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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A democracia brasileira à beira do abismo


WASHINGTON — O estado de direito e a independência do judiciário são conquistas frágeis em muitos países — e suscetíveis a reveses bruscos.

Brasil, o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, é uma democracia bastante jovem, tendo emergido de uma ditadura há apenas três décadas. Nos últimos dois anos o que poderia ter sido uma conquista histórica ― a autonomia outorgada pelo governo do Partido dos Trabalhadores para investigar e punir a corrupção estatal ― se transformou no seu oposto. Como resultado, a democracia brasileira agora está mais fraca do que em qualquer outro período desde o fim do regime militar.

Esta semana, essa democracia pode erodir-se ainda mais quando os três juízes de uma corte de apelação decidirem se a figura política mais popular do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores, será barrado de disputar a eleição presidencial de 2018 ou até mesmo preso.

O juiz Sérgio Moro demonstrou seu partidarismo em diversas
ocasiões, diz Weisbrot.
Não há muita pretensão de que a corte seja imparcial. O presidente do tribunal de apelação já louvou a decisão do juiz de sentença de condenar o Sr. da Silva por corrupção como "tecnicamente irrepreensível" e sua chefe de gabinete postou em sua página no Facebook uma petição a favor da prisão do Sr. da Silva.

O juiz de sentença, Sérgio Moro, demonstrou seu próprio partidarismo em diversas ocasiões. Ele precisou pedir desculpas à Suprema Corte em 2016 por revelar escutas telefônicas gravadas entre o Sr. da Silva e a presidente Dilma Rousseff, e seu advogado, e sua esposa, e seus filhos. O juiz Moro montou um espetáculo para a imprensa quando policiais apareceram na casa do Sr. da Silva e levaram-no para interrogatório — embora o Sr. da Silva tivesse dito que se apresentaria de maneira voluntária para ser interrogado.

As provas contra o Sr. da Silva estão bem abaixo do limite do que seria levado a sério, por exemplo, no sistema judiciário dos Estados Unidos.

Ele é acusado de ter aceitado propina de uma grande empresa de construção, a OAS, que foi processada como parte do esquema de corrupção no Brasil investigado através da "Lava-Jato". Este escândalo multibilionário trouxe à tona empresas pagando grandes propinas para funcionários da empresa petrolífera estatal Petrobras para obter contratos a preços altamente inflados.

A propina que supostamente foi recebida pelo Sr. da Silva foi um apartamento de propriedade da OAS. Mas não há nenhuma prova documental de que tanto o Sr. da Silva quanto sua esposa jamais receberam um título de propriedade, alugaram ou sequer ficaram no apartamento nem de que eles tentaram aceitar esse presente.

A evidência contra o Sr. da Silva baseia-se no depoimento de um executivo condenado da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, que teve sua sentença à prisão reduzida em troca de entregar evidências ao estado. Segundo reportagem do proeminente jornal brasileiro Folha de São Paulo, o Sr. Pinheiro teve seu acordo de delação bloqueado quando ele contou a mesma história que o Sr. da Silva sobre o apartamento. Ele também permaneceu cerca de seis meses detido antes de seu julgamento. (Isso é discutido no documento de sentença de 238 páginas.)

Mas essa evidência escassa foi o suficiente para o juiz Moro. Em algo que os americanos considerariam ser um processo judicial canguru¹, ele sentenciou o Sr. da Silva a nove anos e meio de prisão.

O estado de direito no Brasil já havia sofrido um golpe devastador em 2016, quando a sucessora do Sr. da Silva, a Sra. Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014, sofreu um impeachment e foi removida do cargo. A maior parte do mundo (e possivelmente do Brasil) acredita que ela foi destituída por causa da corrupção. Na verdade, ela foi acusada de uma manobra contábil que fez com que o deficit do orçamento federal parecesse temporariamente menor do que era de verdade. É algo que outros presidente e governadores haviam feito sem maiores consequências. E o próprio procurador-geral da República concluiu que não se tratava de um crime.

Ainda que houvessem políticos de partidos de todo o espectro político envolvidos em corrupção, incluindo o Partido dos Trabalhadores, não houveram denúncias de corrupção contra a Sra. Rousseff no processo de impeachment.

O Sr. da Silva permanece o líder na eleição de outubro devido a seu êxito e ao êxito de seu partido na reversão de um longo declínio econômico. De 1980 a 2003, a economia brasileira mal se quer cresceu, cerca de 0,2 por cento anualmente per capita. O Sr. da Silva tomou posse em 2003 e a Sra. Rousseff em 2011. Até 2014 a pobreza havia sido reduzida em 55 por cento e a extrema pobreza em 65 por cento. O salário mínimo real aumentou 76 por cento, os salários reais aumentaram 35 por cento, o desemprego atingiu recordes históricos para baixo e a infame desigualdade social do Brasil finalmente havia caído.

A direita aproveitou a recessão de 2014 para orquestrar um
golpe de estado parlamentar, segundo o colunista.
Mas em 2014 uma recessão profunda começou e a direita brasileira foi capaz de tirar vantagem do declínio para orquestrar o que muitos brasileiros consideraram um golpe parlamentar.

