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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Obrigado, golpistas!

Hoje a farsa contra a presidenta Dilma Rousseff foi finalmente consumada e seu mandato foi oficialmente abreviado pelo Congresso Nacional. Por não terem conseguido provar qual crime Dilma teria cometido, os senadores cassaram-na, mas deixaram seus direitos políticos intactos. Transformaram o mecanismo do impeachment previsto na Constituição de 1988 num voto de confiança, embora o regime de governo no Brasil seja o presidencialismo e não o parlamentarismo. Na Espanha, seria perfeitamente legal afastar o presidente de governo pelo "conjunto da obra", mas no Brasil isto é — ou era — juridicamente impossível em razão do fato do presidente ser também o chefe de Estado e o cargo, acumulando as duas funções, necessitar de certa estabilidade institucional. Assim sendo, não há outra forma de classificar o impeachment de Dilma Rousseff que não seja através da palavra "golpe". É o golpe frio do qual a revista alemã Der Spiegel falou.

Apesar de terem ajudado a instituir uma nova modalidade de golpe na América Latina, que até mesmo o jornal conservador argentino Clarín vê com cautela, não guardo rancor em relação aos partidários do golpe contra Dilma. Pelo contrário, gostaria de agradecer aos golpistas do fundo do meu coração. Desde que vocês decidiram se fechar ao diálogo e se isolar do resto da sociedade que não pensa como vocês, minha vida só melhorou. Quando vocês decidiram que sua estratégia de ação política para derrotar Dilma e o Partido dos Trabalhadores seria o ataque à própria democracia, percebi que seria obrigado a me afastar de vocês. Não quis conviver no mesmo ambiente tóxico de ódio e rancor no qual vocês vivem. Vocês desnudaram sua falta de caráter e valores morais e isso me desagradou. Assim sendo, a única opção que me restou foi conviver com pessoas que pensam de maneira semelhante a mim. Graças a vocês, golpistas, entrei em contato com pessoas maravilhosas.

Busquei me afastar de pessoas cujos valores eu percebia como dúbios. Não conseguia mais aturar mesquinhos, hipócritas e falsos moralistas. Gente que falava que não tinha "bandido de estimação", mas que celebrou o fato de Eduardo Cunha ter estado do seu lado na luta contra o PT. Gente que cobrava retidão de caráter dos políticos, mas que pede pro colega bater o ponto em seu lugar no trabalho. Gente que se diz cristã, mas que xingava uma senhora de 68 anos de idade, avó de duas crianças, de "puta" no protesto de domingo após a missa ou culto. Gente que nunca vai suportar ter que dividir as vias públicas com pobres em carros mais humildes. Gente que grita quando contrariada. Gente cujo ódio é o próprio combustível que as move e as faz sair da cama todas as manhãs. Num primeiro momento, parecia que eu havia me isolado do mundo e que não havia mais ninguém como eu ao meu redor. Mas isto não era verdade.

Lentamente, fui me aproximando de um variado leque de pessoas que também não suportam o "dois pesos, duas medidas" tão característicos dos brasileiros que se julgam informados quando na verdade estão sendo manipulados. São pessoas que, sob circunstâncias normais, eu não teria tido a oportunidade de conhecer no meu até então restrito círculo de convivência social. A primeira demonstração de hipocrisia ocorreu num templo da Igreja Católica, da qual me desvinculei logo em seguida para, felizmente, encontrar uma igreja mais afinada com os meus valores. Em seguida, ao voltar a participar de protestos de rua, descobri o quão rica é a militância progressista no Brasil. Me abri para pessoas com as quais, num passado recente, eu teria vergonha de ser visto em público. Se hoje tenho diversos amigos — virtuais ou não — de diversas partes do Brasil e do mundo, de várias etnias, orientações sexuais e identidades de gênero, é por causa do terremoto político que o golpismo causou.

Além disso, voltei a prestar a atenção na produção musical nacional. Redescobri a obra de muitos artistas graças a sua militância anti-golpe. Quem poderia imaginar que eu tenho tanto em comum com o Tico Santa Cruz, por exemplo? São artistas que fazem cultura de primeira e que dificilmente terão o reconhecimento que merecem do grande público. Nesse sentido, o serviço sueco de streaming Spotify foi de grande importância para me fazer romper o boicote à música popular brasileira imposto pelas rádios FM de Goiânia. Assim como a reação popular às organizadíssimas neo-marchas da Família com Deus pela Liberdade me aproximou de negras e negros que não escondem suas raízes, pessoas trans que não escondem sua identidade e muitos — muitos mesmo — homossexuais que, num passado recente eu teria considerado "espalhafatosos" demais. Houve também o que chamo de "invasão nordestina" aos meus perfis nas redes sociais.

