terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que horas a casa grande vai cair?

Acabei de assistir ao filme Que Horas Ela Volta? na Rede Globo. Estou exausto, mas preciso escrever alguma coisa sobre essa magnífica obra de arte. Foi preciso esperar as quase seis horas diárias de subproduto da dramaturgia (telenovela) e da desinformação mascarada de jornalismo acabar para enfim poder assistir ao filme. Qualquer programa que questiona e estimula o debate sobre a estrutura social injusta do Brasil a Rede Globo faz questão de colocar lá nas altas horas da madrugada, quando não existe a menor possibilidade da massa trabalhadora estar acordada assistindo à programação. Ao contrário do Netflix ou da BBC, a Globo é ao mesmo tempo um produto e um mecanismo de afirmação dessa estrutura. Conscientizar a população sobre os verdadeiros problemas que ela enfrenta é perigoso. Podem se voltar contra a Globo. É mais seguro fazer um entretenimento barato que deixe a população anestesiada e os anunciantes felizes.

Mas vamos tratar do filme em si. Regina Casé estava brilhante como a empregada doméstica Val que, após passar dez anos criando o filho de Dona Bárbara, sua patroa, como se fosse seu (não coincidentemente o título do filme no exterior é A Mãe Postiça), recebe a notícia de que sua filha Jéssica, que não via pelo mesmo período de tempo, está indo para São Paulo para visitá-la e – para a surpresa da patroa – prestar o vestibular numa faculdade de arquitetura. Até esta altura, Val realmente acredita no clichê amplamente difundido pela classe média de que empregado também faz parte da família e pede à patroa para hospedar sua filha na casa deles. Val, como muitas serviçais do Brasil republicano, mora na senzala da casa  – um quartinho nos fundos que os arquitetos continuam insistindo em desenhar. A chegada da menina, que se recusa a reconhecer a hierarquia social implícita dentro da casa, é que gera o conflito. Jéssica não vê razão em ser tratada como inferior a alguém e, além disso, desperta o interesse dos homens da casa, o que gera ciúmes na patroa.

Val, heroína da classe trabalhadora.
O fato é que nos últimos anos começaram a ser lentamente questionadas as normas vigentes no Brasil desde que nosso arremedo de civilização começou a se formar. Jéssica não reconhece as normas sociais de um mundo do qual não faz – e nem quer fazer – parte. Ela é o retrato de um novo Brasil que vem nascendo há pelo menos uma década e que muitos desejam desesperadamente abortar. Se antigamente a filha da empregada doméstica só podia se vislumbrar no futuro como sendo uma empregada doméstica também, hoje as coisas não são mais bem assim. E isso incomoda. Ao filho do empregado não é desejável nem que ocupe o mesmo espaço físico que o filho do patrão, quanto mais disputar vagas de vestibular com o mesmo. Quando Jéssica passa no vestibular e o filho da patroa não, há uma torcida implícita por parte de Dona Bárbara para que ela não passe na segunda fase do exame. Dói ver que tantos privilégios não fazem diferença na inteligência do indivíduo.

A diretora Anna Muylaert tocou numa ferida aberta do Brasil. Assistindo a Que Horas Ela Volta? me veio à mente, diversas vezes o filme norte-americano Histórias Cruzadas. Só que aqui no Brasil a transição de sociedade escravocrata para sociedade de direitos ainda não foi completada. A ferida ainda não cicatrizou e se depender de muitos, que lutam contra a ampliação dos direitos civis para todos, nem vai. Nos Estados Unidos é vergonhoso explorar mulheres negras porque a pessoa até hoje não aprendeu a limpar a própria privada. Lá é comum jovens de classe média pagarem a faculdade trabalhando como garçons. No Brasil a elite e a pseudo-elite julgam que estão no topo da hierarquia por um desígnio de Deus. Quando eu frequentava círculos de classe média era bastante comum ouvir sobre uma empregada que se aposentou e foi substituída pela filha. Sem falar das patroas que praticavam escambo com suas empregadas. Era como ouvir conversas de brancos do século XIX, só que, ao contrário da escravidão, uma pequena quantia de dinheiro estava sendo paga ao explorado.

Nesta fábula moderna, Val é a working class hero e os antagonistas são os patrões, oriundos de uma pequena burguesia que nada produz, nada conquista por méritos próprios e, ainda assim, julga apropriado explorar a mão-de-obra alheia. Val julgava fazer parte dessa família, mas ela jamais vai poder se dar ao luxo de deixar de trabalhar porque herdou a fortuna do pai. Vejam só, quando Fabinho, o filho de dona Bárbara, não consegue passar no vestibular recebe dos pais uma viagem-consolo para a Austrália. A essas pessoas não é interessante gerar riqueza, apenas mantê-la; vivem de status. O fato é que o capitalismo no Brasil ainda é muito arcaico. O país ainda flerta com o feudalismo enquanto parte de sua classe média vomita Mises por aí. Val é a heroína, mas só pôde se libertar da opressão (que ela não enxergava como tal) com a ajuda de alguém de fora. De alguém que não foi criado nesse ambiente insano e que, justamente por isso, percebe a irracionalidade daquilo tudo. Nesse papel, a atriz Camila Márdila, que deu vida a Jéssica, brilhou.

