hoje os trabalhistas conseguem a maioria de seus assentos no Parlamento. Até o final da década de 1980, no entanto, o desemprego havia caído para menos de 1,6 milhão de pessoas. Em 1990, uma nova recessão global levou à queda do PIB em 8% e à renúncia de Thatcher. O desemprego voltou a crescer no período 1990—1993. Sob Major, menos liberalizante que sua antecessora, a recuperação econômica foi extremamente forte e, ao contrário do que ocorreu nos anos 1980, relativamente rápida. Apesar disso, os conservadores perderam a eleição de 1997 para os trabalhistas, então liderados por um jovem e ambicioso político chamado Tony Blair. Nos dezoito anos em que o Partido Trabalhista compôs a oposição muita coisa mudou no cenário global. A URSS se desintegrou e a globalização era uma realidade cada vez maior. Sob esse contexto, diversos teóricos propuseram o fim da divisão entre esquerda e direita, pelo menos na economia.

O sociólogo Anthony Giddens criou o termo "terceira via", que definia como uma síntese entre o capitalismo e o socialismo. Em termos mais claros: uma síntese entre uma política econômica thatcherista e uma política social trabalhista. Sua filosofia política inspirou a criação do movimento New Labour, que visava construir um partido político de esquerda para o século XXI. Embora num primeiro momento a política de Blair de abandonar a política trabalhista de propriedade pública dos meios de produção tenha desenvolvido o Reino Unido, sobretudo a partir de investimentos estrangeiros, o período de bonança acabou de repente em 2008 com a eclosão da crise financeira global. Bancos entraram em colapso e tiveram de ser nacionalizados pelo governo. O desemprego praticamente dobrou em 20 meses. Blair renunciou e foi precedido no cargo de primeiro-ministro por seu protégé Gordon Brown, que liderou o Partido Trabalhista durante as eleições de 2010, quando obteve o pior resultado eleitoral desde 1983. David Cameron, após entrar num acordo com o centrista Partido Liberal Democrata, formou um governo de coalizão que cortou cerca de um milhão de empregos no setor público. A desvalorização da libra continuou e, em maio de 2013, foi revelado que entre 2005 e 2011 o Reino Unido caiu do 5° para o 12° lugar entre os países de maior renda per capita.

Nesse cenário, os trabalhistas tinham tudo para eleger um governo. Lideravam as pesquisas há um bom tempo já. Entretanto, colocaram-se numa armadilha ao apoiar a permanência da Escócia na União. Até a década de 1920, o Partido Trabalhista era favorável à independência escocesa, mas abandou tal posição. Como resultado, surgiu na esquerda o Partido Nacional da Escócia (SNP), que começou a se destacar nas eleições na década de 1960. A aliança entre trabalhistas e nacionalistas escoceses de 1974 até 1979 resultou na devolução de vários poderes — sistema judiciário, polícia, bombeiros, saúde, educação, etc. — para o governo da Escócia. Em 2014 o governo do SNP na Escócia realizou um referendo sobre a independência da região e, apesar do resultado favorável pela permanência no Reino Unido, aumentou a visibilidade da líder do partido e chefa do Executivo local, Nicola Sturgeon. Os trabalhistas, por sua vez, ao participarem de debates televisivos contra a independência escocesa, imediatamente indispuseram-se com pelo menos 45% dos habitantes locais, que votaram a favor da secessão. Deveriam ter mantido a neutralidade, uma vez que sua derrota na eleição de 2008 só não foi mais desastrosa graças à Escócia. Seja por buscar uma conciliação impossível entre capital e trabalho, seja por adotar o thatcherismo em suas feições econômicas e até mesmo imperialista (com a invasão anglo-americana do Iraque), o partido se descolou da realidade daqueles que diz representar.

