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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma

A grande mídia adora encomendar pesquisas, mas nunca traduz direito para seu público os números que ela mesma encontra nessas sondagens. Talvez por que não seja do seu interesse fazer uma manchete dizendo "PSDB perde 24 milhões de eleitores em quatro anos". Pois bem, me propus a fazer o serviço que as redações dos grandes jornais não fazem com os dados que têm em mãos. Considerando a média das pesquisas Datafolha (29—30/11), DataPoder 360 (8—11/12) e Paraná Pesquisas (18—21/12), cheguei aos seguintes percentuais de intenção de voto em cada um dos principais candidatos à presidência da República em 2018:

Lula (PT): 30%
Bolsonaro (PSL): 20%
Marina (Rede): 8,5%
Alckmin (PSDB): 7%
Ciro (PDT): 5,5%

Outros nomes testados pelos institutos de pesquisas — como os do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (sem partido), o do senador Álvaro Dias (Podemos), o do ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSDB), o do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) e o do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) — teriam, juntos, 11,7% dos votos. Isso faria com que uma média de 82,7% dos eleitores pesquisados decidissem pelo voto válido na próxima eleição. A soma de votos brancos e nulos e abstenções chegaria a 17,3% do eleitorado.

Faltou combinar com o povo. Apesar do fim do PT ter sido
anunciado diversas vezes, Lula teria 1,6 milhões de votos a
mais do que Dilma se a eleição fosse hoje.
E, por falar em eleitorado, foi preciso fazer uma estimativa deste para chegar ao número exato de votos que cada candidato a presidente teria caso a eleição de outubro ocorresse hoje. Em 2016, ano das últimas eleições municipais, o Brasil tinha 144.088.912 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número cresceu 4% em relação àquele de 2014. Se o número de eleitores em 2018 também apresentar um crescimento de 4% em relação ao de 2016, teremos em nosso país, no próximo mês de outubro, 149.852.466 eleitores aptos a votar. Lembrando que este número é uma estimativa. Pode ser maior ou menor no dia da eleição, após os eleitores regularizarem (ou não) sua situação junto à Justiça Eleitoral.

Vamos então aos números. Se as pesquisas estiverem certas e as eleições fossem hoje, teríamos o seguinte resultado no primeiro turno:

Lula (PT): 44.955.740
Bolsonaro (PSC): 29.970.493
Marina (Rede): 12.737.459
Alckmin (PSDB): 10.489.673
Ciro (PDT): 8.241.886


Os demais candidatos teriam, juntos, 17.532.738 votos. Isso significa que 123.927.989 eleitores fariam sua escolha pelo voto válido, o que representaria 82,7% do eleitorado total. Votos brancos e nulos e abstenções seria a escolha de 25.924.477 eleitores ou 17,3% do total.

Fazendo a ressalva de que não é possível, pela metodologia de alguns dos institutos, diferenciar o voto nulo e branco da abstenção, teríamos o seguinte percentual de votos para cada candidato:

Lula (PT): 36,27%
Bolsonaro (PSL): 24,18%
Marina (Rede): 10,28%
Alckmin (PSDB): 8,46%
Ciro (PDT): 6,65%
Outros candidatos: 14,15%

Em relação ao primeiro turno de 2014, teríamos que o candidato do PT teria um percentual menor de votos do que Dilma Rousseff, mas ainda assim Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma. Marina Silva, por sua vez, reduziria se percentual de votos pela metade e teria 9,4 milhões de votos a menos do que em 2014. Já o candidato do PSDB apresentaria uma queda de 25 pontos em relação ao percentual obtido por Aécio Neves em 2014. Em números absolutos, Geraldo Alckmin teria 24,4 milhões de votos a menos do que o senador mineiro. Não é possível traçar um paralelo entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, visto que seus partidos não lançaram candidatos em 2014.

Parece ter ocorrido uma pulverização do apoio às forças hegemônicas da política brasileira nos últimos 16 anos — mais acentuado no PSDB do que no PT. Isto se reflete pela grande quantidade de candidatos que se apresentam à população. Esta deve ser a eleição com mais candidatos desde o pleito de 1989, o primeiro após o fim da ditadura militar e que contou com 22 candidatos, inclusive o próprio Lula. Os candidatos de partidos menores conquistariam cerca de 17,5 milhões de votos se a eleição fosse hoje. Um aumento de quase 14 milhões em relação a 2014. Com mais candidatos na disputa, a abstenção e a soma de votos bancos e nulos deve cair, sendo a opção de 13 milhões a menos de eleitores brasileiros em 2018 em relação a 2014.

Num cenário de pulverização dos partidos tradicionais,
Jair Bolsonaro desponta em segundo lugar nas pesquisas.
Contanto, este é um retrato do cenário atual. Embora já tenha voltado suas baterias contra Lula, Bolsonaro e, mais recentemente, Ciro Gomes, a grande mídia ainda não começou sua tradicional campanha a favor do candidato do PSDB ou de qualquer outro partido liberal que lhe agrade ainda mais que o governador paulista Geraldo Alckmin. Este, por sua vez, demonstrou-se demasiadamente fraco no pleito de 2006, uma eleição que, segundo o relato de seu biógrafo Richard Bourne, o próprio Lula considerava perdida para o PSDB. Desanimado, o ex-presidente sequer engajou-se em sua própria campanha, tendo até mesmo faltado aos debates do primeiro turno na televisão.

De qualquer forma, estes dados são interessantes para a confirmação ou negação de algumas hipóteses que tem sido ventiladas desde o início da atual crise sociopolítica no país. A ascensão da extrema-direita de Jair Bolsonaro às custas dos liberais é uma delas. Tucanos e seus aliados atacaram as políticas do Estado brasileiro durante os 13 anos dos governos petistas, imaginando que colheriam os frutos disso, mas pavimentaram o caminho para reacionários que desejam ver implementado o conservadorismo não só na política econômica. O centro político — tanto a centro-esquerda representada pelo PT quanto a centro-direita representada pelo PSDB, passando pelo fisiologismo do PMDB — está em baixa e Bolsonaro parece ter tirado votos até mesmo da moderada Marina Silva. Antes, quem estava cansado da polarização PT—PSDB votava na centrista. Hoje, num precedente perigoso para a democracia brasileira, vota num radical de direita.

Mesmo com a desintegração de partidos e políticos tradicionais, exemplificado pela ascensão de Bolsonaro e diversos candidatos de partidos pequenos, o suposto fim do PT, anunciado diversas vezes na capa da Veja, parece estar longe de ocorrer. Escorado na figura de seu eterno líder, o partido ainda possui o potencial para conquistar quase 45 milhões de votos. Embora acossado por diversas denúncias e uma condenação na Lava Jato que pode lhe tirar da disputa, Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma se a eleição fosse hoje. Se a ascensão do fascismo ou o favoritismo do PT vão se manter uma vez que a campanha começar e a pregação pró-liberalismo da grande mídia e seus reprodutores nas redes sociais se intensificar são questões que só o tempo dirá. Entretanto, o cenário atual e com o qual políticos e militantes deveriam trabalhar, é o de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Chamam-nos de selvagens

Ontem assisti ao filme Sangue Vermelho (Call Her Savage), o penúltimo estrelado pela "it girl" original Clara Bow. Na produção, lançada em novembro de 1932, a jovem Nasa Springer — para seu desgosto e de sua família — não consegue se adaptar às normas sociais. Ela comete uma série de decisões erradas durante a vida, sendo deserdada pelo pai milionário, até que descobre, no leito de morte da mãe, que é cabocla. Seu verdadeiro pai era um bravo líder indígena com quem sua mãe manteve relações durante uma das viagens de negócios de seu esposo. O filme flerta com a ideia de que os ameríndios são guerreiros por natureza e que, por isso, aqueles que possuem sangue indígena têm maior dificuldade em se adaptar às normas sociais estabelecidas pelos brancos.

De fato, os brancos definem o que é ser civilizado. Trabalhar oito horas por dia para garantir o lucro dos outros, passar 1/3 da vida no trânsito, comprar frango engordado à base de anabolizantes no supermercado, aplaudir as ações da PM mostradas na TV, protestar contra presidente que acaba com a fome e fazer silêncio sobre presidente que recebe mala de dinheiro, passear em shoppings nos fins de semana, dormir à base de remédios para não pensar nas coisas horríveis que dizemos e fazemos uns aos outros no dia a dia. Isso é a civilização. A todos aqueles que vivem de outra maneira, seguindo outros valores que não a busca desenfreada pela acumulação de dinheiro e pela dominação dos outros seres vivos que habitam nosso planeta, chamam de loucos. Chamam-nos de selvagens.

