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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Brasil, a sete passos da Idade Média

Todo cidadão minimamente consciente já sabe que em 2015 o Brasil regrediu diversos anos na garantia de direitos sociais às populações historicamente oprimidas. Após a eleição de um evangélico fanático ao posto de presidente do Congresso Nacional o Brasil se viu refém da agenda dos deputados espúrios que elegeram-no, principalmente fazendeiros, pastores e policiais. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) era o queridinho da grande mídia enquanto, por um lado, atacava os direitos de trabalhadores e, por outro, ameaçava mandar a presidente Dilma Rousseff para casa antes do término oficial do mandato para o qual ela fora legitimamente re-eleita. Só que sua situação se complicou bastante após o surgimento de denúncias ―por parte da procuradoria suíça― de que ele estava usando o paraíso fiscal para lavar dinheiro desviado da Petrobrás. Como consequência, atualmente mais pessoas apoiam o afastamento de Cunha (80%) do que de Dilma (60%). Entretanto, nada indica que a luz ressurgirá no Congresso caso Cunha seja afastado. As trevas vieram para ficar. E o que é pior: têm a legitimidade do voto popular, conquistado nas eleições de 2014.

Em 2015 foram sete os projetos aprovados pelos deputados que representam o retrocesso de direitos para milhões de brasileiros. Seriam oito, caso a bancada governista não tivesse conseguido reverter o corte de verbas do Programa Bolsa Família, que jogaria 8 milhões de pessoas de volta na miséria. O Brasil vai na contramão dos países mais desenvolvidos do mundo. Enquanto os brasileiros se deixam levar por preconceitos e soluções milagrosas para problemas complexos, outros povos analisam racionalmente seus problemas. Em 2015 a Suprema Corte dos EUA decidiu reconhecer todos os casamentos entre pessoas do mesmo sexo realizados no país. O Canadá, preocupado com o crescimento da desigualdade social, elegeu um primeiro-ministro de esquerda ―filho do popularíssimo Pierre Trudeau― que propôs aumentar o imposto dos mais ricos e diminuir o dos mais pobres. Os finlandeses elegeram o centrista Juha Sipilä, que prometeu pagar uma renda mínima ―uma espécie de Bolsa Família― a todos os cidadãos; esta proposta é apoiada por 7 em cada 10 finlandeses. EUA, Canadá e Finlândia possuem índices de desenvolvimento humanos muito superiores ao do Brasil. O Canadá inclusive liderou a lista entre 1992 e 2000.

Na permissão ao aborto, é clara a divisão norte-sul do mundo.
Mas vamos deixar a discussão para depois. Vamos primeiro à lista das sete decisões tomadas pelos deputados brasileiros em 2015 que distanciam nosso Brasil dos países mais desenvolvidos do mundo e colocam-no um pouquinho mais perto da Idade Média:

