quinta-feira, 15 de março de 2018

Poema: Saiba que (Para que continue a me amar)

Verso 1
Você me trouxe uma novidade
Obrigado, agradeço a sinceridade
Segundo você. as coisas mudaram
Faz sentido, pois as flores murcharam
Agora nossas chances se acabaram
O tempo passou
O amor terminou


Refrão
Mas saiba que vou procurar seu coração 
Em qualquer lugar aonde você o levar 
No frio e no escuro, no calor e no clarão 
Sua alma eu vou procurar 
Vou te enfeitiçar 
Para que continue a me amar

Verso 2
Por que você me procurou?
Foi por sua causa que tudo começou
Você me atraiu e você me tocou

Não deveria ter sido fácil ao me entregar
Afinal, eu não sei muito bem como jogar
Para que continue a me amar

Verso 3
Me dizem que hoje em dia funciona dessa maneira
Que agem uns com os outros como se fosse brincadeira
Mas eu não sou os outros

Antes que nos afastemos
Antes que nossa história descartemos

Refrão
Saiba que vou procurar seu coração 
Em qualquer lugar aonde você o levar 
No frio e no escuro, no calor e no clarão 
Sua alma eu vou procurar 
Vou te enfeitiçar 
Para que continue a me amar

Verso 4
Cantarei em línguas para te louvar
Viajarei pro campo para te lavrar
Vou no terreiro consultar meu orixá
Sem titubear, farei o que ele mandar
Para que continue a me amar


Verso 5
Em rei me proclamarei
E, que fique, ordenarei

Me transformarei num jogador
Para conseguir te satisfazer
Jogarei suas partidas com esplendor

E isso vai te satisfazer
Serei ainda mais belo e meu nome brilhará
E, assim, sua chama renascerá

Em ouro, vou me transformarPara que continue a me amar

segunda-feira, 12 de março de 2018

O país do tapa-sexo

Há algumas semanas, conforme o Brasil celebrava o carnaval — festa de origem pagã regada a muito sexo e álcool que precede o período de penitência da quaresma — a jornalista Eliane Brum conduziu uma extensa entrevista com o artista Wagner Schwartz. No final de setembro do ano passado, ele foi acusado de pedofilia ao se apresentar durante a abertura do 35° Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Durante a performance La Bête, inspirada em obra de Lygia Clark, o artista mantém-se nu no meio de um palco e convida a plateia a manipular seu corpo como se ele fosse um boneco. A performance gerou uma onda de ódio ao artista na internet após uma criança, levada pela mãe ao museu, ser filmada interagindo com o artista. Assim como havia acontecido anteriormente com a mostra Queermuseu, suspensa em várias cidades após ser acusada de promover a homossexualidade para menores de idade, boa parte do ódio contra Schwartz partiu de militantes do Movimento Brasil Livre (MBL).

Esse tipo de nudez não ofende a moral e os bons costumes
do Movimento Brasil Livre e de seus seguidores.
Em novembro, a polêmica chegou a níveis próximos do realismo fantástico. A CPI dos Maus Tratos à Criança e ao Adolescente do Senado Federal, que discutia os limites da arte e ouviu os curadores do Queermuseu, aprovou a condução coercitiva de Wagner Schwartz para depor no plenário. O artista foi alvo da medida arbitrária após declarar que não poderia participar voluntariamente da CPI por estar em turnê na França. Ele recorreu da decisão dos senadores no Supremo Tribunal Federal (STF) e teve sua condução coercitiva barrada pelo ministro Alexandre de Moraes. Para começo de conversa, os senadores nem deveriam estar discutindo qual o valor artístico de obras de arte num país onde a liberdade de expressão é cláusula pétrea da Constituição. Se as instituições estão funcionando normalmente desde o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, como insiste em dizer a presidenta do STF, então por que diabos os senadores agem como ditadores com artistas? Embora tenha feito, nesse caso, o papel de herói contra o avanço do fascismo, o próprio STF tem responsabilidade pelo acossamento de artistas.

Alexandre de Moraes, antes de assumir a cadeira deixada vaga pela suspeitíssima morte de Teori Zavascki, era o ministro da Justiça do governo golpista e vazou informações da Polícia Federal para o MBL. Alimentou o monstro que agora, para desviar o foco do governo de Michel Temer, o mais impopular da história do Brasil e talvez do mundo, empreende uma campanha a favor da moral e dos bons costumes nas apresentações artísticas. Mas nunca foi a intenção de tucanos como Alexandre de Moraes fomentar o fascismo à brasileira, que agora atinge níveis alarmantes. Eles patrocinavam grupos como o MBL para difundir, na sociedade, o discurso moralizante apenas da política. Foram ingênuos em achar que radicalizariam o brasileiro médio e que o ódio deste acabaria no momento em que o PT saísse do poder. Criaram o terreno para tipos como os presidenciáveis homofóbicos Jair Bolsonaro e Flávio Rocha. O PSDB, na ânsia de tirar o PT do poder, criou e alimentou uma onda fascista que agora vai contra a plataforma liberal do partido no campo dos costumes e que terá cada vez mais dificuldade de conter.

Uma invenção tipicamente brasileira.
A comoção proto-fascista gerada pelo MBL no segundo semestre do ano passado — muito útil para desviar o foco do presidente Michel Temer, que na época enfrentaria o julgamento da segunda denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra ele na Câmara dos Deputados — teria sido muito menor se Schwartz estivesse usando uma tanga ao invés de ter ficado completamente nu. Talvez ele não tivesse sido acusado de pedofilia. Ou então até tivesse sido, mas por um contingente bem menor de brasileiros "do bem" indignados com a suposta depravação moral presente nas artes. Inclusive penso que, se fosse esse o caso, muitos dos que acusaram-no de pedofilia teriam defendido-o, dizendo aos mais raivosos: "mas que bobeira, nem pelado ele estava". Mas, para o desespero geral da nação, o órgão genital do artista estava exposto. Como o desfile das escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro nos demonstra, o brasileiro médio aceita ver quase tudo em termos de nudez, desde que o sexo esteja estrategicamente escondido pelo bem das criancinhas. O MAM-SP deveria ter seguido o código da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), essa sim ciente da hipocrisia gritante que constitui a sociedade brasileira.