Desde que vocês, golpistas, decidiram não reconhecer o resultado da eleição presidencial de 2014, eu cresci bastante. Muitas vezes, as adversidades nos impõem o crescimento. Romper laços é doloroso, mas nem sempre é maligno. Isolar-me de vocês forçou meu crescimento nas relações interpessoais — e garantiu-me uma paz de espírito inédita em minha vida. Resistir ao golpe parlamentar tem sido uma experiência fascinante de auto-conhecimento através do outro. Finalmente entendi o que significa ser cristão. Não significa dar a outra face para vocês o tempo todo. Significa estender a mão para todos que são rejeitados por vocês, que são a expressão política de uma minoria gananciosa. Significa aceitar-me e poder assumir, por exemplo, que acho um homem trans bonito e que ficaria com ele. Libertei-me do fardo que vocês representavam em minha vida. Por isso, obrigado, golpistas! O ódio de vocês me uniu em amor a pessoas incríveis. E o que o amor une, o ódio não pode separar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O evangelicalismo está embrutecendo o Brasil

Relutei em escrever esse texto. Primeiro porque não quero correr o risco de soar como aqueles trogloditas que estigmatizam as comunidades minoritárias. Segundo porque o propósito da minha escrita não é ofender ninguém. Desejo questionar ideias e não pessoas. No entanto, penso que precisamos, enquanto nação, discutir o movimento evangélico, que vem mudando drasticamente não só o perfil religioso do Brasil, como também seu perfil societário e comportamental. Conforme o país adota cada vez mais o evangelicalismo como doutrina religiosa, bancadas conservadoras crescem nos espaços de formulação de políticas públicas, tensões religiosas entram em estado de ebulição e o discurso do senso comum se torna cada vez mais intransigente com quem é visto como pecador — não raro são pessoas que já se encontram a margem da sociedade como indígenas, homo e transsexuais e usuários de drogas.

Cunha saiu desse Congresso.
Em 2015 o Congresso mais conservador desde a redemocratização tomou posse e, junto com ele, um número inédito de deputados evangélicos. Logo em seguida, foi eleito o também evangélico Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência do Poder Legislativo nacional. Cunha e a maioria dos deputados evangélicos — um exceção notável é a também carioca Benedita da Silva, do PT — defendem, por um lado, projetos de lei que dão mais liberdade à atividade econômica (lei da terceirização) e, por outro, restringem as liberdades individuais (fim do acesso à pílula do dia seguinte no SUS e do reconhecimento de famílias formadas por casais homoafetivos). Isso demonstra o quão o evangelicalismo brasileiro é alinhado ao americano, para o qual o sucesso financeiro seria uma dádiva de Deus àqueles que creem nele. Isso só não explica porque a maioria dos moradores de rua são cristãos e não ateus.

O Tea Party, embora não seja oficialmente um movimento político de cunho evangélico como o Revoltados Online, atua no mesmo sentido. Defende o fim do intervencionismo do Estado na economia enquanto enche o Congresso americano de políticos evangélicos como Carly Fiorina e Ben Carson, que são brilhantes ao questionar os direitos das minorias, mas omitem-se em questionar os escandalosos benefícios dos mais ricos. Ambos são pré-candidatos á presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. O neurocirurgião Carson seria o rosto de uma nova direita: apesar de ser negro, é conservador no campo dos costumes e liberal na economia. Uma tentativa de reaproximar os negros do partido que, num passado distante, libertou-os da escravidão. Contudo, a maioria deles apoia os pré-candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders. Carson é visto como um negro que deu sorte e agora representa a minoria rica como ele e não os negros do gueto. 

