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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Crítica: Agamenon está mais vivo do que nunca

A peça Homens e Caranguejos, apresentada no dia 23 pelo Coletivo Cênico Joanas Incendeiam de São Paulo, é um espetáculo incrível. Sua concepção visual, com um cenário de carrinhos de reciclagem que se transformam em palafitas, é fascinante. Mas o texto, baseado na obra homônima de Josué de Castro, consegue ser muito mais. Ele mexe com todos os nossos sentidos. É possível sentir a dor do pai que acabou de perder o filho engolido pela correnteza do Rio Capibaribe. Em outro momento, é possível sentir a alegria do menino que brinca tão feliz no mangue do Recife sem saber que existe um mundo de luxo a poucos quilômetros de distância dali.

Inspirada no movimento realista do século passado, a peça tem um forte caráter de denúncia social. Também pudera. O médico nutrólogo Josué de Castro foi presidente do conselho executivo da FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação, e um dos grandes ativistas no combate à fome na região do semiárido brasileiro. Devido à sua militância política e social, teve seus direitos políticos cassados após o golpe civil-militar de 1964. Logo em seguida, em 1967, escreveu Homens e Caranguejos, seu único romance, como uma denúncia ao problema que não merecia a devida atenção dos ditadores militares e da sociedade civil que mantinha-os no poder.

Narrando, em tempo psicológico, a história de uma família de retirantes que sobrevive à fome no interior do Nordeste para tentar a vida no Recife, a peça utiliza a figura mitológica do rei grego Agamenon como alegoria para os mandatários que, além de não fazerem nada para aliviar o sofrimento do povo pobre, ainda querem expulsá-los de suas casas para dar espaço ao “progresso”; progresso este que, embora esteja cravado na bandeira, ainda é um direito acessível a poucos brasileiros. Agamenon matou dezenas de troianos para recuperar Helena de Troia e sacrificou sua própria filha durante a guerra. O que torna sua escolha ainda mais significativa se considerarmos o caráter feminista do Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, formado apenas por mulheres. 

Em Homens e Caranguejos, a tragédia, gênero teatral desenvolvido pelos gregos, se mistura com a tragédia da realidade de miséria que castiga a vida de muitos brasileiros. Nesta tragédia do século XX (ou XXI), pai e filho ganham a vida catando caranguejos no mangue. Para o desespero do pai, a criança não está tão interessada em seguir carreira como catador de caranguejo. O menino brinca na lama suja do mangue e sonha em depor o déspota Agamenon com a ajuda de um vizinho idoso, já debilitado. Esse movimento pela mudança social tem seu auge com a chegada do boi-calemba – ou boi-bumbá, festa originária da lenda do boi voador do Recife – no mangue, quando ficção e realidade se misturam com um grito de “viva Marielle Franco” pelo menino. 

Isso fez com que a pergunta que já estava em minha cabeça, ficasse ainda mais forte: quem seria Agamenon? Seria Geraldo Alckmin, da terra das atrizes? Seria Paulo Câmara, governador do Pernambuco que, como o rei da peça não hesita em desocupar os pobres de áreas públicas para trazer o “progresso” para o Recife? Seria o general Castello Branco, ditador da época em que o texto de Josué de Castro foi originalmente escrito? Para uns será até mesmo Lula ou Dilma, que apesar de suas boas intenções sucumbiram a um sistema político fisiológico e corrupto. Mas não consigo deixar de pensar que Agamenon seja Michel Temer, o responsável por colocar o Brasil de volta no mapa da fome compilado pela mesma FAO de Josué de Castro. 

Enquanto “Agamenon” se reúne com empresários e parlamentares para decidir como o povo pode pagar ainda mais pela crise dos ricos, pobres são desocupados de suas casas pelas forças de repressão estatal para darem espaço a condomínios de luxo, crianças brincam em manguezais sujos, adultos não veem alternativa senão colocarem seus filhos para trabalhar mesmo correndo o risco de serem penalizados por esse mesmo Estado que vira-lhes a cara enquanto eles passam fome. E também meninos morrem afogados em enchentes. Pensando bem, talvez “Agamenon” não seja só Temer, talvez sejamos todos nós que, por ação ou por omissão, permitimos que ele continue no poder e que cenas como essas, retratadas num texto de meio século atrás, continuem sendo comuns na realidade do Brasil.

O texto, infelizmente, é atemporal. Após uma aliviada durante os anos Lula e Dilma, a fome agora volta a assolar os rincões do país. Enquanto isso, nos grandes centros urbanos como o Recife, a miséria se torna cada vez mais evidente conforme vendedores e pedintes se multiplicam e disputam espaço nos sinaleiros. É interessante que, num cenário de golpes à democracia, aos direitos civis e humanos e às próprias iniciativas de combate à fome (com o anúncio de cortes ao Bolsa Família no orçamento do ano que vem), o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam tenha decidido resgatar justamente esse texto. Num cenário de sacrifício do direito de muitos em prol do benefício de poucos, a alegoria do autoritário e insensível rei Agamenon se apresenta mais viva do que nunca. Em cada um de nós.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O rosto de uma nação

Com seu silêncio apático sobre a continuidade do governo Michel Temer, garantida na última quarta-feira por uma Câmara dos Deputados comprada com emendas parlamentares, as classes mais abastadas do Brasil finalmente mostraram sua cara. O poeta Cazuza, incomodado com a hipocrisia da casta da qual ele fazia parte, queria que isso tivesse acontecido já no final dos anos 1980. Trata-se de uma cara desfigurada, como a de Anna Holm (Joan Crawford), personagem principal do filme clássico Um Rosto de Mulher (A Woman's Face), de 1941. Assim como Anna, o brasileiro de classe média é ridicularizado todas as vezes em que permite que os outros vejam seu rosto. Assim sendo, não conseguiu desenvolver-se de maneira saudável e encontrou na extorsão, na chantagem e na manipulação uma forma de subsistência. O "jeitinho", no entanto, parecia que iria ficar para trás quando entrou em cena quem estava disposto a mudar essa história.

Anna Holm (Joan Crawford) em cena
do filme Um Rosto de Mulher, de 1941.
Anna, assim como a classe média brasileira, tinha dúvidas das boas intenções de quem prometia dar-lhe um novo rosto. A operação, no entanto, foi um sucesso, apesar de ser demorada e invasiva. Mas Anna sente-se em dívida com o namorado, um bandido como ela, porque ele já amava-a quando seu rosto ainda era deformado. De maneira semelhante, o brasileiro médio, após ir ao paraíso do consumo na década passada com o PT, sente-se em dívida com o PMDB, um partido corrupto como ele, que sempre guiou sua vida e que melhor traduz suas atitudes cotidianas. Afinal de contas, este é o maior partido do Brasil sob qualquer número em que seja analisado: filiados (2,4 milhões), governadores (7), de prefeitos (1.028), senadores (22), deputados federais (68), deputados estaduais (142) e vereadores (7.551). O brasileiro médio sempre trocou juras de amor com o PMDB. E não dá para mudar o coração só mudando o rosto.

