Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Há 80 anos, fascistas matavam a poesia na Espanha


Federico García Lorca (1898–1936)
Há exatos oitenta anos, no início da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o conhecido poeta e dramaturgo Federico García Lorca foi assassinado por soldados fascistas. Um mês antes de morrer, aos 38 anos de idade, Lorca havia terminado de escrever a peça A Casa de Bernarda Alba que, com Bodas de Sangue Yerma, faz parte de sua trilogia rural. A morte, presente nas três peças, é um tema artístico central de sua breve vida. Dez anos antes de ser assassinado, quando morava em Nova York e acompanhou o desespero gerado nas pessoas pela quebra da bolsa, Lorca parece ter previsto o destino violento que encontraria ao compor os seguintes versos: "Então eu percebi que fui assassinado / Me procuraram em cafés, cemitérios e igrejas / Mas não me acharam / Eles nunca me acharam? / Não, eles nunca me acharam". O mais assustador em sua premonição é que até hoje seu corpo não foi, de fato, encontrado.

Poucos artistas representaram e encarnaram o espírito coletivo de sua nação tão bem quanto Lorca – o que torna sua morte ainda mais emblemática. A morte de Lorca precedeu a censura que matou a arte na Espanha. Logo após a eclosão da Guerra Civil, em julho de 1936, Lorca tomou a decisão desastrada de deixar o seguro enclave de Madri para ficar com seus familiares em Granada, a região conservadora em que nasceu. O interior da Espanha e seus costumes fascinavam Lorca, que retratou-o em suas peças. Imediatamente após sua chegada, Granada foi sitiada pelo partido político paramilitar que orquestrou o golpe de Estado contra o presidente Manuel Azaña, a Falange Espanhola. Apesar de cultivar uma imagem pública de artista apolítico, sua associação com a República, suas peças contra a repressão e algumas declarações anti-católicas em entrevistas transformaram Lorca num alvo em potencial dos conservadores. Outro fator que contribuiu para o ódio dos falangistas ao poeta era sua homossexualidade.

Lorca manteve-se escondido, mas os falangistas caçaram-no até o dia 16 de agosto, quando foi preso e condenado à morte sem base legal ou julgamento. Às três da madrugada de 19 de agosto, foi algemado a um outro prisioneiro – um professor – e lavado de carro a um prédio chamado La Colina na cidade Viznar, que a Falange havia transformado em presídio para prisioneiros políticos. Pouco após o amanhecer, Lorca foi levado para o lado de fora do edifício, onde foi fuzilado ao lado do professor e de dois toureiros, membros do sindicato anarquista CNT. Segundo uma testemunha, o poeta foi levado para uma sala antes da morte, onde foi torturado devido a sua homossexualidade. Lá, balas foram enfiadas em seu ânus. Após o fuzilamento, o corpo de Federico García Lorca, um dos maiores escritores do século XX e um dos filhos pródigos da Espanha, foi lançado sem cerimônia num barranco, que em breve se tornaria uma vala comum para as vítimas dos falangistas.

Barranco de Viznar, onde o corpo de Lorca teria sido jogado.
Após seu fuzilamento, os livros de Lorca foram queimados publicamente na Plaza del Carmen em Granada e, com a ascensão ao poder do caudilho Francisco Franco, sua obra foi rapidamente banida de todas as províncias da Espanha. Anticlericalismo, republicanismo e liberdade não eram valores que interessavam ao novo regime integralista, que promovia o nacionalismo, o militarismo, o catolicismo, o anti-comunismo e o anti-libertarismo. E a homossexualidade? Existe algo mais subversivo para um governo escorado no fundamentalismo católico da Opus Dei do que relações entre pessoas do mesmo sexo? Em 1953, uma versão censurada das Obras Completas de Lorca foi lançada. Entre as ausências mais notáveis da antologia encontra-se o poema homoerótico "Sonetos do Amor Obscuro", escrito em 1935. Este era considerado perdido até os anos 1980, quando foi publicado na forma de rascunho, uma vez que a versão final do poema jamais foi encontrada.

A última peça de Lorca, A Casa de Bernarda Alba, só foi encenada pela primeira vez em 1945 em Buenos Aires. Vinte anos mais tarde, uma versão censurada da peça foi apresentada na Espanha, mas a censura ao resto da obra do poeta só terminou após a morte do caudilho em 1975. Durante o francoísmo, menções à vida e à morte do poeta também foram censuradas. Para a narrativa oficial dos vencedores da guerra, Lorca nunca existiu. Foi somente após a morte de Franco, em 1975, que a Espanha pôde finalmente discutir abertamente sobre a morte de um de seus maiores ícones literários. Além da censura política, havia uma relutância da família García Lorca em permitir a publicação de seus poemas e de suas peças. Era um trauma que não estavam prontos para reviver. Devido ao fato de ter se tornado um assunto proibido por 36 anos, até hoje não se sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Atualmente suas peças são encenadas frequentemente na Espanha.

Monumento em Viznar: "Lorca era todos". Era? A depender
da direita brasileira, histérica, Lorca serei eu.
Embora imagina-se que exista um dossiê sobre o assassinato de Lorca, a falta de emersão do mesmo continua a atormentar sua família. Em 2009, um juiz espanhol abriu uma investigação sobre as circunstâncias do assassinato de Lorca e a família do poeta finalmente permitiu que fosse realizada uma busca a seus restos mortais no Barranco de Viznar. Segundo Ian Gibson, biógrafo de Lorca, esta ação foi adiada por tempo demais: "Acho que é essencial encontrar o corpo, em respeito à memória de Lorca. Só sua morte renderia 100 livros... Lorca pertence à humanidade e não a sua família. Ele é um emblema que deu sua vida pela Espanha. Ele é um mártir". Apesar da iniciativa, nada foi encontrado no local. Enquanto o assassinato de um dos maiores poetas do século passado é relembrado em todo o mundo, o Brasil ataca seus poetas e deixa-se fascinar pela mesma histeria fascista que permitiu à Espanha matar sua arte e embarcar em 36 anos de trevas. Como escritor, gay e libertário (assim como Lorca) não posso deixar de me incomodar com este paralelo histórico.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A terapia de choque no Brasil


A implementação à força de uma política econômica de desregulamentação e de livre mercado – os princípios guiadores do economista americano Milton Friedman – é quase sinônimo de desastre econômico, intervenção militar e aumento da pobreza. Os EUA têm utilizado táticas extremas para injetar instabilidade e depois o neoliberalismo em diversos países ao redor do mundo – mais notoriamente no Chile, na Rússia e no Iraque. Isto é o que afirma o documentário de 2009 The Shock Doctrine (Mat Whitecross/ Michael Winterbottom), baseado no livro epônimo da ativista e cineasta canadense Naomi Klein.

O Dirty Movies identificou um padrão comum entre o que aconteceu nesses três países e os desenvolvimentos políticos no Brasil. Esperamos que este artigo irá chamar a atenção para a atual situação no país latino-americano. A "doutrina de choque" inclui guerra e, às vezes, tortura como passos necessários rumo à mudança econômica. O Brasil não deveria se tornar mais um país nessa lista.

O psiquiatra nascido na Escócia Donald Ewen Cameron conduziu, de maneira controversa, terapia de eletrochoque em seus pacientes nos EUA sem o consentimento explícito deles nos anos 1940 e 1950. Muitos desses pacientes ficaram permanentemente em coma ou incapazes de viver sem assistência médica. Klein revela que Milton Friedman conduziu um experimento muito semelhante em várias nações ao redor do mundo como forma de provar sua teoria de economia de livre mercado e até mesmo utilizou a palavra "choque" para descrever suas táticas. Os resultados foram desastrosos, exceto que neste último caso as vítimas foram nações inteiras.

Três países, três batalhas

Os EUA tiveram papel fundamental na derrubada do governo democraticamente eleito de Allende no Chile em 1973. Ajudaram a acabar com 41 anos de governo pacífico a favor de um modelo neoliberal que se consolidou através de prisões massivas, tortura descontrolada e assassinatos, tudo isto personificado na figura militar do General Augusto Pinochet.

Essas táticas "chocaram" o país em ao caos ao inventar uma narrativa de guerra contra supostos marxistas. A premissa era "salvar o país do caos do comunismo", mas teve claramente o efeito precisamente oposto: o país mergulhou no horror e na pobreza, com as conquistas sociais de Allende sendo rapidamente desmontadas e a inflação atingindo 375% em 1974, a maior no mundo de então. Tornou-se evidente que a liberdade de mercado é incompatível com a liberdade individual e a prosperidade social.

Margareth Thatcher alegremente ofereceu ajuda aos EUA nos anos 1980 para destruir a União Soviética. O líder soviético Mikhael Gorbachev queria implementar uma mudança gradual na União, visando adotar um modelo escandinavo de socialismo, mas acabou sendo forçado a implementar reformas radicais por seus "amigos" ocidentais (os Friedianos descarados Thatcher e Reagan). Seu sucessor, Boris Yeltsin, aliou-se mais ainda aos interesses neoliberais e os EUA apoiavam-no enquanto ele literalmente travava uma guerra contra o parlamento.

Esta guerra – que incluiu o ataque de tanques à Casa Branca russa (foto abaixo) – "chocou" o país a aceitar as reformas profundamente impopulares de Yeltsin. Como resultado, quase metade da população da Rússia passou a viver abaixo da linha da pobreza em alguns anos, enquanto Moscou tinha a maior concentração de milionários por metro quadrado do mundo.

Um tanque atacando a Casa Branca russa em 1993.

O "choque" no Iraque foi igualmente beligerante. Os EUA e o Reino Unido travaram uma guerra ilegal contra o país rico em petróleo do Oriente Médio, derrubando Saddam Hussein e estabelecendo um regime altamente volátil que eles chamavam de "democrático". As duas nações invasoras rotineiramente prendiam e torturavam qualquer um que quisessem, e muitos eram mandados para o limbo legal chamado Baía de Guantánamo – apenas três pessoas detidas na infame prisão caribenha foram condenados de um crime. Estas prisões, os abusos sistemáticos e as malversações eram notavelmente similares às de Pinochet, explica o documentário.

