sexta-feira, 1 de abril de 2016

Golpe frio: a crise de Estado no Brasil


Jens Glüsing.
Os oponentes de Lula conseguiram aquilo que sua frágil sucessora Dilma Rousseff falhou em conseguir desde que tomou posse: unir a base do Partido dos Trabalhadores do Brasil, os sindicatos e os movimentos sociais, ao governo.

Centenas de milhares de apoiadores de Lula protestaram na sexta-feira á noite em todo o país contra a tentativa de expulsar a presidenta do cargo por meio de um processo de impeachment. Na Avenida Paulista, em São Paulo, considerada o termômetro dos protestos, ocuparam onze quarteirões. As manifestações transcorreram com calma e Lula foi conciliador; ele não atacou o Judiciário e fez um apelo ao diálogo. Dificilmente pôde-se ouvir incitação ao ódio nas demonstrações no Rio e em São Paulo.

Ao contrários dos protestos massivos contra o governo do fim de semana passado, nos quais se reúnem cada vez mais revoltados de extrema-direita. Eles não representam a maioria dos manifestantes, mas crescem em popularidade. Isto é preocupante para a ainda jovem democracia brasileira.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em meados dos anos oitenta, uma crise política que pode destruir muitas realizações dos últimos trinta anos ameaça o maior país da América Latina. Parte da oposição e o Judiciário tem inflamado, juntamente com o poderoso grupo de TV Rede Globo, uma verdadeira caça às bruxas contra o ex-presidente Lula.

Sérgio Moro, um ambicioso juiz de Curitiba, no sul do Brasil, tem aparentemente apenas uma meta: colocar o ex-presidente atrás das grades. Moro conduz os inquéritos de um escândalo de corrupção envolvendo a empresa petrolífera estatal Petrobras, no qual centenas de gestores, lobistas e políticos, incluindo vários membros de primeiro escalão do Partido dos Trabalhadores de Lula, estão implicados.

Como um furacão, o juiz varreu as elites políticas e econômicas do Brasil. Ele descobriu bilhões pagos em propina. Mais de cem suspeitos estão presos, a maioria dos quais sem uma condenação. Muitos brasileiros celebram o juiz como um herói nacional.

Evidências escassas

Os oponentes de Lula conseguiram o que Dilma falhou em
conseguir: unir sindicatos e movimentos sociais ao governo.
Mas nos últimos meses o sucesso de Moro aparentemente lhe subiu à cabeça. O juiz faz política, o que não é para ele. A divulgação de conversas telefônicas entre Lula e a presidenta Rousseff, interceptadas poucas horas antes da nomeação de Lula como premier, persegue fins políticos por si só e foi legalmente duvidosa para se dizer o mínimo.

Moro até agora não foi capaz de forjar uma acusação contra Lula, embora dezenas de promotores e agentes da Polícia Federal em Curitiba tenham vasculhado as finanças e a vida pessoal do ex-presidente durante meses. As evidências ainda são escassas.

Lula não tem milhões na Suíça como o poderoso presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro; um juiz do Supremo Tribunal Federal se referiu a ele como bandido. Mas isso não o impede de assumir a presidência da comissão que é responsável pelo impeachment da presidenta.

Nesta honrosa comissão sentam-se, dentre outros, um ex-governador de São Paulo que foi condenado na França sob acusação de corrupção, mas que não foi entregue pelas autoridades brasileiras por ser um cidadão brasileiro. O fato de que tais figuras sejam peças-chave na derrubada de uma presidenta contra a qual não pesam acusações mina a legitimidade de todo o processo.

Os apoiadores de Lula alertam para um golpe frio contra a democracia. Tal preocupação não é completamente destituída de fundamentos.

Jens Glüsing é correspondente do Spiegel no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O verão do descontentamento no Brasil


Vijay Prashad.
As praças modernistas do Brasil estiveram cheias de manifestantes durante a última semana. Eles pediam a renúncia da Presidenta — Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT). Multidões na Avenida Paulista em São Paulo seguraram uma faixa enorme onde se lia "Impeachment já!". Esse é o slogan dos protestos — se a Presidenta Rousseff não renunciar, então deverá ser cassada.

