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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O complexo de Gastão na comunidade gay

Ontem eu estava com uma insônia do cão causada por uma crise de ansiedade, então fui ler sobre A Bela e a Fera (2017), filme que eu havia assistido no cinema algumas horas antes. Num dos artigos que li descobri que as canções do filme original, a animação lançada em novembro de 1991, representavam uma metáfora para a epidemia da AIDS, que até 1991 havia matado cerca de 60 mil pessoas apenas nos EUA desde a descoberta do vírus causador da doença dez anos antes. As canções foram escritas por Howard Ashman, que morreu pouco antes da estreia do filme devido a complicações de saúde causadas pelo HIV, vírus até então indetectável por qualquer tipo de exame laboratorial.

É bastante óbvia de que a maldição que acomete o príncipe — jogando-lhe no ostracismo, afastando-lhe do convívio social e desgraçando também as vidas daqueles que cuidavam dele — é uma metáfora para a AIDS. A Fera, assim como um portador de HIV do início dos anos 1990, vive enclausurada, duvida da capacidade de ser amada incondicionalmente por quem quer que seja e luta contra o tempo para que um milagre a salve daquela maldição. Chamou-me mais atenção, no entanto, a relação entre a canção "Gaston", interpretada por LeFou (cuja versão de 2017 é o primeiro personagem gay de um filme da Disney) no bar, e a epidemia, muito menos óbvia.

Gastão.
Trata-se de uma canção altamente homoerótica que, na versão de 2017, com atores de verdade, tornou-se ainda mais provocativa. Ela exalta a força, a virilidade e a masculinidade do vilão, que deseja se casar com a Bela a qualquer custo. Mas o que isso tem a ver com a AIDS? Pois bem. Durante a epidemia da doença, os homens gays escondiam um de seus sintomas, a perda de peso, através da musculação excessiva. Como já havia dito, o HIV não era detectável em exames laboratoriais, então quem suspeitava que possuía a doença, para evitar um diagnóstico que lhe traria a mesma ruína da Fera, escondia os sintomas o máximo possível dos médicos e da sociedade em geral através da prática excessiva de atividades físicas.

A imagem que se tinha dos portadores do HIV na mídia era aquela de pessoas definhando na cama, emagrecendo até a morte. Como estratégia de sobrevivência num meio que já lhes era hostil antes mesmo do aparecimento da doença — inicialmente chamada pela comunidade médica de Deficiência Imunológica Relacionada aos Gays (GRID, na sigla em inglês) —, os homossexuais, mesmo aqueles que já haviam sido infectados, começaram a encher as academias para provar que eram sadios e que a doença atingia apenas uma pequena parte de sua comunidade. Essa é uma das teorias que explicam a ditadura do corpo musculoso ainda hoje vigente na comunidade gay.

É possível que Ashman exaltasse os músculos de Gastão porque era isso que ele desejava para si: um corpo que negasse a doença que lhe estigmatizava perante os olhos da sociedade. Creio, no entanto, que a canção, dado o contexto maior do filme, seja uma denúncia aos gays do tipo Gastão. Ela apresenta as características de um vilão, o que num desenho infantil sempre significa um modelo de vida a não ser seguido. Ao mesmo tempo em que exalta o corpo musculoso de Gastão, o letrista de A Bela e a Fera queria que ele não fosse seguido como exemplo pelas crianças que assistiriam ao desenho. Não é isso que deveria fazer alguém tornar-se aceito pela sociedade.

No contexto maior do filme, Gastão seria o gay saudável aos olhos da sociedade, que ataca o homossexual "amaldiçoado" para satisfazer uma multidão que canta "não gostamos do que não entendemos". O esforço de Gastão para matar a Fera e ser bem visto pelos habitantes de seu vilarejo equivale aos esforços dos gays musculosos em invisibilizar os gays magros — vistos como portadores de HIV — e conquistarem o respeito da sociedade ao se afastarem do estigma da "doença dos gays". Esta minha leitura é reforçada pela versão de 2017, pois há uma cena em que LeFou abandona o parceiro ao reconhecer que ele é o verdadeiro monstro e não a Fera.

Ainda hoje a comunidade gay reproduz a ditadura do corpo musculoso, o que não faz o menor sentido, visto que há toda uma geração de homossexuais cuja vida sexual iniciou-se quando a epidemia da AIDS já estava sob controle. Embora ainda exista a associação entre magreza e HIV tanto dentro da comunidade LGBT quanto na sociedade em geral, agora os corpos musculosos simbolizam, para os homens gays, a reconquista da virilidade que eles sentem que perdem quando saem do armário. É como se seus músculos servissem para provar para a sociedade não só que eles não têm AIDS como também que ainda são homens.

Estar satisfeito com seu próprio corpo é algo maravilhoso e se as pessoas sentem que atingem isso através da musculação, fico feliz por elas. O problema é que ainda persiste a estigmatização dos gays magros, mesmo com os estudiosos afirmando que nossa comunidade vive na era pós-AIDS. Isso ocorre porque nossa sociedade é heteronormativa e os gays dão mais valor ao que os héteros pensam deles e, assim, buscam parceiros que aparentar ter a virilidade dos homens heterossexuais. Mesmo que nós, magros, sejamos tão sadios quanto os musculosos, parte da nossa comunidade ainda está sob efeito do complexo de Gastão e continua a nos tratar como inferiores. Espero que isso não se torne um "conto tão antigo como o tempo".

sábado, 9 de setembro de 2017

Como a esquerda criou o "Bolsomito"

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) era um zé ninguém até aparecer no CQC em 2011. O programa humorístico da Rede Bandeirantes, exibido entre 2008 e 2015, gostava de abrir espaço para figuras bizarras da vida nacional, em especial do baixo clero da Câmara dos Deputados, como uma forma de aumentar sua audiência, sobretudo no Twitter. Emissoras como Record, SBT e Bandeirantes, que lutam entre si pelo segundo lugar nos índices de audiência, passaram a usar os trending topics daquele rede social como forma de atrair investimentos, mostrando para os anunciantes que possuíam um público mais jovem e antenado com as novas tecnologias do que a dominante Rede Globo. O IBOPE já era considerado um mecanismo defasado de medição de audiência naquela época.

A mídia tradicional precisava de um fascista para quando
estivesse precisando aumentar sua audiência.
A estratégia dos produtores do programa funcionou. Assim que o quadro em que o deputado respondia às perguntas da cantora Preta Gil foi ao ar, o CQC entrou para os trending topics. As barbaridades racistas ditas pelo até então desconhecido deputado foram repercutidas ad nauseum nas redes sociais por militantes de esquerda revoltados com suas palavras. São pessoas que acham que sua missão — na vida e nas redes — é combater as injustiças. Só que nessa luta incansável e sem tréguas a favor da justiça social, acabam dando espaço para as ideias que dizem combater. Depois de sua aparição no programa, amplificada pelos tuítes e retuítes de quem se propunha a denunciá-lo, Bolsonaro finalmente conseguiu o palanque que tanto desejava para suas ideias reacionárias.

Preciso fazer aqui um mea culpa. Na época, eu também ajudar a propagandear essa figura nefasta da política brasileira acreditando estar combatendo-o. Durante o tempo em que usava o Twitter, me tornei um extremista da justiça social, ao ponto em que não conseguia mais assistir a um episódio de um seriado qualquer sem problematizá-lo. O exemplo mais emblemático disso era quando eu assistia à comédia The Big Bang Theory. Para mim, o personagem Raj era utilizado pelos roteiristas do programa como mecanismo de afirmação da supremacia dos EUA sobre os países do terceiro mundo. Militantes de direita, percebendo o extremismo de certas problematizações, cunharam o termo pejorativo social justice warriors (guerreiros da justiça social) para se referir à esquerda, ainda em 2011.

Logo o Twitter virou um campo de batalha entre extremistas da justiça social e militantes que lutam contra a ditadura do politicamente correto. Em comum entre ambos está a falta de bom senso. E, num espaço onde a expressão é limitada a 140 caracteres, os xingamentos tornaram-se a lei. O debate político infantilizou-se desde então, como evidenciado pela recente troca de insultos entre o jornalista americano radicado no Brasil Glenn Greenwald e o deputado Bolsonaro. Longe de mim defender Bolsonaro, mas Greenwald não deveria ter esperado outra resposta do deputado ao chamá-lo de "cretino". A impressão que tive, ao ler a troca de mensagens entre os dois, foi a de que se tratavam de duas crianças brigando no pátio de uma escola:
— cretino!
— viado!

Greenwald também deve acreditar, como eu acreditava, que atacar o deputado, mesmo quando ele está quieto, é a menor maneira de derrotá-lo. Só que isso tem se provado falso. Depois que ele ganhou notoriedade ao aparecer no CQC e nas timelines de milhares de pessoas de esquerda revoltadas com suas ideias, militantes até então ligados à direita tradicional perceberam que ele incomodava muito mais a esquerda do que os políticos do DEM e do PSDB e elegeram-no como seu novo líder. Só não perceberam — ou fingiram não perceber — que isso se deve ao fato de que ele é fascista, o que deveria ser repudiado por todo o espectro político. Assim sendo, Bolsonaro se tornou o deputado mais votado em seu estado, saindo de pouco mais de 120 mil votos em 2010 para quase 470 mil em 2014. Hoje, encontra-se em segundo lugar nas pesquisas para a eleição presidencial de 2018.

