sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A repressão sexual no cinema

A guerra de igrejas cristãs às diversas formas de expressão do amor não vem de hoje. Em 1929, o filme Asas se tornou o primeiro a vencer o Oscar de melhor filme. Um dos últimos grandes sucessos do cinema mudo, foi também um dos primeiros sucessos da era da massificação da sétima arte. Justamente por causa isso, tornou-se alvo fácil das críticas de setores reacionários da sociedade americana. Primeiro por se tratar de um filme anti-guerra que, contrariando a doutrina Monroe, mostra como consequência principal da guerra a morte. Segundo por mostrar cenas de nudez masculina e feminina (em contextos não-sexuais) e, por último, por mostrar um beijo entre dois amigos (cena abaixo). Em momento algum o filme leva o espectador a pensar que ambos os personagens fossem homossexuais. No entanto, as pessoas que vêm de ambientes sexualmente repressores vêem sexo em tudo.

Conforme mais filmes como Asas eram produzidos e as pessoas viam mais cenas de nudez e violência no cinema, a Legião Católica pela Decência começou a pressionar os estúdios de cinema a adotarem um método de censura de seus filmes, o que até então ficava a cargo dos diretores. Em 1930, a Associação de Cinema da América (MPAA) começou a impor o que poderia ou não ser exibido no cinema. Até 1934 ainda eram incluídas nos filmes cenas de nudez em contexto não-sexual, mas, naquele mesmo ano, sob pressão intensa dos católicos, os estúdios - buscando evitar um boicote de católicos - decidiram colocar ninguém menos que o presidente da Legião Católica pela Decência, Joseph Breen, para ditar as regras da censura cinematográfica. Logo estabeleceu-se a contradição: produtores judeus fazendo filmes para um público majoritariamente protestante seguindo a moral católica.


Não bastasse o atraso que a Igreja Católica representou para as artes em geral durante os séculos V e XV, ela conseguiu ainda atentar contra a liberdade de expressão artística de diretores e roteiristas de cinema até 1968, quando a MPAA começou a adotar o sistema de classificação indicativa dos filmes que lança, em vigor até os dias atuais. Nesse ínterim, Asas acabou sendo proscrito como lembrança remota da América libertina. Uma de suas cópias foi redescoberta vários anos depois na Cinemateca Francesa em Paris. Além da perda de filmes "imorais", a censura também baniu a representação de questões de grande impacto na vida pessoal do público (como miscigenação, homossexualidade, prostituição, sexo pré-marital, DSTs e estupro) de um importante veículo de discussão social. No final das contas, a Igreja não se importa com as aflições de seus fiéis e da população em geral; de fato, preferiria que eles nem transassem e que todas essas questões não existissem.

Deixar de falar de homossexualidade, prostituição, sexo pré-marital, DSTs e estupro não vai fazer com que essas práticas desapareçam. Quem tentou esconder abusos sexuais de coroinhas e foi obrigado a pagar milhões de dólares em multas por causa disso deveria, no tempo presente, saber disso melhor do que qualquer um. Negar-se a tratar de temas importantes para os fiéis gera preconceito, no caso da homossexualidade e da prostituição e, no caso de estupro e DSTs, faz ainda mais vítimas. Como pode alguém negar-se a falar de sexo sob a justificativa de preservar vidas se é justamente a falta de conhecimento sobre a sexualidade humana que gera mortes - sejam elas por homofobia ou AIDS? A sociedade não aceita mais a imposição de doutrinas católicas. Caso continue se negando a perceber o impacto (positivo e negativo) do sexo na vida dos cidadãos do século XXI, a Igreja continuará negando parte da realidade e corre o risco de tornar-se obsoleta. Se aprendi algo com o papa Francisco é que nunca é tarde para se fazer auto-crítica.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Para onde vão os refugiados?

Qualquer cidadão desavisado, que se informa apenas pela mídia comercial, pode pensar que maioria dos refugiados oriundos de países em conflito estão fugindo para a Europa. É comum, inclusive, ouvir das vozes propagadoras do senso comum o discurso de que os países vizinhos aos conflitos na Síria e no Iraque não oferecem ajuda aos refugiados. Enquanto isso pode ser verdade para a Arábia Saudita - monarquia ultra-sunita apoiada pelos Estados Unidos e cuja elite apoia e investe pesado no Estado Islâmico anti-xiita -, não se aplica aos demais países da região.

Uma reportagem da National Public Radio evidencia isso. Enquanto parte dos refugiados perdeu as esperanças e pensa ser inútil continuar na região, por não avistarem um fim próximo do conflito, outra parte sonha com o fim das batalhas, quando poderão retornar para suas casas. Tanto é verdade que a maioria busca refúgio em países vizinhos às suas pátrias devastadas pelos conflitos militares. Muitas vezes, o local de origem dos refugiados e o local para onde eles fugiram fazem até divisa. Entre os refugiados sírios, por exemplo, apenas 10 a 15% foram para a Europa.

Principais destinos dos refugiados.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de refugiados atingiu a marca de 60 milhões de pessoas nesse ano, o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Desse total, 5,25 milhões de refugiados saem da Palestina, 3,96 milhões da Síria, 2,68 milhões do Afeganistão, 1,32 milhão do Sudão ou do Sudão do Sul e 1,16 milhão da Somália. Ainda segundo a agência, nenhum país europeu estava entre os dez destinos mais procurados pelos refugiados na primeira metade do ano.

Dentre os países da Europa, destaca-se o apoio que a Alemanha vem dando aos refugiados. No início do ano, o país recebeu 440 mil refugiados, ficando na décima-terceira posição entre as nações mais procuradas pelos refugiados, pouco atrás do Chade na África Central. No entanto, a mídia comercial não se refere a uma suposta "crise de imigração" no Chade. Quando os refugiados são de países pobres e estão indo para outros países pobres, não há crise. No entanto, quando eles ousam atravessar o Estreito de Bósforo, marca indelével entre o progresso e o subdesenvolvimento, tornam-se um problema.

Países de origem dos refugiados.

A postura do governo alemão realmente é notável se considerarmos o conjunto dos países europeus. Na próxima atualização da lista de refugiados do ACNUR o país deve ficar entre os dez maiores destinos de refugiados no mundo. Deve-se, no entanto, apontar um padrão de dois pesos e duas medidas: enquanto Angela Merkel é indicada ao Prêmio Nobel da Paz por receber 440 mil refugiados, o governo da Jordânia já recebeu quase três milhões deles. Se fosse uma cidade, o campo de refugiados de Zaatari, com 80 mil habitantes, seria a segunda maior da Jordânia, atrás apenas da capital Amã, o que traz grandes pressões para os serviços públicos locais.


