segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Jovens socialistas foram massacrados na Turquia – e ninguém dá a mínima

Essa semana, entrei na página do People's World (atual encarnação do Daily Worker) por acaso. Gostaria de saber se o Partido Comunista dos Estados Unidos – que abandou o leninismo e hoje segue uma linha socialdemocrata – estava acompanhando a atual crise política do Brasil. Depois de ler uma matéria datada de março (muito bem contextualizada, por sinal), me deparei com a seguinte manchete: “Turquia: 30 jovens socialistas foram massacrados em Suruç por homem-bomba”. Como poderia eu – que me considero bem informado sobre a esquerda mundial – não estar sabendo disso?

Segundo a matéria, escrita especialmente para o site, 300 militantes socialistas se encontravam na cidade de Suruç, na fronteira sul do país, para um encontro da Federação de Associações de Jovens Socialistas (SGDF na sigla em inglês). A SGDF é o braço juvenil do Partido Socialista dos Oprimidos (ESP na sigla em turco), de orientação marxista–leninista e que luta pelo estabelecimento de uma república federativa operária/sindical na Turquia e também no Curdistão. Durante o final do encontro, em 20 de julho, os membros da SGDF realizavam uma coletiva de imprensa no jardim do Centro Cultural Amara antes de partirem para Kobani, no norte da Síria, onde ajudariam a população curda a reconstruir suas casas, destruídas pelo Estado Islâmico (EI) após este último grupo ser expulso do local. As duas cidades distam apenas 10 km uma da outra. Foi nesse momento que uma bomba foi detonada, matando 30 jovens. Segundo o Partido Democrático das Regiões, pró-independência curda, a explosão foi causada por um homem-bomba.

Os 30 mártires de Suruç. O Ocidente lhes esqueceu rápido.
Espero que os curdos façam diferente.
O atentado teria sido cometido por um militante do EI. Foi nessa hora que eu pensei: “mas que diabos o EI está fazendo na Turquia se esse país se diz em guerra contra o grupo?”. Foi então que me deparei com um vídeo que está circulando pelas redes sociais em páginas de esquerda que explica os últimos desdobramentos da Guerra Civil na Síria, tendo como foco a expansão da presença militar turca no conflito. Nele, o narrador explica que a Turquia aceitou recentemente deixar que as forças lideradas pelos Estados Unidos usem suas bases aéreas na luta contra o EI. Simultaneamente, o país começou a lançar bombas contra os nacionalistas curdos iraquianos, o que evidencia que a grande preocupação da Turquia não é combater o grupo islâmico que choca o mundo ao perseguir cristãos, xiitas e homossexuais, e sim evitar que um Iraque e uma Síria desestabilizados pela ação dos radicais sunitas do EI venham a favorecer a luta pela independência do Curdistão, cujas fronteiras também se encontram dentro do atual estado turco.

Aí é que veio a grande revelação para mim: a Turquia não fechou suas fronteiras com a Síria, o que só comprova que seu atual foco militar não é combater o EI. Segundo o vídeo, o país compra petróleo do grupo e faz vistas grossas às células terroristas que agem dentro de suas fronteiras no treinamento de novos militantes islâmicos. Nesse cenário, é esperado que membros de partidos como o ESP sejam atacados, uma vez que o EI se opõe ao secularismo que é intrínseco às ideias socialistas e o governo turco tampouco está preocupado em livrar o país do grupo e de suas ideias islamitas. Muito pelo contrário, não é segredo para ninguém que o atual presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, se opõe ao secularismo e está a destruir o legado de Mustafa Atatürk, líder socialdemocrata que transformou a Turquia na primeira democracia laica do Oriente Médiono início do século passado. Portanto, não me causa espanto saber que Erdogan faz vistas grossas ao EI internamente enquanto “condena e amaldiçoa” os assassinos dos 30 jovens pró-curdos perante à comunidade internacional.

Sua decisão de se juntar à coalizão anti–EI visa defender claramente seus próprios interesses políticos. Um deles é limitar a expansão dos grupos nacionalistas curdos ao longo da fronteira turca. Os curdos, que representam 18% da população turca, professam diversas fés, sendo descritos como o povo mais religiosamente diverso do Oriente Médio. E é por isso que políticos islamitas – dos moderados como Erdogan aos radicais como os líderes do EI – se opõem a eles. O medo do crescimento do movimento faz sentido, uma vez que os curdos aproveitaram a fragilidade do governo sírio para tomar o controle de extensas áreas no norte do país, junto à fronteira sul da Turquia. Por esse motivo, Erdogan teria negociado com a coalizão anti–EI o estabelecimento de uma “zona tampão” que adentraria 50 km na província síria de Aleppo e permitiria à Turquia abater todos os aviões que ali circulassem. Isso evitaria que os curdos conquistassem a cidade de Aleppo – a segunda maior da Síria, sob controle do EI –, reafirmando a dominância dos islamitas e garantindo o abastecimento do grupo via Turquia. O acordo, no entanto, foi negado. Mas ele demonstra que a decisão turca de se integrar à coalizão anti–EI tem como propósito garantir que a campanha liderada pelos Estados Unidos evolua de acordo com sua própria agenda.

