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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

George Michael (1963-2016)

O cantor e compositor britânico George Michael foi encontrado morto em casa pelo namorado Fadi Fawaz aos 53 anos de idade há três dias, na manhã de Natal. Ao saber da notícia, imediatamente me veio à cabeça a canção "Careless Whisper", lançada em 1984, quando Michael ainda fazia parte do duo Wham! com Andrew Ridgeley, seu amigo de infância e co-compositor do hit. Foram várias as vezes que esta canção embalou minha vida amorosa. Também me veio à cabeça "Last Christmas", regravada por meio mundo, de Taylor Swift a Ariana Grande, e que embalou um dos piores Natais que já tive. Pensei na ironia do destino: o compositor de um dos maiores hits natalinos dos últimos 30 anos morreu justamente no Natal. Depois, em meio a tantas memórias afetivas, lembrei-me da primeira recordação que tenho do cantor: trata-se do videoclipe de "Shoot The Dog", de 2004, uma animação na qual o então primeiro-ministro britânico Tony Blair é retratado como o cachorro de estimação do presidente norte-americano George W. Bush no contexto da invasão do Iraque pelas tropas de ambos os países. Um clipe polêmico para um cantor que sempre afirmou apoiar o Partido Trabalhista de Blair.

George Michael (1963-2016).
A polêmica, aliás, marcou toda a vida do cantor desde que ele saiu do Wham! para perseguir uma carreira solo. Numa entrevista de 2007, George Michael admitiu que se autossabotava, declarando que passou os "últimos 15 ou 20 anos tentando destruir [sua] própria carreira porque ela nunca parecia fracassar". A primeira de uma longa lista de polêmicas do artista veio com seu primeiro disco solo, o aclamado Faith (1987), que vendeu 25 milhões de cópias em todo o mundo — 10 milhões das quais apenas nos Estados Unidos — e recebeu o Grammy de melhor álbum do ano. O disco trazia uma canção bastante provocativa e explícita para os padrões da época, intitulada "I Want Your Sex" (algo como "quero seu sexo" em tradução livre), e o cantor foi acusado de promover um estilo de vida sexual pouco saudável numa sociedade que ainda encontrava-se horrorizada pela então recém-descoberta do HIV. O cantor gravou um videoclipe ultra sensual para a canção com sua então namorada, a modelo Kathy Jeung, como forma de provar que defendia a monogamia. Inclusive ele aparece escrevendo essa palavra nas costas da modelo com um batom.

A imagem sexual de George Michael também teria sido explorada em seu disco seguinte, Listen Without Prejudice Vol. 1, lançado em 1990 sem que seu segundo volume jamais visse a luz do dia. No entanto, o cantor se recusou a promover-se como sex symbol e, como forma de punição, a Sony teria se recusado a promover o disco no Reino Unido. Pelo menos é o que o cantor alega no processo que moveu contra a gravadora tentando desvincilhar-se da mesma. Em 1995 a Suprema Corte de Justiça da Inglaterra decidiu sobre o caso, dando ganho de causa à Sony e obrigando o cantor a permanecer naquela gravadora. No ano seguinte, no entanto, o contrato de George Michael foi vendido para a Virgin Records e ele pôde finalmente lançar seu primeiro álbum de estúdio em quase seis anos. Como resultado dessa disputa legal, George se recusou a participar das gravações do videoclipe de um de seus maiores hits, "Freedom! '90", que foi dirigido pelo — hoje — famoso cineasta David Fincher e estrelado por supermodelos da época como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Christy Turlington e Cindy Crawford.

A grande polêmica da vida de George Michael veio, no entanto, em abril de 1998, quando estava reconquistando o sucesso após os anos de hiato forçado. A Polícia de Los Angeles, de maneira arbitrária, expôs ao mundo a homossexualidade do cantor. Um policial disfarçado, Marcelo Rodríguez, seduziu-o no banheiro de um parque público e, pouco antes de engajarem na prática do ato sexual, prendeu-o por "conduta imprópria". Forçado a sair do armário, o cantor assumiu seu então namorado Kenny Goss, com quem estava se relacionando desde junho de 1996. Assumiu também que a canção "Jesus to a Child" é um tributo a Anselmo Feleppa, estilista brasileiro que conheceu durante o Rock in Rio e que se tornou seu parceiro em 1993. Seis meses depois do início do relacionamento, Feleppa descobriu-se soropositivo e morreu de hemorragia cerebral. Os relacionamentos do cantor com homens não eram segredo na indústria musical. Aos 19 anos, saiu do armário como bissexual para Ridgeley e outros amigos próximos. Quando o Wham! acabou, no entanto, entrou em depressão ao perceber que era homo e não bissexual. No entanto, permaneceu no armário para não trazer desgosto à mãe, falecida dois anos antes do escândalo emergir.

