sábado, 14 de novembro de 2015

Palavras, meu tormento

Durante três anos não escrevi quase nada. Achava que a vida limitava-se a ser um bom marido, embora eu tenha sido péssimo nisso também. Não que eu não escrevesse. Escrevi muita asneira – mas muita mesmo – no Facebook, rede social que, graças a Deus, se tona cada dia mais obsoleta em minha vida. Nada do que eu escrevia ali vinha do fundo da minha alma. Eram só palavras. De ódio, de revolta, de amor, de torcida, de intrigas. Nada muito profundo. Eram palavras que saíam das minhas tripas e não do meu cérebro.

Agora, súbita e inexplicavelmente, as palavras voltaram a me envolver, cheias de significados, de sentimentos e de vida. Não que eu tenha feito mais leituras desde então. É feio admitir isso, mas meu nível de leitura continua o mesmo. Mas creio que sou um escritor empírico. Tenho vontade de escrever sobre coisas que me tocam e que transformam minha vida – para o bem e para o mal. E tenho encontrado um bocado suficiente de situações assim nesse longo ano de 2015.

Escrevo contos, romances e novelas no interminável diálogo que mantenho comigo mesmo no Whatsapp. Entretanto, um gênero que voltou para mim foi o que justamente me dava mais prazer de compor: a poesia. A inspiração vem de praticamente qualquer coisa que me move, sobretudo da música. Um músico ouve uma canção e se prende aos acordes, um cantor à voz e, um escritor, às palavras. Às vezes uma palavra cantada – em qualquer um dos três idiomas que eu domino – fica fixada na minha mente de tal forma que eu preciso fazer algo com ela.

Já foi preciso acordar de madrugada, como estou fazendo agora, pegar o caderno velho – o caderno é para deixar o pensamento organizado, mas até saco de pão já serviu – e escrever nele, organizar o pensamento para que eu possa enfim dormir. Dito isso, gostaria que vocês vivessem minhas palavras com carinho. Elas não são parte de um plano elaborado para conseguir "likes" (embora confesso que seria legal receber uma graninha do Google AdSense). Elas vêm do meu âmago. Saem de mim sem eu pedir ao ponto de me atormentarem à noite. É uma overdose criativa. Aproveitem.

domingo, 8 de novembro de 2015

Brasil, terra turbulenta

Hoje a blogosfera progressista repercutiu bastante (veja aqui) a redescoberta de um documentário muito comentado nos meios acadêmicos e que julgava-se perdido. Trata-se de Brazil, the troubled land (Brasil, terra turbulenta, numa tradução livre), dirigido e produzido pela jornalista estadunidense Helen Jean Rogers e transmitido em junho de 1961 pela rede de televisão americana ABC. Na película, de quase meia-hora de duração, a jornalista busca explicar as razões por trás do apelo do comunismo entre camponeses da Região Nordeste do Brasil no período imediatamente anterior ao golpe de Estado de 1964. Alinhado à política externa do breve governo Kennedy, defende uma reforma agrária dentro das estruturas capitalistas, o que encontrou a resistência da elite local.

Se na Europa Ocidental o avanço do comunismo foi contido a partir da união da burguesia local com a burguesia americana para a criação de um Estado de bem-estar social que se tratava de uma tentativa de aplacar os movimentos revolucionários a partir de concessões da plutocracia à classe trabalhadora, na América Latina os movimentos revolucionários foram contidos basicamente através da força. No momento em que o documentário foi produzido, no entanto, o governo de John F. Kennedy, eleito com a bandeira de conter o comunismo e melhorar a qualidade de vida de seu povo, debatia se a melhor maneira de conter movimentos como os de Che Guevara no continente americano era recorrer ao incentivo ao desenvolvimento ou às armas.


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Captura de tela do documentário.
Brasil, terra turbulenta acompanha o cotidiano dos camponeses que se organizavam ao redor das Ligas Camponesas lideradas por Francisco Julião (descrito como "o mais importante líder camponês da América Latina") no estado do Pernambuco. Mais do que simplesmente demonizar o movimento, caracterizando-o como uma organização comunista que deve ser extirpada da sociedade, tenta explicar didaticamente sua razão de ser, que possui fortes raízes na herança histórica brasileira, marcada por profundas desigualdades entre quem tem e quem produz as riquezas. O Brasil, "a terra do samba", é descrito como "fabulosamente rico... para alguns". O Recife, cidade construída e mantida pelo açúcar, por exemplo, é "desconhecida pelo homem que cultiva a cana-de-açúcar".

Numa reunião na sede do Partido Socialista Brasileiro (muito diferente do atual PSB), o então deputado estadual Julião dá conselhos legais para os camponeses que tinham problemas com seus arrendadores ao mesmo tempo em que doutrinava-os para suas teses marxistas. As Ligas Camponesas assumiam o papel que deveria ser de defensores públicos e, de uma maneira geral, do Estado, executando "ações simples que demonstram fé nos 20 milhões [de camponeses]". Analfabetos em sua maioria, ganhando US$ 0,25 por dia e morando em com suas famílias inteiras em pequenos casebres de barro, os camponeses se vêem seduzidos por um discurso que lhes promete liberdade e educação para seus filhos. 

Severino, um dos camponeses acompanhados pela jornalista estadunidense, têm seis filhos, um dos quais teve paralisia nas pernas devido à desnutrição. Seus filhos "vivem num mundo onde há apenas um brinquedo" e apenas um deles frequentava a escola, o que ajuda a perpetuar o regime de semiescravidão em que vivia, visto que o direito ao voto era garantido apenas aos cidadãos alfabetizados. Segundo seu contrato, Severino tem o direito de usar uma porção de terra, "não a melhor", para cultivar milho e feijão. Sua pobreza contrasta com a riqueza de seu arrendador, o ex-governador Constâncio Maranhão, que possui uma luxosa casa na fazenda. Sua família explora as terras pernambucanas há 400 anos.