Mas por que a nudez se fez necessária na performance? Entendo-a como uma forma do artista mostrar-se vulnerável para o público, como se esse pudesse fazer o que bem entender com seu corpo. Afinal de contas, era essa a proposta de La Bête, não era mesmo? Schwartz escolheu apresentar-se nu porque pensou estar num país democrático que respeita a liberdade de expressão artística. Ingenuidade dele. Seu pênis — para ele ou para mim — é apenas mais um pedaço de pele e carne, não menos ofensivo do que um pé ou uma mão. Mas não o é para a maioria dos brasileiros, para os quais o MBL fala desde que os convenceu de que tudo o que o Brasil precisava era de um impeachment de base legal duvidosa, visto no exterior como um golpe frio, para nossas vidas melhorarem. A única intenção do coreógrafo com sua performance era provocar na plateia um questionamento sobre os limites do corpo humano e, também, gerar um sentimento de empatia. Ele queria que seu público pudesse enxergá-lo em sua vulnerabilidade e, assim, ser gentil ao manuseá-lo. Esse é um sentimento que o brasileiro médio, incitado por hordas fascistas como o MBL, não exercita há um bom tempo — se é que algum dia já o exercitou. 

Sim, o artista expôs seu pênis. E não cabe ao MBL ou à bancada evangélica do Congresso Nacional querer dizer a ele como ele deve se apresentar. O pênis é uma parte do corpo humano que pelo menos metade da nossa população — e mais da metade dos senadores — possui, não sendo mais sujo do que uma mão. Por que tanta hipocrisia ao lidar com ele? Será que nossa hipocrisia é tamanha que nossos representantes no Senado vão impor o uso de tapa-sexo nas apresentações feitas em museus e demais espaços mantidos com verba pública? Aliás, nada expõe tanto a hipocrisia do nosso país quanto o fato de termos inventado esse tipo de vestimenta. O tapa-sexo é uma invenção brasileira para que as escolas de samba burlassem a regra da LIESA que as impediam de mostrar nudez total na Marquês de Sapucaí. O regulamento foi baixado no começo dos anos 1990 depois de desfiles polêmicos organizados pelo carnavalesco Joãosinho Trinta. Mostrar o corpo é aceitável, desde que ele esteja milimetricamente coberto para não ofender pudores cristãos que insistem se impôr numa festa originalmente pagã e numa sociedade oficialmente laica.

A emissora evangélica, que exibe cenas como essa à tarde,
está preocupadíssima com a exibição de nudez para crianças.
A hipocrisia é tamanha que é possível ver corpos seminus até mesma na maior emissora evangélica do país, a Rede Record, que promoveu uma verdadeira cruzada contra artistas que ela mesma chamou de "degenerados" em seus programas jornalísticos à época do incidente no MAM-SP. Há anos a emissora em questão explora o trabalho de W. Veríssimo, especialista em pintar corpos nus, cujos órgãos genitais ele esconde com minúsculos tapa-sexos em sua programação, inclusive em programas transmitidos no horário em que crianças estão acordadas. Assim como luta por uma arte "oficial", o jornalismo no Brasil deixou se ser o simples relato de fatos para se transformar na criação de uma narrativa única. A mesma que tornou possível o impeachment sem base legal de uma presidenta eleita com mais de 50 milhões de votos sem maiores questionamentos por parte da população em geral. Também foi graças à existência de uma narrativa oficial, sem espaço para questionamentos, que Adolf Hitler pôde convencer os alemães de que existia uma "arte degenerada" (Entartete Kunst) em seu país e convencê-los a lutar contra ela.

Os curadores do Queermuseu, Wagner Schwartz e o MAM-SP desrespeitaram o código de conduta moral do brasileiro médio. Este aceita a seminudez presente nos desfiles das escolas de samba durante o carnaval e nas ondas da Globo ou da Record. A mulata pode se expôr para o deleite masturbatório do público, em especial aquele formado por homens brancos de meia-idade, desde que um tapa-sexo mantenha a sua decência milimetricamente coberta para não chocar as criancinhas que possam estar vendo aquele programa na televisão. Esse mesmo público, no entanto, se levantou contra o pênis de Schwartz, apresentado num espetáculo lúdico e sem qualquer caráter sexual. Além de não entender que o pênis é esteticamente menos aceito do que a vagina para o brasileiro médio, ele desrespeitou a regra do tapa-sexo — expressão maior da nossa hipocrisia — e foi punido por isso. Afinal, precisamos proteger nossos pequenos deixando-os na ignorância. Assim, perpetua-se o abuso sexual de crianças que não podem aprender na escola (sem partido), na televisão ou no museu o que são vaginas e pênis. O país do tapa-sexo condena a si mesmo à perpetuação da violência sexual devido à hipocrisia. E ainda diz que está fazendo isso para combater a pedofilia!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A democracia brasileira à beira do abismo


WASHINGTON — O estado de direito e a independência do judiciário são conquistas frágeis em muitos países — e suscetíveis a reveses bruscos.

Brasil, o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, é uma democracia bastante jovem, tendo emergido de uma ditadura há apenas três décadas. Nos últimos dois anos o que poderia ter sido uma conquista histórica ― a autonomia outorgada pelo governo do Partido dos Trabalhadores para investigar e punir a corrupção estatal ― se transformou no seu oposto. Como resultado, a democracia brasileira agora está mais fraca do que em qualquer outro período desde o fim do regime militar.

Esta semana, essa democracia pode erodir-se ainda mais quando os três juízes de uma corte de apelação decidirem se a figura política mais popular do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores, será barrado de disputar a eleição presidencial de 2018 ou até mesmo preso.

O juiz Sérgio Moro demonstrou seu partidarismo em diversas
ocasiões, diz Weisbrot.
Não há muita pretensão de que a corte seja imparcial. O presidente do tribunal de apelação já louvou a decisão do juiz de sentença de condenar o Sr. da Silva por corrupção como "tecnicamente irrepreensível" e sua chefe de gabinete postou em sua página no Facebook uma petição a favor da prisão do Sr. da Silva.