Considerando tudo isso, não é surpreendente que a mídia ocidental tenha dado pouco destaque ao caso dos estudantes socialistas assassinados em Suruç. Afinal, as forças ocidentais acabaram de ganhar um forte aliado anti–Curdistão na sua campanha contra o EI. Não é – apesar de que deveria ser – através da promoção dos nacionalistas curdos, religiosamente diversos, que o Ocidente pretende vencer o EI. É através da valorização de atores políticos já estabelecidos na região e que visam ainda mais a sua islamização, desde que ela não seja nociva aos interesses do Ocidente. Pelo bem da pluralidade religiosa, espero que as forças curdas ganhem cada vez mais terreno na Síria e que os jovens massacrados em Suruç sejam lembrados como mártires em sua luta por um estado que respeite a diversidade religiosa de seus cidadãos. Que a morte deles não tenha sido em vão!

domingo, 9 de agosto de 2015

Ode aos haitianos

Texto publicado no site do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs:

Não sei o nome de vocês. Tampouco sei os detalhes de suas vidas. Só sei que vocês foram brutalmente baleados na tarde de 1° de agosto de 2015 na cidade de São Paulo. Dois na Rua do Glicério e outros quatro na escadaria da Igreja Nossa Senhora da Paz, que tão gentilmente acolhe aqueles que, escapando da guerra ou da pobreza, buscam refúgio no Brasil.

O que sei sobre vocês é que descendem de africanos que foram trazidos para esse continente em caixas de quatro metros quadrados. Ao chegaram aqui, esses seres humanos foram marcados a ferro quente como gado, suas crenças foram ridicularizadas e eles foram obrigados a se converter ao catolicismo. Vendidos como animais de estimação, foram obrigados a trabalhar em canaviais de açúcar.

Eles aprenderam a falar o francês e a rezar para a Virgem Maria, mas mantiveram suas tradições de alguma forma intactas. O dialeto característico de vocês – o creole­ –, assim como sua religião sincrética – o vodu – surgiram como marcas da resistência de seus ascendentes à assimilação cultural imposta pelos franceses.

Em 1791, cansados de verem seus filhos morrerem para produzir um punhado de açúcar, seus ascendentes se revoltaram e proclamaram a independência do Haiti, que se tornou o primeiro país do continente livre do tráfico negreiro e da escravidão. Mas é claro que o povo que outrora os dominara não deixaria isso passar batido.

Desde então, o país de vocês vem sido governado por líderes corruptos que representam os interesses das potências estrangeiras. Em 1993, veio a esperança da mudança na forma da eleição do padre Jean-Bertrand Aristide, ligado à teologia da libertação. No entanto, ele foi deposto não uma, mas três vezes para garantir os interesses das grandes potências econômicas na minúscula ilha.

O Haiti é aqui!

O último golpe sofrido por Aristide teve a participação fundamental de meu país e, por isso, eu peço desculpas ao povo haitiano. Como tragédia pouca é besteira, em 2010 um terremoto de 7 graus na escala Richter matou cerca de 200 mil concidadãos de vocês e destruiu a já frágil economia de sua nação. Desamparados, muitos de vocês vieram ao Brasil cujo governo, por sua participação no último golpe de Estado haitiano, se sentiu na responsabilidade e no dever de acolhê-los.

No entanto, nosso povo, nutrido por uma mídia fascista, acredita que vocês “roubam” os trabalhos dos brasileiros. Atualmente passamos por uma crise econômica de escala global e, em momentos de crise, é comum as camadas iletradas da população achar um “bode expiatório” para culpar que não sejam os banqueiros, uma vez que são convencidos de maneira entorpecente pelos donos do poder de que a altíssima concentração de renda em nosso mundo é benéfica a todos e o problema são aqueles que não tiveram a oportunidade de se desenvolverem.

Foi nesse contexto em que vocês foram baleados na cidade de São Paulo. Embora sou apenas um cidadão brasileiro, gostaria que vocês soubessem que não faço parte dessa onda fascista que assola nossa sociedade e vitimiza aqueles já tão vitimizados por um sistema social injusto. Quero que saibam que sou solidário a sua dor, causada para manter as coisas como elas estão e desviar a atenção dos problemas socioeconômicos para a questão da imigração. Peço perdão em nome de todos os brasileiros que repudiam o que aconteceu com vocês e espero ser perdoado.

Sem mais delongas, gostaria de fazer um ode a todos os imigrantes haitianos. Que vocês tenham a coragem de enfrentar a vida que aqueles que atacaram vocês – e não os verdadeiros responsáveis pela atual crise econômica – não tiveram. Desejo-lhes muita sorte e felicidade na construção de uma vida nova em nosso país. Que o Brasil ofereça-lhes as oportunidades que lhes foram negadas no Haiti. Depois de tudo que vocês e seus ascendentes tiveram que enfrentar, vocês merecem!

sábado, 8 de agosto de 2015

Veja – do jornalismo à ficção

Anteontem, o jornalista Paulo Nogueira publicou um texto em seu Diário do Centro do Mundo (DCM) tentando elucidar a seus leitores “o longo percurso da Veja rumo à miséria jornalística”. Segundo Nogueira, o estágio atual da revista de maior tiragem do país deve-se às disputas de poder na família Civita. O jornalista conta que, ao contrário do patriarca Victor Civita (1907–1990), o herdeiro Roberto (1936–2013) gostava de impor sua visão de mundo na publicação.