Durante o clímax de Um Rosto de Mulher, Anna precisa decidir se quer ser linda também por dentro ou se vai permitir que a imagem horrorosa de bandida, que construiu para si mesma como forma de se proteger do ostracismo social, vai continuar acompanhando-a. No caso do brasileiro médio, parece-me que essa escolha já foi feita. Escolhemos ser bandidos peemedebistas — ou, pelo menos, cúmplices deles. Talvez a operação que reformou o rosto do brasileiro não tenha sido tão bem sucedida assim e nosso rosto permaneça desfigurado de alguma forma, afetando nossa auto-imagem. Esta é a visão dos críticos de esquerda do PT. Já eu tenho opinião diversa. Penso que o governo que realizou esta cirurgia — muito bem sucedida entre os brasileiros pobres — não foi capaz de operar o milagre de reformar o caráter da classe média. E penso que governo nenhum será capaz disso, porque esta casta social se move por ideias egoístas e individualistas.

Independente da controvérsia se a operação foi bem sucedida ou não, sinto que nós, brasileiros de classe média, ainda iremos a julgamento por nossa opção pelo banditismo, assim como Anna Holm. Nem que seja o julgamento da História. E, assim como no filme, nossa cara será o assunto principal a ser discutido no tribunal. Um rosto que buscou ser operado, mas cuja cirurgia parece não ter tido influencia alguma sob nosso caráter. Chegamos no clímax da história e escolhemos continuar no caminho fácil e rápido do banditismo. Quando o dia do julgamento chegar, infelizmente estarei lá na mesma posição de arrependimento do cirurgião plástico de Anna, pensando que desperdicei meu tempo acreditando na mudança do coração de gelo de um ser com potencial através do embelezamento de seu rosto. Investi meu tempo na criação de um monstro: uma criatura linda e cheia de si por fora e horrível — cínica e hipócrita — por dentro. Eis o rosto de uma nação brasileira.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Conheça seus heróis

No último dia 11 de março, por ocasião da morte de Nancy Reagan, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, a presidenciável democrata Hillary Clinton cometeu uma das maiores gafes com o público LGBT desde o início de sua campanha há quase um ano. Ela atribuiu ao presidente Ronald Reagan e à sua esposa Nancy o papel de trazer a epidemia da AIDS, iniciada durante o governo dele, para o centro das atenções nacionais. O fato histórico é que o então presidente simplesmente ignorou os avisos da área médica para financiar as pesquisas contra a AIDS e alertar o público sobre os riscos da doença. Durante todo o primeiro mandato de Reagan (1981–1985) não houve reação alguma do governo à epidemia. Justo pelo contrário: houve um boicote à pesquisa que pode ter evitado o salvamento de milhares de vidas tanto nos anos 1980 quanto na década seguinte.

Reagan permitiu a morte de 70.000 pessoas. Se o perpetrador
 dessas mortes tivesse sido a URSS e não o HIV, nosso mundo
talvez não existira mais.
De início, o vírus da imunodeficiência humana (HIV) matava quase que exclusivamente homens gays. Reagan era evangélico – aquela comunidade simpática cujos principais líderes falam que vamos arder no mármore do inferno para sempre. A crise da AIDS se iniciou junto com o governo de Reagan, em 1981, mas o presidente cortou as verbas do Centro para Controle de Doenças (CDC), órgão responsável pela pesquisa e divulgação de surtos epidêmicos no país. No final do primeiro ano do governo republicano, a doença já havia matado mais de 1.000 pessoas. Entretanto, o CDC recebeu menos de um milhão de dólares para pesquisar a cura da AIDS, ao passo em que gastou nove milhões para curar a legionelose, que matou menos de 50 pessoas naquele ano.

Foi só quando a AIDS começou a atingir heterossexuais como o jovem hemofílico Ryan White, de 13 anos de idade e que adquiriu o HIV após uma transfusão sanguínea, que o governo começou a falar sobre a epidemia. Em 1985, Ryan foi expulso de sua escola por ser soropositivo. Graças ao apagão informativo que o governo promoveu sobre a doença, a maioria das pessoas comuns não sabia como o HIV era transmitido. Tinham medo de pegar o vírus no bebedouro do colégio. A família de Ryan entrou com um processo contra a escola e, após provar que ele não representava risco aos colegas, garantiu-lhe o direito de continuar estudando. Ele acabou se tornando uma espécie de porta-voz dos soropositivos, beijando a atriz Alyssa Milano no talk show de Phil Donahue para provar que o HIV não era transmissível desse jeito.

Numa conferência de imprensa em 1985, Reagan, já reeleito, reconhece a epidemia. Mesmo definindo a AIDS como uma doença sexualmente transmissível, expressou ceticismo em permitir que crianças como Ryan frequentassem escolas públicas. O governo já tinha sido instado a se posicionar sobre a epidemia várias vezes desde 1981. O radialista Lester Kinsolving, correspondente na Casa Branca, tentou, em vão, obter uma declaração do governo por três anos. Kinsolving primeiro indagou o secretário de imprensa do presidente sobre as mortes por AIDS em 1982; Reagan só reconheceu a epidemia na já mencionada conferência de imprensa por ocasião de casos judiciais como o de Ryan White. O primeiro discurso televisivo do presidente sobre a epidemia só ocorreu seis anos após sua posse. A essa altura, 20.849 pessoas já haviam morrido da doença.

Com o deslize, Hillary demonstrou não ser a melhor candidata
para os gays, mas deve ganhar o apoio deles por falta de opção.
O mais engraçado é que Kinsolving tampouco gosta de gays. Seu avô era o bispo Lucien Lee Kinsolving, um dos fundadores da Igreja Episcopal no Brasil, e ele segue uma vertente conservadora do anglicanismo. A diferença entre o cristianismo de Kinsolving e de Reagan, porém, é que o primeiro via seres humanos definhando até a morte e um governo – dito cristão – indiferente ao sofrimento deles. Ele era capaz de enxergar seres humanos, mesmo que não concordasse com a orientação sexual deles (o que, para mim, não cabe a ninguém concordar ou discordar, por se tratar de um traço biológico de alguns animais). Talvez Kinsolving tenha aprendido a respeitar os gays graças a sua esposa, mais liberal. Mas isso pouco importa. O que importa é que ele conseguiu enxergar humanidade nos gays, o que a maioria dos evangélicos ainda não conseguiu aprender a fazer até hoje.