Bolsonaro lidera as pesquisas em cinco estados e está em
situação de empate técnico com Lula em Goiás.
Faltou malícia, para mim e para os demais militantes de esquerda, em 2011, para perceber que a intenção da Bandeirantes era justamente a de criar um ícone fascista que eles pudessem explorar sempre que seus programas estivessem com problemas de audiência. A falta de bom senso dos empresários do setor e de regulamentação da mídia criou Jair Bolsonaro como um candidato viável para o futuro de uma nação decepcionada com seu sistema político. Desde que ele emergiu no imaginário nacional como solução para todos os problemas do Brasil, o baixo clero da Câmara cresceu, tomou o poder com Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e promoveu um golpe de Estado para conter a vontade soberana da nação de continuar no caminho da tímida inclusão social dos governos do PT.

A mídia empoderou o lixo político para gerar o caos, porque o caos — como admitiu cinicamente o presidente da CBS ao responder, em 2016, sobre o porquê de sua emissora dar tanto espaço para o então candidato a presidente Donald Trump — pode até ser ruim para a nação, mas é ótimo para os índices de audiência. E a militância da internet, que surgiu como uma promessa de revolucionar a comunicação e a política, tornou-se meramente um jogador de uma partida cujas regras já foram definidas pela mídia tradicional. Esta jogou sua isca e os twitters morderam-na cegamente. A militância de internet atendeu ao pedido da Bandeirantes e criou o "Bolsomito". E, o mais triste de tudo, é que eu não sei dizer se foi a de direita ou a de esquerda — que segue criando palanque para ele, como vimos Greenwald fazer.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O problema da educação não é não poder bater nas crianças

A diretora de um colégio decidiu filmar uma criança durante um ataque de cólera e expô-la no Facebook. Segundo ela, não há nada que ela possa fazer além de deixar a criança quebrar tudo por causa do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que protege esses pequenos marginais. O vídeo está viralizando na rede social, mas não iriei compartilhá-lo porque porque se não vai ficar parecendo que apoio essa atitude e a mensagem do vídeo. Minha monografia foi justamente sobre a exposição indevida de menores em conflito com a lei pela imprensa.

O brasileiro médio adora citar o Primeiro Mundo quando lhe
convém, mas em toda Europa só é permitido o professor bater
nos alunos no Vaticano (em vermelho).
Diversas vezes, durante o vídeo, funcionários do colégio tentaram segurar a criança e evitar que ela virasse mesas e cadeiras. A diretora impede-os. Ela queria produzir uma evidência que reafirmasse sua ideologia pró-espancamento. Ela deixa a criança destruir o patrimônio do colégio — comprado com o dinheiro de todos nós — para provar seu argumento de que as crianças merecem apanhar dos professores, o que não ocorre em mais nenhum país da Europa. É um argumento do século XVIII, quando a pedagogia sequer era uma ciência ainda.

O entendimento corrente no campo da pedagogia é de que a criança é a parte mais frágil da sociedade e, assim sendo, tem o direito de receber educação sem ser submetida a tratamento degradante. Surpreende-me que uma pedagoga vá contra esse entendimento e defenda a punição corporal como forma de resolução do conflito entre aquele aluno e a escola. Que outras pessoas, alheias à situação, comentem a favor do espancamento só prova minha crença de que o brasileiro gosta de punir a revolta dos mais fracos ao invés da opressão dos poderosos.

A diretora deveria ser a parte racional da situação, tentando pôr fim ao que quer que seja que estivesse atormentando aquele ser, mas preferiu fazer ativismo político reacionário no Facebook. Além de desonesta — por manipular uma situação para defender seu ponto de vista — e anti-ética — por filmar uma criança sem a permissão de seus pais —, demonstra também que é anti-profissional, estando mais preocupada em publicar conteúdo na internet do que exercer sua função, a qual é paga pela coletividade. Se trabalhasse numa escola privada, com certeza seria demitida por justa causa.

Se dependesse de alguns, cenas como essa
sairiam dos livros de História e voltariam à
realidade. Diz muito sobre aquilo que somos
enquanto sociedade.
Por outro lado, duvido que ela deixaria a criança destruir tudo se trabalhasse numa escola particular. Mas no Brasil o que é público não é de todos (inclusive dela), é de ninguém. Ela fugiu de suas atribuições de zelar pelo patrimônio público e pelo bem-estar dos demais alunos. Só interessou-lhe, naquele momento, manipular uma situação para gerar "likes" contra o ECA. Afinal, é mais fácil culpar as crianças pelo atual estado do sistema educacional brasileiro ao invés de se olhar para o próprio descompromisso com as responsabilidades.

Aliás, ela culpa todo mundo pelo ocorrido — pais, assistentes sociais, polícia, políticos — menos a si mesma. É mais fácil culpar quem sequer estava na sala do que fazer o seu serviço, que nesse caso em específico se resumia a segurar a criança e tentar fazê-la se acalmar. É mais fácil também culpar a própria criança sem entender o motivo de sua raiva, o que poderia ajudá-la. Com certeza ela deve ter tido um motivo para o ataque de cólera, mas isso ficou sem explicação num vídeo que foi propositalmente tirado de contexto para defender um ponto de vista arcaico.

A educação no Brasil não está no estado atual porque porque o professor não pode mais bater nos alunos. É porque eles preferem postar vídeo no Facebook do que exercer as funções pelas quais são pagos pela coletividade para exercer. Não está escrito em lugar nenhum no ECA que não se pode conter uma criança durante um ataque de cólera. O que está escrito é que não se pode valer da violência para tal. Se a única forma que nós temos para resolver conflitos é abrir mão da violência, então é a nossa sociedade que tem um problema e não as crianças. As crises delas são apenas um reflexo disso.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Dietrich ou Jannings?

O final de semana foi marcado pelas notícias sobre o reaparecimento do nazismo enquanto movimento político que se manifesta publicamente no estado da Virgínia, no sul dos Estados Unidos. Nesse cenário, me vem à mente duas figuras alemãs do século passado: o ator Emil Jannings (1884–1950) e a atriz e cantora Marlene Dietrich (1901–1992). Ambos foram atores que despontaram na indústria cinematográfica dos Estados Unidos entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930. Jannings venceu o primeiro Oscar de melhor ator em 1929, enquanto Dietrich foi indicada ao prêmio de melhor atriz na quarta cerimônia em 1931. Enquanto ambos encontravam fama em Hollywood, a nação deles experienciava um caos político, social e econômico sem precedentes que culminaria com o fim da breve experiência democrática conhecida como República de Weimar (1919–1933). Ambos estrelaram juntos no filme O Anjo Azul (1930), do cineasta austríaco judeu Josef von Sternberg. Mas as coincidências entre eles acabam por aí. Hoje ocupam papéis diametralmente diferentes no imaginário popular do ocidente.

Emil Jannings e Marlene Dietrich em O Anjo Azul (1930),
antes dele virar entusiasta do nazismo.
Marlene Dietrich, uma das raras figuras alemãs de seu tempo que defendia uma solução democrática para o fim da crise na qual seu país se encontrava, é lembrada hoje como a musa da resistência ao nazismo. Ela se apresentou para tropas aliadas em toda a Europa como forma de elevar a moral dos soldados que lutavam contra o avanço do nazismo no continente. Adolf Hitler, ciente da enorme popularidade da atriz no mundo, tentou levá-la de volta para o cinema alemão, a esta altura reduzido a um mero meio de propagação da ideologia ariana e da suposta superioridade alemã em relação aos outros povos do mundo. Enquanto filmava O Amor Nasceu do Ódio (1937) em Londres, membros do Partido Nazista se aproximaram dela e ofereceram-lhe um contrato lucrativo para retornar à Alemanha. Ela não só recusou a oferta como doou todo seu salário no filme — US$ 7,7 milhões em valores atuais — para iniciativas que ajudavam os refugiados do nazismo. Ao retornar aos Estados Unidos, deu entrada em seu processo de naturalização. Ela renunciaria à cidadania alemã ao se tornar cidadã estadunidense, em 1939.

Emil Jannings tomou um caminho completamente distinto. Com sua popularidade em declínio nos Estados Unidos — o que historiadores do cinema atribuem ao advento do cinema falado e ao forte sotaque do ator —, Jannings retornou à Alemanha em 1932 e aceitou ser o protagonista de uma série de filmes que exaltavam figuras históricas nacionalistas para o Terceiro Reich (1933–1945). Estrelou em doze filmes no período e foi, sem sombra de dúvidas, um dos atores mais famosos de seu país durante o reinado de Adolf Hitler. As filmagens de um décimo terceiro filme, Wo ist Herr Belling?, foram interrompidas quando as tropas aliadas invadiram a Alemanha na primavera de 1945. Segundo relatos, Jannings teria mostrado sua estatueta do Oscar aos soldados como prova de sua associação com os Estados Unidos e, consequentemente, evitar sua prisão. Devido a sua contribuição para a Alemanha Nazista, Jannings foi alvo de Berufsverbot (banimento profissional) pelos aliados, sendo proibido de exercer novamente sua profissão até a desnazificação do país. Ele preferiu se aposentar. Mudou-se para a Áustria, onde morreu em completo ostracismo em 1950.