O juiz de sentença, Sérgio Moro, demonstrou seu próprio partidarismo em diversas ocasiões. Ele precisou pedir desculpas à Suprema Corte em 2016 por revelar escutas telefônicas gravadas entre o Sr. da Silva e a presidente Dilma Rousseff, e seu advogado, e sua esposa, e seus filhos. O juiz Moro montou um espetáculo para a imprensa quando policiais apareceram na casa do Sr. da Silva e levaram-no para interrogatório — embora o Sr. da Silva tivesse dito que se apresentaria de maneira voluntária para ser interrogado.

As provas contra o Sr. da Silva estão bem abaixo do limite do que seria levado a sério, por exemplo, no sistema judiciário dos Estados Unidos.

Ele é acusado de ter aceitado propina de uma grande empresa de construção, a OAS, que foi processada como parte do esquema de corrupção no Brasil investigado através da "Lava-Jato". Este escândalo multibilionário trouxe à tona empresas pagando grandes propinas para funcionários da empresa petrolífera estatal Petrobras para obter contratos a preços altamente inflados.

A propina que supostamente foi recebida pelo Sr. da Silva foi um apartamento de propriedade da OAS. Mas não há nenhuma prova documental de que tanto o Sr. da Silva quanto sua esposa jamais receberam um título de propriedade, alugaram ou sequer ficaram no apartamento nem de que eles tentaram aceitar esse presente.

A evidência contra o Sr. da Silva baseia-se no depoimento de um executivo condenado da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, que teve sua sentença à prisão reduzida em troca de entregar evidências ao estado. Segundo reportagem do proeminente jornal brasileiro Folha de São Paulo, o Sr. Pinheiro teve seu acordo de delação bloqueado quando ele contou a mesma história que o Sr. da Silva sobre o apartamento. Ele também permaneceu cerca de seis meses detido antes de seu julgamento. (Isso é discutido no documento de sentença de 238 páginas.)

Mas essa evidência escassa foi o suficiente para o juiz Moro. Em algo que os americanos considerariam ser um processo judicial canguru¹, ele sentenciou o Sr. da Silva a nove anos e meio de prisão.

O estado de direito no Brasil já havia sofrido um golpe devastador em 2016, quando a sucessora do Sr. da Silva, a Sra. Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014, sofreu um impeachment e foi removida do cargo. A maior parte do mundo (e possivelmente do Brasil) acredita que ela foi destituída por causa da corrupção. Na verdade, ela foi acusada de uma manobra contábil que fez com que o deficit do orçamento federal parecesse temporariamente menor do que era de verdade. É algo que outros presidente e governadores haviam feito sem maiores consequências. E o próprio procurador-geral da República concluiu que não se tratava de um crime.

Ainda que houvessem políticos de partidos de todo o espectro político envolvidos em corrupção, incluindo o Partido dos Trabalhadores, não houveram denúncias de corrupção contra a Sra. Rousseff no processo de impeachment.

O Sr. da Silva permanece o líder na eleição de outubro devido a seu êxito e ao êxito de seu partido na reversão de um longo declínio econômico. De 1980 a 2003, a economia brasileira mal se quer cresceu, cerca de 0,2 por cento anualmente per capita. O Sr. da Silva tomou posse em 2003 e a Sra. Rousseff em 2011. Até 2014 a pobreza havia sido reduzida em 55 por cento e a extrema pobreza em 65 por cento. O salário mínimo real aumentou 76 por cento, os salários reais aumentaram 35 por cento, o desemprego atingiu recordes históricos para baixo e a infame desigualdade social do Brasil finalmente havia caído.

A direita aproveitou a recessão de 2014 para orquestrar um
golpe de estado parlamentar, segundo o colunista.
Mas em 2014 uma recessão profunda começou e a direita brasileira foi capaz de tirar vantagem do declínio para orquestrar o que muitos brasileiros consideraram um golpe parlamentar.

Se o Sr. da Silva for barrado de participar da eleição presidencial, o resultado poderá ter muito pouca legitimidade; assim como na eleição hondurenha de novembro que foi amplamente vista como roubada. Uma pesquisa de opinião pública do ano passado descobriu que 42,7 por cento dos brasileiros acreditam que o Sr. da Silva estava sendo perseguido pela mídia e pelo judiciário. Uma eleição pouco crível pode ser politicamente desestabilizadora.

Talvez, mais importante de tudo, o Brasil terá se reconstituído numa democracia eleitoral muito limitada, onde um judiciário politizado pode excluir um líder político popular de concorrer a um cargo público. Isso seria uma calamidade para os brasileiros, para a região e para o mundo.


Mark Weisbrot é co-diretor do Centro para Pesquisa Econômica e Política de Washington e presidente da Just Foreign Policy. É o autor de "Failed: What the ‘Experts’ Got Wrong About the Global Economy".

Uma versão desta coluna apareceu na versão impressa em 24 de janeiro de 2018, na página A10 da edição nacional sob a manchete: A democracia do Brasil encara um abismo.


¹ Um processo judicial canguru ou kangaroo court é, segundo o Wikcionário, "um procedimento judicial ou semi-judicial ou o grupo que conduz tal procedimento, que é feito sem a autoridade adequada, de maneira abusiva e injusta".

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma

A grande mídia adora encomendar pesquisas, mas nunca traduz direito para seu público os números que ela mesma encontra nessas sondagens. Talvez por que não seja do seu interesse fazer uma manchete dizendo "PSDB perde 24 milhões de eleitores em quatro anos". Pois bem, me propus a fazer o serviço que as redações dos grandes jornais não fazem com os dados que têm em mãos. Considerando a média das pesquisas Datafolha (29—30/11), DataPoder 360 (8—11/12) e Paraná Pesquisas (18—21/12), cheguei aos seguintes percentuais de intenção de voto em cada um dos principais candidatos à presidência da República em 2018:

Lula (PT): 30%
Bolsonaro (PSL): 20%
Marina (Rede): 8,5%
Alckmin (PSDB): 7%
Ciro (PDT): 5,5%

Outros nomes testados pelos institutos de pesquisas — como os do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa (sem partido), o do senador Álvaro Dias (Podemos), o do ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSDB), o do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) e o do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) — teriam, juntos, 11,7% dos votos. Isso faria com que uma média de 82,7% dos eleitores pesquisados decidissem pelo voto válido na próxima eleição. A soma de votos brancos e nulos e abstenções chegaria a 17,3% do eleitorado.

