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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Obama (4/11/2007—3/12/2017)

É difícil escrever sobre alguém que você perdeu. Não quero que meu luto vire motivo para "curtidas" numa rede social. Mas também não quero que essa morte passe em branco. Eu vi uma alma sair de um corpo e isso me marcou muito. Vi como a vida é breve e frágil e as coisas mesquinhas deste mundo — e de mim — deixaram de fazer sentido. Num momento a vida está lá e, no outro, não está mais. É algo muito precioso para gastarmos-na com coisas banais. E também para passar em branco.

Tudo começou em agosto, quando ele passou mal e teve de ser internado por uma semana. Vivi dias de angústia e esperança durante todo o momento em que ele esteve no hospital. Mas foi quando descobri quem são meus amigos de verdade. Quando ele voltou para casa, já não era mais o mesmo. Parece que parte de sua alegria havia ficado no hospital. Queriam operá-lo assim que foi diagnosticado com doença do pericárdio. Não deixei. Estava velho demais e não queria que ele morresse numa maca.

Apesar da dor que sentiu nos momentos finais, ele não gemia ou chorava. Sempre foi forte, ao mesmo tempo em que era meigo e doce. Nunca foi de reclamar. Há um mês, fez dez anos. Uma década juntos é tempo pra caramba. E, várias vezes, eu não soube aproveitar esse breve tempo que tivemos para ficarmos juntos. Tomei-o por garantido. Achei que ele sempre estaria me esperando quando eu chegasse em casa. Fui um tolo e eu espero que ele me perdoe por isso, onde quer que ele esteja agora.

Quando alguém morre, é da natureza humana ficar pensando "e se...?". Penso direto nisso. E se eu tivesse aceitado o risco de operá-lo e ele vivesse mais alguns anos? E se eu tivesse levado-o ao hospital antes? Até porque comecei a perceber que ele estava agindo de maneira estranha uma semana antes dele falecer. Encontrei-me, então, numa encruzilhada: levava-o ao hospital para dar-lhe uma sobrevida horrível ou deixava-o descansar em paz? Escolhi a última opção e ainda me questiono se agi certo.

Obama (*4 de novembro de 2007 ✝3 de dezembro de 2017).
A minha escolha de Sofia não foi nada fácil, principalmente quando ele me olhava com um olhar que mesclava um pedido de socorro com uma despedida. Eu não suportava aquele olhar. Como as coisas teriam sido bem mais fáceis se ele pudesse falar e dizer para mim o que ele queria que eu fizesse, como esperava que eu agisse em relação a ele. Mas decidi que se ele piorasse ao ponto de não conseguir mais andar, como aconteceu em agosto, levaria-o ao hospital.

Não poderia ter escolhido parâmetro pior, pois ele andou até o fim. Quando caiu no chão foi para perder a consciência e morrer. A médica nos explicou que, como o coração dele estava expandido e pressionando os demais órgãos da caixa torácica, deitar traria-lhe muita dor. Mas ele nunca reclamou de dor alguma! Só decidi levá-lo ao hospital porque ele começou a salivar muito, estava febril e parou de comer.

Não sei se o estresse de tirá-lo daqui de casa foi demais para seu coração ou se ele realmente não aguentaria muito mais tempo, mas só sei que ele morreu assim que chegou no hospital. Uma das últimas memórias que tenho dele foi de quando abri o porta-malas e ele fez um esforço enorme para entrar lá dentro, como se soubesse que a ajuda que tanto havia nos pedido com seu olhar nos dias anteriores finalmente viria. Isso cortou meu coração e não parei de pensar que fiz a escolha errada.

Mas a ajuda estaria vindo e ele ficaria bem. Pelo menos era o que eu achava. Eu não acreditei, até o último segundo de sua vida, que ele iria me deixar para sempre. Meu cachorro se foi e levou uma parte de mim com ele. Meu peito está oco. Não deixa de ser engraçado que quem tinha sido nomeado em homenagem ao cara que supostamente traria a esperança de volta para os Estados Unidos foi-se justamente agora, em tempos tão desesperançosos.

Me desculpa, Obama, por não ter sido tão presente em sua breve vida como eu gostaria de ter sido. Enfrentei muitos demônios pessoais nessa última década — faculdade, primeiras viagens pro exterior, morte do meu avô, saída do armário, casamento, depressão, outra faculdade, um golpe de Estado que acabou com meu psicológico, outro namoro, uma oportunidade de emprego frustrada em Brasília, separação dos meus pais, distensão no pé, mini-amores e amizades frustradas, etc. 

Mas não deixe de pensar, por um segundo, que eu não te amei. Você esteve lá durante tudo isso e muito mais. Muitas vezes eu achava que o que eu estava vivendo era demais para mim e você me dava motivos para viver. Agora você morreu e eu morri um pouco com você. Não consigo pensar que você não estará mais aqui conforme vivo novas experiências. É estranho e assustador pensar nisso. Mas pelo menos você estava aqui quando essa experiência linda e nova que estou vivendo no momento começou.

Obrigado, Obama. Por vezes, questionei o nome que eu havia te dado, mas a verdade é que eu não poderia ter escolhido um nome melhor para você, pois em 2007 eu achava que o Obama era uma esperança e você de fato me dava esperança para viver. Sempre que eu estava triste, eu te procurava e o seu carinho me dava forças o suficiente para querer seguir em frente. Você me amava sem exigir nada em troca e isso é simplesmente lindo. Você foi mais do que um cachorro, você foi um amigo e eu sempre irei te amar.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ano em que me tornei forte

Meu lado forte que 2016 revelou.
Há alguns meses, publiquei um texto atribuindo à deusa grega do amor, Afrodite, a regência desta nova fase de minha vida. Agora, no entanto, percebo que esta mudança não ocorreu por obra de um agente externo. Trata-se do meu lado feminino (daí a confusão com Afrodite) tomando as rédeas de minha vida. Meu lado masculino sempre foi uma bagunça. Inseguro, frágil e confuso, nunca soube como ir atrás daquilo que eu desejo e percebo como sendo o melhor para mim. Meu lado feminino, por outro lado, é sagaz, calculista e empoderou-me para a luta. Foi só quando deixei de lutar contra ele que percebi as maravilhas que ele pode fazer por mim.

