segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A eleição sem fim

Esse final de semana a eleição presidencial brasileira de 2014 completou um ano. No entanto, a eleição ainda não acabou. Findada a eleição, a campanha de Dilma Rousseff desativou seus perfis – oficiais e semioficiais – nas redes sociais e logo sua militância se dispersou. No campo oposicionista, no entanto, a campanha não findou. A militância tucana continuou ativa contra Dilma e o PT nas redes sociais e o partido, jogando o que ainda restou de sua credibilidade de lado, começou a ouvir a parte mais radical de seu eleitorado e passou a atuar de forma estapafúrdia para impedir a posse e o governo da presidenta democraticamente reeleita em 1° de janeiro de 2015.

Quatro dias após o término da campanha, o PSDB pôs em dúvida a credibilidade da própria Justiça Eleitoral, pedindo uma recontagem dos votos. A base para essa acusação gravíssima contra os responsáveis pela fiscalização do processo eleitoral brasileiro – base da nossa democracia – foram “os comentários da população em redes sociais”. A reprimenda foi dura. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu os resultados da eleição para o PSDB, afirmando que se o partido está insatisfeito com a apuração, que ele mesmo faça a recontagem dos votos. É um questionamento esperado em Repúblicas das Bananas como Honduras, Paraguai ou Haiti, mas não num país onde já se vota ininterruptamente há mais de 30 anos.

Dilma tomou posse normalmente em 1° de janeiro. Nesse momento, a própria presidenta contribuiu para a desintegração da base social que a reelegeu ao anunciar reformas nas contrapartidas utilizadas pelo governo para conceder benefícios previdenciários. Anunciou também a nova equipe econômica de seu novo governo; saía o keynesiano Guido Mantega e entrava o Chicago boy Joaquim Levy. Logo começou a impôr-se uma política aecista de austeridade fiscal que corroeu ainda mais a base de apoio ao governo, sobretudo no movimento sindical. Talvez Dilma pensou que conteria a oposição se agisse como ela. Enquanto isso, esta última, ainda mobilizada, organizava seu primeiro ato eleitoral fora de época: os protestos de 15 de março.

Quando um milhão de pessoas saíram às ruas – em sua maioria eleitores de Aécio indignados com o resultado da democracia e alguns poucos que se sentiram traídos pela presidenta –, o PSDB e os partidos de sua órbita já tinham um novo mote de campanha: o impeachment. O impedimento de um presidente só pode ser realizado mediante da comprovação de que o mandatário tenha cometido um crime durante o exercício de sua função. Como, por exemplo, a compra de deputados por 200 mil reais por Fernando Henrique Cardoso para que a emenda da reeleição fosse aprovada. Dilma Rousseff, apesar da política econômica desastrada que insiste em levar a cabo, talvez seja a presidente mais honesta de toda a história do Brasil.

A crise que ela vive é, em parte, devido a sua intolerância com a corrupção peemedebista. Em vez de apoiar o suspeitíssimo Eduardo Cunha quando este lançou sua candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, Dilma preferiu lançar seu próprio candidato, o que desgastou sua relação com o PMDB. E embora a narrativa oficial é de que a roubalheira na Petrobras tenha começado durante os governos petistas, o próprio Fernando Henrique Cardoso, em livro recém-lançado, cita que foi alertado por Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional e membro do conselho de administração da Petrobras, sobre os problemas da estatal. E confessa que não fez nada para acabar com eles. Dilma, por outro lado, demitiu Paulo Roberto Costa – nomeado por Fernando Henrique em 1995 – e Renato Duque da estatal.

Já que ficou impossível comprovar ligação direta da presidenta com o escândalo da Petrobras, ficou acertado então que seria buscada outra justificativa para o pedido de impedimento. A oposição decidiu, então, esmiuçar as contas do governo Dilma e descobriu as famosas “pedaladas fiscais”, que virou palavra-chave na boca de nove em cada dez aecistas. Trata-se de um mecanismo utilizado por todos os governos; quando falta verba para uma determinada área (no caso o Bolsa Família), o governo pega um empréstimo com um banco estatal e depois ressarce o mesmo. Só que no caso do exercício fiscal de 2014 o valor teria sido mais elevado do que nos anos anteriores. Pode até ser algo imoral, mas não é ilegal.

De qualquer forma, não é possível impedir um presidente em exercício por fatos ocorridos no mandato anterior. Dessa forma, a oposição aguarda ansiosamente pela próxima “pedalada”. O ano de 2014 na política se resumiu à oposição fazendo campanha em ano não-eleitoral e testando os meios existentes para derrubar Dilma e, por conseguinte, as próprias instituições democráticas do Brasil. Só que enquanto as instituições discutem o impeachment, soluções políticas importantes para os problemas do país deixam de ser discutidas. Esse deve ser, sem sombra de dúvida, o Congresso com menos propostas aprovadas de toda a história. A proposta da maioria de seus membros é uma não-proposta: dificultar que uma presidenta eleita por mais de 54 milhões de pessoas possa governar. 

Por ora, a notícia de que o presidente da Câmara dos Deputados possui contas não-declaradas na Suíça arrefeceu um pouco os ânimos golpistas. Pela primeira vez em quase dois anos, as acusações contra políticos do PT – e somente do PT – deixaram de ser o foco das atenções. De certa forma, considero até como algo positivo. O Ministério Público da Suíça, que não é afetado por petismos ou tucanismos como o nosso, ajudou a comprovar a tese de que o problema da corrupção brasileira não está restrita a um único partido, mas é a força que move todo o sistema político. Não se sabe ainda que fim o affair Cunha vai levar, mas por ora ele deixou em suspenso o ano eleitoral mais longo da história brasileira.