Quanto a Hillary Clinton, ela pediu desculpas pelo comentário no mesmo dia, provavelmente alertada por alguém de sua campanha que conhece mais sobre a história da epidemia de AIDS do que ela. São deslizes assim que dão razão à campanha de seu opositor, o Senador Bernie Sanders, e evidenciam o porquê de Hillary não merecer o apoio da comunidade gay. O casal Reagan não foi um herói dos soropositivos (que eram, em sua maioria, gays) e, pela falta de conhecimento histórico, tampouco Hillary deveria ser. Entretanto, pela forma pouco democrática pela qual a política americana se desenrola, prevejo a maioria dos gays e soropositivos apoiando Hillary em novembro contra a ameaça maior que representa a eleição de um republicano anti-gay e anti-ciência. No meio disso tudo, no entanto, salta aos olhos o papel de Kinsolving. Às vezes heróis aparecem em quem menos esperamos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

José e Maria, os refugiados

Hoje a comunidade cristã comemora o segundo domingo do Advento, ou seja, há uma semana iniciaram-se as preparações para a festa mais importante da fé cristã: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse momento, somos instigados a lembrarmos da narrativa bíblica, onde um jovem casal de Nazaré se dirige para Belém com a finalidade de serem contados pelos oficiais do recenseamento como cidadãos do Império Romano, estado que dominava a região. Ao chegarem na cidade, se depararam com uma situação atípica: todas as estalagens estavam ocupadas. O casal acaba encontrando refúgio num estábulo, onde a jovem Maria de Nazaré dá à luz o profeta da maior religião do mundo. O Salvador do Mundo nasceu junto de animais de fazenda, sem luxo ou  conforto. Apesar da distorção teológica contemporânea de alguns cristãos,  a simplicidade e a humildade são marcas essenciais da narrativa cristã.

Como já virou recorrente na história do cristianismo, as pessoas revisitam a história de Jesus sem apreender a mensagem por trás dela. Nesse novo Advento, início do 2.016° ano da era cristã, muitas famílias montam seus presépios, que retratam uma família de refugiados do século I, enquanto atacam Marias e Josés de uma nova era. Assim como os pais de Jesus, os casais sírios precisam de nossa ajuda. Assim como o menino Jesus, os bebês haitianos que também nascem em condições insalubres antes de partirem para o exílio precisam de nossa compaixão. A alma caridosa que cedeu um teto, mesmo que de um estábulo, para os pais de Jesus de Nazaré sequer é citada nominalmente na narrativa bíblica, mas sua lição ecoa até os dias de hoje como exemplo de compaixão e amor ao próximo. É o ponto central do ministério de Jesus. E, para os que distorcem a teologia e valorizam mais o Antigo Testamento do que o Novo, é o ponto central também da narrativa de Sodoma e Gomorra. As cidades foram destruídas porque não sabiam acolher os estrangeiros.

Trecho da minissérie The Bible.
De que adianta ler a Bíblia, saber citá-la ipsis litteris, se não se incorporou a mensagem dela no âmago de sua alma? Hoje o mundo cristão se fecha para os refugiados de outras religiões – nomeadamente o vudu haitiano e o Islã das vertentes minoritárias. Logo os cristãos, que foram tão perseguidos por judeus e pelos seguidores da religião mitológica greco-romana nos primeiros séculos de sua caminhada, jogados aos leões no Coliseu como forma de entretenimento da elite romana. Logo os cristãos, cujo Cristo desafiava as normas sociais vigentes em sua época e se misturava com os samaritanos, minoria religiosa ainda hoje perseguida pelo status quo judaico em Israel. Ler a Bíblia é muito legal, mas interpretá-la é o que diferencia um conhecedor de um fiel. Ser um seguidor de Jesus Cristo, para mim, significa apreender todas as lições de seu Evangelho e não somente aqueles trechos que melhor me convém.

No debate sobre os refugiados, deixamo-nos tomar pelo medo. Medo de que os muçulmanos que estão vindo da Síria sejam extremistas (embora eles estejam fugindo dos extremistas), medo de que os haitianos tomem nossos empregos (embora a maioria deles tenha tido uma educação precária ao extremo e não ofereçam grandes riscos). Quando indagado sobre quem seria o vizinho que deveria se amar, Jesus não apontou para um judeu como ele, mas para um samaritano. O bom samaritano, que importou-se em cuidar de um homem – que não era de sua religião ou cultura – caído e ferido na beira da estrada após um assalto. Apesar de não seguir a religião majoritária, ele demonstrou, para Jesus, agir mais conforme a palavra de Deus do que  aqueles que ficavam no Templo de Jerusalém ditando como os religiosos deveriam agir para agradar a Deus. No momento estamos passando pela estrada e deixando o homem ferido caído lá.

José e Maria também dependeram da bondade de um estranho para terem a criança que mudaria o mundo com seus ensinamentos sobre amor e compaixão. Eram refugiados, mesmo que temporários (se você acredita na história da fuga para o Egito, então foram ainda mais do que refugiados temporários), e precisaram contar com a ajuda de estranhos. Se a história do casal se repetisse hoje, eles teriam o pedido de refúgio negado por aqueles que montam presépios que retratam a história deles mesmos! Não estamos fechando a porta para casais sírios ou haitianos, estamos fechando a porta para José e Maria. A lição do cristianismo é uma lição de cuidado e ajuda ao próximo, em especial àqueles que estão à margem da sociedade, mas em algum ponto do desenvolvimento da nossa religião nos esquecemos disso. Enquanto montamos nossos presépios com José e Maria, os refugiados, falamos mal de sírios e haitianos que tentam uma vida melhor em nosso país, dito cristão.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Facebook, o Grande Irmão

Em 1984, sua obra-prima, o escritor britânico George Orwell prevê uma realidade distópica para o futuro da humanidade. O mundo se encontra dividido em três blocos supranacionais governados por líderes autoritários e que vivem em guerra entre si. O pensamento é desencorajado, pois pode levar ao dissenso, e os indivíduos são constantemente vigiados através de telões (que o autor chama de tele-telas) instalados em todas as residências, lojas e fábricas, possuindo o mínimo possível de privacidade. Na Oceania, onde mora o protagonista Winston Smith e onde a história se desenrola, o Grande Irmão (Big Brother, em inglês) é o responsável pela vigilância, estando sua imagem presente em todas as tele-telas acompanhada do anúncio "Big Brother is watching you" ("O Grande Irmão está te observando"). Muito já foi debatido se o Big Brother, que é o líder da Oceania, existia de verdade ou se ele era apenas um mecanismo de intimidação da burocracia estatal.
Tele-tela conforme imaginada no filme de Michael Radford.
Quando a televisão se popularizou no Ocidente em meados da década de 1950, críticos sociais começaram a se indagar se as tele-telas orwellianas não teriam finalmente se tornado realidade. No entanto, os aparelhos de televisão da época apenas recebiam os sinais enviados pelas antenas de tevê. Não eram capazes de captar imagens e, muito menos, enviá-las para alguma empresa ou órgão de controle estatal. Hoje em dia, no entanto, as tele-telas já existem. São os computadores e os aparelhos celulares e televisores "inteligentes" (os smartphones e as smart TVs), onde se acumula um número cada vez maior de informação sobre seus usuários. Quantas vezes não vamos preencher um formulário on-line e nossas informações já estão gravadas no navegador? Da nossa data de nascimento ao número de nosso cartão de crédito, nossos celulares sabem tudo sobre nós. E, o que é mais chocante de tudo, são empresas privadas (e não o Estado) que estão gerenciando essas informações!