Não tive a oportunidade de assistir a nenhum dos outros filmes que foram enviados pelos governos nacionais para representar seus países na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, mas Que Horas Ela Volta? não deixou nada a desejar em sua proposta de abordar a relação entre a casa grande e a senzala no Brasil que, ainda hoje, mais de cem anos após o fim oficial da escravidão insiste em perdurar por causa de uma elite e de uma classe média que se recusam a aprender a lavar a própria louça. Se o filme merecia estar na lista dos doze pré-indicados ao Oscar, eu não sei. Só sei que merece todos os prêmios que já recebeu – entre os quais o de melhor atriz para Márdila e Casé em Sundance – e toda a visibilidade que eles garantem a uma produção cinematográfica. Além disso,  o filme merece suscitar muitas discussões sobre a hierarquia social tácita presente nas relações de emprego no país. Precisamos começar a questionar: por que só no Brasil as babás precisam vestir uniforme e usar entrada de serviço? Que horas a casa grande vai cair? Espero que não demore, pois cansei de passar vergonha no exterior explicando porque os brasileiros não limpam a própria sujeira.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Para um amigo meu

Para um amigo meu, leitor do blog, que se mudou para Fortaleza:

Desejo que você se fortaleça
Que as coisas boas que viveu aqui
Em seu coração permaneçam
E que as coisas ruins não cheguem aí
Essas, é melhor que você esqueça

Que leve sua mente enfim possa estar
Que seja muito bem recebido em seu lar
Que sua mãe você abrace forte
E seus gatos você reconforte
Que seus amigos você consiga reencontrar
Que vocês possam se divertir
Que a todos você possa contagiar
E, principalmente, fazer-lhes rir

Que esse ano nos traga apenas o melhor
Pois dois mil e quinze só trouxe o pior
Que possamos finalmente sorrir
Que não encontremos pessoas a nos ferir

Sua vida estava um turbilhão
Nela, eu entrei de supetão
Mas eu sei que se eu sumir
Minha falta você vai sentir

Saiba que, apesar da distância
Comigo pode sempre contar
Você é de muita relevância
Desejo te ver avançar

Quero estar presente
Gente assim é difícil de encontrar
Gentil, sensível e inteligente
Espero poder te reencontrar

Que o Buda que te dei lhe ajude a seu espaço encontrar
Goiânia ou Fortaleza, tanto faz, não cabe a mim julgar
Quero apenas que esteja feliz com o que escolher
E que possamos continuar a nos corresponder 
Nem que seja só no meio virtual
Que essa mudança não seja um ponto final

São os meus desejos para ti, amigo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Brasil, a sete passos da Idade Média

Todo cidadão minimamente consciente já sabe que em 2015 o Brasil regrediu diversos anos na garantia de direitos sociais às populações historicamente oprimidas. Após a eleição de um evangélico fanático ao posto de presidente do Congresso Nacional o Brasil se viu refém da agenda dos deputados espúrios que elegeram-no, principalmente fazendeiros, pastores e policiais. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) era o queridinho da grande mídia enquanto, por um lado, atacava os direitos de trabalhadores e, por outro, ameaçava mandar a presidente Dilma Rousseff para casa antes do término oficial do mandato para o qual ela fora legitimamente re-eleita. Só que sua situação se complicou bastante após o surgimento de denúncias ―por parte da procuradoria suíça― de que ele estava usando o paraíso fiscal para lavar dinheiro desviado da Petrobrás. Como consequência, atualmente mais pessoas apoiam o afastamento de Cunha (80%) do que de Dilma (60%). Entretanto, nada indica que a luz ressurgirá no Congresso caso Cunha seja afastado. As trevas vieram para ficar. E o que é pior: têm a legitimidade do voto popular, conquistado nas eleições de 2014.

Em 2015 foram sete os projetos aprovados pelos deputados que representam o retrocesso de direitos para milhões de brasileiros. Seriam oito, caso a bancada governista não tivesse conseguido reverter o corte de verbas do Programa Bolsa Família, que jogaria 8 milhões de pessoas de volta na miséria. O Brasil vai na contramão dos países mais desenvolvidos do mundo. Enquanto os brasileiros se deixam levar por preconceitos e soluções milagrosas para problemas complexos, outros povos analisam racionalmente seus problemas. Em 2015 a Suprema Corte dos EUA decidiu reconhecer todos os casamentos entre pessoas do mesmo sexo realizados no país. O Canadá, preocupado com o crescimento da desigualdade social, elegeu um primeiro-ministro de esquerda ―filho do popularíssimo Pierre Trudeau― que propôs aumentar o imposto dos mais ricos e diminuir o dos mais pobres. Os finlandeses elegeram o centrista Juha Sipilä, que prometeu pagar uma renda mínima ―uma espécie de Bolsa Família― a todos os cidadãos; esta proposta é apoiada por 7 em cada 10 finlandeses. EUA, Canadá e Finlândia possuem índices de desenvolvimento humanos muito superiores ao do Brasil. O Canadá inclusive liderou a lista entre 1992 e 2000.