Afinal, pegou mal para todos aqueles que se voltavam para Cunha como o redentor que livraria a nação brasileira da corrupção petista – e somente petista. Embora esse ano tenha sido um desastre para a política, tenho esperanças de que o ano que vem, com as primeiras eleições sem a influência do dinheiro nas campanhas, reafirmará a vocação democrática do Brasil. O TSE deve se posicionar em relação aos três processos do PSDB que pedem a cassação da chapa Dilma/Temer – sob influência da máquina peemedebista, que compõe governos federais desde 1985¹ – e as Olimpíadas inviabilizarão um golpe de Estado. O COI é criticado sempre que sedia jogos em países não-democráticos, da Alemanha nazista à China comunista.

Mas a oposição vai continuar tentando derrubar Dilma. Ela não dá conta de justificar a seus financiadores – locais e, sobretudo, internacionais – o porquê de receber o tanto de dinheiro que recebe sem estar no governo. Em seu patético voto a favor do financiamento privado de campanha, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes acusou a proposta de ser uma tentativa de favorecer o PT, pois, segundo ele, o PT consegue organizar melhor sua militância do que os demais partidos. O que ele quis dizer, na verdade, é que sem dinheiro a oposição não existe. Não conseguem pôr pessoas nas ruas sem pagá-las para tal. E são essas pessoas que querem a saída de Dilma Rousseff. Porque com certeza elas defenderão o povo brasileiro!


¹ A máquina peemedebista influenciou o TSE a cassar o finado Jackson Lago (PDT) e a empossar Roseana Sarney (PMDB) como governadora do Maranhão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Berniemania

Semana passada, a CNN realizou o primeiro debate entre os pré-candidatos à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata. Nas considerações iniciais de cada um deles, um tema apareceu de forma recorrente, como se um fantasma estivesse rondando aquele centro de eventos de Las Vegas. Era o tema da crescente desigualdade social a assolar a nação mais próspera da história do planeta. Nos últimos anos, o crescimento da renda dos 10% mais pobres não acompanhou o crescimento da renda dos 10% mais ricos. Estima-se que o salário mínimo nacional – atualmente em US$ 7 por hora trabalhada – precisaria ser dobrado para que os trabalhadores que o recebem pudessem abandonar a linha da pobreza. Em Seattle, o prefeito Ed Murray aumentou o salário mínimo municipal para US$ 15 a hora após intensa campanha da vereadora trotskista Kshama Sawant.

O senador começa a chamar a atenção.
Assim como Sawant, uma das principais vozes na luta contra a crescente desigualdade social no país tem sido o senador Bernie Sanders. Autoproclamado um "socialista democrático", Bernie foi eleito prefeito de Burlington, maior cidade do estado de Vermont, em 1981, antes de ser catapultado para a política nacional. Enquanto governava a cidade, declarou seu apoio ao governo sandinista da Nicarágua, em repúdio às investidas do presidente republicano Ronald Reagan contra o mesmo. Foi reeleito três vezes e, em seguida, tornou-se deputado federal e senador, sempre de maneira independente, sem afiliação partidária, embora se sente junto aos congressistas de esquerda do Partido Democrata. Defensor de um modelo nórdico do Estado de bem estar social e denunciante de primeira hora das investidas do mercado financeiro e do Partido Republicano contra os trabalhadores, Bernie tornou-se uma das caras do movimento Occupy, ao lado da senadora democrata Elizabeth Warren.

Se Warren representa a crítica econômica à política de concentração de renda dos últimos anos, Bernie representa a crítica social. Sua atuação lembra os populistas do Partido do Povo de 1887–1908. Preso nos anos 1960 por lutar pelo fim da segregação racial, o senador se destaca por defender os sindicatos, os aposentados. as minorias, os direitos reprodutivos das mulheres e atuar contra o lobby das armas, o financiamento privado das campanhas, o imperialismo enquanto política externa, a vigilância dos cidadãos comuns e as privatizações do sistema carcerário, dentre outras pautas progressistas. Bernie se encontrou com a mãe da ativista negra Sandra Blend, morta pela polícia no início do ano e prometeu-lhe que diria o nome de sua filha durante o debate. Assim o fez, colocando-se a favor do movimento #BlackLivesMatter e forçando os demais pré-candidatos do partido a adotar uma postura contra a violência racista das forças policiais do país. Vale abrir um parênteses aqui para ressaltar que Bernie encontrou a mãe de Blend por acaso num restaurante de Washington, D.C. e não tentou obter ganho político da situação; foi só após o debate que o encontro foi tornado público pela pastora da família numa publicação em seu blog.

A campanha de Bernie tem forçado sua principal adversária, a ex-primeira dama, ex-senadora e ex-secretária de Estado Hillary Clinton a sair de sua zona de conforto. Antes de Bernie atingir a marca dos dois dígitos nas pesquisas de opinião para as primárias democratas, ela não sentia a necessidade de falar para o povão, apenas para seus financiadores. Desde então, Clinton tem se afastado cada vez mais das posições do presidente Barack Obama. Criticou, inclusive, o Tratado Transpacífico de Comércio (TPP), um acordo de livre comércio firmado pelo governo Obama com governos de nações banhadas pelo Oceano Pacífico que pode impactar fortemente o mercado de trabalho nos Estados Unidos. No debate da CNN, Clinton prometeu regulamentar de maneira mais rígida e eficiente o setor financeiro. Não demorou para que os apoiadores de Bernie expusessem que boa parte dos financiadores da campanha dela são justamente os grandes bancos e que foi o governo do marido dela, Bill, que deu início à desastrosa desregulamentação do setor, que, à época, recebeu a oposição do então deputado federal de Vermont Bernie Sanders.