Chamam-nos de selvagens porque não podem
nos subjugar.
Esse é o nome do filme em inglês. Nasa é chamada de selvagem por um pretendente rico porque bateu na mulher que desonrou a memória de seu filho, morto num incêndio. Pessoas civilizadas não extravasam suas emoções em público. Elas engolem suas frustrações a seco para depois resolvê-las de maneira mais privada, seja insultando estranhos, desenvolvendo uma úlcera ou viciando-se em remédios ou outras adicções da moda. Pessoas civilizadas não falam o que pensam ou sentem e jamais reagem à altura das ações às quais foram submetidas. O cidadão-modelo é a Marcela Temer — "bela, recatada e do lar", segundo a revista Veja — ou o Rodrigo Hilbert, brilhantemente desconstruído pelo PC Siqueira nesse vídeo. Ambos brancos e privilegiados num país de caboclos pobres. Pois eu não consigo ser assim.

Tenho muito de Nasa em mim. Infelizmente, para essa sociedade doentia — que, hipócrita, prefere patologizar quem aponta os seus erros ao invés de fazer auto-crítica — e felizmente, para mim — que não vou aceitar os rótulos dela. Talvez isso se dê porque eu também tenho sangue indígena correndo em minhas veias. Independente do motivo, a norma social imposta pelos brancos no continente americano me entedia no campo dos costumes e me revolta no das relações sociais. Mais do que a morte até. Não só não a sigo como também ridicularizo-a. Se eu tentar me encaixar nela, estarei traindo o meu próprio espírito. Mas sou confiante. Se Nasa não precisou fazê-lo para encontrar seu "happy ending" no final do filme, penso que eu também não irei precisar fazê-lo.

Se tem algo que precisa ser revisto é esse modelo de organização da sociedade e não aqueles que não se conformam com ele. Como dizia Bertolt Brecht, chamam de selvagem o rio que tudo arrasta, mas nada dizem das margens que oprimem-no. Tudo aquilo que não pode conter e que não consegue oprimir, a sociedade rotula. O establishment já praticamente dizimou os índios mas, para seu azar, seu sangue guerreiro permanece mais vivo do que nunca. Toda vez que alguém se recusa a oprimir os que já nasceram fodidos, uma banana é dada à civilização branca. Pois eu não quero ser civilizado se ser civilizado significar reproduzir a norma social vigente. Não devo obediência a assassinos — reais ou potenciais — e seus cúmplices, que não vêem nada de errado em caçar os membros mais frágeis da sociedade. Vão ter que me chamar de selvagem!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O assassino de reputações

O algoz e sua vítima.
No mesmo dia em que fui surpreendido com a notícia de que a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva veio a óbito cerebral, recebo a notícia de que a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) indicou o nome de Sérgio Moro para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) após a morte de Teori Zavascki. O algoz de Marisa é realmente considerado por um grande número de pessoas como alguém competente para assumir o mais alto cargo da magistratura nacional. Moro pode não ter sido o responsável pela morte física de Marisa, mas ele tem sua parcela de culpa sim. Aliado aos veículos de comunicação que alimenta com suas denúncias e vazamentos, ele matou a reputação e a imagem pública dela. Colocada sob o estresse de ser ré num caso de corrupção envolvendo políticos e empresários — e ela nunca foi nenhum dos dois —, Marisa sucumbiu à pressão e foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) na semana passada.

Independente da minha opinião pessoal sobre Lula, eu duvido muito que Marisa operasse um esquema de corrupção na Petrobrás. Ela sempre foi uma figura caseira e discreta durante a presidência do marido. Nem mesmo a política de assistência social do governo, área tradicionalmente destinada pelos presidentes às suas esposas, teve o interesse em assumir. Suponhamos que Lula tenha sido de fato o maior ladrão da história do Brasil, como bradam esclarecidíssmos motoristas de táxi, comediantes fracassados e roqueiros decadentes. Se for o caso, que diabos Marisa tinha a ver com a corrupção do marido? No máximo seria sua cúmplice. A conclusão mais óbvia então é que Moro tornou Marisa ré para atingir Lula. Talvez como uma forma de pressioná-lo a confessar seus crimes. Só que ela teve morte cerebral decretada, evidenciando não só o fracasso da estratégia, como a imoralidade do modus operandi do juiz e de seus aliados no Ministério Público Federal (MPF).

O "herói" anti-corrupção de amplas parcelas da sociedade brasileira — que troca confidências a pé de ouvido com o senador mineiro Aécio Neves (PSDB), notório rival político de Lula e acusado de desvio de verbas na construção da obra da Cidade Administrativa em Belo Horizonte — fez algo que nem mesmo a máfia ítalo-americana consideraria ético. Trata-se de uma violação do sétimo mandamento do código de conduta da máfia siciliana: "as esposas devem ser tratadas com respeito". De acordo com o testemunho de Pentito Antonino Calderone, ex-mafioso, há regras para não mexer com as esposas de outros mafiosos. Mas os brasileiros não só não percebem isso como ainda acham que os meios imorais justificam os fins supostamente moralizantes de seu mais novo herói. O quão perigoso é para a democracia brasileira que esteja sendo considerado para assumir uma vaga no STF um juiz que, para atingir seus objetivos, age de maneira que nem mesmo mafiosos agiriam?

Que me perdoem as pessoas que pediram para não transformarmos a morte cerebral de Marisa num ato político, mas eu preciso desabafar. Preciso muito traduzir minha indignação. Preciso dar nomes aos bois e dizer que Sérgio Moro e seus aliados acríticos no MPF e na imprensa são assassinos de reputações que tiveram sim sua parcela de culpa pelo suplício de Marisa Seus métodos duvidosos de investigação e obtenção de delações — que, repito, não seriam usados pela máfia — encurralam as pessoas que investigam de tal modo que elas literalmente morrem de estresse. Tudo isso precisa ser denunciado. Já que nossa democracia só afunda (segundo a própria Economist, que era a fonte preferida de dez em cada dez antipetistas durante os últimos anos do Governo Dilma) e temos um grupo de déspotas que se dizem "apolíticos", mas que cobram lisura apenas de um lado do espectro político, ditando os rumos de nosso país, cabe a nós, pessoas comuns, denunciar essa situação.

Eu não elegi Sérgio Moro para nada. Na verdade, ninguém elegeu, nem mesmo os entusiastas do "Morobloco". No entanto, quem paga o altíssimo salário dele, acima do teto constitucional, sou eu. E eu estou cansado de ver um juiz atuando como assassino de reputações de pessoas ligadas a um único grupo político. Às vezes com denúncias bem fundamentadas, o que é louvável, mas outras vezes não. A parcialidade do juiz rende-lhe prêmios das Organizações Globo e da moribunda revista Istoé, o que alimenta seu ego narcisístico, mas custa-lhe a sobriedade necessária para atuar na magistratura. Parafraseando Marisa num áudio vazado pelo juiz com o intuito único de prejudicá-la, visto que não havia relevância nenhuma no diálogo dela com o filho para as investigações que ele conduzia, que Moro "enfie no c*" todos esses prêmios e vire um juiz de verdade. Que combata a corrupção de todos os políticos e não só daqueles que lhe garantirá espaço na Veja. Que deixe de ser um assassino de reputações e vire o curandeiro de um país dividido entre os que têm corruptos de estimação à esquerda e aqueles que têm corruptos de estimação à direita.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O "Escola sem Partido" não começou hoje – é parte da nazificação do Brasil

Ele. Deputado federal Izalci (PSDB-DF).
Muitos amigos, principalmente aqueles ligados às ciências humanas, estão chocados com o projeto de lei 867/2015, de autoria do deputado federal Izalci (PSDB-DF), que institui o programa "Escola sem Partido". Não estou assim tão chocado. Lembro-me bem quando essa história de que há "doutrinação marxista" nas escolas brasileiras começou. Foi em agosto de 2008 e eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo da PUC-GO (então UCG). A revista Veja distanciava-se cada vez mais da narrativa factual da vida brasileira para se tornar o panfleto semanário oficial dos opositores do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A linha editorial da revista deixou de ser formulada por jornalistas para ser ditada por militantes políticos de extrema-direita, discípulos do astrólogo e autodenominado filósofo Olavo de Carvalho, tais como Reinaldo de Azevedo e, posteriormente, Rodrigo Constantino. Um ano depois, o Supremo Tribunal Federal decidiu que para exercer o ofício de jornalismo não é preciso diploma de curso superior em comunicação social. Desde então, tornou-se cada vez mais recorrente a invasão da narrativa factual dos acontecimentos, ouvindo-se todos os lados de um assunto, por um discurso de pânico recauchutado do macartismo.