O rico fica mais rico

Friedman era inflexível quanto ao sucesso de sua política econômica de desregulamentação e de livre mercado implementada através do "choque", a despeito das evidências em contrário por todos os lados. Pouco antes de sua morte, em 2006, ele sugeriu que o desastre provocado pelo furacão Katrina em Nova Orleans deveria ser utilizado como uma oportunidade para privatizar completamente o sistema educacional de todos os EUA. Ele acreditava firmemente que a dor intensa provocava ganhos, mas nunca reconheceu que tais ganhos estavam confinados a uns poucos oligarcas.

O impacto negativo do neoliberalismo não está restrito aos países que sofreram a "terapia de choque". Também abriu a fenda econômica nas próprias sociedades dos perpetradores, os EUA e o Reino Unido. O filme revela que antes da era Thatcher-Reagan um chefe executivo (CEO) no Reino Unio ganhava apenas 10 vezes mais do que seus empregados, o que se elevou para 100 vezes mais nos anos 1990. Nos EUA, o mesmo dado subiu de 43 para 430 no mesmo período de tempo.

A máquina belicista neoliberal criou outras oportunidades econômicas. Por exemplo, a indústria de Segurança Interna nos EUA agora é maior do que as indústrias cinematográfica e musical juntas. o que o filme descreve como "uma nova economia construída pelo medo". Enquanto isso, o petróleo continua a ser o combustível da indústria automobilística e a guerra alimenta o mercado de armas por todo o mundo.

Retrocedendo

Gostaríamos de acreditar que a humanidade está constantemente movendo-se adiante e evoluindo, mas infelizmente nem sempre é o caso. A História tem provado que nunca devemos tomar o progresso por garantido.

O Brasil experimentou crescimento econômico por 13 anos e muitas conquistas sociais pareciam consolidadas. Quase 30 milhões de brasileiros foram retirados da pobreza, houve melhoria massiva no sistema educacional e o país até mesmo pagou sua dívida externa, pondo fim a sua dependência ao FMI. Até que em 11 de maio um golpe de estado parlamentar foi encenado, derrubando a democraticamente eleita Dilma Rousseff e colocando em seu lugar o neoliberal e corrupto Michel Temer. Em apenas 10 dias, ele agressivamente começou a desmantelar essas conquistas, suspendendo a construção de moradias e benefícios de milhões de brasileiros para favorecer os plutocratas, oligarcas e o grande sistema corporativo que ele representa.

Ele tem o apoio entusiástico – embora tácito – dos EUA. Não coincidentemente, a atual embaixadora dos EUA no Brasil é Liliana Ayalde: ela também foi embaixadora em Honduras e no Paraguai quando ambos os países sofreram um golpe de estado. Os Irmãos Koch, industriais americanos de refino do petróleo, financiaram o pseudo-movimento estudantil MBL, que ajudou a injetar instabilidade nas ruas do Brasil com o apoio da mídia brasileira. E, caso ainda haja alguma dúvida do envolvimento dos americanos no golpe, o golpista Aloysio Nunes viajou para se encontrar com Thomas Shannon – o oficial mais antigo em Washington no que diz respeito a assuntos latino-americanos – pouco antes da materialização do golpe, enquanto Obama nem chegou a denunciar o golpe ou até mesmo criticar os desenvolvimentos sombrios e ilegais no país.

O golpe no início do mês não representa, no entanto, uma vitória inequívoca do neoliberalismo. Os brasileiros estão indo às ruas protestar contra os desenvolvimentos recentes. A presidente Dilma foi suspensa, mas ela poderá ser restabelecida em novembro caso seja inocentada de "crime de responsabilidade" pelo Senado da nação. Uma conversa telefônica vazada revelou a trama para derrubá-la e a presidente suspensa e os apoiadores da democracia sentem-se energizados.

No momento atual, o Brasil passa por uma enorme convulsão social. De maneira muito preocupante, isto pode vir a se tornar um gatilho para a "teoria de choque" em todo o seu horror. A História tem mostrado que os neoliberais nunca têm medo de usar a intervenção militar e a tortura como forma de instilar o medo e implementar o modelo econômico desejado por eles. É por isso que os campeões da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo devem denunciar os desenvolvimentos trágicos no maior país da América Latina – antes que o país seja vítima do eletrochoque e entre em estado de coma.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A lição da esquerda árabe-israelense

Há cerca de um ano os israelenses foram às urnas para escolher os membros do 20° Knesset, o parlamento do Estado de Israel. A prioridade dos partidos árabes era clara: eleger um número grande o suficiente de deputados para impedir a formação de um novo governo pelo então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cujo partido, Likud, se opõe à coexistência pacífica com os palestinos. Assim sendo, os quatro partidos da esquerda árabe — Hadash, Lista Árabe Unida, Balad e Ta'al — decidiram colocar suas diferenças de lado e formaram a Lista Conjunta.

O resultado da união de esforços foi um recorde na participação eleitoral dos cidadãos árabe-israelenses. A Lista Conjunta obteve 446.583 votos (10,6% do total) e tornou-se a terceira maior agremiação do Knesset, com 13 deputados — dois a mais que os partidos árabes possuíam antes de forjarem a coligação. Apesar da disposição em se coligarem com a União Sionista, agremiação de centro-esquerda judaica, não conseguiram impedir a posse de Netanyahu para um novo mandato. O Likud obteve a maior parte dos votos e, assim sendo, teve preferência nas negociações para formar um novo governo, no que obteve êxito.

De qualquer forma, o sucesso da Lista Conjunta garantiu unidade e coesão nas demandas dos cidadãos árabes de Israel, os mais humilhados e oprimidos daquela sociedade. Mais espaço no parlamento significa maior visibilidade a essas pessoas. É isso que a esquerda brasileira deveria perceber no momento atual. A retirada de Dilma Rousseff do poder central significaria o aprofundamento dos cortes de gastos sociais. O economista oficial do golpe frio, Armínio Fraga, já afirmou que programas como Bolsa Família e ProUni "serão retirados da pior maneira".

A oposição de esquerda, mesmo que não lhe caiba fazer a defesa da agenda econômica do governo Dilma, deve lutar pela manutenção da agenda social, que garante a ampliação de direitos dos humilhados e oprimidos do Brasil. Defender a pauta do "que se vayan todos" só agrada à direita ultraliberal que deseja tirar Dilma porque nega a função social do Estado e deseja fazer com que o governo sirva apenas aos ricos que os financiam, como os Irmãos Koch ou os especuladores que vivem do pagamento dos juros da dívida pública. Essa esquerda trai a si mesmo e a seus eleitores.

Urge, à esquerda nacional, seguir os passos da esquerda árabe de Israel e perceber que, juntos, somos mais fortes na luta contra os opressores do povo. Já está mais do que claro que o propósito da Operação Lava Jato não é limpar o Brasil da corrupção; é limpar o país da política partidária. Isso ficou claro para mim quando os parceiros de Sérgio Moro no Jornal Nacional exibiram uma reportagem sobre a lista de recipientes de propina da Odebrecht e, ao invés de listar os maiores beneficiados, exibiram a lista dos partidos que teriam participado do esquema. Todos, menos PSTU e PCO, apareceram na tela da Globo.

A mídia vem sendo questionada por sua parcialidade nas denúncias contra o PT e reage como sempre tem reagido nesses casos: passa a afirmar que todos os partidos são corruptos. O PT seria apenas o mais corrupto deles. Entretanto, soa-me estranhíssimo que dois partidos nanicos e independentes — PCB e PSOL — receberiam propina. O PCB já negou esse "fato" em suas redes sociais, mas o estrago já foi feito. Milhões de pessoas viram o partido ser associado a siglas abjetas como o DEM e o PP, herdeiros do partido oficial da ditadura militar.

Quando o golpe frio se consolidar, ninguém vai ser perdoado, por mais crítico e independente que tenha sido do governo Dilma. Por isso, é hora de deixar as diferenças de lado, como os partidos da Lista Conjunta fizeram. Estamos num confronto e, na guerra, as regras para a política de alianças devem ser afrouxadas. Caso o contrário, perdemos. E a derrota do nosso lado, da esquerda, no momento político atual do Brasil, significa a derrota do tudo aquilo que o povo conquistou nos últimos 12 anos. É chegada a hora de nos posicionarmos, para o bem do povo brasileiro.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O golpe frio e a mudança de governo nos EUA

Me parece que a pior coisa que poderia ter acontecido a João Goulart foi o assassinato de John F. Kennedy em 1963 em Dallas. Conforme escrevi anteriormente, em análise do documentário Brazil: Troubled Land, exibido em junho de 1961 pela rede de televisão norte-americana ABC, o governo Kennedy parecia querer buscar uma solução pacífica e institucional para a crise política que se instalava no país na primeira metade da década de 1960 e dividia os brasileiros em pró e anti-Jango. No entanto, Kennedy foi assassinado e substituído por seu vice, o falcão de guerra Lyndon B. Johnson.

Trump vai vencer e ajudar o Brasil... a ficar sem o pré-sal.
Em novembro, os EUA elegerão seu próximo presidente e o governo Dilma deve estar atento para o resultado do pleito, afinal, o Brasil passa por cenário similar ao de 1964. Jeb Bush, cujo irmão George era amigo pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não está mais na disputa. Perdeu espaço para a direita neoconservadora que deseja aplicar, no governo federal, a agenda anti-pobres que já defende no Congresso. Eles são financiados pelos ultraliberais Irmãos Koch que, segundo o pesquisador Michael Fox, também financiam grupos pró-impeachment no Brasil como o MBL.