Com o perdão da palavra, 2016 foi um ano de merda. Parece que o caos sociopolítico do Brasil passou a se refletir sobre minha vida também. Diversas vezes, minha saúde física e mental encontrou-se fragilizada nesse ano. Mas eu me levantei todas as vezes que caí. Eu vim, eu vi, eu venci. Não me entrego mais ao caos. O caos pode sim ser construtivo e ter seus momentos de beleza, mas nunca mais vou parar minha vida para contemplá-lo. Demorou, mas finalmente compreendi que a função da desordem é fazer com que possamos tirar um aprendizado dela. A vida nos derruba para que possamos aprender a nos levantar, quantas vezes preciso for, e seguir em frente.

Ver os atletas e não poder sequer me levantar da cama sem
 que meu pé doesse atormentava terrivelmente minha alma.
De tanto cair em 2016, mesmo que metaforicamente, acabei machucando justamente o tendão de Aquiles — olha a mitologia grega aparecendo aqui de novo —, que é o responsável pelo ato de levantar-se. E do lado esquerdo, o lado do subconsciente. Este talvez tenha sido o maior baque que levei neste ano. Fui obrigado a parar de me exercitar justamente quando a maior festa do esporte mundial, as Olimpíadas, estava em nosso país. Num primeiro momento, agi sob a influência do meu lado marciano e entreguei-me à enfermidade, esperando que a inflamação curasse sozinha. Em seguida, meu lado feminino, venusiano, tomou conta de mim e colocou-me em ação para recuperar minha mobilidade.

A Vênus que habita dentro de mim também ensinou-me a lidar melhor com outras doenças: as da alma. Não quero mais agradar a todos e perdi a vergonha de me expressar em público, porque percebi que não tenho nada a perder, a não ser o medo de ser julgado. Aprendi que a língua do brasileiro não é o português, mas sim o cinismo. E que ele teria me levado longe se eu tivesse lançado mão dele, mas eu teria perdido uma parte importante de mim que é a honestidade. Aprendi também que "gostei de você" e "vamos nos ver" são só palavras, utilizadas por pessoas emocionalmente confusas, e o significado cruel da expressão ghosting e como reagir a ele. Aprendi até mesmo a gostar de Goiânia, uma vez que percebi que o que importa numa cidade não é sua infraestrutura ou seus costumes, mas sim como construímos nossas relações afetivas dentro dela.

Começar um diário ajudou-me a reconhecer minhas forças
 e fraquezas. Enquanto eu não fugir delas, tudo vai ficar bem.
Agora sei que não há nada de errado em ser só e até gosto da minha companhia. Tomei o controle da minha sexualidade e consigo usar os homens para me satisfazer assim como fui usado por eles por tanto tempo. Deixei o lado passivo, marciano, de lado. Não é irônico que, pelo menos no meu caso, a passividade seja decorrente justamente de um desequilíbrio espiritual a favor do lado masculino? Se bem que ser um homem no patriarcado, mesmo que seja gay, significa que você não precisará lutar tanto quanto uma mulher para conseguir conquistar as coisas. Daí a proatividade advir do lado feminino em nosso mundo que, infelizmente, não é venusiano.

2016 foi um ano de merda. Mas estou mais forte do que estava em 2015. Estou mais forte do que eu imaginava que pudesse ser. Agora sei como me levantar dos inevitáveis baques da vida. Havia um desequilíbrio na minha vida no ano passado e agora sei que é porque eu tentava reprimir o meu lado feminino, que era justamente o meu lado forte. Não só aprendi a reconhecê-lo como também a respeitá-lo. Agora que há um equilíbrio, estou bem. O amanhã sempre vai ser melhor, pois sei que se eu cair saberei me levantar. 2016 foi um ano ruim, mas eu viveria-o de novo se fosse preciso, porque 2016 foi o ano em que me tornei forte. Essa força pode até ter sido estimulada a se revelar através de fatores externos, como meu diário, minha terapia ou minhas crenças sobrenaturais, mas ela vem de dentro e é feminina. Enquanto eu não fugir dela, tudo vai ficar bem.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Quem quer saber tudo?

Acabei de assistir ao terceiro episódio da primeira temporada do seriado antológico futurista Black Mirror e, como sempre, sinto um gosto amargo na boca, como se tivesse levado um murro na cara. Na história todas as pessoas — ou pelo menos a maioria delas — possuem um dispositivo inserido atrás da orelha que grava suas memórias, que, depois, podem ser reproduzidas, via bluetooth, em aparelhos televisores. A tecnologia, chamada de "memória granular", permite rever tudo aquilo que vivemos, seja para aperfeiçoar-se ou obcecar-se por fatos que já ocorreram. Assim faz Liam, recém-chegado de uma mal-sucedida entrevista de emprego em outra cidade e que começa a ficar obcecado por uma cena que viu numa festa: a esposa Ffion num canto, conversando com outro homem.

Pressionada, a esposa confessa que o homem em questão, Jonas, é um ex-namorado dela. As horas vão passando e Liam fica cada vez mais obcecado. Confrontada com a memória do marido, para quem ela havia dito que o relacionamento em questão durou apenas poucas semanas, ela termina confessando que ele na verdade durou 6 meses. A obsessão crescente de Liam o faz procurar o ex-namorado da esposa para obrigar-lhe a apagar todas memórias que ele tinha de Ffion. É nesse momento que ele descobre, acidentalmente, que Jonas manteve um caso com Ffion recentemente. Ele confronta a esposa que, arrependida, confessa-lhe o adultério. Por insistência do marido, ela mostra-lhe as cenas da traição gravadas em sua memória granular. Isso acaba com o casamento deles.