Faltou combinar com o povo. Apesar do fim do PT ter sido
anunciado diversas vezes, Lula teria 1,6 milhões de votos a
mais do que Dilma se a eleição fosse hoje.
E, por falar em eleitorado, foi preciso fazer uma estimativa deste para chegar ao número exato de votos que cada candidato a presidente teria caso a eleição de outubro ocorresse hoje. Em 2016, ano das últimas eleições municipais, o Brasil tinha 144.088.912 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Este número cresceu 4% em relação àquele de 2014. Se o número de eleitores em 2018 também apresentar um crescimento de 4% em relação ao de 2016, teremos em nosso país, no próximo mês de outubro, 149.852.466 eleitores aptos a votar. Lembrando que este número é uma estimativa. Pode ser maior ou menor no dia da eleição, após os eleitores regularizarem (ou não) sua situação junto à Justiça Eleitoral.

Vamos então aos números. Se as pesquisas estiverem certas e as eleições fossem hoje, teríamos o seguinte resultado no primeiro turno:

Lula (PT): 44.955.740
Bolsonaro (PSC): 29.970.493
Marina (Rede): 12.737.459
Alckmin (PSDB): 10.489.673
Ciro (PDT): 8.241.886


Os demais candidatos teriam, juntos, 17.532.738 votos. Isso significa que 123.927.989 eleitores fariam sua escolha pelo voto válido, o que representaria 82,7% do eleitorado total. Votos brancos e nulos e abstenções seria a escolha de 25.924.477 eleitores ou 17,3% do total.

Fazendo a ressalva de que não é possível, pela metodologia de alguns dos institutos, diferenciar o voto nulo e branco da abstenção, teríamos o seguinte percentual de votos para cada candidato:

Lula (PT): 36,27%
Bolsonaro (PSL): 24,18%
Marina (Rede): 10,28%
Alckmin (PSDB): 8,46%
Ciro (PDT): 6,65%
Outros candidatos: 14,15%

Em relação ao primeiro turno de 2014, teríamos que o candidato do PT teria um percentual menor de votos do que Dilma Rousseff, mas ainda assim Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma. Marina Silva, por sua vez, reduziria se percentual de votos pela metade e teria 9,4 milhões de votos a menos do que em 2014. Já o candidato do PSDB apresentaria uma queda de 25 pontos em relação ao percentual obtido por Aécio Neves em 2014. Em números absolutos, Geraldo Alckmin teria 24,4 milhões de votos a menos do que o senador mineiro. Não é possível traçar um paralelo entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, visto que seus partidos não lançaram candidatos em 2014.

Parece ter ocorrido uma pulverização do apoio às forças hegemônicas da política brasileira nos últimos 16 anos — mais acentuado no PSDB do que no PT. Isto se reflete pela grande quantidade de candidatos que se apresentam à população. Esta deve ser a eleição com mais candidatos desde o pleito de 1989, o primeiro após o fim da ditadura militar e que contou com 22 candidatos, inclusive o próprio Lula. Os candidatos de partidos menores conquistariam cerca de 17,5 milhões de votos se a eleição fosse hoje. Um aumento de quase 14 milhões em relação a 2014. Com mais candidatos na disputa, a abstenção e a soma de votos bancos e nulos deve cair, sendo a opção de 13 milhões a menos de eleitores brasileiros em 2018 em relação a 2014.

Num cenário de pulverização dos partidos tradicionais,
Jair Bolsonaro desponta em segundo lugar nas pesquisas.
Contanto, este é um retrato do cenário atual. Embora já tenha voltado suas baterias contra Lula, Bolsonaro e, mais recentemente, Ciro Gomes, a grande mídia ainda não começou sua tradicional campanha a favor do candidato do PSDB ou de qualquer outro partido liberal que lhe agrade ainda mais que o governador paulista Geraldo Alckmin. Este, por sua vez, demonstrou-se demasiadamente fraco no pleito de 2006, uma eleição que, segundo o relato de seu biógrafo Richard Bourne, o próprio Lula considerava perdida para o PSDB. Desanimado, o ex-presidente sequer engajou-se em sua própria campanha, tendo até mesmo faltado aos debates do primeiro turno na televisão.

De qualquer forma, estes dados são interessantes para a confirmação ou negação de algumas hipóteses que tem sido ventiladas desde o início da atual crise sociopolítica no país. A ascensão da extrema-direita de Jair Bolsonaro às custas dos liberais é uma delas. Tucanos e seus aliados atacaram as políticas do Estado brasileiro durante os 13 anos dos governos petistas, imaginando que colheriam os frutos disso, mas pavimentaram o caminho para reacionários que desejam ver implementado o conservadorismo não só na política econômica. O centro político — tanto a centro-esquerda representada pelo PT quanto a centro-direita representada pelo PSDB, passando pelo fisiologismo do PMDB — está em baixa e Bolsonaro parece ter tirado votos até mesmo da moderada Marina Silva. Antes, quem estava cansado da polarização PT—PSDB votava na centrista. Hoje, num precedente perigoso para a democracia brasileira, vota num radical de direita.

Mesmo com a desintegração de partidos e políticos tradicionais, exemplificado pela ascensão de Bolsonaro e diversos candidatos de partidos pequenos, o suposto fim do PT, anunciado diversas vezes na capa da Veja, parece estar longe de ocorrer. Escorado na figura de seu eterno líder, o partido ainda possui o potencial para conquistar quase 45 milhões de votos. Embora acossado por diversas denúncias e uma condenação na Lava Jato que pode lhe tirar da disputa, Lula teria 1,6 milhões de votos a mais do que Dilma se a eleição fosse hoje. Se a ascensão do fascismo ou o favoritismo do PT vão se manter uma vez que a campanha começar e a pregação pró-liberalismo da grande mídia e seus reprodutores nas redes sociais se intensificar são questões que só o tempo dirá. Entretanto, o cenário atual e com o qual políticos e militantes deveriam trabalhar, é o de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Meu dia sem celular

Já estava sem usar o Facebook há um dia quando tomei a decisão de ficar sem meu celular por 24 horas. Minha intenção é ficar sem usar essa rede social até o Natal para provar para mim mesmo que não sou viciado nela. A decisão surgiu na terça-feira à noite. Naquele dia, eu tinha ido ao supermercado com minha mãe e, ao chegar em casa, decidi ocupar minha mente com outras coisas que não fossem as postagens da rede social de Mark Zuckerberg. Preparei comida para mim, fiz um suco de pêssego que ficou delicioso e fui dar uma volta no parque com o Bruce, meu cachorro. Estava ansioso por não usar o Facebook e também porque estava esperando visita, o que gerou em mim uma expectativa que contribuiu para que minha ansiedade explodisse quando ele não veio e nem deu motivo para não ter vindo.