Na permissão ao aborto, é clara a divisão norte-sul do mundo.
Mas vamos deixar a discussão para depois. Vamos primeiro à lista das sete decisões tomadas pelos deputados brasileiros em 2015 que distanciam nosso Brasil dos países mais desenvolvidos do mundo e colocam-no um pouquinho mais perto da Idade Média:

  1. PEC 99/11, de autoria de João Campos (PSDB-GO): Aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), permite que entidades religiosas entrem com ações de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Isso dá a igrejas, entidades privadas, o poder de questionar leis e jurisprudências, igualando-as à presidência da República, à Procuradoria Geral da República, aos governos de estados, às mesas da Câmara, do Senado e das Assembleias Legislativas, aos partidos políticos e ao Conselho Federal da OAB. Se a proposta for aprovada no plenário da Câmara, a Igreja Universal poderá questionar a validade do seu casamento. É a maior afronta ao Estado laico desde o advento da Constituição de 1988.
  2. PL 5069/15, de autoria de Eduardo Cunha (PMDB-RJ): Aprovado na CCJ, aumenta as restrições ao aborto, um direito previsto para casos de estupro e risco à vida da mulher desde 1940. O texto da lei ainda permite aos profissionais de saúde se recusar "a aconselhar, receitar ou administrar procedimentos ou medicamentos que considerem abortivos". Isso significa que o agente de saúde que entender que a pílula do dia seguinte provoca aborto pode se recusar a oferecê-la à paciente, mesmo aquela que tenha sido vítima de estupro. Em 30 de outubro, cerca de 15 mil mulheres protestaram nas ruas de São Paulo contra a medida que dificulta à mulher vítima de estupro o acesso ao atendimento-padrão nesses casos.
  3. PL 6583/13, de autoria de Anderson Ferreira (PR-PE): Aprovado numa comissão da Câmara no fim de setembro e mais conhecido como Estatuto da Família prevê a definição de entidade familiar como a "união entre um homem e uma mulher". Deve excluir do acesso a planos de saúde, entre outros serviços, cerca de 60 mil famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, assim como famílias de arranjos anaparentais ―quando não há relação direta de descendência entre pais e filhos, como tios que cuidam de sobrinhos ou irmãos mais velhos que cuidam de irmãos mais novos.
  4. PEC 171/93, de autoria de Benedito Domingues (PP-DF): Aprovada pelo plenário da Câmara, a proposta reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Não há qualquer evidência científica de que a proposta vá afetar os índices da violência. Por outro lado, especialistas em infância e juventude alertam que os menores podem ser vítimas de abusos e aliciamento por organizações criminosas que comandam os presídios estaduais.
  5. PL 3722/12, de autoria de Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC): Aprovada por uma comissão especial, a proposta revoga o Estatuto do Desarmamento. Nomeado de Estatuto de Controle de Armas de Fogo, o PL reduz de 25 para 21 anos a idade mínima para compra de revólveres e pistolas, elimina a taxa que os compradores de arma precisam pagar e amplia de três para dez anos o prazo para renovar o porte de armas. A proposta também autoriza diversos profissionais que não trabalham com segurança ―como fazendeiros― a ter acesso a armas. A tendência é que as milícias cresçam, assim como o número de assassinatos, que já é alto. Segundo pesquisa da UFRJ, o Estatuto do Desarmamento evitou mais de 121 mil mortes no Brasil de 2004 a 2012.
  6. PEC 215/00, de autoria de Almir Sá (PR/RR): Aprovada pela CCJ, transfere do Executivo para o Legislativo a atribuição de remarcar terras indígenas ou quilombolas. Prevê o pagamento de indenizações retroativas ―e em dinheiro!― pelas terras expropriadas para a criação de reservas indígenas/quilombolas. Isso criaria um passível impagável para a União. Alem disso, estabelece como marco temporal de ocupação das terras o dia 5 de outubro de 1988, o que significa que os indígenas ou quilombolas não terão direito à terra se não a ocupavam em 1988.
  7. PL 4330/04, de autoria de Sandro Mabel (PMDB-GO): Aprovado em plenário, o projeto revoga vários dispositivos da Consolidação das Leis Trabalhistas, a CLT, um dos maiores legados de Getúlio Vargas para a sociedade brasileira. Os trabalhadores terceirizados recebem salários 25% menores do que os trabalhadores celetistas, permanecem no emprego pela metade do tempo e cumprem jornadas de trabalho maiores ―ou seja, mais de 44 horas semanais. 

FHC acabou com Vargas na economia;
Cunha, na sociedade.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência do Brasil em 1995 e levou a cabo a privatização de empresas criadas por Getúlio Vargas, ele sentenciou: "a era Vargas acabou". Mas nem mesmo FHC, ícone maior da direita nativa, teve a coragem de mexer nos direitos dos trabalhadores ou naquilo que o Código Penal de 1940 previa sobre o aborto. Ele é o retrato de uma direita que o seu partido, o PSDB, preferiu não ser. É um intelectual, um homem polido. Desde as últimas eleições, no entanto, o PSDB preferiu que sua cara não mais seriam os intelectuais: seria a escória da direita. Gente como o já supracitado Eduardo Cunha ou o deputado-pastor João Campos. Campos, além de propôr o fim da laicidade com a PEC 99 ―que prevê que uma força estranha á organização do Estado (as igrejas) questione leis e decisões do STF―, quer sustar uma decisão interna do Conselho Federal de Psicologia que proíbe os psicoterapeutas de fazerem a chamada terapia de reorientação sexual com seus pacientes, ou seja, curar gays. Se FHC pôs fim aos pilares econômicos da era Vargas, o neo-PSDB parece interessado em pôr fim aos pilares sociais da mesma.