Foi nesse momento que o seriado britânico tronou-se dolorosamente pessoal para mim. Meu casamento terminou porque eu descobri, através do celular do meu companheiro, que ele estava tendo um caso. No momento em que tentei invadir a privacidade dele, senti-me estúpido. Deixei para lá e dei-lhe minha confiança. Entretanto, quando fui pesquisar algo no Google, vi o nome de uma pessoa que eu não fazia a mínima ideia de que era — o amante dele — entre os itens pesquisados recentemente. Quando finalmente consegui invadir o celular dele, encontrei uma extensa conversa dele com a tal pessoa no WhatsApp, não só planejando a traição como convidando o cara para ir no aniversário de uma prima dele. Revisitei aquele dia na minha memória e percebi que ele me chamou para ir nessa festa após o rapaz negar o convite dele.

O que se seguiu nos próximos meses foi parecido com o que Liam viveu no episódio, embora de maneira menos dolorida. Revisitei minhas memórias — felizmente na minha cabeça mesmo, e não numa televisão — para ficar tentando descobrir o que deu errado. Em que momento o relacionamento desandou, quando ele deixou de me amar, eu poderia ter feito alguma coisa para evitar que ele me traísse... Eram perguntas que eu tentava desesperadamente responder, com a ajuda da minha memória. Torturava-me ao ponto de dizer para as pessoas que seria bom se eu pudesse fazer como o personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e apagar todas as minhas memórias com aquela pessoa. Com o tempo, aprendi que relacionamentos se desgastam pelos mais variados motivos e que cada um reage de uma forma a isso.

Liam retirando a memória granular de si mesmo.
O fato é que, queiramos ou não, nossas memórias estão gravadas por todos os lugares e isso tem dificultado não só os relacionamentos como o término dos mesmos. Hoje podemos vasculhar a vida de nossos parceiros no Facebook, no Instagram, no Twitter e no WhatsApp e isso nos tornou desconfiados por natureza. Por outro lado, a facilidade com que podemos encontrar — e descartar — pessoas novas na era digital transformou-nos todos em traidores em potencial. Mas a culpa disso, para o bem ou para o mal, não é da tecnologia. Trai quem quer. A tecnologia é neutra. Por mais escravos que possamos ser das novas tecnologias, ainda possuímos livre-arbítrio. O coração não é um aplicativo. E a escolha de entregá-lo para uma só pessoa ainda é única e exclusivamente de cada um de nós.

No final do episódio, Liam decide arrancar o dispositivo da orelha para não mais lembrar-se da ex-esposa. É uma decisão corajosa. Ao mesmo tempo em que não vai mais sofrer ao lembrar de cada instante que passou com uma pessoa a quem amou muito e que lhe decepcionou, cria a possibilidade de fazer tudo diferente da próxima vez. Quero o mesmo para mim. Não quero mais ficar suspeitando de cada passo da pessoa a quem eu escolhi dar meu coração. Quero confiar nela. Não quero dar a mínima para o que ela esteja escrevendo nas mensagens privadas do Facebook, do Instagram e do Twitter. Não quero saber das mensagens que ela troca no WhatsApp ou do que ela pesquisa no Google. Quero confiar nas pessoa, tendo motivos para tal. Quem quer saber de tudo pode não estar pronto para tamanha responsabilidade.

sábado, 30 de abril de 2016

O último dia do trabalhador


Programação do ato em comemoração ao dia
do trabalhador de 2016 em Goiânia.
Hoje começam as comemorações unificadas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) pelo dia do trabalhador. Durante todo o dia 30 de abril e 1° de maio ocorrerão atividades na Praça do Trabalhador, em Goiânia, em homenagem àqueles que a Constituição Federal de 1988 reconhece como a parcela mais frágil da sociedade brasileira. Foi neste texto constitucional que os trabalhadores brasileiros ganharam direitos até então inéditos como a jornada de trabalho de oito horas diárias, o décimo-terceiro salário, o aviso prévio, a licença-maternidade e paternidade e a mobilização grevista. Para os que ingressaram no mercado de trabalho após a vigência da Constituição de 1988 parece que esses direitos sempre existiram e que jamais poderão ser retirados deles. 

Atualmente, no entanto, vimos uma enorme pressão do setor empresarial — sob a batuta da FIESP — para derrubar o governo constitucional do Brasil e, com ele, diversas medidas de proteção ao trabalhador. Na sexta-feira, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Ives Gandra Filho, anunciou que se não houver realocação de verbas para o órgão até agosto, ele deve parar por completo. Se tudo der certo para os golpistas, em agosto Michel Temer já será o presidente do Brasil, escolhido não pelo povo, mas pelos representantes dos empresários no Congresso Nacional que terão derrubado Dilma Rousseff. Entre as medidas defendidas pelo futuro presidente que impactarão diretamente na qualidade de vida dos trabalhadores estão o fim do reajuste automático do salário mínimo com base na taxa de inflação e a prevalência de acordos coletivos sobre a legislação trabalhista.

Temer deve aproveitar que seu correligionário Eduardo Cunha atualmente possui controle sobre cerca de 2/3 dos deputados federais e apresentar seu "pacote de maldades" ao Congresso já nas primeiras semanas após o afastamento de Dilma. Assusta saber que, com esse número de deputados, a dupla Temer—Cunha consegue até mesmo modificar a Constituição, retirando dos trabalhadores direitos consolidados há quase trinta anos. Os brasileiros não devem aceitar o retrocesso calado. Segundo Eduardo Fagnani, que define a conspiração política atual como "impeachment do processo civilizatório", o mais provável é "o acirramento da luta de classes que está nas ruas", sendo que Temer só poderá conseguir governabilidade se "depender de um Estado policial ainda mais severo que o utilizado em 1964". Justo quando a questão trabalhista era uma questão de polícia.