Victor chegou ao Brasil em 1950, quando fundou a Editora Abril com o intuito inicial de publicar as histórias do Pato Donald para o público brasileiro. Considero esse gibi o melhor produto da casa editorial nos dias de hoje e o único que ainda vale minhas moedas. Nos anos seguintes, Victor decidiu diversificar o leque de suas publicações. Assim sendo, em 11 de setembro de 1968 nasceu a revista Veja, a mais duradora revista de current affairs ainda em circulação do mercado editorial brasileiro.

Em sua primeira capa, Veja trouxe algo inimaginável para os leitores assíduos da publicação nos dias de hoje – uma foice e um martelo sob um fundo vermelho. A reportagem falava sobre a disputa de poder entre a China maoísta e a União Soviética de Brezhnev, cada qual lutando para exercer mais influência sobre os países do bloco socialista. Lançada num momento político delicado, de recrudescimento do regime militar e três meses antes do AI-5, é inútil lembrar que a edição foi censurada. De fato, a Veja permaneceu censurada até 1976. 

A Veja foi co-criada e editada por Mino Carta em seus primeiros anos. Carta era o homem de confiança de Victor Civita. Segundo Nogueira, “estava em seu contrato que os Civitas só comentariam a revista depois que ela chegasse às bancas”. Isso se deve ao fato de Victor, ao contrário de outros empresários de mídia do país, jamais ter se considerado um jornalista. Em 1976, Carta saiu da revista cujo formato ajudara a criar para que o governo pudesse liberar um empréstimo da Caixa Econômica Federal para sanar as dívidas da Editora Abril. A ditadura se recusava a liberar a quantia ao grupo editorial devido ao fato de sua principal publicação ser editada por um militante “antigoverno”. Roberto pressionou Victor a deixar Carta partir.

Junto com Mino Carta foi-se a censura e o modelo Victor Civita de gerir a publicação. Segundo Nogueira, a chegada do segundo diretor de redação da Veja, José Roberto Guzzo, “representou a entrada de Roberto nas decisões editoriais”. Data dessa época (1983) a decisão – inconsciente ou não – de publicar uma reportagem satírica da revista New Science como fato. O periódico britânico publicou como piada do Dia da Mentira uma reportagem onde afirmava que cientistas haviam conseguido mesclar o DNA de um tomate com o DNA de uma vaca para produzir carne já temperada. No final da matéria original havia uma nota – que a redação da Veja pode não ter visto ou não – explicando que se tratava de uma brincadeira.

O "boimate" foi a primeira vez
que a Veja flertou com a ficção.
O “boimate”, que poderia ter sido evitado caso a revista tivesse checado os fatos com qualquer aluno ou professor de biologia, foi só a primeira de muitas matérias de teor questionável da Veja no período Guzzo. Quem não se lembra da capa de 1989 onde a revista proclamava Fernando Collor de Mello como referência em gestão de recursos públicos? O mesmo Collor que foi afastado por corrupção e hoje é apontado como beneficiário de propina no esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato. Foi do mesmo ano a decisão de publicar uma reportagem – de mal gosto – onde a revista expunha as intimidades de um moribundo Cazuza, proclamando que sua obra não resistiria à prova do tempo. A reportagem responsabilizava o cantor pela AIDS; afinal, ele não teria a doença se não fosse homossexual nem usasse drogas. É notória a posição da revista de crucificar artistas usuários de drogas em suas mortes, mesmo quando elas não tenham sido as responsáveis.

Quando Nogueira passou a trabalhar na revista, em 1980, “já houvera a transferência efetiva de poder” de J. R. Guzzo para Roberto Civita, mas as aparências eram mantidas. Roberto raramente aparecia na redação mas, nas noites de quinta-feira, véspera do fechamento da edição semanal da revista, se encontrava com J. R. Guzzo em sua sala no sexto andar do prédio da Editora Abril. Juntos, combinavam aquilo que entrava ou não na revista, quase sempre acompanhados de Élio Gaspari, adjunto de J. R. Guzzo.

Victor Civita morreu em 1990 e J. R. Guzzo saiu da revista em 1991. “Mario Sérgio Conti, o sucessor de Guzzo, deveria ser um passo a mais na tomada de poder por Roberto Civita, mas, no meio do caminho, aconteceu o caso Collor”, afirma Nogueira. Em 1992, Conti ajudou a derrubar o presidente que Roberto elegeu. Mas o problema, segundo Nogueira, não foi nem esse. O problema é que Conti foi vaidoso e quis assumir para si todos os louros pela derrubada de Collor. Certo dia, Roberto foi à redação da Veja com um grupo de empresários para mostrar-lhes como funcionava a revista. Conti falava com Claudio Humberto, uma das fontes no caso Collor, e fez um sinal com a mão para que Roberto voltasse mais tarde. Isso teria sido a gota d’água.

