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sábado, 28 de maio de 2016

Temer e a retórica nazista

Algumas coisas é definitivamente preciso ver para crer. Já tinha visto várias vezes, nas redes sociais, fotos de outdoors com a inscrição "Não pense em crise, trabalhe!", mas o impacto foi completamente diferente quando vi um anúncio com a frase ao vivo. Estava na Avenida T-6. Na ocasião, tinha ido ao Fujioka com minha mãe para comprar uma televisão e, saindo da loja, vejo o outdoor que conseguiu tirar toda a alegria da compra que havíamos terminado de fazer. A sensação que tive foi de morar numa ditadura totalitária onde é proibido discutir o porquê de uma minoria ser rica e frequentar os melhores restaurantes e bares enquanto a maioria labuta duro e nem tem o que comer direito. Parece a China onde colocam redes nas janelas das fábricas de produtos eletrônicos para evitar que os operários cometam suicídio. "Não pense em suicídio, trabalhe!". O correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, foi certeiro ao dizer que a frase do novo presidente brasileiro parecia saída do departamento de propaganda da antiga União Soviética.

"O trabalho liberta", frase contida na entrada dos campos
de concentração construídos pela Alemanha.
A crise brasileira — que não é só econômica — não é o Beetlejuice. Ela não vai desaparecer contanto que não falemos dela. Ela está por todos os lados: está no mendigo que lhe estende a mão no sinal e até mesmo na notícia da moça que foi estuprada por três dezenas de homens numa favela da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Questionar qual a ligação entre ambos os fatos e a decadência política-econômica e, principalmente, moral do Brasil, é algo que incomoda as autoridades, sobretudo aquelas filiadas a partidos que defendem que as injustiças sejam resolvidas com a intervenção da polícia ostensiva. Não é por acaso que governos autoritários interditam o debate sobre questões sociais. Quem pensa incomoda. "Não pense, trabalhe!". A negação, seguida de um verbo de discussão me lembra uma frase dita pelo ditador português António Salazar: "Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever". "Não discutimos". Como é possível uma nação crescer sem questionar seus problemas e, no caso do Brasil, sem questionar a relação desigual entre capital e trabalho?

O Brasil já tentou avançar valendo-se da retórica nazista que, ao mesmo tempo em que exigia servidão, negava à população o direito de debater sobres os problemas que afligiam-na. Em 1974, o "país do futuro" enfrentava uma crise de meningite que matou quase 3.000 crianças apenas nas duas maiores cidades do país. A ditadura militar, valendo-se da censura prévia em vigência desde 1968, proibiu os veículos de comunicação de informar à população sobre a epidemia, contribuindo para ainda mais mortes. A população não podia descobrir que o governo que reorganizaria o Brasil, que tirou-o das mãos dos comunistas comedores de criancinhas e que promovia o "milagre econômico" falhava naquilo que deveria ser o mais básico num país civilizado: garantir o direito à vida dos pequenos. Questionar o governo era questionar a própria nação e um agressivo slogan convidava os insatisfeitos com o regime a deixar o país: "Brasil: Ame-o ou deixe-o!". Assim como no governo atual, um outro slogan exigia da população que trabalhasse, ou melhor, servisse ao país: "Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil". Não é à toa que a bandeira presente no logo do governo Temer seja aquela usada até 1968. Sua publicidade inspira-se no regime militar!

"Enquanto estivermos lutando, trabalhe pela
vitória
". Pôster da Alemanha Nazista.
A servidão, ou melhor, o sacrifício coletivo pelo bem da nação é uma ideia reforçada a todo o momento nos governos autoritários, que se impõem pela força e não pelo voto (como é o caso de Michel Temer). Certa vez, Adolf Hitler proclamou que a Alemanha teria sido mais bem sucedida caso tivesse sido uma nação não-cristã: "Por que não temos a religião dos japoneses, que coloca o sacrifício pela pátria como maior bem? (...) Por que tinha que ser o cristianismo, com sua resignação e flacidez?". Por que Hitler disse isso se a ideia de que o trabalho dignifica o homem é bastante presente na Alemanha, onde Max Weber publicou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo? Porque nas mentes dos líderes autoritários Estado e governo confundem-se e quem não está pronto para se sacrificar pelo governo é visto como um traidor da nação. É essa a ideia que Michel Temer busca incutir nas mentes dos brasileiros. Conta para isso, com a ajuda de líderes religiosos como Silas Malafaia e Marco Feliciano, que incorporam mais o espírito capitalista do que o Espírito Santo. A esses líderes, não interessa um povo pensante. "Não pense em crise, pague o dízimo!".