Monumento ao Trabalhador nos anos 60.
Foi também durante a ditadura anti-proletária inaugurada em 1964 que o Monumento ao Trabalhador, de autoria do artista plástico Clóvis Graciano, foi destruído. Construído e inaugurado em 1959 após demanda de sindicalistas ao governador José Feliciano e ao prefeito Jaime Câmara, o monumento tornou-se tão importante para a caracterização de Goiânia que levou à alteração do nome da praça que o acolheu de Praça Americano do Brasil para Praça do Trabalhador. Palco das comemorações de 1° de maio e de assembleias grevistas, logo se tornou um alvo visado pela direita. Numa madrugada de abril de 1969, membros do grupo terrorista Comando de Caça aos Comunistas (CCC) derramaram piche quente sobre os painéis do monumento. O então prefeito Iris Rezende, que seria ele próprio cassado pela ditadura, não toma providências para limpar e recuperar o monumento.

A perseguição aos trabalhadores brasileiros tem tudo para voltar. Dia 1° deve ser o último dia do trabalhador sob as luzes libertárias da democracia. É meu dever participar das comemorações cívicas em homenagem a essa figura tão perseguida e execrada que é o trabalhador brasileiro. Não sou trabalhador. Pelo contrário, sou um pequeno burguês. Entretanto, venho de uma família de quem trabalhou muito e se hoje posso me dar ao luxo de não exercer nenhuma profissão formal é porque meu pai e meu avô trabalharam muito. Nos últimos anos com o amparo do Estado, mas a maioria das vezes a despeito dele. Tendo consciência de onde vim, de qual classe social me pariu, não posso me omitir diante do estupro da democracia que certamente levará ao estupro de direitos sociais e trabalhistas. Os bons tempos voltaram e eles serão de chumbo, em especial para os trabalhadores.

Monumento aos trabalhadores que morreram
lutando pela jornada de oito horas. Até isso
Temer poderá revogar se quiser.
Não posso coadunar com quem deseja que os trabalhadores brasileiros sejam condenados a um salário de miséria e à carestia. Já escolhi meu lado nessa batalha e ele não visa o que é melhor apenas para mim. Desejo o mesmo luxo que eu desfruto — que não é enorme — para todos. Quero que o povo brasileiro seja feliz. E a felicidade, que pode até não estar no PT, com certeza não está no plano de governo de Michel Temer. Por isso, participo desse último suspiro de luta antes da materialização do "golpe frio". No assalto ao poder de Temer—Cunha até mesmo a jornada diária de oito horas de trabalho está comprometida. E foi justamente a demanda pela jornada de oito horas que levou ao massacre dos trabalhadores pela polícia de Chicago em 1° de maio de 1886, origem das comemorações do dia do trabalhador. Como disse Fagnani, o que está sendo cassado não é apenas o mandato de Dilma, é o próprio processo civilizatório. E não sou capaz de aplaudir isso.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O que quero dizer com 'Eu tenho ansiedade'

Há alguns dias, me deparei com o texto abaixo no Huffington Post. Por acreditar que ele traduz perfeitamente as turbulências pelas quais estou passando no momento atual da minha vida, decidi traduzi-lo e compartilhá-lo aqui com vocês. Não se trata de uma tentativa de gerar piedade à minha pessoa, mas de tentar fazê-los entender certos comportamentos que eu tenho. Acredite em mim: Eu conheço bem todas as minhas falhas e tento corrigi-las. Mas o fedback errado me frustra e atrapalha. A compreensão me ajuda a ir no caminho certo, enquanto o julgamento reforça a ideia de que mudar é inútil. Quero que me compreendam. Por isto compartilho este texto:


Gina Decicco, 12 de fevereiro de 2016
The Huffington Post

Quando digo à maioria das pessoas com quem converso que tenho um distúrbio de ansiedade, elas balançam a cabeça e me dizem que vou ficar bem. Quando digo a elas: “Desculpa, estou tendo uma crise de ansiedade hoje, podemos remarcar?”, elas sorriem e me dizem que não há nada com que eu deva me preocupar. Basta eu sair da cama para ver que tudo está bem. Quando não quero ir de bar em bar porque sei que o álcool aumenta minhas tendências ansiosas, escuto: “Você está bem. Será divertido. Extravase!”

Enquanto isso, meu coração bate tão rápido que tenho medo de que ele esteja visivelmente batendo para fora do meu peito. Mas ele não está. Minha cabeça também não está rodando em círculos. Meus olhos não estão cruzados como minha visão embaçada indica. Meus joelhos não estão balançando, tampouco meus músculos estão trêmulos, lutando contra a vontade de entrar em colapso. Meu rosto não está pálido e meus olhos não estão vermelhos de sangue. Não, no exterior eu aparento estar do mesmo jeito que todos os dias. Meu cabelo está limpo. Minhas roupas combinam. Estou acordada, viva e respirando normal. Então não há nada de errado, certo?

Errado.

É este o grande detalhe da desordem de ansiedade. Aparentamos estar bem. É claro, nossa aparência está boa. Nossas pernas não estão quebradas. Nossas línguas não foram cortadas. Não temos cortes ou feridas. Porque a ansiedade não é uma incapacidade física. Isto, no entanto, não torna-a nem um pouco menos debilitante.

A ansiedade é uma desordem complexa e não é algo que se afasta com um sorriso ou um balançar de cabeça. Você dizer que tudo está bem não só não ajuda como ofende, porque parece que não está levando isso a sério. 