Se por um lado Orwell acertou ao imaginar um futuro onde o pensamento e a privacidade são mínimos, ele errou ao imaginar que seriam os governos os principais promotores dessa nova realidade. Uma empresa em particular se destaca pelo número absurdamente exagerado de informações que guarda sobre seus usuários: o Facebook. Ao aceitarmos os termos de uso daquela rede social estamos, consciente ou inconscientemente, abdicando de nossa privacidade e de nosso interesse em buscar um diálogo mais calcado na racionalidade do que na passionalidade. Os erros de Orwell foram os acertos de Aldous Huxley, outro escritor britânico do século passado que também previu um futuro distópico da humanidade em seu Admirável Mundo Novo. Confesso que não sou familiarizado com a obra de Huxley, mas o crítico social Neil Postman escreveu o seguinte sobre as diferenças entre 1984 e Admirável Mundo Novo:

"O que Orwell temia era aqueles que queimariam livros. O que Huxley temia era que não haveria razão para queimar livros, uma vez que ninguém mais teria interesse em lê-los. Orwell temia os que nos privariam de informação. Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que nos tornaríamos apáticos e egotistas. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade se tornaria irrelevante. Orwell temia que nossa cultura seria aprisionada. Huxley temia que nossa cultura seria banalizada (...) Em resumo, Orwell temia que o medo nos arruinaria. Huxley temia que nosso desejo nos arruinaria". In: POSTMAN, Neil. Amusing Ouselves to Death. Nova York: Viking, 1985.

O Big Brother não é um ditador autoritário que nos oprime. Não é Edgar Hoover que usa todos os meios possíveis para eliminar o pensamento anti-establishment da sociedade. Não é tampouco a NSA, que viola a privacidade tanto do jovem jovem muçulmano do subúrbio de Detroit quanto da presidenta do Brasil. Afinal de contas, a NSA só consegue informações sobre cidadãos, comuns ou não, porque empresas privadas como o Facebook estão dispostas a repassá-las ao órgão de espionagem do governo estadunidense. O Big Brother é um logotipo azul e branco que nos indaga: "No que você está pensando?", como se guardar os pensamentos para si mesmo fosse algo ruim. O Big Brother é uma empresa que sabe quando nascemos, para onde viajamos nas férias, qual nossa preferência político-partidária e quando estamos de bom e mau humor. E ela nos incentiva a sermos todos Grandes Irmãos. Afinal de contas, nossos amigos e seguidores estão acompanhando todo e qualquer movimento nosso, assim como estamos acompanhando os passos deles.

O mais interessante disso tudo é que não percebemos a invasão de nossa privacidade como uma opressão. Segundo Noel Sharkey, professor de inteligência artificial da Universidade de Sheffield, as novas gerações estão dispostas a conceder sua privacidade para uma empresa privada porque não estão familiarizadas com a obra de Orwell. Elas não imaginam que o extermínio da privacidade possa ser algo ruim até que se vêem como vítimas dele - caso, por exemplo, de pessoas comuns que têm suas vidas arruinadas pela divulgação de fotos íntimas. No momento em que postamos algo na rede, mesmo que em mensagem privada (uma foto nua para o namorado, por exemplo), perdemos o controle sobre aquilo. E, ao contrário do que se pensa, mesmo após deletada aquela informação está guardada para sempre. Sua foto nua está salva no servidor do Facebook em algum canto do mundo. Como diz uma piada que vi recentemente: "se a NSA está guardando todas nossas informações da internet, então ela possui a maior coleção de pornografia da história".

Como disse Postman, o desejo nos arruína. Pelo desejo de ser popular e encontrar pessoas com quem possamos compartilhar nossas ideias, entramos num mundo sem privacidade. Esse desejo é maior do que o de resguardar nossa imagem pessoal. No Facebook, temos tanta informação que não sabemos lidar com elas. Afinal, qual tragédia é mais importante, a de Mariana ou a de Paris? Nos tornamos apáticos à morte de outros seres humanos por causa do grupo ideológico ao qual pertencemos. E não adianta apontar para o indivíduo que ele está sendo egotista, ou seja, que está olhando apenas para seu próprio universo, pois no Facebook não somos encorajados a embasar nossas opiniões e argumentos em leituras ou análises críticas da realidade. Para fazer isso, é preciso sair do espaço virtual, o que aquela rede social não deseja que façamos. No Facebook temos a falsa sensação de que estamos obtendo todas as informações necessárias e perdemos a ânsia pelo verdadeiro conhecimento.

O conhecimento surge, muitas vezes, do embate de ideias. O professor apresenta ao aluno os diferentes modelos de organização social existentes, cada um com seus prós e contras, e este último decide escolher um com o qual se identifica. Os pais apresentam ao filho as diferentes religiões existentes e este decide escolher uma com a qual se identifica. Mas o Facebook é a terra da interdição da coexistência pacífica entre as ideias diferentes. O que importa é vencer a discussão com aquele religioso alienado que mora a 1.000 quilômetros de distância de mim ou com aquele tucano alienado que mora a 2.500 quilômetros de distância e que jamais vou conhecer pessoalmente. Os algoritmos da rede social faz com que tenhamos acesso apenas às pessoas e páginas que pensam de maneira semelhante à nossa. De repente o mundo, composto por várias verdades na sua dimensão real, passa a ser composto por apenas uma verdade na sua dimensão virtual.

A verdade se tornou irrelevante. Assim como Winston Smith, somos desencorajados a pensar, pois pensar pode nos tornar párias sociais. Recentemente, Ciro Gomes e Roberto Requião, que fazem críticas acertadíssimas à política econômica da presidenta Dilma Rousseff, passaram a ser atacados pelos defensores da verdade petista, pois podem levar ao dissenso entre os membros daquele grupo que se acredita coeso. Foram logo atacados e desmerecidos no plano pessoal, pois, como disse anteriormente, o Facebook é o reino do passional e não do racional. Quem decidir apoiar o senador ou o ex-ministro vai virar pária para os petistas. O fato é que, com as redes sociais, voltamos à sociedade tribal. As contendas são vencidas através da violência virtual, através da união dos membros dos grupos virtuais para derrubar páginas, promover hashtags e xingamentos orquestrados e denunciar passionalmente os partidários da ideologia contrária. Às vezes a violência virtual escorre para o mundo real, como ocorreu em Brasília durante a marcha das mulheres negras.

Facebook is watching you.
Orwell imaginou um futuro caótico onde três Estados nacionais fortes suprimiriam o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. Imagino um futuro caótico onde empresas multinacionais fortes suprimirão o bem-estar individual em sua luta pela dominação mundial. E, o que é pior de tudo, essa dominação não é vista como tal pelas pessoas comuns. O Facebook soube trabalhar muito bem com o desejo do ser humano de se sentir aceito e de viver em comunidade para solapar-nos de nossas privacidades. Em troca de pertencermos a tribos virtuais, oferecemos nossas informações mais íntimas, que são registradas e acessadas a qualquer minuto pela rede social, que vende-as para empresas de comércio virtual e repassa-as para órgãos de espionagem. O futuro é sombrio.Viveremos numa sociedade tribal, inepta à resolução de conflitos através do diálogo, criada por empresas que sabem tudo sobre nós. Eis o admirável mundo novo: Facebook is watching you.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Politicamente correto e a negação do debate

Acusar o interlocutor de ser "politicamente correto", como se isso fosse algo censurável, é a negação do debate. O indivíduo só consegue atingir o crescimento intelectual através da partilha de ideias, do debate. Mas é, contudo, mais fácil encontrar um inimigo poderoso e até certo grau fictício (a religião organizada, o Islã, a secularização da sociedade, o "marxismo cultural", o "bolivarianismo" e, é claro "a ditadura do politicamente correto") do que encarar as várias cores das questões que estão sendo apontadas. Nenhuma questão sócio-política é dualista. Quando tratamos algo como sendo ou bom ou ruim, sem um meio termo, incorremos na falácia da dicotomia. O fato é que não existe apenas dois lado para cada história. Há milhares de lados para cada questão.