O sucessor de Conti foi Tales Alvarenga, seu adjunto, que, segundo Nogueira, era “um apagado editor de carreira que subiu na hierarquia por inércia”. O novo diretor de redação foi crucial para que Roberto Civita passasse a gerir a revista como bem entendesse. O editor do DCM afirma que estava na disputa para o cargo de chefe de redação, mas que “Roberto percebeu que Tales, um burocrata pouco brilhante, faria tudo que ele gostaria sem opor nenhum tipo de sombra”. Justiça seja feita, durante a era Tales, a revista ainda manteve algum grau de independência dos poderes políticos. De vez em quando ainda publicava alguma capa desfavorável ao PSDB. Eurípedes Alcântara, repórter responsável pelo “boimate”, assumiu a direção de redação da Veja  na década de 2000 e terminou de executar a guinada da revista à direita, eliminando o pouco de diversidade ideológica ainda existente na redação. O homem forte de Roberto Civita foi o responsável pela cobertura do escândalo do mensalão e da campanha pelo desarmamento. 

Durante o plebiscito do desarmamento, em 2005, a revista Veja defendeu que seus leitores votassem contra a medida, tentando associá-la ao PT – quando até mesmo notórios políticos da oposição como José Serra, Geraldo Alckmin e ACM Neto declararam-se favoráveis à medida. Segundo Barbara Gancia, então colunista da Folha de S. Paulo, a revista não deveria reportar a questão por se tratar de um caso de conflito de interesses. Segundo ela, o prédio alugado pela Editora Abril na Marginal Pinheiros é de propriedade da família Birmann, dona da Companhia Brasileira de Cartuchos. Outro caso de conflito de interesses é a posição contrária da revista ao sistema de cotas raciais. No auge das discussões sobre as cotas, 30% das ações da Editora Abril foram compradas pelo grupo sul-africano de mídia Naspers, que apoiou o regime de segregação racial naquele país. Após obter prejuízos com a Abril, o grupo baixou sua participação acionária na editora.

Desde então, a Veja deixou de apresentar ao público aquilo que seus leitores gostariam de ler para apresentar os interesses econômicos de seu dono, quase sempre num tom arrogante e autoritário. Segundo Nogueira, Alcântara se presta “basicamente a transformar em capas, títulos, textos e legendas as determinações do patrão”. A falta de treinamento jornalístico de Roberto Civita se esparramou pelas páginas da Veja. Não era mais necessário checar fatos e fontes. Bastava alguém declarar algo para a revista publicar. Foi assim que ela publicou uma matéria afirmando que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva possuía uma conta bancária no exterior, embora “não pudesse nem confirmar e nem desmentir” esse fato que, mesmo assim, foi publicado. Em caso de dúvida razoável, não se publica uma matéria. Isso é uma regra básica do jornalismo. Mas isso não importa mais. Agora deve-se defender as visões do patrão a qualquer custo, mesmo que esse custo seja a verdade factual. 

Em abril de 2012, veio à tona o escândalo Cachoeira e, com ele, um grande baque na credibilidade da revista. Descobriu-se, então, que a Polícia Federal tinha interceptado mais de duzentas ligações entre Policarpo Júnior, editor da Veja em Brasília, e o bicheiro Carlos Cachoeira. Segundo a CartaCapital, revista independente fundada por Mino Carta, Cachoeira foi o responsável por arranjar e filmar o recebimento de propina nos Correios, que foi divulgado pela Veja e deu origem ao escândalo do mensalão. A revista, intimidada e questionada, passou a atacar Carta, acusando-o de cooperar com a ditadura enquanto ele era diretor de redação da Veja, num momento em que não só a revista, mas toda a mídia brasileira era alvo de censura prévia.

O Tribunal Superior Eleitoral condenar a revista por fabulações é algo corriqueiro em eleições. Em 2010 a revista foi condenada pelo TSE a oferecer direito de resposta ao PT por tentar associar o partido às Farc, grupo narcoguerrilheiro da Colômbia. Em 2014 foi novamente obrigada a ceder seu espaço para o partido após acusar Dilma Rousseff e Lula de participação no esquema denunciado na Operação Lava-Jato. No entanto, aquela que talvez seja a edição mais fictícia da revista é a que saiu às bancas na semana passada. Nela, a revista afirmou que o empreiteiro Léo Pinheiro havia oferecido delatar o ex-presidente Lula como partícipe no esquema de corrupção da Petrobras. O próprio Pinheiro – que não foi ouvido pela revista – negou tal intenção e afirmou que todas as frases atribuídas a ele na reportagem eram falsas. Após anos apanhando calado, Lula enfim decidiu processar a revista por danos morais. 