  1. PEC 99/11, de autoria de João Campos (PSDB-GO): Aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), permite que entidades religiosas entrem com ações de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Isso dá a igrejas, entidades privadas, o poder de questionar leis e jurisprudências, igualando-as à presidência da República, à Procuradoria Geral da República, aos governos de estados, às mesas da Câmara, do Senado e das Assembleias Legislativas, aos partidos políticos e ao Conselho Federal da OAB. Se a proposta for aprovada no plenário da Câmara, a Igreja Universal poderá questionar a validade do seu casamento. É a maior afronta ao Estado laico desde o advento da Constituição de 1988.
  2. PL 5069/15, de autoria de Eduardo Cunha (PMDB-RJ): Aprovado na CCJ, aumenta as restrições ao aborto, um direito previsto para casos de estupro e risco à vida da mulher desde 1940. O texto da lei ainda permite aos profissionais de saúde se recusar "a aconselhar, receitar ou administrar procedimentos ou medicamentos que considerem abortivos". Isso significa que o agente de saúde que entender que a pílula do dia seguinte provoca aborto pode se recusar a oferecê-la à paciente, mesmo aquela que tenha sido vítima de estupro. Em 30 de outubro, cerca de 15 mil mulheres protestaram nas ruas de São Paulo contra a medida que dificulta à mulher vítima de estupro o acesso ao atendimento-padrão nesses casos.
  3. PL 6583/13, de autoria de Anderson Ferreira (PR-PE): Aprovado numa comissão da Câmara no fim de setembro e mais conhecido como Estatuto da Família prevê a definição de entidade familiar como a "união entre um homem e uma mulher". Deve excluir do acesso a planos de saúde, entre outros serviços, cerca de 60 mil famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, assim como famílias de arranjos anaparentais ―quando não há relação direta de descendência entre pais e filhos, como tios que cuidam de sobrinhos ou irmãos mais velhos que cuidam de irmãos mais novos.
  4. PEC 171/93, de autoria de Benedito Domingues (PP-DF): Aprovada pelo plenário da Câmara, a proposta reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Não há qualquer evidência científica de que a proposta vá afetar os índices da violência. Por outro lado, especialistas em infância e juventude alertam que os menores podem ser vítimas de abusos e aliciamento por organizações criminosas que comandam os presídios estaduais.
  5. PL 3722/12, de autoria de Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC): Aprovada por uma comissão especial, a proposta revoga o Estatuto do Desarmamento. Nomeado de Estatuto de Controle de Armas de Fogo, o PL reduz de 25 para 21 anos a idade mínima para compra de revólveres e pistolas, elimina a taxa que os compradores de arma precisam pagar e amplia de três para dez anos o prazo para renovar o porte de armas. A proposta também autoriza diversos profissionais que não trabalham com segurança ―como fazendeiros― a ter acesso a armas. A tendência é que as milícias cresçam, assim como o número de assassinatos, que já é alto. Segundo pesquisa da UFRJ, o Estatuto do Desarmamento evitou mais de 121 mil mortes no Brasil de 2004 a 2012.
  6. PEC 215/00, de autoria de Almir Sá (PR/RR): Aprovada pela CCJ, transfere do Executivo para o Legislativo a atribuição de remarcar terras indígenas ou quilombolas. Prevê o pagamento de indenizações retroativas ―e em dinheiro!― pelas terras expropriadas para a criação de reservas indígenas/quilombolas. Isso criaria um passível impagável para a União. Alem disso, estabelece como marco temporal de ocupação das terras o dia 5 de outubro de 1988, o que significa que os indígenas ou quilombolas não terão direito à terra se não a ocupavam em 1988.
  7. PL 4330/04, de autoria de Sandro Mabel (PMDB-GO): Aprovado em plenário, o projeto revoga vários dispositivos da Consolidação das Leis Trabalhistas, a CLT, um dos maiores legados de Getúlio Vargas para a sociedade brasileira. Os trabalhadores terceirizados recebem salários 25% menores do que os trabalhadores celetistas, permanecem no emprego pela metade do tempo e cumprem jornadas de trabalho maiores ―ou seja, mais de 44 horas semanais. 

FHC acabou com Vargas na economia;
Cunha, na sociedade.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência do Brasil em 1995 e levou a cabo a privatização de empresas criadas por Getúlio Vargas, ele sentenciou: "a era Vargas acabou". Mas nem mesmo FHC, ícone maior da direita nativa, teve a coragem de mexer nos direitos dos trabalhadores ou naquilo que o Código Penal de 1940 previa sobre o aborto. Ele é o retrato de uma direita que o seu partido, o PSDB, preferiu não ser. É um intelectual, um homem polido. Desde as últimas eleições, no entanto, o PSDB preferiu que sua cara não mais seriam os intelectuais: seria a escória da direita. Gente como o já supracitado Eduardo Cunha ou o deputado-pastor João Campos. Campos, além de propôr o fim da laicidade com a PEC 99 ―que prevê que uma força estranha á organização do Estado (as igrejas) questione leis e decisões do STF―, quer sustar uma decisão interna do Conselho Federal de Psicologia que proíbe os psicoterapeutas de fazerem a chamada terapia de reorientação sexual com seus pacientes, ou seja, curar gays. Se FHC pôs fim aos pilares econômicos da era Vargas, o neo-PSDB parece interessado em pôr fim aos pilares sociais da mesma.

O fato é que, como bem observou Rodrigo Martins, repórter da Carta Capital, o Brasil "até hoje não entendeu o sentido da Revolução Francesa". Liberdade significa que todos os cidadãos devem ser livres para viver de maneira lícita como quiserem, sem a interferência do Estado. Igualdade significa que todos os cidadãos são iguais, independente de serem indígenas, quilombolas, jovens em conflito com a lei, homossexuais ou irreligiosos. Fraternidade significa que os cidadãos devem ajudar uns aos outros, com enfoque especial aos mais vulneráveis, na construção de uma sociedade mais justa. O que vemos no Brasil atual é a completa negação desses valores. Vemos evangélicos que querem se tornar supercidadãos, com poder de questionar as leis, algo que ateus, agnósticos e irreligiosos não poderão fazer. Vemos a completa subjugação da mulher aos preceitos religiosos (minoritários na sociedade) seguidos por Eduardo Cunha ―que no entanto não segue aquele mandamento "não roubarás". Vemos a negação de gays e lésbicas ―e até mesmo irmãos mais velhos e tios― do conceito de "pai" e "mãe". Vemos a negação da recuperação a jovens que cometem crimes.