O "senhor" de Severino (palavras do documentário) usa um anel de 15 quilates de ouro e diz que seus arrendatários são felizes, ricos e gordos. "O 38 é a lei aqui, ele decide tudo. Não é a polícia nem a lei, mas a minha arma", diz sorridente o ex-governador do estado enquanto aponta sua arma para o cinegrafista e atira ao redor dele, numa tentativa patética de demonstrar quem é o macho aos que ousam vir do norte questionar-lhe sobre as injustiças que ele perpetua. "As coisas sempre foram assim, meus camponeses são preguiçosos e se alguém tentar vir aqui e organizá-los, eu o mato". Parece um discurso bastante atual, não é mesmo?

Enquanto isso, na casa de Severino, um dos 20 milhões de brasileiros que viviam sob o fantasma da fome, a família se alimenta de uma única refeição diária composta de arroz, milho e feijão. As crianças não tomam leite e nunca comeram carne. Jamais sentiram o gosto dessa fonte de proteína. "A terra que faz crescer açúcar não pode ser desperdiçada com comida", conclui o narrador. Severino, em discussão com a esposa, diz que não aguenta mais esperar as coisas melhorarem. Afinal de contas, "US$ 0,25 por dia não é o caminho para a riqueza nem para um pedaço de terra". Mas, para os que tiveram o azar de nascerem Severinos e não Costâncios tem sido assim desde o dias da escravidão.

Na loteria genética do "retrógrado Nordeste", apenas 5% do povo detinha 65% da terra (se brincar esse número continua o mesmo ainda hoje, mais de cinco décadas após a exibição do documentário). Os camponeses, em sua maioria analfabetos, têm na figura do trovador um importante comunicador. "Os violeiros são parte importante da vida camponesa, uma instituição tão velha quanto a terra", diz o narrador. No início dos anos 1960, no entanto, as canções mudaram. Agora eles cantam, influenciados por Julião, sobre a importância do proletariado em receber um salário decente e a necessidade de se fazer uma revolução castrista no Nordeste.

Ao voltar do intervalo, o documentário tenta desmerecer as ações de Julião e mostra os projetos do governo Jango para o Nordeste. "Bons planos, excelentes planos para industrialização e reforma agrária" que, devido ao assalto dos militares ao poder em 1964, jamais foram concretizados. Por trás da lenta implementação desses planos estava um "brilhante economista", o jovem Celso Furtado, então presidente da Sudene. a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. Visivelmente incomodado ao ser indagado por Rogers sobre Julião, ele descreve-o como um político que descobriu que as Ligas Camponesas eram importantes veículos para se obter ganhos políticos.

Em seguida, o documentário caracteriza Julião como "um homem ambicioso", cujo poder repousava nos camponeses e seu inegável descontentamento. "De todos os políticos do Brasil, ele é o que passa mais tem com os camponeses que não podem votar". Para Rogers, ele organiza a "vasta massa analfabeta para que consigam o direito de votar e obter o poder com sua maioria política, tornando-se senador, governador do estado ou presidente da nação". Sua retórica é cínica, segundo a documentarista, pois não oferece projetos específicos para o futuro dos camponeses. "Seu chamamento às armas ecoa mais forte entre os camponeses do que os planos construtivos, mas não vistos do governo".

O documentário se mostra preocupado com a influência de um líder anticapitalista e antiamericanista numa "região tão grande como o meio-oeste", que promete o paraíso comunista cubano e chinês aos camponeses. Isso dá esperança às pessoas "cujos problemas vitais são os mais básicos": alimentar-se hoje e amanhã. O contato de Julião com os camponeses é uma das coisas mais mostradas pelo documentário, talvez como forma de alertar ao público sobre a doutrinação marxista do político pernambucano. Em determinado momento, ele se aproxima de um camponês que lhe diz: "A aposentadoria do camponês é o cemitério". Uma das garantias da Constituição de 1988 foi justamente a aposentadoria rural, tão desmerecida por juristas de direita.

No terceiro e último bloco são exibidos mais alguns trechos da entrevista de Rogers com Furtado. "Se eu não acreditasse nisso [solução pacífica e democrática para o problema da terra], não estaria aqui", diz o entrevistado. Indagado se os Estados Unidos poderia ajudar a resolver a questão fundiária brasileira, ele responde: "Esse é um problema nosso. Se não estivermos preparados para fazer o sacrifício para uma solução, qualquer ajuda será inútil", diz. E completa: "Se as coisas não mudarem, podemos ter uma situação explosiva em dois anos". Celso Furtado errou a data do golpe de Estado de 1964 por um apenas ano. 

O documentário, otimista, não acreditava numa solução explosiva, pois "o Brasil não é uma terra violenta". Prevê o êxodo rural desordenado para o Rio e São Paulo, onde há "fábricas e trabalho", e indaga: "Pode um homem viver de promessas quando sua criança precisa de comida?".  Os Severinos da América Latina foram excluídos da marcha de 3.000 anos da civilização ocidental, conclui o documentário, antes de defender que o antídoto para as promessas comunistas é o resultado de ações governamentais. "Os planos do governo para a reforma agrária e o desenvolvimento devem se tornar reais, o primeiro passo deve ser dele".


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O documentário defende uma solução democrática ao conflito rural, que seria executada pelo governo trabalhista de João Goulart. No entanto, num cenário de radicalizações à esquerda e à direita, essa solução falhou. Um dos entrevistados no documentário, o economista Celso Furtado, mostrava-se confiante nesse governo e nessa solução. Ele próprio, entretanto, demonstra preocupação com a radicalização presente na sociedade brasileira de então (qualquer semelhança com a atual não é mera coincidência): de um lado, as elites se recusavam a conceder privilégios às camadas desfavorecidas e, do outro, os pobres, cada vez mais cientes de sua condição, não aceitavam mais serem explorados. E foi essa a receita que levou ao golpe civil-militar de 1964 e que alimenta a crise atual.