Marlene Dietrich entretendo soldados aliados.
No final da década de 1940, Dietrich, por sua vez, recebeu as maiores honrarias civis dos governos estadunidense e francês. Seus esforços contra o nazismo começaram antes mesmo dos Estados Unidos declararem guerra à Alemanha. No final da década de 1930, ela se uniu ao diretor austríaco judeu Billy Wilder para criar um fundo de assistência aos judeus que desejavam escapar da Alemanha. Quando os Estados Unidos entraram no conflito, em 1941, Dietrich foi uma das primeiras celebridades a ajudar a vender títulos de crédito para financiar o exército estadunidense. Entre janeiro de 1942 e setembro de 1943 ela se apresentou para mais de 250 mil tropas no país. Em 1944 e 1945, ela se apresentou para tropas aliadas na Argélia, na Itália, no Reino Unido, na França e na Alemanha. Ao entrar na Alemanha, foi indagada do porquê faria isso, uma vez que estaria colocando sua própria vida em risco, estando a poucos quilômetros de distância dos nazistas. "Faço isso por decência", retrucou. Segundo Wilder, a atriz esteve presente em mais linhas de frente do que Dwight D. Eisenhower, general que comandava as Forças Expedicionárias Aliadas.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, e o
ator Emil Jannings.
Enquanto Dietrich usava seu talento para defender a "decência", Jannings — ainda hoje o único alemão vencedor do Oscar de melhor ator, descrito pela Encyclopædia Britannica como "um dos melhores atores de sua geração" — emprestava-o a um regime que matou aproximadamente 10 milhões de pessoas. Ele, na verdade, era o rosto deste regime. Jannings traduzia a ideologia nacionalista do regime para o alemão comum, ao interpretar a versão nazificada de heróis nacionais como Otto von Bismarck e Frederico Guilherme da Prússia nas telas. Em 1942, ano em que os trens da morte começavam a transportar os inimigos do nazismo para os campos de concentração, Jannings escreveu para a Nationalsozialistische Monatshefte, revista de cultura do Partido Nazista, sobre a meta do regime de mostrar, no cinema, homens e mulheres que conseguem dominar seus próprios destinos como modelos a serem seguidos pelo público. Do outro lado do Atlântico, Dietrich se tornava a celebridade que mais vendia títulos de crédito do exército estadunidense. Indagada sobre as atividades nazistas de seu ex-colega nas telas, Dietrich teria dito que ele era um "porco".

Embora tenha lutado incessantemente para livrar seu povo das garras do nazismo, o retorno da atriz à Alemanha não foi exatamente um sucesso. Em 1960, durante uma turnê em sua terra natal, Dietrich foi recebida de maneira amarga pela direita alemã. Os viúvos do nazismo acusavam-na de ser uma "traidora da pátria" e ameaçaram bombardear o palco de seus shows duas vezes. Durante sua apresentação no teatro Titania Palast, em Berlim, o público gritou "Fora Marlene!". Ela foi defendida pelo então prefeito da cidade, o social-democrata Willy Brandt, que, assim como ela, opôs-se ao nazismo e exilou-se do regime no exterior. A turnê foi um fracasso comercial e Dietrich, emocionalmente fragilizada pela hostilidade que encontrou em sua cidade natal, prometeu nunca mais retornar ao país. Na Alemanha Oriental, no entanto, ela foi melhor recebida. Em Israel, a turnê da artista que doou milhões de dólares para os refugiados judeus foi muito bem recebida. Ela cantou em alemão, quebrando o protocolo contra o uso do idioma no país, e ganhou a Medalha de Honra do governo, tornando-se a segunda mulher alemã a receber tal honraria. 

Goebbels (Sylvester Groth) mostrando o anel de honra que
deu para Jannings (Hilmar Eichhorn) em cena do filme
Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino.
Se a imagem de Dietrich não foi completamente reabilitada em vida, seria após sua morte em 1992. Naquele ano, uma placa comemorativa foi colocada no local de seu nascimento em Berlim, onde é possível ler: "Foi uma das poucas atrizes alemãs que conseguiram fama internacional e, apesar das ofertas tentadoras do regime nazista, emigrou para os EUA e se tornou cidadã americana". Um selo com sua imagem foi lançada pelos correios da Alemanha em 1997. No mesmo ano, uma praça na capital alemã foi inaugurada em sua homenagem. Lê-se numa placa no local: "Estrela berlinense do cinema e da música, dedicada à liberdade e à democracia, a Berlim e à Alemanha". Emil Jannings, por sua vez, foi "homenageado" no filme Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino, onde exibe para os outros personagens o anel de "artista do estado" que ganhou de Joseph Goebbels. Ele é apresentado não como um ator genial, mas como quem preferiu a fama à compaixão aos judeus, muitos dos quais ajudaram-no a construir sua carreira, como é o caso dos cineastas Sternberg, E.A. Dupont, Paul Leni e, principalmente, Ernst Lubitsch, que o dirigiu em sete filmes.

As ofertas tentadoras do regime nazista eram simplesmente boas demais para Emil Jannings recusar. Mesmo que se argumente que ele estava apenas tentando sobreviver num ambiente hostil à liberdade artística, um artista com o mínimo de decência — parafraseando Dietrich — não escreveria um artigo para a revista de cultura do Partido Nazista. Ao que tudo indica,  Jannings — ao contrário de outros artistas alemães do período, que mais tarde disseram que estavam apenas trabalhando na indústria sem apoiar os horrores da "solução final" para os judeus — foi um entusiasta do nazismo. Segundo Wagner Pinheiro Pereira, autor do livro O Poder das Imagens: Cinema e política nos governos de Adolf Hitler e de Franklin D. Roosevelt, o ator teria sugerido ao ministro da propaganda Joseph Goebbels a produção do filme Tio Krüger (1941), uma denúncia do imperialismo britânico, como forma de mostrar ao mundo que não foram os alemães que inventaram os campos de concentração, mas sim os britânicos, durante a Guerra dos Bôeres (1899–1902). Não coincidentemente, o ator recebeu o já mencionado anel de honra após esse filme.

Placa na Praça Marlene Dietrich em Berlim. Não existem
homenagens públicas a Emil Jannings no país.
A relativização dos campos de concentração criados pela Alemanha segue a mesma lógica das tentativas de muitos conservadores de relativizar as manifestações nazistas que ocorreram no último final de semana nos Estados Unidos. Trata-se de denunciar quem está denunciando: os alemães construíram 1.200 campos de concentração, mas os britânicos operaram 45 três décadas antes; a direita está pedindo abertamente a morte de minorias na rua, mas a esquerda também tem os seus crimes. A adoção dessa estratégia goebbeliana de defesa política mostra que o nazismo novamente faz a cabeça dos conservadores no mundo todo. Novamente a dita civilização chegou num ponto de radicalização e precisamos decidir se vamos agir pela decência ou se vamos aderir à opressão das minorias para recebermos as ofertas tentadoras de um movimento ideológico que, sete décadas após devastar a Europa, está novamente virando moda entre cidadãos histéricos e inconsequentes. Precisamos decidir a quem vamos querer ser comparados no futuro: Dietrich ou Jannings? Basicamente, trata-se de uma escolha entre a democracia e a barbárie.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Somos todos filhos da puta

Gostaria de falar sobre putas. Não sobre as mulheres que têm como profissão a prostituição, mas aquelas que já receberam essa alcunha. Desde os primórdios, nas sociedades abraâmicas, mulheres livres e independentes têm sido punidas por sua sexualidade e recebido essa denominação. Eva, por exemplo, foi a primeira puta. É um exemplo de mulher a não ser seguida, pois não ouviu a seu homem e acabou condenando a ambos. Chamar uma mulher de puta é uma forma de diminuí-la por causa de seu suposto gosto pelo sexo. Enquanto um homem ser puto é esperado e até mesmo incentivado, a mulher é incentivada a casar e ter filhos. Quem não tem, em sua família, aquele tio que levou o primo num bordel quando ele fez 18 anos, mas que diz para a prima que ela deve ser "bela, recatada e do lar" para chamar a atenção do sexo oposto?

Numa sociedade ideal, ninguém se importaria com quem você transa. Todos nós transamos e todos nós nascemos porque duas pessoas transaram (exceto os "bebês de proveta"). No entanto, em nossa sociedade, tudo é organizado de uma forma que permita que o homem branco heterossexual fique no zênite das relações sociais. Assim, o sexo tem significados diferentes para um homem heterossexual e para uma mulher, seja ela hétero ou homossexual, branca ou negra. As mulheres existem para satisfazer os homens e quem está mais interessada em satisfazer a si mesma é uma puta. Mulher que se masturba é puta. Mulher que transa com outra mulher é puta. Mulher que transa por transar é puta. E, por fim, mulher cuja a existência independe da figura masculina é puta.