Apesar da exigência do sacrifício, quase sempre os líderes autoritários moram em palácios luxuosos e andam em carros de luxo. No entanto, não se pode enganar a todos ao mesmo tempo. O tabloide britânico Daily Mail já percebeu a dissimulação de um presidente que propõe cortes nos gastos orçamentários com a área social manter os muitos caprichos da esposa, descrita como sendo uma versão tropical de Maria Antonieta. Tenho certeza de que até mesmo os alemães de meados da década de 1940 percebiam que seu führer levava uma vida relativamente tranquila enquanto seus filhos morriam nos campos de batalha em sacrifício pela nação. Só que, obviamente, tinham medo de dizê-lo publicamente. E aí é que está uma questão essencial para a sobrevivência do governo Temer. Começa a cair sua máscara — e também a dos grupos "apartidários" que colocaram-no no poder. Como ele fará para mantê-la e garantir-se no cargo? Será que a única coisa que ele — que assim como Hitler ascendeu ao poder graças a um golpe parlamentar — vai tomar emprestado dos nazistas será a retórica? Espero que sim.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O verão do descontentamento no Brasil


Vijay Prashad.
As praças modernistas do Brasil estiveram cheias de manifestantes durante a última semana. Eles pediam a renúncia da Presidenta — Dilma Rousseff do Partido dos Trabalhadores (PT). Multidões na Avenida Paulista em São Paulo seguraram uma faixa enorme onde se lia "Impeachment já!". Esse é o slogan dos protestos — se a Presidenta Rousseff não renunciar, então deverá ser cassada.

Por que essas milhares de pessoas querem que a Sra. Rousseff abandone o cargo? Uma erupção de escândalos de corrupção que envolve toda a elite política aparece num momento de estagnação da economia brasileira. O Brasil atualmente passa por sua pior recessão em meio século, com o crescimento econômico encolhendo. Preços baixos de commodities e um relaxamento na demanda da China são os principais responsáveis por essa queda. Não há remédio no horizonte, uma vez que a China não deve aumentar suas compras. Tampouco, assim, crescerão os preços das commodities. Dependente de ambos, uma saída para a crise brasileira nessa direção encontra-se fechada. O PT, no poder desde 2002, foi incapaz de diversificar a economia e, assim, estava vulnerável ao preço das commodities. O economista Alfredo Saad-Filho chama isso de uma "confluência de descontentamentos", baseada naqueles com preocupações imediatas — o aumento na tarifa de ônibus — e naqueles com ansiedades muito maiores — a perda de poder das classes dominantes.

Encolerizando a elite

O que chama a atenção nos protestos contra o governo Rousseff é que eles não estão vindo das favelas brasileiras e nem dos trabalhadores industriais. Em março do ano passado, a classe média-alta diplomada do Brasil saiu às ruas para uma série de marchas contra o governo. Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-Ministro das Finanças nos anos 1980, caracterizou os protestos como "ódio coletivo por parte da elite, dos ricos, contra um partido e uma presidenta". O que motivava os manifestantes, diz ele, não eram reivindicações e sim o "ódio". O que a elite brasileira odeia no governo do PT?

O PT defendeu uma ampla agenda que deu ao capitalismo uma face humana. A pobreza miserável em regiões do Brasil foi aliviada por um programa de ajuda social conhecido como Bolsa Família. O Banco Mundial afirmou que este programa "mudou as vidas de milhões no Brasil". Em troca de pagamentos em dinheiro, as famílias empobrecidas do Brasil prometem manter seus filhos na escolas e levá-los para check-ups médicos regulares. O governo afirmava que o Bolsa Família elevaria as condições de vida imediatas dos pobres — através dos pagamentos em dinheiro — e que quebraria o ciclo da pobreza intergeracional — através da educação e dos cuidados médicos.