Nem Will & Grace consegue aplacar minha ansiedade.
Quando cheguei em casa, liguei para ele. Ele não me atendia e, na segunda vez que o chamei, pareceu que ele havia rejeitado a chamada. Isso fez minha ansiedade, que já estava acima do normal, atingir um nível altíssimo, já que a última vez que isso acontecera, ele estava com outro (que não é só qualquer "outro", mas sim o ex dele). Tentei não deixar a ansiedade consumir minhas energias e fui assistir Will & Grace, o seriado que eu tanto amava quando era adolescente e que voltou de maneira um tanto quanto inesperada neste ano. Posso não ter tecido comentários no Facebook enquanto assistia — o que é de costume para mim —, mas os fiz no Twitter, que foi a forma genial que eu encontrei de driblar meu autoimposto banimento do Facebook.

Quando o episódio acabou, liguei novamente para ele. Ao todo foram sete ligações não-atendidas em uma hora e meia. Comecei a ficar preocupado, então deixei mensagens para ele em todas as plataformas possíveis: Messenger, Instagram, WhatsApp e até mesmo SMS. Foi então que eu percebi o quão desesperado eu estava sendo. Logo eu, que tanto critico a Adele por correr atrás de homens nas letras de músicas como "Hello". Estava agindo de maneira ainda pior. Mas foi a tecnologia que me deixou assim. A possibilidade de encontrar qualquer pessoa que more em qualquer canto do mundo em qualquer hora do dia me deixa extremamente frustrado quando ela não se concretiza. Isso para não dizer que alimenta demônios antigos que me habitam, como o medo de me entregar e me decepcionar.

Mais tarde, ele me respondeu, dizendo que estava com um amigo. Me senti ainda mais estúpido por ter me desesperado tanto. Foi então que decidi levar o experimento de largar o Facebook um passo adiante: abriria mão do celular como um todo. Li crônicas de três pessoas que, por variados motivos, desistiram de seus aparelhos celulares por um dia inteiro. A conclusão de todas elas foi a mesma: estavam se tornando escravas de seus aparelhos celulares e, por causa disso, perdiam detalhes importantes da vida, como a risada dos filhos no parquinho, detalhes da arquitetura inusitada da cidade onde moram ou as instruções de segurança do metrô, pois estavam sempre com os olhos grudados em suas telas pretas. Estavam tão presas ao mundo virtual de seus celulares que não aproveitavam o mundo real.

Todos os autores relataram sentir o celular vibrando no bolso da perna de suas calças mesmo após começarem o experimento, ou seja, quando o aparelho não estava mais lá. A "vibração fantasma" é um dos sintomas do vício em celular. Felizmente, não o tive. Infelizmente, acho que isso se deve ao fato de que meu celular não vibra ao receber chamadas ou notificações. Já algo que nenhum deles relatou e que eu experimentei foi que, sem usar o celular até pouco antes de dormir, eu sonhei muito mais do que de costume. Sem ser bombardeado por informações — em sua vasta maioria inúteis para mim — até a hora de seu descanso, minha mente teve energia o suficiente para se expressar de maneira bem mais criativa e livre durante o sono.

Isso me fez pensar no tanto de energia que investimos na tecnologia para não investirmos em nós mesmos. E não foi só do campo onírico que o celular estava roubando energia. É um fato conhecido que o mundo externo desvia muito da nossa atenção do mundo interno, ou seja, de nós mesmos. Sem o celular, sem a expectativa de receber chamadas ou mensagens, me dei ao direito de finalmente ficar de luto pela morte do meu cachorro. Sem distrações, finalmente pude pensar nessa perda e em como ainda me sinto culpado pelo fato de ter dado atenção para o cara com o qual estou saindo, que conheço há pouco mais de dois meses, do que para o meu companheiro de dez anos que tantas vezes me inspirou a seguir vivendo. Percebi que não posso viver para o mundo. Tenho que viver para mim mesmo.

Quando eu acordei de manhã, o dia começou como qualquer outra quarta-feira: fui à academia e, sem o celular para me distrair, cheguei lá surpreendentemente cedo. Quando vou para lá, deixo o celular em casa, então não senti a falta dele. Voltei e usei o computador um pouco. Depois, tomei whey protein. Quando voltei para o PC, ele travou. Fui lavar a louça então e, depois, fui almoçar e a caminhada de ida e volta até o restaurante tornou-se muito mais interessante sem meu celular. Só o almoço em si que foi meio difícil de suportar, pois os comerciantes no Brasil têm o hábito irritante de deixar seus televisores ligados na Rede Globo e eu estava pouco me lixando para a prisão do Paulo Maluf ou para a subida da avaliação positiva de Michel Temer de 3% para 6%. Era justamente isso que as pessoas deveriam estar comentando no Facebook, que estou fazendo muito esforço para evitar.

O "modo avião" me salvou.
Cheguei em casa  após uma tentativa frustrada de comprar uma imagem de São Francisco para o altar que estava fazendo para as cinzas do Obama e coloquei o celular na gaveta. Não queria correr o risco de ficar tentado a usá-lo e achava que ele pudesse receber chamadas mesmo estando no "modo avião". Só depois de algumas horas percebi que isso não seria possível. Confesso que um grande desafio foi não usar o aparelho enquanto estava sentado no vaso sanitário. Este é um hábito — pouco higiênico, eu sei — de vários e vários anos, mas não é nada que um papel e uma caneta não resolvam. Inclusive foi assim que iniciei esse registro, antes mesmo dia dia terminar, pois achei importante registrar as sensações que esta experiência estavam me causando conforme ela esta se desenrolando.