Por que essas milhares de pessoas querem que a Sra. Rousseff abandone o cargo? Uma erupção de escândalos de corrupção que envolve toda a elite política aparece num momento de estagnação da economia brasileira. O Brasil atualmente passa por sua pior recessão em meio século, com o crescimento econômico encolhendo. Preços baixos de commodities e um relaxamento na demanda da China são os principais responsáveis por essa queda. Não há remédio no horizonte, uma vez que a China não deve aumentar suas compras. Tampouco, assim, crescerão os preços das commodities. Dependente de ambos, uma saída para a crise brasileira nessa direção encontra-se fechada. O PT, no poder desde 2002, foi incapaz de diversificar a economia e, assim, estava vulnerável ao preço das commodities. O economista Alfredo Saad-Filho chama isso de uma "confluência de descontentamentos", baseada naqueles com preocupações imediatas — o aumento na tarifa de ônibus — e naqueles com ansiedades muito maiores — a perda de poder das classes dominantes.

Encolerizando a elite

O que chama a atenção nos protestos contra o governo Rousseff é que eles não estão vindo das favelas brasileiras e nem dos trabalhadores industriais. Em março do ano passado, a classe média-alta diplomada do Brasil saiu às ruas para uma série de marchas contra o governo. Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-Ministro das Finanças nos anos 1980, caracterizou os protestos como "ódio coletivo por parte da elite, dos ricos, contra um partido e uma presidenta". O que motivava os manifestantes, diz ele, não eram reivindicações e sim o "ódio". O que a elite brasileira odeia no governo do PT?

O PT defendeu uma ampla agenda que deu ao capitalismo uma face humana. A pobreza miserável em regiões do Brasil foi aliviada por um programa de ajuda social conhecido como Bolsa Família. O Banco Mundial afirmou que este programa "mudou as vidas de milhões no Brasil". Em troca de pagamentos em dinheiro, as famílias empobrecidas do Brasil prometem manter seus filhos na escolas e levá-los para check-ups médicos regulares. O governo afirmava que o Bolsa Família elevaria as condições de vida imediatas dos pobres — através dos pagamentos em dinheiro — e que quebraria o ciclo da pobreza intergeracional — através da educação e dos cuidados médicos.

Cerca de 50 milhões de brasileiros — um quarto da população — se beneficiou do Bolsa Família. No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística anunciou que a pobreza extrema havia sido erradicada do país. Mas, durante o anúncio, o Instituto alertou que os cortes orçamentários ao programa reverteriam esta tendência. Um terço dos fundos reservados ao Bolsa Família foram removidos do orçamento de 2016 [Nota do blog: pelo Congresso]. Isto é um indicador das tribulações financeiras do governo.

O que a elite odiou foi o aumento dos salários mínimos, a expansão de direitos trabalhistas e os privilégios agora oferecidos à classe trabalhadora para a entrada nas universidades públicas. Os benefícios à classe trabalhadora revelaram a questão social da desigualdade racial. O Brasil, um ex-Estado escravocrata, nunca lidou bem com os legados da escravidão e do racismo. Sob o PT, questões de discriminação racial e os custos do racismo para os trabalhadores se tornaram parte da discussão nacional. Isto foi um anátema para a elite.

Hábito de golpes

Durante o século passado, em intervalos regulares, movimentos políticos populares emergiram no Brasil para desafiar o arreio de ferro da elite. Toda vez que o povo se reunia por trás destes líderes, a elite — coma  assistência do Exército e dos Estados Unidos — minava a revolta das favelas e do campo. Os presidentes Getúlio Vargas e João Goulart se tornaram porta-vozes dessa frustração popular e foram ambos removidos — Vargas foi levado ao suicídio em 1954 e Goulart foi removido por um golpe militar em 1964. Em ambos os casos, a combinação das classes dominantes estabelecidas, dos militares e dos EUA geraram crises que esmagaram o país e despacharam os líderes populares. O medo de que isso faça parte da equação no Brasil atual não é infundado. Está gravado na história brasileira.