Se o Sr. da Silva for barrado de participar da eleição presidencial, o resultado poderá ter muito pouca legitimidade; assim como na eleição hondurenha de novembro que foi amplamente vista como roubada. Uma pesquisa de opinião pública do ano passado descobriu que 42,7 por cento dos brasileiros acreditam que o Sr. da Silva estava sendo perseguido pela mídia e pelo judiciário. Uma eleição pouco crível pode ser politicamente desestabilizadora.

Talvez, mais importante de tudo, o Brasil terá se reconstituído numa democracia eleitoral muito limitada, onde um judiciário politizado pode excluir um líder político popular de concorrer a um cargo público. Isso seria uma calamidade para os brasileiros, para a região e para o mundo.


Mark Weisbrot é co-diretor do Centro para Pesquisa Econômica e Política de Washington e presidente da Just Foreign Policy. É o autor de "Failed: What the ‘Experts’ Got Wrong About the Global Economy".

Uma versão desta coluna apareceu na versão impressa em 24 de janeiro de 2018, na página A10 da edição nacional sob a manchete: A democracia do Brasil encara um abismo.


¹ Um processo judicial canguru ou kangaroo court é, segundo o Wikcionário, "um procedimento judicial ou semi-judicial ou o grupo que conduz tal procedimento, que é feito sem a autoridade adequada, de maneira abusiva e injusta".

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O problema da educação não é não poder bater nas crianças

A diretora de um colégio decidiu filmar uma criança durante um ataque de cólera e expô-la no Facebook. Segundo ela, não há nada que ela possa fazer além de deixar a criança quebrar tudo por causa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que protege esses pequenos marginais. O vídeo está viralizando na rede social, mas não iriei compartilhá-lo porque porque se não vai ficar parecendo que apoio essa atitude e a mensagem do vídeo. Minha monografia foi justamente sobre a exposição indevida de menores em conflito com a lei pela imprensa.

O brasileiro médio adora citar o Primeiro Mundo quando lhe
convém, mas em toda Europa só é permitido o professor bater
nos alunos no Vaticano (em vermelho).
Diversas vezes, durante o vídeo, funcionários do colégio tentaram segurar a criança e evitar que ela virasse mesas e cadeiras. A diretora impede-os. Ela queria produzir uma evidência que reafirmasse sua ideologia pró-espancamento. Ela deixa a criança destruir o patrimônio do colégio — comprado com o dinheiro de todos nós — para provar seu argumento de que as crianças merecem apanhar dos professores, o que não ocorre em mais nenhum país da Europa. É um argumento do século XVIII, quando a pedagogia sequer era uma ciência ainda.

O entendimento corrente no campo da pedagogia é de que a criança é a parte mais frágil da sociedade e, assim sendo, tem o direito de receber educação sem ser submetida a tratamento degradante. Surpreende-me que uma pedagoga vá contra esse entendimento e defenda a punição corporal como forma de resolução do conflito entre aquele aluno e a escola. Que outras pessoas, alheias à situação, comentem a favor do espancamento só prova minha crença de que o brasileiro gosta de punir a revolta dos mais fracos ao invés da opressão dos poderosos.

A diretora deveria ser a parte racional da situação, tentando pôr fim ao que quer que seja que estivesse atormentando aquele ser, mas preferiu fazer ativismo político reacionário no Facebook. Além de desonesta — por manipular uma situação para defender seu ponto de vista — e anti-ética — por filmar uma criança sem a permissão de seus pais —, demonstra também que é anti-profissional, estando mais preocupada em publicar conteúdo na internet do que exercer sua função, a qual é paga pela coletividade. Se trabalhasse numa escola privada, com certeza seria demitida por justa causa.

Se dependesse de alguns, cenas como essa
sairiam dos livros de História e voltariam à
realidade. Diz muito sobre aquilo que somos
enquanto sociedade.
Por outro lado, duvido que ela deixaria a criança destruir tudo se trabalhasse numa escola particular. Mas no Brasil o que é público não é de todos (inclusive dela), é de ninguém. Ela fugiu de suas atribuições de zelar pelo patrimônio público e pelo bem-estar dos demais alunos. Só interessou-lhe, naquele momento, manipular uma situação para gerar "likes" contra o ECA. Afinal, é mais fácil culpar as crianças pelo atual estado do sistema educacional brasileiro ao invés de se olhar para o próprio descompromisso com as responsabilidades.

Aliás, ela culpa todo mundo pelo ocorrido — pais, assistentes sociais, polícia, políticos — menos a si mesma. É mais fácil culpar quem sequer estava na sala do que fazer o seu serviço, que nesse caso em específico se resumia a segurar a criança e tentar fazê-la se acalmar. É mais fácil também culpar a própria criança sem entender o motivo de sua raiva, o que poderia ajudá-la. Com certeza ela deve ter tido um motivo para o ataque de cólera, mas isso ficou sem explicação num vídeo que foi propositalmente tirado de contexto para defender um ponto de vista arcaico.