Eis algumas coisas que eu gostaria que você soubesse sobre a luta contra a ansiedade:

Não é constante. Há dias em que posso lidar com a rotina sem ter que parar e respirar ou tomar um Xanax. Posso sorrir e rir. Posso ser produtiva e ir trabalhar, sair para jantar, ir ao cinema com amigos. E, acredite em mim, eu sei que é difícil entender como posso estar bem num dia e, no dia seguinte, não conseguir sair da cama. É assim que as coisas são. O que me leva ao próximo ponto:

Vem em ondas. A ansiedade é uma fera estranha. Ela deixa eu me divertir por alguns dias e, quando eu penso que ela finalmente me deixou em paz, eu acordo numa manhã qualquer incapaz de colocar meus pensamentos em ordem, porque, por alguma razão, a fera emergiu novamente e não há nada que eu possa fazer para impedir sua chegada, porque eu acordei e ela estava sentada no meu peito, sorrindo, como se fosse bem-vinda.

Pode ser completamente paralisante. Não sei se isso se aplica a todos, mas sei que é uma parte muito grande da minha desordem de ansiedade. Quando ela chega, eu me congelo. Consigo me levantar e fazer os deslocamentos do meu dia, mas meu cérebro está em outro lugar, foi feito refém por qualquer que seja o “demônio” que está me habitando. Não consigo pensar em mais nada, exceto minha incapacidade em pensar ou respirar ou sentir. Absorva isso. Meu cérebro parece que está literalmente paralisado, como se estivesse preso numa espécie de limbo sem portas ou janelas ou saídas de qualquer tipo. A pior parte é que estou completamente sozinha lá.

Destrói relacionamentos. Não só relacionamentos românticos, mas relacionamentos de qualquer tipo. Amizades e namoros podem ser destruídos por esta condição. Já experimentei ambos e é o tipo de perda mais devastadora. Por quê? Porque não é nossa culpa. É uma desordem que, sem o conhecimento de como lidar com ela, pode explodir com o passar do tempo. Eventualmente, pode se tornar um fardo muito grande para outras pessoas carregarem com elas. Se elas desenvolverem laços próximos o suficiente com você para experimentar os efeitos de sua ansiedade em primeira mão, isso pode se tornar um fardo muito grande para elas e elas podem cortar laços com você pelo bem da própria saúde mental delas. E isso dói pra caramba. Mas não posso culpá-las, porque se eu pudesse escolher ficar o mais longe o possível da ansiedade eu também o faria sem pestanejar.

Transforma a confiança em algo quase impossível. Eu sei que parece terrível culpar a ansiedade pela falta de confiança nos outros, mas, honestamente, não se trata de culpar, mas de responsabilizar. A ansiedade nunca falha em te fazer imaginar o pior de cada situação. Se alguém não responde minha mensagem, então é isso, ele não gosta mais de mim. Se alguém não me manda mensagem primeiro é porque não pensa em mim. Pode ser que esteja ocupado? Não. Ele tem coisas melhores para fazer com seu tempo do que gastá-lo comigo. Eu soo ridícula, não? Bem-vindo à vida com a ansiedade. Ela não tem biscoito para te oferecer, mas pode te entreter com uma solidão incapacitante numa mesa para um. Não quer? Imaginei mesmo.

Eu não quero isso. Você realmente acha que se eu tivesse uma escolha eu escolheria desapontar as pessoas que eu amo porque não dou conta de sair de casa? Você acha que eu quero ter tanto medo de sair da cama que ligo para o trabalho com uma desculpa e choro assistindo Grey's Anatomy por 13 horas seguidas? Provavelmente não. Você escolheria isso? Acho que não. Então, quando você disser que estamos sendo dramáticos e buscando atenção, pare por um segundo e pense no que está dizendo. Ninguém, repito, ninguém quer isso.

Desejo não ser assim todos os dias. Não há um dia em que aquela vozinha no fundo da minha mente não me diz que minha vida seria ótima se eu não fosse assim. Se eu pudesse não ter ansiedade, tudo estaria bem. Eu poderia ser verdadeiramente feliz e acreditar que a felicidade não é uma piada ou um truque; que a desgraça não é uma sina que tenho que carregar. Não tenho que carregar nada. Mas não é assim que eu funciono. Para mim, não importa quantas vezes eu diga a mim mesma que tudo vai ficar bem e que estou sendo ridícula, nada está “bem”. Para falar a verdade, até as coisas mais pequenas são um desastre.

Há tratamentos e estou disposta a tentá-los. Muitas pessoas que são diagnosticadas com ansiedade tomam medicamentos para controlá-la. A maioria das vezes eles retiram a sensação de estar vivendo no limite e permitem que eu seja mais funcional na minha vida diária. No entanto, simplesmente tomar remédios não é o suficiente. Tenho tentado ir à academia. As endorfinas geralmente ajudam imensamente. Muitas pessoas fazem ioga e exercícios de respiração. Eles também ajudam. Ainda não tentei-os, mas estão na minha lista. Faço muitas coisas que me trazem a felicidade. Para mim, escrever, cantar e colorir meu livro de colorir são reconfortantes. Além disso, descobri que a psicoterapia é a melhor ferramenta e que vale cada centavo. Ter um terapeuta que está constantemente do seu lado e ali para deixar você falar sem te julgar ou te culpar pela sua condição é uma experiência libertadora. Recomendo demais para quem estiver sofrendo com ansiedade.

Vou superar isso. Mas vai demorar. Lutar contra a ansiedade pode ser uma batalha sem fim com frequentes deslizes e falhas ao longo do caminho. Ainda estou no meio desse processo e não é fácil. Nem um pouco. De longe essa é a coisa mais difícil que eu já tive que fazer em toda minha vida. E já passei por um bocado. A ansiedade, no entanto, rouba o show. Aprender a superar a ansiedade é a tarefa mais difícil que já me pediram para completar. Esses pensamentos, esses que não são verdadeiramente meus, têm o gosto de veneno para minha alma. Mas naqueles dias em que consigo marcar um sinal de vitória na minha agenda, sinto como se pudesse conquistar o mundo. Quero que todos os dias sejam assim e não vou parar enquanto não forem.