Ainda não derrubamos a Bastilha, mas julgamos ser possível
alcançar o nível de desenvolvimento social da França.
Na contramão dos Estados Unidos, que começa a debater o controle mais rígido de armas, queremos ainda mais armas e punições ainda mais severas para pequenos criminosos (os de colarinho-branco parecem não incomodar tanto). Na nossa vã ingenuidade, achamos que os problemas sociais podem ser resolvidos na base da bala e da tortura. Se resolvessem, os regimes ditatoriais da África e da Ásia ―de esquerda e de direita― seriam verdadeiros paraísos na Terra. E a Inglaterra, país onde é dificílimo conseguir uma arma, seria um caos. Da mesma forma, achamos que vamos resolver o conflito entre homens brancos e indígenas com o uso de força bruta. O Brasil é o país que mais mata indígenas no mundo e mesmo assim os povos originais não cansaram de lutar pelas terras que são, há um milênio, deles. Por fim, os deputados que se dizem tão preocupados com o "homem de bem" quer tirar dele seu sustento. Enquanto eles recebem todos os direitos possíveis para trabalhar de terça a sexta-feira, querem aprovar um projeto de lei que não só vai reduzir o rendimento médio dos trabalhadores como os farão trabalhar ainda mais.

O Brasil sonha em ficar rico elegendo deputados do ancien régime. Sonhamos com o nível de desenvolvimento que só o Iluminismo é capaz de promover e, ainda assim, não tomamos cuidado para não elegermos os representantes das trevas. É impossível perseguir o desenvolvimento flertando com o atraso. Alguém realmente acredita que é possível conter a desigualdade social com a criminalização da pobreza? Alguém realmente acha que se diminui a taxa de homicídio colocando alguns jovens na cadeia para "servir de exemplo" e liberando indiscriminadamente o porte de armas de fogo? Assim fosse, o sul dos Estados Unidos seria maravilhoso, com suas armas e presos sendo executados para "servir de exemplo" para outros criminosos. Não se resolve os problemas sociais à força da bala ou da lei. Conforme Jesus disse certa vez, pobres e sofredores sempre existirão. Não é fingindo que eles não existem que vamos nos tornar uma sociedade melhor, onde o seu filho pode andar com o iPhone na rua sem medo de ser assaltado. Ao virarmos as costas para eles, condenamos nossa nação inteira.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A mídia mantém o Brasil em 1916

O que os cidadãos de Waco fizeram trouxe desgraça e humilhação para o país e para eles mesmos, pois em qualquer lugar que a notícia chegar - e ela chegará longe - ficará a certeza de que em nenhuma terra, nem mesmo as que fingem ser civilizadas, pode um homem ser queimado até a morte nas ruas de uma cidade considerável em meio à exaltação selvagem de seus habitantes. — Editorial, The New York Times, 17 de maio de 1916
A citação acima se refere ao linchamento do jovem negro Jesse Washington por uma multidão enfurecida de Waco, Texas no dia 15 de maio de 1916. Washington, um trabalhador negro de 17 anos de idade, foi acusado de estuprar e assassinar a esposa de seu patrão. Ninguém presenciou o crime, mas o jovem assinou uma confissão após ser interrogado pelo xerife do Condado de McLennan. Washington foi julgado em Waco, onde declarou-se culpado e foi condenado à morte. Após o juiz pronunciar a sentença, o jovem foi arrastado para fora do tribunal por populares e linchado na praça principal da cidade. Cerca de 10.000 pessoas, incluindo as autoridades locais, se reuniram para assistir ao linchamento. Muitos pais buscaram seus filhos no colégio para que pudessem presenciar a justiça sendo feita. Washington foi despido, castrado, teve os dedos cortados e, por fim, foi dependurado numa árvore. Embaixo, os moradores acenderam uma fogueira. Seu corpo foi deixado sobre a fogueira por cerca de duas horas. Após o fogo ser extinto, seu torso carbonizado foi arrastado pela cidade e vendido como souvenir do maior evento social do ano na cidade. Um fotógrafo profissional que se encontrava na cidade registrou os acontecimentos, sendo esta a primeira vez que um linchamento foi retratado enquanto ainda acontecia. As fotografias foram reveladas e vendidas como cartões-postais.