Os golpes não precisam vir mais dos quartéis. A mídia é o suficiente. No Brasil, a Rede Globo — com 50 anos de existência — agora controla mais que a metade da mídia — canais de televisão e jornais influentes — incluindo O Globo. "Não há outros meios de comunicação com influência similar no país", me conta a Professora Beatriz Bissio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O dono da rede, Dr. Roberto Marinho, tinha uma aliança próxima com o regime militar. Seus canais tem atacado o governo Rousseff, incitando os protestos não a favor da anti-corrupção, mas contra o PT.

A questão da corrupção

No Brasil, uma frase popular é "o sistema não é corrupto; a corrupção é o sistema". A corrupção sistêmica tem sido servida a grandes levas de políticos brasileiros, não apenas aos líderes proeminentes do PT, mas também à oposição, incluindo Aécio Neves, que concorreu à presidência contra a Sra. Rousseff em 2014. Grandes lucros nas maiores empresas governamentais, Eletrobras e Petrobras, ofereceram aos políticos a oportunidade para pedir propinas. Os políticos do PT não resistiram à tentação. Mas eles não estavam sozinhos.

A mídia pediu a cabeça do PT como se ele tivesse sido o único que foi cúmplice dos escândalos de corrupção. Ela ignorou os escândalos de corrupção da oposição de direita. O Datafolha tem feito pesquisas regulares sobre os descontentamentos dos brasileiros. Mais de um terço da população diz que a corrupção é sua maior queixa, embora o resto dos pesquisados reclamam da falta de acesso a cuidados médicos e à educação, assim como a empregos. À mídia não interessa essas reclamações. Elas vão de encontro ao programa do PT. É mais fácil apontar o dedo para a "corrupção", uma ideia com apelo emocional para pessoas cuja sobrevivência enfraquece conforme observam a elite se tornando imune à crise.

O fator Lula

A Sra. Rousseff, ao contrário do Sr. Lula, não cultivou uma ligação direta com o povo. Obrigada a promover cortes no orçamento, ela não se estendeu ao público para explicar os problemas. Atacada pela mídia, a Sra. Rousseff se isolou de seus apoiadores. A confusão levou ao desencantamento. O Sr. Lula, da fábrica, e a Sra. Rousseff, da cadeia, criaram um partido — o PT — que cresceu a partir dos poderosos movimentos sociais brasileiros, tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ou MST. A Sra. Rousseff buscou o Sr. Lula para reanimar seus laços com os movimentos sociais. Ele é dos sindicatos, um homem de temperamento salgado com popularidade entre a classe operária e os camponeses.

Mas o Sr. Lula está sob investigação na Operação Lava Jato sobre lavagem de dinheiro na Petrobras. Seu papel é de pequena escala se comparado a demais abusos. A detenção do Sr. Lula e a revelação de uma gravação telefônica grampeada entre ele e a Sra. Rousseff sugerem uma conspiração maior em trabalho aqui. Faz parte do hábito da elite brasileira fomentar a discórdia para prevenir qualquer ameaça a sua estabilidade. O retorno do Sr. Lula numa época de crise econômica pode indicar uma guinada do PT à esquerda. Não havia outra escolha se não mover-se nessa direção. Seria suicida para o PT tornar-se o partido da austeridade. A convocação do Sr. Lula era para ajudar a Sra. Rousseff a mudar de curso. É isso que a elite julgou abominável. A oferta da Sra. Rousseff para o Sr. Lula assumir um cargo em seu gabinete teria imunizado-o da acusação. Agora um juiz suspendeu a nomeação.

Na sexta-feira, um milhão de pessoas se juntaram à Frente Brasil Popular para repetir o grito de Lula — não vai ter golpe. O povo, como o MST definiu, foi às ruas para defender a democracia. Este foi um protesto contra o golpe de Estado. Se a emergência destes protestos populares irá mudar a dinâmica feia do Brasil ainda não é possível dizer. Muito está em jogo neste importante país sul-americano.