Apesar de sua retórica da meritocracia, da qual seria um exemplo vivo, o candidato desagrada aos negros menos por defender a plutocracia e mais por ser percebido como um fanático religioso, que chegou até mesmo a contradizer arqueólogos para sustentar sua fé. Os evangélicos, após anos propagando o ódio contra os grupos mais excluídos da sociedade americana na política, conseguiram se tornar politicamente inviáveis. Mesmo tendo sido os principais responsáveis pela vitória de Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980, hoje são a parcela da população que mais desperta a desconfiança do eleitorado em geral. Um quarto dos eleitores americanos — que são, em sua maioria, protestantes (21,2%), católicos (20,8%) e não-religiosos (22,8%) — afirma que não votaria num candidato evangélico para a presidência da República. Só não conseguiram os muçulmanos,  os ateus e os socialistas em rejeição.

No Brasil, no entanto, o movimento evangélico ainda está em trajetória ascendente, embora, penso eu, figuras polêmicas como Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Marco Feliciano e o próprio Eduardo Cunha contribuem para a saturação do mesmo. Aqui em nosso país convencionou-se, por ignorância e preconceito, chamar todo e qualquer cristão que não fosse católico de "evangélico", o que distorce o real número de adeptos do evangelicalismo. As denominações luterana, anglicana (da qual faço parte), presbiteriana, metodista e batista em nada se assemelham à leitura do Evangelho proposta pelas igrejas evangélicas. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma tentativa de fazer uma leitura mais literal da palavra de Cristo. Buscam seguir os primeiros cristãos — que na verdade eram judeu-cristãos, pois não haviam rompido por completo com o rabinato —, como se fosse possível aplicar as normas sociais vigentes em Israel do século I no Brasil de vinte séculos depois.

A tentativa de "purificar" o cristianismo, de fazê-lo retornar a suas raízes, gera anomalias sócio-comportamentais. A repressão sexual imposta pela moral cristã evangélica consegue a façanha de ser ainda pior do que a católica. Porque a interpretação deles diz que Jesus era contra a homossexualidade e o amor livre, querem impor essa interpretação para todos. Desejam impor ao Brasil a sharia cristã. Quem nunca ouviu um fiel evangélico dizer que a Bíblia é mais importante do que a Constituição? É muito cômodo apontar os horrores do Daesh (ISIS), que deseja criar um Estado Islâmico entre a Síria e o Iraque e fecharmos os olhos para o projeto de poder semelhante de alguns líderes evangélicos. Os militantes islâmicos são loucos por se sujeitarem a uma dinâmica social onde o prazer é pecado e a vida limita-se a observar as leis de Deus escritas por homens há milhares de anos. Mas só os islâmicos, os evangélicos radicias não?

Métodos diferentes, mesmo propósito.
Graças a Deus, nem todo evangélico é assim. A rejeição a estudos, análises e interpretações da palavra de Deus à realidade concreta dos fiéis não ocorre em todas as igrejas evangélicas, assim como nem todos os seguidores de Maomé desejam subjugar os seguidores de outras religiões.  Da mesma forma que há uma ímã mulher em Los Angeles, há pastores evangélicos gays. Nem todo evangélico crê na necessidade de se engajar numa jihad (guerra santa) contra os valores que percebem como contrários à palavra de Deus para propagar o Evangelho de Jesus Cristo. No entanto, são as figuras mais barulhentas, odientas e explosivas que chamam mais a atenção da população em geral para o movimento evangélico. Por que entrevistar um teólogo esclarecido como Ricardo Gondim se o pregador do ódio Silas Malafaia dá mais ibope? A imprensa também tem sua parcela de culpa na proliferação do discurso de ódio entre os evangélicos.

Mas a quem serve um Evangelho que oprime as criaturas de Deus? De que adianta seguir o carpinteiro humilde da Galileia que salvava adúlteras do linchamento e condenava o acúmulo de riquezas se hoje aplaudimos o homem que espanca a esposa infiel pega no motel com outro e valorizamos os bens materiais mais do que nossas próprias vidas? A Reforma Protestante, sem a qual nenhuma dessas igrejas existiriam, surgiu da revolta contra a mercantilização da fé e também contra as doutrinas, regras e normas inexistentes na Bíblia inventadas pelos bispos de Roma — tais como o celibato de sacerdotes, a proibição do divórcio e a virgindade perpétua de Maria. E, por falar em Maria, é interessante notar que a repressão religiosa recai sempre de forma mais severa sobre os corpos femininos. Não foi à toa que 15 mil mulheres marcharam na Avenida Paulista contra o projeto de poder de Eduardo Cunha, que não prevê o aborto em casos de estupro. 