Celso Furtado e demais figuras do governo Jango esperavam que, em algum momento, a plutocracia brasileira cedesse. No entanto, a elite brasileira não está acostumada a fazer sacrifícios. Nem mesmo para garantir a paz social. Ou seja, para garantir que seus filhos possam andar despreocupados pelos calçadões das praias. Nos países do norte, por outro lado, uma parcela da elite se recusa a acreditar na militarização como resposta para os problemas sociais. Opõe-se tanto ao comunismo quanto às desigualdades, defendendo o que se convencionou chamar de democracia radical. No Brasil, por outro lado, em pleno 2015 a defesa de uma sociedade menos desigual ainda é confundida com comunismo, às vésperas do 24° aniversário de queda do comunismo soviético.

Assim como Além do Cidadão Kane, o documentário foi obviamente banido no Brasil. A nascente televisão, feita por e para a elite, não tinha o menor interesse em educar os brasileiros sobre as raízes dos problemas socioeconômicos de nossa nação. Em 1964, o Ministério da Justiça baixou decreto censurando oficialmente o documentário. Apesar de seu tom claramente pró-capitalista e pró-americanista, o documentário tocava em feridas ainda hoje abertas de nossa sociedade e poderia trazer problemas para quem achava (e ainda acha) que os problemas sociais se resolvem com a presença de mais policiais na rua.

É salutar que o documentário tenha reaparecido nesse ano de 2015. Novamente o Brasil se encontra como uma terra turbulenta. Esgotadas as possibilidades de ambos ricos e pobres lucrarem com o lulismo, as pessoas novamente se voltam para soluções fáceis para problemas complexos. As evidências históricas - e o documentário da ABC se consiste como tal - existem para que não cometamos os mesmos erros do passado. Nossos avós podem argumentar que foram ignorantes ao apoiar um golpe de Estado em 1964. E nós, argumentaremos o quê? A abundância informativa proporcionada pela internet não nos permite adotarmos posturas ignorantes quanto aos graves problemas de nosso país. 


O documentário foi doado pelo arquivo de Hugh Hefner, o fundador da revista Playboy, à Escola de Artes Cinematográficas da Universidade do Sul da Califórnia e está disponível no canal da instituição no portal de compartilhamento de vídeos Vimeo. Infelizmente está disponível apenas em inglês sem legendas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Falácias não ganham debate

Quando Nelson Motta escreveu um texto ofensivo e misógino para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa dona Marisa Letícia, o editor do Diário do Centro do Mundo, Kiko Nogueira, escreveu um texto apelando à razão do ex-produtor musical, indagando-lhe se ele gostaria que suas ex-esposas e filhas fossem tratadas da mesma forma. No entanto, desde o ano passado, naquela que vem sendo a eleição mais longa da história, a razão deixou de nortear o debate político. Não basta derrotar o Partido dos Trabalhadores nas urnas. É preciso eliminá-lo, simbólica e às vezes até mesmo materialmente, como os ataques a militantes e sedes do partido têm demonstrado. Assim sendo, o dito colunista usou sua página no Facebook para escrever um texto tão cheio de falácias que deveria ser estudado nas aulas de Lógica como exemplo de que argumentos não empregar num debate. Diz o seguinte:
Nenhuma de minhas mulheres foi casada com um homem como Lula e tem filhos como os dele. Minhas filhas são muito mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa – e nunca fizeram parte de nenhuma organização criminosa.

E quem imagina que dona Marisa tem um milésimo do talento de Marilia Pêra e fez mais pelo país do que ela? Só um fanático lulista, cada vez mais perto da cadeia. Que vergonha.

Que tal analisarmos o texto seguindo a ciência grega da lógica, ou seja, o estudo da validade dos argumentos, sem entrar na questão partidária? Vamos lá:
"Nenhuma de minhas mulheres foi casada com um homem como Lula e tem filhos como os dele. Minhas filhas são muito mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa – e nunca fizeram parte de nenhuma organização criminosa."

Nesse pequeno trecho de texto, Nelson Motta incorre em falácias típicas do mau debatedor. Primeiro tenta desqualificar o adversário, imputando-lhe a pecha de "criminoso", embora Lula jamais tenha sido condenado na justiça. Trata-se do argumento ad hominem. Tenta-se provar seu ponto de vista através da desqualificação do outro sem embasamento para tal desqualificação. Em seguida, ele diz "minhas filhas são mais inteligentes e educadas que os de Lula e Marisa". Segundo quem? Ao contrário de fatores como escolarização e renda, inteligência é uma questão difícil de ser mensurada. "Tem muito diplomado que é pior do que selvagem", como bem lembra Clementina de Jesus. Esse parece ser o caso de Nelson Motta, que julga suas filhas como sendo melhores do que as dos outros pelo simples fato delas terem mais educação formal do que os filhos dos outros. Quanto a fazer parte de uma organização criminosa, pode-se dizer o mesmo do próprio Nelson Motta, afinal ele trabalha na Rede Globo, organização que deve nada menos que 615 milhões de reais à Receita Federal, incorrendo do crime de evasão de divisas fiscais. Seria Nelson Motta um criminoso por estar envolvido com uma organização criminosa? Segundo a lógica do próprio, sim. Isso é o que os gregos chamavam de explicação superficial.

"E quem imagina que dona Marisa tem um milésimo do talento de Marilia Pêra e fez mais pelo país do que ela? Só um fanático lulista, cada vez mais perto da cadeia. Que vergonha."