Na mesma edição, a revista acusou o ex-jogador de futebol e senador Romário de possuir uma conta bancária na Suíça. O próprio jogador viajou até o paraíso fiscal para pedir uma diligência oficial do banco BSI, onde ele teria aberto a conta, sobre o extrato bancário publicado pela Veja. O BSI confirmou que o Senador não possui conta no banco e que os documentos publicados pela revista eram falsos. Anunciou também que vai pedir uma investigação junto ao Ministério Público da Suíça. Segundo Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo, a acusação da Veja pode ter sido orquestrada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, uma vez que Romário é um forte candidato às eleições municipais do ano que vem na cidade, numa chapa de oposição ao PMDB do prefeito. Mais uma vez, como já é de praxe, faltou apurar os fatos antes de publicá-los.

As chances da Veja ser punida no Brasil em ambos os casos são mínimas, mas ela terá que se explicar à Justiça suíça por ter falsificado documentos bancários. Antes da nota oficial do BSI, a revista fez o que faz de melhor quando suas reportagens são questionadas à luz da realidade: se vitimizou e atacou o jogador, usando para isso seus cães raivosos. Agora que ela deve responder na Suíça por inventar matérias, decidiu pedir desculpas a seus leitores. Acho que essas desculpas vieram um pouco atrasadas, considerando toda a ficha corrida da revista nos últimos anos. Se fosse minimamente séria, Veja demitiria Eurípedes de Alcântara e buscaria um afastamento total do modelo de jornalismo implantado por Roberto Civita, o exterminador da verdade e da diversidade ideológica. Mas a própria manutenção de Eurípedes no cargo após a morte de Roberto demonstra que Giancarlo Civita é, assim como seu pai, apenas o filho do dono. Poderia ser alguém, mas prefere ser um sobrenome.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Ser gay é moda?

Um certo pastor-deputado (qual? tem tantos!) disse que a homossexualidade é uma moda. Bom, vamos aos fatos. Há registros históricos de práticas homossexuais em quase todas as sociedades humanas, da Grécia Antiga ao cristianismo primitivo, da Roma Antiga à Europa Medieval, do Império Inca ao Egito Antigo. Pinturas rupestres do período mesolítico (de 10.000 a 5.000 anos antes de Cristo) encontradas na Sicília mostram homens fazendo sexo. Essas evidências, por si só, comprovam que a "moda" da homossexualidade é tão antiga quanto à própria existência humana. Vamos, então, nos focar na história recente da homossexualidade, já que aqui entram variáveis como o fato dessas sociedades não serem cristãs, não serem "desenvolvidas" ou "evoluídas" o suficiente (Embora os filósofos gregos estejam anos-luz de distância de alguns pretensos filósofos brasileiros).

Stonewall Inn, onde tudo começou.

O comportamento homossexual chamou a atenção – e posteriormente a aceitação – da mídia e da sociedade ocidental após a revolta do Stonewall Inn, um bar gay localizado no bairro boêmio de Greenwich Village na Cidade de Nova York. Em 28 de junho de 1969, oficiais do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) realizaram uma batida no local e, pela primeira vez, os membros da comunidade homo e transsexual que ali se reuniam resistiram à agressão. Foi nesse momento que nasceu o movimento LGBT moderno. Um ano depois, na mesma data, ocorreu a Primeira Parada do Orgulho Gay da história do planeta naquela mesma cidade. As leis anti-sodomia impostas pelos dominadores britânicos começaram a ser derrubadas nos parlamentos estaduais até a Suprema Corte abolir todas elas em 2003 ao analisar o caso de um casal gay que foi arbitrariamente preso enquanto fazia sexo dentro de sua casa no Texas.

Desde a revolta de Stonewall – que deve chegar aos cinemas no final desse ano – são quarenta e seis anos de movimento e luta LGBT. Mais do que a idade do referido pastor-deputado. Modas duram, no máximo, três anos. Tomemos como exemplo a lambada, ritmo criado no final da década de 1980 por produtores franceses que misturava o carimbó paraense com a música pop. Eles lançaram o grupo Kaoma, liderado pela cantora brasileira Loalwa Braz, que estourou em todo o mundo. A primeira música lançada pelo grupo, "Chorando Se Foi", vendeu cinco milhões de cópias em 1989, atingiu o topo da parada em onze países e o top 5 no Reino Unido, na Irlanda e na Austrália. O grupo cantou no Top of the Pops da BBC e no show de virada do ano da CBS. O sucesso da música levou artistas como Fafá de Belém, Xuxa e Elba Ramalho a gravarem suas próprias versões. Foram lançados dois filmes norte-americanos que tinham o ritmo como pano de fundo, além de um brasileiros protagonizado por Elba e Carlinhos de Jesus. Em 1992, ninguém mais se lembrava da lambada e o grupo sumiu.