A empresa que herdaram do pai, a Koch Industries, desenvolveu a tecnologia para refinar o petróleo cru pesado e possui interesse direto no Brasil do pré-sal e em qualquer outra nação com grandes reservas de petróleo. A eleição de um republicano, seja ele quem for, significa a adoção pelo Pentágono da política externa intervencionista dos Irmãos Koch. Até mesmo de Donald Trump, que afirma ser auto-financiado e que não vai adotar a agenda política dos milionários, mas que é um milionário ele mesmo com ações na Chevron. O discurso dos republicanos é tão alinhado com os anti-Dilma que já teve até faixa dizendo "Trump win and help Brazil" em protesto.

No lado democrata da disputa, no entanto, temos a liderança da ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama Hillary Clinton. Em seu livro mais recente, Hard Choices, de 2014, Clinton elogiou o intelecto e a determinação de Dilma. Antes disso, em 2012, afirmou que Dilma estabeleceu um padrão mundial na luta contra a corrupção. No entanto, Hillary Clinton também é reconhecida pelos próprios americanos como uma falcoa de guerra. Foi durante seu período no Departamento de Estado que houve a intervenção na Líbia e que a retórica anti-diálogo dos Estados Unidos levou à guerra civil na Síria. Além disso, ela tem uma reputação de mudar de opinião a cada dois anos em assuntos importantes.

O fato é que, conforme foi desenvolvida historicamente, a democracia americana necessita do imperialismo para elevar a qualidade de vida de seus cidadãos. Bernie Sanders é o único candidato que promete elevar o padrão de vida dos americanos não através da expansão econômica via força bruta, mas sim através da regulação da renda dos mais ricos, em especial dos especuladores — pelo menos num primeiro momento. É por isso mesmo que ele é considerado um outsider e é motivo de chacota na grande mídia. O jeito é esperar para ver se, assim como o governo Jango, a continuação do Governo Dilma depende da troca de inquilino na Casa Branca.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O golpe frio

No sábado passado a revista alemã Der Spiegel se referiu à tentativa de destituir a presidenta Dilma Rousseff como um Kalter putsch ou golpe frio. Ao contrário do golpe civil-militar de 1964, que ocorreu tão às pressas que pegou todos de surpresa, o golpe de estado atual vem sendo extremamente calculado. Desde 2003 a grande imprensa atua como um partido de oposição (algo que já foi confirmado até pela própria presidenta da Associação Brasileira de Jornais), tentando destruir a imagem de Lula e do PT, criminalizando-os com provas falsas e fontes duvidosas que jamais apareceriam na maior revista alemã, mas que aparecem na maior revista brasileira.

Ciente da perseguição da grande mídia ao PT, o juiz federal Sérgio Moro entrou em cena para o último ato: seria ele o personagem responsável por aplicar o último golpe ao partido. Sob o pretexto de investigar um mega esquema de corrupção na Petrobrás, que data do governo FHC, armou um circo midiático responsável por jogar amplos setores da população contra o PT. Nos protestos insuflados pela mídia, adivinhe só, Moro é aclamado como o herói salvador do Brasil, embora receba um salário muito maior que o da presidenta supostamente corrupta que ele combate (o que é ilegal). Segundo a Al Jazeera, "a estratégia de Moro começou há uma década, antes mesmo do início da Operação Lava Jato".

Em 2004 o juiz paranaense escreveu um artigo em tom elogioso sobre a Operação Mani Pulite (Mãos Limpas), que destruiu os principais partidos políticos italianos sob o pretexto de combater a relação deles com a máfia. O que se seguiu foi uma descrença generalizada da população com os políticos tradicionais e a eleição de um magnata da mídia —Silvio Berlusconi— que, aí sim, institucionalizou a corrupção no governo. Segundo a BBC, após a Mãos Limpas a corrupção na Itália ficou ainda mais sofisticada e difícil de ser combatida. Só um imbecil para achar que no Brasil seria diferente. Sem uma reforma do financiamento de campanha, nada mudará em nosso país como não mudou na Itália. Pode destruir todos os partidos que a corrupção não acabará.

A impressão que eu tenho, no entanto, é que Sérgio Moro não deseja combater a corrupção. Se eu ainda acreditava nisso, as dúvidas se dissiparam na semana passada quando, tomado pela raiva de não poder mais investigar Lula, ele agiu acima da lei e divulgou ilegalmente um áudio que atrapalharia a posse do ex-mandatário como ministro-chefe da Casa Civil. Por ter captado a presidenta da República, o grampo não poderia ter sido divulgado sem a permissão do STF. Estranhamente, no dia seguinte, antes mesmo da posse de Lula, um juiz do Distrito Federal já havia redigido uma liminar suspendendo-a tendo como base o grampo ilegal. Nas redes sociais da criatura, ataques os mais abjetos possíveis contra o PT.

Fui, então, pesquisar mais sobre a história do novo "herói" nacional e eis que descubro que ele foi assessor da ministra Rosa Weber durante o julgamento do mensalão no STF em 2012. Rosa é a prima de Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, e notabilizou-se por declarar, durante o julgamento, que não haviam provas contra José Dirceu, mas que condenaria-o mesmo assim porque a "literatura jurídica" permitia. Percebe-se, assim, o nível raso da assessoria jurídica prestada por Moro à ministra. Eu achava, na minha inocência, que todo mundo era inocente até provado o contrário, ou seja, que ninguém pode ser condenado sem provas. A dúvida sobre as provas livrou O.J. Simpson no "julgamento do século".

O fato é que a farsa jurídica de Moro contra o PT vem sendo preparada desde então. Ele vem ajudando a distorcer a lei para criminalizar o partido. No entanto, ele não daria conta de fazê-lo sozinho. Em seu artigo, citado pela Al Jazeera, Moro escreveu sobre o papel fundamental da mídia na consolidação da Mãos Limpas. Assim sendo, usa e é usado pela mídia para atingir o grande sonho de sua vida: entrar para a história como o cara que destruiu o PT. Fazer aquilo que o general Golbery não deu conta de fazer. O problema dele, no entanto, é que nem todo mundo está disposto a acreditar cegamente na sua benevolente luta contra a corrupção. A internet expõe sua seletividade e até mesmo quando quis se valer do "jeitinho" para continuar lecionando na UFPR enquanto assessorava Weber.

O golpe é frio, sim. Calculado e planejado meticulosamente há pelo menos dois anos, quando a seletivíssima Operação Lava Jato —que prende o petista Delcídio do Amaral e não o peemedebista Eduardo Cunha, peça-chave do golpe— começou. Mas engana-se quem pensa que a reação ao golpe será fria também. Moro criou um clima de instabilidade política e jurídica que se assemelha ao prenúncio de uma guerra civil. Seus partidários acham que ele, um juiz de primeira instância, é mais importante do que a Suprema Corte. É possível que quando Moro for reivindicar o papel de herói salvador da pátria que calculadamente construiu para si com a ajuda da mídia, sequer haverá mais pátria para aclamá-lo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Brasil: um museu de grandes novidades

Cada vez mais a história recente do Brasil lembra a da República de Weimar. Este é o nome não-oficial dado à Alemanha entre a queda da monarquia em 1918-19 e a ascensão de Adolf Hitler em 1933. Ontem foi divulgada uma nova pesquisa para a eleição presidencial de 2018. Nela, o ícone da extrema-direita Jair Bolsonaro (PP-RJ) aparece com intenção de voto maior do que Ciro Gomes (PDT-CE), que em tese seria um nome mais conhecido do eleitorado, tendo sido ministro dos governos Itamar Franco e Lula e duas vezes candidato a presidente. Venho alertando para o crescimento do candidato da extrema-direita já há algum tempo. Entretanto, a esquerda prefere subestimá-lo, tratando-o como uma piada, como um personagem extremista demais para ser eleito. Jean-Marie Le Pen também era visto como uma piada, extremista demais para ter alguma chance dentro do jogo tradicional da política francesa. Em 2002, no entanto, emergiu para o segundo turno da disputa presidencial francesa, chocando a centro-esquerda e a direita moderada, que volta e meia deixa suas diferenças de lado e forjam coalizões para evitar a vitória da Frente Nacional.

A luta fratricida entre SPD e KPD levou à
morte de Rosa Luxemburgo e inviabilizou
uma aliança entre os partidos até 2001.
Desde meados do ano passado digo que Bolsonaro deve ter cerca de 15% dos votos em 2018. Um percentual comparável àquele obtido por Adolf Hitler, que também era subestimado pela esquerda, em 1930. O grande percentual de votos obtido pelo Partido Nazista tirou o Partido Social Democrata (SPD) do poder. Criado no final do século XIX por simpatizantes de Karl Marx, o SPD promoveu reformas tímidas a favor dos trabalhadores sem reformar a estrutura do Estado alemão. Chegou a defender a monarquia quando viu que tinha chances reais de eleger o chanceler. Em 1918, no entanto, com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, aliou-se a monarquistas revoltados e tomou o poder, proclamando a República na cidade de Weimar (daí o nome). Foi aí que surgiu o Partido Comunista (KPD), que defendia uma revolução mais profunda. Durante a revolução de 1919, o SPD se aliou aos anticomunistas para garantir a estabilidade do novo regime, o que levou ao assassinato de Rosa Luxemburgo. Isto inviabilizou uma aliança SPD-KPD por décadas. Em 2001 Klaus Wowereit, então prefeito-eleito de Berlim, forjou uma aliança do SPD com o Die Linke, sucessor do KPD.