Essa é a parte mais risível do texto. Juro que gargalhei ao lê-la. Aqui, Nelson Motta vale-se da famosa falácia de autoridade. Em relação à Marília Pêra! Ora, poupe-me! Por mais que Marília Pêra seja uma grande atriz, celebrada no Brasil e no exterior, ela jamais foi mulher de político para poder ser comparada com dona Marisa Letícia. E, assim como a inteligência, o talento é uma coisa relativa. Marília Pêra possui um grande talento para as artes cênicas e dona Marisa Letícia possui um excelente talento para jardinagem e afazeres domésticos. Isso a torna uma pessoa menos especial com quem é injustamente comparada? Na cabeça do misógino Motta, que parece pensar em preto-e-branco, bem-e-mal, nós-e-eles, sim. Por fim, novamente o colunista se vale de um argumento ad hominem, desqualificando todos que pensam de maneira diferente dele de "fanáticos". Aqui, novamente há uma explicação superficial. Quem está cada vez mais perto da cadeia? Kiko Nogueira? Duvido que o pobre jornalista tenha 1/3 da renda do ex-presidente. Incorre-se, além disso, da falácia da associação. Funciona assim: 1) Alguns petistas são ladrões e estão perto de serem presos. 2) Kiko Nogueira é petista (pelo menos na cabeça de Motta). 3) Logo, Kiko Nogueira é ladrão e está perto de ser preso. Cai muito isso em concurso. Duvido que Nelson Motta conseguiria acertar uma questão dessas.

Por fim, há o que é bastante comum nos discursos políticos de hoje em dia: o apelo à moralidade: "Que vergonha". Não é vergonhoso que Kiko Nogueira expresse sua opinião. Vergonhoso é o estado atual da imprensa brasileira, onde basta atacar um certo Luiz Inácio da Silva e um certo Partido dos Trabalhadores para se ganhar espaço nos jornais. Vergonhoso é atacar pessoas na rua por elas estarem usando vermelho. Vergonhoso é o ódio de classes sendo usado como argumento contra Lula e a misoginia sendo usado como argumento contra Dilma. Vergonhoso é que as pessoas não possam mais expressar livremente suas opiniões por medo de serem vítimas da falácia da associação. E mais: vergonhoso é que a direita tenha renunciado à lógica e que pessoas que acham que falácias ganham debates sejam consideradas formadoras de opinião. Como bem afirmou Ciro Gomes em sua entrevista à TV Brasil, a direita perdeu o pudor. Mas não foi só isso. Perdeu a lógica também. A causa disso deve ser a irritação por estar todos esses anos fora dos círculos do poder.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Grande e suas pequenas lições contra o preconceito



Se você é um fã de Ariana Grande (ou mesmo que não seja) deve ter provavelmente visto um vídeo em que a cantora de "Focus" questiona o privilégio de homens brancos durante uma "entrevista" à estação de rádio Power 106.

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Grande passou a maior parte de seu tempo no programa esclarecendo aos entrevistadores (que presumo que vivem no ano de 2015) que as garotas pensam em coisas além de sua maquiagem e que os garotos podem usar o emoji de unicórnio mesmo sem serem afeminados. 

E embora aplaudimos isso, uma pequena escavação mostra que a cantora de pop não defende a igualdade de gêneros, sexualidades e identidades apenas quando ela está tentando vender discos; Grande vem servindo pequenas lições de aceitação desde o início da semana.

Domingo, 1/11


No dia após o Halloween, Grande postou no Instagram uma foto dela com três amigos vestindo fantasias da noite anterior. A foto trazia o amigo de Grande e criador da página @SheHasHadIt, Jarvis Derrell, usando um dos vestidos do videoclipe de "Focus".

Uma comentarista decidiu usar a oportunidade para filosofar sobre uma questão de raça e sexualidade, afirmando:

Por que tantos caras negros estão virando viado?! - @lolalana_

Como resposta, Grande postou uma foto com a resposta de Derell ao julgamento maldoso de sua fantasia:
"Sempre tive orgulho de ser um homem negro gay toda minha vida. E, para ser sincero, superar pessoas ignorantes como ele em minha vida é algo do qual tenho muito, muito orgulho! Geralmente não dou ouvidos para idiotas como essa, mas ultimamente tem saído de controle e, como um sobrevivente de bullying, ignorância e assédio, não tolerarei isso. E não só por mim, mas por qualquer um que tem que lidar com o ódio, ódio por serem quem eles são e querem ser. Ah não! Brilhem crianças! Vocês são perfeitos e fortes do jeito que são"

Ao lado dos comentários de Derrell, Grande acrescentou: 
Para todos os humanos, amigos, namorados lidando com o ódio, "brilhem"!! Para todos que estão batalhando contra a homofobia, o racismo, o sexismo, o ageísmo, a misoginia ou qualquer outra coisa que te faz sentir desconfortável ou como se você não pode ser você mesmo: somos todos iguais e deveríamos ser CELEBRADOS PELAS NOSSAS DIFERENÇAS E PELAS COISAS QUE NOS TORNA QUEM NÓS SOMOS. O quanto antes percebemos isso, o quanto antes poderemos ficar livre dessa IGNORÂNCIA FEIA. Obrigado.
Segunda-feira, 2/11 


Na segunda-feira, algum nojento apareceu nas menções a Ariana Grande no Twitter dizendo que ele preferia a "curvilínea" Ariel Winter, atriz de Modern Family, à Ariana "palito".

Embora pudesse ter ignorado o troll, Grande aproveitou a oportunidade para falar sobre body shaming:

"Tweets, comentários, declarações assim não são legais.Sobre qualquer um! Vivemos numa época em que as pessoas fazem com que seja impossível para as mulheres, os homens, qualquer um se aceitar do jeito que são. A diversidade é sexy! Amar a si mesmo é sexy! Sabe o que não é sexy? Misoginia, objetificação, rotulação, comparações e body shaming! Falar dos corpos das pessoas como se eles estivessem numa vitrine, esperando sua aprovação / opinião. Eles não estão! Celebre-se! Celebre os outros. As coisas que nos tornam diferentes uns dos outros nos fazem bonitos."

A cantora incluiu a seguinte mensagem para seus seguidores:

Lá vamos nós de novo... Tenho certeza que não sou a única se sentindo assim hoje! Caso você precisa de um lembrete: você é lindo ✨ É um belo dia para ser você mesmo!