Eis o resumo: a ansiedade pode ser bem pesada e assustadora. Não é um ferimento visível, mas isso não faz com que não seja menos legítimo. Precisamos de pessoas em nossas vidas que estão dispostas a nos ajudar e apoiar, e compreender que precisamos de muita ajuda e apoio. Não vou te julgar se você acha que não consegue lidar com o peso que é ser parte da minha vida, mas peço-lhe que não me deixe cheia de esperanças e depois me abandone.

Então, quando eu digo “Eu tenho ansiedade”, eis o que eu quero dizer de verdade: trate-me bem, seja paciente comigo, me apoie. Saiba que tudo o que eu faço é com a consciência de que isso te afeta. Estou lutando para ter o controle da minha vida todos os dias, entenda isso. Sou demais para ser absorvida, eu sei disso. Não sou sempre fácil de ter em sua vida, mas se você permitir, sempre estarei lá quando você precisar de mim. Eu nunca vou me esquecer da sua fidelidade quando a maioria das pessoas me abandonou.

Quando digo “Eu tenho ansiedade”, estou dando-lhe tanto um aviso sobre o barco em que está prestes a embarcar quanto um agradecimento por escolher entrar nele mesmo assim.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O segredo é não reagirmos como esperam

Sexta-feira, 1° de janeiro de 2016. Novo dia de um novo ano. No entanto, eu ainda estava angustiado por causa de fatos ocorridos no ano anterior. Não é porque um marco temporal passou que meus sentimentos mudaram. Decidi caminhar. Fui num parque perto de casa. Me animei e segui para outro, um pouco mais distante, embora seja localizado no mesmo bairro. Escureceu. Voltando para casa, fui encurralado por um cara de bicicleta. Fugi. Mas ele me alcançou e ameaçou tirar minha vida se eu não lhe entregasse meu celular. Um pedaço de plástico que custou R$ 650 ou minha vida? Escolhi a última, pois celular tem como a gente comprar outro; a vida, não.

O que ocorreu em seguida foi surpreendente. Nas horas seguintes ao assalto, fiquei muito chateado. O choque emocional de saber que, no Brasil, uma vida humana vale menos do que um pedaço de plástico que custou menos do que sete notas de cem reais foi grande. No entanto, me recusei a me desmoronar, como teria ocorrido num passado recente. Aprendi que, diante de um acontecimento ruim, temos três opções: podemos deixá-lo nos definir, podemos deixá-lo nos destruir ou podemos deixá-lo nos fortalecer. O que o assaltante queria, além do meu celular? Ele queria me destruir por causa de um celular e eu simplesmente não posso permitir isso. Minha vida vale mais do que todas as posses materiais que eu eu já acumulei.

É claro que não vou me colocar numa situação de violência tão cedo novamente. Moro numa das cidades mais violentas do mundo. A título de ilustração: no ano de 2015, 340 pessoas foram assassinadas em Nova York (8,4 mi de habitantes); no mesmo período, 553 pessoas foram assassinadas em Goiânia (1,2 mi de habitantes). Só nos últimos 15 meses é a segunda vez que apontam uma arma na minha cara por conta de um pedaço de plástico. Recusar a deixar um assalto me definir não significa que vou desafiar a realidade violenta e rir do perigo. Significa que vou criar resiliência para as situações em que essa realidade dura e brutal bater na minha porta. Significa que não vou me abater por conta do mal que outras pessoas desejam infligir em mim.

Nunca havia entendido direito a passagem bíblica em que Jesus Cristo incita seus seguidores a oferecerem a outra face caso fossem agredidos. Não entendi porque os americanos não poderiam se deixar vencer pelo luto após o 11 de setembro. Creio que o então presidente disse algo como: se deixarmos de fazer qualquer coisa por medo, então os terroristas terão vencido. Tampouco havia entendido a atitude recente do cantor e compositor Chico Buarque de não revidar a agressão que sofreu de um bando de playboys cariocas que o chamou de nomes inimagináveis na saída de um restaurante localizado no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro.

O fato é que não podemos deixar os outros pautarem nossos sentimentos e nossas ações. O ladrão que me roubou estava louco para que eu reagisse e ele pudesse, em sua mente doentia, justificar sua sede por agredir estranhos na rua. Além disso, ele quer que eu sinta raiva dele, que eu chore as fotos, músicas e vídeos perdidos, como se fossem o tesouro mais incalculável que eu acumulei nessa vida. Assim como nos outros exemplos citados, dos romanos aos playboys cariocas, passando pelos radicais islâmicos, os agressores precisam de uma reação de suas vítimas para justificarem a agressão que infligem. Se reagirmos como os agressores desejam, damos a vitória a eles. Mas se ousamos sorrir depois de sermos nocauteados por eles, se ousamos seguir com nossas vidas, eles perdem.

Numa vida cheia breve e incerta, onde a única certeza que temos é a iminência da morte, faz sentido gastar tanto tempo pautando-nos pelos outros? Vale a pena viver a partir de reação a estímulos externos como ratos de laboratório? Encarar a vida com leveza, aceitar que a vida não faz o menor sentido e que a única certeza nela é o seu fim é a chave para uma existência feliz. Se cada vez que nos derrubarem nós demorarmos a sair das cordas, no final de nossa jornada teremos desperdiçado tempo demais contemplando a dor da derrota e tempo de menos fazendo aquilo que fomos enviados para fazer neste planeta: viver, ou seja, ter experiências. 