A alguns líderes evangélicos não basta orientar suas próprias fiéis quanto à questão reprodutiva. Querem regular os corpos de todas as brasileiras, sejam elas católicas, protestantes, espíritas, judias ou ateias. O Brasil deve retroceder vários anos enquanto nação e se livrar da pílula do dia seguinte e do aborto. Não porque a comunidade científica regulou que são invasivos. Mas porque uma parcela minoritária da comunidade religiosa nacional se incomoda com tais métodos que, embora invasivos, evitam o nascimento de crianças que podem ser abusadas, maltratadas e abandonadas por mães que não lhes queriam, o que traz consequências desconhecidas para a coletividade. Interessante notar que a violência sexual contra as mulheres propriamente dita — motivos pelos quais o SUS distribui pílulas do dia seguinte e realiza abortos — parece não incomodar esses líderes religiosos. Condenam mais o aborto do que o estupro que leva as mulheres a procurar tal procedimento.

Charge de Vitor Teixeira.
A liberdade de culto garantida por nossa Constituição federal não é absoluta. Um conceito interessante do Direito é que nenhum direito termina em si mesmo e pode se sobrepor sobre os demais. É o famoso "o meu direito acaba quando começa o do outro" no ditado popular. O cidadão pode escolher, sem moléstia, se quer seguir uma religião. Mas ele não pode querer impor sua religião sobre as religiões dos demais cidadãos. A partir do momento em que líderes religiosos passam a decidir o que professores devem ensinar na sala de aula, que medida o SUS deve adotar para atender mulheres vítimas de estupro e quais arranjos podem ser considerados famílias, observa-se uma invasão do Estado laico por forças religiosas, estranhas ao Direito. Tais forças atuam em defesa da visão de mundo de apenas alguns em detrimento da coletividade, ampla e plural.

Aos poucos, o evangelicalismo embrutece o Brasil. Seus líderes radicais querem substituir a defesa do bem estar — seja de mulheres vítimas de estupro ou de crianças que podem ganhar um lar com um casal gay — pela interpretação que a igreja deles fazem do Evangelho. Interpretação essa que não é consensual nem mesmo entre os teólogos. Ao contrário da Constituição, a Bíblia admite várias interpretações. Na minha igreja, por exemplo, entende-se há mais de 15 anos que Jesus não rejeitou os homossexuais. De fato, não há uma menção sequer à homossexualidade em nenhum dos quatro Evangelhos — há em escritos posteriores, de autoria de homens que, ao contrário de Jesus, eram falíveis, e em escritos anteriores, como o Levítico, que o próprio Jesus violou. Por que então é a visão da Assembleia de Deus e não a da Igreja Episcopal Anglicana que deve ser ecoada na legislação brasileira? O Estado ser laico significa que ele deve respeitar ambas as visões, e não colocar uma acima da outra, observando sempre o princípio maior que é a garantia da dignidade humana.

Não é do pôster que a tropa de Cunha quer se livrar.
O que interfere na vida de um evangélico se há membros de outras doutrinas religiosas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e abortam? Ora, se eles acreditam que a homossexualidade e o aborto são pecados, que não cometam nem um nem outro. Devem respeitar os outros como eles os respeitam. Duvido que um militante gay ou feminista se julgaria apto a ensinar o padre a rezar a missa, ou melhor, o pastor a celebrar o culto. A tentativa de impor um único ponto de vista sobre os demais, sobretudo através da violência, seja ela simbólica (episódio do chute na santa ou quando Malafaia disse que gays mereciam apanhar) ou real (agressões a praticantes de religiões afro e destruição de seus templos), é o primeiro passo rumo ao fascismo. Cabe a nós, cristãos moderados, lutar contra o embrutecimento que impõem ao Brasil. Devemos agir enquanto é tempo, porque o que os radicais querem não é se livrar do pôster exposto nos corredores da Câmara que mostrava Daniela e Malu se beijando. Eles querem é se livrar delas!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A guerra civil brasileira

Eu entendo seu sofrimento, morador da orla de Copacabana. Afinal, também sou homem, cisgênero, branco, de classe média alta, com diploma de ensino superior e cristão no Brasil. Nossa vida realmente é muito sofrida!  
Adaptado de um comentário de um americano numa página do Facebook ironizando outro americano, islamofóbico.