A religião organizada, por exemplo, não é o antro apenas de fanáticos retrógrados. É algo que eu tenho presenciado em minha jornada na Igreja Episcopal. De maneira semelhante, a maioria dos muçulmanos que moram no ocidente buscam se integrar às sociedades das quais fazem parte e não querem implementar a sharia (de fato, a maioria deles votou em Barack Obama nos Estados Unidos). A secularização é menos responsável pelo fim do Natal do que o consumismo e o "marxismo cultural", apesar dos ares de teoria acadêmica, não passa de uma formulação criada pela extrema-direita estadunidense para rejeitar as políticas a favor das minorias sem ser chamada de racista. O que esse segmento da sociedade, que nunca aceitou de fato o fim da segregação racial, chama de "ditadura do politicamente correto" nada mais é do que a negação do debate sobre racismo numa sociedade cuja a base de sua fundação sócio-econômica foi a escravidão.

Concordo que certas críticas à "apropriação cultural" são exageradas. Alguns artistas querem apenas honrar culturas que eles respeitam, como foi o caso da performance japonesa de Katy Perry no American Music Awards. No entanto, alguns indivíduos, notadamente os comediantes, nada têm a acrescentar ao debate sobre apropriação cultural e quais formas de expressão devem ser aceitas ou não pela sociedade. Atuam como defensores do status quo ao defender um suposto "direito" à ofensa. Fazer piada de estupro, se vestir de índio ou de Osama bin Laden no Carnaval ou comparar negros a macacos é reforçar esterótipos negativos em relação a grupos mais complexas do que a representação midiática deles. Há uma linha tênue que separa a liberdade de expressão do crime de discurso de ódio. E "acusar" o interlocutor de ser "politicamente correto" não faz ninguém ganhar um debate. Pelo contrário, trata-se da falácia da dispersão.

Desqualificar as pessoas que lutam pela igualdade social, acusando-as de serem "politicamente corretas" é, para mim, um ataque à própria ideia de democracia, que supõe o livre debate e a pluralidade de ideias, que podem e devem co-existir pacificamente. Quem sou eu, enquanto homem branco, para dizer a uma mulher ou a um negro o que eles podem achar ofensivo? Não sei o que é ter meus direitos básicos tolhidos por ser mulher ou negro. Sem falar que, se eu tentar censurá-los, impedi-los de levantar questões que o incomodam então eu estarei atuando contra a liberdade de expressão. O que chamam pejorativamente de "ditadura do politicamente correto", prefiro denominar de "sensibilidade às minorias" (onde entra a mulher que, apesar de ser 52% da população brasileira, é tratada como uma minoria pelos sociólogos por questões de dominação histórica).

A chamada "regra de ouro" da sociedade - não faça ao outro aquilo que não gostaria que fizessem a ti - presente em Lucas 6:31, resolveria muitos problemas caso não fosse meramente um discurso vazio. Esse mundo seria realmente melhor se pudêssemos simplesmente nos colocar no lugar uns dos outros. As tensões raciais praticamente desapareceriam e pararíamos de culpar a vítima do estupro por ter sido abusada. No entanto, é bem mais fácil desqualificar e ridicularizar aqueles que lutam por uma sociedade mais equânime, chamando-os de nomes supostamente ofensivos (argumentum ad hominem), como se isso fosse fazer desaparecer os questionamentos que essas pessoas trazem. Como diz minha mãe, é fácil apontar o dedo para os outros. Apontar o dedo para si mesmo exige um pouco mais de esforço.

domingo, 11 de outubro de 2015

Burrice e sadismo, marcas das redes sociais?

Venho acompanhando, há algumas semanas, o mais novo seriado de Ryan Murphy, Scream Queens. Uma mistura de terror e comédia, narra a história de uma irmandade universitária que começou a ser atacada por um serial killer. Como todo seriado de Murphy, há críticas sociais sutis em todos os episódios. O que mais me chamou a atenção, no entanto, é a crítica à passividade e à falta de empatia que as redes sociais causa nas pessoas. Já no primeiro episódio, a reitora da faculdade reclama dos smartphones, que possibilitam os alunos de compartilhar entre si as fotos dos crimes ocorridos no campus, coisa que 20 anos atrás, quando ela acobertou a morte de uma aluna, não seria possível. No episódio exibido na última quarta-feira pela FOX, os alunos descobrem a casa onde estão escondidos os corpos de todas as vítimas do serial killer e vão até lá para tirar fotos e compartilhar em suas redes sociais. Nenhum deles pensa, em momento algum, em ligar para a polícia. Que sociedade sádica é essa em que vivemos em que a tecnologia é usada para compartilhar fotos de cadáveres?

Muitos de vocês já devem ter se esquecido disso, mas há alguns meses, um guarda civil matou a namorada no Buriti Shopping. Os frequentadores do centro comercial tiraram dezenas de fotos da moça morta, que viralizaram. Eu recebi as fotos, sem pedir. Na época o meu WhatsApp carregava as fotos automaticamente e eu vi a moça morta e ensanguentada. Tive nojo da pessoa que me mandou as fotos. E fiquei com raiva dela quando descobri que eu não só conhecia a irmã da falecida como já havia trabalhado com ela. As pessoas não pensam nisso na hora de compartilhar as fotos? E se fosse parente de um amigo seu? No meu caso, era. E, mesmo que não fosse, odeio ver cadáveres, sejam os reais mostrados no Balanço Geral ou os fictícios mostrados no CSI. Penso que isso nos insensibiliza para a gravidade do ato de assassinar alguém; a morte não deve ser glamourizada ou pormenorizada e tampouco normatizada. Em minha formação, aprendi que a vida de um único ser humano é um milhão de vezes mais sagrada do que todas as propriedades do mais rico dos homens. Hoje em dia, no entanto, usamos as redes sociais para saciar nossas curiosidades mais mórbidas e até incentivar o assassinato, seja de índios ou da presidenta da República. Como se fosse aceitável matar pessoas.

A morte foi normatizada. Ninguém se escandaliza mais quando a Polícia Militar promove massacres que transformam o Brasil no segundo país que mais mata jovens no mundo, atrás apenas da Nigéria. Mais da metade da população brasileira concorda com a frase "bandido bom é bandido morto". A crise de segurança pública, causada em parte pela manutenção da estrutura da ditadura militar - civis no comando de investigações criminais e militares no comando da repressão (rechaçada pelos próprios policiais) -, gera na população a percepção de que somos todos vítimas dos bandidos e que somente o extermínio deles vai gerar a paz social. Como pode mais mortes gerar a paz? É como querer curar um corte na perna com a amputação da mesma. Toda ação gera uma reação proporcional em tamanho. Se a polícia reprimir mais violentamente o crime organizado, este último irá responder com ainda mais violência e, pronto, criamos um ciclo vicioso que parece não ter fim. O crime se resolve com política social. Por que a taxa de violência na Suécia é praticamente nula? Porque na Suécia existe uma série de benefícios sociais que evitam a população de cair na pobreza e na exclusão social gerada por tal situação. No Brasil, por outro lado, temos um governador que vai fechar 155 escolas públicas e, assim, criar um monte de possíveis candidatos para o crime organizado.