Jeremy Corbyn lidera o Partido Trabalhista há 9 meses e tem
sido alvo dos centristas do New Labour.
Após mais uma derrota eleitoral, causada em parte por sua decisão desastrosa de apoiar a permanência da Escócia na União, o que deu ao SNP sua melhor performance da História, o Partido Trabalhista realizou novas eleições internas. Cansados da distância entre o partido e a realidade, seus eleitores e filiados decidiram colocar o esquerdista Jeremy Corbyn na liderança do Partido Trabalhista no final do ano passado, pondo fim a duas décadas da política New Labour de aproximação com o liberalismo econômico. No entanto, Corbyn ainda precisa lidar com os entreguistas dentro do partido. Hoje mesmo viu-se obrigado a demitir do Governo Paralelo o Secretário Paralelo de Relações Exteriores, Hilary Benn (que foi Secretário de Comércio Exterior de Tony Blair), acusado de fazer lobby por sua saída. Corbyn, que no passado manifestou posições eurocéticas, foi criticado pelos membros do New Labour por sua suposta frouxidão em fazer campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. Mas será que o Comitê Executivo Nacional está certo em conceder apoio à permanência da nação na União Europeia? Esta posição não parece ser unanimidade entre os eleitores do partido. Deveriam deixar de ser condescendentes e ouvir os trabalhadores que diz representar. Quando se compara os resultados das eleições gerais de 2015 com os resultados do referendo verifica-se que, com exceção de Londres, todos os redutos trabalhistas votaram a favor do chamado "Brexit".

As melhores performances eleitorais dos trabalhistas deram-se, por ordem, nas seguintes regiões: Nordeste da Inglaterra (90% dos assentos), Noroeste da Inglaterra (68%), País de Gales (62,5%), Londres (61,6%) e Yorkshire & Humber (61,1%). Apenas em Londres a maioria dos eleitores (60%) votou pela permanência do Reino Unido na UE. 58% no Nordeste da Inglaterra, 54% no Noroeste da Inglaterra, 52,5% no País de Gales e 57,7% em Yorkshire & Humber votaram pela saída da nação da UE. O "Brexit" representou, além de tudo, uma rejeição à política de austeridade de Cameron que é vista com bons olhos pela troika. Não foi à toa que ele anunciou sua renúncia do cargo de primeiro-ministro logo após a divulgação do resultado do referendo. Embora tenha declarado neutralidade durante a campanha, 25 de seus 30 ministros declararam apoio à permanência. Ao não se distanciar do Partido Conservador, os trabalhistas correm o risco de se tornarem uma força coadjuvante da cena política britânica. O principal vencedor do referendo foi o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), de extrema-direita, um dos dois únicos partidos com representação em Westminster a apoiar a saída da UE (o outro foi o Partido Unionista Democrático, que representa os protestantes na Irlanda do Norte). Entretanto, o Partido Trabalhista, sob a liderança de Corbyn, tem tudo para ampliar o diálogo com seus eleitores.

O Partido Trabalhista apoia uma medida e seus eleitores outra.
Corbyn foi eleito para restabelecer as pontes queimadas entre trabalhadores e trabalhistas há aproximadamente duas décadas, quando Tony Blair despontava nacionalmente na cena política. Depois de fazer o Partido Trabalhista perder a simpatia dos escoceses, o New Labour quer fazê-lo desperdiçar a oportunidade histórica de reavaliar seus erros do passado recente (incluindo a Guerra do Iraque). Aproximar-se do thatcherismo foi uma tática eleitoral interessante nos anos 1990, mas esta década já passou há muito tempo. Vivemos em tempos diferentes, onde uma crise econômica global, reforçada pela política de austeridade dos governos neoliberais, ameaça os trabalhadores. Não faz mais sentido falar em "fim das ideologias", conciliação entre capital e trabalho ou qualquer outra baboseira que Giddens tenha escrito que tanto seduziu Blair quando eu ainda era um bebê. Como o New Labour imagina que o Partido Trabalhista vai se sustentar daqui para a frente? Apenas com os votos de Londres? A esquerda está encurralada no Reino Unido. Não por seus méritos, mas por ter se tornado uma versão light do Partido Conservador. O sucesso do "Brexit" representa, também, a falência do entreguismo enquanto tática eleitoral da esquerda. Mas nem tudo é terra arrasada. A derrota da esquerda entreguistas no referendo deve reforçar a liderança de Corbyn, empoderando-o para provocar as reformas necessárias no partido.