Às vezes minha mente entra em curto-circuito com algumas informações. Recentemente isso aconteceu quando recebi a notícia de que jovens – brancos – do Rio de Janeiro estavam marcando, via WhatsApp, ataques a ônibus que trazem outros jovens – negros – para as praias mais famosas do mundo. Simultaneamente, no município vizinho de Niterói, pipocaram cartazes, imediatamente retirados pela prefeitura, de um grupo que afirma ser o capítulo local da Ku Klux Klan. Para quem não sabe, a KKK é um grupo formado por estadunidenses brancos e protestantes que perseguem violentamente as minorias sócio-políticas daquele país: negros, judeus, católicos, ateus, imigrantes e socialistas. O motivo para a escalada do fascismo à carioca seria o aumento dos arrastões nas praias do município, amplamente divulgados pela mídia comercial. Em Portugal, o discurso irresponsável da mídia ao noticiar um falso arrastão gerou uma onda xenófoba na sociedade. O caso é estudado nas faculdades de jornalismo como um exemplo do poder da mídia para reforçar preconceitos.

O fato concreto é que o Brasil está passando por uma guerra civil que se intensificou desde que a presidenta Dilma Rousseff, do outrora socialista Partido dos Trabalhadores, foi reeleita há cerca de um ano. Embora o PT seja mais semelhante a um partido europeu de centro-direita, ele é percebido, devido à demografia de seus eleitores, como uma ameaça à manutenção do status quo. Mesmo que Dilma tenha cedido ao Deus mercado e esteja governando seguindo a cartilha liberal de seu adversário, o barco fascista no qual os eleitores anti-PT mais fervorosos embarcaram não foi afundado. Pelo contrário, foi fortalecido por uma mídia e por uma oposição que deixou-se guiar por pupilos de um astrólogo que se diz filósofo e luta contra uma ameaça comunista inexistente na sociedade brasileira (o PT foi o partido que mais trouxe lucros aos bancos, alardeou Lula diversas vezes). É interessante para a mídia e para a oposição manter esse barco no mar da política brasileira como forma de pressionar a Dilma a governar para os ricos. Assim que ela hesita em tomar uma medida impopular, eles organizam e promovem atos pró-impeachment.

Agora que a presidenta enfim cedeu às pressões daqueles que nada produzem e vivem de roubar o patrimônio dos brasileiros, a Rede Globo, ela mesma alvo dos fascistas em tais manifestações, arrefeceu seus ânimos golpistas. No entanto, a mídia criou e alimentou por anos uma legião de fascistas que odeia todo mundo que não se parece com os membros da turba (um gari, negro, foi expulso de um protesto anti-Dilma acusado de ser petista). Essa turma não irá desaparecer tão cedo. De maneira semelhante, o principal partido de oposição, que ironicamente se chama Partido da Social Democracia Brasileira, na ânsia de ganhar a eleição presidencial após três derrotas sucessivas, atraiu para si o pior tipo de ser humano. Não estou generalizando. Há gente boa e ruim em todos os locais e partidos políticos não são exceção. Mas tenho razões – pessoais, inclusive – para acreditar que o eleitorado do PSDB caiu de nível desde 2010. Ao invés de apresentar propostas, o partido vale-se do ódio ao PT e aos que votam nele para tentar ganhar a presidência da República. Se chegar lá, seu eleitorado recém-conquistado exigirá do PSDB a exclusão daqueles identificados como petistas – negros, índios, LGBTs, mulheres emancipadas, etc.

Eu senti na pele o ódio ao eleitorado petista. Na véspera do segundo turno da eleição presidencial do ano passado, na madrugada de 25 para 26 de outubro, saí com um amigo, também gay. Fomos a uma boate e depois a uma lanchonete no centro da cidade. Foi então que tivemos a "brilhante" ideia de pegarmos um táxi na porta de outra boate. No caminho, parou um carro com rapazes – brancos – muito bem vestidos. Um deles, visivelmente com a consciência alterada por alguma droga, desceu com uma arma na mão e levou a carteira e o celular do meu amigo. Quando chegou minha vez, congelei e não consegui sequer colocar a mão no bolso. Aí ele viu que eu estava com um adesivo escrito "Comunidade LGBT apoia Dilma" no peito e me espancou. Levei uma coronhada no rosto e um chute que fraturou uma vértebra. Por um milagre ainda estou vivo, afinal de contas ele poderia muito bem ter dado um tiro na minha cara e fugido diante da minha recusa. Eu seria apenas mais uma vítima da guerra civil brasileira que silenciosamente extermina negros, índios e LGBTs todo santo dia. Quando penso que o PSDB se tornou representante de gente que faz isso, tenho muito medo.