Vijay Prashad leciona Estudos Internacionais na Trinity College (EUA) e é o autor de "The Poorer Nations: A Possible History of the Global South".

terça-feira, 29 de março de 2016

O bandido bom

Nascia, há cerca de 2020 anos, no Oriente Médio, um dos maiores líderes políticos e religiosos que a Terra já conheceu. Numa época em que o ódio ditava o tom dos debates, esse rabino da cidade de Nazaré ousou dizer que devemos amar nossos inimigos. Numa época em que a xenofobia e o preconceito eram extremos, ele abraçou estrangeiros, leprosos e prostitutas e ousou dizer que devemos amar nossos vizinhos como amamos a nós mesmos. Irritou, assim, os líderes políticos e religiosos de seu tempo, que alimentavam o ódio entre os destituídos para manter seu status social. Os oprimidos estavam muito ocupados odiando a si mesmos para perceber o quão explorados estavam sendo por religiosos hipócritas e seus aliados da potência invasora.

Além disso, o rabino defendia a igualdade social. Ele ensinou a seus seguidores a dividir o pão. Disse a um jovem rico que queria segui-lo: vá e dê tudo o que possui aos pobres. Logo o jovem entusiasta perdeu o interesse em acompanhá-lo. É fácil agir como um hipócrita e querer levar uma vida simples quando, no final da jornada, se tem uma casa confortável para onde voltar. Não são com essas pessoas que devemos nos preocupar, ensinou o rabino. O reino dos céus não pertence a elas; é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um rico entrar no céu, disse certa vez. Pouco antes de morrer afirmou que a doação vinda de quem tira de suas necessidades é muito mais digna de graça do que a oferta de quem tira do supérfluo.

Continuamos a matar Jesus todos os dias,
enquanto lembramo-nos de sua morte na Páscoa.
Conforme seu número de seguidores crescia, irritava os possuidores do monopólio da espiritualidade e da política na Palestina, ou seja, os fariseus (preocupados com a exposição de sua hipocrisia) e os romanos (preocupados que seu modelo alternativo resultasse no fim do pagamento de impostos). Não podiam aceitar a concorrência de um simples carpinteiro iletrado, ouvido, aclamado e seguido pelas massas destituídas. Forjaram-lhe, então, um julgamento político, uma farsa com o intuito único de condenar-lhe. O responsável pelo julgamento sequer entendeu o crime do acusado e tentou libertar-lhe, mas acabou preferindo sentenciar-lhe à morte para não dar margem para uma revolta dos justiceiros que, raivosos, gritavam na porta de seu palácio: "crucifique-o".

Na cruz, o rabino perdoou os pecados de um bandido antes de falecer. Jesus morreu como ele e como qualquer ladrão de celular que é linchado até a morte por turbas nos rincões do Brasil. Foi condenado sem provas e feito de bode expiatório para servir de lição a rabinos radicais assim como Rafael Braga, jovem negro condenado por carregar um garrafa de Pinho Bril na mochila durante as manifestações de junho de 2013. Jesus foi executado sumariamente como Manuel Fiel Filho, que defendia ideias tão perigosas para o poder dominante de sua época quanto ele. Dito isso, tenho a convicção de que Jesus é um desses bandidos bons dos quais os comentaristas histriônicos de tevê falam. Jesus é um bandido bom porque é um bandido morto. E continuamos a matá-lo, todos os dias, enquanto lembramo-nos de sua vida e morte durante a quaresma. Amém?

segunda-feira, 28 de março de 2016

2015-16: chocando o ovo da serpente

Muitas vezes a falta de distanciamento histórico não nos permite analisar os eventos como eles de fato ocorrem. Agora, no entanto, está mais do que nítido para mim que os dois últimos anos representam, para a contemporaneidade, aquilo que a década de 1920 representou para o século passado. E não, não estou falando da revolução tecnológica que permitiu o surgimento do cinema falado. Refiro-me à ascensão do nazifascismo na Europa. Em 2015, sob os efeitos do terrorismo global e de uma crise financeira tão avassaladora quanto a de 1929, inaugurou-se uma nova era de influência das ideias de extrema-direita sobre uma série de países, sobretudo aqueles cujas instituições políticas passam por uma acentuada crise de representatividade.

O primeiro exemplo que salta aos olhos é o da Alemanha, uma vez que foi este o país onde se originou o nazismo. Em meados de outubro de 2015 foi fundado, na cidade de Dresden, o grupo "Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente" (PEGIDA), que se opõe ao recebimento de refugiados sírios pela potência europeia. Atraiu 350 pessoas em sua primeira manifestação. Na semana posterior ao ataque terrorista à sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, entretanto, levou 250.000 pessoas às ruas da cidade. Nove em cada dez manifestantes do PEGIDA apoiam o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) que, desde então, tornou-se o terceiro maior nos parlamentos de dois estados e o segundo maior na casa legislativa de Saxônia-Anhalt.