Não sou ingênuo de achar que investir na qualidade de vida do povo elimina por completo a criminalidade. Sempre existirão pessoas com problemas de caráter, em qualquer lugar do mundo. Mas os países mais pacíficos do mundo estão entre os que mais investem proporcionalmente em educação e assistência social. Adotar uma postura de guerra à criminalidade só vai gerar ainda mais mortes, em especial dos mais pobres, que muitas vezes não têm nada a ver com os bandidos e os policiais e só foram pegos no meio do fogo cruzado entre a polícia e o crime organizado. Sem falar no desperdício de dinheiro público que investir numa guerra já perdida para a criminalidade representa. A sensação que as pessoas têm é que é possível vencer os bandidos sem passar pela questão da desigualdade social. Me lembro quando, há vários anos, a Câmara Municipal de Goiânia discutia se os guardas civis poderiam carregar armas. Fui contra, porque sabia que essas armas poderiam cair nas mãos de pessoas mentalmente despreparadas para lidar com elas. Talvez se esse projeto de lei tivesse sido arquivado, a vida da irmã da minha ex-colega de trabalho pudesse ter sido poupada. Na ânsia de acabar com a criminalidade, a sociedade, representada pelos vereadores, autorizou que um machista com potencial assassino carregasse uma arma.

Boato espalhado no Facebook assassinou
Fabiane e desmamou sua filha de um ano.
O fato é que o ser humano é hipócrita. Quer o fim da corrupção, mas molha o bico de servidores públicos para conseguir aquele documento ou ficar livre daquela multa. Quer o fim da violência, mas está apto a se tornar um assassino e linchar alguém até a morte. Na baixada santista literalmente desmamaram uma bebê quando mataram a mãe dela, Fabiane Maria de Jesus, linchada. E por quê? Porque a página do Facebook Guarujá Alerta denunciou que havia uma mulher sequestrando bebês para realizar um ritual satânico na cidade. Um boato originado no Rio de Janeiro e que de vez em quando ressurge nas grandes cidades do país. Semana passada, na Índia, o WhatsApp foi usado por extremistas hindus para incentivar o assassinato de um muçulmano que supostamente tinha um freezer cheio de carne bovina (a vaca é sagrada no hinduísmo). A tecnologia é uma arma poderosa - já fez maravilhas como arrecadar verbas para dar próteses de mãos à jovem que teve os membros decepados pelo namorado e unir defensores do mesmo ideal que fizeram revoluções e, por outro lado, já espalhou boatos que causaram danos à imagem de pessoas e até mortes. Se realmente queremos um mundo mais pacífico, precisamos agir de maneira mais pacífica em todos os ambientes dele, inclusive o virtual.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que compartilhas

A tecnologia é neutra, mas nós não podemos ser. Não podemos ser receptores passivos das informações que vimos nas redes sociais. Hoje mesmo li algo no Facebook que me causou tremenda vergonha alheia. Um comentarista da página Quebrando o Tabu - que defende a descriminalização do porte de maconha e trata de outros assuntos que afetam a vida político-social do Brasil - afirmou que Dilma Rousseff desviou 2 trilhões de reais. A arrecadação anual do Brasil é de cerca de um trilhão de reais. Então quer dizer que a presidenta desviou tudo o que o Brasil arrecada em impostos federais durante dois anos e nenhum órgão fiscalizador - TCU (que recentemente rejeitou as contas dela), MPF e PF - percebeu? Haja burrice para acreditar num boato desses! Se bem que o comentarista estava defendendo o Eduardo Cunha porque ele desviou "só" 2 milhões, então acho que ele rumina sim. O fato é que nem tudo que está escrito é verdade. Um papel mais ativo, de checar os fatos antes de passá-los adiante, evitaria até mortes. Antes de postar algo, escrever qualquer coisa, deve-se verificar a veracidade dos fatos e, acima de tudo, pensar nas consequências do que se está compartilhando. O meu receptor precisa mesmo ver corpos decepados? E se fosse o corpo decepado de um parente meu que estivesse viralizando? Chega de burrice e de sadismo nas redes sociais!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O genocídio indígena nunca acabará?

Com informações de Brasil Post, EBC e DCM.

Genocídio começou com os portugueses em 1500 e continua
com os brasileiros, muitos dos quais frutos da miscigenação.
Como boa parte da população desse país, tenho ascendência indígena. No entanto, o processo de embranquecimento da minha tataravó não foi sofisticada igual ao ocorrido na Austrália entre 1905 e 1969. Como a eugenia sempre fez parte do discurso oficial dos brasileiros, era comum antigamente que homens brancos sequestrassem mulheres indígenas para se casarem com elas sem sequer serem questionados por um Estado que tinha vergonha de ser multirracial. Era o famoso "peguei ela no laço" que aposto que muitos de vocês já devem ter ouvido falar. Meu finado avô contava isso sobre sua avó sem entender muito a dimensão racista e machista da expressão. Para ele, era mais uma forma de exaltar nossa ascendência indígena do que de normalizar o genocídio. Discursos assim invisibilizam o fato de que a população indígena do Brasil - ou pelo menos o que restou dela após a dominação portuguesa - foi praticamente dizimada no início do século passado. Segundo Alexander Hinton, 800.000 ameríndios foram mortos no Brasil entre 1900 e 1957.

É um número chocante que não deixou de existir durante a ditadura que foi colocada no poder pela elite, com o apoio da classe média, para acabar com os problemas sócio-econômicos e trazer a estabilidade de volta para o Brasil. Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, pelo menos 8.350 indígenas foram mortos entre 1964 e 1985. O documento alerta que o número "deve ser exponencialmente maior, uma vez que apenas uma parcela muito restrita dos povos indígenas afetados foi analisada e que há casos em que a quantidade de mortos é alta o bastante para desencorajar estimativas". Os mais afetados, segundo relatório foram os Cinta-Larga, que vivem na divisa entre os estados do Mato Grosso e de Rondônia. Dentre as medidas adotadas pelos fazendeiros para expulsar o povo milenar de sua terra estavam o envenenamento dos frutos de árvores por arsênico, a "doação" de brinquedos contaminados com vírus do sarampo e da varíola e, é claro, assassinatos em emboscadas. 3.500 indígenas dessa etnia morreram durante a ditadura e o total de mortes é de mais de 5.000 desde a década de 1950.