A elite brasileira, como demonstra um vídeo de uma reportagem do final dos anos 1980 que viralizou essa semana, sempre existiu. No entanto, as novas tecnologias permitem aos fascistas coordenarem seus ataques contra aqueles que são encarados como ameaça a seus direitos (que não foram construídos, mas sim herdados), sejam eles índios Guarani-Kaiowá ou jovens de pele escura que querem curtir a praia de Copacabana ou Ipanema após trabalharem 44 horas por semana no morro. Uma fala que ouvi no meu primeiro ano na faculdade de jornalismo me marcou muito. Eliani Covem, professora e coordenadora do curso, disse algo como "temos que nos lembrar que, apesar da favela sempre ser mostrada como local de crimes, a maioria das pessoas que moram nela são honestas". Até então eu – e tenho até vergonha de admitir isso – tinha uma ideia lombrosiana de que a pessoa seria mais propensa para o crime devido ao local geográfico em que ela nasceu. Infelizmente, por uma série de fatores socialmente construídos, é assim que a maioria dos brasileiros pensa. 

As escolas privadas que aprovam quase todos seus alunos em vestibulares concorridíssimos ensinam a seus alunos tudo sobre a biologia humana, mas falham em ensinar o básico: que somos todos iguais, independente de onde nascemos. As emissoras de televisão, que pertencem a todos nós e são concedidas pelo Estado a empresários privados, mostram as favelas como antros do crime. É risível o tratamento dispensado a criminosos pobres e ricos. Ao cobrir os arrastões, os jovens negros são retratados pela mídia como "menores", mesmo as vítimas. Por outro lado, ao cobrir os linchamentos marcados por WhatsApp, a mídia se refere aos jovens brancos como "jovens", mesmo que eles estejam em flagrante conflito com a lei, que não permite ações paramilitares. Quando os filhos de figurões cariocas atropelaram e mataram pessoas, a mídia só faltou dizer que os carros de luxo deles foram atropelados por um ciclista e por um pedestre. A mídia promove um dualismo que nem sempre existe no mundo real, afinal o real é complexo e o virtual é simplificado. Dessa simplificação, nasce a ideia de que certos setores da sociedade são intrinsecamente ruins e devem ser extirpados.

O fascismo brasileiro, que alimenta a guerra civil invisível, surge nos pequenos comentários que por vezes deixamos passar batido. Começa na tentativa de eliminar o ritmo musical mais ouvido pelo povo e termina na tentativa de eliminar o próprio povo. Transforma o Brasil no campeão mundial de assassinatos de trans, homossexuais e ativistas do campo e em vice-campeão de assassinatos de jovens negros. São os bodes expiatórios da guerra contra o povo. É comum as elites elegerem um bode expiatório para continuarem lucrando, sobretudo durante crises. Nos anos 1930, Hitler prometeu o enriquecimento dos alemães de classe média e alta através da expropriação das propriedades de judeus que, segundo ele, seriam os responsáveis por controlar a maior parte da riqueza nacional. Donald Trump pretende expulsar os imigrantes mexicanos que estariam roubando os empregos dos americanos, enquanto Marine Le Pen pretende se tornar a primeira presidenta da França valendo-se do medo dos imigrantes algerianos. Vale notar que mexicanos e algerianos estão mudando rapidamente a demografia de ambos os países, assim como a Era Lula mudou a demografia de shoppings, universidades e aeroportos.

Enquanto eu puder escrever, denunciarei as tentativas de calar a voz dos oprimidos. Embora homem, cisgênero, branco, de classe média alta, cristão e com ensino superior completo, como afirmei na epígrafe desse texto, também sou homossexual. E isso muda toda a minha percepção de mundo, fazendo-me identificar com os membros de outros grupos igualmente oprimidos. Creio ter sido isso que motivou a rebelião poética de Cazuza contra sua classe social. Assim como na época do poeta, os tempos atuais são duros, mas eu não tenho medo. Um dia os oprimidos perceberão que são maioria e, quando isso acontecer, não haverá grupo de WhatsApp, comentário de jornal ou textão do Facebook capaz de conter a verdadeira expressão popular do Brasil. É uma pena termos perdido um importante aliado nessa luta: o PT, que escolheu trilhar o caminho do SPD dos anos 1930, quando perdeu sua influência e seus votos para o Partido Nazista após ter capitulado para a direita. Tenho, no entanto, confiança na maturidade dos movimentos sociais, que cada vez mais se unem contra as tentativas de criminalização e extirpação dos oprimidos. Como afirma Kiko Nogueira, é preciso lutar contra essa loucura, mesmo que não dê em nada.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Brasil, campeão da transfobia