O que aconteceu, sem maiores delongas, foi o seguinte: um repórter da referida revista veio até Goiânia, onde assistiu a uma aula de história para alunos do ensino médio no Colégio Ateneu Dom Bosco. Trata-se de uma das mais tradicionais escolas privadas da capital goiana, de orientação católica romana e frequentada sobretudo por jovens oriundos de lares de classe média. Ao invés de simplesmente relatar o que ocorreu na sala de aula, o repórter escreveu uma matéria completamente tendenciosa, acusando o professor de tentar doutrinar seus alunos. O professor em questão discutia os efeitos nefastos do capitalismo sobre a experiência humana – algo que alguém que já ouviu os discursos do Papa Francisco perceberá que é completamente compatível com a doutrina social da Igreja, que nada tem de marxista. A discussão havia começado após os alunos terem ouvido a música "Homem Primata" da banda oitentista Titãs. Trata-se de uma canção extremamente popular, que foi a 25ª música mais executada nas rádios brasileiras no ano de 1987. O Titãs não é uma banda que se autodeclara comunista como o Rage Against The Machine e só porque eles têm uma música que critica o capitalismo liberal não significa que são comunistas. Podem ser capitalistas keynesianos.

Seguindo a lógica da Veja, os Titãs são comunistas perigosos
que deveriam ser banidos da rádio por doutrinação marxista.
O repórter responsável pela matéria fez uma grande flexão intelectual para ligar os versos "Ô, ô, ô / homem primata / capitalismo selvagem" aos cursos de pedagogia e à obra do pedagogo Paulo Freire, que ele mesmo julgou nula. Freire sequer é amplamente estudado nos ambientes acadêmicos. E, por falar nisso, uma das lições mais importantes que aprendi na faculdade é que "o jornalista só fala através de suas fontes". O repórter da Veja fez pior: valeu-se da boa fé de sua fonte para desmerecer o trabalho pedagógico de um professor que, a despeito de estar inserido num ambiente conservador, conseguiu iniciar um debate com seus alunos sobre a realidade que os cerca para além dos muros dos prédios onde vivem. O também católico Hélder Câmara resumiu bem a hipocrisia brasileira: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo, mas quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista". Debater os problemas gerados pelo capitalismo – e nenhum sistema econômico é perfeito – é algo perfeitamente normal. É o que democratas estão fazendo nesse exato momento na Convenção Nacional do Partido Democrata. Promover uma discussão sobre o capitalismo liberal, que sequer é a única forma de desenvolvimento capitalista, está longe de ser doutrinação marxista.

Mas qual é o problema em debater as diversas formas de organização econômicas já existentes e propostas? O problema é que o debate torna os alunos conscientes para o fato de que o capitalismo liberal não é a única forma possível de organização econômica da sociedade. Questionar a realidade que nos é imposta incomoda os representantes do status quo. Os donos da Veja só são ricos graças ao capitalismo liberal. Mesmo o capitalismo estatista ou keynesiano desagrada-lhes. Querem que a sua seja a única revista presente nas salas de espera de consultórios médicos e salões de beleza. Lula subiu no ringue com a revista quando decidiu reduzir sua verba de publicidade para desenvolver a mídia independente e regional. A revista Veja, ao contrário do que insinua seu slogan, não é indispensável para se tornar bem-informado e inteligente. Ela mantém seus leitores na ignorância ao retratar todos aqueles que são contra o capitalismo liberal como comunistas comedores de criancinhas. E preocupa-lhe que alguns agentes sociais estejam esclarecendo as pessoas sobre as diferentes formas de organização econômica diferente daquela que é a sua preferida. A Veja tem medo que as pessoas se tornem esclarecidas e ela se torne dispensável.

À Veja não interessa que seus leitores saibam que o modelo
atual de capitalismo promove a desigualdade de renda.
E se algum daqueles jovens no Ateneu decidir que quer trabalhar como médico na periferia? É o fim da rígida sociedade de castas à brasileira. Para manter os privilégios de uns poucos no capitalismo liberal, a maioria deve ser sacrificada. Isto está ficando cada dia mais claro, inclusive nos Estados Unidos. Este é um dos fatores que ajudam a explicar o fenômeno que é Donald Trump. Sim, ele é bilionário, mas se apresenta como o candidato do anti-status quo. E ninguém chamaria-o de comunista. Ser contra as coisas como elas estão está muito, muito longe de ser comunista. O próprio Paulo Freire, figura tão execrada ultimamente em seu país, estava longe de ser um militante comunista. Ele baseou sua análise sobre a forma de organização da sociedade em Marx, é claro, mas isso não transforma alguém automaticamente em comunista. De forma semelhante, sua obra agora é a terceira mais citada em trabalhos acadêmicos de universidades estadunidenses, o que não significa que os acadêmicos sejam marxistas ou sequer freirianos. Além do mais, Freire era membro do Partido dos Trabalhadores que, no poder, mostrou ser um tradicional partido social-democrata, ou seja, que promove o capitalismo estatista. E foi justamente isto que me atraiu no PT.

Aqui é permitido ler e discutir a obra freiriana.
Em 2010, quando passei um mês no Canadá, em intercâmbio, vi A Pedagogia do Oprimido numa estante da livraria da Universidade de Victoria. Imediatamente lembrei-me da ofensa proferida contra Freire no panfleto político da Editora Abril. Fiquei emocionado por ver um brasileiro que não era jogador de futebol sendo reconhecido no exterior. Ao mesmo tempo, fiquei triste pela forma como ele é tratado pelos pseudointelectuais do Brasil. Pensei comigo mesmo: precisei vir a 10.000 quilômetros de casa para finalmente ver Paulo Freire sendo reconhecido pela revolução que propôs na pedagogia e que serviu de modelo para o sistema educacional dos países escandinavos – países capitalistas estatistas, diga-se de passagem –, mas jamais para seu próprio país. Aqui damos crédito àqueles que querem livrar a escola de uma suposta "doutrinação marxista" sem nem saber explicar por quê. Não há como manter um debate inteligente com quem quer interditar o debate baseando seus argumentos numa revista que, a despeito de estar presente em todas as salas de espera do país e também nas salas de aula do estado de São Paulo, não consegue sobreviver sem a teta generosa da Secom e teve que promover um golpe de Estado para não ir à falência.

Essa história de "Escola sem Partido" não começou hoje, infelizmente. Estamos presenciando apenas o seu apogeu. Tudo começou quando a mídia brasileira decidiu agir como um partido político, dando espaço para pseudointelectuais como Constantino e Azevedo e permitindo que eles atacassem a nata do pensamento acadêmico pátrio para prejudicar o PT. Também deve-se destacar a guinada à direita do PSDB, que percebeu que teria mais chances de derrotar o PT se apostasse no neoconservadorismo. No meio disso tudo está a classe média, que, ansiando por uma mudança ainda maior do que aquela que os governos do PT propiciaram, permitiu ser utilizada como massa de manobra das forças conservadoras. No entanto, os idiotas úteis não estão voltando para os braços do PSDB. Já perceberam seu jogo sujo e se desencantaram com a política como um todo. O resultado final do processo de destruição do PT – indesejado pelas forças conservadoras da mídia e da política – é a nazificação do Brasil. E o nazismo não é muito exigente ao escolher suas presas. Não adianta falar "não somos do PT". Vai ser preciso provar, pois o maior desejo do nazista é eliminar seus inimigos e qualquer desculpa serve para justificar sua sede de extermínio. Enxergam apenas o que querem, pois bebem sempre a água da mesma fonte.

O nazismo não é muito exigente com suas vítimas.
Uma dessas fontes é a Veja, que, em medos da década passada, decidiu que seria uma revista feita por e para comentaristas de portal. A política nunca deveria ter se tornado o reino das emoções. Até líderes de organizações criminosas sabem que a pior coisa que se pode fazer é agir no calor do momento, pois os resultados são difíceis de serem previstos. Mas a mídia brasileira, que nunca sobreviveu sem a verba de publicidade dos governos decidiu arriscar e colocar esse elemento na política. A Veja foi a pioneira, justamente por ser a que mais corria o risco de desaparecer, junto com o resto da mídia impressa. Podem até sobreviver, mas não pagarão o preço por terem introduzido as emoções, principalmente o ódio, na político. Nós, as vítimas do ódio, é que vamos pagar esse preço. Busco, cada vez mais, colocar a razão na frente da emoção. Meu crescimento enquanto ser humano depende disso e não estou disposto a retroceder porque alguns idiotas úteis decidiram que o PT e a esquerda seriam a válvula de escape para todos os problemas do universo conhecido e desconhecido. É uma tarefa cada vez mais homérica. Qualquer que seja o resultado dessa história de "Escola sem Partido", já perdemos, pois permitimos que nossos instintos mais básicos entrassem no debate político.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Tentativas de afastar a presidente do Brasil são sexistas


Os ataques sexistas à presidenta Dilma Rousseff começaram durante os protestos antigovernamentais de 2013. Foi a primeira vez em que vi pessoas atacando Dilma por causa de sua condição de mulher. Mas eram protestos esparsos. Só mais recentemente é que os ataques sexistas se tornaram mais orquestrados.