O relativo sucesso dos nazistas na eleição de 1930 pode ser explicado por dois fatores: a incapacidade do SPD em lidar com a crise de 1929 e o fim dos ataques da imprensa ao gênio louco que era Adolf Hitler. Assim como no Brasil atual, o último governo de centro-esquerda da República de Weimar foi marcado pela falta de maioria no parlamento, o que obrigava o chanceler Hermann Müller a fazer concessões à direita e impossibilitava-o de enfrentar a crise econômica. Os direitistas, em especial ex-militares, culpavam uma conspiração de socialistas e minorias étnicas (judeus e polacos) pelos problemas econômicos do país. Discurso que começa a ganhar força aqui. A imprensa viu nesse discurso perigosíssimo a oportunidade de tirar o SPD do poder. Hitler forjou uma aliança com o magnata da imprensa e político Alfred Hugenberg, cujos jornais pararam de atacá-lo. Os nazistas passaram de 2,6% para 18,25% dos votos. Prevejo cenário semelhante em 2018: a mídia brasileira – tão oligopolizada quanto a alemã era – não atacará Bolsonaro porque ele é útil para seu plano de tirar o PT do poder. Não vai exaltá-lo, pois finge ser democrática, mas também não o atacará.

Prevejo também a esquerda mais radical do país culpando o PT pela ascensão da extrema-direita, assim como o KPD culpava o SPD pela ascensão do nazismo. Embora o PT nunca tenha perseguido e provocado a morte de dirigentes do PSOL, as divergências entre os dois partidos permanecem tão fortes quanto as de social-democratas e luxemburguistas. Assim como alguns no PSOL hoje falam do PT, os membros do KPD encaravam o SPD – e não o Partido Nazista – como o maior inimigo da classe trabalhadora. Entendo perfeitamente de onde vem essas críticas. O PT se apresenta como revolucionário no Horário Eleitoral e atua como o PSDB light no poder. Enganou a classe trabalhadora. Mas o próprio PSOL também está sendo vítima da encruzilhada anti-PT. O partido teve seu único prefeito, de Itaocara-RJ, cassado sem nenhum motivo legal aparente, assim como Franz von Papen depôs o governo de esquerda da Prússia para agradar os nazistas. E isso foi só o começo. Ninguém ficará a salvo da sanha anti-esquerdista. Nem mesmo Marina Silva, que se julga acima das ideologias. Em 2014 mesmo ela começou a ser atacada pela direita hidrófoba por ter pertencido ao PT até 2009. 

O atentado ao Reichstag, praticado pelos próprios nazistas
teve sua culpa atribuída ao KPD, o que justificou a aplicação
da cláusula anti-terrorismo da Constituição por Hitler.
Com a aprovação da mal-fadada lei "antiterrorismo" ficará ainda mais fácil criminalizar tanto o bloco PT/PCdoB quanto o PSOL. A Alemanha também reprimia duramente os "terroristas" (só os de esquerda, porém) durante a República de Weimar. Sua Constituição permitia a suspensão dos direitos individuais em situações que o próprio governo definia como sendo "de emergência". Foi esse dispositivo legal que permitiu a Hitler dar início a seu regime de exceção, tendo como justificativa o "atentado terrorista" no prédio do Reichstag, supostamente praticado por membros do KPD. Ele suspendeu direitos individuais e todos os partidos políticos valendo-se da própria ordem legal estabelecida. A lei aprovada no Congresso Nacional repete o dispositivo constitucional alemão e pode acabar sendo usada para fins absolutamente estranhos àqueles que o legislador imaginou ao criá-la. Enquanto isso, o PT tenta defender as concessões indefensáveis que Dilma Rousseff pratica para tentar se manter no poder e o PSOL, megalômano, crê ter musculatura o suficiente para reverter a guinada conservadora da sociedade sozinho.

No entanto, equivoca-se quem acha que a direita já estabelecida é a principal beneficiária do atual caos político. De maneira semelhante à Alemanha dos anos 1930, a direita parlamentar também perde espaço para a direita marginal. Mesmo que o PSDB consiga eleger o presidente em 2018, o partido vai se deteriorar no poder de forma muito mais rápida do que o PT, em especial se a crise econômica prevalecer. Os tucanos não vão conseguir "arrumar a economia" tão rápido quanto prometem e, como já provaram no passado, vão tentar fazê-lo às custas do povo, já irritado. Isso vai revoltar parte significativa de sua base eleitoral, que vai cair de bandeja nas mãos de Bolsonaro. É algo que a crise econômica mundial vem provocando nas principais economias do mundo: a descrença com os representantes da política tradicional ou, como preferem dizer alguns analistas políticos, "o fim do centro político". Tanto Donald Trump quanto Bernie Sanders, por exemplo, definem-se como políticos anti-establishment. É assim que os eleitores de Bolsonaro vêem seu "mito", como um outsider da política, embora ele já esteja no Congresso há 30 anos.

Seria o povo brasileiro os ratos de Hamelin?
Por tudo o que foi dito acima, dói conhecer a História. Aqueles que conhecem-na vêem os que não a conhecem – que são a grande maioria atualmente – repetindo-a sem poder fazer nada. Como convencer uma pessoa que sequer ouviu falar de Mein Kampf que ela está caindo no discurso de um flautista de Hamelin que vai conduzir a todos nós para o abismo? A sensação de impotência é enorme. Mesmo aqueles que presumivelmente conhecem a História repetem-na. As concessões de Dilma à direita para tentar agradar à elite que quer derrubá-la e criminalizar o PT também foram tentadas, sem êxito, pelo SPD, que com isso traiu por completo o ideal de seus fundadores e perdeu para sempre o apoio da classe trabalhadora. A recusa do PSOL em aliar-se estrategicamente com o PT para evitar a ascensão de um mal maior se assemelha à recusa do KPD em compor com o SPD por orientação da Comintern. Não é à toa que pipocam nas redes sociais, desde o ano passado, páginas antifascistas que têm como símbolo o círculo idealizado pelo SPD no crepúsculo da República de Weimar.

Às vezes sinto como se a História se repetisse num loop constante. "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades", já dizia o poeta. Espero, do fundo do meu coração, estar errado. Não sou nenhum cientista político, mas cada vez mais vejo o destino da República de Weimar se repetir aqui no Brasil. Até grupos monarquistas lutando contra a ordem democrática nós também temos! Em escala bem menor, é claro, mas mesmo assim temos. Sem falar na adesão ao discurso genocida por parte das próprias vítimas deste. Há hoje no Brasil negros apoiando a extrema-direita, assim como haviam judeus anticomunistas apoiando Hitler na Alemanha. Segundo eles, a esquerda os vê como vítimas enquanto a direita acredita em sua capacidade individual. O individualismo exacerbado, aliás, é uma característica do nazismo. O que importa é o que o indivíduo pode fazer pela sociedade e não o contrário. Sinto-me num filme de Fritz Lang. Vejo a ascensão do Dr. Mabuse através da hipnose da massa, disposta a renunciar à civilidade e adotar a violência sem questionamento. E, o pior de tudo, é que, como personagem coadjuvante, sinto que não posso fazer nada para evitar isso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O segredo é não reagirmos como esperam

Sexta-feira, 1° de janeiro de 2016. Novo dia de um novo ano. No entanto, eu ainda estava angustiado por causa de fatos ocorridos no ano anterior. Não é porque um marco temporal passou que meus sentimentos mudaram. Decidi caminhar. Fui num parque perto de casa. Me animei e segui para outro, um pouco mais distante, embora seja localizado no mesmo bairro. Escureceu. Voltando para casa, fui encurralado por um cara de bicicleta. Fugi. Mas ele me alcançou e ameaçou tirar minha vida se eu não lhe entregasse meu celular. Um pedaço de plástico que custou R$ 650 ou minha vida? Escolhi a última, pois celular tem como a gente comprar outro; a vida, não.

O que ocorreu em seguida foi surpreendente. Nas horas seguintes ao assalto, fiquei muito chateado. O choque emocional de saber que, no Brasil, uma vida humana vale menos do que um pedaço de plástico que custou menos do que sete notas de cem reais foi grande. No entanto, me recusei a me desmoronar, como teria ocorrido num passado recente. Aprendi que, diante de um acontecimento ruim, temos três opções: podemos deixá-lo nos definir, podemos deixá-lo nos destruir ou podemos deixá-lo nos fortalecer. O que o assaltante queria, além do meu celular? Ele queria me destruir por causa de um celular e eu simplesmente não posso permitir isso. Minha vida vale mais do que todas as posses materiais que eu eu já acumulei.

É claro que não vou me colocar numa situação de violência tão cedo novamente. Moro numa das cidades mais violentas do mundo. A título de ilustração: no ano de 2015, 340 pessoas foram assassinadas em Nova York (8,4 mi de habitantes); no mesmo período, 553 pessoas foram assassinadas em Goiânia (1,2 mi de habitantes). Só nos últimos 15 meses é a segunda vez que apontam uma arma na minha cara por conta de um pedaço de plástico. Recusar a deixar um assalto me definir não significa que vou desafiar a realidade violenta e rir do perigo. Significa que vou criar resiliência para as situações em que essa realidade dura e brutal bater na minha porta. Significa que não vou me abater por conta do mal que outras pessoas desejam infligir em mim.

Nunca havia entendido direito a passagem bíblica em que Jesus Cristo incita seus seguidores a oferecerem a outra face caso fossem agredidos. Não entendi porque os americanos não poderiam se deixar vencer pelo luto após o 11 de setembro. Creio que o então presidente disse algo como: se deixarmos de fazer qualquer coisa por medo, então os terroristas terão vencido. Tampouco havia entendido a atitude recente do cantor e compositor Chico Buarque de não revidar a agressão que sofreu de um bando de playboys cariocas que o chamou de nomes inimagináveis na saída de um restaurante localizado no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro.