Algumas experiências serão boas e outras serão ruins. Nem sempre seremos capazes de controlar nossas vidas para que elas sejam preenchidas apenas por experiências boas. Mesmo que consigamos atingir o nirvana, o mundo foge do nosso controle e atrapalha nossa busca pela paz. Mas podemos — e devemos — buscar minimizar o efeito daqueles que desejam tirar nossa paz e nos colocar em posição de conflito, daqueles que buscam uma declaração de guerra assinada por nós. O segredo da vida é não reagirmos da forma que as outras pessoas esperam que vamos reagir.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

É morrendo que se renasce

Em "Nobody Knows Me", uma de suas canções mais introspectivas, Madonna canta: "Eu tive tantas vidas / desde que eu era criança / E eu percebo / Quantas vezes morri". Também morri tantas vezes desde aquela tarde de segunda-feira de novembro de 1989 na qual estreei no mundo que até perdi as contas. Eu era geralmente assassinado. Pelas mãos da Igreja Católica, com sua moral rígida e complexa; do sistema educacional, que não permite a expressão plena de nossas individualidades e sonhos; dos "amigos" que me usaram para atingir seus próprios objetivos e, por fim, dos "amores" que tentaram me usar para atingir seus próprios desejos. No último dia 13, no entanto, decidi me me encarregar da matança pela primeira vez para que um Rodrigo novo pudesse surgir.

Assim sendo, em 14/11/2015 eu renasci. A dor do parto foi tão intensa que eu chorei. Mas a verdade é que um novo Rodrigo, mais verdadeiro, enfim surgiu. Abandonei o Facebook e o Twitter (meus perfis ainda estão lá, mas não são mais alimentados) e decidi escrever só para quem realmente estiver interessado em ler o que tenho a dizer. O novo Eu busca uma relação mais saudável ao estabelecer suas relações dialogais. E foi também empoderado. A partir de agora, não espero nada de ninguém além de mim mesmo e não dou a mínima para o que os outros pensam de mim. O novo Eu se libertou das poucas amarras sociais que ainda lhe impediam de ir atrás de seus desejos. E o mais importante de tudo: o novo Eu se aceita como um cara que tem defeitos e que erra – para caramba.

Essa foi, sem sombra de dúvidas, a melhor morte que já tive. Porque foi a morte das aparências e das meias-verdades. Tornei-me um ser completo e não mais um algoritmo. Foi a morte da virtualidade em prol da realidade. Quero relações reais com pessoas de verdade. Quero gostar de pessoas e não uma sequência de algoritmos que formam as informações apresentadas num monitor. E quero que gostem de mim por aquilo que sou e não pela imagem que sites de redes sociais criam de mim. Em resumo, foi a morte das mentiras, das falsidades e das hipocrisias virtuais. A partir de agora minha imagem pública será tão verdadeira quanto possível. As minhas personas se encontraram e o resultado disso está sendo lindo. Estou leve como uma pena. Sinto-me sexy, confiante e forte como nunca havia me sentido antes.

Tão importante quanto promover o encontro das minhas personas, pública e privada, virtual e real, esse renascimento foi importante por fechar um ciclo iniciado meses atrás. Na verdade uma jornada de auto-conhecimento. Já que comecei o texto citando uma música, gostaria de terminá-lo citando outra. Em "Greatest Love of All", Whitney Houston canta: "O maior amor de todos está acontecendo para mim / Encontrei o maior amor de todos dentro de mim". Piegas, mas tão verdadeiro que chega a incomodar. Foi preciso me perder para me reencontrar. Fim de relacionamento, depressão, comportamento auto-destrutivo, reconciliação e subsequente rompimento com a Igreja Católica, conversão ao protestantismo, alienação e reintegração social, os últimos treze meses não foram nada fáceis para mim. No entanto, consegui me reposicionar, redefinir meus valores e, por fim, renascer. 

Liberte-se de suas gaiolas. Charge da Laerte.
Como em toda jornada, perdi coisas pelo caminho (talvez a mais notória seja a vontade de militar na política). Isso pode desagradar a algumas pessoas. Mas estou pouco me lixando para quem não vai gostar desse renascimento. As pessoas andam tão confinadas em suas prisões mentais que acham ofensivo quem não aceita se prender também. Mas para o novo Eu, o Rodrigo renascido, o Outro não importa mais tanto assim. Percebi que idealizar o Outro é coisa de pessoas incapazes de lidar com suas expectativas frustradas pela realidade – caso de neonazistas, terroristas árabes e tucanos mau-perdedores de eleição. Entretanto, se alguém gostar do meu renascimento é porque essa pessoa está disposta a conviver com o verdadeiro Eu. Sinal maior de amizade não há. Serei eternamente grato a quem compreende que é morrendo que se renasce.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A felicidade é grátis

No final de semana assisti ao documentário Happy (2011) no Netflix. Nele, o cineasta Rolo Belić busca, através de entrevistas com neurocientistas, psicólogos e pessoas comuns, desvendar o segredo por trás da felicidade. Cientificamente falando, o que torna um indivíduo feliz? Segundo os especialistas ouvidos no documentário, 50% da nossa felicidade é determinada por fatores genéticos, 40% é determinado por nossas ações individuais e 10% é determinado por fatores ambientais. Mas que ações são essas que podemos fazer para encontrarmos a felicidade? A principal delas é a prática de atividade física, que libera dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e cuja deficiência pode causar, dentre outros males, a doença de Parkinson.

E, socialmente falando, o que determina a felicidade? Definitivamente não é o dinheiro. Os americanos de 50 anos atrás, apesar de possuírem renda média muito inferior, eram mais felizes que os americanos de hoje. É inconcebível imaginar que pessoas que gastavam horas com tarefas consideradas simples hoje em dia - como lavar e passar roupa, fazer comida e limpar a casa - eram mais felizes do que nós. Mas é comprovado que, após supridas as necessidades básicas, como comprar comida e pagar as contas, o dinheiro deixa de ter efeito significativo sobre a felicidade de um indivíduo. Se é verdadeira a afirmação de que a felicidade não paga as contas, é mais verdadeira ainda a afirmação de que o dinheiro não compra a felicidade.