Baseada no ativismo tête-à-tête e apostando fortemente nas redes sociais, a campanha de Bernie entusiasmou a juventude, desiludida com os tradicionais candidatos apoiados por banqueiros, e renovou as esperanças dos boomers, cansados dos escândalos políticos, ora envolvendo democratas, ora envolvendo republicanos. O apelo de Bernie é semelhante ao do fictício senador Bulworth, do filme homônimo de 1998. Numa disputa marcada por ofensas pessoais, promessas que não se cumprirão (lembram da promessa de campanha de Obama de fechar a prisão de Guantánamo?) e a lealdade apenas aos financiadores de campanha, o público se diverte sempre que aparece um candidato autêntico, que tira o debate do campo pessoal, recusa doações de figuras escusas (Bernie recusou uma doação do empresário que aumentou o preço de uma das drogas do coquetel anti-HIV em 200%) e é sincero com seus eleitores, mostrando de onde irá tirar o dinheiro para implementar seus grandiosos projetos sociais (dos mais ricos, com renda mensal superior a US$ 250.000). Duvido que o próprio Warren Beatty imaginasse que  um dia aquela campanha que ele imaginou no roteiro do filme se tornaria realidade.

O comediante Larry David parodiando Bernie Sanders no
programa humorístico Saturday Night Live.
Por ora as chances de Bernie vencer Clinton nas primárias são remotas. Embora um famoso dramaturgo que viveu nos Estados Unidos na década de 1940 tenha dito que "nada deve parecer impossível de mudar", acho perigoso cultivar grandes expectativas, ainda mais em se tratando da nação mais capitalista do mundo. A decepção pode ser muito grande. Mas apenas o fato de Bernie ter entrado na campanha, estar representando uma certa ameaça a Clinton e estar obrigando a ex-primeira dama a se posicionar de maneira mais enfática ao lado dos desfavorecidos já é uma vitória. Ela parecia destinada à vitória inconteste, até começar a ter algumas de suas contradições expostas, sendo obrigada a sair de sua zona de conforto e assumir um discurso mais social e menos econômico. Independente do senador de Vermont ganhar ou não, sua campanha já representa uma vitória para a classe trabalhadora dos Estados Unidos. A maior em décadas, inclusive. Desde as vitórias acachapantes de Reagan, os democratas se afastaram bastante de seus eleitores de colarinho azul. O New Deal, aliança eleitoral das minorias, foi substituído pela Terceira Via de Clinton, uma leitura de esquerda do neoliberalismo. Que a Berniemania, que já tomou conta de programas de comédia como o Saturday Night Live e o Ellen DeGeneres Show, não termine tão cedo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A mídia mantém o Brasil em 1916

O que os cidadãos de Waco fizeram trouxe desgraça e humilhação para o país e para eles mesmos, pois em qualquer lugar que a notícia chegar - e ela chegará longe - ficará a certeza de que em nenhuma terra, nem mesmo as que fingem ser civilizadas, pode um homem ser queimado até a morte nas ruas de uma cidade considerável em meio à exaltação selvagem de seus habitantes. — Editorial, The New York Times, 17 de maio de 1916
A citação acima se refere ao linchamento do jovem negro Jesse Washington por uma multidão enfurecida de Waco, Texas no dia 15 de maio de 1916. Washington, um trabalhador negro de 17 anos de idade, foi acusado de estuprar e assassinar a esposa de seu patrão. Ninguém presenciou o crime, mas o jovem assinou uma confissão após ser interrogado pelo xerife do Condado de McLennan. Washington foi julgado em Waco, onde declarou-se culpado e foi condenado à morte. Após o juiz pronunciar a sentença, o jovem foi arrastado para fora do tribunal por populares e linchado na praça principal da cidade. Cerca de 10.000 pessoas, incluindo as autoridades locais, se reuniram para assistir ao linchamento. Muitos pais buscaram seus filhos no colégio para que pudessem presenciar a justiça sendo feita. Washington foi despido, castrado, teve os dedos cortados e, por fim, foi dependurado numa árvore. Embaixo, os moradores acenderam uma fogueira. Seu corpo foi deixado sobre a fogueira por cerca de duas horas. Após o fogo ser extinto, seu torso carbonizado foi arrastado pela cidade e vendido como souvenir do maior evento social do ano na cidade. Um fotógrafo profissional que se encontrava na cidade registrou os acontecimentos, sendo esta a primeira vez que um linchamento foi retratado enquanto ainda acontecia. As fotografias foram reveladas e vendidas como cartões-postais.

Jesse Washington, ou o que restou dele.

Apesar de ter recebido o apoio da elite local, que queria construir a imagem de uma cidade moderna e liberal, o linchamento chocou a elite letrada dos Estados Unidos. Jornais de todo o país – mesmo de estados até então segregados, como o próprio Texas e o Alabama  condenaram o ataque. O mesmo New York Times que abre esse artigo apelidou o ocorrido de "o horror de Waco". A NAACP, organização mais antiga de defesa dos direitos civis nos EUA, utilizou as fotos do ocorrido em sua campanha nacional anti-linchamento. Segundo historiadores, o ataque sofrido por Washington foi o primeiro grande evento que ajudou a colocar a opinião pública dos EUA contra os linchamentos de criminosos negros, prática muito comum nos estados segregados do Sul da nação. A publicidade negativa que o fato gerou freou o apoio popular à prática, que passou a ser vista como um ato de barbárie ao invés de uma forma aceitável de justiça. Devido à reputação que Waco recebeu de ser uma cidade racista, as autoridades municipais posteriores decidiram atuar no sentido de impedir linchamentos nas décadas seguintes. Os livros didáticos de história dos Estados Unidos apresentam o horror de Waco como uma mancha na história do país, o que fez com que a polícia de Waco repensasse suas práticas. Durante o Movimento pelos Direitos Civis dos anos 1960, os policiais aplicaram táticas de não-violência contra os manifestantes, temendo que a cidade fosse novamente estigmatizada pela mídia nacional.