A vida de George Michael era um prato cheio para que os
tabloides reforçassem estereótipos negativos dos gays.
George Michael marcou profundamente a história da música pop. Gravou com Aretha Franklin e com Whitney Houston, provando possuir uma voz à altura de ambas e tornando-se extremamente popular nas rádios voltadas ao público afro-americano. Além disso, marcou também a história da comunidade LGBT, para o bem e para o mal. Após ser preso uma segunda vez por fazer sexo num banheiro público, desta vez na Inglaterra, revelou que a relação dele com Goss não era baseada na monogamia — negando de uma vez por todas a máscara que a Sony obrigou-lhe a vestir para promover "I Want Your Sex". A declaração chocou os homossexuais mais conservadores, que não buscam romper com a lógica patriarcal e sim serem aceitos por ela, assim como as diversas prisões do cantor por posse de maconha. Diversas vezes, queremos que nossos ídolos LGBT sejam aceitos pela sociedade, mas os comportamentos de George Michael, completamente fora do padrão social, nos faziam pensar se ele não reforçava os estereótipos negativos existentes em relação aos homossexuais. Por vezes me peguei questionando se o cantor não prejudicava a imagem que as pessoas têm dos gays.

Independente de ter vivido uma vida que não servia de exemplo para os jovens gays — e o próprio cantor reconhecia isso, como num esquete que fez para o Comic Relief —, George Michael era um ídolo para todos nós. Porque todos nós passamos pela angústia de viver no armário e pelo medo de ser arrancado de lá à força quando não estamos preparados para isso. Na geração anterior à minha, todo mundo conhece alguém que morreu de AIDS. "Eu sofri coisas terríveis, perdas e humilhações públicas", declarou uma vez o cantor. "Mas apesar disso, minha carreira coloca-se no lugar como um pato de plástico numa banheira". Isso ocorre porque o público reconhecia no cantor a fragilidade humana de quem passou muito mais do que a metade de sua vida adulta dentro do armário. Após uma vida inteira portando rótulos que não lhe pertenciam, tais como "monogâmico", "heterossexual", "bissexual", "thatcherista"(*), George Michael finalmente pôde se livrar de todos eles. A liberdade que ele escolheu como título não de uma, mas de duas de suas canções mais famosas, agora lhe pertencerá para sempre. Descanse em paz, George Michael. Agora ninguém mais poderá te atacar, expor e ridicularizar para vender mais exemplares de tabloides.


(*) Havia uma época em que todas as pessoas bronzeadas eram acusadas de fazerem parte da alta sociedade britânica e o cantor, cujo pai era cipriota, tinha um tom de pele levemente mais escuro do que o "normal".

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Quem quer saber tudo?

Acabei de assistir ao terceiro episódio da primeira temporada do seriado antológico futurista Black Mirror e, como sempre, sinto um gosto amargo na boca, como se tivesse levado um murro na cara. Na história todas as pessoas — ou pelo menos a maioria delas — possuem um dispositivo inserido atrás da orelha que grava suas memórias, que, depois, podem ser reproduzidas, via bluetooth, em aparelhos televisores. A tecnologia, chamada de "memória granular", permite rever tudo aquilo que vivemos, seja para aperfeiçoar-se ou obcecar-se por fatos que já ocorreram. Assim faz Liam, recém-chegado de uma mal-sucedida entrevista de emprego em outra cidade e que começa a ficar obcecado por uma cena que viu numa festa: a esposa Ffion num canto, conversando com outro homem.