Durante a Copa do Mundo de 2014, no jogo de abertura, sempre que Dilma aparecia no telão, os torcedores brasileiros cantavam "Ei, Dilma, vai tomar no c*" (Não me orgulho em repetir isso, mas as pessoas precisam saber).

Ano passado, os manifestantes anti-Dilma fizeram um adesivo para colocar no buraco de gasolina de seus carros. Ele retratava Dilma com as pernas abertas de forma que seu órgão sexual estava posicionado onde o bocal está. Assim sendo, toda vez que uma pessoa com este adesivo colocava gasolina em seu carro, Dilma seria simbolicamente estuprada.

A "querida" é a chefe das Forças Armadas e está em posição
hierárquica superior à dos deputados.
Mais recentemente, a revista de notícias Istoé fez uma capa sobre as "explosões nervosas de Dilma" — caso clássico de associar uma postura profissional de uma mulher a uma condição mental histérica. Cristina Kirchner, que está passando por seu próprio inferno pessoal na Argentina, usou a capa da revista como exemplo de como a mídia tem se baseado no sexismo para criticar tanto ela quanto Dilma.

Durante a votação do impeachment, deputados seguraram cartazes dizendo "Tchau, querida". "Querida" é a comandante-chefe do Brasil, alguém que é hierarquicamente superior a eles.

Veja, a maior revista de notícias, fez um perfil de Marcela Temer, a esposa bem mais nova do principal opositor de Dilma, Michel Temer, e a elogiou por ser "bela, recatada e do lar". Tudo aquilo que Dilma não é.

Punida por ser mulher

Tenho a impressão de que Dilma não teria sido tão punida por seus erros se ela fosse um homem. Incomoda aos deputados e demais homens ver uma mulher sentada numa cadeira que era um privilégio de homens.

Dilma fala como um homem, age como um homem e não se coloca em seu devido lugar — o que a arquetípica Marcela faz. Ela deu um "mau exemplo" para as mulheres brasileiras ao sugerir que as mulheres são capazes de gerenciar um país.

É interessante notar que 40 por cento das deputadas votaram contra o impeachment, ao passo em que mais de 70 por cento dos deputados votaram a favor. Mas apenas 8 por cento dos deputados são mulheres, embora as mulheres representam 60 por cento do eleitorado.

Se o Brasil tivesse uma representação de gênero mais equânime no Congresso, talvez Dilma não teria sido afastada em primeiro lugar, o que prova que este impeachment também possui uma conotação sexista que muitas pessoas — incluindo as próprias mulheres — parecem não perceber.

Atualização (12/05/2016 às 15:18): Consumada a destituição de Dilma, minhas previsões de que se tratava de um golpe sexista contra a primeira presidenta do Brasil infelizmente confirmaram-se. O governo Temer será o primeiro desde 1979 a não contar com ministra alguma, para a decepção até mesmo de mulheres de direita como Míriam Leitão.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O golpe frio

No sábado passado a revista alemã Der Spiegel se referiu à tentativa de destituir a presidenta Dilma Rousseff como um Kalter putsch ou golpe frio. Ao contrário do golpe civil-militar de 1964, que ocorreu tão às pressas que pegou todos de surpresa, o golpe de estado atual vem sendo extremamente calculado. Desde 2003 a grande imprensa atua como um partido de oposição (algo que já foi confirmado até pela própria presidenta da Associação Brasileira de Jornais), tentando destruir a imagem de Lula e do PT, criminalizando-os com provas falsas e fontes duvidosas que jamais apareceriam na maior revista alemã, mas que aparecem na maior revista brasileira.

Ciente da perseguição da grande mídia ao PT, o juiz federal Sérgio Moro entrou em cena para o último ato: seria ele o personagem responsável por aplicar o último golpe ao partido. Sob o pretexto de investigar um mega esquema de corrupção na Petrobrás, que data do governo FHC, armou um circo midiático responsável por jogar amplos setores da população contra o PT. Nos protestos insuflados pela mídia, adivinhe só, Moro é aclamado como o herói salvador do Brasil, embora receba um salário muito maior que o da presidenta supostamente corrupta que ele combate (o que é ilegal). Segundo a Al Jazeera, "a estratégia de Moro começou há uma década, antes mesmo do início da Operação Lava Jato".

Em 2004 o juiz paranaense escreveu um artigo em tom elogioso sobre a Operação Mani Pulite (Mãos Limpas), que destruiu os principais partidos políticos italianos sob o pretexto de combater a relação deles com a máfia. O que se seguiu foi uma descrença generalizada da população com os políticos tradicionais e a eleição de um magnata da mídia —Silvio Berlusconi— que, aí sim, institucionalizou a corrupção no governo. Segundo a BBC, após a Mãos Limpas a corrupção na Itália ficou ainda mais sofisticada e difícil de ser combatida. Só um imbecil para achar que no Brasil seria diferente. Sem uma reforma do financiamento de campanha, nada mudará em nosso país como não mudou na Itália. Pode destruir todos os partidos que a corrupção não acabará.

A impressão que eu tenho, no entanto, é que Sérgio Moro não deseja combater a corrupção. Se eu ainda acreditava nisso, as dúvidas se dissiparam na semana passada quando, tomado pela raiva de não poder mais investigar Lula, ele agiu acima da lei e divulgou ilegalmente um áudio que atrapalharia a posse do ex-mandatário como ministro-chefe da Casa Civil. Por ter captado a presidenta da República, o grampo não poderia ter sido divulgado sem a permissão do STF. Estranhamente, no dia seguinte, antes mesmo da posse de Lula, um juiz do Distrito Federal já havia redigido uma liminar suspendendo-a tendo como base o grampo ilegal. Nas redes sociais da criatura, ataques os mais abjetos possíveis contra o PT.

Fui, então, pesquisar mais sobre a história do novo "herói" nacional e eis que descubro que ele foi assessor da ministra Rosa Weber durante o julgamento do mensalão no STF em 2012. Rosa é a prima de Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, e notabilizou-se por declarar, durante o julgamento, que não haviam provas contra José Dirceu, mas que condenaria-o mesmo assim porque a "literatura jurídica" permitia. Percebe-se, assim, o nível raso da assessoria jurídica prestada por Moro à ministra. Eu achava, na minha inocência, que todo mundo era inocente até provado o contrário, ou seja, que ninguém pode ser condenado sem provas. A dúvida sobre as provas livrou O.J. Simpson no "julgamento do século".

O fato é que a farsa jurídica de Moro contra o PT vem sendo preparada desde então. Ele vem ajudando a distorcer a lei para criminalizar o partido. No entanto, ele não daria conta de fazê-lo sozinho. Em seu artigo, citado pela Al Jazeera, Moro escreveu sobre o papel fundamental da mídia na consolidação da Mãos Limpas. Assim sendo, usa e é usado pela mídia para atingir o grande sonho de sua vida: entrar para a história como o cara que destruiu o PT. Fazer aquilo que o general Golbery não deu conta de fazer. O problema dele, no entanto, é que nem todo mundo está disposto a acreditar cegamente na sua benevolente luta contra a corrupção. A internet expõe sua seletividade e até mesmo quando quis se valer do "jeitinho" para continuar lecionando na UFPR enquanto assessorava Weber.

O golpe é frio, sim. Calculado e planejado meticulosamente há pelo menos dois anos, quando a seletivíssima Operação Lava Jato —que prende o petista Delcídio do Amaral e não o peemedebista Eduardo Cunha, peça-chave do golpe— começou. Mas engana-se quem pensa que a reação ao golpe será fria também. Moro criou um clima de instabilidade política e jurídica que se assemelha ao prenúncio de uma guerra civil. Seus partidários acham que ele, um juiz de primeira instância, é mais importante do que a Suprema Corte. É possível que quando Moro for reivindicar o papel de herói salvador da pátria que calculadamente construiu para si com a ajuda da mídia, sequer haverá mais pátria para aclamá-lo.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Desculpa, Miriam

Um indicativo muito grande de que vivemos sob as regras do patriarcado é que a palavra do homem possui mais valor do que a da mulher. Há seis anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez sair nos jornais a notícia de que um exame de DNA realizado com o filho da jornalista Mirian Dutra Schmidt – com quem havia mantido um relacionamento extraconjugal durante seis anos entre 1984 e 1991 – mostrava que ele não era o pai biológico do rapaz. É claro que eu acreditei naquela informação e logo concluí que ela deu o "golpe da barriga" em FHC, que acabou sendo traído pela própria amante. Acreditei  nisso por seis anos. No entanto, o contrato de Mirian com a Globo terminou no início do ano e ela, tachada de mulher de pouca reputação por uma bem orquestrada aliança entre a cúpula do PSDB e a mídia nacional, resolveu contar sua versão dos fatos. Primeiro falou à revista luso-brasileira Brazil com Z e depois à Folha de S. Paulo.