sábado, 28 de maio de 2016

Temer e a retórica nazista

Algumas coisas é definitivamente preciso ver para crer. Já tinha visto várias vezes, nas redes sociais, fotos de outdoors com a inscrição "Não pense em crise, trabalhe!", mas o impacto foi completamente diferente quando vi um anúncio com a frase ao vivo. Estava na Avenida T-6. Na ocasião, tinha ido ao Fujioka com minha mãe para comprar uma televisão e, saindo da loja, vejo o outdoor que conseguiu tirar toda a alegria da compra que havíamos terminado de fazer. A sensação que tive foi de morar numa ditadura totalitária onde é proibido discutir o porquê de uma minoria ser rica e frequentar os melhores restaurantes e bares enquanto a maioria labuta duro e nem tem o que comer direito. Parece a China onde colocam redes nas janelas das fábricas de produtos eletrônicos para evitar que os operários cometam suicídio. "Não pense em suicídio, trabalhe!". O correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, foi certeiro ao dizer que a frase do novo presidente brasileiro parecia saída do departamento de propaganda da antiga União Soviética.

"O trabalho liberta", frase contida na entrada dos campos
de concentração construídos pela Alemanha.
A crise brasileira — que não é só econômica — não é o Beetlejuice. Ela não vai desaparecer contanto que não falemos dela. Ela está por todos os lados: está no mendigo que lhe estende a mão no sinal e até mesmo na notícia da moça que foi estuprada por três dezenas de homens numa favela da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Questionar qual a ligação entre ambos os fatos e a decadência política-econômica e, principalmente, moral do Brasil, é algo que incomoda as autoridades, sobretudo aquelas filiadas a partidos que defendem que as injustiças sejam resolvidas com a intervenção da polícia ostensiva. Não é por acaso que governos autoritários interditam o debate sobre questões sociais. Quem pensa incomoda. "Não pense, trabalhe!". A negação, seguida de um verbo de discussão me lembra uma frase dita pelo ditador português António Salazar: "Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever". "Não discutimos". Como é possível uma nação crescer sem questionar seus problemas e, no caso do Brasil, sem questionar a relação desigual entre capital e trabalho?

O Brasil já tentou avançar valendo-se da retórica nazista que, ao mesmo tempo em que exigia servidão, negava à população o direito de debater sobres os problemas que afligiam-na. Em 1974, o "país do futuro" enfrentava uma crise de meningite que matou quase 3.000 crianças apenas nas duas maiores cidades do país. A ditadura militar, valendo-se da censura prévia em vigência desde 1968, proibiu os veículos de comunicação de informar à população sobre a epidemia, contribuindo para ainda mais mortes. A população não podia descobrir que o governo que reorganizaria o Brasil, que tirou-o das mãos dos comunistas comedores de criancinhas e que promovia o "milagre econômico" falhava naquilo que deveria ser o mais básico num país civilizado: garantir o direito à vida dos pequenos. Questionar o governo era questionar a própria nação e um agressivo slogan convidava os insatisfeitos com o regime a deixar o país: "Brasil: Ame-o ou deixe-o!". Assim como no governo atual, um outro slogan exigia da população que trabalhasse, ou melhor, servisse ao país: "Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil". Não é à toa que a bandeira presente no logo do governo Temer seja aquela usada até 1968. Sua publicidade inspira-se no regime militar!