Refugiados eternos

O maior grupo de refugiados do mundo, segundo o ACNUR é o dos palestinos. A guerra árabe-israelense de 1948 deu origem à população original de refugiados palestinos, composta por cerca de 700.000 pessoas. Seus filhos e netos também são considerados refugiados e a maioria habita no Líbano, na Jordânia e na Síria, além, é claro, dos territórios palestinos (Faixa de Gaza e Cisjordânia). A guerra síria provocou o deslocamento de alguns desses palestinos, o que fez com que eles se tornassem refugiados pela segunda vez.

Num mundo cada vez mais globalizado e conectado, os países ocidentais não podem mais ignorar cenas como as do menino Aylan morto na praia. Urge aos governos ocidentais encarar a questão de maneira frontal e não apenas de maneira periódica e a uma distância segura. Atacar as causas dos conflitos, apoiar o ACNUR e investir na infra-estrutura (local ou não) para receber os refugiados é o mínimo que se espera. Que não fiquemos parados enquanto mais uma geração de refugiados eternos surge. É o mais humano a se fazer.

domingo, 11 de outubro de 2015

Burrice e sadismo, marcas das redes sociais?

Venho acompanhando, há algumas semanas, o mais novo seriado de Ryan Murphy, Scream Queens. Uma mistura de terror e comédia, narra a história de uma irmandade universitária que começou a ser atacada por um serial killer. Como todo seriado de Murphy, há críticas sociais sutis em todos os episódios. O que mais me chamou a atenção, no entanto, é a crítica à passividade e à falta de empatia que as redes sociais causa nas pessoas. Já no primeiro episódio, a reitora da faculdade reclama dos smartphones, que possibilitam os alunos de compartilhar entre si as fotos dos crimes ocorridos no campus, coisa que 20 anos atrás, quando ela acobertou a morte de uma aluna, não seria possível. No episódio exibido na última quarta-feira pela FOX, os alunos descobrem a casa onde estão escondidos os corpos de todas as vítimas do serial killer e vão até lá para tirar fotos e compartilhar em suas redes sociais. Nenhum deles pensa, em momento algum, em ligar para a polícia. Que sociedade sádica é essa em que vivemos em que a tecnologia é usada para compartilhar fotos de cadáveres?

Muitos de vocês já devem ter se esquecido disso, mas há alguns meses, um guarda civil matou a namorada no Buriti Shopping. Os frequentadores do centro comercial tiraram dezenas de fotos da moça morta, que viralizaram. Eu recebi as fotos, sem pedir. Na época o meu WhatsApp carregava as fotos automaticamente e eu vi a moça morta e ensanguentada. Tive nojo da pessoa que me mandou as fotos. E fiquei com raiva dela quando descobri que eu não só conhecia a irmã da falecida como já havia trabalhado com ela. As pessoas não pensam nisso na hora de compartilhar as fotos? E se fosse parente de um amigo seu? No meu caso, era. E, mesmo que não fosse, odeio ver cadáveres, sejam os reais mostrados no Balanço Geral ou os fictícios mostrados no CSI. Penso que isso nos insensibiliza para a gravidade do ato de assassinar alguém; a morte não deve ser glamourizada ou pormenorizada e tampouco normatizada. Em minha formação, aprendi que a vida de um único ser humano é um milhão de vezes mais sagrada do que todas as propriedades do mais rico dos homens. Hoje em dia, no entanto, usamos as redes sociais para saciar nossas curiosidades mais mórbidas e até incentivar o assassinato, seja de índios ou da presidenta da República. Como se fosse aceitável matar pessoas.

A morte foi normatizada. Ninguém se escandaliza mais quando a Polícia Militar promove massacres que transformam o Brasil no segundo país que mais mata jovens no mundo, atrás apenas da Nigéria. Mais da metade da população brasileira concorda com a frase "bandido bom é bandido morto". A crise de segurança pública, causada em parte pela manutenção da estrutura da ditadura militar - civis no comando de investigações criminais e militares no comando da repressão (rechaçada pelos próprios policiais) -, gera na população a percepção de que somos todos vítimas dos bandidos e que somente o extermínio deles vai gerar a paz social. Como pode mais mortes gerar a paz? É como querer curar um corte na perna com a amputação da mesma. Toda ação gera uma reação proporcional em tamanho. Se a polícia reprimir mais violentamente o crime organizado, este último irá responder com ainda mais violência e, pronto, criamos um ciclo vicioso que parece não ter fim. O crime se resolve com política social. Por que a taxa de violência na Suécia é praticamente nula? Porque na Suécia existe uma série de benefícios sociais que evitam a população de cair na pobreza e na exclusão social gerada por tal situação. No Brasil, por outro lado, temos um governador que vai fechar 155 escolas públicas e, assim, criar um monte de possíveis candidatos para o crime organizado.

Não sou ingênuo de achar que investir na qualidade de vida do povo elimina por completo a criminalidade. Sempre existirão pessoas com problemas de caráter, em qualquer lugar do mundo. Mas os países mais pacíficos do mundo estão entre os que mais investem proporcionalmente em educação e assistência social. Adotar uma postura de guerra à criminalidade só vai gerar ainda mais mortes, em especial dos mais pobres, que muitas vezes não têm nada a ver com os bandidos e os policiais e só foram pegos no meio do fogo cruzado entre a polícia e o crime organizado. Sem falar no desperdício de dinheiro público que investir numa guerra já perdida para a criminalidade representa. A sensação que as pessoas têm é que é possível vencer os bandidos sem passar pela questão da desigualdade social. Me lembro quando, há vários anos, a Câmara Municipal de Goiânia discutia se os guardas civis poderiam carregar armas. Fui contra, porque sabia que essas armas poderiam cair nas mãos de pessoas mentalmente despreparadas para lidar com elas. Talvez se esse projeto de lei tivesse sido arquivado, a vida da irmã da minha ex-colega de trabalho pudesse ter sido poupada. Na ânsia de acabar com a criminalidade, a sociedade, representada pelos vereadores, autorizou que um machista com potencial assassino carregasse uma arma.