Reiniciei o computador e fiquei tentado a pegar o celular para ver quais guias estavam abertas no Google Chrome antes da máquina travar. Primeiro abri o Spotify e, sem espanto algum, constatei que havia perdido toda a minha fila de reprodução. Em seguida, abri o Chrome e, depois de algum esforço mental e com a ajuda do TabCloud, consegui reabrir as guias que estavam abertas quando o PC travou. Passei um tempo no computador e, depois, decidi passar o aspirador de pó na casa. Já estava preparado para iniciar a limpeza quando percebi que se eu fizesse isso não ouviria quando o carteiro viesse entregar a urna com as cinzas do Obama. Decidi, então, começar a montar o quebra-cabeças que eu havia comprado no dia anterior no supermercado.

Quando as quatro da tarde chegou, horário em que geralmente o carteiro passa, comecei a arrumar o espaço que eu tinha reservado para ser o altar do Obama. Imprimi uma foto nossa juntos, onde ele parece sorrir para mim e coloquei seu certificado de cremação ao lado dela. Foi então que decidi rastrear a encomenda no site dos Correios e vi a mensagem "a entrega não pode ser efetuada - carteiro não atendido" pela segunda vez, o que não fez o menor sentido, pois tanto eu quanto minha mãe ficamos de plantão o dia inteiro para receber as cinzas de nosso querido cão. Fiquei com muita raiva daquela situação e voltei a montar o quebra-cabeças, o que me acalmou aos poucos. Confesso que é um jogo viciante e que fiquei em cima dele durante mais tempo do que eu havia planejado.

Em seguida, fui na vendinha com minha mãe. Ao voltar, lanchei e montei mais um pouco o quebra-cabeças. Foi então que trapaceei — de certa forma — no meu desafio. Offline, li a entrevista de um pesquisador italiano a um jornal goiano que foi uma completa perda de tempo. Ele era super otimista em relação à influência das novas tecnologias na sociedade, o que não deixa de ser irônico quando se está justamente tentando passar um dia sem elas por reconhecer seus efeitos nocivos em sua vida. Essa ironia me motivou a continuar meu experimento solitário. Por curiosidade, também abri o Spotify e fiquei bem feliz ao contatar que a lista de reprodução que eu havia perdido no PC ainda estava lá. Alegrou-me saber que da próxima vez em que for usar o celular, será possível ouvir as músicas que eu tinha planejado ouvir na terça-feira.

Depois mandei um e-mail para o crematório para saber qual endereço havia sido colocado no pacote, pois não fazia sentido a confusão dos Correios (depois, descobri que o endereço estava errado e meu nome também) e levei o Bruce para dar uma volta no parque. Enquanto caminhávamos, escutei música no celular, ainda no "modo avião". Hábitos antigos são difíceis de quebrar. Inclusive, foi por este motivo que acabei lendo a tal entrevista antes de sair de casa. Chegando lá, chamei o Bruce de Obama. Foi então que cheguei à conclusão de que não posso usar aqueles que estão chegando em minha vida para preencher o espaço vazio deixado por aqueles que estão partindo. Sempre fiz isso, mas não é justo nem com os que chegam, nem com os que vão e nem comigo mesmo.

Cheguei em casa e descansei um pouco antes de passar o aspirador de pó enquanto ouvia música na rádio. Constatei duas coisas incômodas enquanto eu limpava a casa, que talvez não teria percebido se tivesse limpado com o celular a meu lado — se é que ele me permitiria limpar a casa para começo de conversa. A mancha de saliva que o Obama havia deixado na minha porta pouco antes de sucumbir à morte ainda estava lá (e eu provavelmente briguei com ele por causa disso). A outra coisa foi que o Bruce fez um pouco de cocô no meu tênis enquanto caminhávamos no parque. Também percebi que haviam várias manchas de tinta no chão do meu quarto. Isso deve ter sido da reforma que minha mãe fez na casa e que acabou no final de outubro. Essa foi a primeira faxina que fiz desde então e o espaço estava menos sujo do que eu esperava.

Depois, tomei um banho — o que, em banheiro limpo, é outra vida — e jantei. Ou melhor, fiz uma ceia. Tirei uma foto do meu prato para postar no Instagram, mas não postei. Assisti Friends e comecei a me questionar se os comentários que eu posto nas redes sociais enquanto assisto algum seriado são realmente necessários e, se forem, por que não posso escrevê-los para mim mesmo num caderno (foi o que eu fiz) ao invés de de publicizá-los para o mundo inteiro ver numa rede social. Sem o celular para me distrair, fui dormir antes da uma da madrugada, o que é até cedo para mim. Também sonhei nessa noite, embora não na mesma intensidade da noite anterior.

O meu dia, sem o celular, rendeu bem mais. Embora eu tenha enrolado para fazer o que eu queria fazer, fiz tudo o que eu tinha para fazer. No geral, sou uma pessoa que se distrai e perde o foco muito facilmente e o celular, com suas infinitas possibilidades, potencializa isso a um extremo que torna minha vida insuportável. Sou extremamente ansioso com o celular. Sem ele, tornei-me mais produtivo, introspectivo e focado. Também fui dormir bem mais cedo do que geralmente vou, pois não precisei me libertar do celular para fazer isso. Estou confiante de que a quinta-feira, dia em que vou ligar o celular novamente, será bem mais tranquila do que de costume. Estava com medo, pois esse é um dia em que tradicionalmente uso muito o celular, pois não tenho nada para fazer.

Cansei de me sentir como um personagem de Black Mirror.
Não tenho mais medo. Vou continuar boicotando o Facebook até o Natal, conforme eu havia planejado no último domingo, e descobri que o "modo avião" do celular é algo maravilhoso para aplacar minha ansiedade, que é potencializada ao extremo pela ultra-conectividade do mundo moderno. Pretendo usá-lo com mais frequência, principalmente quando eu estiver lendo, escrevendo ou simplesmente curtindo um seriado no Netflix. Quero que todas as minhas atenções estejam voltadas para o que eu estiver fazendo no mundo real e não para as expectativas que um mundo falso, virtual, gera em mim. Se quarta-feira foi no geral um dia tranquilo, sem muita ansiedade, a quinta-feira tem todas as possibilidades de ser também.