O mesmo aconteceu com o chá-chá-chá, o twist, a bossa nova, o ié-ié-ié, a música psicodélica, a música disco, o new wave e a macarena. Há algum artista famoso que ouse gravar algum desses ritmos nos dias de hoje? No máximo fazem tributos ou homenagens, como foi o caso de Jennifer Lopez, que incluiu alguns acordes de "Chorando Se Foi" em seu hit mundial "On the Floor". Se a homossexualidade fosse uma "moda", como quer o pastor-deputado, todo mundo já teria esquecido-a e em 1975 ela seria apenas uma lembrança distante, um sonho de utopia, assim como o movimento hippie, que pareceu que iria revolucionar a América e desde os anos 1980 não passa de uma nostalgia. Acontece que a homossexualidade não é uma moda, tanto que as principais associações de saúde mental do mundo reconhecem hoje que ela não é uma "fase" que passa, e sim um traço genético, como a ambidestria ou a presença de covinhas nas bochechas. O fato é que a homossexualidade predata até mesmo a religião usada por esse deputado para condená-la e, assim sendo, deveria ser respeitada por ele e seus eleitores.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Brasileiro, povo cordial?

O brasileiro é o povo mais cordial do mundo. Desde que você concorde com ele em tudo. A partir do momento em que você discorda de um brasileiro - seja no campo da política, do futebol, da novela ou da religião - ele se torna violento e autoritário, sendo capaz de exalar um ódio visceral contra a mais doce das criaturas para defender seu ponto de vista. O brasileiro médio tem dificuldade em entender que cada um possui uma criação diferente, uma formação diferente, uma história de vida diferente, um jeito de ver o mundo diferente e que, por causa disso, nem todo mundo pensa igual a ele. Na classe média, então, é pior. Ela se tranca em condomínios com gente que se parece com ela e que passa por quase as mesmas experiências. Quase todos os brasileiros de classe média têm os mesmos hábitos: Frequentam os mesmos lugares, vão aos mesmos shows e festas, leem as mesmas notícias em veículos diferentes (a mídia brasileira é uma das mais concentradas do mundo segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras) e possuem as mesmas fontes de entretenimento e lazer. Quando obtêm um diploma de ensino superior aí é que se julgam superiores ao resto da humanidade por terem conseguido um privilégio que na verdade deveria ser um dever do Estado e um direito de todos.

O brasileiro de classe média gosta de ser chamado de "doutor". Ele gosta de se sentir diferenciado do resto dos brasileiros, dos quais se isola seja através da imersão na realidade paralela da Veja ou do refúgio em condomínios horizontais ou verticais. O Brasil é um dos únicos países do mundo onde quem é formado em Direito automaticamente vira doutor. E isso, pasmem, é usado como argumento nas discussões políticas. Ontem, um amigo do Facebook (o neto do ex-presidente João Goulart) indagou seus seguidores: "quem você gostaria de ver candidato à presidência da República em 2018?". Naturalmente uma pessoa escreveu: "Lula". Outra comentou: "Lula em 2018 vai estar na cadeia". Ela não soube nem explicar porque deseja ver o ex-presidente na cadeia e desandou a xingar todo mundo que discordava dela. Primeiro ela desejou que todos os petistas morressem de fome. Aí eu expliquei a ela que esse risco ficou lá atrás. Em seguida ela xingou todo mundo que discordava dela e ainda soltou essa: "sou advogada". Aí eu expliquei a ela que falácia de autoridade e xingamentos não são argumentos e que se ela quisesse apresentar fatos e ideias que a levassem a ser contra o Lula eu debateria com ela de bom grado. Sumiu.

Nas redes sociais é assim.

Qual é o problema em ser petista ou tucano, católico ou evangélico, corintiano ou flamenguista? Até onde eu sei tudo isso é permitido pela legislação do Brasil, que desde 1988 é uma democracia laica que garante a liberdade de expressão. Se você discorda que uma pessoa adote uma dessas posições, apresente a ela suas ideias. Não é xingando e desejando que todo mundo morra de fome que você vai conseguir convencer alguém a mudar de ideia. E isso vale para tudo, não só para o campo da política. Quantas vezes, durante as discussões sobre a redução da maioridade penal as pessoas não apelavam para a falácia da emoção: "Queria ver se um menor matasse um membro da sua família". Esse argumento é desmontado de maneira simples: Ari Friedenbach, pai da jovem Liana, assassinada por um menor de idade, é contra a redução da maioridade penal. Antes ele era a favor. Se agora ele mudou de opinião é porque deve ter lido sobre o assunto e não formulado seu pensamento através das falácias presentes no senso comum. Desmontada a falácia da emoção, vem em seguida o ódio puro: "Espero que você seja morto por um menor". É o tipo de argumento que as pessoas não têm coragem de apresentar face a face, mas que se torna cada vez mais comum nas redes sociais, onde a compaixão e a racionalidade são baixas e a coragem é alta.