Waco, 1916 é aqui

Mas o que um fato ocorrido há quase cem anos nos Estados Unidos tem a ver com o Brasil? O horror de Waco serve para ilustrar o poder insidioso da mídia brasileira. Não possuímos nenhum grande jornal do porte de um New York Times a condenar os linchamentos de forma veemente. Pelo contrário, a mídia brasileira incita crimes como o ocorrido em 15 de maio de 1916 em Waco. Em 5 de fevereiro de 2014, quando rapazes de classe média com uma extensa ficha policial prenderam um jovem – negro como Jesse Washington  num poste sob a acusação de ter roubado um celular, a apresentadora do telejornal SBT Brasil leu um editorial onde defendia o linchamento. Três meses depois, incentivados por sua diva proto-fascista, moradores do bairro de Morrinhos IV, na periferia do município do Guarujá, espancaram Fabiane Maria de Jesus até a morte após terem confundido-na com uma feiticeira que estaria sequestrando bebês do bairro para praticar rituais de magia negra. Tratava-se de um boato propagado por uma página policialesca do Facebook intitulada Guarujá Alerta. Fabiane teve o azar de se parecer com o retrato falado divulgado pela página de justiceiros. Um ponto em comum entre o discurso irresponsável da apresentadora do SBT e o boato que levou à morte de Fabiane está a disseminação das redes sociais para amplificar o ódio e a ignorância propagados todos os dias por um tipo de telejornalismo incompatível com a justiça, que foi inclusive proibido por lei  no Uruguai antes das 22 horas. Aqui no Brasil a lei garante que telejornais podem ser exibidos a qualquer horário na televisão aberta, mesmo que seja para violar a dignidade de telespectadores e personagens através da exibição de cadáveres e muito sangue.

Waco, 1916.
Quando Fabiane foi assassinada pela horda de ignorantes selvagens de Guarujá, não faltou quem culpasse pessoalmente a apresentadora do SBT pessoalmente pela tragédia. No entanto, não podemos ser tão ingênuos: o problema não é ela. Ela é apenas a garota-propaganda desse tipo de jornalismo que não deveria mais existir num Estado democrático de direito. Um jornalismo que vale-se da ignorância de seu público para ganhar audiência. Ao contrário do New York Times– que ao posicionar-se contra os linchamentos pretendeu instruir seu público contra um ato de barbaridade extrema ainda presente numa sociedade onde deveria prevalecer a ordem jurídica , a mídia nacional incita a barbaridade, o estupro das instâncias jurídicas, para ter ainda mais violência para retratar. Na minha opinião, trata-se de um ciclo vicioso: a sociedade comete crimes, a mídia cobre os crimes e a sociedade – que anseia a fama, mesmo que infame – comete ainda mais crimes. Gugu entrevista Suzane von Richtofen e a transforma numa versão nada fictícia de Roxie Hart do filme Chicago. É um jornalismo que choca os britânicos e causa asco nos brasileiros que compreendem a verdadeira dinâmica da sociedade. A indignação dos indignados com a criminalidade não se faz presente, no entanto, quando descobriram os dez milhões de reais do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, na Suíça. É justamente dos políticos corruptos que nascem os miseráveis que, sem oportunidades de crescimento pessoal, adotam medidas extremas para sobreviver. Quando Cunha desvia dinheiro público, desvia dinheiro que poderia evitar que um jovem precisasse roubar para sobreviver.

Não é à toa que corruptos como Cunha defendam a redução da maioridade penal. Mas esse é outro problema de ordem ética. Voltando ao campo do jornalismo, a ONG Andi, que há 21 anos trabalha para dar visibilidade na mídia a questões relacionadas aos direitos de crianças e adolescentes, realizou uma pesquisa e chegou à conclusão que apenas os 30 programas de televisão e rádios analisados cometem, por mês, uma média de 1.936 violações de direitos. O jornalista Laurindo Leal Filho apontou algumas das mais berrantes violações em artigo para a Revista do Brasil; segundo ele, um apresentador que incita a morte de um suspeito viola de uma só vez cinco leis brasileiras, cinco acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, além do Código de Ética dos Jornalistas Profissionais. Sem falar que, ao contrário do que pode parecer, a morte de suspeitos não contribui para a paz social. Pelo contrário, incentiva ainda mais um conflito entre concidadãos que costuma vitimizar justamente os membros mais vulneráveis de uma sociedade extremamente desigual. Uma mídia que atua no sentido de preservar a injustiça social não pode ser a porta-voz do país que queremos construir. Como pessoas esclarecidas, devemos lutar não só contra a mensagem espalhada pela mídia brasileira, mas também contra a própria mídia. Se boicotarmos a mídia – e incentivarmos outras pessoas a fazerem o mesmo deixando claro o tipo de jornalismo que queremos, um que seja pautado pela ética e pelo respeito à vida e à dignidade humana, quem sabe conseguiremos tirar o Brasil de 1916.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A repressão sexual no cinema

A guerra de igrejas cristãs às diversas formas de expressão do amor não vem de hoje. Em 1929, o filme Asas se tornou o primeiro a vencer o Oscar de melhor filme. Um dos últimos grandes sucessos do cinema mudo, foi também um dos primeiros sucessos da era da massificação da sétima arte. Justamente por causa isso, tornou-se alvo fácil das críticas de setores reacionários da sociedade americana. Primeiro por se tratar de um filme anti-guerra que, contrariando a doutrina Monroe, mostra como consequência principal da guerra a morte. Segundo por mostrar cenas de nudez masculina e feminina (em contextos não-sexuais) e, por último, por mostrar um beijo entre dois amigos (cena abaixo). Em momento algum o filme leva o espectador a pensar que ambos os personagens fossem homossexuais. No entanto, as pessoas que vêm de ambientes sexualmente repressores vêem sexo em tudo.

Conforme mais filmes como Asas eram produzidos e as pessoas viam mais cenas de nudez e violência no cinema, a Legião Católica pela Decência começou a pressionar os estúdios de cinema a adotarem um método de censura de seus filmes, o que até então ficava a cargo dos diretores. Em 1930, a Associação de Cinema da América (MPAA) começou a impor o que poderia ou não ser exibido no cinema. Até 1934 ainda eram incluídas nos filmes cenas de nudez em contexto não-sexual, mas, naquele mesmo ano, sob pressão intensa dos católicos, os estúdios - buscando evitar um boicote de católicos - decidiram colocar ninguém menos que o presidente da Legião Católica pela Decência, Joseph Breen, para ditar as regras da censura cinematográfica. Logo estabeleceu-se a contradição: produtores judeus fazendo filmes para um público majoritariamente protestante seguindo a moral católica.


