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sábado, 18 de junho de 2016

Ignorância: o projeto da elite para o Brasil

Todos devem se lembrar dos resultados da pesquisa Perils of Perception ("Perigos da percepção", em tradução livre), conduzida pelo instituto Ipsos MORI e segundo a qual o brasileiro é o terceiro povo mais ignorante do mundo. Já conhecia a metodologia da pesquisa — os entrevistados deveriam fornecer os números corretos sobre determinados dados sócio-demográficos —, mas confesso que foi revelador descobrir quais eram as perguntas feitas e como o brasileiro médio possui uma visão distorcida da realidade que lhe cerca. A educação, segundo Paulo Freire, deveria fornecer aos educandos a possibilidade de interpretar o mundo que lhes cerca, formando, assim, cidadãos e não futuros integrantes do mercado de trabalho e de consumo, para os quais saber ler e escrever é o suficiente. O que a pesquisa revela é justamente que o brasileiro médio possui uma enorme dificuldade em interpretar a realidade.

Para Freire, a educação deveria formar cidadãos. "Fora Paulo
Freire" é, portanto, nada menos que "fora educação crítica".
Segundo Perils of Perception, o brasileiro subestima a desigualdade social. No Brasil, 48% da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população. Em termos absolutos: um trilhão de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. No entanto, o brasileiro médio acha que nosso país é menos desigual, que 40% da riqueza nacional está nas mãos de 1% da população. Pode parecer um erro razoável (8%) — e em países mais desiguais como Índia e Rússia a população subestima ainda mais a desigualdade —, mas em termos absolutos o brasileiro acha que 898 bilhões de dólares está nas mãos de dois milhões de pessoas. Um erro de 100 bilhões de dólares. A todo o momento o senso comum nos bombardeia com a informação de que os empresários gastam demais com seus funcionários, que o Estado apeiam-lhes os lucros, mas há poucos dispostos em nos informar que somos o segundo país mais desigual da América do Sul.

Quando indagado sobre quanto da riqueza nacional o 1% mais rico da população deveria controlar, o brasileiro responde, em média, que deveria ser 33%, um percentual alto quando comparado a países desenvolvidos. É quase o dobro do que os 18% da riqueza que 1% dos belgas e neozelandeses mais ricos controlam em seus países. Em seguida, o brasileiro subestima, também, o problema da obesidade. Para a média dos brasileiros, 47% da população adulta do país está acima do peso, ou seja, quase 94,2 milhões de pessoas. Na realidade, 56% dos brasileiros acima dos 20 anos de idade estão acima do peso, o que equivale a 112,2 milhões de pessoas. Um erro de "apenas" 18 milhões de pessoas, ou seja, maior do que o número de pessoas que vivem no Estado do Rio de Janeiro. Além de ser piedoso com a exploração imposta por seus patrões, o brasileiro aparentemente não se olha muito no espelho — nem sobre muito na balança — também.

A próxima pergunta é sobre o número de ateus e agnósticos. Propagou-se, em especial através da pregação de pastores neo-pentecostais, a ideia de que há uma guerra em curso contra o cristianismo no Brasil e que os culpados disso seriam os movimentos sociais que lutam contra tradições cristãs como a submissão feminina e a proscrição da homossexualidade e dos cultos de origem africana. Criou-se, no imaginário popular a imagem de uma cristandade ameaçada por militantes ateus. Segundo Perils of Perception, o brasileiro acha que 35% da população, ou seja, 70 milhões de pessoas são ateístas ou agnósticas. Na realidade, segundo dados do Censo de 2010, apenas 8% dos brasileiros (16 milhões) não seguem uma religião organizada. A diferença entre percepção e realidade é de 54 milhões de pessoas, ou seja, quase o mesmo número de eleitores que Dilma Rousseff teve no segundo turno da última eleição presidencial brasileira.