Jesse Washington, ou o que restou dele.

Apesar de ter recebido o apoio da elite local, que queria construir a imagem de uma cidade moderna e liberal, o linchamento chocou a elite letrada dos Estados Unidos. Jornais de todo o país – mesmo de estados até então segregados, como o próprio Texas e o Alabama  condenaram o ataque. O mesmo New York Times que abre esse artigo apelidou o ocorrido de "o horror de Waco". A NAACP, organização mais antiga de defesa dos direitos civis nos EUA, utilizou as fotos do ocorrido em sua campanha nacional anti-linchamento. Segundo historiadores, o ataque sofrido por Washington foi o primeiro grande evento que ajudou a colocar a opinião pública dos EUA contra os linchamentos de criminosos negros, prática muito comum nos estados segregados do Sul da nação. A publicidade negativa que o fato gerou freou o apoio popular à prática, que passou a ser vista como um ato de barbárie ao invés de uma forma aceitável de justiça. Devido à reputação que Waco recebeu de ser uma cidade racista, as autoridades municipais posteriores decidiram atuar no sentido de impedir linchamentos nas décadas seguintes. Os livros didáticos de história dos Estados Unidos apresentam o horror de Waco como uma mancha na história do país, o que fez com que a polícia de Waco repensasse suas práticas. Durante o Movimento pelos Direitos Civis dos anos 1960, os policiais aplicaram táticas de não-violência contra os manifestantes, temendo que a cidade fosse novamente estigmatizada pela mídia nacional.

Waco, 1916 é aqui

Mas o que um fato ocorrido há quase cem anos nos Estados Unidos tem a ver com o Brasil? O horror de Waco serve para ilustrar o poder insidioso da mídia brasileira. Não possuímos nenhum grande jornal do porte de um New York Times a condenar os linchamentos de forma veemente. Pelo contrário, a mídia brasileira incita crimes como o ocorrido em 15 de maio de 1916 em Waco. Em 5 de fevereiro de 2014, quando rapazes de classe média com uma extensa ficha policial prenderam um jovem – negro como Jesse Washington  num poste sob a acusação de ter roubado um celular, a apresentadora do telejornal SBT Brasil leu um editorial onde defendia o linchamento. Três meses depois, incentivados por sua diva proto-fascista, moradores do bairro de Morrinhos IV, na periferia do município do Guarujá, espancaram Fabiane Maria de Jesus até a morte após terem confundido-na com uma feiticeira que estaria sequestrando bebês do bairro para praticar rituais de magia negra. Tratava-se de um boato propagado por uma página policialesca do Facebook intitulada Guarujá Alerta. Fabiane teve o azar de se parecer com o retrato falado divulgado pela página de justiceiros. Um ponto em comum entre o discurso irresponsável da apresentadora do SBT e o boato que levou à morte de Fabiane está a disseminação das redes sociais para amplificar o ódio e a ignorância propagados todos os dias por um tipo de telejornalismo incompatível com a justiça, que foi inclusive proibido por lei  no Uruguai antes das 22 horas. Aqui no Brasil a lei garante que telejornais podem ser exibidos a qualquer horário na televisão aberta, mesmo que seja para violar a dignidade de telespectadores e personagens através da exibição de cadáveres e muito sangue.