O fato é que, como bem observou Rodrigo Martins, repórter da Carta Capital, o Brasil "até hoje não entendeu o sentido da Revolução Francesa". Liberdade significa que todos os cidadãos devem ser livres para viver de maneira lícita como quiserem, sem a interferência do Estado. Igualdade significa que todos os cidadãos são iguais, independente de serem indígenas, quilombolas, jovens em conflito com a lei, homossexuais ou irreligiosos. Fraternidade significa que os cidadãos devem ajudar uns aos outros, com enfoque especial aos mais vulneráveis, na construção de uma sociedade mais justa. O que vemos no Brasil atual é a completa negação desses valores. Vemos evangélicos que querem se tornar supercidadãos, com poder de questionar as leis, algo que ateus, agnósticos e irreligiosos não poderão fazer. Vemos a completa subjugação da mulher aos preceitos religiosos (minoritários na sociedade) seguidos por Eduardo Cunha ―que no entanto não segue aquele mandamento "não roubarás". Vemos a negação de gays e lésbicas ―e até mesmo irmãos mais velhos e tios― do conceito de "pai" e "mãe". Vemos a negação da recuperação a jovens que cometem crimes.

Ainda não derrubamos a Bastilha, mas julgamos ser possível
alcançar o nível de desenvolvimento social da França.
Na contramão dos Estados Unidos, que começa a debater o controle mais rígido de armas, queremos ainda mais armas e punições ainda mais severas para pequenos criminosos (os de colarinho-branco parecem não incomodar tanto). Na nossa vã ingenuidade, achamos que os problemas sociais podem ser resolvidos na base da bala e da tortura. Se resolvessem, os regimes ditatoriais da África e da Ásia ―de esquerda e de direita― seriam verdadeiros paraísos na Terra. E a Inglaterra, país onde é dificílimo conseguir uma arma, seria um caos. Da mesma forma, achamos que vamos resolver o conflito entre homens brancos e indígenas com o uso de força bruta. O Brasil é o país que mais mata indígenas no mundo e mesmo assim os povos originais não cansaram de lutar pelas terras que são, há um milênio, deles. Por fim, os deputados que se dizem tão preocupados com o "homem de bem" quer tirar dele seu sustento. Enquanto eles recebem todos os direitos possíveis para trabalhar de terça a sexta-feira, querem aprovar um projeto de lei que não só vai reduzir o rendimento médio dos trabalhadores como os farão trabalhar ainda mais.

O Brasil sonha em ficar rico elegendo deputados do ancien régime. Sonhamos com o nível de desenvolvimento que só o Iluminismo é capaz de promover e, ainda assim, não tomamos cuidado para não elegermos os representantes das trevas. É impossível perseguir o desenvolvimento flertando com o atraso. Alguém realmente acredita que é possível conter a desigualdade social com a criminalização da pobreza? Alguém realmente acha que se diminui a taxa de homicídio colocando alguns jovens na cadeia para "servir de exemplo" e liberando indiscriminadamente o porte de armas de fogo? Assim fosse, o sul dos Estados Unidos seria maravilhoso, com suas armas e presos sendo executados para "servir de exemplo" para outros criminosos. Não se resolve os problemas sociais à força da bala ou da lei. Conforme Jesus disse certa vez, pobres e sofredores sempre existirão. Não é fingindo que eles não existem que vamos nos tornar uma sociedade melhor, onde o seu filho pode andar com o iPhone na rua sem medo de ser assaltado. Ao virarmos as costas para eles, condenamos nossa nação inteira.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Poema: Maquiar, sorrir, arreganhar

O que há de errado comigo?
Sente-se e escute bem o que vou lhe dizer, amigo
Há uma grande diferença entre cuidar
E querer me adestrar

Me maquiar, sorrir e arreganhar
É isso que você espera de mim
Capte bem o que vou lhe falar
Se não quer que esse seja nosso fim

Vestido de renda para ver seus amigos
E couro no quarto para te satisfazer?
O que você está fazendo comigo?
Visto o que eu bem entender

Puta na cama e santa na rua?
Meu bem, não sou propriedade sua
Posso ser a Madre Teresa na cama
E jogar suas malditas regras na lama

Me cuidar, ser boazinha e dar
É isso que você espera de mim
E como não captou o que eu tinha pra falar
Baby, esse é o nosso fim

Meu bem,  que você quer é brincar de casinha
Sei onde vai arranjar uma mulherzinha
Numa loja, onde vendem bonequinhas
Ao contrário de mim, ela nem abre a boquinha

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Que gritem, Chico!