Não bastasse o atraso que a Igreja Católica representou para as artes em geral durante os séculos V e XV, ela conseguiu ainda atentar contra a liberdade de expressão artística de diretores e roteiristas de cinema até 1968, quando a MPAA começou a adotar o sistema de classificação indicativa dos filmes que lança, em vigor até os dias atuais. Nesse ínterim, Asas acabou sendo proscrito como lembrança remota da América libertina. Uma de suas cópias foi redescoberta vários anos depois na Cinemateca Francesa em Paris. Além da perda de filmes "imorais", a censura também baniu a representação de questões de grande impacto na vida pessoal do público (como miscigenação, homossexualidade, prostituição, sexo pré-marital, DSTs e estupro) de um importante veículo de discussão social. No final das contas, a Igreja não se importa com as aflições de seus fiéis e da população em geral; de fato, preferiria que eles nem transassem e que todas essas questões não existissem.

Deixar de falar de homossexualidade, prostituição, sexo pré-marital, DSTs e estupro não vai fazer com que essas práticas desapareçam. Quem tentou esconder abusos sexuais de coroinhas e foi obrigado a pagar milhões de dólares em multas por causa disso deveria, no tempo presente, saber disso melhor do que qualquer um. Negar-se a tratar de temas importantes para os fiéis gera preconceito, no caso da homossexualidade e da prostituição e, no caso de estupro e DSTs, faz ainda mais vítimas. Como pode alguém negar-se a falar de sexo sob a justificativa de preservar vidas se é justamente a falta de conhecimento sobre a sexualidade humana que gera mortes - sejam elas por homofobia ou AIDS? A sociedade não aceita mais a imposição de doutrinas católicas. Caso continue se negando a perceber o impacto (positivo e negativo) do sexo na vida dos cidadãos do século XXI, a Igreja continuará negando parte da realidade e corre o risco de tornar-se obsoleta. Se aprendi algo com o papa Francisco é que nunca é tarde para se fazer auto-crítica.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Para onde vão os refugiados?

Qualquer cidadão desavisado, que se informa apenas pela mídia comercial, pode pensar que maioria dos refugiados oriundos de países em conflito estão fugindo para a Europa. É comum, inclusive, ouvir das vozes propagadoras do senso comum o discurso de que os países vizinhos aos conflitos na Síria e no Iraque não oferecem ajuda aos refugiados. Enquanto isso pode ser verdade para a Arábia Saudita - monarquia ultra-sunita apoiada pelos Estados Unidos e cuja elite apoia e investe pesado no Estado Islâmico anti-xiita -, não se aplica aos demais países da região.

Uma reportagem da National Public Radio evidencia isso. Enquanto parte dos refugiados perdeu as esperanças e pensa ser inútil continuar na região, por não avistarem um fim próximo do conflito, outra parte sonha com o fim das batalhas, quando poderão retornar para suas casas. Tanto é verdade que a maioria busca refúgio em países vizinhos às suas pátrias devastadas pelos conflitos militares. Muitas vezes, o local de origem dos refugiados e o local para onde eles fugiram fazem até divisa. Entre os refugiados sírios, por exemplo, apenas 10 a 15% foram para a Europa.

Principais destinos dos refugiados.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de refugiados atingiu a marca de 60 milhões de pessoas nesse ano, o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Desse total, 5,25 milhões de refugiados saem da Palestina, 3,96 milhões da Síria, 2,68 milhões do Afeganistão, 1,32 milhão do Sudão ou do Sudão do Sul e 1,16 milhão da Somália. Ainda segundo a agência, nenhum país europeu estava entre os dez destinos mais procurados pelos refugiados na primeira metade do ano.

Dentre os países da Europa, destaca-se o apoio que a Alemanha vem dando aos refugiados. No início do ano, o país recebeu 440 mil refugiados, ficando na décima-terceira posição entre as nações mais procuradas pelos refugiados, pouco atrás do Chade na África Central. No entanto, a mídia comercial não se refere a uma suposta "crise de imigração" no Chade. Quando os refugiados são de países pobres e estão indo para outros países pobres, não há crise. No entanto, quando eles ousam atravessar o Estreito de Bósforo, marca indelével entre o progresso e o subdesenvolvimento, tornam-se um problema.

Países de origem dos refugiados.

A postura do governo alemão realmente é notável se considerarmos o conjunto dos países europeus. Na próxima atualização da lista de refugiados do ACNUR o país deve ficar entre os dez maiores destinos de refugiados no mundo. Deve-se, no entanto, apontar um padrão de dois pesos e duas medidas: enquanto Angela Merkel é indicada ao Prêmio Nobel da Paz por receber 440 mil refugiados, o governo da Jordânia já recebeu quase três milhões deles. Se fosse uma cidade, o campo de refugiados de Zaatari, com 80 mil habitantes, seria a segunda maior da Jordânia, atrás apenas da capital Amã, o que traz grandes pressões para os serviços públicos locais.


Refugiados eternos

O maior grupo de refugiados do mundo, segundo o ACNUR é o dos palestinos. A guerra árabe-israelense de 1948 deu origem à população original de refugiados palestinos, composta por cerca de 700.000 pessoas. Seus filhos e netos também são considerados refugiados e a maioria habita no Líbano, na Jordânia e na Síria, além, é claro, dos territórios palestinos (Faixa de Gaza e Cisjordânia). A guerra síria provocou o deslocamento de alguns desses palestinos, o que fez com que eles se tornassem refugiados pela segunda vez.