O fato é que não podemos deixar os outros pautarem nossos sentimentos e nossas ações. O ladrão que me roubou estava louco para que eu reagisse e ele pudesse, em sua mente doentia, justificar sua sede por agredir estranhos na rua. Além disso, ele quer que eu sinta raiva dele, que eu chore as fotos, músicas e vídeos perdidos, como se fossem o tesouro mais incalculável que eu acumulei nessa vida. Assim como nos outros exemplos citados, dos romanos aos playboys cariocas, passando pelos radicais islâmicos, os agressores precisam de uma reação de suas vítimas para justificarem a agressão que infligem. Se reagirmos como os agressores desejam, damos a vitória a eles. Mas se ousamos sorrir depois de sermos nocauteados por eles, se ousamos seguir com nossas vidas, eles perdem.

Numa vida cheia breve e incerta, onde a única certeza que temos é a iminência da morte, faz sentido gastar tanto tempo pautando-nos pelos outros? Vale a pena viver a partir de reação a estímulos externos como ratos de laboratório? Encarar a vida com leveza, aceitar que a vida não faz o menor sentido e que a única certeza nela é o seu fim é a chave para uma existência feliz. Se cada vez que nos derrubarem nós demorarmos a sair das cordas, no final de nossa jornada teremos desperdiçado tempo demais contemplando a dor da derrota e tempo de menos fazendo aquilo que fomos enviados para fazer neste planeta: viver, ou seja, ter experiências. 

Algumas experiências serão boas e outras serão ruins. Nem sempre seremos capazes de controlar nossas vidas para que elas sejam preenchidas apenas por experiências boas. Mesmo que consigamos atingir o nirvana, o mundo foge do nosso controle e atrapalha nossa busca pela paz. Mas podemos — e devemos — buscar minimizar o efeito daqueles que desejam tirar nossa paz e nos colocar em posição de conflito, daqueles que buscam uma declaração de guerra assinada por nós. O segredo da vida é não reagirmos da forma que as outras pessoas esperam que vamos reagir.

domingo, 6 de dezembro de 2015

José e Maria, os refugiados

Hoje a comunidade cristã comemora o segundo domingo do Advento, ou seja, há uma semana iniciaram-se as preparações para a festa mais importante da fé cristã: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse momento, somos instigados a lembrarmos da narrativa bíblica, onde um jovem casal de Nazaré se dirige para Belém com a finalidade de serem contados pelos oficiais do recenseamento como cidadãos do Império Romano, estado que dominava a região. Ao chegarem na cidade, se depararam com uma situação atípica: todas as estalagens estavam ocupadas. O casal acaba encontrando refúgio num estábulo, onde a jovem Maria de Nazaré dá à luz o profeta da maior religião do mundo. O Salvador do Mundo nasceu junto de animais de fazenda, sem luxo ou  conforto. Apesar da distorção teológica contemporânea de alguns cristãos,  a simplicidade e a humildade são marcas essenciais da narrativa cristã.

Como já virou recorrente na história do cristianismo, as pessoas revisitam a história de Jesus sem apreender a mensagem por trás dela. Nesse novo Advento, início do 2.016° ano da era cristã, muitas famílias montam seus presépios, que retratam uma família de refugiados do século I, enquanto atacam Marias e Josés de uma nova era. Assim como os pais de Jesus, os casais sírios precisam de nossa ajuda. Assim como o menino Jesus, os bebês haitianos que também nascem em condições insalubres antes de partirem para o exílio precisam de nossa compaixão. A alma caridosa que cedeu um teto, mesmo que de um estábulo, para os pais de Jesus de Nazaré sequer é citada nominalmente na narrativa bíblica, mas sua lição ecoa até os dias de hoje como exemplo de compaixão e amor ao próximo. É o ponto central do ministério de Jesus. E, para os que distorcem a teologia e valorizam mais o Antigo Testamento do que o Novo, é o ponto central também da narrativa de Sodoma e Gomorra. As cidades foram destruídas porque não sabiam acolher os estrangeiros.

Trecho da minissérie The Bible.
De que adianta ler a Bíblia, saber citá-la ipsis litteris, se não se incorporou a mensagem dela no âmago de sua alma? Hoje o mundo cristão se fecha para os refugiados de outras religiões – nomeadamente o vudu haitiano e o Islã das vertentes minoritárias. Logo os cristãos, que foram tão perseguidos por judeus e pelos seguidores da religião mitológica greco-romana nos primeiros séculos de sua caminhada, jogados aos leões no Coliseu como forma de entretenimento da elite romana. Logo os cristãos, cujo Cristo desafiava as normas sociais vigentes em sua época e se misturava com os samaritanos, minoria religiosa ainda hoje perseguida pelo status quo judaico em Israel. Ler a Bíblia é muito legal, mas interpretá-la é o que diferencia um conhecedor de um fiel. Ser um seguidor de Jesus Cristo, para mim, significa apreender todas as lições de seu Evangelho e não somente aqueles trechos que melhor me convém.

No debate sobre os refugiados, deixamo-nos tomar pelo medo. Medo de que os muçulmanos que estão vindo da Síria sejam extremistas (embora eles estejam fugindo dos extremistas), medo de que os haitianos tomem nossos empregos (embora a maioria deles tenha tido uma educação precária ao extremo e não ofereçam grandes riscos). Quando indagado sobre quem seria o vizinho que deveria se amar, Jesus não apontou para um judeu como ele, mas para um samaritano. O bom samaritano, que importou-se em cuidar de um homem – que não era de sua religião ou cultura – caído e ferido na beira da estrada após um assalto. Apesar de não seguir a religião majoritária, ele demonstrou, para Jesus, agir mais conforme a palavra de Deus do que  aqueles que ficavam no Templo de Jerusalém ditando como os religiosos deveriam agir para agradar a Deus. No momento estamos passando pela estrada e deixando o homem ferido caído lá.

José e Maria também dependeram da bondade de um estranho para terem a criança que mudaria o mundo com seus ensinamentos sobre amor e compaixão. Eram refugiados, mesmo que temporários (se você acredita na história da fuga para o Egito, então foram ainda mais do que refugiados temporários), e precisaram contar com a ajuda de estranhos. Se a história do casal se repetisse hoje, eles teriam o pedido de refúgio negado por aqueles que montam presépios que retratam a história deles mesmos! Não estamos fechando a porta para casais sírios ou haitianos, estamos fechando a porta para José e Maria. A lição do cristianismo é uma lição de cuidado e ajuda ao próximo, em especial àqueles que estão à margem da sociedade, mas em algum ponto do desenvolvimento da nossa religião nos esquecemos disso. Enquanto montamos nossos presépios com José e Maria, os refugiados, falamos mal de sírios e haitianos que tentam uma vida melhor em nosso país, dito cristão.

domingo, 15 de novembro de 2015

O que 11/09 e 13/11 têm em comum?

O que os recentes atentados de terroristas islâmicos em Paris têm em comum com os atentados de 11 de setembro em Nova York? Ambas as cidades são símbolos de seus respectivos países e continentes. Paris é a capital cultural da Europa e Nova York, da América Norte. São cidades onde concepções de mundo se chocam o tempo todo. Por exemplo: no início do ano judeus anti e pró-ocupação da Palestina entraram em confronto na Times Square. Tanto em Paris quanto em Nova York há uma guerra cultural que está sendo amplificada pela atual crise econômica global. Já é de conhecimento até do mundo mineral que crises propiciam o surgimento do radicalismo ideológico, seja ele de cunho político ou religioso.

Quando Osama bin Laden orquestrou os atentados de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York, ele quis atingir não só o sistema financeiro da cidade que possui o maior PIB do mundo. Ele quis também atacar seu multiculturalismo. Nova York é a cidade mais etnicamente diversa do mundo. É o município dos Estados Unidos com mais negros, latinos, judeus, muçulmanos, asiáticos e gays. Catolicismo, judaísmo e islã são as três religiões mais praticadas na cidade, respectivamente, enquanto cerca de 800 idiomas são falados localmente. Aceitar o desafio de ser um cidadão desse município implica num exercício diário de convivência e tolerância ao diferente, ao Outro da psicologia.

Na Cabul homogeneizada por radicais islâmicos, Nova York era vista como o Outro que deveria ser atacado. Para os radicais – aqueles que recusam a interpretação do Outro para os fenômenos sócio-políticos e sobrenaturais – conviver com o Outro implica em aceitar e até mesmo endossar sua ideologia. Em seus vídeos, bin Laden afirmava que os Estados Unidos foram punidos com os atentados de 11 de setembro devido à "corrupção moral" de seus cidadãos. Nem mesmo a existência de uma mesquita no World Trade Center poupou a destruição do edifício. Na visão dos radicais islâmicos, se um muçulmano aceita se expor ao "estilo de vida degradante" dos americanos, é tão infiel quanto eles.

Os vídeos de Osama bin Laden pouco se diferenciam dos vídeos caseiros que viraram febre nos grupos de WhatsApp administrados por membros da direita raivosa do Brasil. Tudo começou com Olavo de Carvalho, um expert em teorias da conspiração – como a predominância do "marxismo cultural" nas universidades brasileiras ou a produção de refrigerantes a partir de fetos abortados – que denunciava para seus seguidores a necessidade de se combater as ideias progressistas na sociedade brasileira. Estes, por sua vez, entraram na onda de seu mestre e agora gravam vídeos pedindo do assassinato da presidenta Dilma Rousseff à aniquilação dos membros do Partido dos Trabalhadores, em vídeos que orgulhariam ao próprio bin Laden.

Paris, assim como Nova York, é uma cidade muito heterogênea, embora em escala um pouco menor. A capital francesa abriga diversas comunidades de estrangeiros, sobretudo das ex-colônias francesas na África. Cerca de 20% dos parisienses nasceram fora da França, segundo dados do censo de 2011. É uma cidade tão etnicamente diversa ao ponto de que o policial assassinado pelos terroristas em fuga que haviam acabado de atacar a sede do semanário Charlie Hebdo era muçulmano. Só que, ao contrário de Nova York, a atual crise econômica castiga mais duramente a capital da França. É aí que a narrativa de eliminação do Outro, que estaria impedindo a sociedade de prosperar, seja ele muçulmano, judeu, socialista ou ateu, ganha força.