Isso tudo só demonstra que ainda temos muito que crescer como país. Dizem que somos uma das maiores nações cristãs do mundo. Mas pelo pouco que conheço de Cristo ele aceitava desde colaboradores a opositores do regime romano em sua caminhada. Há algo de muito errado numa nação que se diz cristã e não apreendeu o maior ensinamento de cristo: a unidade na diversidade; somos todos iguais aos olhos de Cristo, independente de nossas diferenças. Que tipo de sociedade estamos nos tornando quando deixamos o ódio pautar as principais discussões? O ódio a todo mundo que não se assemelhava ao alemão médio - judeus, ciganos, gays, pessoas com deficiência, etc. - era o que pautava a sociedade alemã na década de 1930. Será que somos tão inseguros assim de nossas posições que o único meio que conhecemos para defendê-las é o ódio e o desejo de extermínio dos diferentes? Qual é o motivo para tanto medo e repulsa a quem pensa diferente de nós? Será que os diferentes não podem nos ensinar absolutamente nada? Será que tudo aquilo que eles pensam é nulo? Você não precisa concordar com tudo o que as pessoas dizem, mas também não precisa odiá-las por defender aquilo que elas julgam ser melhor para si e para o mundo. A intolerância às diferenças nos custam valorosas experiências de troca. As diferenças podem nos fazer crescer ou nos destruirmos. A escolha é sua.

Como a Alemanha apresenta a diversidade sexual para crianças

Conforme relatei em post anterior, saí da Igreja Católica há algumas semanas devido à sua oposição ao debate sobre a igualdade de gênero e a diversidade sexual nas escolas da rede pública. Os setores conservadores da Igreja, que infelizmente são aqueles que estão no poder aqui em Goiás, se aliaram às piores seitas pentecostais do Brasil para rechaçar uma educação que abrace a diversidade humana. Os mesmos que torcem o nariz para os professores que ensinam a história da religiosidade africana para seus alunos, agora não querem que os brasileirinhos e brasileirinhas saibam que existem homo, bi e transexuais. A escola não deve ser um espelho do cotidiano dos brasileiros, e sim do cotidiano de bispos e pastores: homens, brancos, heterossexuais, cristãos e de classe média. Só esse mundo é o que pode ser apresentado e discutido pelos professores. Que a Igreja Católica defenda isso é uma afronta à memória de dom Fernando Gomes, o primeiro arcebispo de Goiânia, que promoveu a reforma agrária nas terras da Igreja e era um defensor intransigente da liberdade de expressão, ao ponto de oferecer abrigo a estudantes perseguidos pela polícia dentro da Catedral Metropolitana em plena ditadura militar. E não só à memória dele: Padre Burnier, martirizado ao tentar interceder por duas mulheres que eram torturadas por agentes do regime e Dom Tomás Balduíno, defensor dos índios e sem-terra.

Se a Igreja goiana deseja evangelizar apenas para indivíduos brancos, heterossexuais e de classe média e alta, que evangelize. Mas eu não tenho o mínimo interesse em fazer parte dessa comunidade. Quando eu morava no armário poderia até ser. Mas eu aprendi a me amar por aquilo que eu sou. E a amar as pessoas por aquilo que elas são. Entendo que somos todos criações únicas de um Deus que é amor e que enviou seu único filho ao nosso mundo para nos ensinar sobre amor, compreensão e respeito às diferenças. Há quem entenda isso. "Quem sou eu para julgar?", disse o Papa Francisco ao ser indagado sobre os homossexuais que frequentam a missa. Faltou combinar com seus subordinados da Arquidiocese de Goiânia. Na missa que me motivou a sair de uma vez por todas da Igreja, o padre apresentou, em sua homilia, um desfile de ideias do senso comum que encontramos nas páginas conservadoras do Facebook. O embasamento científico para a formulação do currículo escolar agora vem de postagens numa rede social. Segundo ele, a Alemanha é o país que mais duramente promove a "doutrinação" homossexual. Curiosamente, me deparei ontem com um livro de educação infantil alemão que trata do tema homossexualidade e está no mercado há duas décadas. Não vi doutrinação. Vi, pelo contrário, um texto ensinando às crianças que todos devem ser aceitos, independente de suas características pessoais. Que é exatamente a mensagem do Evangelho que esse padre e sua Igreja diz professar.

Tirem suas próprias conclusões e me digam se isso é ou não é a melhor forma de apresentar a questão da homossexualidade às crianças:

"Doutrinação" homossexual. Segundo setores da linha dura da Igreja Católica, textos como esse não podem ser apresentados nas escolas brasileiras porque estimulam as crianças a serem homossexuais. Talvez alguma dessas frases em alemão diz: "Ser gay é divertido, venha ser um você também!". Fonte da imagem: Correio Alternativo.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Revolucionário é dominar a própria consciência (e usá-la)

Meu relacionamento com as drogas sempre foi o que se pode chamar de "careta". Nunca gostei de tomar drogas, mesmo aquelas cujo comércio e produção são sancionados pelo Estado e que movimentam uma indústria bilionária. Atualmente, qualquer problema - da falta de apetite à incapacidade de perder peso, da insônia ao sono excessivo - é tratado com drogas lícitas. Isso começou a se tornar visível para mim nos anos 1990, com o surgimento da "indústria da felicidade" através da massificação do Prozac. Daí vem minha desconfiança à maneira como as drogas são apresentadas de maneira simplista na mídia como solução para todos os problemas da vida. Não é, ou não deveria ser segredo para ninguém que parte significativa dos gastos da indústria farmacêutica é com a compra de médicos. O que compromete a credibilidade da classe médica; toda vez que um médico me prescreve um medicamento, me indago: "Será que ele está recebendo para fazer isso?".