A ignorância dos brasileiros quanto ao número de ateus e agnósticos só não é maior do que sobre o número de imigrantes. Durante a campanha presidencial de 2014, semeou-se, entre os eleitores da direita, a noção de que o Partido dos Trabalhadores fraudou a eleição valendo-se de refugiados haitianos. É uma ideia absurda — como o PT traria um contingente tão grande de pessoas em tão curto espaço de tempo sem ser pego? —, mas que é levada a sério por 42% dos brasileiros que saíram às ruas em 2015 para protestar a favor da queda da presidenta Dilma. Como resultado da campanha de desinformação da direita, os brasileiros acreditam, em média, que 25% de nossa população é composta por imigrantes, ou seja, 50 milhões de pessoas. Na verdade, apenas 601.200 brasileiros nasceram em outros países. É essa distorção, amplificada pelo medo, a responsável por ataques xenófobos a imigrantes, sobretudo haitianos.

A "invasão haitiana" começou como uma mentirinha para
ajudar o Aécio a vencer as eleições, mas já distorce a
percepção que os brasileiros possuem da realidade.
Mas o medo não surge do nada. Ele precisa ser fomentado. Além dos grupos ligados ao PSDB, a mídia também possui uma parcela de responsabilidade muito grande por jogar a população contra os imigrantes. Sempre que os meios de comunicação relatam casos de imigrantes é sobre o viés negativo. "Quando aparecem na mídia estão atrelados a problemas, crises, marginalizações, ou ligados à ideia de invasão", afirma o pesquisador Gustavo Barreto, que analisou mais de 11 mil edições de jornais e revistas publicados entre 1808 e 2015. A desinformação possui uma correlação direta com o medo. Os alemães supervalorizavam o impacto dos judeus em sua sociedade assim como os brasileiros fazem agora com os haitianos. Ainda hoje é possível encontrar, mesmo na esquerda, quem afirme que, sem Adolf Hitler, os judeus tomariam conta da Alemanha na década de 1930, sendo que correspondiam a apenas 0,77% da população alemã em 1933.

Além disso, o brasileiro também subestima o real impacto da juventude na sociedade. Em nenhum outro país a resposta à pergunta "qual a idade média da população em seu país?" foi tão dissonante da realidade quanto no Brasil. Os brasileiros acham que a média de idade da população é de 56 anos, 25 a mais do que os 31 anos que de fato é a média de idade dos brasileiros. Deve ser por isso que o governo interino de Michel Temer consegue enganar tão facilmente a população sobre a necessidade de (mais) uma reforma da Previdência Social. Segundo uma outra pesquisa, mais recente, 75% dos brasileiros apoiam mudanças na regra de concessão da aposentadoria. Talvez se não superestimassem o número de pessoas com mais de 55 anos seriam capazes de perceber que a Previdência consegue se sustentar por mais algumas décadas com o percentual ainda elevado de jovens que possuímos em idade de trabalho.

É engraçado que o brasileiro também subestima o número de crianças, o que chega a ser ilógico se formos parar para pensar. Segundo Perils of Perception, em média o brasileiro acha que 39% da população tem menos de 15 anos de idade. Na verdade, o número é de 24%, novamente a maior dissonância entre percepção e realidade nos 28 países pesquisados. Em relação ao percentual de mulheres na política, o brasileiro também erra, embora por pouco. Diz que 18% dos membros do Congresso Nacional são mulheres, quando na verdade são 10%. Esse erro pode ser explicado pela visibilidade que a figura da presidenta Dilma Rousseff tinha no imaginário popular. Por ser uma mulher e ter chegado ao cargo máximo da nação, acabou gerando a percepção — errônea — de que mais mulheres estavam ocupando posições de destaque na sociedade, o que não era necessariamente verdade, como o governo Temer depois veio a provar.

As novelas são, em parte, responsáveis pela percepção de que
há mais gente morando em áreas rurais do que na verdade.
Por fim, a pesquisa Perils of Perception indaga os entrevistados quanto ao número de pessoas que moram em áreas rurais e aquelas que possuem acesso à internet em casa e novamente o brasileiro erra feio. Talvez por influência de novelas que destacam um passado bucólico, os brasileiros, em média, acreditam que 34% da população (68 milhões de pessoas) mora em áreas rurais, número mais de duas vezes maior do que o verdadeiro (15% ou 30 milhões). Uma tendência do brasileiro é generalizar a sociedade através de sua experiência individual e isso se expressa na resposta dada à pergunta "qual o percentual de pessoas que você acha que possui acesso à internet em casa?". O brasileiro, em média, crê que esse número é de 72% quando na verdade é de 53%. Em números absolutos, a percepção é de que são 144,2 milhões de pessoas quando na verdade são 106,2. A diferença de 38 milhões é pouco menor que o número de habitantes do Estado de São Paulo.