Waco, 1916.
Quando Fabiane foi assassinada pela horda de ignorantes selvagens de Guarujá, não faltou quem culpasse pessoalmente a apresentadora do SBT pessoalmente pela tragédia. No entanto, não podemos ser tão ingênuos: o problema não é ela. Ela é apenas a garota-propaganda desse tipo de jornalismo que não deveria mais existir num Estado democrático de direito. Um jornalismo que vale-se da ignorância de seu público para ganhar audiência. Ao contrário do New York Times– que ao posicionar-se contra os linchamentos pretendeu instruir seu público contra um ato de barbaridade extrema ainda presente numa sociedade onde deveria prevalecer a ordem jurídica , a mídia nacional incita a barbaridade, o estupro das instâncias jurídicas, para ter ainda mais violência para retratar. Na minha opinião, trata-se de um ciclo vicioso: a sociedade comete crimes, a mídia cobre os crimes e a sociedade – que anseia a fama, mesmo que infame – comete ainda mais crimes. Gugu entrevista Suzane von Richtofen e a transforma numa versão nada fictícia de Roxie Hart do filme Chicago. É um jornalismo que choca os britânicos e causa asco nos brasileiros que compreendem a verdadeira dinâmica da sociedade. A indignação dos indignados com a criminalidade não se faz presente, no entanto, quando descobriram os dez milhões de reais do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, na Suíça. É justamente dos políticos corruptos que nascem os miseráveis que, sem oportunidades de crescimento pessoal, adotam medidas extremas para sobreviver. Quando Cunha desvia dinheiro público, desvia dinheiro que poderia evitar que um jovem precisasse roubar para sobreviver.

Não é à toa que corruptos como Cunha defendam a redução da maioridade penal. Mas esse é outro problema de ordem ética. Voltando ao campo do jornalismo, a ONG Andi, que há 21 anos trabalha para dar visibilidade na mídia a questões relacionadas aos direitos de crianças e adolescentes, realizou uma pesquisa e chegou à conclusão que apenas os 30 programas de televisão e rádios analisados cometem, por mês, uma média de 1.936 violações de direitos. O jornalista Laurindo Leal Filho apontou algumas das mais berrantes violações em artigo para a Revista do Brasil; segundo ele, um apresentador que incita a morte de um suspeito viola de uma só vez cinco leis brasileiras, cinco acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, além do Código de Ética dos Jornalistas Profissionais. Sem falar que, ao contrário do que pode parecer, a morte de suspeitos não contribui para a paz social. Pelo contrário, incentiva ainda mais um conflito entre concidadãos que costuma vitimizar justamente os membros mais vulneráveis de uma sociedade extremamente desigual. Uma mídia que atua no sentido de preservar a injustiça social não pode ser a porta-voz do país que queremos construir. Como pessoas esclarecidas, devemos lutar não só contra a mensagem espalhada pela mídia brasileira, mas também contra a própria mídia. Se boicotarmos a mídia – e incentivarmos outras pessoas a fazerem o mesmo deixando claro o tipo de jornalismo que queremos, um que seja pautado pela ética e pelo respeito à vida e à dignidade humana, quem sabe conseguiremos tirar o Brasil de 1916.

sábado, 1 de agosto de 2015

Fariseia

Na madrugada do dia 2 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou a redução da idade de responsabilidade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos. No dia anterior, a maioria dos deputados votou contra a medida pois acharam-na dura demais ao condenar jovens à cadeia por tráfico de maconha. Devem ter se lembrado que o hobby favorito da juventude burguesia da qual seus filhos e os filhos de seus financiadores fazem parte é fumar e traficar maconha. No dia 2 aprovaram uma redução considerada mais "branda", apenas para crimes hediondos. Durante a sessão de votação, um deputado chegou a falar em privatizar as cadeias em seu discurso, revelando a real motivação de ter votado a favor da medida. Afinal, ele deve ter sido financiado por uma empresa que está de olho nesse "mercado" e já está garantindo que hajam "mercadorias" para que a empresa que lhe financiou. Outro, o "mito" da direita fascistóide que emergiu no país a partir dos protestos de junho de 2013, disse com todas as letras: "tem que tirar os marginais da escola e colocar na cadeia".

De que forma a redução da maioridade penal vai trazer harmonia para o Brasil? Gregorio Duvivier bem lembrou em sua coluna semanal na Folha que os países onde há mais harmonia social são aqueles onde a diferença entre os mais ricos e os mais pobres são mínimas. São países como a Suécia, onde os políticos vão trabalhar de bicicleta e não recebem bolsa nenhuma (Contra essas bolsas nunca vi ninguém falar!). Onde os juízes, como qualquer outra categoria profissional, possuem um sindicato e devem negociar o reajuste salarial com o Ministério das Finanças. E de que forma reduzir a idade penal é agir em defesa da família e da vida, como afirma a Bancada Cristã? O ECA garante que os adolescentes em conflito com a lei permaneçam estudando, ou seja, eles ainda têm a possibilidade de virarem "cidadãos de bem" após cumprirem a medida socioeducativa. Na cadeia, estão expostos a criminosos cruéis, que com certeza lhes recrutarão para fazer parte das facções criminosas. Isso se não lhes estuprarem ou matarem lá dentro. É comum os presidiários transformarem os mais jovens e franzinos em "mulher" dentro da cadeia.