Não queria mais escrever nenhum texto esse ano. Mas sinto-me na obrigação de comentar o episódio ocorrido com Chico Buarque, talvez o maior intelectual vivo do Brasil na última segunda-feira na saída de um restaurante no bairro carioca do Leblon. O cantor, compositor e escritor saía do local com alguns amigos ilustres, entre eles o cineasta Cacá Diegues, o músico Edu Lobo e o jornalista Eric Nepomuceno, quando foi abordado por uma trupe de desocupados filhos da elite, do tipo que só países extremamente desiguais como o Brasil produzem, questionando o posicionamento político do artista. O grande feito de um deles foi ter namorado a atriz Cléo Pires; do outro, ser filho do Álvaro Garnero e ter dado um selinho no ex-jogador de futebol Ronaldo. O primeiro defende o ataque ao cantor, dizendo não entender como um cara inteligente como Chico Buarque pode apoiar o PT. Geralmente o não-dito fala mais do que o dito. Ele, na verdade, não consegue entender como pode um cara tão rico como Chico Buarque não reconhecer a hierarquia social do Brasil. Na cabeça deles, o poder político pertence aos filhos dos ricos como eles mesmos, Aécio Neves ou Donald J. Trump.

Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar.
Chico Buarque é, de fato, uma anomalia política. Nasceu na elite, estudou nos melhores colégios, come nos melhores restaurantes. Mas, por alguma razão, decidiu combater o cancro brasileiro. Como todos nós, Chico cresceu e vive na "Belíndia" (bairros nobres dignos da Bélgica e favelas iguais às da Índia), mas decidiu denunciá-la desde cedo em sua obra, o que lhe valeu a perseguição do regime militar, que confiscou todas as cópias do compacto simples de "Apesar de Você". Com sua enorme sensibilidade de poeta, Chico se sente insultado com o que, para os demais herdeiros da Casa Grande, é normal. E enxergou no PT uma forma de transformar tal sociedade injusta. Apesar de não ter rompido com o modelo capitalista brasileiro, que distribui o dinheiro de nossos impostos para bancos privados e da torcida contra da mídia nacional, os governos do PT aumentaram a renda dos mais pobres em 129% e tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU. Nos anos 1980, a fome era tão intensa no Nordeste que crianças do sertão nasciam com massa encefálica reduzida e Chico organizou uma versão local de "We Are The World", intitulada "Nordeste Já", para ajudar as vítimas da seca. 

Trinta anos se passaram desde o "Nordeste Já" e a realidade brasileira mudou. Talvez não tão intensamente quanto desejássemos, mas ela mudou. 2015 foi o ano mais quente da história do planeta e, pela primeira vez, nenhum dos nove estados do Nordeste declarou estado de calamidade pública por causa da seca. Pode-se discordar do PT o tanto que for, mas dizer que o Brasil não mudou ou que piorou desde 2003 é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Mas os playboys cariocas, assim como a versão deles no Senado (Aécio Neves) ou no Partido Republicano (Donald Trump), não desejam discutir fatos. Querem discutir pessoas, fazer ataques pessoais baseados em preconceitos. Isso é perigosíssimo, porque é assim que surge o nazismo. A classe dominante da Alemanha conseguiu convencer o povo de que os judeus faziam parte de uma superclasse que controlava as finanças do país do mesmo jeito que agora os aecistas querem nos convencer de que os petistas são a raiz de toda a corrupção no Brasil e os partidários de Trump defendem que os muçulmanos são a raiz de todo o terrorismo mundial.

Se Chico tem alguma responsabilidade pelos desvios do PT, então qualquer eleitor do PSDB tem responsabilidade pela construção de dois aeroportos por Aécio na fazenda de seus parentes. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela compra de votos feita por FHC para aprovar a emenda da reeleição. Todo eleitor do PSDB tem responsabilidade pela nomeação de Paulo Roberto Costa ao cargo de presidente de gás e petróleo da Petrobras. Era essa a indagação implícita que estava contida na resposta irônica de Chico a seus inquisidores: "eu acho que é o PSDB que é ladrão". Ou seja, o partido do Aécio, colega de balada do papai de Alvarinho, não é nenhum santo no puteiro e a discussão política no Brasil deve superar, para o bem de toda nação, a lógica pré-escolar do "o seu partido é mais corrupto do que o meu". Mas eu acho que os leitores da Veja não têm a capacidade cognitiva para entender isso. Para eles, o mundo se divide em dois pólos o "do bem" (nós / elite) e o "do mal" (eles / povo), e toda e qualquer pessoa que vota no PT é má, mesmo que seja um cara íntegro e honesto como Chico Buarque. Não foi à toa que um dos slogans de José Serra em 2010 foi "Serra é do bem".