A educação no Brasil não está no estado atual porque porque o professor não pode mais bater nos alunos. É porque eles preferem postar vídeo no Facebook do que exercer as funções pelas quais são pagos pela coletividade para exercer. Não está escrito em lugar nenhum no ECA que não se pode conter uma criança durante um ataque de cólera. O que está escrito é que não se pode valer da violência para tal. Se a única forma que nós temos para resolver conflitos é abrir mão da violência, então é a nossa sociedade que tem um problema e não as crianças. As crises delas são apenas um reflexo disso.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Porque o boicote da elite do entretenimento contra Trump irá falhar


Poucos artistas parecem dispostos a se apresentar e entreter o país quando o novo presidente assumir no dia 20 de janeiro. Com a notícia na semana passada de que o cantor de ópera Andrea Bocelli cedeu à pressão e desistiu de fazer um show na posse e com uma membro das Rockettes liderando uma rebelião nas redes sociais contra o presidente, Kid Rock é atualmente o maior nome agendado para se apresentar.

E a esquerda é tonta. Porque ela ainda não entendeu o que está acontecendo.

Robert Reich quer ser o Bob Geldof do anti-trumpismo.
Robert Reich, secretário de trabalho de Bill Clinto que se transformou no Michael Moore do Facebook está promovendo algo chamado o Concerto da Liberdade Unida que será transmitido ao mesmo tempo que a posse presidencial. O show beneficiará todas as entidades de caridade progressistas de sempre e Reich espera conseguir grandes nomes como Jay-Z e Madonna para se apresentar. "Simples", escreveu, "a posse de Trump perde toda a audiência na TV. Basicamente, ninguém assistirá".

Isso deve impedi-lo. Jay-Z e Madonna ambos já haviam se apresentado durante a eleição para angariar apoio para Hillary Clinton — e obviamente falharam. Mas, claro, mais um show deve fazer o país virar para o lado de Reich.

A verdadeira questão é a bolha criada pela exclusão estalinizada que a esquerda faz dos não-progressistas da cultura popular americana.

Lin Manuel Miranda está fazendo um concurso para angariar fundos para a Planned Parenthood. Para cada doação de US$10, você entra numa seleção para ver o musical dele, "Hamilton", em três cidades. A mãe de Miranda está no conselho nacional de diretores do Fundo de Ação da Planned Parenthood, então esta é obviamente uma causa pela qual ele se importa.

Não houve controvérsia alguma para seu concurso — só imagine se fosse para a Associação Nacional do Rifle ou qualquer outra causa popular conservadora. Quando Mike Pence assistiu àquela infame apresentação de "Hamilton", o vídeo dele entrando no teatro mostrava muito mais aplausos do que vaias. Ainda assim, o elenco pagou um sermão a ele do palco como se fosse impossível que houvessem eleitores de Trump na plateia ou, Deus proíba, no elenco ou na equipe técnica.

A inclinação progressista em tudo vai além da Broadway ou de Hollywood. Permeia tudo. E envelhece rápido. A edição de setembro da revista de dicas domésticas Real Simple trazia um esbravejo político incoerente da escritora Terry McMillan. Nele, ela acusa o Partido Republicano de conspirar contra o presidente Obama porque ele é negro e os estados de "fraudar" as leis eleitorais. Ela escreveu que as pessoas brancas reclamam de pessoas negras que tomam seus empregos e que ela tem medo de que seu filho saia de casa sozinho e seja morto pela polícia.

Real Simple é uma revista conhecida por receitas e dicas de organização. É um mundo no qual os democratas não deveriam habitar. Eles jamais leriam uma revista sobre dicas domésticas caso se encontrariam até o joelho em teorias conspiratórias conservadoras. O mesmo vale para as revistas femininas, que são todas automaticamente progressistas vestidas com uniformes opinativos sobre "questões femininas", como se as mulheres conservadoras não existissem. Então há o choque de que 53 porcento das mulheres escolheram Trump.

Numa eleição que se resumiu ao fracasso dos democratas em manter o apoio dos estados industriais, aumentar o risco de falar apenas com outros progressistas enquanto se assiste aos artistas progressistas é temerário. Escrevendo na esquerdista revista online de artes The Baffler, Jacob Silverman apontou para o culto às celebridades como uma das principais razões pelo fracasso de Hillary.

Katy Perry não vai mudar o que a maioria dos eleitores pensa.
Ele escreveu que esses "apelos pela atenção das celebridades parecem refletir o desejo dos progressistas de verem suas políticas validadas, até mesmo receberem uma aura de glamour, por colegas da elite. Os tweets enérgicos de Clinton e aparições no show do Jay-Z recorrem aos já convertidos enquanto não oferece nada aos milhões de trabalhadores americanos que estão pensando se, talvez, falta um toque de povo à mulher que cobra US$250.000 por palestras secretas para banqueiros".

Um número astronômico de 68 porcento dos entrevistados numa pesquisa de boca-de-urna da Reuters/Ipsos no dia da eleição disse que "partidos e políticos tradicionais não se importam com pessoas como eu". É um número muito grande de pessoas se sentindo completamente abandonadas — e a Katy Perry não vai incidir nisso.

Enquanto os progressistas continuam a desenhar linhas culturais que excluem os conservadores, eles têm que notar que isso está se traduzindo em perdas nas urnas. Os republicanos não controlam apenas a presidência, a Câmara e o Senado, mas cerca de dois-terços das assembleias legislativas e a maioria dos governos estaduais.

O abrangente progressismo na cultura popular pode não estar prejudicando os resultados financeiros dos artistas (até agora), mas certamente não está fazendo nada para ajudar suas causas políticas também. Como aprendemos nessa eleição, ignoramos segmentos inteiros da população sob nosso próprio risco.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Quem quer saber tudo?