Além disso, a taxa de reincidência nos presídios brasileiros é de 80%. Ou seja, o menor vai entrar, vai se graduar na "universidade do crime" e, se sobreviver, provavelmente sairá dali pior do que entrou, apto para cometer crimes ainda mais cruéis. O que, muito provavelmente, provocará uma explosão nos já altos índices de criminalidade. Então, Bancada Cristã, o cristianismo não nos ensina a perdoar e dar uma segunda chance? Não foi Jesus que evitou que os judeus fizessem justiça com as próprias mãos contra uma mulher acusada de adultério? "Vá e não peques mais", disse a ela, dando-lhe uma segunda chance. Mas somos arrogantes, vivemos em nossos mundinhos de casa-escola-trabalho-shopping-clube e julgamos que as oportunidades são iguais para todos. Se você se der ao trabalho de sair de sua redoma, perceberá que não é bem assim. Alguém que está ao seu lado precisa trabalhar em dois empregos, fazer faculdade à noite, pegar cinco ônibus, enfrentar o assédio da PM quase todos os dias só para ter condições de estar ali. Mas perceber isso requer empatia e escuta ativa. E a maioria de nós se julga superior ao garçom, ao porteiro, à faxineira (e aos filhos deles).

Temos essa ânsia de justiça porque se trata de uma realidade distante da nossa. Eis a verdade que ninguém quer encarar: a culpa dos jovens cometerem crimes também é nossa, ainda que não diretamente. Não ajudamos ao próximo. E aí entra outro argumento de Duvivier: os bilionários não só financiam projetos sociais por caridade cristã, eles sabem que uma sociedade que ajuda aos pobres é uma sociedade mais harmônica, com menos roubos, menos mortes e menos caos social. E isso é ótimo para a economia. Mas se quiserem argumentos bíblicos, lhes dou: A Bíblia nos ensina que o próprio Jesus foi vítima de uma sociedade sedenta por justiça. Não deixaram de ridicularizá-lo até momentos antes de seu suspiro final. Depois foram atrás de seus seguidores. Estêvão foi apedrejado até a morte em Jerusalém. Por que, então, nós que nos dizemos um país cristão buscamos isso? O sofrimento do outro regozija-nos, como se o mal causado seria desfeito a partir do sofrimento do outro. A base do cristianismo é o perdão. Jesus perdoou um bandido que foi crucificado junto a ele, dizendo-lhe que ele estaria sentado junto com ele no colo do Pai após a morte.

Na Fariseia, os líderes se julgam superior a Deus, sendo capazes até de matar o filho Dele para saciar a sede de vingança da sociedade. A Bancada Cristã está mais para Caifás do que para Cristo, que perdoa a todos os pecados.

O pai da Liana Friedenbach, morta de maneira brutal em 2003 aos 16 anos de idade por um menor, não quer a redução da maioridade penal. O que a turma do "é porque você não é vítima deles" tem a dizer sobre isso? Indaguei vários por aí e se calaram. Quando hipócritas vêem atos cristãos de verdade, isso costuma ocorrer: se acovardam e se calam. De que adianta dizer-se cristão se a mensagem e o espírito de Jesus Cristo não está em você? Essa falta de empatia generalizada é uma característica típica de sociedades fascistas. A apatia à dor e ao sofrimento alheio levaram à execução de 6 milhões de judeus, 2,7 milhões de poloneses, 200 mil ciganos, 70 mil pessoas com deficiência, 9 mil homossexuais e 1,2 mil Testemunhas de Jeová na Alemanha. Parece que foi há muito tempo, mas foi só há 70 anos. Isso, considerando o tempo que os seres humanos habitam o planeta, não é nada. O fato é que os outros são os outros. Os jovens infratores, como as vítimas do nazismo, são os outros. Agora que criminalizamos a juventude, quem será o próximo bode expiatório da mentalidade farisaica que rege o fascismo tupiniquim? Sempre tem que haver um em momentos de crise econômica. É essa mentalidade mesmo que queremos seguir enquanto nação? Queremos construir um país com base na vingança ou na justiça? Na compreensão ou no ódio? O inferno não são os outros, somos nós mesmos, que ignoramos a complexidade da sociedade e buscamos respostas simples para problemas complexos.