Boato espalhado no Facebook assassinou
Fabiane e desmamou sua filha de um ano.
O fato é que o ser humano é hipócrita. Quer o fim da corrupção, mas molha o bico de servidores públicos para conseguir aquele documento ou ficar livre daquela multa. Quer o fim da violência, mas está apto a se tornar um assassino e linchar alguém até a morte. Na baixada santista literalmente desmamaram uma bebê quando mataram a mãe dela, Fabiane Maria de Jesus, linchada. E por quê? Porque a página do Facebook Guarujá Alerta denunciou que havia uma mulher sequestrando bebês para realizar um ritual satânico na cidade. Um boato originado no Rio de Janeiro e que de vez em quando ressurge nas grandes cidades do país. Semana passada, na Índia, o WhatsApp foi usado por extremistas hindus para incentivar o assassinato de um muçulmano que supostamente tinha um freezer cheio de carne bovina (a vaca é sagrada no hinduísmo). A tecnologia é uma arma poderosa - já fez maravilhas como arrecadar verbas para dar próteses de mãos à jovem que teve os membros decepados pelo namorado e unir defensores do mesmo ideal que fizeram revoluções e, por outro lado, já espalhou boatos que causaram danos à imagem de pessoas e até mortes. Se realmente queremos um mundo mais pacífico, precisamos agir de maneira mais pacífica em todos os ambientes dele, inclusive o virtual.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que compartilhas

A tecnologia é neutra, mas nós não podemos ser. Não podemos ser receptores passivos das informações que vimos nas redes sociais. Hoje mesmo li algo no Facebook que me causou tremenda vergonha alheia. Um comentarista da página Quebrando o Tabu - que defende a descriminalização do porte de maconha e trata de outros assuntos que afetam a vida político-social do Brasil - afirmou que Dilma Rousseff desviou 2 trilhões de reais. A arrecadação anual do Brasil é de cerca de um trilhão de reais. Então quer dizer que a presidenta desviou tudo o que o Brasil arrecada em impostos federais durante dois anos e nenhum órgão fiscalizador - TCU (que recentemente rejeitou as contas dela), MPF e PF - percebeu? Haja burrice para acreditar num boato desses! Se bem que o comentarista estava defendendo o Eduardo Cunha porque ele desviou "só" 2 milhões, então acho que ele rumina sim. O fato é que nem tudo que está escrito é verdade. Um papel mais ativo, de checar os fatos antes de passá-los adiante, evitaria até mortes. Antes de postar algo, escrever qualquer coisa, deve-se verificar a veracidade dos fatos e, acima de tudo, pensar nas consequências do que se está compartilhando. O meu receptor precisa mesmo ver corpos decepados? E se fosse o corpo decepado de um parente meu que estivesse viralizando? Chega de burrice e de sadismo nas redes sociais!

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mais mudanças, mais futuro

Se o Brasil fosse um país que se levasse a sério, Dilma Rousseff seria encarada como uma grande presidente. Até mais do que seu antecessor. A mulher, uma burocrata de carreira que disputou sua primeira eleição em 2010, simplesmente sacrificou seu próprio governo para pôr fim a um esquema de corrupção que assolou a maior empresa estatal do país por mais de três décadas. Ela poderia muito bem, como deseja alguns petistas, nomear pessoas de seu partido para a chefia da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria Geral da República (PGR) e varrer as denúncias para debaixo do tapete, mas se recusou. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, nomeou um diretor da PF filiado a seu partido e um procurador-geral que engavetou ou arquivou 459 denúncias contra políticos (194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e o próprio FHC) e ficou conhecido como "engavetador-geral". O próprio FHC, que volta e meia sai de sua auto-reclusão para tentar derrubar governos petistas, declarou recentemente à imprensa alemã que Dilma é uma pessoa horada e que ela não admite desvios em seu governo.

No entanto, temos no Brasil dois cânceres que desvirtuam a política. O primeiro deles é o PMDB, que deixou de ser o partido do Pai da Constituição, Ulysses Guimarães, para ser o partido de bandidos como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o evangélico que gosta tanto de sua fé que se vale de sua igreja para lavar dinheiro. Que democracia é essa em que o maior partido do Congresso fez parte de todos os governos pós-ditadura militar? Aos políticos do PMDB não interessa quem esteja no poder e qual sua ideologia política e seus planos sócio-econômicos para o Brasil, desde que eles também estejam no poder. Como bem observou o ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional Ciro Gomes, "o PMDB quer espaço para roubar". Aí os presidentes permitem que o PMDB roube em troca de apoio no Congresso. Afinal de contas, trata-se da maior bancada no Congresso, que tem o poder de trancar votações e inviabilizar projetos políticos. Não por acaso, o único governo dos últimos 30 anos que não conseguiu a adesão do PMDB foi justamente o que caiu: o de Fernando Collor. Ao contrário do que apregoa a mídia, o rompimento do PMDB com Dilma tem muito mais a ver com a falta de espaços para roubar do que com a incapacidade de negociação da presidenta.

A mídia sequer finge mais ser imparcial.
Declaração feita em março de 2010, quando
 percebeu-se que Lula elegeria Dilma.
O outro câncer da política brasileira é justamente a mídia. Nos últimos 12 anos, os principais veículos de comunicação do país se especializaram cada vez mais em anunciar o fim do mundo. Toda e qualquer iniciativa do governo federal - mesmo aquelas que eram bastante louváveis e dignas de elogio até mesmo de membros da oposição, como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o Mais Médicos - eram rechaçadas violentamente sem o devido equilíbrio com que a imprensa de países democráticos cobre sua política. Ambos Hillary Clinton e Donald Trump têm o mesmo espaço para apresentarem suas propostas ao público americano nas emissoras de notícias dos EUA, por exemplo, à exceção da FOX News, que se tornou a porta-voz dos indignados de extrema-direita. Mas lá a FOX News é exceção à regra, aqui o jornalismo partidarizado virou regra. Até o início do segundo mandato do presidente Lula tentou-se dar uma aparência de imparcialidade ao jornalismo brasileiro, mas então os donos de jornais perceberam que ele elegeria sua sucessora. Foi então que começou o partidarismo explícito até mesmo em veículos mais equilibrados como Globo News e TV Cultura, e eu perdi todo e qualquer interesse em seguir carreira na assessoria do PSDB, quer dizer, no jornalismo brasileiro.