Bogart e Bacall marchando em Washington, D.C.
contra o macartismo.
O serviço que a Veja presta ao país é semelhante ao do Senador republicano Joseph McCarthy nos EUA dos anos 1950. Foi de sua inquisição aos comunistas que surgiu o termo macartismo, que agora voltou à tona com a perseguição de Donald Trump a mexicanos e muçulmanos. No final da Segunda Guerra Mundial, conforme o mundo se tornava cada vez mais refém de uma ordem bipolar, Josef Stálin passava de "nosso companheiro" para "nosso inimigo" segundo a propaganda americana. Os roteiristas ligados ao Partido Comunista dos EUA deixaram de ser louvados por seus esforços de unir americanos e soviéticos na guerra para serem denunciados como anti-patrióticos. Afinal de contas, o que eles supostamente desejavam era promover uma Revolução Bolchevique que derrubasse o governo. Logo uma histeria tomou conta da sociedade americana. Dashiel Hammett, Lillian Hellman, Dalton Trumbo e até mesmo Lucille Ball, ninguém estava a salvo da sanha de McCarthy. Alguns, como Humphrey Bogart e Lauren Bacall, tentaram reagir, mas foi o jornalista Edward Murrow da CBS o responsável por lembrar aos americanos que eles têm o direito constitucional de escolher o partido de sua preferência.

Aqui no Brasil, a cópia patética da CBS que é a Globo faz é alimentar o macartismo. Para o telespectador da Globo, a corrupção surgiu depois do escândalo do mensalão e só é praticada pelos membros de um único partido: o PT. A corrupção existe em todos os partidos, até mesmo no PSOL. É inerente aos grupos sociais. Ainda mais no sistema capitalista, onde o status é adquirido pela acumulação de riquezas. Ninguém diz: "já acumulei o bastante, agora vou parar". A intenção é ter (ou pelo menos parecer ter) sempre mais, porque é acumulando que se adquire status. No entanto, quando mais gente passa a ter (ou pelo menos mais gente parece ter) como é o caso do Brasil pós-PT, a elite se sente ameaçada. Ela só tem status na sociedade por causa do dinheiro. Enquanto o Bolsa Família estava sendo usado para comprar apenas comida, a elite estava tranquila. Quando uma mãe insinuou na televisão que estava usando o dinheiro para comprar calça de marca para a filha, a elite começou a ficar apreensiva. Era preciso, então, usar seu exército fiel que é a classe média (que respeita e obedece a elite porque deseja ser ela) para amedrontar as pessoas e instaurar o macartismo no país.

O que será desse país eu ainda não sei. Mas só sei que precisamos reagir. Já alertei para isso antes e continuarei alertando quantas vezes for preciso. "Ninguém pode aterrorizar uma nação inteira sem que todos nós sejamos seus cúmplices", disse Murrow certa vez. O silêncio dos bons é tão nocivo quanto os gritos dos maus, já dizia o reverendo Martin Luther King. Quem melhor descreveu o que está ocorrendo com o debate político no país foi o cineasta Cacá Diegues: "Esta cena de repressão nazista é um exemplo do que está acontecendo no Brasil: a absoluta intolerância. As discussões políticas estão indialogáveis. A disputa política se transformou em duelo. Eles não queriam argumentar, só xingar". Os playboys do Leblon temem que as conquistas sociais do Brasil se aprofundem e que logo a sociedade perceba os inúteis que eles realmente são para a coletividade. Não produzem nada, não geram emprego ou renda. Vivem da mesada de seus pais famosos. É preciso parar esse processo de "desindianação" do Brasil. Nem que seja através da calúnia, da difamação, da ameaça vermelha. Nem que seja no grito. Pois que gritem, então! De qualquer forma, vão entrar para a história do Brasil como Joseph McCarthy e seus colegas entraram para a dos EUA: como um bando de oportunistas histéricos.

Poema: Desde que você foi embora

Desde que você foi embora
Não ranjo meus dentes mais
Joguei suas cartas fora
Faço o que quero, em paz

Desde que você foi embora
Me tornei uma pessoa mais calma
Joguei o ciúme e a raiva fora
Encontrei o silêncio na minha alma

Desde que você foi embora
Voltei a rir e ser eu mesmo, me reencontrei
Se preciso me negar para alguém, tô fora
Achei o amor verdadeiro e me entreguei

Obrigado pelo sofrimento
Pus minha vida em movimento
Obrigado pela aflição
Lido melhor com a frustração
Obrigado pela dor
Encontrei o verdadeiro amor

Desde que você foi embora
Posso ser quem eu realmente sou, mil em um
Joguei o garoto inseguro fora
Vivo sem expectativa, meus dias são um a um

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O evangelicalismo está embrutecendo o Brasil

Relutei em escrever esse texto. Primeiro porque não quero correr o risco de soar como aqueles trogloditas que estigmatizam as comunidades minoritárias. Segundo porque o propósito da minha escrita não é ofender ninguém. Desejo questionar ideias e não pessoas. No entanto, penso que precisamos, enquanto nação, discutir o movimento evangélico, que vem mudando drasticamente não só o perfil religioso do Brasil, como também seu perfil societário e comportamental. Conforme o país adota cada vez mais o evangelicalismo como doutrina religiosa, bancadas conservadoras crescem nos espaços de formulação de políticas públicas, tensões religiosas entram em estado de ebulição e o discurso do senso comum se torna cada vez mais intransigente com quem é visto como pecador — não raro são pessoas que já se encontram a margem da sociedade como indígenas, homo e transsexuais e usuários de drogas.