Marine Le Pen posa com dois skinheads em 2006.
Na França, os efeitos das crises financeira e de imigração são sentidos de maneira mais intensa e, por isso mesmo, a extrema-direita tem feito avanços significativos. Em 2014 o país viu seu PIB ser ultrapassado pelo da Grã-Bretanha, ao passo em que a Frente Nacional (FN) elegeu 24 deputados para o Parlamento Europeu que deseja destruir. Os deputados desse partido valem-se de um ciclo vicioso que alimenta a xenofobia para angariar votos. Os muçulmanos são excluídos da sociedade que os teme e encontram refúgio em grupos que promovem uma visão radical do Islã o que, por vezes, resulta em atentados que justificam a exclusão dos muçulmanos da sociedade. Só em 2015 ocorreram três atentados promovidos por grupos islâmicos em Paris.

Julgava-se que a FN tinha se exaurido em 2002, quando seu então líder, Jean-Marie Le Pen, sofreu uma derrota acachapante para Jacques Chirac no segundo turno das eleições presidenciais daquele ano. Sua filha Marine, no entanto, reinventou o partido ao abandonar a retórica fascista do pai, embora defenda praticamente a mesma agenda que ele. Agora atraente aos jovens e politicamente viável, a FN obteve, pela primeira vez, o maior número de votos nas eleições regionais (equivalente às nossas eleições para governadores). Em Nord-Pas-de-Calais-Picardie e em Provence-Alpes-Côte d'Azur as candidatas da extrema-direita só não se tornaram governadoras graças a uma inesperada coalizão entre a centro-esquerda e a centro-direita no segundo turno.

A pesquisa mais recente para a eleição presidencial de 2017 indica que Marine Le Pen pode vir a se tornar a candidata mais votada no primeiro turno, embora sua vitória no segundo seja improvável. Entretanto, me pergunto se ela não emergirá como alternativa viável, sobretudo para os jovens desesperançosos com o sistema político, caso a centro-direita que deve substituir o atual presidente socialista François Hollande mostrar-se tão ou mais incapaz do que a centro-esquerda de resolver os problemas econômicos do país. A crise das instituições na França é profunda e recorrente. A xenofobia apenas ajuda a transformar os inimigos — muitos e difusos — em algo palpável. O fascismo nada mais é do que a forma que os capitalistas encontram de culpar outros pelas crises que geram.

O fascismo caracteriza-se pelo atropelo ao devido processo
legal e pela crença de que o país precisa de um líder forte.
O que nos leva até o caso dos Estados Unidos. Vimos despontar, em 2015, um candidato que debita nas costas dos imigrantes latino-americanos todos os problemas econômicos da nação e que que propõe construir um muro na fronteira com o México. No entanto, ele não se pronuncia sobre o sistema de financiamento eleitoral que gera a desconfiança do público ao sistema político. Baseia sua campanha na parcela do eleitorado que se ressente por ter que dividir seus espaços com hispânicos. Seria cômico, não fosse trágico, que a maior nação do mundo corre o risco sério de vir a ser governada por um fascista como Donald Trump. Quem diz isso não sou eu, mas Robert Paxton, professor emérito da Universidade de Colúmbia e um dos maiores pesquisadores contemporâneos sobre o fascismo da década de 1920.

Não é à toa que Trump é aclamado pelos camisas-amarelas do Brasil. Embora jurem de pé junto que sejam democratas, em momento algum os manifestantes anti-Dilma denunciaram as forças fascistas (que não eram poucas) presentes em suas manifestações. O fascismo, segundo Paxton, caracteriza-se pelo nacionalismo exacerbado, ataques a inimigos tácitos e explícitos sem respeito ao devido processo legal, uma certa obsessão em dizer que a nação em questão declinou e a crença de que o país precisa de um líder forte. Todas essas características estão presentes nos comícios e discursos tanto de Trump quanto dos camisas amarelas. A comparação entre os dois movimentos políticos, feita por Glenn Greenwald não é descabida. Afinal de contas, o ovo da serpente está sendo chocado no mundo inteiro.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A lição da esquerda árabe-israelense