As pessoas felizes respondem mais facilmente às adversidades da vida e satisfazem mais suas necessidades intrínsecas do que as extrínsecas. Aceitar o fato de que adversidades vão acontecer é uma regra entre as pessoas mais felizes. Uma das entrevistadas, que foi miss durante a adolescência, teve parte do rosto paralisado após ser atropelada por uma picape. Ela diz que só conseguiu retomar sua vida após aceitar o que lhe ocorreu: "Eu percebi que não entendo [o ocorrido], mas não preciso entender". Desde então, conseguiu reconstruir sua vida e tornou-se uma pessoa feliz. Ter uma boa aparência era, no final das contas, uma necessidade extrínseca de seu ser, enquanto as necessidades intrínsecas envolvem o crescimento pessoal, as relações interpessoais e a vida comunitária. Quanto mais buscamos agir no sentido de suprir nossas necessidades intrínsecas, mais felizes somos.

Duas regiões mostradas no documentário, consideradas lares de pessoas felizes, valorizam justamente a vida comunitária: a Dinamarca e a ilha de Okinawa, no Japão. A Dinamarca, além de oferecer uma série de benefícios universais para seus cidadãos, como a saúde e a educação, ainda estimula a vida em conjuntos habitacionais, verdadeiras comunas onde as tarefas são divididas e o afeto idem. Já em Okinawa os cidadãos valorizam o ichariba chode, expressão que traduz o ato de tornar-se irmão de quem você acabou de conhecer, ajudando-o naquilo que ele precisar. De fato, todas as pessoas apontadas como felizes pelos pesquisadores, sem exceção, possuíam tinham proximidade com familiares e amigos. Não que se dessem bem com todos seus familiares, mas essa era uma característica comum.

Deve-se notar, no entanto, que nem todas as relações comunitárias levam o indivíduo à felicidade. Pessoas envolvidas em grupos religiosos radicais são tão infelizes quanto aquelas que não participam de comunidade alguma. Além disso, o ambiente de trabalho, apesar de comunitário, pode levar também à infelicidade. Na maior parte do Japão as pessoas trabalham tanto que são comuns os casos de infarto no trabalho, síndrome essa chamada de karoshi. Segundo o documentário, o Japão é o país mais infeliz do mundo industrializado. Isso se justifica historicamente. Após a destruição do país pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês mobilizou a mão-de-obra para reconstruir a nação e, para isso, criou uma cultura que valorizasse o trabalho árduo e a conquista de bens materiais.

Quanto às relações interpessoais, descobriu-se que ajudar os outros libera tanta dopamina no organismo quanto o consumo de cocaína. Trata-se da forma mais fácil, segura e barata de se ter um "barato". É comum ouvirmos de nossas mães que elas têm prazer de cuidar de nós. Eu nunca entendi muito bem isso, até agora. Ao cuidar de seu filho, uma mãe recebe um fluxo maior de dopamina em seu organismo que se tivesse fumado maconha. E, segundo os cientistas, é algo quase que natural. Se precisarem escolher entre a competição e a cooperação, os indivíduos escolhem sempre a última opção. Segundo o Dalai Lama, são nossas mães que nos transmitem a compaixão. Nascemos e, instintivamente, a primeira coisa que ela faz é nos amamentar, como se a compaixão estivesse no sangue dela.

Nosso mundo está cheio de pessoas ansiosas, depressivas, insatisfeitas com a vida e, consequentemente, infelizes, devido ao fato de que o sistema econômico vigente na maior parte do planeta não valoriza a realização pessoal. Devemos ter coisas para sermos alguém e, quando não conseguimos acumular bens materiais, nos frustramos. E, mesmo que tenhamos coisas, somos comparados com pessoas que têm mais o tempo todo, pois a essência do capitalismo é a competição. Pensando nisso, o pequeno Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia, decidiu parar de destruir seu meio-ambiente para seguir as metas econômicas impostas por organismos internacionais e decidiu criar seu próprio medidor de desempenho: a Felicidade Interna Bruta, que substituiu o Produto Interno Bruto.

Ainda não é possível dizer se a experiência butanesa foi bem sucedida, mas é uma bênção o fato do país ter invertido a ordem econômica vigente, priorizando a manutenção dos recursos naturais para garantir o bem-estar de seu povo. Na pequena nação a lei determina que 60% de seu território será sempre composto por florestas. Poderia-se, por exemplo, construir hidrelétricas e vender o excedente de energia para a Índia, mas a que custo? Um custo altíssimo para a qualidade de vida da população. Ao garantir o direito à felicidade inscrito na Constituição americana, mas nunca encarado como uma obrigação pelos governos daquele país, as nações podem caminhar rumo à paz social. Pessoas felizes não  roubam, não matam e não descontam suas frustrações de ordem pessoal nas outras pessoas em geral.

Ao nos focarmos mais no que nós esperamos de nós mesmos do que naquilo que a sociedade espera de nós - o dinheiro, o status social e a aparência física (as tais das necessidades extrínsecas) - poderíamos construir uma comunidade mais feliz e, consequentemente, uma sociedade mais harmoniosa. Não precisaríamos agir de modo anti-ético, o que envolve desde a corrupção generalizada em todas as classes sociais do Brasil até o assalto à mão armada, passando pela interminável pilhagem de terras indígenas, para atingir nossos objetivos, que seriam verdadeiramente nossos e não da sociedade. Se você acha que precisa eliminar alguém para atingir a felicidade, então provavelmente aquilo que você busca não é a felicidade, pois esta envolve, conforme dito anteriormente, as necessidades intrínsecas do ser humano (atingir metas pessoais, viver em comunidade e manter relações interpessoais).

"As coisas que geram a felicidade são grátis e, quanto mais alguém é feliz, mais todos são felizes", conclui Belić no final de seu documentário,