Acabei de assistir ao terceiro episódio da primeira temporada do seriado antológico futurista Black Mirror e, como sempre, sinto um gosto amargo na boca, como se tivesse levado um murro na cara. Na história todas as pessoas — ou pelo menos a maioria delas — possuem um dispositivo inserido atrás da orelha que grava suas memórias, que, depois, podem ser reproduzidas, via bluetooth, em aparelhos televisores. A tecnologia, chamada de "memória granular", permite rever tudo aquilo que vivemos, seja para aperfeiçoar-se ou obcecar-se por fatos que já ocorreram. Assim faz Liam, recém-chegado de uma mal-sucedida entrevista de emprego em outra cidade e que começa a ficar obcecado por uma cena que viu numa festa: a esposa Ffion num canto, conversando com outro homem.

Pressionada, a esposa confessa que o homem em questão, Jonas, é um ex-namorado dela. As horas vão passando e Liam fica cada vez mais obcecado. Confrontada com a memória do marido, para quem ela havia dito que o relacionamento em questão durou apenas poucas semanas, ela termina confessando que ele na verdade durou 6 meses. A obsessão crescente de Liam o faz procurar o ex-namorado da esposa para obrigar-lhe a apagar todas memórias que ele tinha de Ffion. É nesse momento que ele descobre, acidentalmente, que Jonas manteve um caso com Ffion recentemente. Ele confronta a esposa que, arrependida, confessa-lhe o adultério. Por insistência do marido, ela mostra-lhe as cenas da traição gravadas em sua memória granular. Isso acaba com o casamento deles.

Foi nesse momento que o seriado britânico tronou-se dolorosamente pessoal para mim. Meu casamento terminou porque eu descobri, através do celular do meu companheiro, que ele estava tendo um caso. No momento em que tentei invadir a privacidade dele, senti-me estúpido. Deixei para lá e dei-lhe minha confiança. Entretanto, quando fui pesquisar algo no Google, vi o nome de uma pessoa que eu não fazia a mínima ideia de que era — o amante dele — entre os itens pesquisados recentemente. Quando finalmente consegui invadir o celular dele, encontrei uma extensa conversa dele com a tal pessoa no WhatsApp, não só planejando a traição como convidando o cara para ir no aniversário de uma prima dele. Revisitei aquele dia na minha memória e percebi que ele me chamou para ir nessa festa após o rapaz negar o convite dele.

O que se seguiu nos próximos meses foi parecido com o que Liam viveu no episódio, embora de maneira menos dolorida. Revisitei minhas memórias — felizmente na minha cabeça mesmo, e não numa televisão — para ficar tentando descobrir o que deu errado. Em que momento o relacionamento desandou, quando ele deixou de me amar, eu poderia ter feito alguma coisa para evitar que ele me traísse... Eram perguntas que eu tentava desesperadamente responder, com a ajuda da minha memória. Torturava-me ao ponto de dizer para as pessoas que seria bom se eu pudesse fazer como o personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e apagar todas as minhas memórias com aquela pessoa. Com o tempo, aprendi que relacionamentos se desgastam pelos mais variados motivos e que cada um reage de uma forma a isso.

Liam retirando a memória granular de si mesmo.
O fato é que, queiramos ou não, nossas memórias estão gravadas por todos os lugares e isso tem dificultado não só os relacionamentos como o término dos mesmos. Hoje podemos vasculhar a vida de nossos parceiros no Facebook, no Instagram, no Twitter e no WhatsApp e isso nos tornou desconfiados por natureza. Por outro lado, a facilidade com que podemos encontrar — e descartar — pessoas novas na era digital transformou-nos todos em traidores em potencial. Mas a culpa disso, para o bem ou para o mal, não é da tecnologia. Trai quem quer. A tecnologia é neutra. Por mais escravos que possamos ser das novas tecnologias, ainda possuímos livre-arbítrio. O coração não é um aplicativo. E a escolha de entregá-lo para uma só pessoa ainda é única e exclusivamente de cada um de nós.

No final do episódio, Liam decide arrancar o dispositivo da orelha para não mais lembrar-se da ex-esposa. É uma decisão corajosa. Ao mesmo tempo em que não vai mais sofrer ao lembrar de cada instante que passou com uma pessoa a quem amou muito e que lhe decepcionou, cria a possibilidade de fazer tudo diferente da próxima vez. Quero o mesmo para mim. Não quero mais ficar suspeitando de cada passo da pessoa a quem eu escolhi dar meu coração. Quero confiar nela. Não quero dar a mínima para o que ela esteja escrevendo nas mensagens privadas do Facebook, do Instagram e do Twitter. Não quero saber das mensagens que ela troca no WhatsApp ou do que ela pesquisa no Google. Quero confiar nas pessoa, tendo motivos para tal. Quem quer saber de tudo pode não estar pronto para tamanha responsabilidade.

terça-feira, 8 de março de 2016

"Os judeus elegeram Hitler"

Adoro um título provocativo. Este, no entanto, aparece entre aspas por se tratar da fabulação mais incrível que eu já ouvi em toda a minha breve existência. No final do ano passado o professor de História da América na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Karnal escreveu que jamais imaginou que ouviria um impropério tão grande quanto aquele que ouviu no ano da Primavera Amarela, segundo o qual o nazismo é uma ideologia de esquerda. Tal teoria, marginal até o surgimento do Tea Party nos Estados Unidos e amplamente difundida através das redes sociais, já é antiga conhecida minha. Desde os tempos de Orkut ouço, ou melhor, leio isso. O que realmente me chocou na versão atual do Festival de Besteiras que Assola o País foi ouvir que os judeus elegeram Adolf Hitler para o cargo de chanceler da Alemanha. Esta teoria encontra eco em fóruns de discussões de "orgulho branco" (me recuso a ligar os links aqui e sujar meu blog com literatura pseudo-científica), que tentam responsabilizar os judeus, de uma forma ou de outra, pelo seu próprio genocídio.