Há cerca de um ano os israelenses foram às urnas para escolher os membros do 20° Knesset, o parlamento do Estado de Israel. A prioridade dos partidos árabes era clara: eleger um número grande o suficiente de deputados para impedir a formação de um novo governo pelo então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cujo partido, Likud, se opõe à coexistência pacífica com os palestinos. Assim sendo, os quatro partidos da esquerda árabe — Hadash, Lista Árabe Unida, Balad e Ta'al — decidiram colocar suas diferenças de lado e formaram a Lista Conjunta.

O resultado da união de esforços foi um recorde na participação eleitoral dos cidadãos árabe-israelenses. A Lista Conjunta obteve 446.583 votos (10,6% do total) e tornou-se a terceira maior agremiação do Knesset, com 13 deputados — dois a mais que os partidos árabes possuíam antes de forjarem a coligação. Apesar da disposição em se coligarem com a União Sionista, agremiação de centro-esquerda judaica, não conseguiram impedir a posse de Netanyahu para um novo mandato. O Likud obteve a maior parte dos votos e, assim sendo, teve preferência nas negociações para formar um novo governo, no que obteve êxito.

De qualquer forma, o sucesso da Lista Conjunta garantiu unidade e coesão nas demandas dos cidadãos árabes de Israel, os mais humilhados e oprimidos daquela sociedade. Mais espaço no parlamento significa maior visibilidade a essas pessoas. É isso que a esquerda brasileira deveria perceber no momento atual. A retirada de Dilma Rousseff do poder central significaria o aprofundamento dos cortes de gastos sociais. O economista oficial do golpe frio, Armínio Fraga, já afirmou que programas como Bolsa Família e ProUni "serão retirados da pior maneira".

A oposição de esquerda, mesmo que não lhe caiba fazer a defesa da agenda econômica do governo Dilma, deve lutar pela manutenção da agenda social, que garante a ampliação de direitos dos humilhados e oprimidos do Brasil. Defender a pauta do "que se vayan todos" só agrada à direita ultraliberal que deseja tirar Dilma porque nega a função social do Estado e deseja fazer com que o governo sirva apenas aos ricos que os financiam, como os Irmãos Koch ou os especuladores que vivem do pagamento dos juros da dívida pública. Essa esquerda trai a si mesmo e a seus eleitores.

Urge, à esquerda nacional, seguir os passos da esquerda árabe de Israel e perceber que, juntos, somos mais fortes na luta contra os opressores do povo. Já está mais do que claro que o propósito da Operação Lava Jato não é limpar o Brasil da corrupção; é limpar o país da política partidária. Isso ficou claro para mim quando os parceiros de Sérgio Moro no Jornal Nacional exibiram uma reportagem sobre a lista de recipientes de propina da Odebrecht e, ao invés de listar os maiores beneficiados, exibiram a lista dos partidos que teriam participado do esquema. Todos, menos PSTU e PCO, apareceram na tela da Globo.

A mídia vem sendo questionada por sua parcialidade nas denúncias contra o PT e reage como sempre tem reagido nesses casos: passa a afirmar que todos os partidos são corruptos. O PT seria apenas o mais corrupto deles. Entretanto, soa-me estranhíssimo que dois partidos nanicos e independentes — PCB e PSOL — receberiam propina. O PCB já negou esse "fato" em suas redes sociais, mas o estrago já foi feito. Milhões de pessoas viram o partido ser associado a siglas abjetas como o DEM e o PP, herdeiros do partido oficial da ditadura militar.