Uma etnia que vem sendo constantemente atacada no Centro-Oeste do país, conforme a fronteira agrícola se expande para áreas ambientais e indígenas, é a dos Guarani-Kaiowá. Há uns dois anos, uma ação de solidariedade a favor da demarcação de terra desses indígenas fez com que milhares de membros do Facebook trocassem seus sobrenomes na rede social para Guarani-Kaiowá. Apesar de bonita e de chamar a atenção para o genocídio dos Guarani-Kaiowá, o ato não foi o suficiente para convencer os agricultores da região a deixarem de atacar os indígenas da etnia. No feriado da Independência, enquanto a maioria comemorava a independência do Brasil de Portugal, os indígenas lamentavam sua dependência a homens brancos corruptos para investigar e punir os responsáveis pela morte de uma de suas lideranças. Em 29 de agosto, o jovem Simião Vilhalva Guarani, de 24 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, na microrregião de Dourados (MS), município localizado a 235 quilômetros da capital estadual Campo Grande. 

Parentes choram a morte de Vilhalva.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) exigiu intervenção federal na apuração dos fatos e punição dos responsáveis, visto que o poder público estadual é alinhado aos interesses dos produtores rurais. "Como é sabido, são subservientes a este segmento do poder econômico em Mato Grosso do Sul", afirmou a ONG em nota pública. O governo estadual permite desde sempre que as terras indígenas sejam ocupadas por fazendeiros com documentos falsificados de posse de terra. Estima-se que pelo menos metade dos documentos de posse de terra no Brasil sejam falsos. Dessa forma, indígenas que foram expulsos de suas terras há 30, 40 anos por jagunços retornaram agora numa tentativa de pressionar o Governo Federal pela demarcação de suas terras, cansados que estão da pobreza e da miséria nos arredores dos centros urbanos e de "fugirem desenganados para viver um cultura diferente", parafraseando a cantora argentina Mercedes Sosa, ela mesma ascendente de ameríndios. Mas eles são encarados como "invasores" pela mídia e pela parte da população que se deixa enganar por ela. É muito conveniente para os agricultores quando a namoradinha dos brasileiros - brancos - se posiciona contra os indígenas.

Desde 22 de agosto, os indígenas Guarani-Kaiowá ocupam fazendas que estão em terras que legalmente lhes pertencem. A demarcação de reservas indígenas deveria ter sido concluída 5 anos após a promulgação da Constituição Federal de 1988, ou seja, em 1994. No entanto, a Justiça representa um empecilho ao processo, o que leva à invasão das terras por fazendeiros e à consequente expulsão dos indígenas por jagunços. Em 2005, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva homologou a demarcação das terras Ñande Ru Marangatu em Mato Grosso do Sul. Entretanto, o Supremo Tribunal Federal, atropelando a divisão de poderes estabelecida pela República, suspendeu os efeitos do decreto presidencial. Desde então, a matéria está parada no STF o que, segundo os indígenas, leva morte e destruição a sua tribo. Ao mesmo tempo em que o Judiciário atropela o Executivo, o Legislativo - composto por 160 defensores de fazendeiros na Câmara (31% do total de assentos) e 18 no Senado (26% do total de assentos) - decidiu fazer o mesmo. A Proposta de Emenda à Constituição 215/2000, em tramitação no Congresso, transfere do Executivo para o Legislativo a prerrogativa da demarcação de terras, sob a desculpa de que o Executivo é leniente na questão. Outra proposta, a PEC 71, prevê a indenização da União aos produtores rurais em terras indígenas.


Milícia, boataria e descompromisso


Segundo o Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul, os fazendeiros do Estado criaram uma milícia no feriado prolongado para atacar os indígenas. Como prova disso, o MPF apresentou mensagens enviadas no WhatsApp pelo presidente do Sindicato Rural local a fazendeiros da região de Dourados. Nas mensagens, o líder dos ruralistas convocava seus pares a remover os Guarani-Kaiowá à força das fazendas que eles ocupam. Menos de uma semana após a morte de Vilhalva, em 3 de setembro, de 30 a 40 caminhonetes com jagunços atacaram a tribo Guyrakamby'i, fazendo mais de 55 disparos contra os indígenas. A terra já consta como demarcada no site da Fundação Nacional do Índio (Funai), mas uma liminar da Justiça Federal em Dourados, datada de janeiro de 2012, suspendeu o procedimento de demarcação da reserva. No início de agosto, o Tribunal Regional Federal da 3a. Região cassou a liminar e determinou a retomada dos trabalhos da Funai para demarcar a área.

Os ataques recentes a indígenas em conflitos por terra soam como uma antiga canção em nossos ouvidos. O Mato Grosso do Sul é o Estado que mais mata índios no Brasil, seja direta ou indiretamente. Em 2014, foram 41 indígenas assassinados no Estado, o que corresponde a 30% de todos os casos no país. Em 2013, por sua vez, 73 indígenas se suicidaram, o que representou o maior índice em 28 anos. Desde que os Guarani-Kaiowá reocuparam suas terras, espalharam-se boatos de que eles teriam incendiado as fazendas. Um dos principais responsáveis pela boataria foi o ex-governador Pedro Pedrossian Filho, que postou em sua página no Facebook fotos de um celeiro e de máquinas carbonizadas, alegando que retratavam a destruição promovida pelos indígenas após a invasão a uma fazenda da região. A imprensa local repercutiu o boato como fato. O Conselho Indigenista Missionário, por sua vez, comprovou que as imagens ilustram matéria publicada pelo jornal paraguaio Itapuá en Notícias sobre um incêndio ocorrido no último dia 24 numa fazenda do país. Como jornalista por formação, é uma vergonha presenciar colegas se prestando ao serviço de porta-vozes oficiais de um segmento econômico corrupto e assassino. 

O avô a que me referi anteriormente prosperou apesar do Estado durante a ditadura militar e comprou uma fazenda. Sua propriedade nunca foi atacada por indígenas ou sem-terra, e sim por aqueles que se dizem atacados por eles. Grileiros pagavam miseráveis para invadir a terra do meu avô para depois apresentarem um documento falso afirmando serem eles os verdadeiros donos da fazenda. Graças à persistência de meu avô, que conseguia convencer os invasores a sair de suas terras, as investidas deles não prosperaram. Esse é o modus operandi de quem se diz responsável pelo progresso do Brasil, um progresso que nos custa a harmonia ambiental e a paz social. De quem acusa os que colocam a vida acima dos bens materiais de comunistas, como foi o caso da proprietária de uma das fazendas ocupadas, que se apresenta como responsável por colocar alimento na mesa dos brasileiros. A vida não vale nada por aquelas bandas. Após a confirmação da morte de Vilhalva, o ex-governador mostrou-se alinhadíssimo com a criação da força paramilitar: "Na ausência do Estado, temos que fazer a nossa própria segurança". Se o ex-governador escreve isso e sai impune, imagina se algum dia irão punir os assassinos de indígenas, que movimentam milhões e financiam as campanhas dos políticos sul-mato-grossenses. Imagina se irão punir os membros da Bancada Ruralista investigados na Operação Lava-Jato, que representam 63% do total de envolvidos nos desvios de verbas da Petrobrás.