Cerca de 50 milhões de brasileiros — um quarto da população — se beneficiou do Bolsa Família. No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística anunciou que a pobreza extrema havia sido erradicada do país. Mas, durante o anúncio, o Instituto alertou que os cortes orçamentários ao programa reverteriam esta tendência. Um terço dos fundos reservados ao Bolsa Família foram removidos do orçamento de 2016 [Nota do blog: pelo Congresso]. Isto é um indicador das tribulações financeiras do governo.

O que a elite odiou foi o aumento dos salários mínimos, a expansão de direitos trabalhistas e os privilégios agora oferecidos à classe trabalhadora para a entrada nas universidades públicas. Os benefícios à classe trabalhadora revelaram a questão social da desigualdade racial. O Brasil, um ex-Estado escravocrata, nunca lidou bem com os legados da escravidão e do racismo. Sob o PT, questões de discriminação racial e os custos do racismo para os trabalhadores se tornaram parte da discussão nacional. Isto foi um anátema para a elite.

Hábito de golpes

Durante o século passado, em intervalos regulares, movimentos políticos populares emergiram no Brasil para desafiar o arreio de ferro da elite. Toda vez que o povo se reunia por trás destes líderes, a elite — coma  assistência do Exército e dos Estados Unidos — minava a revolta das favelas e do campo. Os presidentes Getúlio Vargas e João Goulart se tornaram porta-vozes dessa frustração popular e foram ambos removidos — Vargas foi levado ao suicídio em 1954 e Goulart foi removido por um golpe militar em 1964. Em ambos os casos, a combinação das classes dominantes estabelecidas, dos militares e dos EUA geraram crises que esmagaram o país e despacharam os líderes populares. O medo de que isso faça parte da equação no Brasil atual não é infundado. Está gravado na história brasileira.

Os golpes não precisam vir mais dos quartéis. A mídia é o suficiente. No Brasil, a Rede Globo — com 50 anos de existência — agora controla mais que a metade da mídia — canais de televisão e jornais influentes — incluindo O Globo. "Não há outros meios de comunicação com influência similar no país", me conta a Professora Beatriz Bissio da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O dono da rede, Dr. Roberto Marinho, tinha uma aliança próxima com o regime militar. Seus canais tem atacado o governo Rousseff, incitando os protestos não a favor da anti-corrupção, mas contra o PT.

A questão da corrupção

No Brasil, uma frase popular é "o sistema não é corrupto; a corrupção é o sistema". A corrupção sistêmica tem sido servida a grandes levas de políticos brasileiros, não apenas aos líderes proeminentes do PT, mas também à oposição, incluindo Aécio Neves, que concorreu à presidência contra a Sra. Rousseff em 2014. Grandes lucros nas maiores empresas governamentais, Eletrobras e Petrobras, ofereceram aos políticos a oportunidade para pedir propinas. Os políticos do PT não resistiram à tentação. Mas eles não estavam sozinhos.

A mídia pediu a cabeça do PT como se ele tivesse sido o único que foi cúmplice dos escândalos de corrupção. Ela ignorou os escândalos de corrupção da oposição de direita. O Datafolha tem feito pesquisas regulares sobre os descontentamentos dos brasileiros. Mais de um terço da população diz que a corrupção é sua maior queixa, embora o resto dos pesquisados reclamam da falta de acesso a cuidados médicos e à educação, assim como a empregos. À mídia não interessa essas reclamações. Elas vão de encontro ao programa do PT. É mais fácil apontar o dedo para a "corrupção", uma ideia com apelo emocional para pessoas cuja sobrevivência enfraquece conforme observam a elite se tornando imune à crise.