Imagem que circulou nas redes sociais após a morte de Laura.
Estava planejando publicar um texto sobre Laura Vermont, transsexual de apenas 18 anos morta pela Polícia Militar de São Paulo no último dia 20 de junho. Antes de começar a escrevê-lo, no entanto, me deparei, anteontem, com a notícia de que Viviany Beleboni, mais conhecida como a transsexual crucificada da Parada LGBT de São Paulo, foi esfaqueada no último sábado na mesma cidade. Decidi, então, juntar os dois casos para escrever este post denunciando aquele país que é o líder mundial em assassinatos de pessoas trans segundo a ONG Transgender Europe. O país que se orgulha de ter a maior parada LGBT do mundo é também o mesmo onde mais se mata pessoas trans. De janeiro de 2008 a abril de 2013, 486 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, número quatro vezes maior do que no México, país que é o segundo colocado no ranking da Transgender Europe.

O caso de Laura Vermont me chamou a atenção porque ela era aceita pelos pais, o que já é bastante raro em nossa sociedade que não é somente homo-transfóbica; é também "outrofóbica", pois teme todos aqueles que fogem de um padrão social pré-estabelecido, todos que não se parecem com os detentores do poder. Agora que a homossexualidade torna-se relativamente aceitável pelo poder estabelecido, tornando-se visível em propagandas de perfume e telenovelas, os grupos conservadores voltam-se contra a minoria mais fragilizada da sigla LGBT contando, para isso, com o apoio fundamental de integrantes da própria comunidade - que, por sua vez, desejam aparecer em mais propagandas e ser aceitos pelo poder estabelecido, que impõe as normas sociais que valorizam os heterossexuais em detrimento dos LGBTs. "Gays chegaram a me falar que sou porca, que manchei a parada", desabafou Viviany à época da polêmica. Mesmo na dita esquerda política foi comum encontrar pessoas denunciando a performance de Viviany como um ato de provocação que não levaria a nenhuma conquista real. Esquerda que tem medo de lutar para mim não é esquerda.

Laura, vítima do Estado
À Laura, contudo, não bastou ser aceita pelos pais. Após ser espancada na rua, ligou para o 190 pedindo ajuda. É muito provável que se não tivesse buscado a ajuda do Estado ainda estivesse viva. Os policiais chegaram e, se deparando com aquele ser inofensivo, andando de maneira desnorteada na rua e sangrando pela boca, pelo nariz e por todos os lugares possíveis, tiraram-lhe a vida. Afinal, se ela estava na rua de madrugada é porque deveria ser uma prostituta e prostituta é menos ser humano do que a filha do coronel. Se for trans, então, aí é que desce ainda mais na escala dos oficiais da PM do que é um ser humano merecedor da vida. Ao contrário do que diz a lei, a PM não serve para proteger a todos nós sem distinções de gênero, classe ou qualquer outra. Serve para fazer a limpeza social das ruas de São Paulo e das grandes cidades do Brasil, pondo em prática a cartilha "outrofóbica" dos detentores do poder através da eliminação dos símbolos visíveis da exclusão social - meninos de rua, sem-teto, imigrantes, usuários de drogas, prostitutas e travestis - com os quais esse poder que gera a exclusão não quer lidar. Antes de descobrirem que gays também podem ser ricos, a PM também matava-os de maneira indiscriminada.