No começo do ano, presenciamos ataques de franceses de origem muçulmana que não foram integrados à sociedade local e acabaram sendo atraídos pelo discurso radical, que nega a coexistência com o diferente e aponta-o como um empecilho à felicidade pessoal. O Outro que estaria impedindo a prosperidade dos muçulmanos na França era composto pelos ateus (chargistas do Charlie Hebdo) e pelos judeus (comerciantes do mercado kosher de Porte de Vincennes). Agora, os ataques foram organizados por uma entidade externa, o Estado Islâmico, assumindo um discurso parecido ao da al-Qaeda quando dos atentados de 11 de setembro. Paris foi descrita pelos terroristas como sendo "a capital da abominação e da perversão da Europa".

Os ataques em Paris (13/11/2015) e Nova York (11/09/2001) têm em comum o fato de que ambos representam ataques à heterogeneidade. Foram orquestrados por mentes que não aceitam a ideia de viver num mundo onde as culturas coexistam pacificamente, respeitando umas às outras. Não é à toa que o Facebook – que facilmente nos divide em grupos: democratas e republicanos, petistas e tucanos, crentes e não-crentes, reacionários e revolucionários, etc. – seja uma ferramenta tão eficaz para o Estado Islâmico recrutar novos soldados. Dividimo-nos em grupos, recebemos informações filtradas segundo nossa visão de mundo e nos tornamos cada vez mais intolerantes ao pensamento divergente. É uma ágora de pombos enxadristas.

Presenciamos o começo do ataque ao multiculturalismo (por grupos internos) também aqui no Brasil, em nossa metrópole mais heterogênea. Os haitianos foram eleitos por uma minoria que se julga prejudicada como o Outro que atrapalha o bem-estar da sociedade. Eles estariam vindo ao Brasil para "roubar os empregos" dos brasileiros e, assim sendo, precisam ser eliminados. Há poucos meses, refugiados haitianos foram atacados na porta de uma igreja em São Paulo. Apenas mais um pequeno exemplo de que o grande conflito do mundo contemporâneo é saber lidar com sua diversidade cultural. Enquanto não aprendermos a aceitar uns aos outros, cidades que simbolizam o multiculturalismo continuarão sendo vítimas de ataques.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Para onde vão os refugiados?

Qualquer cidadão desavisado, que se informa apenas pela mídia comercial, pode pensar que maioria dos refugiados oriundos de países em conflito estão fugindo para a Europa. É comum, inclusive, ouvir das vozes propagadoras do senso comum o discurso de que os países vizinhos aos conflitos na Síria e no Iraque não oferecem ajuda aos refugiados. Enquanto isso pode ser verdade para a Arábia Saudita - monarquia ultra-sunita apoiada pelos Estados Unidos e cuja elite apoia e investe pesado no Estado Islâmico anti-xiita -, não se aplica aos demais países da região.

Uma reportagem da National Public Radio evidencia isso. Enquanto parte dos refugiados perdeu as esperanças e pensa ser inútil continuar na região, por não avistarem um fim próximo do conflito, outra parte sonha com o fim das batalhas, quando poderão retornar para suas casas. Tanto é verdade que a maioria busca refúgio em países vizinhos às suas pátrias devastadas pelos conflitos militares. Muitas vezes, o local de origem dos refugiados e o local para onde eles fugiram fazem até divisa. Entre os refugiados sírios, por exemplo, apenas 10 a 15% foram para a Europa.

Principais destinos dos refugiados.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de refugiados atingiu a marca de 60 milhões de pessoas nesse ano, o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Desse total, 5,25 milhões de refugiados saem da Palestina, 3,96 milhões da Síria, 2,68 milhões do Afeganistão, 1,32 milhão do Sudão ou do Sudão do Sul e 1,16 milhão da Somália. Ainda segundo a agência, nenhum país europeu estava entre os dez destinos mais procurados pelos refugiados na primeira metade do ano.

Dentre os países da Europa, destaca-se o apoio que a Alemanha vem dando aos refugiados. No início do ano, o país recebeu 440 mil refugiados, ficando na décima-terceira posição entre as nações mais procuradas pelos refugiados, pouco atrás do Chade na África Central. No entanto, a mídia comercial não se refere a uma suposta "crise de imigração" no Chade. Quando os refugiados são de países pobres e estão indo para outros países pobres, não há crise. No entanto, quando eles ousam atravessar o Estreito de Bósforo, marca indelével entre o progresso e o subdesenvolvimento, tornam-se um problema.

Países de origem dos refugiados.

A postura do governo alemão realmente é notável se considerarmos o conjunto dos países europeus. Na próxima atualização da lista de refugiados do ACNUR o país deve ficar entre os dez maiores destinos de refugiados no mundo. Deve-se, no entanto, apontar um padrão de dois pesos e duas medidas: enquanto Angela Merkel é indicada ao Prêmio Nobel da Paz por receber 440 mil refugiados, o governo da Jordânia já recebeu quase três milhões deles. Se fosse uma cidade, o campo de refugiados de Zaatari, com 80 mil habitantes, seria a segunda maior da Jordânia, atrás apenas da capital Amã, o que traz grandes pressões para os serviços públicos locais.


Refugiados eternos

O maior grupo de refugiados do mundo, segundo o ACNUR é o dos palestinos. A guerra árabe-israelense de 1948 deu origem à população original de refugiados palestinos, composta por cerca de 700.000 pessoas. Seus filhos e netos também são considerados refugiados e a maioria habita no Líbano, na Jordânia e na Síria, além, é claro, dos territórios palestinos (Faixa de Gaza e Cisjordânia). A guerra síria provocou o deslocamento de alguns desses palestinos, o que fez com que eles se tornassem refugiados pela segunda vez.

Num mundo cada vez mais globalizado e conectado, os países ocidentais não podem mais ignorar cenas como as do menino Aylan morto na praia. Urge aos governos ocidentais encarar a questão de maneira frontal e não apenas de maneira periódica e a uma distância segura. Atacar as causas dos conflitos, apoiar o ACNUR e investir na infra-estrutura (local ou não) para receber os refugiados é o mínimo que se espera. Que não fiquemos parados enquanto mais uma geração de refugiados eternos surge. É o mais humano a se fazer.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Viva São Francisco!

Cartaz do filme.
No último domingo, algumas das maiores comunidades cristãs do mundo - Católica, Anglicana e Luterana - comemoraram a festa litúrgica de São Francisco de Assis. Assim sendo, decidi assistir ao filme Irmão Sol, Irmã Lua (1972) do cineasta italiano Franco Zeffirelli. Filmado seguindo a mesma estética de peças de teatro como Jesus Cristo Superstar e Godspell (ambas de 1970), que tinham como norte a contracultura e se propunham a fazer uma releitura do cristianismo sob a ótica dos movimentos sócio-políticos do final dos anos 1960, Irmão Sol, Irmã Lua narra a famosa história do padroeiro da Itália, Giovanni di Pietro di Bernardone. Apelidado de Francisco (francês) pelo pai, um rico comerciante que era casado com uma francesa e tinha uma grande admiração pela França, o jovem deserta do Exército e busca uma reconexão espiritual com Deus. Após ter uma epifania durante a missa, Francisco abandona todas suas posses mundanas, inclusive as roupas, para viver segundo o Evangelho de Jesus Cristo. Dedica-se a ajudar os pobres numa época em que não existia sequer o conceito de caridade quanto menos o de assistência social. Francisco foi interpretado de maneira entusiástica pelo ator britânico Graham Faulkner, em seu único papel no cinema; reza a lenda que os produtores consideraram oferecê-lo ao cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso. 

Sua iniciativa é mostrada como análoga às comunas hippies dos anos 1960: uma sociedade alternativa onde a acumulação de riquezas não existe e todos vivem da própria subsistência. Seu movimento logo recebe em suas fileiras outros jovens da cidade de Assis, também cansados de viver uma vida sem propósito. Dentre eles se encontra Bernardo de Quintavalle, um soldado que matou muitos muçulmanos durante as Cruzadas. Ao retornar à cidade, Bernardo é recebido com loas de herói, mas sente que, ao contrário do que lhe foi ensinado, a guerra não o aproximou de Deus. Os jovens que decidem apoiar a causa de Francisco são chamados de loucos, afinal de contas a busca espiritual sempre é rechaçada enquanto a acumulação de riquezas sempre foi apontada como o ideal nas mais diversas experiências de sociedade existentes na história da humanidade. Ser "normal" é ter preocupações mundanas como a luta política, a busca frenética pelo amor e pela validação social e a procura por fama, poder, dinheiro e influência. Quem aponta essa contradição é a personagem de Clara que, embora seja interpretada de maneira magistral por Judi Bowker, poderia ter sido mais explorada.

Ao buscar o apoio dos moradores da cidade, Francisco é incompreendido. Na chuva e com fome, seus seguidores conseguem apenas um pedaço de pão de Clara que, a essa altura, ainda não se havia juntado ao grupo. Francisco tenta obter o perdão dos pais, em vão. Nesse momento, Giocondo, um dos seguidores de Francisco se culpa incessantemente pelo pecado da luxúria. Se por um lado Francisco lhe diz para não se culpar devido ao fato de que eles não eram padres, a quem a castidade é exigida, por outro o despacha para a vida mundana do sexo. O amor carnal jamais é admitido como algo espiritual, é sempre encarado como algo mundano, um "pecado original" que ainda hoje atormenta e aprisiona os seguidores das religiões abraâmicas (Islã, cristianismo e judaísmo). A moral sexual imposta aos fiéis era - e ainda é - bastante rígida. A incapacidade milenar de reconhecer a sexualidade humana como uma das dádivas de Deus foi o que motivou minha saída da Igreja Católica. Jamais serei capaz de entender como um relacionamento sexual saudável e consensual pode ser visto como algo ruim. Acredito firmemente que o êxtase, inclusive sexual, nos aproxima do Criador. E é justamente por acreditar nisso que prefiro não transar com qualquer um.