Cunha saiu desse Congresso.
Em 2015 o Congresso mais conservador desde a redemocratização tomou posse e, junto com ele, um número inédito de deputados evangélicos. Logo em seguida, foi eleito o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência do Poder Legislativo nacional. Cunha e a maioria dos deputados evangélicos — um exceção notável é a também carioca Benedita da Silva, do PT — defendem, por um lado, projetos de lei que dão mais liberdade à atividade econômica (lei da terceirização) e, por outro, restringem as liberdades individuais (fim do acesso à pílula do dia seguinte no SUS e do reconhecimento de famílias formadas por casais homoafetivos). Isso demonstra o quão o evangelicalismo brasileiro é alinhado ao americano, para o qual o sucesso financeiro seria uma dádiva de Deus àqueles que creem nele. Isso só não explica porque a maioria dos moradores de rua são cristãos e não ateus.

O Tea Party, embora não seja oficialmente um movimento político de cunho evangélico como o Revoltados Online, atua no mesmo sentido. Defende o fim do intervencionismo do Estado na economia enquanto enche o Congresso americano de políticos evangélicos como Carly Fiorina e Ben Carson, que são brilhantes ao questionar os direitos das minorias, mas omitem-se em questionar os escandalosos benefícios dos mais ricos. Ambos são pré-candidatos á presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. O neurocirurgião Carson seria o rosto de uma nova direita: apesar de ser negro, é conservador no campo dos costumes e liberal na economia. Uma tentativa de reaproximar os negros do partido que, num passado distante, libertou-os da escravidão. Contudo, a maioria deles apoia os pré-candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders. Carson é visto como um negro que deu sorte e agora representa a minoria rica como ele e não os negros do gueto. 

Apesar de sua retórica da meritocracia, da qual seria um exemplo vivo, o candidato desagrada aos negros menos por defender a plutocracia e mais por ser percebido como um fanático religioso, que chegou até mesmo a contradizer arqueólogos para sustentar sua fé. Os evangélicos, após anos propagando o ódio contra os grupos mais excluídos da sociedade americana na política, conseguiram se tornar politicamente inviáveis. Mesmo tendo sido os principais responsáveis pela vitória de Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980, hoje são a parcela da população que mais desperta a desconfiança do eleitorado em geral. Um quarto dos eleitores americanos — que são, em sua maioria, protestantes (21,2%), católicos (20,8%) e não-religiosos (22,8%) — afirma que não votaria num candidato evangélico para a presidência da República. Só não conseguiram os muçulmanos,  os ateus e os socialistas em rejeição.

No Brasil, no entanto, o movimento evangélico ainda está em trajetória ascendente, embora, penso eu, figuras polêmicas como Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Marco Feliciano e o próprio Eduardo Cunha contribuem para a saturação do mesmo. Aqui em nosso país convencionou-se, por ignorância e preconceito, chamar todo e qualquer cristão que não fosse católico de "evangélico", o que distorce o real número de adeptos do evangelicalismo. As denominações luterana, anglicana (da qual faço parte), presbiteriana, metodista e batista em nada se assemelham à leitura do Evangelho proposta pelas igrejas evangélicas. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma tentativa de fazer uma leitura mais literal da palavra de Cristo. Buscam seguir os primeiros cristãos — que na verdade eram judeu-cristãos, pois não haviam rompido por completo com o rabinato —, como se fosse possível aplicar as normas sociais vigentes em Israel do século I no Brasil de vinte séculos depois.

A tentativa de "purificar" o cristianismo, de fazê-lo retornar a suas raízes, gera anomalias sócio-comportamentais. A repressão sexual imposta pela moral cristã evangélica consegue a façanha de ser ainda pior do que a católica. Porque a interpretação deles diz que Jesus era contra a homossexualidade e o amor livre, querem impor essa interpretação para todos. Desejam impor ao Brasil a sharia cristã. Quem nunca ouviu um fiel evangélico dizer que a Bíblia é mais importante do que a Constituição? É muito cômodo apontar os horrores do Daesh (ISIS), que deseja criar um Estado Islâmico entre a Síria e o Iraque e fecharmos os olhos para o projeto de poder semelhante de alguns líderes evangélicos. Os militantes islâmicos são loucos por se sujeitarem a uma dinâmica social onde o prazer é pecado e a vida limita-se a observar as leis de Deus escritas por homens há milhares de anos. Mas só os islâmicos, os evangélicos radicias não?

Métodos diferentes, mesmo propósito.
Graças a Deus, nem todo evangélico é assim. A rejeição a estudos, análises e interpretações da palavra de Deus à realidade concreta dos fiéis não ocorre em todas as igrejas evangélicas, assim como nem todos os seguidores de Maomé desejam subjugar os seguidores de outras religiões.  Da mesma forma que há uma ímã mulher em Los Angeles, há pastores evangélicos gays. Nem todo evangélico crê na necessidade de se engajar numa jihad (guerra santa) contra os valores que percebem como contrários à palavra de Deus para propagar o Evangelho de Jesus Cristo. No entanto, são as figuras mais barulhentas, odientas e explosivas que chamam mais a atenção da população em geral para o movimento evangélico. Por que entrevistar um teólogo esclarecido como Ricardo Gondim se o pregador do ódio Silas Malafaia dá mais ibope? A imprensa também tem sua parcela de culpa na proliferação do discurso de ódio entre os evangélicos.