Comportando-se como a mídia alemã às vésperas do incêndio do Reichstag, a imprensa nacional guia os brasileiros rumo ao precipício. Nos tratam como se fôssemos os ratos que seguem o flautista de Hamelin. E, apesar de terem cada vez menos influência na vida dos brasileiros, os veículos de comunicação ainda fazem o que podem para instaurar o medo e a confusão na população. Para isso, contam com a ajuda de Dilma, que além de ser uma péssima oradora, deixou um vácuo imenso no campo da comunicação institucional. Na primeira grande crise de seu governo, a imprensa valeu-se das confusas manifestações de junho de 2013, inicialmente contra a situação do transporte municipal, para amplificar a insatisfação contra o governo federal e a política em geral. O povo brasileiro não tem a cultura de protestar e o resultado disso foi a eleição do Congresso mais conservador da história recente do país, presidido por um deputado evangélico que propôs a criação do Dia do Orgulho Heterossexual. Não adianta tentar embelezar o ocorrido, como ingenuamente faz o PSOL; a realidade é que aquele movimento foi o responsável por tirar a extrema-direita não só do armário como também de casa. A intenção pode até ter sido boa, mas de boas intenções o inferno está cheio.

Foi nesse momento que Dilma propôs o fim do financiamento privado de campanha, com a finalidade de se criar no país um novo sistema político, onde os eleitos devam mais satisfações a seus eleitores do que às empresas que financiam suas campanhas. Ela encontrou, no entanto, a resistência ferrenha de - adivinhe quem? - deputados peemedebistas. A imprensa, por sua vez, pormenorizou a grande reforma que estava sendo proposta. Tínhamos ali uma oportunidade única de transformarmos a política brasileira, mas logo a moda de sair de casa com a cara pintada de verde e amarelo e postar fotos no Instagram com a hashtag #VemPraRua passou. E, no ano seguinte, tivemos a campanha mais cara da história - talvez até do planeta. No final das contas, as Jornadas de Junho não passaram de uma revolta juvenil; quando eu era adolescente, brigava com meus pais sem nem saber direito o porquê, era duramente repreendido e saía da sala com a sensação de que havia ganhado a briga pelo simples fato de ter tido a coragem de enfrentar as maiores figuras de autoridade que eu conhecia. Depois é que fui descobrir que a vida não funciona bem assim, que nem tudo se ganha no grito e que várias vezes precisamos de paciência para conquistarmos o que desejamos.

Suspeito que a decisão de Dilma de atender ainda mais os anseios dos rentistas tenha surgido em algum momento da campanha eleitoral do ano passado. Ela sentiu que precisava acalmar o mercado financeiro e, para tal, começou a atacar benefícios previdenciários dos trabalhadores, entre outros. A presidenta pensou ser possível pôr fim à animosidade crescente contra seu governo através de uma política de concessões à elite. Erro grave. Se nem um governo apoiado pelas massas trabalhadoras como o de Jango conseguiu sobreviver à pressão da elite, por que Dilma achou que era se afastando dos trabalhadores e concedendo - ainda - mais à elite que ela conseguiria se sustentar no poder? Não que a elite não esteja curtindo o ajuste fiscal, mas o do PSDB sempre será mais lucrativo para ela. Sem o apoio da elite e cada vez mais distante dos trabalhadores, Dilma cava sua própria cova. O fato é que, assim como em 1954 e 1964, chegamos numa encruzilhada. Quando Vargas não conseguiu mais conciliar os interesses de trabalho e capital, preferiu dar um tiro peito a retroceder nas conquistas populares. Jango, por sua vez, viu-se obrigado a fugir do país.

Só há dois caminhos para sair da encruzilhada. Ou o Brasil avança ainda mais nas garantias de direitos para todos através de reformas estruturantes há tempos negligenciadas ou voltamos a ser um país de poucos. Em 1964, no contexto da Guerra Fria - que hoje olavetes tentam recriar - e com a ajuda da mídia monopolista, a escolha foi a última opção e retrocedemos 21 anos. Será que Dilma percebeu o que está em jogo?  Penso que, ao invés de xingá-la, deveríamos todos nós - eleitores dela ou não - que desejamos que nossos filhos vivam num país cada vez menos injusto, exigir uma mudança de rumo em seu governo. E, diferentemente de junho de 2013, não abandonarmos as ruas. Assim como Ciro, creio que se for para governar para o povo, o povo defenderá Dilma. Tirá-la do poder, no atual momento, só engrossaria o coro dos hipócritas que se diz indignadíssimo com a corrupção durante a campanha para votar contra o fim do financiamento empresarial da política - justamente de onde se origina toda a corrupção na política brasileira. Como bem apontou Joaquim Barbosa, "eles (PSDB e PMDB) só pensam numa coisa: no dinheiro das empresas".

Se o lulismo está defasado enquanto alternativa real de poder,
imagine o fernandismo, que fez do Brasil o vice-campeão
mundial em desemprego.
Se realmente tiver ocorrido algum desvio durante a campanha de Dilma, que o TSE multe o PT e possamos seguir em frente com a confiança de que isso nunca mais ocorrerá, afinal de contas o financiamento privado de campanhas é uma página virada da nossa história (assim espero!). Diplomar Aécio Neves não só não resolveria o problema da corrupção como criaria ainda mais dificuldades econômicas, sobretudo para os mais pobres. Se o lulismo já está defasado enquanto alternativa real de poder para o país, imagine você o fernandismo! Escolher um novo rumo, pelo menos para mim, não envolve a volta ao passado, ainda mais um de juros a 45% ao ano, dólar a 7 reais, inflação a 12% ao ano e vice-campeonato mundial em desemprego. Quer verdadeiramente "mais mudanças, mais futuro". Se não for com Dilma, que seja com outro em 2018. Gostando das medidas dela ou não, ela foi eleita pela maioria e deve governar até o final de seu mandato. A despeito do que pensa uma minoria de lunáticos, vivemos numa democracia e a maioria da população concorda e aprova essa forma de governo.

P.S.: Se você não concorda com as regras do jogo, não jogue. Se for para apelar e querer que as coisas funcionem do seu jeito, é só não jogar, ou seja, votar. A multa nem é tão cara assim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Viva São Francisco!