Terça-feira, 3/11

O bem-merecido reconhecimento que Grande está recebendo é pelo massacre que ela fez nesses apresentadores de rádio misóginos. Aqui estão os principais momentos:

Ariana é perguntada o que escolheria se tivesse que escolher entre sua maquiagem e seu celular:

"É isso que você acha que as mulheres têm dificuldade em escolher?"
Ariana esclarece que não é viciada em seu celular, quando então os DJs dizem às suas ouvintes para aprender com a cantora. É então que Ariana esclarece-os de que a dependência ao celular não está relacionada ao gênero do usuário:

- Garotas, aprendam! Escutem e aprendam!
- Garotos, aprendam!
Quando indagada sobre os novos emojis, Ariana diz que o unicórnio é um de seus favoritos. Os DJs reafirmam sua masculinidade dizendo que eles nem haviam reparado nisso e que usam apenas os emojis de taco e dedo do meio. Que machões, caras! Ariana responde:

- Muitos garotos usam o unicórnio
-Sei, "garotos".
Ariana, cujo irmão é gay, se irrita com a insinuação:

"Vocês precisam de um esclarecimento quanto à igualdade aqui".
Quando os DJs insistem que "homens de verdade" não usam o emoji de unicórnio, Ariana ameaça encerrar a entrevista:

"Mudei de ideia, não quero mais ficar aqui na Power 106"
Indagada sobre o que gostaria que acabasse, Ariana dá uma indireta aos dois DJs:

"Julgamento em geral. Intolerância, maldade, preconceito, misoginia, racismo, sexismo."

É isso aí, Ari! Continue brigando a boa briga.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Um candidato para 2018

O ex-ministro da Fazenda, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes foi o entrevistado de ontem do programa Espaço Público da TV Brasil. Confesso que eu tinha algumas ressalvas ao político cearense, nascido em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Minha primeira ressalva diz respeito ao episódio em que ele, enquanto candidato à presidência da República em 2002, disse a repórteres que o papel de sua então esposa, a atriz Patrícia Pillar, na campanha dele era dormir com ele. No final da entrevista, Ciro fez um mea culpa pelo incidente. Outra ressalva que eu tinha em relação a ele era quanto a sua origem política. Ciro Gomes surgiu politicamente como correligionário do tucano Tasso Jeirissati, um dos representantes do coronelismo local no Ceará. No entanto, Ciro rompeu com Tasso em 2010 e denunciou tanto a plutocracia brasileira durante a entrevista que fica difícil acreditar que tenha sido um discurso só da boca para fora.

Ciro Gomes.
No início do programa, as perguntas foram sobre a opinião do entrevistado quanto ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ciro lembrou que só dois presidentes foram afastados na história do Direito contemporâneo: Fernando Collor no Brasil (feito em clima de consenso, pois este desagradou tanto os pobres quanto à elite) e Carlos Andrés Pérez na Venezuela e que até hoje a Venezuela segue ingovernável devido à crença de que é aceitável derrubar um governo do qual se discorda. Ele lembrou também que quando era ministro de Integração Nacional no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ordem para conter a crise do mensalão era "infantaria e diplomacia", ou seja, dialogar com o povo, partindo para o ataque com os que queriam derrubar o governo, e fazer o trabalho de bastidores que, segundo o ex-ministro, se perdeu. Quando foi revelado que o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti não passava de um corrupto, logo a tese de impeachment caiu em descrédito. Para Ciro é chocante que pessoas como Fernando Henrique Cardoso, que tem uma biografia a preservar, e Aécio Neves, que tem um sobrenome a zelar, apoiem a retirada de Dilma ("pessoa seriíssima") sem que ela tenha cometido crime algum. "Tancredo construiu o caminho para a democracia e Aécio joga tudo na lata de lixo", disse.

Em seguida, Ciro narrou o episódio de criação do Plano Real. Ele disse que estava esperando ansiosamente aos debates da eleição presidencial de 1998 para tirar a máscara que FHC construiu para si mesmo de "pai do Real". No entanto, FHC manipulou a mídia para que nenhuma emissora de televisão realizasse debates. Ciro contou que ele, então filiado ao PSDB, e Tasso Jeirissati montaram uma grande equipe econômica - "que na época gostava do Brasil, mas hoje gosta de dinheiro" - para resolver o problema da hiperinflação. Segundo ele, FHC foi nomeado ministro da Fazenda após uma desavença de Itamar com Tasso, então pré-candidato do PSDB à presidência. FHC não se elegia mais para o Senado em São Paulo e estava encerrando sua carreira política, tendo sido escolhido para o cargo como forma de implementar o projeto econômico idealizado pelo PSDB sem prejudicar a imagem de Itamar. Quando apresentaram o Plano Real a Itamar, José Serra tentou sabotar o projeto, levando, por isso, um pito de Mário Covas. Cientes de que o plano seria um sucesso e de que o PSDB, como idealizador do mesmo, teria boas chances de eleger o próximo presidente da República, se reuniram para determinar quem seria o candidato. FHC atropelou todo mundo para declarar sua intenção, deixando Tasso, que de fato idealizou o Plano, de lado, para a fúria de Ciro.

O ex-ministro contou que ficou tão decepcionado com a atitude arrogante de FHC que decidiu sair do país durante o primeiro ano de governo dele. Ciro havia defendido homericamente o Plano Real porque acreditava que seu colega seria o candidato do PSDB. Foi estudar economia em Harvard, onde permaneceu por um ano e meio. Se é verdade que a idade costuma fazer aflorar características da personalidade do indivíduo, não sei, mas no caso de FHC parece ser verdadeira a afirmação. Seu estrelismo parece não conhecer limites ultimamente. Como um dos líderes do maior partido de oposição do país, nem se ruboriza mais ao defender a quebra da institucionalidade, a mesma que lhe fez refugiar no exterior na década de 1960. "Covas, vivo, jamais admitiria isso", afirma Ciro. O ex-ministro acha que FHC e Lula deveriam agir como "pais da pátria", emitindo suas opiniões apenas quando for absolutamente necessário. Para ele, a crise política atual só existe devido ao medo que os tucanos têm de que Lula seja candidato em 2018. Caso o ex-presidente se candidate e consiga desvincular sua imagem das políticas desastrosas de Dilma, o PSDB ficará 20 anos fora do poder. No entanto, se a crise se aprofundar teremos uma eleição semelhante ao pleito de 1989.