Mas a quem serve um Evangelho que oprime as criaturas de Deus? De que adianta seguir o carpinteiro humilde da Galileia que salvava adúlteras do linchamento e condenava o acúmulo de riquezas se hoje aplaudimos o homem que espanca a esposa infiel pega no motel com outro e valorizamos os bens materiais mais do que nossas próprias vidas? A Reforma Protestante, sem a qual nenhuma dessas igrejas existiriam, surgiu da revolta contra a mercantilização da fé e também contra as doutrinas, regras e normas inexistentes na Bíblia inventadas pelos bispos de Roma — tais como o celibato de sacerdotes, a proibição do divórcio e a virgindade perpétua de Maria. E, por falar em Maria, é interessante notar que a repressão religiosa recai sempre de forma mais severa sobre os corpos femininos. Não foi à toa que 15 mil mulheres marcharam na Avenida Paulista contra o projeto de poder de Eduardo Cunha, que não prevê o aborto em casos de estupro. 

A alguns líderes evangélicos não basta orientar suas próprias fiéis quanto à questão reprodutiva. Querem regular os corpos de todas as brasileiras, sejam elas católicas, protestantes, espíritas, judias ou ateias. O Brasil deve retroceder vários anos enquanto nação e se livrar da pílula do dia seguinte e do aborto. Não porque a comunidade científica regulou que são invasivos. Mas porque uma parcela minoritária da comunidade religiosa nacional se incomoda com tais métodos que, embora invasivos, evitam o nascimento de crianças que podem ser abusadas, maltratadas e abandonadas por mães que não lhes queriam, o que traz consequências desconhecidas para a coletividade. Interessante notar que a violência sexual contra as mulheres propriamente dita — motivos pelos quais o SUS distribui pílulas do dia seguinte e realiza abortos — parece não incomodar esses líderes religiosos. Condenam mais o aborto do que o estupro que leva as mulheres a procurar tal procedimento.

Charge de Vitor Teixeira.
A liberdade de culto garantida por nossa Constituição federal não é absoluta. Um conceito interessante do Direito é que nenhum direito termina em si mesmo e pode se sobrepor sobre os demais. É o famoso "o meu direito acaba quando começa o do outro" no ditado popular. O cidadão pode escolher, sem moléstia, se quer seguir uma religião. Mas ele não pode querer impor sua religião sobre as religiões dos demais cidadãos. A partir do momento em que líderes religiosos passam a decidir o que professores devem ensinar na sala de aula, que medida o SUS deve adotar para atender mulheres vítimas de estupro e quais arranjos podem ser considerados famílias, observa-se uma invasão do Estado laico por forças religiosas, estranhas ao Direito. Tais forças atuam em defesa da visão de mundo de apenas alguns em detrimento da coletividade, ampla e plural.

Aos poucos, o evangelicalismo embrutece o Brasil. Seus líderes radicais querem substituir a defesa do bem estar — seja de mulheres vítimas de estupro ou de crianças que podem ganhar um lar com um casal gay — pela interpretação que a igreja deles fazem do Evangelho. Interpretação essa que não é consensual nem mesmo entre os teólogos. Ao contrário da Constituição, a Bíblia admite várias interpretações. Na minha igreja, por exemplo, entende-se há mais de 15 anos que Jesus não rejeitou os homossexuais. De fato, não há uma menção sequer à homossexualidade em nenhum dos quatro Evangelhos — há em escritos posteriores, de autoria de homens que, ao contrário de Jesus, eram falíveis, e em escritos anteriores, como o Levítico, que o próprio Jesus violou. Por que então é a visão da Assembleia de Deus e não a da Igreja Episcopal Anglicana que deve ser ecoada na legislação brasileira? O Estado ser laico significa que ele deve respeitar ambas as visões, e não colocar uma acima da outra, observando sempre o princípio maior que é a garantia da dignidade humana.

Não é do pôster que a tropa de Cunha quer se livrar.
O que interfere na vida de um evangélico se há membros de outras doutrinas religiosas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e abortam? Ora, se eles acreditam que a homossexualidade e o aborto são pecados, que não cometam nem um nem outro. Devem respeitar os outros como eles os respeitam. Duvido que um militante gay ou feminista se julgaria apto a ensinar o padre a rezar a missa, ou melhor, o pastor a celebrar o culto. A tentativa de impor um único ponto de vista sobre os demais, sobretudo através da violência, seja ela simbólica (episódio do chute na santa ou quando Malafaia disse que gays mereciam apanhar) ou real (agressões a praticantes de religiões afro e destruição de seus templos), é o primeiro passo rumo ao fascismo. Cabe a nós, cristãos moderados, lutar contra o embrutecimento que impõem ao Brasil. Devemos agir enquanto é tempo, porque o que os radicais querem não é se livrar do pôster exposto nos corredores da Câmara que mostrava Daniela e Malu se beijando. Eles querem é se livrar delas!