Num mundo cada vez mais globalizado e conectado, os países ocidentais não podem mais ignorar cenas como as do menino Aylan morto na praia. Urge aos governos ocidentais encarar a questão de maneira frontal e não apenas de maneira periódica e a uma distância segura. Atacar as causas dos conflitos, apoiar o ACNUR e investir na infra-estrutura (local ou não) para receber os refugiados é o mínimo que se espera. Que não fiquemos parados enquanto mais uma geração de refugiados eternos surge. É o mais humano a se fazer.

domingo, 11 de outubro de 2015

Burrice e sadismo, marcas das redes sociais?

Venho acompanhando, há algumas semanas, o mais novo seriado de Ryan Murphy, Scream Queens. Uma mistura de terror e comédia, narra a história de uma irmandade universitária que começou a ser atacada por um serial killer. Como todo seriado de Murphy, há críticas sociais sutis em todos os episódios. O que mais me chamou a atenção, no entanto, é a crítica à passividade e à falta de empatia que as redes sociais causa nas pessoas. Já no primeiro episódio, a reitora da faculdade reclama dos smartphones, que possibilitam os alunos de compartilhar entre si as fotos dos crimes ocorridos no campus, coisa que 20 anos atrás, quando ela acobertou a morte de uma aluna, não seria possível. No episódio exibido na última quarta-feira pela FOX, os alunos descobrem a casa onde estão escondidos os corpos de todas as vítimas do serial killer e vão até lá para tirar fotos e compartilhar em suas redes sociais. Nenhum deles pensa, em momento algum, em ligar para a polícia. Que sociedade sádica é essa em que vivemos em que a tecnologia é usada para compartilhar fotos de cadáveres?

Muitos de vocês já devem ter se esquecido disso, mas há alguns meses, um guarda civil matou a namorada no Buriti Shopping. Os frequentadores do centro comercial tiraram dezenas de fotos da moça morta, que viralizaram. Eu recebi as fotos, sem pedir. Na época o meu WhatsApp carregava as fotos automaticamente e eu vi a moça morta e ensanguentada. Tive nojo da pessoa que me mandou as fotos. E fiquei com raiva dela quando descobri que eu não só conhecia a irmã da falecida como já havia trabalhado com ela. As pessoas não pensam nisso na hora de compartilhar as fotos? E se fosse parente de um amigo seu? No meu caso, era. E, mesmo que não fosse, odeio ver cadáveres, sejam os reais mostrados no Balanço Geral ou os fictícios mostrados no CSI. Penso que isso nos insensibiliza para a gravidade do ato de assassinar alguém; a morte não deve ser glamourizada ou pormenorizada e tampouco normatizada. Em minha formação, aprendi que a vida de um único ser humano é um milhão de vezes mais sagrada do que todas as propriedades do mais rico dos homens. Hoje em dia, no entanto, usamos as redes sociais para saciar nossas curiosidades mais mórbidas e até incentivar o assassinato, seja de índios ou da presidenta da República. Como se fosse aceitável matar pessoas.

A morte foi normatizada. Ninguém se escandaliza mais quando a Polícia Militar promove massacres que transformam o Brasil no segundo país que mais mata jovens no mundo, atrás apenas da Nigéria. Mais da metade da população brasileira concorda com a frase "bandido bom é bandido morto". A crise de segurança pública, causada em parte pela manutenção da estrutura da ditadura militar - civis no comando de investigações criminais e militares no comando da repressão (rechaçada pelos próprios policiais) -, gera na população a percepção de que somos todos vítimas dos bandidos e que somente o extermínio deles vai gerar a paz social. Como pode mais mortes gerar a paz? É como querer curar um corte na perna com a amputação da mesma. Toda ação gera uma reação proporcional em tamanho. Se a polícia reprimir mais violentamente o crime organizado, este último irá responder com ainda mais violência e, pronto, criamos um ciclo vicioso que parece não ter fim. O crime se resolve com política social. Por que a taxa de violência na Suécia é praticamente nula? Porque na Suécia existe uma série de benefícios sociais que evitam a população de cair na pobreza e na exclusão social gerada por tal situação. No Brasil, por outro lado, temos um governador que vai fechar 155 escolas públicas e, assim, criar um monte de possíveis candidatos para o crime organizado.

Não sou ingênuo de achar que investir na qualidade de vida do povo elimina por completo a criminalidade. Sempre existirão pessoas com problemas de caráter, em qualquer lugar do mundo. Mas os países mais pacíficos do mundo estão entre os que mais investem proporcionalmente em educação e assistência social. Adotar uma postura de guerra à criminalidade só vai gerar ainda mais mortes, em especial dos mais pobres, que muitas vezes não têm nada a ver com os bandidos e os policiais e só foram pegos no meio do fogo cruzado entre a polícia e o crime organizado. Sem falar no desperdício de dinheiro público que investir numa guerra já perdida para a criminalidade representa. A sensação que as pessoas têm é que é possível vencer os bandidos sem passar pela questão da desigualdade social. Me lembro quando, há vários anos, a Câmara Municipal de Goiânia discutia se os guardas civis poderiam carregar armas. Fui contra, porque sabia que essas armas poderiam cair nas mãos de pessoas mentalmente despreparadas para lidar com elas. Talvez se esse projeto de lei tivesse sido arquivado, a vida da irmã da minha ex-colega de trabalho pudesse ter sido poupada. Na ânsia de acabar com a criminalidade, a sociedade, representada pelos vereadores, autorizou que um machista com potencial assassino carregasse uma arma.