O fator Lula

A Sra. Rousseff, ao contrário do Sr. Lula, não cultivou uma ligação direta com o povo. Obrigada a promover cortes no orçamento, ela não se estendeu ao público para explicar os problemas. Atacada pela mídia, a Sra. Rousseff se isolou de seus apoiadores. A confusão levou ao desencantamento. O Sr. Lula, da fábrica, e a Sra. Rousseff, da cadeia, criaram um partido — o PT — que cresceu a partir dos poderosos movimentos sociais brasileiros, tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ou MST. A Sra. Rousseff buscou o Sr. Lula para reanimar seus laços com os movimentos sociais. Ele é dos sindicatos, um homem de temperamento salgado com popularidade entre a classe operária e os camponeses.

Mas o Sr. Lula está sob investigação na Operação Lava Jato sobre lavagem de dinheiro na Petrobras. Seu papel é de pequena escala se comparado a demais abusos. A detenção do Sr. Lula e a revelação de uma gravação telefônica grampeada entre ele e a Sra. Rousseff sugerem uma conspiração maior em trabalho aqui. Faz parte do hábito da elite brasileira fomentar a discórdia para prevenir qualquer ameaça a sua estabilidade. O retorno do Sr. Lula numa época de crise econômica pode indicar uma guinada do PT à esquerda. Não havia outra escolha se não mover-se nessa direção. Seria suicida para o PT tornar-se o partido da austeridade. A convocação do Sr. Lula era para ajudar a Sra. Rousseff a mudar de curso. É isso que a elite julgou abominável. A oferta da Sra. Rousseff para o Sr. Lula assumir um cargo em seu gabinete teria imunizado-o da acusação. Agora um juiz suspendeu a nomeação.

Na sexta-feira, um milhão de pessoas se juntaram à Frente Brasil Popular para repetir o grito de Lula — não vai ter golpe. O povo, como o MST definiu, foi às ruas para defender a democracia. Este foi um protesto contra o golpe de Estado. Se a emergência destes protestos populares irá mudar a dinâmica feia do Brasil ainda não é possível dizer. Muito está em jogo neste importante país sul-americano.

Vijay Prashad leciona Estudos Internacionais na Trinity College (EUA) e é o autor de "The Poorer Nations: A Possible History of the Global South".

terça-feira, 22 de março de 2016

Às verdadeiras vítimas do comunismo

O comunismo, enquanto ideologia utópica, nunca matou nenhum ser humano. A grosso modo, o comunismo é o estágio final da revolução socialista, onde todas as desigualdades socioeconômicas desapareceriam e os indivíduos seriam plenamente iguais em direitos e deveres. Desapareceriam as classes sociais. Isso jamais ocorreu nos países ditos socialistas. Em Cuba, na China e na União Soviética, o que se verificou foi a divisão da sociedade em duas classes: os líderes e os liderados. Segundo Marx e Engels, o comunismo promoveria o desaparecimento do Estado nacional, que se tornaria obsoleto para organizar a sociedade. Com a propriedade coletiva dos meios de produção, o que acabaria com a exploração do homem pelo homem, torna-se desnecessária a existência de um Estado para mediar conflitos e impor obrigações.

Segundo os manifestantes do dia 13, eles são tão heroicos
quanto o homem do tanque. Só que Dilma não declarou lei
marcial e nem proibiu as eleições no Brasil.
Graças à Revolução Russa de 1917, o comunismo foi amplamente, se não exclusivamente, associado ao regime político e à forma de organização econômica da União Soviética. Regimes ditos comunistas chegaram a governar um terço da população mundial no início dos anos 1980 e eram caracterizados pela ditadura do partido único e pela repressão de ideias dissidentes. Em 21 de dezembro de 1991, no entanto, a União Soviética entrou em colapso após 74 anos de influência considerável sobre o mundo. Segundo Cláudio Vicentino e Gianpaolo Dorigo, em História para o Ensino Médio, essa influência se dissipou: "a capacidade [dos comunistas] de opor-se ao poder dos países capitalistas não existe mais". Os países comunistas remanescentes (com exceção da Coreia do Norte) permitem a livre competição econômica enquanto mantêm a ditadura do partido único.