Mirian Dutra Schmidt está ressentida com FHC e com a Rede Globo. Fizeram-na passar por um inferno. O sociólogo a fez acreditar que seu casamento com a falecida dona Ruth já tinha acabado e que eles estavam juntos por pura conveniência. Durante o período em que estiveram juntos, Mirian engravidou duas vezes (ela era alérgica à pílula e rejeitou o DIU) e FHC teria convencido-a a abortar. Em 1991, no entanto, a jornalista bateu o pé: quis ter o filho. O que se seguiu foi uma cena digna do filme Atração Fatal. Assim como o covarde Dan Gallagher (Michael Douglas), o político tucano, que já ambicionava mudar-se para o Palácio da Alvorada e não iria deixar ninguém atrapalhar seus planos, teria virado as costas para a amante grávida. Como milhões de brasileiros, Tomás Dutra Schmidt nasceu sem pai. No nosso país, obrigam a mulher a dar à luz, mas não obrigam o homem a assumir o filho. O aborto masculino é legalizado e a certidão de nascimento de Tomás traz um espaço em branco no lugar do nome de seu pai.

Isso não impediu, no entanto, o líder do PSDB de inventar um outro pai para ele. Já se comentava há algum tempo em Brasília sobre os relacionamentos extraconjugais do então senador e, para não atrapalhar suas ambições eleitorais, FHC teria arranjado com o então editor da Veja, Mario Sérgio Conti, para que Mirian aparecesse na coluna "Gente" da revista afirmando que ela estava grávida e que o pai de seu bebê era um biólogo brasileiro que morava em Londres. Se ela recusasse, Conti destruiria sua reputação. Pressionada – ela diz que quase perdeu o bebê devido ao estresse –, ela aceitou. Não foi a primeira vez que Mirian teria feito algo contra sua vontade para agradar FHC. Ela afirma que o político a perseguia pelas ruas de Brasília sempre que ela terminava com ele e ela sempre acabava voltando para ele. Tratava-se de um relacionamento abusivo – e da pior espécie. Quando um parceiro abusa do outro fisicamente, as razões para abandoná-lo estão na pele. Quando o abuso é psicológico, duvidamos se estamos verdadeiramente sendo abusados.

Mirian Dutra. Por que acreditamos mais na versão masculina
do que na feminina?
Mas Mirian conseguiu desvincilhar-se de seu relacionamento abusivo. Ela pediu demissão na Globo e se mudou para Portugal, onde começou a trabalhar na SIC, emissora de Roberto Marinho no país. Na Europa, Mirian começou a passar por dificuldades financeiras. Entra em cena novamente FHC, já em campanha para se tornar presidente do Brasil. A partir de 1994, ele teria começado a pagar uma pensão para Tomás através da Brasif, empresa que ganharia concessões para explorar lojas nos aeroportos durante seu governo. A jornalista diz ter provas da fraude – os contracheques de pagamento e o contrato que assinou com a empresa para trabalhar como consultora na Espanha, o que nada mais seria do que um emprego-fantasma. No entanto, conhecendo a complacência da Justiça e do Ministério Público para com os mal-feitos dos políticos tucanos, escancarada na Operação Lava Jato, creio que é seguro afirmar que os documentos – se é que chegarão ao Brasil – vão deitar no berço esplêndido de alguma escrivaninha de uma repartição pública qualquer.

Paralelamente ao recebimento de dinheiro via Brasif, Miran conseguiu emprego como correspondente da Globo em Barcelona. Foi então que o presidente teria oferecido um belo financiamento à gigante das telecomunicações – via BNDES e com juros inferiores aos praticados pelo banco – para que a repórter jamais aparecesse em vídeo novamente. Isso deixou Mirian deprimida e ela teria tentado retornar ao Brasil em 1998. À época, FHC estava tentando comprar, quer dizer, aprovar a Emenda da Reeleição para que pudesse concorrer novamente à presidência da República. Mirian foi mais uma vez ameaçada, dessa vez pelo falecido senador Antonio Carlos Magalhães. Como qualquer mãe, ela pensou em como a destruição de sua reputação afetaria Tomás e Isadora (filha de seu primeiro casamento, antes de conhecer FHC) e recuou. Temos um caso clássico de abuso de poder – de uso da República para resolver questões de foro íntimo.

FHC saiu da presidência em 1° de janeiro de 2003 sem conseguir eleger seu sucessor. Emergiu pouco tempo depois como se fosse o guardião da moral nacional – justo ele, que teria se valido do cargo para intimidar e manter fora dos holofotes a ex-amante. Sua esposa Ruth faleceu em 2008 e, um ano depois, o ex-presidente teria assumido o filho (o que Mirian também nega que tenha ocorrido), sendo à época elogiado pela mesma revista que usou para chantagear a amante a declarar que o filho não era dele. Em 2010 surgiu a história de que o filho não seria dele e que seus filhos com dona Ruth estariam furiosos com FHC por ele ter reconhecido Tomás antes de fazer o exame de DNA. Nesse momento, eu passei a acreditar na versão cardosiana da história. Mirian teria tido mais de um amante, algo que ela nega veementemente. Segundo a jornalista, FHC quis enterrar a história às custas da reputação dela. Ela questiona: se o filho não é dele, por que ele deu um apartamento para Tomás depois do exame provar que ele não era filho dele?

Mas assim como duvidamos da mulher quando ela diz que foi estuprada, passei a duvidar da reputação de Mirian. Imagine só: uma figura de autoridade, um ex-presidente, estava questionando-a. FHC jamais apresentou o suposto exame de DNA, mas mesmo assim acreditei na versão dele. Embora seja preciso duas pessoas para consumar uma traição e fazer um bebê, o homem sempre vai ter sua barra aliviada pela mídia, como é o caso do já citado filme, onde o personagem de Michael Douglas leva a ex-amante à loucura e, ainda assim, é o mocinho pelo qual devemos torcer. Se a versão de Mirian for correta, FHC apresenta traços de sociopatia. Transgrediu os costumes ao trair a esposa e teria transgredido a lei para esconder a amante e o filho que teve com ela. É charmoso e convincente – precisava ser para que Miriam tivesse aceitado ficar seis anos com ele. Mente sobre a paternidade do rapaz. Nega ter transgredido as normas sociais ao dizer que não pagou os abortos nem usou a estrutura de poder para manter Mirian fora dos holofotes.

Ainda assim, FHC deseja ser visto como um bom pai ou pelo menos uma boa pessoa. À Folha, disse que atende Tomás nas necessidades afetivas "quando possível", como se estivesse numa audiência da Vara da Família. Se o filho não é dele e se ele nunca foi presente na vida dele, como afirma Mirian, por que ele se importa? O que entrega o sociopata são suas mentiras pois, para ele, o que importa é só a imagem que projeta de si mesmo, mesmo que seja contraditória. Devo desculpas a Mirian. Não conhecia sua versão dos fatos. Sabia, graças aos esforços investigativos da revista independente Caros Amigos, que FHC tinha um filho escondido na Europa, mas jamais vi a jornalista como a vítima. Na minha imaginação, ela era uma femme fatale (uma Glenn Close, já que estamos falando de Atração Fatal), que seduziu o senador e aplicou-lhe o "golpe da barriga" para arrancar dinheiro dele. Parece-me, no entanto, que foi ele quem a seduziu e enganou com a falsa promessa de que seu casamento já tinha acabado.