Que a neodireita brasileira não presta atenção alguma nas aulas de História do Ensino Médio já tornou-se uma constatação inegável até mesmo para a direita erudita, envergonhada das faixas erguidas pelos camisas-amarelas nos protestos anti-PT. Entretanto, reimaginar acontecimentos históricos eleva a histeria para o nível do delírio; é como querer provar que 2 + 2 = 5. A despeito do que os membros do Partido orwelliano (que cresce como nunca antes no Brasil) possam pensar, o que já aconteceu – e, portanto, já foi historicamente testado e provado – é uma realidade concreta que não pode ser mais passível de modificações. A opinião pessoal do historiador é nula quando os fatos históricos são documentados. Pode-se divergir, por exemplo, do número total de mortos nos campos de concentração, mas o que os registros históricos da Alemanha Nazista mostram são campanhas de internação compulsória das populações vistas como inferiores, assim como fotos e vídeos feitos pelos Aliados mostram milhares de corpos empilhados em Auschwitz e demais abatedouros de seres humanos.

No Hospital Judeu de Berlim, onde nem todos os pacientes eram
judeus, os sociais democratas tiveram 44% dos votos em 1932
.
Que parte significativa da classe trabalhadora brasileira vota contra seus próprios interesses já é de conhecimento até do mundo mineral. Sim, Dilma traiu os operários que reelegeram-na. Não nego isso. Mas trocar o PT pelo Jair Messias Bolsonaro (esse é o nome dele) não me parece a atitude mais sensata a ser tomada pelos membros da classe oprimida. Mas isso é recorrente na História brasileira. Antes mesmo do PT virar a fonte de todo o mal e o bode expiatório da corrupção na política, o falecido cantor e compositor Tim Maia já havia cunhado um dos grandes aforismos nacionais: "o Brasil é o único país do mundo em que prostituta apaixona, cafetão sente ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita". Parece-me que inventar (ainda mais uma) fábula sobre os judeus ajuda os brasileiros pobres a racionalizarem sua escolha suicida pela extrema-direita. Acreditando nessa fábula podem votar em quem quer exterminá-los sem culpa ou remorso. Afinal de contas, até mesmo os judeus teriam feito isso! Só que o fato é que eles não fizeram. É o que dizem pesquisadores que ouviram sobreviventes do Holocausto e cruzaram dados censitários e eleitorais da Alemanha pré-Hitler.

Segundo The Jews in Weimar Germany, obra de Donald L. Niewyk, professor de História contemporânea da Europa na Universidade Metodista do Sul (EUA), "com o desaparecimento de quase todos os partidos moderados de classe média durante a Grande Depressão, os votos (e o dinheiro) dos judeus ficaram disponíveis. Os principais competidores eram os partidos de Centro e Social Democrata, ambos com histórico de apoio ao sistema republicano e de denúncia da judeofobia". Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o controle da Alemanha, o Partido de Centro, de orientação católica, fez campanha para conseguir o voto dos judeus, afirmando não se opor à educação religiosa num cenário cada vez mais laico. Segundo Niewyk, "a resposta foi positiva num amplo espectro da opinião judaica". O principal jornal da comunidade judaica, Israelitisches Familienblatt (Jornal da Família Israelita), fez editoriais a favor do partido, assim como organizações sionistas. No entanto, "a ligação do Partido de Centro com sionistas proeminentes pode ter prejudicado suas chances com os judeus de esquerda, que eram bem mais numerosos", alerta o pesquisador.

Sim, os judeus alemães eram de esquerda, mas não eram comunistas. Outra ideia amplamente divulgada nos fóruns de "orgulho branco" é que os judeus teriam causado o colapso da Alemanha ao votarem em massa no Partido Comunista, o que também não é verdade. "Os adultos judeus moveram-se para a esquerda moderada durante os últimos anos da República de Weimar", escreve Niewyk, que em seguida afirma que os jovens judeus foram atraídos pelo Partido Comunista. A reação dos grupos sionistas foi forte e orquestrada. Começaram a alertar os jovens para o perigo da "assimilação vermelha" e para os horrores cometidos contra os judeus por Josef Stálin – à época o líder soviético apostava numa campanha antissemita para perseguir o dissidente Léon Trotsky e seus seguidores. O editor do Israelitisches Familienblatt, Esriel Carlebach, foi vítima de uma tentativa de assassinato em 1933 após escrever uma série de artigos críticos ao tratamento dispensado pela URSS aos judeus; ele havia visitado o país no verão de 1932. Embora jamais tenha ficado claro se o perpetrador do ataque foi um comunista ou um nazista, este fato acabou afastando os eleitores judeus dos comunistas.