Pressionada, a esposa confessa que o homem em questão, Jonas, é um ex-namorado dela. As horas vão passando e Liam fica cada vez mais obcecado. Confrontada com a memória do marido, para quem ela havia dito que o relacionamento em questão durou apenas poucas semanas, ela termina confessando que ele na verdade durou 6 meses. A obsessão crescente de Liam o faz procurar o ex-namorado da esposa para obrigar-lhe a apagar todas memórias que ele tinha de Ffion. É nesse momento que ele descobre, acidentalmente, que Jonas manteve um caso com Ffion recentemente. Ele confronta a esposa que, arrependida, confessa-lhe o adultério. Por insistência do marido, ela mostra-lhe as cenas da traição gravadas em sua memória granular. Isso acaba com o casamento deles.

Foi nesse momento que o seriado britânico tronou-se dolorosamente pessoal para mim. Meu casamento terminou porque eu descobri, através do celular do meu companheiro, que ele estava tendo um caso. No momento em que tentei invadir a privacidade dele, senti-me estúpido. Deixei para lá e dei-lhe minha confiança. Entretanto, quando fui pesquisar algo no Google, vi o nome de uma pessoa que eu não fazia a mínima ideia de que era — o amante dele — entre os itens pesquisados recentemente. Quando finalmente consegui invadir o celular dele, encontrei uma extensa conversa dele com a tal pessoa no WhatsApp, não só planejando a traição como convidando o cara para ir no aniversário de uma prima dele. Revisitei aquele dia na minha memória e percebi que ele me chamou para ir nessa festa após o rapaz negar o convite dele.

O que se seguiu nos próximos meses foi parecido com o que Liam viveu no episódio, embora de maneira menos dolorida. Revisitei minhas memórias — felizmente na minha cabeça mesmo, e não numa televisão — para ficar tentando descobrir o que deu errado. Em que momento o relacionamento desandou, quando ele deixou de me amar, eu poderia ter feito alguma coisa para evitar que ele me traísse... Eram perguntas que eu tentava desesperadamente responder, com a ajuda da minha memória. Torturava-me ao ponto de dizer para as pessoas que seria bom se eu pudesse fazer como o personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e apagar todas as minhas memórias com aquela pessoa. Com o tempo, aprendi que relacionamentos se desgastam pelos mais variados motivos e que cada um reage de uma forma a isso.

Liam retirando a memória granular de si mesmo.
O fato é que, queiramos ou não, nossas memórias estão gravadas por todos os lugares e isso tem dificultado não só os relacionamentos como o término dos mesmos. Hoje podemos vasculhar a vida de nossos parceiros no Facebook, no Instagram, no Twitter e no WhatsApp e isso nos tornou desconfiados por natureza. Por outro lado, a facilidade com que podemos encontrar — e descartar — pessoas novas na era digital transformou-nos todos em traidores em potencial. Mas a culpa disso, para o bem ou para o mal, não é da tecnologia. Trai quem quer. A tecnologia é neutra. Por mais escravos que possamos ser das novas tecnologias, ainda possuímos livre-arbítrio. O coração não é um aplicativo. E a escolha de entregá-lo para uma só pessoa ainda é única e exclusivamente de cada um de nós.

No final do episódio, Liam decide arrancar o dispositivo da orelha para não mais lembrar-se da ex-esposa. É uma decisão corajosa. Ao mesmo tempo em que não vai mais sofrer ao lembrar de cada instante que passou com uma pessoa a quem amou muito e que lhe decepcionou, cria a possibilidade de fazer tudo diferente da próxima vez. Quero o mesmo para mim. Não quero mais ficar suspeitando de cada passo da pessoa a quem eu escolhi dar meu coração. Quero confiar nela. Não quero dar a mínima para o que ela esteja escrevendo nas mensagens privadas do Facebook, do Instagram e do Twitter. Não quero saber das mensagens que ela troca no WhatsApp ou do que ela pesquisa no Google. Quero confiar nas pessoa, tendo motivos para tal. Quem quer saber de tudo pode não estar pronto para tamanha responsabilidade.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Facebook, o Grande Irmão