Quando o golpe frio se consolidar, ninguém vai ser perdoado, por mais crítico e independente que tenha sido do governo Dilma. Por isso, é hora de deixar as diferenças de lado, como os partidos da Lista Conjunta fizeram. Estamos num confronto e, na guerra, as regras para a política de alianças devem ser afrouxadas. Caso o contrário, perdemos. E a derrota do nosso lado, da esquerda, no momento político atual do Brasil, significa a derrota do tudo aquilo que o povo conquistou nos últimos 12 anos. É chegada a hora de nos posicionarmos, para o bem do povo brasileiro.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O golpe frio e a mudança de governo nos EUA

Me parece que a pior coisa que poderia ter acontecido a João Goulart foi o assassinato de John F. Kennedy em 1963 em Dallas. Conforme escrevi anteriormente, em análise do documentário Brazil: Troubled Land, exibido em junho de 1961 pela rede de televisão norte-americana ABC, o governo Kennedy parecia querer buscar uma solução pacífica e institucional para a crise política que se instalava no país na primeira metade da década de 1960 e dividia os brasileiros em pró e anti-Jango. No entanto, Kennedy foi assassinado e substituído por seu vice, o falcão de guerra Lyndon B. Johnson.

Trump vai vencer e ajudar o Brasil... a ficar sem o pré-sal.
Em novembro, os EUA elegerão seu próximo presidente e o governo Dilma deve estar atento para o resultado do pleito, afinal, o Brasil passa por cenário similar ao de 1964. Jeb Bush, cujo irmão George era amigo pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não está mais na disputa. Perdeu espaço para a direita neoconservadora que deseja aplicar, no governo federal, a agenda anti-pobres que já defende no Congresso. Eles são financiados pelos ultraliberais Irmãos Koch que, segundo o pesquisador Michael Fox, também financiam grupos pró-impeachment no Brasil como o MBL.

A empresa que herdaram do pai, a Koch Industries, desenvolveu a tecnologia para refinar o petróleo cru pesado e possui interesse direto no Brasil do pré-sal e em qualquer outra nação com grandes reservas de petróleo. A eleição de um republicano, seja ele quem for, significa a adoção pelo Pentágono da política externa intervencionista dos Irmãos Koch. Até mesmo de Donald Trump, que afirma ser auto-financiado e que não vai adotar a agenda política dos milionários, mas que é um milionário ele mesmo com ações na Chevron. O discurso dos republicanos é tão alinhado com os anti-Dilma que já teve até faixa dizendo "Trump win and help Brazil" em protesto.

No lado democrata da disputa, no entanto, temos a liderança da ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama Hillary Clinton. Em seu livro mais recente, Hard Choices, de 2014, Clinton elogiou o intelecto e a determinação de Dilma. Antes disso, em 2012, afirmou que Dilma estabeleceu um padrão mundial na luta contra a corrupção. No entanto, Hillary Clinton também é reconhecida pelos próprios americanos como uma falcoa de guerra. Foi durante seu período no Departamento de Estado que houve a intervenção na Líbia e que a retórica anti-diálogo dos Estados Unidos levou à guerra civil na Síria. Além disso, ela tem uma reputação de mudar de opinião a cada dois anos em assuntos importantes.

O fato é que, conforme foi desenvolvida historicamente, a democracia americana necessita do imperialismo para elevar a qualidade de vida de seus cidadãos. Bernie Sanders é o único candidato que promete elevar o padrão de vida dos americanos não através da expansão econômica via força bruta, mas sim através da regulação da renda dos mais ricos, em especial dos especuladores — pelo menos num primeiro momento. É por isso mesmo que ele é considerado um outsider e é motivo de chacota na grande mídia. O jeito é esperar para ver se, assim como o governo Jango, a continuação do Governo Dilma depende da troca de inquilino na Casa Branca.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O golpe frio

No sábado passado a revista alemã Der Spiegel se referiu à tentativa de destituir a presidenta Dilma Rousseff como um Kalter putsch ou golpe frio. Ao contrário do golpe civil-militar de 1964, que ocorreu tão às pressas que pegou todos de surpresa, o golpe de estado atual vem sendo extremamente calculado. Desde 2003 a grande imprensa atua como um partido de oposição (algo que já foi confirmado até pela própria presidenta da Associação Brasileira de Jornais), tentando destruir a imagem de Lula e do PT, criminalizando-os com provas falsas e fontes duvidosas que jamais apareceriam na maior revista alemã, mas que aparecem na maior revista brasileira.