Todas as mulheres que ocupam o espaço dos homens
são, mais cedo ou mais tarde, chamadas de puta.
Essa dinâmica de dominação das relações sociais pelo sexo masculino se entende para além da cama, de forma que todas as mulheres icônicas da História da humanidade já foram chamadas de puta em algum momento de suas vidas, sem exceções. De Maria Madalena à Madonna, cantora mais popular do planeta. De Frida Khalo à Dilma Rousseff. A mulher que se nega a submeter-se ao homem ameaça a manutenção da ordem social vigente e deve ser neutralizada, o que quase sempre envolve difamá-la por causa de sua vida sexual. Ser uma mulher que não se coloca no seu lugar e se cala enquanto os homens conversam, ou seja, se negar a ser uma "mulherzinha", é uma agressão ao patriarcado. Acho que é por isso que esse tipo de mulher me atrai tanto. Gosto de me cercar de putas, sejam elas profissionais da prostituição ou não.

Certa vez, num almoço de família, minha mãe me chocou ao dizer que apoiava a Marcha das Vadias porque ela era uma. Não no sentido de quem tem vários parceiros sexuais (e, caso tivesse, isso não seria da minha conta e nem da conta de ninguém). Pelo contrário, era uma vadia porque recusa-se a se curvar para os homens, que assim chamam as mulheres que, como ela, ameaçam os privilégios masculinos através da conquista de visibilidade no campo social. Minha mãe já foi chamada de puta, certa vez, por ter colocado a vida social acima da maternidade (o que não significa negligenciar a segurança dos filhos). A mulher ideal para o tipo de sociedade em que vivemos é aquela cujo maior sonho é se casar e ter filhos e que para de viver — inclusive sexualmente — depois que vira esposa e mãe.

Não sei o que as pessoas têm a ver com aquilo que as outras fazem! Desde que você não coloque a vida de outras pessoas em perigo, não tenho nada a ver com aquilo que você faz. E se você é uma mulher e a sociedade te chama de puta: meus parabéns! Você deve estar fazendo algo de certo para irritar uma sociedade tão errada quanto a nossa, na qual homens são assassinados à sangue-frio na rua por cometerem o "revolucionário" ato de segurar a mão de outros homens. Saiba, puta, que eu te admiro e me espelho no seu espírito livre para ser mais autêntico e verdadeiro comigo mesmo e com as ideias que eu defendo, que não têm o mínimo intuito de entrar em consonância com esta sociedade doentia na qual vivemos.

Eva, a primeira puta.
Por isso, acho que cada um de nós deveria se orgulhar das vezes em que foi chamado de filho da puta. Uma vez um ex-namorado me chamou disso e eu fiquei morrendo de raiva dele por ter ofendido minha mãe — que sempre acolheu-o super bem, mesmo sem ter a obrigação de fazê-lo. Ele se esquivou, disse que não estava falando dela, que era só um xingamento geral. Mas por que motivos trazer a vida sexual da minha mãe à tona durante uma discussão que envolvia só nós dois? Desde então, tenho evoluído muito e agora percebo que as mulheres que a sociedade chama de puta são aquelas que eu mais admiro e que tenho como modelo a ser seguido na vida. Não ligo mais se me chamarem de filho da puta. Assim como a Madonna não pede desculpas por ser uma puta, eu também não peço desculpas por ser o filho de uma.

Na verdade, sou filho de várias putas. Eva, a primeira mulher e puta, Maria Madalena, Madonna, Dilma e — por que não? — minha mãe. Mulheres que só são putas porque se recusaram a assumir o papel de "mulherzinha", que tomaram as rédeas de sua própria vida e, por isso mesmo, ofendem profundamente o patriarcado, que não é a régua pela qual eu, um jovem homem gay, desejo ser medido. Obviamente não vim nesse mundo para agradar a este sistema de estratificação social baseado no gênero e na orientação sexual das pessoas. Se fosse para ser assim, Deus teria me feito homem e branco do mesmo jeito, mas heterossexual. Para o patriarcado, eu sou um viado, mas se eu fosse mulher, com certeza seria uma puta. Contento-me, no entanto, em ser um filho da puta, pois sem as putas eu não teria metade das liberdades que tenho hoje.

domingo, 29 de janeiro de 2017

A ópera-bufa do combate ao terrorismo

A "relação especial" entre Estados Unidos e Arábia Saudita
deve continuar durante o governo Trump.
Desde 2015 tenho dito e repito: qualquer iniciativa antiterrorista que não inclua sanções à Arábia Saudita é pura demagogia. Osama Bin Laden, um membro da elite saudita, fundou o grupo terrorista mais famoso do mundo — a al-Qaeda — em 1988. O bando visa instituir o salafismo como religião oficial dos países do Oriente Médio. O salafismo ou wahhabismo é uma vertente ultra-conservadora do sunismo que defende que os muçulmanos devam viver como os primeiros seguidores do profeta Maomé. Os salafistas são contra inovações posteriores do mundo islâmico, como a separação entre o Estado e a religião, peregrinações a mausoléus — o que eles consideram como idolatria — e o convívio entre os sexos. Trata-se da religião oficial da Arábia Saudita que, pasmem, pune a idolatria com pena de morte. Dito isso, não é nenhuma surpresa que 15 dos 19 jihadistas que sequestraram os quatro aviões que jogaram contra o Pentágono, o World Tarde Center e um campo na Pensilvânia em 11 de setembro de 2001 eram cidadãos sauditas.

Embora o governo da Arábia Saudita negue possuir qualquer relação com grupos terroristas salafistas, a al-Qaeda é financiada por bilionários daquele país, como os banqueiros Saleh Kamel e Sulaiman Abdul Aziz Al Rajhi e o ex-ministro do petróleo Ahmad Turki Yamani. Segundo um memorando de 2009 do Departamento de Estado dos Estados Unidos, vazado pelo WikiLeaks, a Arábia Saudita é a principal fonte de financiamento de grupos terroristas sunitas no mundo. Além da al-Qaeda, o país estaria financiando também outros grupos terroristas. Várias fontes, como o governo do Iraque, a revista The Atlantic, as emissoras de televisão BBC e NBC, o jornal The New York Times e o site de notícias Daily Beast acusam a elite ou o governo saudita de financiar também o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que também promove o jihadismo salafista. A Arábia Saudita exporta mais combatentes para este grupo do que qualquer outro país do mundo depois da Tunísia. Nas áreas controladas pelo grupo, professores lecionam com livros didáticos sauditas.

Estado Islâmico e Arábia Saudita defendem a mesma versão do Islã.
Num outro documento vazado pelo WikiLeaks — um e-mail de agosto de 2014 direcionado a John Podesta, conselheiro do então presidente Barack Obama —, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton afirma que tanto a Arábia Saudita quanto o Qatar estão "fornecendo apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIS e outros grupos sunitas radicais na região". É questionável, no entanto, se ela faria algo para conter a situação que denuncia no e-mail caso estivesse hoje na Casa Branca. A Fundação Clinton já recebeu doação dos governos de ambos os países. Por este motivo, Clinton foi criticada pelo senador Bernie Sanders durante as primárias do Partido Democrata. Sanders disse ter um problema com uma secretária de Estado cuja fundação recebe milhões de dólares de governos estrangeiros que são ditaduras. Até mesmo o New York Times, que declarou apoio à candidata, afirmou em um editorial que havia razões para acreditar que, embora não há evidências de que Clinton tenha favorecido os doadores de sua fundação, havia um conflito de interesses no caso.

Seu oponente, o agora presidente Donald Trump, também acusou-a de conflito de interesses durante um dos debates presidenciais. Segundo ele, ela deveria devolver os US$ 25 milhões que a Arábia Saudita doou à fundação porque "essas pessoas tratam as mulheres horrivelmente". Noutra ocasião, no entanto, disse que gostava muito dos sauditas, pois eles estavam entre seus principais clientes no ramo imobiliário. Só que ele afirmou também que, uma vez eleito, tomaria medidas enérgicas contra o terrorismo islâmico. Segundo o jornal New York Daily News, no entanto, Trump possui negócios no ramo hoteleiro da Arábia Saudita, país que não foi afetado por seu decreto presidencial que baniu a entrada nos Estados Unidos de pessoas oriundas de sete países do mundo muçulmano — Irã, Iraque, Síria, Iêmen e os africanos Líbia, Somália e Sudão. Entre 1975 e 2015, 2.369 norte-americanos foram mortos em solo estadunidense por terroristas sauditas e, ainda assim, os sauditas podem obter visto e entrar nos Estados Unidos assim que quiserem. 