Uma das máximas mais antigas da humanidade é "conhece-te a ti mesmo e assim conhecerá os deuses". Só é possível enfrentar nossos demônios conhecendo-os. Só é possível mudar algo através da percepção. Se não encaro algo como um problema, nunca serei capaz de transformá-lo. Isso vale tanto para mudanças individuais quanto sociais. O Brasil não conhece a real dimensão de seus problemas e, assim sendo, é incapaz de lidar com eles. Se superestimamos o número de mulheres na política, achamos uma bobagem a proposta de implementar uma quota feminina nos partidos políticos. Se subestimamos a desigualdade social, aplaudimos quando Temer decide cortar o Bolsa Família para manter o bolsa banqueiro intacto. Se superestimamos o número de imigrantes, fechamos nossas fronteiras para quem precisa de ajuda humanitária. Se superestimamos o número de idosos, jovens e pessoas que moram no campo, executamos políticas públicas erradas para eles.

Parte da ignorância do brasileiro em relação a si mesmo é intencional. Como afirmava Darcy Ribeiro, "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto". Não interessa aos mais ricos — como ficou claro em cartazes exibidos nas brancas manifestações anti-Dilma — uma educação que forme cidadãos conscientes da realidade que lhes cerca. "Fora Paulo Freire" nada mais é do que "a educação não pode ser crítica". Se a educação não conscientiza, a mídia, por sua vez, distorce a percepção da grave situação socioeconômica do país para promover a agenda econômica que seus patrocinadores defendem. Propaga a ideia de que o pobre é acomodado e não merece assistência do Estado, quase como se a culpa da pobreza fosse dele mesmo e não do sistema que lhe nega oportunidades. Enquanto isso, defende que o Estado pague religiosamente a imoral dívida pública que mantém o status de uma dúzia de famílias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O termo "marxismo cultural" foi popularizado
pelo comentarista Pat Buchanan, que nega o
Holocausto e apóia Donald Trump.
Quase todas as igrejas evangélicas e parte da Católica, por sua vez, distorcem a mensagem de Jesus Cristo para dar mais ênfase à conquista de bens materiais do que à saúde espiritual de seus fiéis. Os "cristãos" do século XXI são levados a crer por pregadores parecidos com apresentadores de programa de auditório que Deus quer que sejamos ricos e que é doando para igrejas suntuosas que iremos aumentar nossas riquezas. Cristo — parte indivisível de Deus para os trinitarianos —, porém, recusou o luxo. Ele andava com ex-prostitutas e ladrões e expulsou da porta do Templo de Salomão aqueles que ousavam lucrar às custas de Seu Pai. A lavagem cerebral, no entanto, é bem feita. Os fiéis das igrejas que seguem a teologia da prosperidade são manipulados de forma a acreditarem que um ataque a seu Evangelho distorcido é um ataque ao próprio Jesus Cristo. Já conseguiram até mesmo uma data para lutar contra a "cristofobia" (sabe-se lá o que seja isso) na cidade de São Paulo.

Semear a desinformação para colher a apatia dos oprimidos parece ser o projeto dos grupos dominantes do país, sejam eles religiosos, políticos, sociais e/ou econômicos. Não é à toa que se arrepiam com a ideia da implementação de uma educação que forme cidadãos e não operários. Discutir a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros e orientações sexuais, entre raças, conhecer a contribuição das religiões de matriz africana para a formação da cultura brasileira, tudo isso é abominado e colocado na vala comum do "marxismo cultural". São questões debatidas nas escolas da Suécia e da Noruega (que ocupam as posições de número 21° e 23° na lista dos 28 países mais ignorantes do mundo, respectivamente). São países capitalistas. Suas elites, no entanto, são humanistas — seu projeto não é deixar a maior parte de sua população na escuridão da ignorância. No Brasil, a ignorância é o projeto da elite. A ignorância faz com que o brasileiro minimize seus problemas, enfrente os inimigos errados e, por consequência, não atinja a temível igualdade.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A terapia de choque no Brasil


A implementação à força de uma política econômica de desregulamentação e de livre mercado – os princípios guiadores do economista americano Milton Friedman – é quase sinônimo de desastre econômico, intervenção militar e aumento da pobreza. Os EUA têm utilizado táticas extremas para injetar instabilidade e depois o neoliberalismo em diversos países ao redor do mundo – mais notoriamente no Chile, na Rússia e no Iraque. Isto é o que afirma o documentário de 2009 The Shock Doctrine (Mat Whitecross/ Michael Winterbottom), baseado no livro epônimo da ativista e cineasta canadense Naomi Klein.