"Enquanto estivermos lutando, trabalhe pela
vitória
". Pôster da Alemanha Nazista.
A servidão, ou melhor, o sacrifício coletivo pelo bem da nação é uma ideia reforçada a todo o momento nos governos autoritários, que se impõem pela força e não pelo voto (como é o caso de Michel Temer). Certa vez, Adolf Hitler proclamou que a Alemanha teria sido mais bem sucedida caso tivesse sido uma nação não-cristã: "Por que não temos a religião dos japoneses, que coloca o sacrifício pela pátria como maior bem? (...) Por que tinha que ser o cristianismo, com sua resignação e flacidez?". Por que Hitler disse isso se a ideia de que o trabalho dignifica o homem é bastante presente na Alemanha, onde Max Weber publicou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo? Porque nas mentes dos líderes autoritários Estado e governo confundem-se e quem não está pronto para se sacrificar pelo governo é visto como um traidor da nação. É essa a ideia que Michel Temer busca incutir nas mentes dos brasileiros. Conta para isso, com a ajuda de líderes religiosos como Silas Malafaia e Marco Feliciano, que incorporam mais o espírito capitalista do que o Espírito Santo. A esses líderes, não interessa um povo pensante. "Não pense em crise, pague o dízimo!".

Apesar da exigência do sacrifício, quase sempre os líderes autoritários moram em palácios luxuosos e andam em carros de luxo. No entanto, não se pode enganar a todos ao mesmo tempo. O tabloide britânico Daily Mail já percebeu a dissimulação de um presidente que propõe cortes nos gastos orçamentários com a área social manter os muitos caprichos da esposa, descrita como sendo uma versão tropical de Maria Antonieta. Tenho certeza de que até mesmo os alemães de meados da década de 1940 percebiam que seu führer levava uma vida relativamente tranquila enquanto seus filhos morriam nos campos de batalha em sacrifício pela nação. Só que, obviamente, tinham medo de dizê-lo publicamente. E aí é que está uma questão essencial para a sobrevivência do governo Temer. Começa a cair sua máscara — e também a dos grupos "apartidários" que colocaram-no no poder. Como ele fará para mantê-la e garantir-se no cargo? Será que a única coisa que ele — que assim como Hitler ascendeu ao poder graças a um golpe parlamentar — vai tomar emprestado dos nazistas será a retórica? Espero que sim.

sábado, 30 de abril de 2016

O último dia do trabalhador


Programação do ato em comemoração ao dia
do trabalhador de 2016 em Goiânia.
Hoje começam as comemorações unificadas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) pelo dia do trabalhador. Durante todo o dia 30 de abril e 1° de maio ocorrerão atividades na Praça do Trabalhador, em Goiânia, em homenagem àqueles que a Constituição Federal de 1988 reconhece como a parcela mais frágil da sociedade brasileira. Foi neste texto constitucional que os trabalhadores brasileiros ganharam direitos até então inéditos como a jornada de trabalho de oito horas diárias, o décimo-terceiro salário, o aviso prévio, a licença-maternidade e paternidade e a mobilização grevista. Para os que ingressaram no mercado de trabalho após a vigência da Constituição de 1988 parece que esses direitos sempre existiram e que jamais poderão ser retirados deles. 

Atualmente, no entanto, vimos uma enorme pressão do setor empresarial — sob a batuta da FIESP — para derrubar o governo constitucional do Brasil e, com ele, diversas medidas de proteção ao trabalhador. Na sexta-feira, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Filho, anunciou que se não houver realocação de verbas para o órgão até agosto, ele deve parar por completo. Se tudo der certo para os golpistas, em agosto Michel Temer já será o presidente do Brasil, escolhido não pelo povo, mas pelos representantes dos empresários no Congresso Nacional que terão derrubado Dilma Rousseff. Entre as medidas defendidas pelo futuro presidente que impactarão diretamente na qualidade de vida dos trabalhadores estão o fim do reajuste automático do salário mínimo com base na taxa de inflação e a prevalência de acordos coletivos sobre a legislação trabalhista.