Cartaz do filme.
No último domingo, algumas das maiores comunidades cristãs do mundo - Católica, Anglicana e Luterana - comemoraram a festa litúrgica de São Francisco de Assis. Assim sendo, decidi assistir ao filme Irmão Sol, Irmã Lua (1972) do cineasta italiano Franco Zeffirelli. Filmado seguindo a mesma estética de peças de teatro como Jesus Cristo Superstar e Godspell (ambas de 1970), que tinham como norte a contracultura e se propunham a fazer uma releitura do cristianismo sob a ótica dos movimentos sócio-políticos do final dos anos 1960, Irmão Sol, Irmã Lua narra a famosa história do padroeiro da Itália, Giovanni di Pietro di Bernardone. Apelidado de Francisco (francês) pelo pai, um rico comerciante que era casado com uma francesa e tinha uma grande admiração pela França, o jovem deserta do Exército e busca uma reconexão espiritual com Deus. Após ter uma epifania durante a missa, Francisco abandona todas suas posses mundanas, inclusive as roupas, para viver segundo o Evangelho de Jesus Cristo. Dedica-se a ajudar os pobres numa época em que não existia sequer o conceito de caridade quanto menos o de assistência social. Francisco foi interpretado de maneira entusiástica pelo ator britânico Graham Faulkner, em seu único papel no cinema; reza a lenda que os produtores consideraram oferecê-lo ao cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso. 

Sua iniciativa é mostrada como análoga às comunas hippies dos anos 1960: uma sociedade alternativa onde a acumulação de riquezas não existe e todos vivem da própria subsistência. Seu movimento logo recebe em suas fileiras outros jovens da cidade de Assis, também cansados de viver uma vida sem propósito. Dentre eles se encontra Bernardo de Quintavalle, um soldado que matou muitos muçulmanos durante as Cruzadas. Ao retornar à cidade, Bernardo é recebido com loas de herói, mas sente que, ao contrário do que lhe foi ensinado, a guerra não o aproximou de Deus. Os jovens que decidem apoiar a causa de Francisco são chamados de loucos, afinal de contas a busca espiritual sempre é rechaçada enquanto a acumulação de riquezas sempre foi apontada como o ideal nas mais diversas experiências de sociedade existentes na história da humanidade. Ser "normal" é ter preocupações mundanas como a luta política, a busca frenética pelo amor e pela validação social e a procura por fama, poder, dinheiro e influência. Quem aponta essa contradição é a personagem de Clara que, embora seja interpretada de maneira magistral por Judi Bowker, poderia ter sido mais explorada.

Ao buscar o apoio dos moradores da cidade, Francisco é incompreendido. Na chuva e com fome, seus seguidores conseguem apenas um pedaço de pão de Clara que, a essa altura, ainda não se havia juntado ao grupo. Francisco tenta obter o perdão dos pais, em vão. Nesse momento, Giocondo, um dos seguidores de Francisco se culpa incessantemente pelo pecado da luxúria. Se por um lado Francisco lhe diz para não se culpar devido ao fato de que eles não eram padres, a quem a castidade é exigida, por outro o despacha para a vida mundana do sexo. O amor carnal jamais é admitido como algo espiritual, é sempre encarado como algo mundano, um "pecado original" que ainda hoje atormenta e aprisiona os seguidores das religiões abraâmicas (Islã, cristianismo e judaísmo). A moral sexual imposta aos fiéis era - e ainda é - bastante rígida. A incapacidade milenar de reconhecer a sexualidade humana como uma das dádivas de Deus foi o que motivou minha saída da Igreja Católica. Jamais serei capaz de entender como um relacionamento sexual saudável e consensual pode ser visto como algo ruim. Acredito firmemente que o êxtase, inclusive sexual, nos aproxima do Criador. E é justamente por acreditar nisso que prefiro não transar com qualquer um.

Após concluir a reforma do templo em ruínas de San Damiano, os franciscanos atraem os pobres da cidade para seus cultos. Atraem também a ira do bispo local que está convicto quanto ao papel da Igreja Católica: "defender a ordem social estabelecida". O bispo autoriza a interdição do templo e, durante a tentativa dos soldados eclesiásticos de fechar a igreja, um dos seguidores de Francisco é assassinado. O ermitão decide, então, buscar uma resposta para a validade de sua luta junto ao papa Inocêncio III. Um dos legisladores da cidade, Paolo, tenta impedi-lo, mas acaba concordando em agendar uma audiência de Francisco com o Papa. Quando os franciscanos chegam a Roma fica nítida a contradição entre o grupo que prega uma vida simples como a de Jesus e a Igreja Católica - rica, poderosa e hierarquizada, mais preocupada com seus jogos de poder do que com a defesa dos predicados morais de Cristo. Embora o filme fosse uma produção britânica, sendo o diretor e co-roteirista Zeffirelli um italiano que ascendeu junto com os movimentos contestatórios dos anos 1960 seria impossível não esperar dele uma cutucada à toda-poderosa Igreja Católica, que volta e meia se mete nos assuntos internos da política italiana.

Se os primeiros cristãos eram em sua maioria pobres que estavam mais preocupados com a salvação espiritual, estando dispostos a se tornarem mártires da nova fé quando atacados pelo poderosíssimo Império Romano, as coisas mudaram drasticamente quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma. A lógica passou a ser a da imposição forçada da religião e da utilização da mesma para a manutenção do status quo. De repente o bandido Jesus Cristo, morto a serviço de César para evitar um levante contra Roma, estava sendo usado para manter o poder da mesma figura e de seus asseclas. Durante a Idade Média, época em que Francisco viveu, a Igreja passou a ser um instrumento ainda mais forte de manutenção da ordem social injusta. Para evitar revoltas, o Papa permite a instalação de obras de caridade. Numa das cenas finais do filme, Inocêncio III se agacha e beija os pés imundos de Francisco. Um dos conselheiros papais se vira para outro e diz: "Não se preocupe, o papa sabe o que está fazendo. Este homem é a voz dos pobres e o santo padre quer ganhá-los de volta para nós". Parece até estar se referindo ao atual Papa, que não por acaso escolheu se chamar Francisco e denuncia as desigualdades sociais sem jamais propor a divisão das riquezas da Igreja.