Ciente da perseguição da grande mídia ao PT, o juiz federal Sérgio Moro entrou em cena para o último ato: seria ele o personagem responsável por aplicar o último golpe ao partido. Sob o pretexto de investigar um mega esquema de corrupção na Petrobrás, que data do governo FHC, armou um circo midiático responsável por jogar amplos setores da população contra o PT. Nos protestos insuflados pela mídia, adivinhe só, Moro é aclamado como o herói salvador do Brasil, embora receba um salário muito maior que o da presidenta supostamente corrupta que ele combate (o que é ilegal). Segundo a Al Jazeera, "a estratégia de Moro começou há uma década, antes mesmo do início da Operação Lava Jato".

Em 2004 o juiz paranaense escreveu um artigo em tom elogioso sobre a Operação Mani Pulite (Mãos Limpas), que destruiu os principais partidos políticos italianos sob o pretexto de combater a relação deles com a máfia. O que se seguiu foi uma descrença generalizada da população com os políticos tradicionais e a eleição de um magnata da mídia —Silvio Berlusconi— que, aí sim, institucionalizou a corrupção no governo. Segundo a BBC, após a Mãos Limpas a corrupção na Itália ficou ainda mais sofisticada e difícil de ser combatida. Só um imbecil para achar que no Brasil seria diferente. Sem uma reforma do financiamento de campanha, nada mudará em nosso país como não mudou na Itália. Pode destruir todos os partidos que a corrupção não acabará.

A impressão que eu tenho, no entanto, é que Sérgio Moro não deseja combater a corrupção. Se eu ainda acreditava nisso, as dúvidas se dissiparam na semana passada quando, tomado pela raiva de não poder mais investigar Lula, ele agiu acima da lei e divulgou ilegalmente um áudio que atrapalharia a posse do ex-mandatário como ministro-chefe da Casa Civil. Por ter captado a presidenta da República, o grampo não poderia ter sido divulgado sem a permissão do STF. Estranhamente, no dia seguinte, antes mesmo da posse de Lula, um juiz do Distrito Federal já havia redigido uma liminar suspendendo-a tendo como base o grampo ilegal. Nas redes sociais da criatura, ataques os mais abjetos possíveis contra o PT.

Fui, então, pesquisar mais sobre a história do novo "herói" nacional e eis que descubro que ele foi assessor da ministra Rosa Weber durante o julgamento do mensalão no STF em 2012. Rosa é a prima de Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, e notabilizou-se por declarar, durante o julgamento, que não haviam provas contra José Dirceu, mas que condenaria-o mesmo assim porque a "literatura jurídica" permitia. Percebe-se, assim, o nível raso da assessoria jurídica prestada por Moro à ministra. Eu achava, na minha inocência, que todo mundo era inocente até provado o contrário, ou seja, que ninguém pode ser condenado sem provas. A dúvida sobre as provas livrou O.J. Simpson no "julgamento do século".

O fato é que a farsa jurídica de Moro contra o PT vem sendo preparada desde então. Ele vem ajudando a distorcer a lei para criminalizar o partido. No entanto, ele não daria conta de fazê-lo sozinho. Em seu artigo, citado pela Al Jazeera, Moro escreveu sobre o papel fundamental da mídia na consolidação da Mãos Limpas. Assim sendo, usa e é usado pela mídia para atingir o grande sonho de sua vida: entrar para a história como o cara que destruiu o PT. Fazer aquilo que o general Golbery não deu conta de fazer. O problema dele, no entanto, é que nem todo mundo está disposto a acreditar cegamente na sua benevolente luta contra a corrupção. A internet expõe sua seletividade e até mesmo quando quis se valer do "jeitinho" para continuar lecionando na UFPR enquanto assessorava Weber.

O golpe é frio, sim. Calculado e planejado meticulosamente há pelo menos dois anos, quando a seletivíssima Operação Lava Jato —que prende o petista Delcídio do Amaral e não o peemedebista Eduardo Cunha, peça-chave do golpe— começou. Mas engana-se quem pensa que a reação ao golpe será fria também. Moro criou um clima de instabilidade política e jurídica que se assemelha ao prenúncio de uma guerra civil. Seus partidários acham que ele, um juiz de primeira instância, é mais importante do que a Suprema Corte. É possível que quando Moro for reivindicar o papel de herói salvador da pátria que calculadamente construiu para si com a ajuda da mídia, sequer haverá mais pátria para aclamá-lo.