Pôster associando o comunismo ao judaísmo.
Niewyk nota que foi a esquerda moderada a responsável por eleger e nomear os primeiros funcionários públicos judeus. Pouco antes do colapso da República de Weimar os comunistas deixaram de apresentar candidatos judeus ao Parlamento. Foi uma forma que encontraram de contradizer a propaganda nazista, segundo a qual os judeus haviam se aliado aos bolcheviques para tomar o controle do mundo. Vendo-se preteridos pela extrema-esquerda e perseguidos pela extrema-direita, os judeus encontraram no Partido Social Democrata seu porto seguro. "O Partido Social Democrata, prejudicado perenemente [entre a esquerda] por cultivar uma imagem mais radical do que suas políticas,  conseguia o apoio dos judeus ao manter o proletariado relativamente livre do antissemitismo e por combater os nazistas mais militantemente do que qualquer outro", afirma Niewyk. Ele nota que o jornal ortodoxo Der Israelit (O Israelita), que até 1930 condenava o socialismo por causa de sua ligação com o ateísmo, aplacou o tom de suas críticas e, em 1932, recomendou voto no Partido Social Democrata ou no Partido de Centro.

Outro dado interessante é uma pesquisa feita por Arnold Paucker com cerca de cem sobreviventes judeus do Holocausto, a maioria dos quais haviam sido apoiadores de classe média do Partido Democrático até o declínio deste em 1930. Os resultados sugerem que, após 1930, cerca de 62% dos eleitores judeus votaram no Partido Social Democrata, enquanto 19% votaram no Partido do Estado (ex-Partido Democrático) e 5% no Partido de Centro. O pesquisador alerta que não conseguiu localizar um grande contingente de judeus da Bavária e que os habitantes de fé judaica deste estado conservador podem ter votado em massa no Partido do Povo da Bavária tanto antes quanto após o pleito de 1930. Niewyk, interpretando os dados da pesquisa do colega historiador, afirma que a falta de judeus de classe alta na pesquisa pode indicar que o católico Partido de Centro teve na verdade mais votos entre os judeus do que Paucker indicou. Isto nos leva até os dados de outro pesquisador, Peter Pulzer, que cruzou dados censitários e eleitorais. Ele confirma a preferência dos judeus pelo Partido Democrático até 1930 e afirma que os judeus ortodoxos e de áreas rurais preferiam o Partido do Povo da Bavária e o Partido de Centro durante os anos 1920. 

Pulzer analisou os resultados eleitorais de dezenove distritos onde os judeus constituíam uma maioria significativa segundo o Censo alemão – em especial nas cidades de Berlim, Frankfurt-am-Main e Hamburgo. Ele afirma, com a ressalva de que é difícil separar o votos dos judeus e dos gentios, que a minoria etno-religiosa continuou apoiando o Partido do Estado nas eleições locais, mas, ameaçados pela ascensão de um partido claramente antissemita ao poder central, passaram a apoiar o Partido de Centro e o Partido Social Democrata nas eleições federais. Niewyk escreve que, conforme indica Pulzer, a resposta dos judeus ao declínio da democracia e à ascensão do nazismo foi qualquer coisa menos irracional. Sim, eles subestimaram e interpretaram errado as ideias de Adolf Hitler, mas todo mundo na época também fez isso (muitos acreditavam que seus discursos antissemitas eram apenas retórica eleitoral). A título de curiosidade, vale notar a existência de uma Associação Alemã de Judeus Nacionalistas, que defendia a assimilação dos judeus pela cultura alemã. Posteriormente o grupo apoiou Adolf Hitler, mas sempre foi pouco significativo. Segundo a Wikipédia, tinha pouco mais de 3.500 membros num universo de 522.000 judeus (menos de 0,7% do total).

"Se ainda há quem imagine que os judeus alemães foram politicamente complacentes [com o nazismo], que fugiram para um mundo de fantasia onde o racionalismo iluminado e a simbiose perfeita reinavam, este livro deve convencê-los do contrário" – Niewyk, em resenha do livro de Pulzer.

De fato os judeus votaram em massa em Adolf Hitler – depois
que já estavam em Dachau.
É perfeitamente compreensível que alguns judeus tenham tentado assimilar a ideologia nazista como forma de escapar da perseguição oficial do Estado alemão. Uma matéria do jornal norte-americano The New York Times, datada de 20 de agosto de 1934, aponta isso. Com a morte do presidente Paul von Hindenburg no início daquele mês, Hitler realizou um plebiscito perguntando ao povo alemão se os cargos de presidente e chanceler deveriam ser unificados, o que lhe daria controle absoluto sobre o Estado alemão. "Cada opinião contrária foi suprimida", relata o correspondente do jornal, e Hitler foi sagrado führer da Alemanha com 90% dos votos. "Uma cédula continha a inscrição: 'como nada aconteceu comigo até agora, voto sim'. Estava assinada: 'não-ariano'." Não me parece o voto de um cidadão politizado e consciente, mas sim o voto de protesto irônico de um cidadão com tanto medo que sequer assinou a cédula. Os votos "sim" foram imensamente populares nas instituições judaicas. "Isso é explicável, é claro, pelo medo de repressão caso o resultado fosse diferente", diz o jornal, antes de afirmar que a maior votação de Hitler na Bavária havia sido no campo de concentração de Dachau.