Temer deve aproveitar que seu correligionário Eduardo Cunha atualmente possui controle sobre cerca de 2/3 dos deputados federais e apresentar seu "pacote de maldades" ao Congresso já nas primeiras semanas após o afastamento de Dilma. Assusta saber que, com esse número de deputados, a dupla Temer—Cunha consegue até mesmo modificar a Constituição, retirando dos trabalhadores direitos consolidados há quase trinta anos. Os brasileiros não devem aceitar o retrocesso calado. Segundo Eduardo Fagnani, que define a conspiração política atual como "impeachment do processo civilizatório", o mais provável é "o acirramento da luta de classes que está nas ruas", sendo que Temer só poderá conseguir governabilidade se "depender de um Estado policial ainda mais severo que o utilizado em 1964". Justo quando a questão trabalhista era uma questão de polícia.

Monumento ao Trabalhador nos anos 60.
Foi também durante a ditadura anti-proletária inaugurada em 1964 que o Monumento ao Trabalhador, de autoria do artista plástico Clóvis Graciano, foi destruído. Construído e inaugurado em 1959 após demanda de sindicalistas ao governador José Feliciano e ao prefeito Jaime Câmara, o monumento tornou-se tão importante para a caracterização de Goiânia que levou à alteração do nome da praça que o acolheu de Praça Americano do Brasil para Praça do Trabalhador. Palco das comemorações de 1° de maio e de assembleias grevistas, logo se tornou um alvo visado pela direita. Numa madrugada de abril de 1969, membros do grupo terrorista Comando de Caça aos Comunistas (CCC) derramaram piche quente sobre os painéis do monumento. O então prefeito Iris Rezende, que seria ele próprio cassado pela ditadura, não toma providências para limpar e recuperar o monumento.

A perseguição aos trabalhadores brasileiros tem tudo para voltar. Dia 1° deve ser o último dia do trabalhador sob as luzes libertárias da democracia. É meu dever participar das comemorações cívicas em homenagem a essa figura tão perseguida e execrada que é o trabalhador brasileiro. Não sou trabalhador. Pelo contrário, sou um pequeno burguês. Entretanto, venho de uma família de quem trabalhou muito e se hoje posso me dar ao luxo de não exercer nenhuma profissão formal é porque meu pai e meu avô trabalharam muito. Nos últimos anos com o amparo do Estado, mas a maioria das vezes a despeito dele. Tendo consciência de onde vim, de qual classe social me pariu, não posso me omitir diante do estupro da democracia que certamente levará ao estupro de direitos sociais e trabalhistas. Os bons tempos voltaram e eles serão de chumbo, em especial para os trabalhadores.

Monumento aos trabalhadores que morreram
lutando pela jornada de oito horas. Até isso
Temer poderá revogar se quiser.
Não posso coadunar com quem deseja que os trabalhadores brasileiros sejam condenados a um salário de miséria e à carestia. Já escolhi meu lado nessa batalha e ele não visa o que é melhor apenas para mim. Desejo o mesmo luxo que eu desfruto — que não é enorme — para todos. Quero que o povo brasileiro seja feliz. E a felicidade, que pode até não estar no PT, com certeza não está no plano de governo de Michel Temer. Por isso, participo desse último suspiro de luta antes da materialização do "golpe frio". No assalto ao poder de Temer—Cunha até mesmo a jornada diária de oito horas de trabalho está comprometida. E foi justamente a demanda pela jornada de oito horas que levou ao massacre dos trabalhadores pela polícia de Chicago em 1° de maio de 1886, origem das comemorações do dia do trabalhador. Como disse Fagnani, o que está sendo cassado não é apenas o mandato de Dilma, é o próprio processo civilizatório. E não sou capaz de aplaudir isso.