O Dirty Movies identificou um padrão comum entre o que aconteceu nesses três países e os desenvolvimentos políticos no Brasil. Esperamos que este artigo irá chamar a atenção para a atual situação no país latino-americano. A "doutrina de choque" inclui guerra e, às vezes, tortura como passos necessários rumo à mudança econômica. O Brasil não deveria se tornar mais um país nessa lista.

O psiquiatra nascido na Escócia Donald Ewen Cameron conduziu, de maneira controversa, terapia de eletrochoque em seus pacientes nos EUA sem o consentimento explícito deles nos anos 1940 e 1950. Muitos desses pacientes ficaram permanentemente em coma ou incapazes de viver sem assistência médica. Klein revela que Milton Friedman conduziu um experimento muito semelhante em várias nações ao redor do mundo como forma de provar sua teoria de economia de livre mercado e até mesmo utilizou a palavra "choque" para descrever suas táticas. Os resultados foram desastrosos, exceto que neste último caso as vítimas foram nações inteiras.

Três países, três batalhas

Os EUA tiveram papel fundamental na derrubada do governo democraticamente eleito de Allende no Chile em 1973. Ajudaram a acabar com 41 anos de governo pacífico a favor de um modelo neoliberal que se consolidou através de prisões massivas, tortura descontrolada e assassinatos, tudo isto personificado na figura militar do General Augusto Pinochet.

Essas táticas "chocaram" o país em ao caos ao inventar uma narrativa de guerra contra supostos marxistas. A premissa era "salvar o país do caos do comunismo", mas teve claramente o efeito precisamente oposto: o país mergulhou no horror e na pobreza, com as conquistas sociais de Allende sendo rapidamente desmontadas e a inflação atingindo 375% em 1974, a maior no mundo de então. Tornou-se evidente que a liberdade de mercado é incompatível com a liberdade individual e a prosperidade social.

Margareth Thatcher alegremente ofereceu ajuda aos EUA nos anos 1980 para destruir a União Soviética. O líder soviético Mikhael Gorbachev queria implementar uma mudança gradual na União, visando adotar um modelo escandinavo de socialismo, mas acabou sendo forçado a implementar reformas radicais por seus "amigos" ocidentais (os Friedianos descarados Thatcher e Reagan). Seu sucessor, Boris Yeltsin, aliou-se mais ainda aos interesses neoliberais e os EUA apoiavam-no enquanto ele literalmente travava uma guerra contra o parlamento.

Esta guerra – que incluiu o ataque de tanques à Casa Branca russa (foto abaixo) – "chocou" o país a aceitar as reformas profundamente impopulares de Yeltsin. Como resultado, quase metade da população da Rússia passou a viver abaixo da linha da pobreza em alguns anos, enquanto Moscou tinha a maior concentração de milionários por metro quadrado do mundo.

Um tanque atacando a Casa Branca russa em 1993.

O "choque" no Iraque foi igualmente beligerante. Os EUA e o Reino Unido travaram uma guerra ilegal contra o país rico em petróleo do Oriente Médio, derrubando Saddam Hussein e estabelecendo um regime altamente volátil que eles chamavam de "democrático". As duas nações invasoras rotineiramente prendiam e torturavam qualquer um que quisessem, e muitos eram mandados para o limbo legal chamado Baía de Guantánamo – apenas três pessoas detidas na infame prisão caribenha foram condenados de um crime. Estas prisões, os abusos sistemáticos e as malversações eram notavelmente similares às de Pinochet, explica o documentário.