Os ignorantes confundem vítimas e perpetradores do terrorismo.
É para eles que Trump toca sua ópera-bufa sinistra.
Ao invés de punir quem espalha o fundamentalismo islâmico que gera o terrorismo, Trump vai punir as vítimas do terrorismo. Banir pessoas que, na maior parte dos casos, são sobreviventes de guerra e perseguidos políticos buscando refúgio noutro país, além de ser um tremendo descaso do ponto de vista humanitário, vai ter um efeito praticamente nulo na luta contra o terrorismo. Isso sem falar que foram os Estados Unidos e, mais especificamente, o partido de Donald Trump que transformaram o Iraque num campo fértil para as ações do Estado Islâmico. Ao vetar a entrada de sírios e iraquianos e não de sauditas, Trump demonstra que seu discurso não passa de pura balela. Uma demagogia para aqueles que temem o terrorismo islâmico sem entender muito bem como ele opera. E que nem buscam entender, pois parte significativa do medo vem justamente da ignorância. Em termos de combate ao terrorismo, Trump toca uma ópera-bufa sombria para uma plateia de ignorantes — lá nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil — aplaudir.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O fascismo está ficando pessoal

Guilherme Silva Neto (1996-2016).
Guilherme Silva Neto, estudante de matemática da Universidade Federal de Goiás, foi baleado pelo próprio pai a apenas 1,8 quilômetros de distância de onde eu moro. Após correr por alguns metros para tentar salvar a vida da abordagem violenta não de um estranho, mas sim do próprio pai, o jovem de 20 anos tombou na  Avenida República do Líbano, no Setor Aeroporto, onde tantas vezes eu almocei com a minha família aos domingos. Segundo a mãe do rapaz, o motivo da discussão que levou ao assassinato seguido de suicídio foi a participação do jovem nas ocupações da universidade. Não conhecia Guilherme pessoalmente, mas ao entrar no perfil dele no Facebook, impressionou-me o fato de sua última publicação pública ser sobre a festa "Rocknbeats Goiânia", que acontecerá na boate Diablo no próximo dia 26. Eu também havia confirmado presença nessa festa.

Também me chamou a atenção o fato de termos 12 amigos em comum: Anny Borges, que comemorou meu aniversário comigo no sábado; Euzebio Carvalho, professor da Universidade Estadual de Goiás que foi preso arbitrariamente durante assembleia estudantil realizada naquela entidade; Rafaela Lincoln Lima, que já organizou três festas nas quais eu fui; Vinicius Rafael, que já vi em diversos eventos; a talentosíssima Regiane Mendonça, que faz música de protesto contra o governo golpista; Flavio Rezende, que concorreu à vereança e sempre vejo em manifestações contra o golpe; Cris Cardoso, que deve ser uma das pessoas mais sensatas que conheci em 2016. Os demais — Cleber Valdêz Barboza, Lara Aragão, Lô Santos, Marcus Vinícius Huttenlocher — não conheço tão bem, mas adoraria conhecer. Todas essas pessoas têm em comum o fato de serem contra a PEC 241 e o assalto que PSDB e PMDB fizeram ao poder central do Brasil.

Ao que tudo indica, Guilherme era muito parecido comigo. Só que a diferença — fatal — é que sua casa não era um local seguro para ele. Ele foi morto de maneira premeditada pelo pai, que padecida da histeria anti-esquerda que acomete o Brasil desde pelo menos 2013. Esse tipo de violência por motivações políticas eu só conheci na rua. O louco, ensandecido, baleou o próprio filho cerca de dois anos após eu apanhar por — suspeito eu — ser um viado que estava andando na rua à noite com o adesivo da Dilma no peito. A disseminação do discurso fascista na sociedade brasileira me atinge de maneira cada vez mais pessoal. A mídia e seus seguidores cegos vão tentar tirar a responsabilidade deles da reta. Vão afirmar que o ocorrido no Dia da República em Goiânia foi uma fatalidade, como se a morte de Guilherme não fizesse parte de um contexto mais amplo da disseminação de ideias fascistas na sociedade brasileira.

Vão dizer que a morte do rapaz não tem nada a ver com a pregação de "pastores" anti-esquerda como Marco Antônio Villa, Joice Hasselmann, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Cristiana Lobo, Miriam Leitão, Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, William Waak, Danilo Gentili e Rachel Sheherazade, entre outros, que são os porta-vozes da dúzia de famílias que controlam a disseminação das informações no país. Mas o discurso desses comunicadores foi justamente o gatilho que o pai mentalmente instável do Guilherme precisava para embarcar de corpo e alma em sua paranoia antissocialista. Quando munidas de muito poder, uma dúzia de pessoas são capazes de produzir um estrago incomensurável numa sociedade. Primeiro destruíram as perspectivas de recuperação da economia brasileira para colocar PSDB e PMDB no poder. Agora, o exército de ignorantes políticos raivosos que criaram fazem mães enterrar os próprios filhos.

Nada irá trazer o Guilherme de volta. Sua luta, no entanto, não morre com ele. Mesmo com medo de sermos mortos por nossos próprios conhecidos, enxugamos nossas lágrimas e seguimos em frente. De minha parte, fico contente em saber que tinha uma dúzia de amigos em comum com a vítima dessa tragédia horrível em que fui envolvido indiretamente. Guilherme viverá nas lembranças dessas pessoas que, assim como ele, lutam a favor da justiça social e da solidariedade entre as pessoas. Guilherme vive nelas e espero que, através da partilha de experiências e lembranças, possa viver um pouquinho em mim também. Sinto como se já vivesse, devido às semelhanças entre nós que me fazem, ao mesmo tempo, temer pela minha vida e querer continuar lutando. Continuar a luta é algo que devo ao Guilherme, assassinado; ao Euzebio, preso arbitrariamente e a mim mesmo, espancado. Podem até ter levado sua presença física, mas Guilherme está presente!

sábado, 17 de setembro de 2016

O problema do Brasil não é a Dilma; é o Setor Bueno

Estou cada vez mais convicto de que o problema do Brasil nunca foi o PT. O problema do Brasil é que o Estado deve servir a uma classe minoritária que nada produz. As grandes fortunas do país não existiriam se não fossem as generosas tetas do Estado. O PT errou, na minha opinião, por não promover um desmembramento completo disso. Enquanto o cenário externo favoreceu a economia do país, as gestões petistas na máquina federal mantiveram um sistema que favoreceu tanto os parasitas do Estado quanto o grosso da população. Com o arrefecimento da economia global a partir de 2013, o partido (mais especificamente Dilma) viu-se numa encruzilhada: ou rompia com a elite financeira que locupleta-se do Estado ou com o povo. Dilma acabou tentando servir aos dois senhores e caiu. Michel Temer surgiu em seu lugar para acabar com o tímido Estado de bem-estar social criado pelo PT. Ele está no Palácio do Planalto para promover o retorno do modelo anterior, segundo o qual todos são iguais em direitos e deveres aos olhos do Estado, mas uns são mais iguais do que os outros. O Estado possui seus filhos preferidos e Temer governa para eles. Caso o contrário, ou seja, se tivesse se mantido fiel ao programa de governo que o elegeu em 2014, o golpe teria sido dado para colocar o mau perdedor e garoto de ouro das elites, Aécio Neves, no poder. 

Meu carro não tem o direito de existir no
Setor Bueno assim como "atores petistas"
não têm o direito de viver.
Agora que o golpe foi dado, os mamadores da teta do Estado estão empoderados. Aqueles que acham que fazem parte desse grupo também. Digo isto pois, como diz um amigo meu, o brasileiro compra um carro e um apartamento no Setor Bueno (pagando consórcio durante anos e anos) e acha que faz parte da elite, que compreende aquela parcela mínima da sociedade que mantém sua riqueza intacta por mais de 400 anos. E não é que um episódio interessante ocorreu comigo justamente no dia do golpe final contra Dilma e no referido setor, o bairro de Goiânia com mais eleitores de Aécio Neves por metro quadrado. Estava eu atrasado para a minha sessão de terapia, quando passei pela Panificadora Della. Havia um carro saindo do local, mas, por estar com pressa, não dei-lhe passagem. Meu carro é um Uno Mille velho, mas que tem o mesmo direito de estar transitando pelas vias da cidade quanto o Honda Civic daquele condutor. Mas essa não é a mentalidade dos moradores daquele bairro. Eles acham que têm mais direito ao espaço público por fazerem parte de uma determinada classe social. Assim sendo, o condutor esbarrou propositalmente no meu carro, a despeito da minha buzina estar anunciando "ei, você está invadindo o meu espeço pessoal!". Eu poderia ter sido mais simpático e lhe dado passagem, mas imagina se fôssemos nos vingar de todos que não nos dão passagem no trânsito?

No Brasil pós-golpe, as leis não têm mais validade alguma. Vale a lei da rua. E a lei da rua no Setor Bueno é que aquele é um bairro de elite e que tem mais direito à rua quem tem o melhor automóvel (tadinho do meu Uno velho e batido!). Lá não está em vigor o Código Brasileiro de Trânsito, está em vigor a mentalidade do brasileiro coxinha. E digo "coxinha" (ou seja, aquele que faz parte de um grupo social, mas julga-se melhor por causa da roupa que veste na origem do termo) porque a elite goianiense não habita entre nós desde o final dos anos 1990, quando houve um êxodo dessa classe social para os condomínios fechados. O Setor Bueno é o bairro onde a classe média se reúne para achar que é rica. Os ricos de verdade estão segregados da classe média. Agora que Dilma e o PT foram solapados do poder, a mentalidade do Setor Bueno vai ganhar espaço para triunfar. Estão empoderados. A invasão ao espaço do outro por quem julga-se portador de mais direitos está apenas começando. O problema do Brasil, como sempre suspeitei, não é a Dilma e sua lambança na economia. O problema do Brasil é a mentalidade do Setor Bueno que não enxerga o outro como portador dos mesmos direitos e deveres que si próprio. E, sinto informar, a tendência é só vermos ainda mais violações em relação ao direito de existir do outro que não se encaixa nesse padrão.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Há 80 anos, fascistas matavam a poesia na Espanha


Federico García Lorca (1898–1936)
Há exatos oitenta anos, no início da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o conhecido poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado por soldados fascistas. Um mês antes de morrer, aos 38 anos de idade, Lorca havia terminado de escrever a peça A Casa de Bernarda Alba que, com Bodas de Sangue Yerma, faz parte de sua trilogia rural. A morte, presente nas três peças, é um tema artístico central de sua breve vida. Dez anos antes de ser assassinado, quando morava em Nova York e acompanhou o desespero gerado nas pessoas pela quebra da bolsa, Lorca parece ter previsto o destino violento que encontraria ao compor os seguintes versos: "Então eu percebi que fui assassinado / Me procuraram em cafés, cemitérios e igrejas / Mas não me acharam / Eles nunca me acharam? / Não, eles nunca me acharam". O mais assustador em sua premonição é que até hoje seu corpo não foi, de fato, encontrado.