FHC e Lula aprofundam a crise, diz Ciro.
Em 1989 o "moralismo difuso" de Collor venceu a eleição contra o "comunismo" petista. Atualmente, segundo Ciro, quem mais representa isso é Marina Silva, que em momento algum fala em  mexer nas estruturas que geram desigualdades sociais. Justo pelo contrário, em 2014, a candidata falou em dar autonomia ao Banco Central, o que significa, na prática, colocar os bancos para controlar a política monetária do país. Seria dar aos bancos o poder de determinar a já altíssima taxa de juros do Brasil. Ele aponta que a política econômica brasileira, baseada no chamado tripé macroeconômico, é um erro crasso. A única coisa que justifica a prevalência dos interesses financeiros sobre a vida dos cidadãos é o lucro dos bancos que, aliás, batem recorde há duas décadas, independente se a economia vai bem ou não e se o governo é petista ou tucano. Elevar os juros não contém a inflação, pois o Brasil importa produtos de primeira necessidade, do trigo à química dos remédios. Se o preço do dólar aumentar, a inflação vai aumentar. A elevação dos juros só serve para garantir o lucro dos bancos, naquilo que este blogueiro chamou anteriormente de "o maior escândalo de corrupção do Brasil".

O grande pecado de Lula, segundo o entrevistado, foi não mexer nas estruturas do Brasil. Apesar de progressista na política social, garantindo aos maios pobres o acesso à alimentação, manteve uma política econômica conservadora. Graças aos avanços de Lula, o Nordeste passa por uma seca prolongada - há três anos já - e não sofre mais com saques a supermercados, lembra o entrevistado. Entretanto, ao invés de reformar a economia, taxando os mais ricos, Lula garantiu o absurdo lucro dos bancos. Ao invés de reformar a política, Lula cometeu o erro histórico de empoderar o PMDB, que é hoje um dos maiores combustíveis da atual crise. Ciro lembrou que, num evento em São Paulo, o vice-presidente Michel Temer, que Lula impôs à presidenta Dilma, disse que um governo com 8% de aprovação não se mantém no poder. O ex-ministro disse ter vontade de perguntar a Temer, advogado constitucionalista, em qual alínea da Constituição Federal está escrito isso. José Alencar, lembra o ex-ministro, defendia o mandato que conquistou com Lula até as últimas consequências. Ciro acredita que o povo, mesmo insatisfeito com a política econômica de Dilma, defenderia a democracia. Se, por um lado, o PT perdeu o apoio dos movimentos sociais, por outro, nenhuma entidade nacional apoia o impeachment de Dilma Rousseff, o que não era o caso durante o processo de impedimento de Collor.

Para Ciro Gomes, a direita perdeu o pudor. Segurando a bandeira da moralidade, tudo se torna justificável, inclusive agredir pessoas em público. "É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que quer derrubar a Dilma?", indagou. No entanto, ele acha que Lula tem sua parcela de culpa: "estão passando do limite porque ele perdeu a majestade". Ele acha que o ex-presidente deveria ter se recolhido após sair do poder e julga negativo para o país a eleição de Lula para um terceiro mandato, pois seria a continuidade da crise atual, sem falar que estaríamos replicando o personalismo político presente em outros países da América Latina. Segundo o ex-ministro, a oposição está fechada em bloco contra o governo, pois dos 411 milhões de reais que Eduardo Cunha desviou para a Suíça, "uns 350 milhões ele rachou com essa turma [que o elegeu]". Enquanto isso, o governo está de braços cruzados, sem fazer aquilo que o povo espera dele. Ciro acredita que se Dilma não mudar sua política econômica, terá chances reais de não completar o mandato. No entanto, ela precisa mexer em toda a estrutura do país, o que incomoda a plutocracia que vive dos juros. Precisa dar um jeito à defasagem de 106 bilhões entre as importações e exportações de produtos industrializados, ou seja. à balança comercial negativa que a venda de commodities (com preço em queda) não consegue mais compensar.

"É a turma que agride uma pessoa limpa como Suplicy que
quer derrubar a Dilma?", indagou Ciro.
Mexer com a plutocracia pode ser fatal. Quando Collor confiscou a poupança ele paralisou 1/3 da dívida pública nacional, lembrou Ciro. Ou seja, ao mesmo tempo em que tirou dinheiro de pessoas comuns, impediu que parcela significativa do orçamento fosse para o pagamento da dívida da União com os bancos. Nesse momento, as hoje tão noticiadas agências de risco colocaram o Brasil como país completamente inseguro para investimentos estrangeiros. Os ricos então apresentaram à opinião pública um delito cometido por Collor e derrubaram-no. Dilma, por outro lado, pensa que conciliar com os banqueiros (ou "plutocratas", como prefere Ciro) garantirá a sobrevivência de seu governo. No entanto, só a desgasta cada vez mais com o povo. Enquanto a economia vai bem, o povo tolera os desvios. No entanto agora que a economia azedou, Dilma, que desde o início tenta moralizar a máquina pública, acabou tendo sua imagem manchada pela corrupção - dos outros, com os quais ela precisa se aliar para governar. Enquanto isso, em São Paulo, a população tolera os desvios do governo Alckmin. Como aponta Ciro, num estado com rios em abundância parte da população da maior cidade da América do Sul passa sede. A Sabesp, depois de privatizada, deixou de investir na ampliação da rede de captação d'água; seu foco passou a ser em dividir o lucro entre seus acionistas.