O rico fica mais rico

Friedman era inflexível quanto ao sucesso de sua política econômica de desregulamentação e de livre mercado implementada através do "choque", a despeito das evidências em contrário por todos os lados. Pouco antes de sua morte, em 2006, ele sugeriu que o desastre provocado pelo furacão Katrina em Nova Orleans deveria ser utilizado como uma oportunidade para privatizar completamente o sistema educacional de todos os EUA. Ele acreditava firmemente que a dor intensa provocava ganhos, mas nunca reconheceu que tais ganhos estavam confinados a uns poucos oligarcas.

O impacto negativo do neoliberalismo não está restrito aos países que sofreram a "terapia de choque". Também abriu a fenda econômica nas próprias sociedades dos perpetradores, os EUA e o Reino Unido. O filme revela que antes da era Thatcher-Reagan um chefe executivo (CEO) no Reino Unio ganhava apenas 10 vezes mais do que seus empregados, o que se elevou para 100 vezes mais nos anos 1990. Nos EUA, o mesmo dado subiu de 43 para 430 no mesmo período de tempo.

A máquina belicista neoliberal criou outras oportunidades econômicas. Por exemplo, a indústria de Segurança Interna nos EUA agora é maior do que as indústrias cinematográfica e musical juntas. o que o filme descreve como "uma nova economia construída pelo medo". Enquanto isso, o petróleo continua a ser o combustível da indústria automobilística e a guerra alimenta o mercado de armas por todo o mundo.

Retrocedendo

Gostaríamos de acreditar que a humanidade está constantemente movendo-se adiante e evoluindo, mas infelizmente nem sempre é o caso. A História tem provado que nunca devemos tomar o progresso por garantido.

O Brasil experimentou crescimento econômico por 13 anos e muitas conquistas sociais pareciam consolidadas. Quase 30 milhões de brasileiros foram retirados da pobreza, houve melhoria massiva no sistema educacional e o país até mesmo pagou sua dívida externa, pondo fim a sua dependência ao FMI. Até que em 11 de maio um golpe de estado parlamentar foi encenado, derrubando a democraticamente eleita Dilma Rousseff e colocando em seu lugar o neoliberal e corrupto Michel Temer. Em apenas 10 dias, ele agressivamente começou a desmantelar essas conquistas, suspendendo a construção de moradias e benefícios de milhões de brasileiros para favorecer os plutocratas, oligarcas e o grande sistema corporativo que ele representa.

Ele tem o apoio entusiástico – embora tácito – dos EUA. Não coincidentemente, a atual embaixadora dos EUA no Brasil é Liliana Ayalde: ela também foi embaixadora em Honduras e no Paraguai quando ambos os países sofreram um golpe de estado. Os Irmãos Koch, industriais americanos de refino do petróleo, financiaram o pseudo-movimento estudantil MBL, que ajudou a injetar instabilidade nas ruas do Brasil com o apoio da mídia brasileira. E, caso ainda haja alguma dúvida do envolvimento dos americanos no golpe, o golpista Aloysio Nunes viajou para se encontrar com Thomas Shannon – o oficial mais antigo em Washington no que diz respeito a assuntos latino-americanos – pouco antes da materialização do golpe, enquanto Obama nem chegou a denunciar o golpe ou até mesmo criticar os desenvolvimentos sombrios e ilegais no país.

O golpe no início do mês não representa, no entanto, uma vitória inequívoca do neoliberalismo. Os brasileiros estão indo às ruas protestar contra os desenvolvimentos recentes. A presidente Dilma foi suspensa, mas ela poderá ser restabelecida em novembro caso seja inocentada de "crime de responsabilidade" pelo Senado da nação. Uma conversa telefônica vazada revelou a trama para derrubá-la e a presidente suspensa e os apoiadores da democracia sentem-se energizados.

No momento atual, o Brasil passa por uma enorme convulsão social. De maneira muito preocupante, isto pode vir a se tornar um gatilho para a "teoria de choque" em todo o seu horror. A História tem mostrado que os neoliberais nunca têm medo de usar a intervenção militar e a tortura como forma de instilar o medo e implementar o modelo econômico desejado por eles. É por isso que os campeões da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo devem denunciar os desenvolvimentos trágicos no maior país da América Latina – antes que o país seja vítima do eletrochoque e entre em estado de coma.