Poucos artistas representaram e encarnaram o espírito coletivo de sua nação tão bem quanto Lorca – o que torna sua morte ainda mais emblemática. A morte de Lorca precedeu a censura que matou a arte na Espanha. Logo após a eclosão da Guerra Civil, em julho de 1936, Lorca tomou a decisão desastrada de deixar o seguro enclave de Madri para ficar com seus familiares em Granada, a região conservadora em que nasceu. O interior da Espanha e seus costumes fascinavam Lorca, que retratou-o em suas peças. Imediatamente após sua chegada, Granada foi sitiada pelo partido político paramilitar que orquestrou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Azaña, a Falange Espanhola. Apesar de cultivar uma imagem pública de artista apolítico, sua associação com a República, suas peças contra a repressão e algumas declarações anti-católicas em entrevistas transformaram Lorca num alvo em potencial dos conservadores. Outro fator que contribuiu para o ódio dos falangistas ao poeta era sua homossexualidade.

Lorca manteve-se escondido, mas os falangistas caçaram-no até o dia 16 de agosto, quando foi preso e condenado à morte sem base legal ou julgamento. Às três da madrugada de 19 de agosto, foi algemado a um outro prisioneiro – um professor – e lavado de carro a um prédio chamado La Colina na cidade Viznar, que a Falange havia transformado em presídio para prisioneiros políticos. Pouco após o amanhecer, Lorca foi levado para o lado de fora do edifício, onde foi fuzilado ao lado do professor e de dois toureiros, membros do sindicato anarquista CNT. Segundo uma testemunha, o poeta foi levado para uma sala antes da morte, onde foi torturado devido a sua homossexualidade. Lá, balas foram enfiadas em seu ânus. Após o fuzilamento, o corpo de Federico García Lorca, um dos maiores escritores do século XX e um dos filhos pródigos da Espanha, foi lançado sem cerimônia num barranco, que em breve se tornaria uma vala comum para as vítimas dos falangistas.

Barranco de Viznar, onde o corpo de Lorca teria sido jogado.
Após seu fuzilamento, os livros de Lorca foram queimados publicamente na Plaza del Carmen em Granada e, com a ascensão ao poder do caudilho Francisco Franco, sua obra foi rapidamente banida de todas as províncias da Espanha. Anticlericalismo, republicanismo e liberdade não eram valores que interessavam ao novo regime integralista, que promovia o nacionalismo, o militarismo, o catolicismo, o anti-comunismo e o anti-libertarismo. E a homossexualidade? Existe algo mais subversivo para um governo escorado no fundamentalismo católico da Opus Dei do que relações entre pessoas do mesmo sexo? Em 1953, uma versão censurada das Obras Completas de Lorca foi lançada. Entre as ausências mais notáveis da antologia encontra-se o poema homoerótico "Sonetos do Amor Obscuro", escrito em 1935. Este era considerado perdido até os anos 1980, quando foi publicado na forma de rascunho, uma vez que a versão final do poema jamais foi encontrada.

A última peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, só foi encenada pela primeira vez em 1945 em Buenos Aires. Vinte anos mais tarde, uma versão censurada da peça foi apresentada na Espanha, mas a censura ao resto da obra do poeta só terminou após a morte do caudilho em 1975. Durante o francoísmo, menções à vida e à morte do poeta também foram censuradas. Para a narrativa oficial dos vencedores da guerra, Lorca nunca existiu. Foi somente após a morte de Franco, em 1975, que a Espanha pôde finalmente discutir abertamente sobre a morte de um de seus maiores ícones literários. Além da censura política, havia uma relutância da família García Lorca em permitir a publicação de seus poemas e de suas peças. Era um trauma que não estavam prontos para reviver. Devido ao fato de ter se tornado um assunto proibido por 36 anos, até hoje não se sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Atualmente suas peças são encenadas frequentemente na Espanha.

Monumento em Viznar: "Lorca era todos". Era? A depender
da direita brasileira, histérica, Lorca serei eu.
Embora imagina-se que exista um dossiê sobre o assassinato de Lorca, a falta de emersão do mesmo continua a atormentar sua família. Em 2009, um juiz espanhol abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato de Lorca e a família do poeta finalmente permitiu que fosse realizada uma busca a seus restos mortais no Barranco de Viznar. Segundo Ian Gibson, biógrafo de Lorca, esta ação foi adiada por tempo demais: "Acho que é essencial encontrar o corpo, em respeito à memória de Lorca. Só sua morte renderia 100 livros... Lorca pertence à humanidade e não a sua família. Ele é um emblema que deu sua vida pela Espanha. Ele é um mártir". Apesar da iniciativa, nada foi encontrado no local. Enquanto o assassinato de um dos maiores poetas do século passado é relembrado em todo o mundo, o Brasil ataca seus poetas e deixa-se fascinar pela mesma histeria fascista que permitiu à Espanha matar sua arte e embarcar em 36 anos de trevas. Como escritor, gay e libertário (assim como Lorca) não posso deixar de me incomodar com este paralelo histórico.

sábado, 23 de julho de 2016

Viver em Cristo é viver em amor

Texto escrito em 29 de junho de 2016.

Ontem me coloquei no lugar dos cinco rapazes mortos por homofobia durante a última semana no Rio de Janeiro. É um exercício doloroso a empatia. Principalmente quando a vítima poderia muito bem ser você mesmo. Não é possível que em pleno século XXI — e com os olhos do mundo voltados para o Rio por causa das Olimpíadas — pessoas continuem sendo assassinadas por serem quem elas são, por terem o código genético que possuem. O fato é que gay is the new black em termos de opressão. Agora que é crime culpabilizar os negros pela penosa vida que o sistema capitalista lhe impõe, o povão encontrou nos LGBTs um novo bode expiatório. Junto com os imigrantes, é claro. Esqueça sobre o pagamento dos juros da dívida pública que rouba o dinheiro de nossos impostos e não contribui em absolutamente nada para o crescimento da economia; há dois homens se beijando em público na televisão e é mais importante debater costumes morais do que a extorsão de governos promovida pelo sistema financeiro a nível mundial.

Dois meses antes, Bolsonaro se converteu do catolicismo ao
pentecostalismo. Deve estar mais à vontade na nova igreja.
As cabeças cariocas fracas e pouco instruídas funcionam como oficinas de diabos como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia que, embora não tenham puxado o gatilho, deram a ordem para que puxassem. Essa seria a ordem de um Deus que não é mensageiro da paz e nem do amor, mas sim a representação do que há de pior na psique humana. Parte da culpa pela proliferação da intolerância é de quem sempre lutou contra ela. Ao priorizar mais o desenvolvimento econômico do que o social, os governos do Partido dos Trabalhadores acabaram produzindo uma legião de ingênuos úteis, que sabem tudo sobre o funcionamento de smartphones, carros e televisores e nada sobre o funcionamento da biologia ou de como deveria ser a vida em sociedade. Como minha mãe sempre diz, o poder não deixa vácuo. O vácuo na cultura e na educação foi ocupado por mercenários de almas, para quem seguir a lei judaica — de onde tiraram o famigerado "evangelho da prosperidade" — é mais importante do que ser um discípulo dos ensinamentos de Jesus Cristo.

É sintomático que Bolsonaro tenha saído da Igreja Católica romana cerca de dois meses antes do líder espiritual desta instituição milenar declarar que ela deve um pedido de desculpa aos homossexuais. A fé de Bolsonaro, assim como sua atuação parlamentar, é oportunista. Só tem serventia a ele enquanto ele puder utilizá-la para justificar sua visão torpe de mundo. Agora que não pode mais usar o Vaticano como justificativa para sua homofobia, este não lhe serve mais. Mesmo caminhando a passos mais lentos do que as igrejas protestantes tradicionais — a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceita fiéis homossexuais desde 1998  — a Igreja Católica evolui e pessoas como Bolsonaro e Malafaia são agentes anti-evolução social. A sobrevivência deles depende da manutenção do status quo. Num cenário em que todos recebam uma educação de qualidade, ninguém seria mais seduzido pelo discurso fácil deles de que os homossexuais e os haitianos são os culpados pela degradação da sociedade brasileira. Não é à toa que líderes evangélicos são entusiastas do "Escola sem partido".