Ao decidir ter o filho de um futuro presidente, Mirian tornou-se prisioneira de sua escolha. Teve sua vida profissional arruinada. Não é devidamente reconhecida pelo trabalho que prestou à Globo. Sofreu um processo muito público de intimidação, do qual participaram não só FHC como também ACM e Conti. A mídia – a maior revista e a maior emissora de televisão do país – desviou-se de sua função sagrada de informar doa a quem doer e foi manipulada pelo poder político para abafar o caso. FHC destruiu a vida pessoal e profissional de Miriam. Sim, ela obteve algum ganho financeiro, mas será que compensou a dor psicológica? Como afirma Maria Goretti, a história de Mirian lembra a de todas as mulheres. E é por isso que peço desculpas não só a ela, mas a todas as mulheres em situação semelhante – que não são poucas – por ter acreditado na versão masculina da história. Eu acreditava estar crendo num sociólogo, mas na verdade estava crendo num sociopata. Prometo tentar ser mais imparcial da próxima vez.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Brasil, um país de todos os hipócritas

Não tenho o hábito de entrar em portais de notícias. Sou bem cuidadoso em relação às informações que deixo entrar no meu mundo. Quem se pauta pela mídia brasileira tem a sensação de que o mundo é um lugar composto, em sua esmagadora maioria, por pessoas sem nenhum senso de ética e que são capazes de matar outros seres vivos pelos motivos mais banais. Banhistas na Argentina mataram um golfinho para poder tirar selfies com eles, noticiou a mídia, sem checar a verdadeira história por trás daquelas imagens. Logo começou-se a esparramar frases de efeito como "prefiro bicho a gente". Por que, então, quem diz essa frase não se suicida? Seria uma gente a menos no mundo. 

Por mais cuidadoso que eu seja, histórias como essas viralizam e se torna impossível fugir delas. Outra história que viralizou, embora numa escala bem menor, foi aquela contada por Miriam Dutra, ex-amante de Fernando Henrique Cardoso, em entrevista na Folha de S. Paulo. Em comum, essas duas histórias refletem o profundo caso de amor dos brasileiros com a hipocrisia. A indignação com o suposto assassinato de um golfinho não se viu presente na revelação de que um presidente da República valia-se de uma offshore (empresa localizada num paraíso fiscal para não pagar imposto de renda) para sustentar um filho que teve fora do casamento.

Quem nasce no meio da hipocrisia não está imune a ela. Eu mesmo nutria sentimentos moralistas em relação a Miriam Dutra. Achava que ela tivesse dado o "golpe da barriga". Agora que conheci a versão dela - e não de repórteres ligados ao PT - percebo que ela foi, na verdade, a vítima. A vítima de uma sociedade hipócrita, onde o homem pode abandonar um filho, contando para isso com o apoio da máquina estatal se ele for membro do Governo Federal, e a mulher é tachada de vagabunda se tentar fizer o mesmo. Ela foi obrigada a mentir, dar entrevista à pseudo-jornalística revista Veja falando que o filho era de um biólogo. Caso contrário, o fundador do PSDB destruiria sua vida.

O slogan que merecemos de verdade.

Agora fica a pergunta: e se fosse uma ex-amante de Lula que aparecesse contando história similar? Ela simplesmente viraria uma celebridade da mídia mais poderosa do que as Kardashians da noite para o dia. Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder os tribunais - midiáticos e de Justiça - brasileiros passaram a adotar o sistema de dois pesos, duas medidas. Ou double standard, já que os magistrados brasileiros são chegados em Miami. Quem não é desconexo da realidade, quem enxerga a roubalheira independente de partido, quem acha imoral um pai - seja ele sociólogo ou torneiro mecânico - abandonar um filho, quem se recusa à ignorância pequeno-burguesa, sofre.

Eu deixei de acompanhar a mídia brasileira porque eu me conheço e sei que vou ficar irritado com a falta de transparência dos jornalistas ao lidar com a corrupção tucana. Eu nunca suportei a hipocrisia. Desde pequeno encaro comportamentos hipócritas como ausência de caráter. É nisso que os sem-caráter da mídia e seus comparsas do Ministério Público e da Justiça querem transformar o povo brasileiro: num país de hipócritas, numa nação de sem-cárter. Os pirateiros, os motoristas que estacionam em local proibido e furam sinal, os fraudadores de FIES, os subornadores, os sonegadores, os batedores de panela, podem segui-los. Eu jamais seguirei.

Tenho a consciência límpida, embora cada vez mais tenho a certeza de que o que move o debate político brasileiro é a hipocrisia - vejo pessoas corruptíssimas em suas vidas privadas exigindo transparência de pessoas públicas, como se elas não fossem o reflexo de si mesmas. Votamos em qualquer um pelo simples fato de serem anti-PT e queremos ser a França! Como bem declarou Supla hoje mais cedo em entrevista à rádio Jovem Pan, o Brasil é um país onde o álcool (que mata uma pessoa a cada dez segundos) é liberado e a maconha (que nunca causou uma morte direta sequer) não. "Eu não acredito nisso", disse o roqueiro cinquentão. Nem eu.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Que gritem, Chico!

Não queria mais escrever nenhum texto esse ano. Mas sinto-me na obrigação de comentar o episódio ocorrido com Chico Buarque, talvez o maior intelectual vivo do Brasil na última segunda-feira na saída de um restaurante no bairro carioca do Leblon. O cantor, compositor e escritor saía do local com alguns amigos ilustres, entre eles o cineasta Cacá Diegues, o músico Edu Lobo e o jornalista Eric Nepomuceno, quando foi abordado por uma trupe de desocupados filhos da elite, do tipo que só países extremamente desiguais como o Brasil produzem, questionando o posicionamento político do artista. O grande feito de um deles foi ter namorado a atriz Cléo Pires; do outro, ser filho do Álvaro Garnero e ter dado um selinho no ex-jogador de futebol Ronaldo. O primeiro defende o ataque ao cantor, dizendo não entender como um cara inteligente como Chico Buarque pode apoiar o PT. Geralmente o não-dito fala mais do que o dito. Ele, na verdade, não consegue entender como pode um cara tão rico como Chico Buarque não reconhecer a hierarquia social do Brasil. Na cabeça deles, o poder político pertence aos filhos dos ricos como eles mesmos, Aécio Neves ou Donald J. Trump.

Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar.
Chico Buarque é, de fato, uma anomalia política. Nasceu na elite, estudou nos melhores colégios, come nos melhores restaurantes. Mas, por alguma razão, decidiu combater o cancro brasileiro. Como todos nós, Chico cresceu e vive na "Belíndia" (bairros nobres dignos da Bélgica e favelas iguais às da Índia), mas decidiu denunciá-la desde cedo em sua obra, o que lhe valeu a perseguição do regime militar, que confiscou todas as cópias do compacto simples de "Apesar de Você". Com sua enorme sensibilidade de poeta, Chico se sente insultado com o que, para os demais herdeiros da Casa Grande, é normal. E enxergou no PT uma forma de transformar tal sociedade injusta. Apesar de não ter rompido com o modelo capitalista brasileiro, que distribui o dinheiro de nossos impostos para bancos privados e da torcida contra da mídia nacional, os governos do PT aumentaram a renda dos mais pobres em 129% e tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU. Nos anos 1980, a fome era tão intensa no Nordeste que crianças do sertão nasciam com massa encefálica reduzida e Chico organizou uma versão local de "We Are The World", intitulada "Nordeste Já", para ajudar as vítimas da seca. 

Trinta anos se passaram desde o "Nordeste Já" e a realidade brasileira mudou. Talvez não tão intensamente quanto desejássemos, mas ela mudou. 2015 foi o ano mais quente da história do planeta e, pela primeira vez, nenhum dos nove estados do Nordeste declarou estado de calamidade pública por causa da seca. Pode-se discordar do PT o tanto que for, mas dizer que o Brasil não mudou ou que piorou desde 2003 é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Mas os playboys cariocas, assim como a versão deles no Senado (Aécio Neves) ou no Partido Republicano (Donald Trump), não desejam discutir fatos. Querem discutir pessoas, fazer ataques pessoais baseados em preconceitos. Isso é perigosíssimo, porque é assim que surge o nazismo. A classe dominante da Alemanha conseguiu convencer o povo de que os judeus faziam parte de uma superclasse que controlava as finanças do país do mesmo jeito que agora os aecistas querem nos convencer de que os petistas são a raiz de toda a corrupção no Brasil e os partidários de Trump defendem que os muçulmanos são a raiz de todo o terrorismo mundial.

Se Chico tem alguma responsabilidade pelos desvios do PT, então qualquer eleitor do PSDB tem responsabilidade pela construção de dois aeroportos por Aécio na fazenda de seus parentes. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela compra de votos feita por FHC para aprovar a emenda da reeleição. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela nomeação de Paulo Roberto Costa ao cargo de presidente de gás e petróleo da Petrobras. Era essa a indagação implícita que estava contida na resposta irônica de Chico a seus inquisidores: "eu acho que é o PSDB que é ladrão". Ou seja, o partido do Aécio, colega de balada do papai de Alvarinho, não é nenhum santo no puteiro e a discussão política no Brasil deve superar, para o bem de toda nação, a lógica pré-escolar do "o seu partido é mais corrupto do que o meu". Mas eu acho que os leitores da Veja não têm a capacidade cognitiva para entender isso. Para eles, o mundo se divide em dois pólos o "do bem" (nós / elite) e o "do mal" (eles / povo), e toda e qualquer pessoa que vota no PT é má, mesmo que seja um cara íntegro e honesto como Chico Buarque. Não foi à toa que um dos slogans de José Serra em 2010 foi "Serra é do bem".