O celular tornou-se minha vida. Viver 24 horas sem ele foi um desafio necessário para mim. Eu precisava tomar minha vida de volta para mim. Cansei de me sentir como um personagem da realidade distópica de Black Mirror, para quem não resta saída a não ser aceitar ser oprimido pela tecnologia. Foi por isso que me propus esse desafio. O professor italiano que me desculpe, mas se é assim que os avanços da tecnologia me fazem sentir, não tenho motivos para percebê-los como a saída que nos levará a um futuro utópico. Concordo com o ex-vice-presidente do Facebook, para quem esta rede social está destruindo o tecido social. E vou além: a tecnologia está destruindo nossa própria humanidade, deixando-nos entorpecidos demais para vivermos nossas próprias vidas. Prefiro não viver confinado a esse espelho preto. Quero recuperar a alegria de viver.


P.S.: Na quinta-feira, acabei por não usar o celular também. Acordei um pouco tarde e fiquei a tarde inteira no Centro de Distribuição dos Correios tentando pegar a urna com as cinzas do Obama. Depois, fui no Bapi com minha mãe. Chegando em casa, montei o quebra-cabeças um pouco mais e, depois, caminhei com o Bruce no parque. Em seguida, fiz um pequeno ritual para colocar as cinzas do Obama em seu altar e publiquei este texto. Foi só então que retirei o celular do "modo avião". Vi suas centenas de notificações, mas decidi não dar atenção para elas. Não agora que eu sei que isso mais atrapalha do que ajuda minha ansiedade. Também percebi que é falsa a premissa de que não tenho nada para fazer. Essa é uma desculpa que dou para continuar viciado no celular. Me recuso a viver para mim para viver para esta tecnologia e isso não pode continuar mais.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Obama (4/11/2007—3/12/2017)

É difícil escrever sobre alguém que você perdeu. Não quero que meu luto vire motivo para "curtidas" numa rede social. Mas também não quero que essa morte passe em branco. Eu vi uma alma sair de um corpo e isso me marcou muito. Vi como a vida é breve e frágil e as coisas mesquinhas deste mundo — e de mim — deixaram de fazer sentido. Num momento a vida está lá e, no outro, não está mais. É algo muito precioso para gastarmos-na com coisas banais. E também para passar em branco.

Tudo começou em agosto, quando ele passou mal e teve de ser internado por uma semana. Vivi dias de angústia e esperança durante todo o momento em que ele esteve no hospital. Mas foi quando descobri quem são meus amigos de verdade. Quando ele voltou para casa, já não era mais o mesmo. Parece que parte de sua alegria havia ficado no hospital. Queriam operá-lo assim que foi diagnosticado com doença do pericárdio. Não deixei. Estava velho demais e não queria que ele morresse numa maca.

Apesar da dor que sentiu nos momentos finais, ele não gemia ou chorava. Sempre foi forte, ao mesmo tempo em que era meigo e doce. Nunca foi de reclamar. Há um mês, fez dez anos. Uma década juntos é tempo pra caramba. E, várias vezes, eu não soube aproveitar esse breve tempo que tivemos para ficarmos juntos. Tomei-o por garantido. Achei que ele sempre estaria me esperando quando eu chegasse em casa. Fui um tolo e eu espero que ele me perdoe por isso, onde quer que ele esteja agora.

Quando alguém morre, é da natureza humana ficar pensando "e se...?". Penso direto nisso. E se eu tivesse aceitado o risco de operá-lo e ele vivesse mais alguns anos? E se eu tivesse levado-o ao hospital antes? Até porque comecei a perceber que ele estava agindo de maneira estranha uma semana antes dele falecer. Encontrei-me, então, numa encruzilhada: levava-o ao hospital para dar-lhe uma sobrevida horrível ou deixava-o descansar em paz? Escolhi a última opção e ainda me questiono se agi certo.

Obama (*4 de novembro de 2007 ✝3 de dezembro de 2017).
A minha escolha de Sofia não foi nada fácil, principalmente quando ele me olhava com um olhar que mesclava um pedido de socorro com uma despedida. Eu não suportava aquele olhar. Como as coisas teriam sido bem mais fáceis se ele pudesse falar e dizer para mim o que ele queria que eu fizesse, como esperava que eu agisse em relação a ele. Mas decidi que se ele piorasse ao ponto de não conseguir mais andar, como aconteceu em agosto, levaria-o ao hospital.

Não poderia ter escolhido parâmetro pior, pois ele andou até o fim. Quando caiu no chão foi para perder a consciência e morrer. A médica nos explicou que, como o coração dele estava expandido e pressionando os demais órgãos da caixa torácica, deitar traria-lhe muita dor. Mas ele nunca reclamou de dor alguma! Só decidi levá-lo ao hospital porque ele começou a salivar muito, estava febril e parou de comer.

Não sei se o estresse de tirá-lo daqui de casa foi demais para seu coração ou se ele realmente não aguentaria muito mais tempo, mas só sei que ele morreu assim que chegou no hospital. Uma das últimas memórias que tenho dele foi de quando abri o porta-malas e ele fez um esforço enorme para entrar lá dentro, como se soubesse que a ajuda que tanto havia nos pedido com seu olhar nos dias anteriores finalmente viria. Isso cortou meu coração e não parei de pensar que fiz a escolha errada.

Mas a ajuda estaria vindo e ele ficaria bem. Pelo menos era o que eu achava. Eu não acreditei, até o último segundo de sua vida, que ele iria me deixar para sempre. Meu cachorro se foi e levou uma parte de mim com ele. Meu peito está oco. Não deixa de ser engraçado que quem tinha sido nomeado em homenagem ao cara que supostamente traria a esperança de volta para os Estados Unidos foi-se justamente agora, em tempos tão desesperançosos.

Me desculpa, Obama, por não ter sido tão presente em sua breve vida como eu gostaria de ter sido. Enfrentei muitos demônios pessoais nessa última década — faculdade, primeiras viagens pro exterior, morte do meu avô, saída do armário, casamento, depressão, outra faculdade, um golpe de Estado que acabou com meu psicológico, outro namoro, uma oportunidade de emprego frustrada em Brasília, separação dos meus pais, distensão no pé, mini-amores e amizades frustradas, etc. 