Após concluir a reforma do templo em ruínas de San Damiano, os franciscanos atraem os pobres da cidade para seus cultos. Atraem também a ira do bispo local que está convicto quanto ao papel da Igreja Católica: "defender a ordem social estabelecida". O bispo autoriza a interdição do templo e, durante a tentativa dos soldados eclesiásticos de fechar a igreja, um dos seguidores de Francisco é assassinado. O ermitão decide, então, buscar uma resposta para a validade de sua luta junto ao papa Inocêncio III. Um dos legisladores da cidade, Paolo, tenta impedi-lo, mas acaba concordando em agendar uma audiência de Francisco com o Papa. Quando os franciscanos chegam a Roma fica nítida a contradição entre o grupo que prega uma vida simples como a de Jesus e a Igreja Católica - rica, poderosa e hierarquizada, mais preocupada com seus jogos de poder do que com a defesa dos predicados morais de Cristo. Embora o filme fosse uma produção britânica, sendo o diretor e co-roteirista Zeffirelli um italiano que ascendeu junto com os movimentos contestatórios dos anos 1960 seria impossível não esperar dele uma cutucada à toda-poderosa Igreja Católica, que volta e meia se mete nos assuntos internos da política italiana.

Se os primeiros cristãos eram em sua maioria pobres que estavam mais preocupados com a salvação espiritual, estando dispostos a se tornarem mártires da nova fé quando atacados pelo poderosíssimo Império Romano, as coisas mudaram drasticamente quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma. A lógica passou a ser a da imposição forçada da religião e da utilização da mesma para a manutenção do status quo. De repente o bandido Jesus Cristo, morto a serviço de César para evitar um levante contra Roma, estava sendo usado para manter o poder da mesma figura e de seus asseclas. Durante a Idade Média, época em que Francisco viveu, a Igreja passou a ser um instrumento ainda mais forte de manutenção da ordem social injusta. Para evitar revoltas, o Papa permite a instalação de obras de caridade. Numa das cenas finais do filme, Inocêncio III se agacha e beija os pés imundos de Francisco. Um dos conselheiros papais se vira para outro e diz: "Não se preocupe, o papa sabe o que está fazendo. Este homem é a voz dos pobres e o santo padre quer ganhá-los de volta para nós". Parece até estar se referindo ao atual Papa, que não por acaso escolheu se chamar Francisco e denuncia as desigualdades sociais sem jamais propor a divisão das riquezas da Igreja.

Apesar dos usos políticos aos quais sua imagem tem sido submetida, Francisco de Assis é, sim, um exemplo a ser seguido. Que ele deixe de ser usado para propósitos políticos e seja verdadeiramente incorporado por todos nós cristãos. Estou farto de discursos vazios sobre amar o próximo como se ama a si mesmo para, já na saída da igreja, nos digladiarmos para saber se é o PT ou o PSDB que está destruindo o Brasil. Cansei de quem diz "quem sou eu para julgar os gays?" e, em seguida, apoia um referendo homofóbico no Leste Europeu. Chega de usar a mensagem de Cristo para incentivar a acumulação de riquezas! Deus é amor (1 João 4:8) e não poder, ódio ou dinheiro. Se você quiser servir a um desses senhores, que sirva! Mas Jesus é claro quanto a servir dois senhores ao mesmo tempo: "ou odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro" (Mateus 6:24). Basta de servir ao Evangelho e a outras coisas que não têm nada a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo ao mesmo tempo. E viva São Francisco! Viva todos aqueles que buscam romper a lógica acumulativa, egoísta e segregacionista da sociedade.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Alfred Hugenberg, o homem que elegeu Hitler, e sua lição para o Brasil

A falta de pluralidade na mídia é prejudicial para que os cidadãos formem uma opinião mais acurada da realidade. A sociedade, como sabemos, é diversa, comportando os mais diversos tipos de opiniões. No entanto, quando poucos controlam o acesso às plataformas de comunicação com o público, essa diversidade sofre um ataque. Conforme aponta um relatório da Unesco, "a mídia pode prestar-se para reforçar o poder de interesses particulares e exacerbar desigualdades sociais, ao excluir vozes críticas ou marginalizadas. A mídia pode até promover o conflito e a segregação social". O golpe de 1964, apoiado por todos os grandes jornais brasileiros, à exceção do Última Hora, é um exemplo disso. A mídia fez com que grande parte da população brasileira apoiasse a tomada de poder por quem mais tarde iria tolher os direitos básicos dos cidadãos. O que pouca gente sabe, no entanto, é que a monopolização da mídia criou o clima para o maior desastre da História da humanidade.

A imprensa e a ascensão do nazismo

Alfred Hugenberg nasceu em 19 de junho de 1865 em Hanôver. Seu pai era membro do Partido Nacional Liberal e influenciou o jovem Alfred que, após estudar Direito em Berlim e Economia em Estrasburgo, fundou a ultra-nacionalista Liga Geral Alemã e sua sucessora, a Liga Pan-Germânica. Em 1899, defendeu a "aniquilação dos poloneses", participando de um esquema para expulsar os poloneses da província de Posen (mais tarde anexada à República polonesa após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial). Quatro anos depois, começou a trabalhar no Ministério da Fazenda. Em 1909, deixou a repartição pública para assumir um assento no conselho de diretoria da empresa de aço Krupp (atualmente ThyssenKrupp). Em 1916, adquiriu seus primeiros veículos de comunicação: a revista Die Gartenlaube e os jornais Die Woche e Berliner Lokal-Anzeiger. Dois anos depois, saiu da Krupp e começou a formar seu conglomerado de mídia. Durante o período da hiperinflação, Hugenberg aproveitou a crise para comprar dezenas de jornais por um preço muito mais barato do que eles realmente valiam. Logo, passou a monopolizar a mídia alemã; controlava, direta ou indiretamente, cerca de 1,6 mil jornais.

Hugenberg controlava as editoras Scherl, Telegraphen Union e Vera Verlag, parte das ações dos estúdios Universium Film AG (maior produtora de filmes e cinejornais) e a agência de publicidade Ala-Anzeiger AG. Seu conglomerado de mídia era utilizado para manipular e agitar a opinião pública alemã. Segundo Robert Wistrich, seu objetivo era fazer com que os cidadãos, em especial os de classe média, apoiassem um programa ultra-nacionalista, anti-pacifista, anti-democrático e anti-socialista. Assim como os ideólogos do Partido Nazista, Hugenberg também era antissemita. Segundo Paul Bookbinder, foi durante a Primeira Guerra Mundial que suas visões políticas se radicalizaram e ele passou a adotar a expansão do território alemão e o repúdio aos judeus como suas duas principais plataformas políticas. Em 1919, ele se juntou ao Partido Popular Nacional Alemão (DNVP na sigla em alemão), sendo eleito membro do Reichstag no ano seguinte. Em 1928, ele virou líder do partido e passou a defender a revogação da Constituição de Weimar e a instauração de um governo ditatorial. Dentre as propostas do DNVP estavam a restauração da monarquia, a reconquista dos territórios perdidos no Tratado de Versalhes e a redução da participação dos judeus na vida pública. Vale notar que os principais concorrentes de Hugenberg no mercado de mídia eram Leopold Ullstein e Rudolf Mosse, ambos judeus. A fuga de judeus permitiu ao magnata obter 23,15% das cotas da Wolff, maior agência de notícias do país.

Após a cobertura positiva dos jornais de Hugenberg,
o Partido Nazista passou de 2,6% para 18,25% dos votos.
É óbvio que os jornais controlados pelo empresário apoiavam sua visão de mundo. No entanto, tais visões não eram consensuais na sociedade e sequer no DNVP, que viu uma migração de seus deputados para partidos mais moderados de direita. Foi então que Hugenberg teve a ideia de usar Adolf Hitler para chegar ao poder. Seu DNVP era popular entre a classe média, mas tinha dificuldade em se comunicar com os eleitores da classe trabalhadora, algo que os nazistas faziam muito bem. O empresário valeu-se da boa oratória de Hitler para tentar fazer passar seu referendo que propunha dissolver o Tratado de Versalhes. Assim sendo, o Partido Nazista passou a receber benesses de Hugenberg, seja na forma de doações monetárias ou da cobertura simpática da mídia alemã, quase toda concentrada nas mãos de Hugenberg. Anteriormente, Hitler havia sido denunciado como "socialista" pelos jornais do empresário. Goebbels desgostava de Hugenberg a tal ponto que pensou em romper com Hitler, mas recuou após receber do empresário a missão de controlar as matérias sobre o Partido Nazista publicadas na mídia. Enfim o Partido Nazista possuía uma plataforma na mídia que possibilitaria sua ascensão ao poder. A aliança entre Hugenberg e Hitler durou pouco, mas foi tempo o suficiente para projetar nacionalmente a imagem do líder nazista. Graças a Hugenber, Hitler finalmente conseguiu ter acesso ao empresariado nacional e logo os magnatas alemães estavam desertando do DNVP para se juntarem ao Partido Nazista.