Apesar dos usos políticos aos quais sua imagem tem sido submetida, Francisco de Assis é, sim, um exemplo a ser seguido. Que ele deixe de ser usado para propósitos políticos e seja verdadeiramente incorporado por todos nós cristãos. Estou farto de discursos vazios sobre amar o próximo como se ama a si mesmo para, já na saída da igreja, nos digladiarmos para saber se é o PT ou o PSDB que está destruindo o Brasil. Cansei de quem diz "quem sou eu para julgar os gays?" e, em seguida, apoia um referendo homofóbico no Leste Europeu. Chega de usar a mensagem de Cristo para incentivar a acumulação de riquezas! Deus é amor (1 João 4:8) e não poder, ódio ou dinheiro. Se você quiser servir a um desses senhores, que sirva! Mas Jesus é claro quanto a servir dois senhores ao mesmo tempo: "ou odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro" (Mateus 6:24). Basta de servir ao Evangelho e a outras coisas que não têm nada a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo ao mesmo tempo. E viva São Francisco! Viva todos aqueles que buscam romper a lógica acumulativa, egoísta e segregacionista da sociedade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Conto: A vingança dos mortos

Esta não é uma história de amor. É uma história de ódio e vingança que se passa numa terra sem lei. Aconteceu em meados da década de 1970 numa república das bananas. O presidente do local, democraticamente eleito, havia acabado de ser deposto por uma junta militar. Algo corriqueiro naquela época nas porções de terra localizadas abaixo da linha do Equador. Suas propostas, idênticas às do presidente norte-americano Franklin Roosevelt, haviam sido consideradas absurdas pela imprensa e pela classe média, quem imploraram aos generais para que salvassem o país da “ameaça vermelha”. E assim foi feito. No entanto, os generais não cumpriram sua parte do acordo. Gostaram do poder e não quiseram devolvê-lo aos civis. Com a promessa de transformar uma das nações mais atrasadas do mundo no “país do futuro”, mantiveram-se no poder. E conseguiram feitos incríveis, como a explosão da pobreza e da criminalidade, o retorno de doenças tropicais já erradicadas e o maior crescimento econômico do mundo com arrocho salarial.

É nesse cenário em que tudo ocorreu, por um acidente do destino. Maria era uma jovem de classe média como outra qualquer dos anos 1960. Era a líder do fã-clube local dos Beatles. Não gostava muito de política, mas sabia que não era certo prender e revistar as casas das pessoas sem ordem judicial e muito menos censurar músicas e peças de teatro. Um dia, voltando para casa da faculdade no final de tarde, a jovem levou um baita susto. Foi surpreendida por sua amiga Isabel, que havia acabado de regressar da capital e com a qual já não se comunicava há seis meses. As duas colocaram o papo em dia numa mesa de bar até que Isabel lhe perguntou se podia dormir em sua casa. Maria não via problema nenhum no pedido, uma vez que as duas se conheciam desde quando eram crianças, apesar de terem seguido caminhos distintos no ensino médio; Isabel entrou na política estudantil e foi eleita para liderar o grêmio estudantil e, mais tarde, a União Estadual dos Estudantes, enquanto Maria fundou um fã-clube de sua banda favorita. Apesar disso, Isabel sempre esteve presente na vida de Maria nos momentos difíceis. Foi assim no ano anterior, quando os pais dela morreram, deixando-a sozinha naquele casarão enorme.

De madrugada, sirenes acordaram Maria. Ela foi até a sala ver o que se passava. Quando viu policiais se aproximando da casa, seu coração quase parou. Foi correndo até o quarto acordar Isabel. Eis que, para seu espanto, a amiga sacou uma arma e foi até a sala. Maria ouviu tiros e, quando abriu a porta do quarto, viu Isabel estirada no chão, ensanguentada. Um dos policiais viu que Maria estava observando a cena e foi até o quarto. Deu uma coronhada na cabeça da jovem e a colocou numa Kombi preta, ao lado de sua amiga. Quando Maria acordou, não tinha a mínima ideia de onde estava. Não se lembrava de nada que havia ocorrido algumas horas antes. Só sabia que estava presa, pois estava numa cela fétida, cheirando a sangue e mofo. De repente, a porta da cela se abre, jogam Isabel, à beira da morte e, antes que Maria pudesse dizer algo à amiga, puxaram-na pelo braço e disseram: “Agora é a sua vez!”. A jovem ficou sem entender: vez de quê? Levaram-na para uma sala escura onde tocava uma música em volume absurdamente alto. Um senhor, cujo rosto as sombras encobriam, perguntou à moça: “Há duas formas de se fazer isso: a fácil e a difícil. Qual você escolhe?”. Maria disse que escolhia a fácil, pois queria ir embora dali logo para não perder uma aula na faculdade.

O policial misterioso, então, revelou seu rosto à jovem: tinha cabelos pretos, um nariz fino, sobrancelhas grossas e uma boca delicada. Seria um verdadeiro galã, caso não tivesse sequestrado Maria e torturado sua amiga. Ele começou a fazer perguntas à jovem, mas a moça não soube lhe responder nada. Nunca tinha sequer ouvido falar dos nomes mencionados tampouco dos acontecimentos atribuídos a ela e a Isabel. “Eu não sei nada disso não, senhor, só quero estudar e cuidar da minha vida”, disse. De repente, o policial se levantou lentamente e caminhou rumo à jovem. Colocou suas mãos sobre os ombros dela. “Então você prefere o jeito difícil? É uma pena ter que violar uma jovem tão linda como você”, disse enquanto a enforcava. Maria implorou ao policial para que não fizesse nada com ela. Disse que tinha repulsa a armas, que jamais participaria de um assalto, que respeitava o governo e que sempre agiu conforme a lei. O policial não quis nem saber. Rasgou-lhe o vestido. Quando colocou sua mão dentro da calcinha da moça, ela começou a gritar. Ouviu como resposta: “Pode gritar, aqui ninguém se importa, você está numa terra de homens e deveria saber disso antes de mexer com armas”. Após tirar a virgindade da moça. o policial retirou-se da sala.

Antes que a jovem pudesse pegar o que restou de seu vestido, outros dois policiais entraram na sala. Quando Maria pensou que seu martírio tinha acabado, veio mais tortura: toda vez que ela não sabia responder algo, era submetida a uma forma de tortura diferente. Primeiro aplicaram-lhe choques na vagina e nos seios, depois penetraram-lhe a vagina e o ânus com uma barra de metal. A jovem nunca tinha visto tanto sangue saindo de seus orifícios como naquele dia. Quanto mais ela suplicava para que parassem, mais intensamente torturavam-na. Por fim, Maria estava sendo submetida à tortura do afogamento quando o policial que a havia estuprado durante a madrugada entrou na sala. Disse cinicamente, sem peso algum na consciência, para que os policiais parassem com aquela sessão medieval porque a jovem falava a verdade. De fato ela não tinha envolvimento algum com os subversivos. Um deles havia entregado todos os membros da organização, mas disse nunca ter ouvido falar de Maria, explicou o policial. “Que pena, estávamos só começando com essa coisa linda”, disse um dos torturadores. A moça foi levada de volta à cela, onde Isabel já não se encontrava mais.