Indagado se seria candidato em 2018, Ciro se esquivou da pergunta. Se disse cansado da política brasileira, que atinge níveis graves de baixeza, e afirma não saber se tem estômago para concorrer à presidência mais uma vez. No entanto, seu discurso é de candidato - e de um que o Brasil precisa. Um candidato que fala em reformas estruturais, fim de privilégios à plutocracia, desenvolver a indústria nacional e, sobretudo, garantir as conquistas sociais dos últimos doze anos. Discurso claro para resolver problemas concretos. A esquerda está, atualmente, de braços cruzados. Deixa o governo à própria sorte pois este vai contra tudo o que sempre defendeu na economia. A sociedade , por sua vez, se divide em dois grupos que, apesar de defenderem e implementarem a mesma política econômica, se apresentam para a população como antagônicos. Nesse cenário, Ciro Gomes pode muito bem ser a solução que buscávamos para resolvermos nossos graves problemas. Só quem os conhece profundamente pode fazê-lo.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A felicidade é grátis

No final de semana assisti ao documentário Happy (2011) no Netflix. Nele, o cineasta Rolo Belić busca, através de entrevistas com neurocientistas, psicólogos e pessoas comuns, desvendar o segredo por trás da felicidade. Cientificamente falando, o que torna um indivíduo feliz? Segundo os especialistas ouvidos no documentário, 50% da nossa felicidade é determinada por fatores genéticos, 40% é determinado por nossas ações individuais e 10% é determinado por fatores ambientais. Mas que ações são essas que podemos fazer para encontrarmos a felicidade? A principal delas é a prática de atividade física, que libera dopamina, substância responsável pela sensação de prazer e cuja deficiência pode causar, dentre outros males, a doença de Parkinson.

E, socialmente falando, o que determina a felicidade? Definitivamente não é o dinheiro. Os americanos de 50 anos atrás, apesar de possuírem renda média muito inferior, eram mais felizes que os americanos de hoje. É inconcebível imaginar que pessoas que gastavam horas com tarefas consideradas simples hoje em dia - como lavar e passar roupa, fazer comida e limpar a casa - eram mais felizes do que nós. Mas é comprovado que, após supridas as necessidades básicas, como comprar comida e pagar as contas, o dinheiro deixa de ter efeito significativo sobre a felicidade de um indivíduo. Se é verdadeira a afirmação de que a felicidade não paga as contas, é mais verdadeira ainda a afirmação de que o dinheiro não compra a felicidade.

As pessoas felizes respondem mais facilmente às adversidades da vida e satisfazem mais suas necessidades intrínsecas do que as extrínsecas. Aceitar o fato de que adversidades vão acontecer é uma regra entre as pessoas mais felizes. Uma das entrevistadas, que foi miss durante a adolescência, teve parte do rosto paralisado após ser atropelada por uma picape. Ela diz que só conseguiu retomar sua vida após aceitar o que lhe ocorreu: "Eu percebi que não entendo [o ocorrido], mas não preciso entender". Desde então, conseguiu reconstruir sua vida e tornou-se uma pessoa feliz. Ter uma boa aparência era, no final das contas, uma necessidade extrínseca de seu ser, enquanto as necessidades intrínsecas envolvem o crescimento pessoal, as relações interpessoais e a vida comunitária. Quanto mais buscamos agir no sentido de suprir nossas necessidades intrínsecas, mais felizes somos.

Duas regiões mostradas no documentário, consideradas lares de pessoas felizes, valorizam justamente a vida comunitária: a Dinamarca e a ilha de Okinawa, no Japão. A Dinamarca, além de oferecer uma série de benefícios universais para seus cidadãos, como a saúde e a educação, ainda estimula a vida em conjuntos habitacionais, verdadeiras comunas onde as tarefas são divididas e o afeto idem. Já em Okinawa os cidadãos valorizam o ichariba chode, expressão que traduz o ato de tornar-se irmão de quem você acabou de conhecer, ajudando-o naquilo que ele precisar. De fato, todas as pessoas apontadas como felizes pelos pesquisadores, sem exceção, possuíam tinham proximidade com familiares e amigos. Não que se dessem bem com todos seus familiares, mas essa era uma característica comum.

Deve-se notar, no entanto, que nem todas as relações comunitárias levam o indivíduo à felicidade. Pessoas envolvidas em grupos religiosos radicais são tão infelizes quanto aquelas que não participam de comunidade alguma. Além disso, o ambiente de trabalho, apesar de comunitário, pode levar também à infelicidade. Na maior parte do Japão as pessoas trabalham tanto que são comuns os casos de infarto no trabalho, síndrome essa chamada de karoshi. Segundo o documentário, o Japão é o país mais infeliz do mundo industrializado. Isso se justifica historicamente. Após a destruição do país pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês mobilizou a mão-de-obra para reconstruir a nação e, para isso, criou uma cultura que valorizasse o trabalho árduo e a conquista de bens materiais.

Quanto às relações interpessoais, descobriu-se que ajudar os outros libera tanta dopamina no organismo quanto o consumo de cocaína. Trata-se da forma mais fácil, segura e barata de se ter um "barato". É comum ouvirmos de nossas mães que elas têm prazer de cuidar de nós. Eu nunca entendi muito bem isso, até agora. Ao cuidar de seu filho, uma mãe recebe um fluxo maior de dopamina em seu organismo que se tivesse fumado maconha. E, segundo os cientistas, é algo quase que natural. Se precisarem escolher entre a competição e a cooperação, os indivíduos escolhem sempre a última opção. Segundo o Dalai Lama, são nossas mães que nos transmitem a compaixão. Nascemos e, instintivamente, a primeira coisa que ela faz é nos amamentar, como se a compaixão estivesse no sangue dela.

Nosso mundo está cheio de pessoas ansiosas, depressivas, insatisfeitas com a vida e, consequentemente, infelizes, devido ao fato de que o sistema econômico vigente na maior parte do planeta não valoriza a realização pessoal. Devemos ter coisas para sermos alguém e, quando não conseguimos acumular bens materiais, nos frustramos. E, mesmo que tenhamos coisas, somos comparados com pessoas que têm mais o tempo todo, pois a essência do capitalismo é a competição. Pensando nisso, o pequeno Reino do Butão, localizado entre a China e a Índia, decidiu parar de destruir seu meio-ambiente para seguir as metas econômicas impostas por organismos internacionais e decidiu criar seu próprio medidor de desempenho: a Felicidade Interna Bruta, que substituiu o Produto Interno Bruto.