Apesar disso, os dois partidos mantiveram a coligação parlamentar e, em 1931, Hugenberg e Hitler lançaram uma nota conjunta afirmando que iriam atuar juntos para derrubar a República. Em 1932, Hugenberg se recusou a apoiar a candidatura presidencial de Hitler, lançando como seu candidato Theodor Duesterberg. Este não ascendeu ao segundo turno devido, em parte, à boataria nazista de que ele possuía ascendência judaica. No final do ano, no entanto, os dois líderes fizeram uma renião secreta em que concordaram em não atrapalhar um ao outro. Em janeiro de 1933, Hitler ascendeu ao posto de chanceler através das articulações do ex-chanceler Franz von Papen, que garantiu a Hugenberg o posto de Ministro da Agricultura e da Economia. A partir daqui, a história é conhecida. Hitler coloca fogo no Reichstag, culpa os comunistas e baixa um decreto que pôs fim efetivo às liberdades civis dos cidadãos alemães. A mídia, controlada por Hugenberg, jamais questionou as ações de Hitler. O empresário também era contra a democracia e votou de maneira favorável ao decreto e à lei habilitante de 1933. Não fossem medidas impopulares tomadas por Hugenberg no ministério da Agricultura (ele aumentou o preço da manteiga para ajudar os produtores de leite), é possível que ele tivesse se tornado um dos homens fortes de Hitler.

Ainda controlado por Hugenberg, o jornal Lokal-Anzeiger
anuncia "o programa de Adolf Hitler para a liberdade, a
honra e o trabalho" (25 de outubro de 1933).
O empresário foi forçado a renunciar no final de junho de 1933. Seu partido logo aprovou fundir-se com o Partido Nazista e Hugenberg foi lançado como candidato ao Reichstag, ao lado de von Papen, em novembro, na eleição mais anti-democrática da história da Alemanha. Acontece que Hugenberg era bom de voto junto à classe média. Em dezembro, sua agência de notícias Telegraphen Union foi tomada pelo Ministério da Propaganda. Ele reteve boa parte de suas empresas de mídia até 1943, quando a empresa nazista Eher Verlag tomou o controle da Scherl. Em troca, Hugenberg recebeu uma grande quantidade de ações em indústrias no vale do Rio Reno. O empresário continuou no Reichstag até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, como um dos 22 membros "convidados" do parlamento. Ele foi preso por participação no Holocausto, mas foi solto em 1949 por um tribunal de desnazificação de Detmold, que concluiu que ele não era um nazista e permitiu que ele mantivesse suas propriedades, empresas e ações. Ele morreu tranquilamente em 12 de março de 1951, aos 85 anos de idade, numa cidade próxima a Detmold.

Imprensa brasileira ainda segue modelo Hugenberg

O modelo Hugenberg de distribuição de notícias é seguido até hoje pelos conglomerados de mídia do Brasil. Se nos Estados Unidos e na Europa os jornais locais dependem de agências de notícias independentes como Associated Press, Reuters e AFP para noticiar o que ocorre em locais distantes, no Brasil o padrão seguido é outro. Jornais como O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão possuem suas próprias agências de notícias que oferecem o conteúdo que já foi produzido por seus repórteres para os jornais locais. Assim sendo, as agências de notícias brasileiras oferecem um produto fortemente ligado à linha editorial de seus respectivos jornais. Conforme aponta Pedro Aguiar, essa estratégia de negócio teve início no modelo de gestão adotado por Hugenberg e foi importado para o Brasil por Assis Chateaubriand, o primeiro empresário a monopolizar o mercado de notícias no país. Sua influência política no Brasil foi considerável, abarcando um período que foi do entreguerras (1918-1939) até o início da ditadura militar (1964-1985).

Aguiar explica que esse modelo remonta ao período imediatamente anterior ao início da Primeira Guerra Mundial, com um crescente desconforto dos empresários da mídia alemã com o conteúdo "anti-germânico" que chegava nas redações de seus jornais vindo de agências de notícias estrangeiras como a Reuters britânica e a Hava francesa. Em 1913, eles criaram uma cooperativa de revenda das notícias dos próprios jornais, a SDU. Para geri-la foi criado um "conselho de notáveis" que reunia 300 industriais, dentre os quais o próprio Hugenberg. Segundo Aguiar, "é nessa época que o empresário começa a tomar contato com a gestão de agências de notícias e a importância estratégica que estas empresas oferecem". Em 1916, o empresário compra a agência de notícias Telegraphen Union (TU), fundada três anos antes a partir da fusão de serviços noticiosos e telegráficos preexistentes. Como sócios na empreitada, Hugenberg convida seus antigos patrões do grupo Krupp, que passam a compartilhar com ele o controle acionário da agência. Inspirado pela SDU, Hugenberg inova e garante a exclusividade do fornecimento do material jornalístico produzido pela TU para os veículos controlados por seu próprio grupo de imprensa.

Grande admirador da Alemanha, Assis Chateaubriand fundou a Agência Meridional em 1931 com o intuito de produzir matérias que seriam veiculadas apenas nos veículos controlados por seu grupo, Diários Associados. Outras agências já haviam sido fundadas no Brasil, como a Americana (1913) e a ABN (1924), todas com pouca expressividade. As demais agências, que seguem o modelo da Meridional até hoje, foram fundadas nas décadas seguintes. A Agência Estado, do Estadão, em 1970; a Agência O Globo, do jornal homônimo, em 1973 e a Folhapress, da Folha de S. Paulo, em 1994. Atualmente, estas são as maiores agências de notícias brasileiras. Elas atuam como "revendedoras" de matérias e fotos já produzidas pelas equipes dos jornais carro-chefe de cada conglomerado para jornais de  menor porte, longe das grandes metrópoles. Jornais locais dependem do material produzido nas metrópoles para alimentar suas edições, o que compromete a expressão regional e facilita o entendimento da rápida aceitação do nazismo em todas as regiões da Alemanha após a cobertura positiva de Hitler por parte do conglomerado de Hugenberg.

Este modelo de distribuição de notícias enfraquece a mídia local. Pequenos jornais ou emissoras de rádio, que tentam produzir um jornalismo independente, ficam em desvantagem competitiva em relação aos grupos que estão alinhados aos conglomerados nacionais de mídia. Qual o sentido de investir numa abordagem mais independente dos fatos se eu posso apenas ler ou republicar as matérias das agências? De repente, todas as emissoras de rádio e jornais locais estão divulgando as mesmas notícias; às vezes o que muda é a entonação do locutor ou o local de uma vírgula. Assim sendo, é possível afirmar que a maior parte das notícias veiculadas no Brasil segue a linha editoral de O GloboFolha e Estadão, visto que quase nunca "a agência faz a pauta e apura as informações" (Marques, 2005, p. 94). Há uma relação de dependência da mídia regional com os conglomerados das grandes metrópoles do eixo Rio-São Paulo, o que desestimula a independência jornalística e perpetua a concentração de um mercado já muito concentrado. Segundo o projeto Donos da Mídia, os grupos Abril, Globo, Bandeirantes, Record e Diários Associados controlam 42% dos veículos de comunicação de abrangência nacional do Brasil.

Outros modelos

Recentemente, propostas de democratização da mídia vem sendo discutidas no Brasil após a adoção de modelos desenvolvidos no sul, primeiro na Argentina e depois no Uruguai, em conformidade com o já apontado relatório da Unesco, que indica que os Estados nacionais devem "promover ativamente o desenvolvimento do setor de mídia de tal maneira a impedir a concentração indevida e assegurar a pluralidade e transparência da propriedade e do conteúdo nas vertentes pública, privada e comunitária da mídia". Apesar disso, as legislações – que regulamentam o uso do espectro radioelétrico e define regras para sua exploração – enfrentam a reação orquestrada de grandes empresas privadas de comunicação. Tanto na Argentina quanto no Uruguai, há um processo de judicialização das leis, ou seja, o questionamento jurídico das mesmas para atrasar sua implementação.

A luta pela aprovação da Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual na Argentina remonta ao ano de 2004, quando movimentos populares começaram a debater a pauta da regulamentação da mídia. A lei anterior, de 1978, vinha do período ditatorial e favorecia a concentração dos veículos de imprensa. O Grupo Clarín, que apoiou a ditadura, explorava 270 emissoras de rádio e TV e monopolizava as transmissões dos jogos do Campeonato Argentino de Futebol, relegando-os à TV paga. A paixão nacional pelo futebol fez com que os argentinos exigissem da presidenta Cristina Kirchner a regulamentação do setor. Kirchner levou a discussão para o Congresso em 2008, diante de uma forte oposição dos jornais. Apesar das acusações da mídia de que o governo pretendia censurar os argentinos, 15 mil cidadãos marcharam em direção ao Congresso para levar aos deputados o texto do projeto de lei de iniciativa popular. Por fim, a legislação foi aprovada por 147 votos a 3. No final de 2009, a lei entrou em vigência e, imediatamente, foi questionada na Justiça pelo Grupo Clarín. Levou quatro anos até a Corte Suprema declará-la constitucional. A lei uruguaia leva o mesmo nome da lei argentina e enfrenta o mesmo problema. Aprovada em dezembro de 2013, o governo aguarda uma decisão da Suprema Corte para começar a implementá-la.

No Brasil, os deputados constituintes, cientes do mal que a monopolização da mídia pode causar num país (como causou na Alemanha), inseriram na Constituição a proibição da formação de monopólios e oligopólios no setor. No entanto, ainda hoje esse dispositivo permanece sem regulamentação. A eleição de Lula, que parecia uma esperança para os militantes da comunicação, se transformou numa decepção amarga. Os governos do PT pormenorizaram o problema da concentração dos meios de comunicação no Brasil. Segundo o professor Venício de Lima, referência em estudos sobre mídia e democracia, "os governos acreditaram, equivocadamente, que poderia ser feita uma aliança com os oligopólios midiáticos", o que não só não ocorreu como compromete a democracia brasileira. Afinal, o próprio conceito de democracia está relacionado à liberdade de expressar as opiniões mais diversas, o que nem sempre ocorre na imprensa. Os três maiores jornais brasileiros – e suas agências – produzem matérias seguindo as mesmas pautas e a mesma linha editorial, que mais tarde serão reproduzidas em rádios e emissoras de TV a eles ligadas. A partir do momento em que a maioria das pessoas acreditam numa opinião única, fica fácil convencê-la de qualquer coisa. Assim como Hugenberg convenceu a Alemanha a se livrar dos judeus.