Bogart e Bacall marchando em Washington, D.C.
contra o macartismo.
O serviço que a Veja presta ao país é semelhante ao do Senador republicano Joseph McCarthy nos EUA dos anos 1950. Foi de sua inquisição aos comunistas que surgiu o termo macartismo, que agora voltou à tona com a perseguição de Donald Trump a mexicanos e muçulmanos. No final da Segunda Guerra Mundial, conforme o mundo se tornava cada vez mais refém de uma ordem bipolar, Josef Stálin passava de "nosso companheiro" para "nosso inimigo" segundo a propaganda americana. Os roteiristas ligados ao Partido Comunista dos EUA deixaram de ser louvados por seus esforços de unir americanos e soviéticos na guerra para serem denunciados como anti-patrióticos. Afinal de contas, o que eles supostamente desejavam era promover uma Revolução Bolchevique que derrubasse o governo. Logo uma histeria tomou conta da sociedade americana. Dashiel Hammett, Lillian Hellman, Dalton Trumbo e até mesmo Lucille Ball, ninguém estava a salvo da sanha de McCarthy. Alguns, como Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tentaram reagir, mas foi o jornalista Edward Murrow da CBS o responsável por lembrar aos americanos que eles têm o direito constitucional de escolher o partido de sua preferência.

Aqui no Brasil, a cópia patética da CBS que é a Globo faz é alimentar o macartismo. Para o telespectador da Globo, a corrupção surgiu depois do escândalo do mensalão e só é praticada pelos membros de um único partido: o PT. A corrupção existe em todos os partidos, até mesmo no PSOL. É inerente aos grupos sociais. Ainda mais no sistema capitalista, onde o status é adquirido pela acumulação de riquezas. Ninguém diz: "já acumulei o bastante, agora vou parar". A intenção é ter (ou pelo menos parecer ter) sempre mais, porque é acumulando que se adquire status. No entanto, quando mais gente passa a ter (ou pelo menos mais gente parece ter) como é o caso do Brasil pós-PT, a elite se sente ameaçada. Ela só tem status na sociedade por causa do dinheiro. Enquanto o Bolsa Família estava sendo usado para comprar apenas comida, a elite estava tranquila. Quando uma mãe insinuou na televisão que estava usando o dinheiro para comprar calça de marca para a filha, a elite começou a ficar apreensiva. Era preciso, então, usar seu exército fiel que é a classe média (que respeita e obedece a elite porque deseja ser ela) para amedrontar as pessoas e instaurar o macartismo no país.

O que será desse país eu ainda não sei. Mas só sei que precisamos reagir. Já alertei para isso antes e continuarei alertando quantas vezes for preciso. "Ninguém pode aterrorizar uma nação inteira sem que todos nós sejamos seus cúmplices", disse Murrow certa vez. O silêncio dos bons é tão nocivo quanto os gritos dos maus, já dizia o reverendo Martin Luther King. Quem melhor descreveu o que está ocorrendo com o debate político no país foi o cineasta Cacá Diegues: "Esta cena de repressão nazista é um exemplo do que está acontecendo no Brasil: a absoluta intolerância. As discussões políticas estão indialogáveis. A disputa política se transformou em duelo. Eles não queriam argumentar, só xingar". Os playboys do Leblon temem que as conquistas sociais do Brasil se aprofundem e que logo a sociedade perceba os inúteis que eles realmente são para a coletividade. Não produzem nada, não geram emprego ou renda. Vivem da mesada de seus pais famosos. É preciso parar esse processo de "desindianação" do Brasil. Nem que seja através da calúnia, da difamação, da ameaça vermelha. Nem que seja no grito. Pois que gritem, então! De qualquer forma, vão entrar para a história do Brasil como Joseph McCarthy e seus colegas entraram para a dos EUA: como um bando de oportunistas histéricos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

2015: Ano de denunciar a corrupção... dos outros

A moda do ano de 2015 na política foi vestir a camisa da seleção brasileira e ir para as ruas protestar contra a corrupção. A parcela da população que nunca esteve aí para a política nacional decidiu que acordou, que cansou e que daria um basta à roubalheira do governo. Roubalheira esta que acontece desde que o Brasil foi usurpado dos indígenas pelos portugueses no século VXI e tornou-se, oficialmente, Brasil. A roubalheira não gerava protestos quando o presidente comprou deputados por R$ 200 mil cada. A súbita indignação dos manifestantes com a corrupção tem essa mania de não atingir os escândalos envolvendo outros partidos que não sejam o PT. O mensalão foi uma brincadeira de criança perto do rombo do metrô de São Paulo, um dos mais cheios e ineficazes do mundo. Nenhum manifestante, no entanto, se diz preocupado com a morosidade das investigações no Ministério Público de São Paulo, sempre tão prestativo aos políticos do PSDB e seus aliados.

O presidente Clinton chegou a sofrer impeachment na Câmara
por mentir ao Congresso. O Senado, no entanto, absolveu-o.
Já contra a corrupção do PT, vale até mesmo aliar-se a corruptos. Para derrubar a presidente Dilma Rousseff por um suposto crime de responsabilidade fiscal cometido por todos os gestores públicos, de Marconi Perillo a Geraldo Alckmin, vale a ajuda de Eduardo Cunha, que disse numa CPI do Congresso que não possuía conta bancária no exterior. Alguns meses depois, o Ministério Público Federal recebeu, de presente dos promotores suíços, extratos bancários da conta do presidente do Congresso no país alpino. Mentir em CPI é crime. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton foi processado e sofreu uma tentativa de impeachment por tal motivo. Disse, numa investigação do Congresso, que jamais tinha mantido relações sexuais com sua ex-estagiária Monica Lewinsky, que mais tarde revelou à imprensa o sêmen de Bill num de seus vestidos. Trair a primeira-dama é imoral, mas não é crime. Mentir para o Congresso é.

A atual mandatária brasileira pode até ter cometido algo imoral com as chamadas "pedaladas fiscais", mas não cometeu um crime, ao contrário de Eduardo Cunha. A lei responsabiliza o secretário do Tesouro Nacional por repasses irregulares de recursos a órgãos estatais. Mas os manifestantes gostam de pensar que Dilma é uma espécie de Deus, onipotente e onipresente no cenário político nacional. Se o colégio estadual vai mal, a culpa é da Dilma. Se o posto de saúde municipal está caindo aos pedaços, a culpa é da Dilma. Como é que a Dilma não sabia da roubalheira da Petrobras? A Operação Lava Jato já dura mais do que as novelas da Rede Record e, mesmo assim, nenhum dos corruptos e corruptores presos jamais denunciou a presidente numa de suas delações premiadas. Caem deputados, senadores, diretores da estatal e jamais levantou-se suspeição sobre Dilma. A única suspeição foi aquela da Veja na véspera da votação, valendo-se de declaração falsa atribuída a Alberto Youssef.

Eu mesmo tenho uma série de restrições à política econômica do Governo Dilma II. Dilma, que era apontada como estatista demais na campanha de 2010, rompeu consigo mesma e agora faz um governo acanhado, controlado pelos bancos e sem ouvir as demandas de seus 54,5 milhões de eleitores. Na campanha, ela acusou Marina Silva de querer tirar o prato de comida da mesa dos brasileiros com sua proposta de entregar a formulação da política econômica aos bancos. Ao assumir, a presidente nomeou o homem de confiança do Bradesco para formular a política econômica do país. Vieram os cortes no Orçamento e a sólida base de apoio que Dilma havia conquistado para si no final de outubro de 2014 esfacelou-se. Talvez ela pensou que poderia conter os ânimos dos eleitores oposicionistas se começasse a aplicar a política econômica proposta pelo PSDB. Não só não conseguiu o apoio deles, como perdeu o que já tinha.

Isso, no entanto, não é motivo para derrubar um governo sob o regime em que vivemos; o presidencialismo. No parlamentarismo, cabe ao Legislativo decidir se um governo continua ou não. Se a maioria dos deputados avaliar que a política econômica é ruim para o país, pode derrubar o governo. Foi assim que Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido. Os trabalhistas costuraram uma coalizão com os nacionalistas escoceses mas, quando eles voltaram-se contra o governo, este perdeu o apoio necessário para aprovar seus projetos e foi derrubado pelo parlamento. Novas eleições foram convocadas e a oposição ganhou. Isso ocorre porque no parlamentarismo o chefe de governo é oriundo do legislativo. Não aparecia o nome "Margaret Thatcher" nas cédulas dos eleitores britânicos. Ela venceu as eleições internas de seu partido e, assim, garantiu o direito de governar caso seu partido recebesse a maioria dos votos.