Ainda não é possível dizer se a experiência butanesa foi bem sucedida, mas é uma bênção o fato do país ter invertido a ordem econômica vigente, priorizando a manutenção dos recursos naturais para garantir o bem-estar de seu povo. Na pequena nação a lei determina que 60% de seu território será sempre composto por florestas. Poderia-se, por exemplo, construir hidrelétricas e vender o excedente de energia para a Índia, mas a que custo? Um custo altíssimo para a qualidade de vida da população. Ao garantir o direito à felicidade inscrito na Constituição americana, mas nunca encarado como uma obrigação pelos governos daquele país, as nações podem caminhar rumo à paz social. Pessoas felizes não  roubam, não matam e não descontam suas frustrações de ordem pessoal nas outras pessoas em geral.

Ao nos focarmos mais no que nós esperamos de nós mesmos do que naquilo que a sociedade espera de nós - o dinheiro, o status social e a aparência física (as tais das necessidades extrínsecas) - poderíamos construir uma comunidade mais feliz e, consequentemente, uma sociedade mais harmoniosa. Não precisaríamos agir de modo anti-ético, o que envolve desde a corrupção generalizada em todas as classes sociais do Brasil até o assalto à mão armada, passando pela interminável pilhagem de terras indígenas, para atingir nossos objetivos, que seriam verdadeiramente nossos e não da sociedade. Se você acha que precisa eliminar alguém para atingir a felicidade, então provavelmente aquilo que você busca não é a felicidade, pois esta envolve, conforme dito anteriormente, as necessidades intrínsecas do ser humano (atingir metas pessoais, viver em comunidade e manter relações interpessoais).

"As coisas que geram a felicidade são grátis e, quanto mais alguém é feliz, mais todos são felizes", conclui Belić no final de seu documentário, 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Politicamente correto e a negação do debate

Acusar o interlocutor de ser "politicamente correto", como se isso fosse algo censurável, é a negação do debate. O indivíduo só consegue atingir o crescimento intelectual através da partilha de ideias, do debate. Mas é, contudo, mais fácil encontrar um inimigo poderoso e até certo grau fictício (a religião organizada, o Islã, a secularização da sociedade, o "marxismo cultural", o "bolivarianismo" e, é claro "a ditadura do politicamente correto") do que encarar as várias cores das questões que estão sendo apontadas. Nenhuma questão sócio-política é dualista. Quando tratamos algo como sendo ou bom ou ruim, sem um meio termo, incorremos na falácia da dicotomia. O fato é que não existe apenas dois lado para cada história. Há milhares de lados para cada questão.

A religião organizada, por exemplo, não é o antro apenas de fanáticos retrógrados. É algo que eu tenho presenciado em minha jornada na Igreja Episcopal. De maneira semelhante, a maioria dos muçulmanos que moram no ocidente buscam se integrar às sociedades das quais fazem parte e não querem implementar a sharia (de fato, a maioria deles votou em Barack Obama nos Estados Unidos). A secularização é menos responsável pelo fim do Natal do que o consumismo e o "marxismo cultural", apesar dos ares de teoria acadêmica, não passa de uma formulação criada pela extrema-direita estadunidense para rejeitar as políticas a favor das minorias sem ser chamada de racista. O que esse segmento da sociedade, que nunca aceitou de fato o fim da segregação racial, chama de "ditadura do politicamente correto" nada mais é do que a negação do debate sobre racismo numa sociedade cuja a base de sua fundação sócio-econômica foi a escravidão.

Concordo que certas críticas à "apropriação cultural" são exageradas. Alguns artistas querem apenas honrar culturas que eles respeitam, como foi o caso da performance japonesa de Katy Perry no American Music Awards. No entanto, alguns indivíduos, notadamente os comediantes, nada têm a acrescentar ao debate sobre apropriação cultural e quais formas de expressão devem ser aceitas ou não pela sociedade. Atuam como defensores do status quo ao defender um suposto "direito" à ofensa. Fazer piada de estupro, se vestir de índio ou de Osama bin Laden no Carnaval ou comparar negros a macacos é reforçar esterótipos negativos em relação a grupos mais complexas do que a representação midiática deles. Há uma linha tênue que separa a liberdade de expressão do crime de discurso de ódio. E "acusar" o interlocutor de ser "politicamente correto" não faz ninguém ganhar um debate. Pelo contrário, trata-se da falácia da dispersão.

Desqualificar as pessoas que lutam pela igualdade social, acusando-as de serem "politicamente corretas" é, para mim, um ataque à própria ideia de democracia, que supõe o livre debate e a pluralidade de ideias, que podem e devem co-existir pacificamente. Quem sou eu, enquanto homem branco, para dizer a uma mulher ou a um negro o que eles podem achar ofensivo? Não sei o que é ter meus direitos básicos tolhidos por ser mulher ou negro. Sem falar que, se eu tentar censurá-los, impedi-los de levantar questões que o incomodam então eu estarei atuando contra a liberdade de expressão. O que chamam pejorativamente de "ditadura do politicamente correto", prefiro denominar de "sensibilidade às minorias" (onde entra a mulher que, apesar de ser 52% da população brasileira, é tratada como uma minoria pelos sociólogos por questões de dominação histórica).

A chamada "regra de ouro" da sociedade - não faça ao outro aquilo que não gostaria que fizessem a ti - presente em Lucas 6:31, resolveria muitos problemas caso não fosse meramente um discurso vazio. Esse mundo seria realmente melhor se pudêssemos simplesmente nos colocar no lugar uns dos outros. As tensões raciais praticamente desapareceriam e pararíamos de culpar a vítima do estupro por ter sido abusada. No entanto, é bem mais fácil desqualificar e ridicularizar aqueles que lutam por uma sociedade mais equânime, chamando-os de nomes supostamente ofensivos (argumentum ad hominem), como se isso fosse fazer desaparecer os questionamentos que essas pessoas trazem. Como diz minha mãe, é fácil apontar o dedo para os outros. Apontar o dedo para si mesmo exige um pouco mais de esforço.