Dito tudo isso, prefiro acreditar nas palavras dos professores Niewyk e Pulzer, assim como no correspondente do New York Times que esteve em Berlim para acompanhar a votação do plebiscito de 1934, do que em alguém que acredita em tudo aquilo que lê no Facebook. Numa época em que a comunicação se tornou extremamente rápida e eficiente, as palavras parecem sair da mente e se materializar na tela do computador sem reflexão alguma. O debate político agora se resume a 140 caracteres cheios de frases de efeito (as hashtags). Nesse cenário, explica-se porque um dado histórico falso é divulgado sem maiores questionamentos. É feio fazer a Glória Pires e assumir a falta de conhecimento em determinado assunto. Somos obrigados a opinar sobre tudo e, assim sendo, tornamo-nos especialistas em tudo sem sabermos absolutamente nada. Mas o problema é que é bem ofensivo dizer que milhões de judeus morreram porque eles mesmos teriam votado em Hitler como uma massa de manobra acéfala e suicida. Se é isso que desejam que os brasileiros façam, assumam. Não há necessidade de promover seu anseio às custas de 6 milhões de almas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Facebook, o Grande Irmão

Em 1984, sua obra-prima, o escritor britânico George Orwell prevê uma realidade distópica para o futuro da humanidade. O mundo se encontra dividido em três blocos supranacionais governados por líderes autoritários e que vivem em guerra entre si. O pensamento é desencorajado, pois pode levar ao dissenso, e os indivíduos são constantemente vigiados através de telões (que o autor chama de tele-telas) instalados em todas as residências, lojas e fábricas, possuindo o mínimo possível de privacidade. Na Oceania, onde mora o protagonista Winston Smith e onde a história se desenrola, o Grande Irmão (Big Brother, em inglês) é o responsável pela vigilância, estando sua imagem presente em todas as tele-telas acompanhada do anúncio "Big Brother is watching you" ("O Grande Irmão está te observando"). Muito já foi debatido se o Big Brother, que é o líder da Oceania, existia de verdade ou se ele era apenas um mecanismo de intimidação da burocracia estatal.
Tele-tela conforme imaginada no filme de Michael Radford.
Quando a televisão se popularizou no Ocidente em meados da década de 1950, críticos sociais começaram a se indagar se as tele-telas orwellianas não teriam finalmente se tornado realidade. No entanto, os aparelhos de televisão da época apenas recebiam os sinais enviados pelas antenas de tevê. Não eram capazes de captar imagens e, muito menos, enviá-las para alguma empresa ou órgão de controle estatal. Hoje em dia, no entanto, as tele-telas já existem. São os computadores e os aparelhos celulares e televisores "inteligentes" (os smartphones e as smart TVs), onde se acumula um número cada vez maior de informação sobre seus usuários. Quantas vezes não vamos preencher um formulário on-line e nossas informações já estão gravadas no navegador? Da nossa data de nascimento ao número de nosso cartão de crédito, nossos celulares sabem tudo sobre nós. E, o que é mais chocante de tudo, são empresas privadas (e não o Estado) que estão gerenciando essas informações!

Se por um lado Orwell acertou ao imaginar um futuro onde o pensamento e a privacidade são mínimos, ele errou ao imaginar que seriam os governos os principais promotores dessa nova realidade. Uma empresa em particular se destaca pelo número absurdamente exagerado de informações que guarda sobre seus usuários: o Facebook. Ao aceitarmos os termos de uso daquela rede social estamos, consciente ou inconscientemente, abdicando de nossa privacidade e de nosso interesse em buscar um diálogo mais calcado na racionalidade do que na passionalidade. Os erros de Orwell foram os acertos de Aldous Huxley, outro escritor britânico do século passado que também previu um futuro distópico da humanidade em seu Admirável Mundo Novo. Confesso que não sou familiarizado com a obra de Huxley, mas o crítico social Neil Postman escreveu o seguinte sobre as diferenças entre 1984 e Admirável Mundo Novo:

"O que Orwell temia era aqueles que queimariam livros. O que Huxley temia era que não haveria razão para queimar livros, uma vez que ninguém mais teria interesse em lê-los. Orwell temia os que nos privariam de informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que nos tornaríamos apáticos e egotistas. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade se tornaria irrelevante. Orwell temia que nossa cultura seria aprisionada. Huxley temia que nossa cultura seria banalizada (...) Em resumo, Orwell temia que o medo nos arruinaria. Huxley temia que nosso desejo nos arruinaria". In: POSTMAN, Neil. Amusing Ouselves to Death. Nova York: Viking, 1985.