Dá pra imaginar uma prostituta ungindo Malafaia?
Apesar do cenário desolador, não devemos esmorecer. Mesmo que caiam mil à nossa direita e outros mil à nossa esquerda devido ao ódio malafaiano, vamos triunfar. Porque nós sabemos o que é o amor. E a religião de Jesus não era o cristianismo, era o amor, sobretudo aos marginalizados pelo status quo de sua época. Se caminhasse entre nós, Cristo condenaria boa parte dos "cristãos" de nosso tempo e também seria condenado por eles. "Cristo" vem do grego e significa ungido, ungido que foi por uma mulher de moral duvidosa que o amava como ele a amava: incondicionalmente. Alguém imagina os principais líderes evangélicos do Brasil sendo ungidos por uma prostituta? O argentino Jorge Bergoglio — membro da Companhia de Jesus, que promoveu a evolução da Igreja com o Concílio do Vaticano, e o primeiro papa não-europeu em um milênio — com certeza seria. O que ele tenta resgatar é justamente o amor aos oprimidos presente no Evangelho. Pois viver em Cristo é viver em amor, independente da forma como ele se manifesta.

domingo, 12 de junho de 2016

Dilma, Isabel e os golpes machistas

O governo ilegítimo de Michel Temer começou com um recado claro às mulheres, de que elas não são dignas de ocuparem cargos em primeiro escalão na administração federal. Pouco tempo depois, foram anunciados retrocessos no que diz respeito à saúde reprodutiva das brasileiras. A tese de que o golpe de Estado havia sido — além de reacionário e neoliberal — machista já havia sido apresentada por mim antes mesmo de sua consolidação. Não se trata, porém, do primeiro golpe de Estado contra uma governante do sexo feminino na história do Brasil. Desde que tronou-se independente, em 1822, nosso país foi governado por apenas duas mulheres: a princesa Isabel e a presidenta Dilma Rousseff. Embora nunca tenha assumido o trono de facto, Isabel governou o país em três ocasiões (18711872, 18761877 e 18871888), durante a ausência de seu pai. Na última delas, em maio de 1888, assinou a Lei Áurea. Mais tarde foi revelado pela revista Nossa História que Isabel planejava indenizar os ex-escravos e fazer a Reforma Agrária após a morte iminente de seu pai.

Quando D. Pedro II retorna ao Brasil, no entanto, vê uma conspiração dos fazendeiros com os militares para derrubar-lhe. Tenta arrefecer os ânimos dos latifundiários com empréstimos em bancos estatais, mas foi deposto um ano mais tarde, em 15 de novembro de 1889. O golpe de Estado era, sobretudo, direcionado à princesa Isabel, uma vez que D. Pedro II estava com a saúde frágil e faleceu dois anos após o motim contra seu Império. De certa forma, pode-se dizer que a República brasileira se consolidou através de um ‪‎golpe contra uma mulher, Os machões de 1889 não aceitavam receber ordens de uma mulher. Segundo Roderick Barman, autor de Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891, "a resistência a aceitar uma mulher governante era forte na classe política. Apesar da Constituição permitir a sucessão feminina ao trono, o Brasil ainda era um país bastante tradicional, e apenas um sucessor masculino era percebido como capaz de ser um Chefe de Estado". Isto é verdade quando se analisa o que era publicado na imprensa da época.

Em julho de 1887 o jornal O Mequetrefe publicou uma charge de Isabel com uma coroa e cuidando de assuntos domésticos, dando a entender que ela não teria tempo para lidar com ambos os aspectos de sua vida. Conforme escreve Augusto Mattos, "a intenção era pôr em dúvida sua capacidade de governança. E mais: sutilmente, o jornal questionava a presença de mulheres em assuntos de âmbito público, postura bastante comum na época". Além de reforçar a visão de que as mulheres não são feitas para governar, a imprensa sustentava a visão de que Isabel não entendia das questões de Estado e que, no trono, seria mero joguete de seu marido, o conde Gaston d'Eu, que seria um espião do governo francês no Brasil. Em sua edição de 5 de junho de 1888 o jornal O Pharol escreveu que "ela faz o que o marido quer e não o que é desejo do povo; faz mais — afronta os interesses do povo para afagar os desejos do marido". Para Mattos, "o artigo busca desqualificar D. Isabel a partir de sua 'frágil condição feminina'".

Isabel também foi acusada de ser inapta
às funções do Estado por ser mulher.
A elite econômica do Brasil se ressentia com o fato de que a futura Imperatriz aboliu a escravidão. Segundo Barman, "os fazendeiros consideraram a abolição como confisco de propriedade privada". Detentores de grande poder político, econômico e social, valeram-se da visão vigente na sociedade da época, de que as mulheres deveriam submissas, recatadas e do lar, para fomentar o apoio ao golpe militar de 1889, que inaugurou uma ditadura de marechais que perdurou até 1894. Não foi à toa que, para tentar convencer a população a derrubar Dilma, a revista Veja valeu-se da mesma visão: à mulher está reservado o papel de "bela, recatada e do lar", enquanto cabe a seu marido tratar de assuntos do Estado. Em 1889, assim como em 1964 e também em 2016, a população não foi convidada a opinar sobre seu próprio destino. Assim como no período atual — em que apenas 8% prefeririam o governo imposto (Michel Temer) —, em 1889 a vasta maioria dos brasileiros eram contra a saída que lhes foi imposta.

Creio que, para além do revanchismo, as elites derrubaram o regime vigente até então para evitar novas reformas na estrutura social do Brasil. A "canetada" da princesa Isabel tirou dos fazendeiros, da noite para o dia, cerca de 720 mil trabalhadores braçais, obrigando-os a substitui-los por mão-de-obra remunerada. Quem não garantiria que futuras "canetadas" da princesa não ceifariam ainda mais privilégios deles (e, segundo a revista Nossa História, ela planejava fazer isso). Entretanto, Isabel parece convicta na defesa da reforma que promoveu. Um dia após o golpe de Estado, ela escreveu em seu diário: "Se a abolição é a causa disto, eu não me arrependo; eu considero valer a pena perder o trono por ela". Eis um outro ponto no qual o golpe atual revela-se profundamente semelhante àquele de 1889. Lula e Dilma promoveram reformas que, embora tímidas, mexeram nas estruturas da sociedade brasileira e desagradaram as elites nacionais. É preciso retirá-los do poder antes que essas reformas se consolidem e também que outras apareçam. 

É disso que se trata o governo Temer. Desmontar o modesto Estado de assistência social criado pelos petistas. Limitar o acesso à universidade, aos cursos técnicos, ao Bolsa Família, e ao crédito empresarial e habitacional, desmantelar o Sistema Único de Saúde, desobrigar o Estado de investir em saúde e educação, tudo isso sobre o pretexto de enxugar as contas do governo — enxugamento que, no entanto, não veta  a criação de 14 mil cargos federais. Se o que fez a elite do final do século XIX apoiar a queda da monarquia foi a abolição, o que fez a elite atual apoiar o golpe contra Dilma foi algo quase imperceptível por nós, reles mortais. A partir de 2011 a presidenta, que segue a escola econômica desenvolvimentista, promoveu uma queda histórica da taxa básica de juros — que atingiu 7,25% entre outubro de 2012 e março de 2013. Sua intenção era tornar o mercado especulativo menos atrativo e, assim, fazer com que aumentassem os investimentos na indústria nacional. Atraiu a ira do mercado financeiro, que tornou-a persona non grata para sempre, mesmo se depois ela tentou fazer as pazes através da nomeação de Joaquim Levy (Bradesco), como ministro da Fazenda.

A classe média, por sua vez, começou a se indispor com Dilma assim que o governo dela aprovou a PEC das domésticas, que regularizou uma situação de trabalho precária — e análoga àquela dos escravos que serviam à Casa Grande — num país onde a evolução social ocorre de maneira sempre muito lenta. De certa forma, a presidenta concluiu uma reforma que a princesa iniciou, libertando as amas-de-leite e as mucamas da servidão e dando-lhes a dignidade que sempre lhes foi negada por aqueles de pele mais clara. No final do mesmo ano, a presidenta decidiu trazer médicos cubanos (quase todos negros) ao país para atuar nas regiões (quase todas negras) nas quais os médicos brasileiros (quase todos brancos), formados em universidades mantidas com os impostos pagos por todos nós (brancos e negros), se recusam em atuar. Foi então que começou a se tornar aceitável criticar Dilma pelo simples fato dela ser uma governante mulher. No ano seguinte, um bilhão de telespectadores viam a elite brasileira mandar uma senhora de 67 anos tomar no cu.

Se as críticas à princesa Isabel eram mais contidas, não eram nem um pouco menos machistas do que aquelas sofridas por Dilma. Em artigo publicado em 4 de dezembro de 1887, o jornal Gazeta Nacional busca desqualificar a futura Imperatriz como portadora de uma "frágil condição feminina" que seria incompatível com o exercício do poder. Qualquer semelhança com a capa da Istoé denunciando as "explosões nervosas da presidente" — algo que no macho Temer foi ressaltado como demonstração necessária de força — como incompatíveis com o exercício do poder não é mera coincidência. Tanto Isabel quanto Dilma foram vítimas de golpes de Estado onde o machismo foi uma força importante de desestabilização do regime que elas, mulheres, representavam. Lembro-me bem de um dos programas da campanha eleitoral de Dilma em 2010. Foram relembradas uma das grandes personagens femininas da história do Brasil. Uma delas era justamente a princesa Isabel. Por ser republicano e eleitor de Dilma, a comparação com um ícone do monarquismo me incomodou. No entanto, faz cada vez mais sentido a analogia entre ambas.