Boato espalhado no Facebook assassinou
Fabiane e desmamou sua filha de um ano.
O fato é que o ser humano é hipócrita. Quer o fim da corrupção, mas molha o bico de servidores públicos para conseguir aquele documento ou ficar livre daquela multa. Quer o fim da violência, mas está apto a se tornar um assassino e linchar alguém até a morte. Na baixada santista literalmente desmamaram uma bebê quando mataram a mãe dela, Fabiane Maria de Jesus, linchada. E por quê? Porque a página do Facebook Guarujá Alerta denunciou que havia uma mulher sequestrando bebês para realizar um ritual satânico na cidade. Um boato originado no Rio de Janeiro e que de vez em quando ressurge nas grandes cidades do país. Semana passada, na Índia, o WhatsApp foi usado por extremistas hindus para incentivar o assassinato de um muçulmano que supostamente tinha um freezer cheio de carne bovina (a vaca é sagrada no hinduísmo). A tecnologia é uma arma poderosa - já fez maravilhas como arrecadar verbas para dar próteses de mãos à jovem que teve os membros decepados pelo namorado e unir defensores do mesmo ideal que fizeram revoluções e, por outro lado, já espalhou boatos que causaram danos à imagem de pessoas e até mortes. Se realmente queremos um mundo mais pacífico, precisamos agir de maneira mais pacífica em todos os ambientes dele, inclusive o virtual.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que compartilhas

A tecnologia é neutra, mas nós não podemos ser. Não podemos ser receptores passivos das informações que vimos nas redes sociais. Hoje mesmo li algo no Facebook que me causou tremenda vergonha alheia. Um comentarista da página Quebrando o Tabu - que defende a descriminalização do porte de maconha e trata de outros assuntos que afetam a vida político-social do Brasil - afirmou que Dilma Rousseff desviou 2 trilhões de reais. A arrecadação anual do Brasil é de cerca de um trilhão de reais. Então quer dizer que a presidenta desviou tudo o que o Brasil arrecada em impostos federais durante dois anos e nenhum órgão fiscalizador - TCU (que recentemente rejeitou as contas dela), MPF e PF - percebeu? Haja burrice para acreditar num boato desses! Se bem que o comentarista estava defendendo o Eduardo Cunha porque ele desviou "só" 2 milhões, então acho que ele rumina sim. O fato é que nem tudo que está escrito é verdade. Um papel mais ativo, de checar os fatos antes de passá-los adiante, evitaria até mortes. Antes de postar algo, escrever qualquer coisa, deve-se verificar a veracidade dos fatos e, acima de tudo, pensar nas consequências do que se está compartilhando. O meu receptor precisa mesmo ver corpos decepados? E se fosse o corpo decepado de um parente meu que estivesse viralizando? Chega de burrice e de sadismo nas redes sociais!

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mais mudanças, mais futuro

Se o Brasil fosse um país que se levasse a sério, Dilma Rousseff seria encarada como uma grande presidente. Até mais do que seu antecessor. A mulher, uma burocrata de carreira que disputou sua primeira eleição em 2010, simplesmente sacrificou seu próprio governo para pôr fim a um esquema de corrupção que assolou a maior empresa estatal do país por mais de três décadas. Ela poderia muito bem, como deseja alguns petistas, nomear pessoas de seu partido para a chefia da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria Geral da República (PGR) e varrer as denúncias para debaixo do tapete, mas se recusou. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, nomeou um diretor da PF filiado a seu partido e um procurador-geral que engavetou ou arquivou 459 denúncias contra políticos (194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e o próprio FHC) e ficou conhecido como "engavetador-geral". O próprio FHC, que volta e meia sai de sua auto-reclusão para tentar derrubar governos petistas, declarou recentemente à imprensa alemã que Dilma é uma pessoa horada e que ela não admite desvios em seu governo.

No entanto, temos no Brasil dois cânceres que desvirtuam a política. O primeiro deles é o PMDB, que deixou de ser o partido do Pai da Constituição, Ulysses Guimarães, para ser o partido de bandidos como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o evangélico que gosta tanto de sua fé que se vale de sua igreja para lavar dinheiro. Que democracia é essa em que o maior partido do Congresso fez parte de todos os governos pós-ditadura militar? Aos políticos do PMDB não interessa quem esteja no poder e qual sua ideologia política e seus planos sócio-econômicos para o Brasil, desde que eles também estejam no poder. Como bem observou o ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional Ciro Gomes, "o PMDB quer espaço para roubar". Aí os presidentes permitem que o PMDB roube em troca de apoio no Congresso. Afinal de contas, trata-se da maior bancada no Congresso, que tem o poder de trancar votações e inviabilizar projetos políticos. Não por acaso, o único governo dos últimos 30 anos que não conseguiu a adesão do PMDB foi justamente o que caiu: o de Fernando Collor. Ao contrário do que apregoa a mídia, o rompimento do PMDB com Dilma tem muito mais a ver com a falta de espaços para roubar do que com a incapacidade de negociação da presidenta.

A mídia sequer finge mais ser imparcial.
Declaração feita em março de 2010, quando
 percebeu-se que Lula elegeria Dilma.
O outro câncer da política brasileira é justamente a mídia. Nos últimos 12 anos, os principais veículos de comunicação do país se especializaram cada vez mais em anunciar o fim do mundo. Toda e qualquer iniciativa do governo federal - mesmo aquelas que eram bastante louváveis e dignas de elogio até mesmo de membros da oposição, como o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e o Mais Médicos - eram rechaçadas violentamente sem o devido equilíbrio com que a imprensa de países democráticos cobre sua política. Ambos Hillary Clinton e Donald Trump têm o mesmo espaço para apresentarem suas propostas ao público americano nas emissoras de notícias dos EUA, por exemplo, à exceção da FOX News, que se tornou a porta-voz dos indignados de extrema-direita. Mas lá a FOX News é exceção à regra, aqui o jornalismo partidarizado virou regra. Até o início do segundo mandato do presidente Lula tentou-se dar uma aparência de imparcialidade ao jornalismo brasileiro, mas então os donos de jornais perceberam que ele elegeria sua sucessora. Foi então que começou o partidarismo explícito até mesmo em veículos mais equilibrados como Globo News e TV Cultura, e eu perdi todo e qualquer interesse em seguir carreira na assessoria do PSDB, quer dizer, no jornalismo brasileiro.