Maria não resistiu aos ferimentos e faleceu poucas horas depois. Os policiais encontraram-na debruçada sob uma poça de sangue. Ela havia morrido sufocada no próprio sangue. Eles logo pensaram em como esconderiam o “trabalho” que haviam feito na moça. Prática comum naquela delegacia, que tinha a função de proteger a sociedade de seus membros mais extremistas. Ainda mais agora que haviam torturado até a morte uma pessoa inocente. Seria um escândalo caso alguém ficasse sabendo do ocorrido. Era perigoso, pois, mesmo censurada, a imprensa estava cheia de subversivos e volta e meia alguma coisa desfavorável ao governo era publicada. A revolução não podia correr o risco de falhar porque uma moça estava no local errado, na hora errada e foi pega por engano. “É perfeitamente normal acontecer fatalidades assim em tempos de guerra”, pensou o galã, responsável pelo interrogatório. Assim sendo, seus subordinados enterraram o corpo de Maria num matagal onde ele nunca mais pudesse ser encontrado. Se por alguma artimanha do destino fosse encontrado, a causa mortis apontada pelos policiais civis e pela imprensa seria provavelmente estupro seguido de morte. O trabalho de algum maníaco qualquer que ronda a cidade, jamais o de um policial.

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Uns dois anos se passaram naquela pacata cidade do interior. Num dia qualquer de maio, mês de aniversário do golpe de Estado que os livros de história chamavam de revolução, haveria um baile em homenagem aos membros do Partido Democrático da Renovação Nacional, o braço civil da junta que governava o país. Não se tratava de uma cidade grande ou economicamente importante para o país, mas era a sede de uma base aérea. Era importante para o regime fazer propaganda do local, principalmente para o Exército dos Estados Unidos, para o qual negociava repassar a administração do local. Assim sendo, a cidade se pôs num clima de festa. As mulheres prepararam seus vestidos com meses de antecedência. Os repórteres mal podiam esperar para fotografar deputados e senadores que, pela primeira vez, pisariam na cidade. Os comerciantes se digladiavam para conseguir um valioso contrato de fornecimento com a prefeitura. Por outro lado, estudantes protestavam. Isto é, aqueles que ainda tinham coragem de dizer alguma coisa. Muitas pessoas – talvez a maioria – apenas se conformavam com a dura realidade. Tinham medo de que pudessem ser a próxima vítima.

O baile foi realizado na Biblioteca Municipal, e contou com a presença de figuras caras ao regime, como o torturador de Maria que, a essa altura, já tinha conseguido uma promoção por “inestimáveis serviços” prestados à polícia política do estado. Ele foi com a namorada da vez. Os rumores na cidade eram de que ele trocava de namorada a cada festa. Eis que, quando ele se gabava de ter matado o chefe do principal grupo de revolucionários comunistas do país para um repórter, levou um grande susto. “Não pode ser!”, pensou consigo mesmo. De repente, seu rosto ficou branco como o de uma assombração, suas mãos ficaram geladas como as de um esquimó e sua voz parou de sair. O repórter e a namorada imediatamente olharam para o mesmo rumo que o policial olhava e viram uma moça de corpo esguio e seios fartos enfiados num vestido branco sem alça, de pele bronzeada, cabelos pretos e lisos, lábios carnudos, nariz fino e olhos negros. Era Maria! A namorada do policial deu-lhe um beliscão para que parasse de encarar a moça. E, como não obteve a resposta esperada, começou a discutir com ele. O repórter, constrangido com a situação, pediu-lhes licença.

O policial jamais havia esquecido o rosto de Maria. Afinal, ela era a única moça – até onde ele sabe – que ele e seus colegas haviam matado por acidente. Após sua namorada se retirar do recinto, para nunca mais voltar, ele se dirigiu até Maria. Apresentou-se a ela e levou um susto ainda maior quando ela lhe disse seu nome: Ana. Começaram a conversar e, quando o policial julgou adequado, perguntou-lhe se ela tinha irmãs. Para seu espanto, Ana disse que não, que era filha única. Ele decidiu, então, ir atrás de um de seus colegas de corporação com a desculpa de que traria uma bebida para a moça. Quando estava servindo o ponche, indagou seu colega Carlos: “Olha aquela moça, ela não é a cara daquela Maria?”. “Que Maria?”, indagou o colega. “Aquela moça que a gente matou por engano”, respondeu o policial. “Tá doido! Fala baixo!”, disse Carlos, que afirmou não conseguir se lembrar de tal Maria. De repente, o policial viu algo que jurava ser uma mancha de sangue no vestido de Ana. “E aquilo ali, não é uma mancha de sangue?”, perguntou ao colega. “É uma rosa vermelha estampada”, disse Carlos, já preocupado com a saúde mental do colega.

O policial voltou para perto de Ana e a moça demonstrou estar chateada por ele ter ficado tanto tempo longe dela. Quando percebeu que sua namorada havia sumido, o policial pensou estar diante de sua única oportunidade de transar naquela noite. “Será que ela é gostosa igual a Maria?”, pensou consigo mesmo. Começou, então, a fazer um jogo de sedução com Ana. Cochichou no ouvido dela, dançaram juntinhos e trocaram carícias num local onde ninguém pudesse vê-los. Por fim, decidiram sair do baile antes mesmo da chegada do grande convidado da noite: o governador. O policial escoltou Ana até sua casa, onde ela deixou seu carro e depois seguiram, no carro dele, para a saída da cidade à procura de um motel. “De preferência um bem barato”, deixou escapulir o policial. Ana sugeriu que fossem a um chamado Love House e, quando o policial reclamou do preço, ela insistiu, dizendo que ele não precisaria se preocupar com isso, pois eles rachariam a conta. A moça disse que queria fazer amor com ele nesse motel porque o local significava muito para ela, uma vez que havia sido ali que ela perdeu a virgindade. O policial aceitou com certa relutância.