Em 1984, sua obra-prima, o escritor britânico George Orwell prevê uma realidade distópica para o futuro da humanidade. O mundo se encontra dividido em três blocos supranacionais governados por líderes autoritários e que vivem em guerra entre si. O pensamento é desencorajado, pois pode levar ao dissenso, e os indivíduos são constantemente vigiados através de telões (que o autor chama de tele-telas) instalados em todas as residências, lojas e fábricas, possuindo o mínimo possível de privacidade. Na Oceania, onde mora o protagonista Winston Smith e onde a história se desenrola, o Grande Irmão (Big Brother, em inglês) é o responsável pela vigilância, estando sua imagem presente em todas as tele-telas acompanhada do anúncio "Big Brother is watching you" ("O Grande Irmão está te observando"). Muito já foi debatido se o Big Brother, que é o líder da Oceania, existia de verdade ou se ele era apenas um mecanismo de intimidação da burocracia estatal.
Tele-tela conforme imaginada no filme de Michael Radford.
Quando a televisão se popularizou no Ocidente em meados da década de 1950, críticos sociais começaram a se indagar se as tele-telas orwellianas não teriam finalmente se tornado realidade. No entanto, os aparelhos de televisão da época apenas recebiam os sinais enviados pelas antenas de tevê. Não eram capazes de captar imagens e, muito menos, enviá-las para alguma empresa ou órgão de controle estatal. Hoje em dia, no entanto, as tele-telas já existem. São os computadores e os aparelhos celulares e televisores "inteligentes" (os smartphones e as smart TVs), onde se acumula um número cada vez maior de informação sobre seus usuários. Quantas vezes não vamos preencher um formulário on-line e nossas informações já estão gravadas no navegador? Da nossa data de nascimento ao número de nosso cartão de crédito, nossos celulares sabem tudo sobre nós. E, o que é mais chocante de tudo, são empresas privadas (e não o Estado) que estão gerenciando essas informações!

Se por um lado Orwell acertou ao imaginar um futuro onde o pensamento e a privacidade são mínimos, ele errou ao imaginar que seriam os governos os principais promotores dessa nova realidade. Uma empresa em particular se destaca pelo número absurdamente exagerado de informações que guarda sobre seus usuários: o Facebook. Ao aceitarmos os termos de uso daquela rede social estamos, consciente ou inconscientemente, abdicando de nossa privacidade e de nosso interesse em buscar um diálogo mais calcado na racionalidade do que na passionalidade. Os erros de Orwell foram os acertos de Aldous Huxley, outro escritor britânico do século passado que também previu um futuro distópico da humanidade em seu Admirável Mundo Novo. Confesso que não sou familiarizado com a obra de Huxley, mas o crítico social Neil Postman escreveu o seguinte sobre as diferenças entre 1984 e Admirável Mundo Novo:

"O que Orwell temia era aqueles que queimariam livros. O que Huxley temia era que não haveria razão para queimar livros, uma vez que ninguém mais teria interesse em lê-los. Orwell temia os que nos privariam de informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que nos tornaríamos apáticos e egotistas. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade se tornaria irrelevante. Orwell temia que nossa cultura seria aprisionada. Huxley temia que nossa cultura seria banalizada (...) Em resumo, Orwell temia que o medo nos arruinaria. Huxley temia que nosso desejo nos arruinaria". In: POSTMAN, Neil. Amusing Ouselves to Death. Nova York: Viking, 1985.

O Big Brother não é um ditador autoritário que nos oprime. Não é Edgar Hoover que usa todos os meios possíveis para eliminar o pensamento anti-establishment da sociedade. Não é tampouco a NSA, que viola a privacidade tanto do jovem jovem muçulmano do subúrbio de Detroit quanto da presidenta do Brasil. Afinal de contas, a NSA só consegue informações sobre cidadãos, comuns ou não, porque empresas privadas como o Facebook estão dispostas a repassá-las ao órgão de espionagem do governo estadunidense. O Big Brother é um logotipo azul e branco que nos indaga: "No que você está pensando?", como se guardar os pensamentos para si mesmo fosse algo ruim. O Big Brother é uma empresa que sabe quando nascemos, para onde viajamos nas férias, qual nossa preferência político-partidária e quando estamos de bom e mau humor. E ela nos incentiva a sermos todos Grandes Irmãos. Afinal de contas, nossos amigos e seguidores estão acompanhando todo e qualquer movimento nosso, assim como estamos acompanhando os passos deles.