Até quando a mídia vai criticar mandatárias por causa de sua
condição feminina? Uma características vista como boas em
machos como Temer é apontadas como defeito em Dilma.
Ao ser entrevistada por Mariana Godoy em programa exibido pela RedeTV! na última sexta-feira à noite, Dilma disse que suas agruras são bem piores do que as de outros presidentes. "É pior porque sou mulher", alfinetou a presidenta deposta, numa resposta interessantíssima da entrevista que a entrevistadora não procurou desenvolver. O problema de Dilma e de Isabel não é terem sido governantes mulheres. O problema delas foi terem sido mulheres reformadoras. Ao forçar a renúncia do Barão de Cotegipe do Conselho dos Ministros e substituí-lo pelo abolicionista João Alfredo, a princesa mudou de maneira irrevogável a nossa história. De maneira semelhante, Dilma concedeu direitos irrevogáveis às domésticas. Não é verdade que a classe dominante do Brasil não convive muito bem com mulheres em posição de comando. O que ela não aceita são mulheres que — ao contrário de Yeda Crusius — mexam em suas estruturas arcaicas. Elas dão mau exemplo para as demais mulheres. Precisam ser combatidas. Não é à toa que o ideal de mulher "submissa, recatada e do lar" voltou à tona agora, 130 anos depois de sua primeira aparição na imprensa brasileira.

Embora ainda permaneça nebuloso se Isabel ambicionava governar o Brasil ou se seu suposto desinteresse pela política é uma construção historiográfica dos vencedores da disputa pelo Estado, a outra única vez em que o país teve uma chefa de Estado ela foi deposta antes mesmo de assumir o cargo de facto graças, em parte, a uma extensiva campanha machista de seus opositores. Recordam-se quando circulava pela rede um meme sexista que objetificava a esposa do então candidato à presidência Aécio Neves, comparando-a à presidenta Dilma e dizendo que deveríamos votar no tucano para que o Palácio da Alvorada fosse novamente habitado por uma mulher bonita? Pois bem, segundo Roderick J. Barman, "'aquela medonha condessa d’Eu' foi o comentário de um observador, em 1891", dois anos após o primeiro golpe que rompeu a ordem constitucional do Brasil. Não sei porque achamos que a história seria diferente quando outra mulher tivesse a oportunidade de retomar o legado reformista — interrompido pelos machões — de Isabel.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bancada cristã: me incluam fora dessa

Parte de mim sente-se na obrigação de pedir desculpas aos cidadãos brasileiros pelo episódio grotesco promovido no último domingo pela bancada cristã na Câmara dos Deputados durante a votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Teve deputado dito "cristão" exaltando um notório torturador do regime militar, teve uma overdose da utilização do santo nome em vão e teve até mesmo deputado católico negando a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil por esta ter se posicionado ao lado de nossa frágil democracia. Quero muito pedir desculpas, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada a ver com aquilo. Minha igreja não deturpa o Evangelho para tornar seus líderes ricos e influentes politicamente. Justo ao contrário, ela prega o Evangelho social de Jesus Cristo, acolhendo a todos e se posicionando a favor das liberdades democráticas do povo brasileiro. Minha igreja está do lado do povo.

Num artigo recente para o Huffington Post, a professora de inglês Mary Ann Ware enumerou dez estereótipos comuns sobre os cristãos, que as denominações neopentecostais tanto ajudam a propagar. Muitas vezes sou vítimas desses estereótipos sem comungar com o discurso dessas igrejas. Graças a incendiários de orixás e espancadores de crianças candomblecistas, os não-cristãos têm uma imagem muito negativa de nós. Se pudesse, eu mesmo proibia essas pessoas de usarem o rótulo "cristão". Elas sofreram lavagem cerebral e foram levadas a crer que só o caminho delas leva a Deus. No entanto, nem todo mundo que escolhe ser cristão tem a mente fraca. Eu, por exemplo, escolhi minha própria igreja e meu QI é superior ao de 70% da população mundial. Não nego a ciência e a evolução das espécies e jamais compraria a "fragrância de Jesus" que deixa televangelistas podres de ricos. Também nunca votaria num candidato de extrema-direita porque o pastor mandou.

Assim como Dilma Rousseff,
Jesus também foi torturado.
Não faço do meu cristianismo uma questão de ativismo. Sim, o que Jesus pregou tem muito a ver com a atualidade, em especial com as desigualdades sociais — e o Papa Francisco expõe isso de maneira brilhante. No entanto, usar o nome de Cristo para defender seu ponto de vista é admitir que suas ideias são tão frágeis que não se sustentam sem o manto da religião. O debate político, que deveria pertencer a todos os cidadãos, vira uma questão exclusiva de quem crê em Deus. E logo bandidos que não têm nada a ver com a mensagem de Cristo se escondem sobre esse manto. Duvido muito que o nazareno, vítima de tortura dos romanos, faria campanha para o mais novo garoto-propaganda do Partido Social Cristão (PSC), Jair Bolsonaro, que saudou o torturador de Dilma, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ao falar ao microfone no último domingo. Um cristão de verdade ama seus inimigos e não se vale do episódio mais brutal de sua vida para humilhá-lo.

O que se viu na Câmara dos Deputados no domingo foi um escárnio aos valores cristãos. Foi, nas palavras do deputado Chico Lopes, um "encontro de bons maridos e bons pais". Seres humanos quase perfeitos diante de uma Dilma Rousseff imperfeita. Conforme escreve Mary Ann, "a ideia principal do cristianismo é que Deus estende a nós sua graça e seu perdão através de seu filho". Ora, seres perfeitos, pais e maridos exemplares, não precisam de perdão, logo não são cristãos. Felizmente a máscara da perfeição da bancada cristã não demorou a cair. Um dia após a votação o marido da deputada Raquel Muniz — eleita pelo PSC e hoje no Partido Social Democrático (PSD) — foi preso pelos crimes de estelionato, prevaricação, peculato, falsidade ideológica e dispensa de licitação pública. Seria retribuição divina por tantas violações ao 3° mandamento (2° na tradição católica) num curto período de tempo?

É fácil perder a paciência com quem se esconde sob o manto
religioso para agredir quem tem outra concepção de mundo.
A situação deplorável do Congresso se dá porque muitos acreditam que ser cristão é um atestado de bons antecedentes criminais. Me recuso a acreditar em qualquer candidato (e cidadão) só porque ele diz ser cristão. Saber citar versos bíblicos não significa nada. Que lindo você saber que o Levítico condena os homossexuais, mas você sabia que o próprio Jesus Cristo o violou? Jesus foi enviado a este mundo para reformar a lei judaica e em sua comitiva aceitava a participação de ex-prostitutas e ladrões. Enquanto Jair Messias Bolsonaro gritava "queima-rosca" para Jean Wyllys enquanto este votava, o outro Messias disse a uma turba de homens prestes a linchar uma prostituta que eles não poderiam julgá-la porque não eram Deus e também tinham seus muitos pecados. Noutra ocasião, disse "não julgueis para não serdes julgados", lembrando que somos medidos com a mesma régua que usamos para medir os outros. E foi assim que um empurrão deu origem a uma cusparada.

Por fim, a obsessão dos cristãos — fora e dentro do Congresso — com questões de ordem "moral" é fascinante. Como se existisse uma única "moral" que deveria se aplicar a todos os 200 milhões de brasileiros, muitos dos quais nem são cristãos. Dentro do próprio cristianismo existem várias morais. Apesar do culto debochado de domingo na Câmara e da cruz pendurada no plenário do Supremo Tribunal Federal, o Estado brasileiro ainda é laico e impor um único conjunto de valores morais à totalidade da população é inconstitucional — se bem que derrubar presidente sem crime de responsabilidade também é. Nem o próprio Jesus andava só com aqueles que possuíam os mesmos valores que ele. Como ser iluminado que era, ele sabia que é na diferença que crescemos. Viver numa bolha contraria os ensinamentos de Cristo. Mas parece que isso é o de menos para deputados que violam muitos senão quase todos mandamentos enquanto se escondem sob legendas ditas cristãs.

Sim, sou cristão, mas minha turma é outra.
Por mais que o escárnio religioso de domingo me entristeça, não tenho porque pedir desculpas por aquilo. Fui criado na Igreja Católica e ano passado decidi abraçar a fé anglicana. Sequer conheço o conjunto de crenças dos evangélicos, a não ser aquilo que a mídia apresenta. O censo do IBGE me classifica como um "evangélico", embora comparar a Igreja Anglicana às principais denominações evangélicas do Brasil equivale a comparar o Partido da Causa Operária (PCO) ao Democratas. Temos outra visão de mundo, outra concepção do que significa ser cristão. A fé deles foi individualizada, afastada do contexto social pelo neoliberalismo, e isso está nítido nas declarações dos membros da bancada dita cristã ao votar pelo afastamento de Dilma Rousseff — "pela minha família", "minha esposa", "meus filhos", "meus pais", etc. Minha fé, por sua vez, não é individualista, portanto não me exijam um pedido de desculpas; sou cristão, mas não sou responsável pela bancada cristã e estou tão chocado quanto um não-cristão.