Quando chegaram ao quarto escuro, o policial começou a tirar a roupa e a beijar Ana da única forma que sabia tratar uma mulher: violentamente. Eis que Ana acendeu a luz e o policial percebeu que eles não estavam a sós. Havia três homens no quarto. Eles seguram o policial e tapam-lhe a boca antes mesmo que ele pudesse pensar em dizer algo. Deram alguns socos nele. Foi então que Ana começou a explicar que Maria era sua irmã gêmea e que ela estava viajando pelo mundo quando do assassinato da irmã. Quando regressou, fez tudo o que pôde para encontrar a irmã desaparecida. A busca resultou infrutífera no primeiro ano, até que ela encontrou um ex-policial que disse ter sido expulso injustamente da corporação e estava disposto a lhe contar tudo o que havia acontecido com sua irmã em troca de uma certa quantia de dinheiro. Quando terminou de falar, Ana destampou a boca do policial e lhe disse: “Quais são suas últimas palavras?”. “Tenha clemência”, disse o policial. “Igual o senhor teve com a minha irmã?”, indagou a jovem. Após dizer isso, Ana entregou uma lista a um dos três homens e se retirou. Eram as instruções de tudo que ela queria que o torturador sofresse. As mesmas coisas que sua irmã sofreu.

O algoz se tornou vítima de toda a dor que infligiu a apenas uma de suas várias vítimas. Levou choque nas partes íntimas, foi violado com uma barra de metal e afogado na banheira coberta de pétalas do motel. Quando os matadores de aluguel estavam prestes a lhe cortar o pescoço com uma lâmina de barbear, sua visão ficou embaçada, como se estivesse despertando de um sonho. De repente, percebeu que era isso mesmo que estava acontecendo. Tudo não passava de um sonho! O policial estava seguro em sua cama, num asilo, no ano de 2013. Mas isso não o deixou mais tranquilo. Pelo contrário, ele começou a gritar desesperadamente: “Socorro! Os comunistas estão me matando!”. Pela segunda vez naquela semana, a enfermeira de plantão teve que tranquilizá-lo no meio da noite, explicando-lhe que ele não corre esse risco, uma vez que os comunistas não governam o país. O ex-policial agradeceu à enfermeira, que desconhece por completo a carreira tenebrosa que motiva as perturbações noturnas daquele senhor simpático.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Não é da sua conta, escroto. Ou: porque o feminismo também é válido para os homens gays

Estou cada vez mais convencido de que a comunidade LGBT espera que eu fique com gente que não me atrai para que eu possa provar que sou um cara legal. Isso é algo corriqueiro na vida das mulheres. Se a mulher é julgada por ficar com qualquer um, ela também é julgada por ser seletiva demais e não ficar com qualquer um. Ela é “fútil” se procura um cara com aparência que lhe agrada, é “difícil” se procura um relacionamento que vá além do sexo rápido, é “careta” se busca um homem de nível intelectual elevado, é “interesseira” se procura um cara com uma cerreira já estabelecida e, o mais clássico de todos, é “chata” se não ficou com o menos atraente do grupo de amigos por nada além de piedade. No final das contas, a mulher vai ser julgada e rotulada de qualquer jeito, seja por fazer ou por deixar de fazer sexo. O ambiente da comunidade LGBT em que estou inserido – o dos homens gays cisgêneros – microcosmo que é da nossa sociedade machista emula entre seus membros o preconceito socialmente aceito contra as mulheres, com todos seus rótulos. Este preconceito não deveria sequer existir quanto menos ser aceito, mas é, tanto quanto o preconceito contra os LGBTs, cuja existência nos irrita profundamente. No final das contas, o feminismo é uma luta válida tanto para desconstruir e questionar o discurso de homens héteros quanto o discurso de homens gays.

Ontem eu recebi uma mensagem superagressiva de uma pessoa que sequer conheço pessoalmente num aplicativo de relacionamentos. Agora é a hora de culpar a vítima para quem assim desejar: “Mas também, o que você faz nesses aplicativos?”. Estou lá porque gosto, porque me ajuda a quebrar a minha timidez e porque já conheci muita gente legal através dessas ferramentas. Voltando à história da agressão: Primeiro o cara se aproximou de mim de maneira bastante vulgar, oferecendo sexo. Diante da minha recusa, porque não estou ali para anunciar meus serviços sexuais (nada contra quem esteja) e sim para buscar amizades e talvez um romance, ele ficou com raiva de mim. Atitude típica dos machões de internet, todos muito corajosos on-line. Aí ele disse que eu já tinha combinado de me encontrar com ele no passado (oi?!?), mas que eu não compareci porque eu sou “fútil” e só quero me relacionar com homens bonitos. O irônico é que quem leva mais bolo do que tudo nessa cidade sou eu. Tenho um cupom de cinema vencido que prova isso. E se eu realmente tivesse feito isso – marcado e não comparecido – não teria sido de propósito. O bolo que eu teria dado nele seria, segundo o mesmo, prova do meu “mau caráter”. Mas eu acho que o ocorrido revela mais sobre o caráter dele do que sobre o meu, porque eu não agrido quem não quer ficar comigo. Não quero obrigar ninguém a se sentir atraído por mim. A culpa não é minha de não tê-lo achado atraente.

Eu sei que beleza é um conceito socialmente construído pela mídia hegemônica, representação fiel de seus donos (brancos) e não da maioria da população (negra e mestiça), que as revistas e os anúncios constroem corpos inatingíveis em programas de edição de imagens, que a nossa sociedade busca freneticamente a magreza como ideal de beleza, etc. Mas não preciso sair beijando na boca de quem não me atrai para provar que não me pauto pelas construções midiáticas de beleza. Militância é militância e amor é amor. Por mais que os discursos dos líderes evangélicos digam o contrário, o amor não é um ato político. Quem é que consegue explicar por que a gente se sente atraído (e depois se apaixona) por uma pessoa e não por outra? É devido a uma série de fatores: a abordagem, a apresentação física, a conversa, o tratamento recebido, etc. Já dispensei caras bonitos – alguns até mais bonitos do que eu – porque eles não conseguiam me tratar com respeito, porque não tinham cuidado com a higiene pessoal, porque não tinham um papo interessante, porque não respeitavam o meu ritmo ou porque não eram inteligentes. Se você se julga em desvantagem por algum motivo, não há nada que uma boa abordagem não resolva. E se mesmo após a sua melhor cantada a pessoa não ficar atraída por você, não se martirize nem agrida a pessoa. Não seja um escroto, as razões pelas quais o outro não quis ficar com você não são da sua conta. Às vezes é preferível nem sabê-las.