Diversas vertentes do comunismo emergiram após a Revolução Russa, mas, na prática, nenhum Estado dito comunista atingiu a meta marxista de socializar os meios de produção, ou seja, dar aos trabalhadores o controle dos mesmos. No máximo promoveram a nacionalização deles. Por esta razão, diversos grupos marxistas se referem aos comunistas soviéticos e chineses não como comunistas, mas sim como capitalistas de Estado. Outro termo bastante utilizado para descrever os regimes comunistas é socialismo real, termo que denota a diferença substancial desses regimes em relação ao socialismo ideal. De fato, a China, o maior país dito comunista da atualidade, em nada lembra o ideal marxista: os chineses podem abrir empresas privadas e estrangeiros podem investir no país. Ainda não conheci turistas mais consumistas do que os chineses.

Paralelamente a isso, a repressão é brutal como na antiga União Soviética. Em abril de 1989, em meio à queda dos regimes comunistas no Leste Europeu e a uma crise inflacionária, milhares de estudantes e trabalhadores saíram às ruas para exigir o retorno da liberdade de imprensa e de expressão e da coletivização das fábricas. No auge dos protestos cerca de um milhão de pessoas ocuparam a Praça da Paz Celestial em Pequim. Inicialmente o governo chinês, liderado por Deng Xiaoping, optou por adotar um tom conciliatório com os manifestantes, mas acabou decidindo apelar para a força bruta quando os protestos se espalharam para mais de 400 cidades em meados do mês de maio. A lei marcial foi declarada em 20 de maio e cerca de 300.000 tropas foram deslocadas para a capital com o intuito de desocupar a praça.

Entre os dias 3 e 4 de junho, o Exército de Libertação do Povo começou a desocupar o local, provocando a morte de 202 manifestantes segundo as Mães da Praça da Paz Celestial. O que se seguiu após a desocupação foi a expulsão dos jornalistas estrangeiros, um maior controle sobre a mídia local e a prisão dos manifestantes e seus apoiadores. Como resultado das imagens veiculadas internacionalmente — a mais famosa delas sendo a de um homem desconhecido que, voltando das compras, se posicionou na frente de um tanque de guerra —, o governo Xiaoping foi condenado e embargado pelas principais potências estrangeiras. É interessante notar que os manifestantes não eram necessariamente adeptos de uma ideologia de direita, como o social-democrata Wu'erkaixi (que se refugiou em Taiwan) e os membros da Nova Esquerda chinesa Kong Qingdong, Shen Tong e Wang Hui.

Essa era a mídia à disposição dos estudantes chineses.
Dito tudo isso, me causa repulsa quando vejo, nas ruas da minha cidade, outdoors convocando a população a reagir contra o comunismo no Brasil. Em primeiro lugar, o PT sequer pode ser considerado um partido de esquerda mais, uma vez que Dilma Rousseff põe em prática uma política de austeridade que penaliza a classe operária que construiu e deu suporte ao partido. Em segundo lugar, com a exceção da Coreia do Norte, todos os países comunistas atuais praticam o capitalismo de Estado e possuem influência mínima sobre a política internacional quando comparados à União Soviética em seu auge. E, por último, mas não menos importante, quem compara um protesto da elite brasileira com a luta contra o regime comunista de estudantes e operários chineses defeca nos túmulos dos 202 mortos na Praça da Paz Celestial.

Os brasileiros não sabem o que é comunismo. Nem na teoria e nem na prática. Os chineses, por sua vez, sabem. Na pele. Por respeito às verdadeiras vítimas do comunismo, os camisas amarelas deveriam refletir muito antes de abrir a boca para se comparar às vítimas do comunismo. Porque eu tenho certeza absoluta que os protestos da Praça da Paz Celestial não foram convocados via outdoors e nem contaram com a ampla divulgação e cobertura da mídia local. O sofrimento dos chineses era real. Não estavam na rua porque queriam a baixa do dólar para que pudessem viajar para Miami. Não estavam revoltados porque o candidato deles perderam a eleição — queriam votar. Ainda me lembro de quando contei para uma chinesa como era o processo eleitoral brasileiro e ela arregalou os olhos para mim como se eu falasse grego. Empatizei-me com ela, assim como empatizo-me com os que estão presos por terem ousado lutar pela democracia na China. No entanto, parece que é demais exigir empatia daqueles que não possuem nem conhecimento básico de História.