Minha desconfiança às drogas - lícitas e ilícitas - faz com que a resistência do meu organismo a elas seja extremamente baixa. Quase não bebo. Nunca fumei. Não gosto nem mesmo de tomar remédio para dor de cabeça. Fico bêbado extremamente rápido e anti-inflamatórios me fazem dormir. Quando tentei experimentar maconha (uma das piores experiências da minha vida), passei mal. A sensação era como se tivesse levado uma porrada na cabeça. Não tenho aqui a intenção de adotar uma posição moralista e dizer às pessoas o que elas devem ou não introduzir em seus próprios corpos. Sou intransigente na defesa às liberdades pessoais. Cada um é senhor de si e sabe o que seu corpo pode suportar. No entanto, parece-me sábio compreender que cada escolha pessoal implica numa consequência; não só para o indivíduo mas também para a sociedade em que ele está inserido, pois nossas vidas estão todas interconectadas nesse mundo cada vez mais globalizado. 

Dito isso, impressionou-me descobrir que o Panteras Negras, partido político marxista dos EUA, formado por negros que lutavam contra o racismo e o capitalismo nos anos 1970, proibia seus membros de consumirem drogas ilícitas. Isso num momento em que o acesso a elas se tornava cada vez mais facilitado. O movimento hippie, que defendia que as pessoas conseguiriam atingir um novo estágio de consciência através do uso de drogas como LSD e maconha estava em seu ápice. Trata-se de uma forma encontrada pelos jovens da contracultura do final dos anos 1960 de se rebelar contra a sociedade rígida, conservadora, moralista e hipócrita daquela época. Soou-me estranho: um partido que defendia a liberdade acima de tudo, surgido naquela época, era contra as drogas. Pareceu-me uma posição completamente contrária não só aos movimentos revolucionários dos anos 1960 como também aos atuais partidos de esquerda. No entanto, o Panteras Negras possuía uma formulação teórica para essa proibição.

"Capitalismo + droga = genocídio".
Panfleto dos Panteras Negras.
A proibição aos militantes de usarem drogas surgia da pergunta: "a quem interessa que as pessoas marginalizadas pela sociedade sejam viciadas em crack, heroína ou demais drogas de alto poder entorpecente?". Pergunta essa que mantém-se atual na minha opinião. Segundo o Panteras Negras, as drogas pesadas tornam os povos oprimidos dopados, tirando-lhes a consciência dos problemas político-sociais e, assim, a capacidade de lutar por seus direitos. Seria, portanto, uma distração da luta antirracista e anticapitalista do partido. Lembrando que eles não eram contra a maconha, droga 114 vezes mais segura que o álcool, e sim contra as drogas que deixam seus usuários dopados. O crack - considerada uma droga sem "porta de saída" devido a seu alto poder destrutivo - transformou (e ainda transforma) potenciais líderes comunitários em prostitutas, viciados, traficantes e "aviãozinhos". Quantas lideranças políticas, artistas, intelectuais, questionadores e transformadores sociais o Brasil já não deve ter perdido para o crack? Ponto para aqueles que lucram com o atual sistema político-social, um dos mais injustos do mundo.

Além disso, há outro aspecto do consumo desenfreado de drogas em comunidades negras e pobres que interessa aos defensores e mantenedores do status quo: a Guerra às Drogas. O consumo de drogas por populações negras e pobres serve para justificar a ação violenta das polícias nas favelas, estejam elas localizadas no Rio de Janeiro ou em Baltimore. A criminalização dessas regiões é complementada por programas de televisão como Balanço Geral ou Cidade Alerta, que criminalizam ainda mais as vítimas de um sistema social injusto, onde a única forma de lazer que aqueles extremamente oprimidos encontram é no uso de drogas que lhes tiram o sorriso, a saúde e a vida. Não foi à toa que Pepe Mujica proibiu esse tipo de programa antes de legalizar o consumo recreativo de maconha no Uruguai. Fazem um pseudo-jornalismo que se vale do senso comum para justificar a eugenia. Ao invés do tratamento, pregam o extermínio.

Uma coisa é óbvia: Nossa sociedade é doente. E, ao invés de enfrentar sua doença, dopa-se e esconde dos verdadeiros problemas. A frustração por vivermos num sistema onde uma pessoa herda matéria-prima e até mesmo mão-de-obra é escondida através da dopagem. Ao contrário do que os hippies pregavam, ninguém mais usa droga para atingir novos estágios de consciência e, assim, refletir melhor sobre os problemas da sociedade. Maconha nem é mais considerado droga. Se se é rico, cheira-se cocaína para esquecer que você nada mais é do que um sobrenome. Se se é pobre, fuma-se crack para esquecer que, por mais que você tente, nunca conseguirá chegar onde os ricos estão. O fato é que, nesse mundo doente em que vivemos, onde quase todos se encontram dopados, seja por álcool, cocaína ou diazepam, o revolucionário não é mais usar drogas. O revolucionário é não usar nada e dominar sua própria consciência para poder perceber a deplorável situação social e denunciá-la.