No Brasil, não é assim que funciona. O chefe de governo é eleito diretamente pelo povo para governar por um período determinado; no parlamentarismo pode haver eleições antes da data estabelecida se o governo não conseguir o apoio do parlamento para aprovar seus projetos. No presidencialismo, embora importante, tal apoio não é necessário. Ronald Reagan governou oito anos com um Congresso hostil a sua administração. O Brasil já teve três presidentes em um ano. Foi para evitar situações assim e para garantir que a decisão soberana do povo em eleições livres e democráticas fosse respeitada que o legislador constituinte impôs regras tão rígidas para a derrubada de governos. O povo elege o presidente e o povo pode derrubá-lo. No entanto, mediante apresentação ao Congresso Nacional de denúncia comprovada de que o mandatário cometeu um crime. Quem diz isso não sou eu, é a Constituição.

Caiado adora denunciar o mensalão... dos outros, é claro!
A Carta Magna não prevê impeachment por motivo de política econômica ruim e tampouco por baixa popularidade. Se assim fosse, FHC deveria ter sido derrubado quando seu índice de popularidade também atingiu a casa de um dígito devido a sua incapacidade de lidar com a crise econômica do início da década passada. Mas nada disso importa para as pessoas preocupadas em combater a corrupção do PT. Parar carro de som no meio da ciclofaixa, como os manifestantes fizeram no domingo, não é corrupção? O dia em que marcharem contra toda a corrupção de todos os partidos e não aceitarem em suas manifestações atos que violem o Código Brasileiro de Trânsito nem a presença de gente como Ronaldo Caiado, que recebia um mensalinho do Bumlai, podem me chamar que eu vou. Mas enquanto estiverem achando que o inferno são os outros, me esqueçam. Não sou adepto de macartismos. E, dado o baixo número de manifestantes do último protesto (virtualmente inexistente fora de São Paulo), parece que o povo brasileiro também não é.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O que a mídia está esperando, que matem alguém?

A mídia brasileira é uma das mais irresponsáveis do mundo. Há treze anos acusa os membros de um só partido de corrupção e silencia sobre os desvios cometidos por membros de outros partidos, alguns dos quais são sócios/donos de empresas mídia. Isso acabou por gerar no público desses veículos um ódio descomunal a esse partido e a toda pessoa associada a ele, pois, para quem se informa pela mídia brasileira, parece que o país era o reino da moralidade no serviço público até aquele fatídico dia 1° de janeiro de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse e inventou a corrupção. Para quem se faz de bobo ou para quem realmente não sabe, o antecessor de Lula comprou deputados para que votassem a favor da emenda que lhe garantiria o direito de concorrer novamente à presidência. Ou, caso prefiram um exemplo menos controverso, Abraham Lincoln comprou deputados para que votassem a favor do projeto de lei que aboliria a escravidão nos EUA. A corrupção não é um fenômeno recente e, muito menos, brasileiro, como demonstra essa lista.

No último dia 18, mulheres negras que marchavam contra o racismo na Esplanada dos Ministérios em Brasília foram atacadas por soldados anti-PT que se encontravam no local. Protestos assim são comuns em qualquer lugar do mundo e costumam atravessar as barreiras partidárias. Não no Brasil. Afinal de contas, mulheres negras, em sua maioria, votaram na candidata do PT na última eleição, logo, segundo a lógica de quem nunca leu Aristóteles e dificilmente conseguiria fechar a prova de raciocínio lógico de um concurso, isso significa que elas são corruptas também. Lunáticos acampados no local para exigir a renúncia de uma presidenta legitimamente eleita e reeleita por seu povo atacaram as militantes negras com paus, bombas e houve até mesmo quem desse tiros para cima. Uma pequena amostra do "Brasil sem PT" que eles querem construir. No "novo Brasil", a única forma válida de protesto é aquele que concorde com o ponto de vista deles.

Essa violência, por enquanto mais simbólica do que real, vem sendo alimentada há um ano por uma mídia decadente. Décadence sans élegance. As grandes corporações de mídia apostam todas suas fichas na derrubada da presidenta Dilma  Rousseff porque não conseguem sobreviver mais quatro anos com verbas estatais cada vez mais minguantes – e, agora, com o ajuste fiscal, é que vão ficar ainda mais minguantes. É interessante ver quem tanto prega a meritocracia e o liberalismo econômico tendo dificuldades em garantir sua existência sem as generosas tetas do Estado brasileiro. A Rede Globo, por exemplo, jamais existiria sem os subsídios que a ditadura militar lhe deu para massificar a cultura, dar um tiro fatal na contracultura e transformar o Brasil no país do senso comum. A revista Veja, por outro lado, já teria acabado há alguns anos sem o contrato que firmou, sem licitação, com o governo de Geraldo Alckmin para distribuir seu lixo tóxico nas escolas paulistas.

Eu achei, na minha inocência, que a mídia brasileira perceberia que incitar o caos é ruim para todos – inclusive para ela – e iria abafar a sandice golpista surgida do choro dos perdedores da última campanha presidencial. É o que ocorre em países minimamente civilizados. Até mesmo nos EUA que nossa imprensa tanto exalta. A não ser pela ultrarreacionária, machista e racista FOX News, nenhum grande veículo de comunicação dos EUA leva a sério os pedidos de renúncia do presidente Barack Obama que, ao contrário de Dilma, comanda um Exército que usa aviões não-tripulados para matar crianças e mulheres no Paquistão. Apesar da campanha de difamação promovida por uma minoria de fanáticos, com acesso irrestrito à FOX News, a maioria dos oposicionistas não acredita em teorias da conspiração contra o presidente (como as que afirmam que ele não teria nascido no país e que seria muçulmano em segredo) e líderes oposicionistas como Chris Christie e Lindsey Graham criticam os republicanos que vocalizam essas teorias.

Ledo engano o meu de achar que moramos num país onde a mídia é séria e se preocupa com seu povo. O terrorismo midiático afugenta investimentos – nacionais e estrangeiros – e tem como propósito único minar a retomada do crescimento econômico, para que o PT seja eliminado dos espaços de decisão e a farra da publicidade estatal dos tempos FHC retorne. Aécio Neves é tão ou mais corrupto do que o PT, mas ele defende os interesses dos proprietários da mídia, afinal de contas, ele mesmo é um em Minas Gerais. É interessante as coisas que a mídia brasileira esconde por simples e puro interesse político-partidário. No auge da crise econômica da Era FHC, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, deu um pito no seu colega brasileiro por não garantir direitos básicos aos mais pobres (naquela época, a cada 5 minutos uma criança morria de fome no país). Hoje, em campanha pela esposa, Bill disse que o Brasil, apesar das dificuldades, é um dos melhores lugares para se investir. Nenhuma dessas declarações apareceu no Jornal Nacional.

Seguindo a lógica dos que não estudaram lógica, Bill Clinton é petista, assim como as negras que não aguentam mais o racismo. Me admira muito o partido cujos fundadores estiveram quase todos envolvidos na luta pela redemocratização, apoiar essa lógica fascista de demonização de quem pensa diferente. O PSDB se junta à décadence sans élegance da grande mídia. É o triste fim do sobrenome Neves, que passou do inimigo N° 1 da ditadura a um playboy inconsequente sem o menor apreço pela estabilidade política do país que o tornou quem ele é. Será que é tão burro assim? Ele mesmo não representa mais a turma dos lunáticos que pedem a derrubada da presidenta. Corre o risco de, como Carlos Lacerda, orquestrar um golpe do qual não será o principal beneficiário. Mas seu ego gigantesco, não permite-lhe se afastar dos holofotes, como fizeram John McCain em 2008, José Serra em 2010 e Mitt Romney em 2012.

O que será que a mídia e o PSDB estão esperando acontecer para que percebam a inconsequência de suas ações? Estão alimentando um monstro. O "Gigante" acordado por eles em 2013 (aliás, esse era um slogan comum no Brasil pré-1964) é um analfabeto histórico-político e possui problemas psíquicos, não sabendo lidar com a frustração de não poder mais controlar todos os aspectos da vida social no Brasil. Mulher negra marchando em Brasília e dividindo o mesmo espaço público de protesto comigo? Não quero, vou dar uns tiros para cima para espantá-las. E se a violência desses lunáticos um dia sair do plano simbólico e for para o plano real? Será que a mídia brasileira está esperando eles matarem alguém para criar algum senso de responsabilidade pelo tipo de narrativa que cria? Esse tipo de jornalismo de torcida, que divide os brasileiros em "nós" e "eles", "do bem" e "do mau", ainda vai criar uma tragédia nacional.