O Big Brother não é um ditador autoritário que nos oprime. Não é Edgar Hoover que usa todos os meios possíveis para eliminar o pensamento anti-establishment da sociedade. Não é tampouco a NSA, que viola a privacidade tanto do jovem jovem muçulmano do subúrbio de Detroit quanto da presidenta do Brasil. Afinal de contas, a NSA só consegue informações sobre cidadãos, comuns ou não, porque empresas privadas como o Facebook estão dispostas a repassá-las ao órgão de espionagem do governo estadunidense. O Big Brother é um logotipo azul e branco que nos indaga: "No que você está pensando?", como se guardar os pensamentos para si mesmo fosse algo ruim. O Big Brother é uma empresa que sabe quando nascemos, para onde viajamos nas férias, qual nossa preferência político-partidária e quando estamos de bom e mau humor. E ela nos incentiva a sermos todos Grandes Irmãos. Afinal de contas, nossos amigos e seguidores estão acompanhando todo e qualquer movimento nosso, assim como estamos acompanhando os passos deles.

O mais interessante disso tudo é que não percebemos a invasão de nossa privacidade como uma opressão. Segundo Noel Sharkey, professor de inteligência artificial da Universidade de Sheffield, as novas gerações estão dispostas a conceder sua privacidade para uma empresa privada porque não estão familiarizadas com a obra de Orwell. Elas não imaginam que o extermínio da privacidade possa ser algo ruim até que se vêem como vítimas dele - caso, por exemplo, de pessoas comuns que têm suas vidas arruinadas pela divulgação de fotos íntimas. No momento em que postamos algo na rede, mesmo que em mensagem privada (uma foto nua para o namorado, por exemplo), perdemos o controle sobre aquilo. E, ao contrário do que se pensa, mesmo após deletada aquela informação está guardada para sempre. Sua foto nua está salva no servidor do Facebook em algum canto do mundo. Como diz uma piada que vi recentemente: "se a NSA está guardando todas nossas informações da internet, então ela possui a maior coleção de pornografia da história".

Como disse Postman, o desejo nos arruína. Pelo desejo de ser popular e encontrar pessoas com quem possamos compartilhar nossas ideias, entramos num mundo sem privacidade. Esse desejo é maior do que o de resguardar nossa imagem pessoal. No Facebook, temos tanta informação que não sabemos lidar com elas. Afinal, qual tragédia é mais importante, a de Mariana ou a de Paris? Nos tornamos apáticos à morte de outros seres humanos por causa do grupo ideológico ao qual pertencemos. E não adianta apontar para o indivíduo que ele está sendo egotista, ou seja, que está olhando apenas para seu próprio universo, pois no Facebook não somos encorajados a embasar nossas opiniões e argumentos em leituras ou análises críticas da realidade. Para fazer isso, é preciso sair do espaço virtual, o que aquela rede social não deseja que façamos. No Facebook temos a falsa sensação de que estamos obtendo todas as informações necessárias e perdemos a ânsia pelo verdadeiro conhecimento.

O conhecimento surge, muitas vezes, do embate de ideias. O professor apresenta ao aluno os diferentes modelos de organização social existentes, cada um com seus prós e contras, e este último decide escolher um com o qual se identifica. Os pais apresentam ao filho as diferentes religiões existentes e este decide escolher uma com a qual se identifica. Mas o Facebook é a terra da interdição da coexistência pacífica entre as ideias diferentes. O que importa é vencer a discussão com aquele religioso alienado que mora a 1.000 quilômetros de distância de mim ou com aquele tucano alienado que mora a 2.500 quilômetros de distância e que jamais vou conhecer pessoalmente. Os algoritmos da rede social faz com que tenhamos acesso apenas às pessoas e páginas que pensam de maneira semelhante à nossa. De repente o mundo, composto por várias verdades na sua dimensão real, passa a ser composto por apenas uma verdade na sua dimensão virtual.

A verdade se tornou irrelevante. Assim como Winston Smith, somos desencorajados a pensar, pois pensar pode nos tornar párias sociais. Recentemente, Ciro Gomes e Roberto Requião, que fazem críticas acertadíssimas à política econômica da presidenta Dilma Rousseff, passaram a ser atacados pelos defensores da verdade petista, pois podem levar ao dissenso entre os membros daquele grupo que se acredita coeso. Foram logo atacados e desmerecidos no plano pessoal, pois, como disse anteriormente, o Facebook é o reino do passional e não do racional. Quem decidir apoiar o senador ou o ex-ministro vai virar pária para os petistas. O fato é que, com as redes sociais, voltamos à sociedade tribal. As contendas são vencidas através da violência virtual, através da união dos membros dos grupos virtuais para derrubar páginas, promover hashtags e xingamentos orquestrados e denunciar passionalmente os partidários da ideologia contrária. Às vezes a violência virtual escorre para o mundo real, como ocorreu em Brasília durante a marcha das mulheres negras.

Facebook is watching you.
Orwell imaginou um futuro caótico onde três Estados nacionais fortes suprimiriam o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. Imagino um futuro caótico onde empresas multinacionais fortes suprimirão o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. E, o que é pior de tudo, essa dominação não é vista como tal pelas pessoas comuns. O Facebook soube trabalhar muito bem com o desejo do ser humano de se sentir aceito e de viver em comunidade para solapar-nos de nossas privacidades. Em troca de pertencermos a tribos virtuais, oferecemos nossas informações mais íntimas, que são registradas e acessadas a qualquer minuto pela rede social, que vende-as para empresas de comércio virtual e repassa-as para órgãos de espionagem. O futuro é sombrio.Viveremos numa sociedade tribal, inepta à resolução de conflitos através do diálogo, criada por empresas que sabem tudo sobre nós. Eis o admirável mundo novo: Facebook is watching you.