Comportando-se como a mídia alemã às vésperas do incêndio do Reichstag, a imprensa nacional guia os brasileiros rumo ao precipício. Nos tratam como se fôssemos os ratos que seguem o flautista de Hamelin. E, apesar de terem cada vez menos influência na vida dos brasileiros, os veículos de comunicação ainda fazem o que podem para instaurar o medo e a confusão na população. Para isso, contam com a ajuda de Dilma, que além de ser uma péssima oradora, deixou um vácuo imenso no campo da comunicação institucional. Na primeira grande crise de seu governo, a imprensa valeu-se das confusas manifestações de junho de 2013, inicialmente contra a situação do transporte municipal, para amplificar a insatisfação contra o governo federal e a política em geral. O povo brasileiro não tem a cultura de protestar e o resultado disso foi a eleição do Congresso mais conservador da história recente do país, presidido por um deputado evangélico que propôs a criação do Dia do Orgulho Heterossexual. Não adianta tentar embelezar o ocorrido, como ingenuamente faz o PSOL; a realidade é que aquele movimento foi o responsável por tirar a extrema-direita não só do armário como também de casa. A intenção pode até ter sido boa, mas de boas intenções o inferno está cheio.

Foi nesse momento que Dilma propôs o fim do financiamento privado de campanha, com a finalidade de se criar no país um novo sistema político, onde os eleitos devam mais satisfações a seus eleitores do que às empresas que financiam suas campanhas. Ela encontrou, no entanto, a resistência ferrenha de - adivinhe quem? - deputados peemedebistas. A imprensa, por sua vez, pormenorizou a grande reforma que estava sendo proposta. Tínhamos ali uma oportunidade única de transformarmos a política brasileira, mas logo a moda de sair de casa com a cara pintada de verde e amarelo e postar fotos no Instagram com a hashtag #VemPraRua passou. E, no ano seguinte, tivemos a campanha mais cara da história - talvez até do planeta. No final das contas, as Jornadas de Junho não passaram de uma revolta juvenil; quando eu era adolescente, brigava com meus pais sem nem saber direito o porquê, era duramente repreendido e saía da sala com a sensação de que havia ganhado a briga pelo simples fato de ter tido a coragem de enfrentar as maiores figuras de autoridade que eu conhecia. Depois é que fui descobrir que a vida não funciona bem assim, que nem tudo se ganha no grito e que várias vezes precisamos de paciência para conquistarmos o que desejamos.

Suspeito que a decisão de Dilma de atender ainda mais os anseios dos rentistas tenha surgido em algum momento da campanha eleitoral do ano passado. Ela sentiu que precisava acalmar o mercado financeiro e, para tal, começou a atacar benefícios previdenciários dos trabalhadores, entre outros. A presidenta pensou ser possível pôr fim à animosidade crescente contra seu governo através de uma política de concessões à elite. Erro grave. Se nem um governo apoiado pelas massas trabalhadoras como o de Jango conseguiu sobreviver à pressão da elite, por que Dilma achou que era se afastando dos trabalhadores e concedendo - ainda - mais à elite que ela conseguiria se sustentar no poder? Não que a elite não esteja curtindo o ajuste fiscal, mas o do PSDB sempre será mais lucrativo para ela. Sem o apoio da elite e cada vez mais distante dos trabalhadores, Dilma cava sua própria cova. O fato é que, assim como em 1954 e 1964, chegamos numa encruzilhada. Quando Vargas não conseguiu mais conciliar os interesses de trabalho e capital, preferiu dar um tiro peito a retroceder nas conquistas populares. Jango, por sua vez, viu-se obrigado a fugir do país.

Só há dois caminhos para sair da encruzilhada. Ou o Brasil avança ainda mais nas garantias de direitos para todos através de reformas estruturantes há tempos negligenciadas ou voltamos a ser um país de poucos. Em 1964, no contexto da Guerra Fria - que hoje olavetes tentam recriar - e com a ajuda da mídia monopolista, a escolha foi a última opção e retrocedemos 21 anos. Será que Dilma percebeu o que está em jogo?  Penso que, ao invés de xingá-la, deveríamos todos nós - eleitores dela ou não - que desejamos que nossos filhos vivam num país cada vez menos injusto, exigir uma mudança de rumo em seu governo. E, diferentemente de junho de 2013, não abandonarmos as ruas. Assim como Ciro, creio que se for para governar para o povo, o povo defenderá Dilma. Tirá-la do poder, no atual momento, só engrossaria o coro dos hipócritas que se diz indignadíssimo com a corrupção durante a campanha para votar contra o fim do financiamento empresarial da política - justamente de onde se origina toda a corrupção na política brasileira. Como bem apontou Joaquim Barbosa, "eles (PSDB e PMDB) só pensam numa coisa: no dinheiro das empresas".

Se o lulismo está defasado enquanto alternativa real de poder,
imagine o fernandismo, que fez do Brasil o vice-campeão
mundial em desemprego.
Se realmente tiver ocorrido algum desvio durante a campanha de Dilma, que o TSE multe o PT e possamos seguir em frente com a confiança de que isso nunca mais ocorrerá, afinal de contas o financiamento privado de campanhas é uma página virada da nossa história (assim espero!). Diplomar Aécio Neves não só não resolveria o problema da corrupção como criaria ainda mais dificuldades econômicas, sobretudo para os mais pobres. Se o lulismo já está defasado enquanto alternativa real de poder para o país, imagine você o fernandismo! Escolher um novo rumo, pelo menos para mim, não envolve a volta ao passado, ainda mais um de juros a 45% ao ano, dólar a 7 reais, inflação a 12% ao ano e vice-campeonato mundial em desemprego. Quer verdadeiramente "mais mudanças, mais futuro". Se não for com Dilma, que seja com outro em 2018. Gostando das medidas dela ou não, ela foi eleita pela maioria e deve governar até o final de seu mandato. A despeito do que pensa uma minoria de lunáticos, vivemos numa democracia e a maioria da população concorda e aprova essa forma de governo.

P.S.: Se você não concorda com as regras do jogo, não jogue. Se for para apelar e querer que as coisas funcionem do seu jeito, é só não jogar, ou seja, votar. A multa nem é tão cara assim.