Mas não deixe de pensar, por um segundo, que eu não te amei. Você esteve lá durante tudo isso e muito mais. Muitas vezes eu achava que o que eu estava vivendo era demais para mim e você me dava motivos para viver. Agora você morreu e eu morri um pouco com você. Não consigo pensar que você não estará mais aqui conforme vivo novas experiências. É estranho e assustador pensar nisso. Mas pelo menos você estava aqui quando essa experiência linda e nova que estou vivendo no momento começou.

Obrigado, Obama. Por vezes, questionei o nome que eu havia te dado, mas a verdade é que eu não poderia ter escolhido um nome melhor para você, pois em 2007 eu achava que o Obama era uma esperança e você de fato me dava esperança para viver. Sempre que eu estava triste, eu te procurava e o seu carinho me dava forças o suficiente para querer seguir em frente. Você me amava sem exigir nada em troca e isso é simplesmente lindo. Você foi mais do que um cachorro, você foi um amigo e eu sempre irei te amar.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O complexo de Gastão na comunidade gay

Ontem eu estava com uma insônia do cão causada por uma crise de ansiedade, então fui ler sobre A Bela e a Fera (2017), filme que eu havia assistido no cinema algumas horas antes. Num dos artigos que li descobri que as canções do filme original, a animação lançada em novembro de 1991, representavam uma metáfora para a epidemia da AIDS, que até 1991 havia matado cerca de 60 mil pessoas apenas nos EUA desde a descoberta do vírus causador da doença dez anos antes. As canções foram escritas por Howard Ashman, que morreu pouco antes da estreia do filme devido a complicações de saúde causadas pelo HIV, vírus até então indetectável por qualquer tipo de exame laboratorial.

É bastante óbvia de que a maldição que acomete o príncipe — jogando-lhe no ostracismo, afastando-lhe do convívio social e desgraçando também as vidas daqueles que cuidavam dele — é uma metáfora para a AIDS. A Fera, assim como um portador de HIV do início dos anos 1990, vive enclausurada, duvida da capacidade de ser amada incondicionalmente por quem quer que seja e luta contra o tempo para que um milagre a salve daquela maldição. Chamou-me mais atenção, no entanto, a relação entre a canção "Gaston", interpretada por LeFou (cuja versão de 2017 é o primeiro personagem gay de um filme da Disney) no bar, e a epidemia, muito menos óbvia.

Gastão.
Trata-se de uma canção altamente homoerótica que, na versão de 2017, com atores de verdade, tornou-se ainda mais provocativa. Ela exalta a força, a virilidade e a masculinidade do vilão, que deseja se casar com a Bela a qualquer custo. Mas o que isso tem a ver com a AIDS? Pois bem. Durante a epidemia da doença, os homens gays escondiam um de seus sintomas, a perda de peso, através da musculação excessiva. Como já havia dito, o HIV não era detectável em exames laboratoriais, então quem suspeitava que possuía a doença, para evitar um diagnóstico que lhe traria a mesma ruína da Fera, escondia os sintomas o máximo possível dos médicos e da sociedade em geral através da prática excessiva de atividades físicas.

A imagem que se tinha dos portadores do HIV na mídia era aquela de pessoas definhando na cama, emagrecendo até a morte. Como estratégia de sobrevivência num meio que já lhes era hostil antes mesmo do aparecimento da doença — inicialmente chamada pela comunidade médica de Deficiência Imunológica Relacionada aos Gays (GRID, na sigla em inglês) —, os homossexuais, mesmo aqueles que já haviam sido infectados, começaram a encher as academias para provar que eram sadios e que a doença atingia apenas uma pequena parte de sua comunidade. Essa é uma das teorias que explicam a ditadura do corpo musculoso ainda hoje vigente na comunidade gay.

É possível que Ashman exaltasse os músculos de Gastão porque era isso que ele desejava para si: um corpo que negasse a doença que lhe estigmatizava perante os olhos da sociedade. Creio, no entanto, que a canção, dado o contexto maior do filme, seja uma denúncia aos gays do tipo Gastão. Ela apresenta as características de um vilão, o que num desenho infantil sempre significa um modelo de vida a não ser seguido. Ao mesmo tempo em que exalta o corpo musculoso de Gastão, o letrista de A Bela e a Fera queria que ele não fosse seguido como exemplo pelas crianças que assistiriam ao desenho. Não é isso que deveria fazer alguém tornar-se aceito pela sociedade.

No contexto maior do filme, Gastão seria o gay saudável aos olhos da sociedade, que ataca o homossexual "amaldiçoado" para satisfazer uma multidão que canta "não gostamos do que não entendemos". O esforço de Gastão para matar a Fera e ser bem visto pelos habitantes de seu vilarejo equivale aos esforços dos gays musculosos em invisibilizar os gays magros — vistos como portadores de HIV — e conquistarem o respeito da sociedade ao se afastarem do estigma da "doença dos gays". Esta minha leitura é reforçada pela versão de 2017, pois há uma cena em que LeFou abandona o parceiro ao reconhecer que ele é o verdadeiro monstro e não a Fera.

Ainda hoje a comunidade gay reproduz a ditadura do corpo musculoso, o que não faz o menor sentido, visto que há toda uma geração de homossexuais cuja vida sexual iniciou-se quando a epidemia da AIDS já estava sob controle. Embora ainda exista a associação entre magreza e HIV tanto dentro da comunidade LGBT quanto na sociedade em geral, agora os corpos musculosos simbolizam, para os homens gays, a reconquista da virilidade que eles sentem que perdem quando saem do armário. É como se seus músculos servissem para provar para a sociedade não só que eles não têm AIDS como também que ainda são homens.

Estar satisfeito com seu próprio corpo é algo maravilhoso e se as pessoas sentem que atingem isso através da musculação, fico feliz por elas. O problema é que ainda persiste a estigmatização dos gays magros, mesmo com os estudiosos afirmando que nossa comunidade vive na era pós-AIDS. Isso ocorre porque nossa sociedade é heteronormativa e os gays dão mais valor ao que os héteros pensam deles e, assim, buscam parceiros que aparentar ter a virilidade dos homens heterossexuais. Mesmo que nós, magros, sejamos tão sadios quanto os musculosos, parte da nossa comunidade ainda está sob efeito do complexo de Gastão e continua a nos tratar como inferiores. Espero que isso não se torne um "conto tão antigo como o tempo".