Laura foi apenas mais uma vítima de uma sociedade misógina e preconceituosa que, como último país das Américas a abolir a escravidão, ainda carrega em sua elite as marcas da escravidão, da sociedade de castas. Quando os gringos descobrem que o Brasil é um país sexualmente conservador e intolerante, eles se chocam. Afinal de contas, o maior produto de exportação do Brasil são as mulatas do Carnaval carioca. Somos tolerantes apenas para inglês ver. Num episódio do seriado de animação Os Simpsons, Homer e sua família viajam para o Brasil para descobrir o paradeiro de um órfão patrocinado pela Lisa. Nele, Marge vê homens vestidos de mulher e conclui que no Carnaval é permitido brincar com a própria sexualidade. Mas é só durante essa época do ano. Nos outros 360 dias, as pessoas que se vestem com roupas características do sexo oposto àquele de sua nascença são brutalmente atacadas, seja verbal ou fisicamente. Inclusive pela polícia, que age de maneira ainda mais odiosa que os próprios homo e transfóbicos. Taí o caso da jovem Laura Vermont que não me deixa mentir. Queremos silenciar o discurso de respeito às diferenças porque continuamos querendo ser uma sociedade excludente.

Viviany, pega para Cristo
Assim como Viviany, Jesus também foi acusado de blasfêmia.
Foto: minissérie The Bible.
Viviany Beleboni foi xingada durante sua performance na Parada Gay não por estar depreciando um símbolo da fé cristã. Isso foi o de menos. As igrejas reformadas não aceitam a iconolatria. Quem deveria ter se indignado com o fato de Viviany ter se colocado numa cruz - a Igreja Católica - não se manifestou. O que incomodou foi o fato de uma pessoa trans estar a exigir respeito e visibilidade para ela e para aqueles que são como ela. E ter conseguido fazer com que sua mensagem ecoasse na sociedade. Cristo foi executado numa cruz por ser diferente. Ele se recusava a seguir as leis judaicas ao pé da letra e se afirmava como filho de Deus. Assim sendo, tinha que ser executado por blasfêmia. Viviany fez uma acertadíssima analogia entre o sofrimento de Cristo e o sofrimento daqueles que, como ela, são agredidos por se recusarem a seguir as normas sociais. Pode ter ofendido às legiões de falsos cristãos que acham que a interpretação da mensagem da Bíblia depende de líderes, mas não ofendeu àqueles que entendem que há muito mais semelhanças do que diferenças entre a vida de Jesus Cristo e a vida dos oprimidos.

Em meio a tanta imbecilidade cristã, o Papa Francisco protagonizou um ato ousado no Vaticano no último dia 24 de janeiro: recebeu o transsexual espanhol Diego Neria Lejarraga. A Igreja espanhola, como já é de conhecimento de todos, é uma das mais reacionárias do mundo, tendo servido de alicerce para a ditadura fascista de Francisco Franco. Diego, ao adotar a identidade de gênero masculina, foi proibido pelo padre de sua comunidade de comungar, sendo apelidado de "filha do Diabo" pelos fiéis locais. O ocorrido levou Diego a escrever para o Papa, que o recebeu na residência de Santa Marta no Vaticano. Enquanto isso, líderes de igrejas neopentecostais brasileiras atuam como afirmadores do status quo ao incentivar seus liderados - em sua maioria pessoas com escolaridade baixa - a atacar aqueles que já são os mais oprimidos pelos poderes estabelecidos. "Você é um demônio, tem que morrer, o pastor está certo", ouviu Viviany antes de ser agredida. O líder da maior Igreja cristã do mundo discorda.

Papa Francisco abraça transsexual. Enquanto isso, líderes
cristãos incentivam atentados à vida de Viviany Beleboni.
Segundo Viviany, a vontade que ela teve, após a agressão, foi de cometer suicídio: "Fui pra casa, minha vontade era morrer, porque eu não aguento mais". Boicotada desde a performance na Parada LGBT de São Paulo, ela não consegue arranjar emprego desde então. Viviany vive com medo: medo de ser agredida, medo de ser assassinada, medo de nunca mais trabalhar. Espero do fundo do meu coração que Viviany reconsidere as declarações que deu ao site Ego. Que ela resista ao medo e à dor e que consiga, de alguma forma, encontrar a alegria no ato de viver. Nossa sociedade precisa de pessoas como ela. Pois são pessoas como ela que expõe como nossa sociedade é doentia. Uma sociedade que venera um carpinteiro assassinado na cruz por não ser membro da elite religiosa judaica, por ousar pregar o amor num tempo de ódio, por tentar reformular as leis religiosas, mas é incapaz de sentir compaixão por aqueles que são as vítimas das elites atuais. Se Viviany tirar sua vida, então os "outrofóbicos" terão vencido. Não é o que queremos. Queremos apenas o direito de existir das minorias. Se a nossa mera existência ofende alguém e inspira discursos genocidas, então quem tem problemas psicológicos não somos nós.