O mais interessante disso tudo é que não percebemos a invasão de nossa privacidade como uma opressão. Segundo Noel Sharkey, professor de inteligência artificial da Universidade de Sheffield, as novas gerações estão dispostas a conceder sua privacidade para uma empresa privada porque não estão familiarizadas com a obra de Orwell. Elas não imaginam que o extermínio da privacidade possa ser algo ruim até que se vêem como vítimas dele - caso, por exemplo, de pessoas comuns que têm suas vidas arruinadas pela divulgação de fotos íntimas. No momento em que postamos algo na rede, mesmo que em mensagem privada (uma foto nua para o namorado, por exemplo), perdemos o controle sobre aquilo. E, ao contrário do que se pensa, mesmo após deletada aquela informação está guardada para sempre. Sua foto nua está salva no servidor do Facebook em algum canto do mundo. Como diz uma piada que vi recentemente: "se a NSA está guardando todas nossas informações da internet, então ela possui a maior coleção de pornografia da história".

Como disse Postman, o desejo nos arruína. Pelo desejo de ser popular e encontrar pessoas com quem possamos compartilhar nossas ideias, entramos num mundo sem privacidade. Esse desejo é maior do que o de resguardar nossa imagem pessoal. No Facebook, temos tanta informação que não sabemos lidar com elas. Afinal, qual tragédia é mais importante, a de Mariana ou a de Paris? Nos tornamos apáticos à morte de outros seres humanos por causa do grupo ideológico ao qual pertencemos. E não adianta apontar para o indivíduo que ele está sendo egotista, ou seja, que está olhando apenas para seu próprio universo, pois no Facebook não somos encorajados a embasar nossas opiniões e argumentos em leituras ou análises críticas da realidade. Para fazer isso, é preciso sair do espaço virtual, o que aquela rede social não deseja que façamos. No Facebook temos a falsa sensação de que estamos obtendo todas as informações necessárias e perdemos a ânsia pelo verdadeiro conhecimento.

O conhecimento surge, muitas vezes, do embate de ideias. O professor apresenta ao aluno os diferentes modelos de organização social existentes, cada um com seus prós e contras, e este último decide escolher um com o qual se identifica. Os pais apresentam ao filho as diferentes religiões existentes e este decide escolher uma com a qual se identifica. Mas o Facebook é a terra da interdição da coexistência pacífica entre as ideias diferentes. O que importa é vencer a discussão com aquele religioso alienado que mora a 1.000 quilômetros de distância de mim ou com aquele tucano alienado que mora a 2.500 quilômetros de distância e que jamais vou conhecer pessoalmente. Os algoritmos da rede social faz com que tenhamos acesso apenas às pessoas e páginas que pensam de maneira semelhante à nossa. De repente o mundo, composto por várias verdades na sua dimensão real, passa a ser composto por apenas uma verdade na sua dimensão virtual.

A verdade se tornou irrelevante. Assim como Winston Smith, somos desencorajados a pensar, pois pensar pode nos tornar párias sociais. Recentemente, Ciro Gomes e Roberto Requião, que fazem críticas acertadíssimas à política econômica da presidenta Dilma Rousseff, passaram a ser atacados pelos defensores da verdade petista, pois podem levar ao dissenso entre os membros daquele grupo que se acredita coeso. Foram logo atacados e desmerecidos no plano pessoal, pois, como disse anteriormente, o Facebook é o reino do passional e não do racional. Quem decidir apoiar o senador ou o ex-ministro vai virar pária para os petistas. O fato é que, com as redes sociais, voltamos à sociedade tribal. As contendas são vencidas através da violência virtual, através da união dos membros dos grupos virtuais para derrubar páginas, promover hashtags e xingamentos orquestrados e denunciar passionalmente os partidários da ideologia contrária. Às vezes a violência virtual escorre para o mundo real, como ocorreu em Brasília durante a marcha das mulheres negras.

Facebook is watching you.
Orwell imaginou um futuro caótico onde três Estados nacionais fortes suprimiriam o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. Imagino um futuro caótico onde empresas multinacionais fortes suprimirão o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. E, o que é pior de tudo, essa dominação não é vista como tal pelas pessoas comuns. O Facebook soube trabalhar muito bem com o desejo do ser humano de se sentir aceito e de viver em comunidade para solapar-nos de nossas privacidades. Em troca de pertencermos a tribos virtuais, oferecemos nossas informações mais íntimas, que são registradas e acessadas a qualquer minuto pela rede social, que vende-as para empresas de comércio virtual e repassa-as para órgãos de espionagem. O futuro é sombrio.Viveremos numa sociedade tribal, inepta à resolução de conflitos através do diálogo, criada por empresas que sabem tudo sobre nós. Eis o admirável mundo novo: Facebook is watching you.