Seria cômico, não fosse trágico, o fato de que quem se apresenta como os responsáveis pela produção do alimento dos brasileiros são os responsáveis pela morte de crianças indígenas por inanição. O Estado brasileiro é uma piada de mal gosto. Garante a todos o direito à vida, mas não consegue nem mesmo pôr fim a um genocídio que já se arrasta por 500 anos. Em 13 de setembro de 2007, o Brasil assumiu um compromisso de assegurar o direito à vida dos indígenas perante a comunidade mundial de nações, ao assinar a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Autóctones. Pelo menos o procurador federal Marco Antônio Delfino de Almeida, responsável pelas investigações contra a milícia, parece ter entendido o recado. "A gente não pode, em hipótese alguma, entender que aspectos patrimoniais podem prevalecer em relação à integridade física das pessoas", afirmou. Resta saber se policiais e juízes entenderam o compromisso feito pelo Estado brasileiro. Pelo grande histórico de impunidade nos julgamentos de conflitos no campo, tendo a crer que não. Como disse o poeta, há quase trinta anos, "quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante, mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente".

De um lado, um país desenvolvido. Do outro, um país pobre.
Rezo para que o desenvolvimento nunca chegue à Bolívia.
Um dia, quando não restar mais floresta alguma e a temperatura na superfície da Terra for insuportável, quando a água doce estiver toda poluída e a falta de camada de ozônio obrigar as pessoas a ficar em casa o dia inteiro, quando os frutos das árvores já nascerem podres e o dinheiro não tiver mais valor algum, porque não haverá mais nada para comprar... Aí sim nos lembraremos das "mais belas tribos dos mais belos índios", dizimadas por não fazerem parte da atual lógica consumista, e de como sua relação harmoniosa com o meio-ambiente poderia ter salvado a todos nós. "Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender". É por isso que escrevo. E foi por isso que entrei na faculdade de jornalismo. A questão indígena me toca devido à minha ascendência ameríndia, isso é verdade, mas deveria sensibilizar a todos nós, cidadãos preocupados com o futuro do Brasil, pois nenhum fato é isolado dos demais. Com a vitória dos ruralistas, estamos transformando nosso país num deserto verde, o que já está cobrando sua conta. Assustei-me ontem ao me deparar ontem com uma foto da fronteira entre a Bolívia, país que é referência em assegurar os direitos dos indígenas, e o Brasil. Se a destruição é a chave para o progresso, por que o Brasil é mais desigual que a Bolívia? Com a palavra, os fazendeiros e seus defensores na mídia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Respeitar o candomblé é respeitar a negritude do Brasil

Nos últimos anos, presenciamos o aumento da intolerância no Brasil. De fato, o Brasil nunca foi um país muito receptivo àqueles que possuíam ideias diversas às da maioria. Até 1979, era comum jovens que lutavam em prol de uma sociedade mais justa em termos econômicos simplesmente “desaparecessem” nas mãos de agentes do Estado. A política só podia ser exercida no âmbito de dois partidos: a situação e a oposição consentida. Todo o resto era ilegal. No campo da religiosidade, no entanto, era incomum uma perseguição tão aberta às vertentes que não fossem a católica romana. Os líderes católicos não aprovavam os demais tipos de religiosidade, é verdade, mas era incomum que incitassem seus fiéis a destruírem templos protestantes, evangélicos, espíritas ou afro-brasileiros. Conforme a hegemonia cristã foi passando das mãos da Igreja Católica Romana para as denominações evangélicas, sentimos uma mudança nesse discurso.

Agora os sermões das lideranças religiosas que visam homogeneizar o mercado de almas são mais agressivos. Hoje em dia não se limitam mais a apenas afirmar sua discordância aos seguidores de outras religiões como também pregam o ódio e a violência contra eles. Quem mais sofre esse tipo de perseguição são as tradições religiosas que não professam fé em Jesus Cristo. A perseguição mais perceptível ocorre contra o candomblé e seus seguidores, que frequentam seus cultos com vestimentas bem características. O candomblé é uma religião originária da Nigéria e do Benin, trazida para o Brasil pelos escravos. Nela, os seguidores prestam culto às forças da natureza, chamadas por eles de orixás. Esse culto ocorre em cerimônias públicas ou privadas lideradas por uma mãe ou pai-de-santo, dependendo da linhagem do terreiro. Se apenas as mulheres puderem assumir a liderança, diz-se que é uma casa de linhagem matriarcal; se apenas os homens puderem assumir a liderança, diz-se que é uma casa de linhagem patriarcal. Há ainda templos ou terreiros de linhagem mista, onde há tanto pais quanto mães-de-santo.

O ritual do candomblé é celebrado pela mãe ou pai-de-santo, que inicia o despacho de Exu. O Exu representa a natureza em seu estado mais primitivo; é a força bruta, sendo assim confundido com o capeta por aqueles que não entendem nada sobre a religiosidade africana. Em ritmo de dança, os filhos de santo, seguindo uma hierarquia definida, começam a invocar seus orixás para que os incorporem. O ritual tem no mínimo duas horas de duração e, ao contrário da umbanda, no candomblé não há a possibilidade de incorporação de espíritos desencarnados. Incorpora-se os orixás, ou seja, as divindades que representam as forças da natureza: o fogo (Ogum), os rios (Ogum), os mares (Iemanjá), os pântanos (Nanã), os ventos (Oyá ou Iansã), os trovões (Xangô), os lagos (Olossa), etc. Para disfarçar que não haviam de fato se convertido ao catolicismo, a religião oficial do Império Português, os escravos começaram a cultuar os orixás na forma de santos católicos, dando origem a um riquíssimo sincretismo existente ainda hoje.

Kailane Campos achou que fosse morrer.
Cada orixá possui uma personalidade, uma habilidade e preferências específicas. São eles que escolhem as pessoas nas quais serão incorporados no nascimento, podendo compartilhá-las com outro orixá. Assim sendo, percebe-se que uma pessoa é seguidora do candomblé devido a sua observância às especificações próprias de seu orixá, assim como à observância a um código de vestimentas para os cultos. Dessa forma, os filhos de santo têm se tornado alvo fácil para as ações de grupos extremistas que pregam o ódio religioso e que vêm se propagando rapidamente por todo o país. Em 14 de junho, a menina Kailane Campos, de 11 anos de idade, foi agredida num ponto de ônibus do subúrbio do Rio de Janeiro quando voltava de um culto de candomblé com a avó. Um homem, aos gritos de “vai pro inferno”, atirou uma pedra na cabeça da garota. Traumatizada, a menina relatou ao telejornal local RJTV que pensou que iria morrer. Iniciada no candomblé há mais de 30 anos, a avó da menina disse ao jornal que jamais passou por uma situação semelhante em toda sua vida.

O mais interessante de tudo é que, enquanto os homens jogavam pedras em Kailane e na avó dela, mostravam-lhes a Bíblia e gritavam “Jesus está voltando”. É mais do que óbvio que esse incidente não surgiu como que por combustão espontânea. O fósforo do ódio foi aceso nessas pessoas em algum templo religioso não muito distante dali. Um templo que, ao invés de se preocupar com seus próprios fiéis, promove a perseguição aos seguidores do candomblé. Se estão tão seguros de sua fé, provavelmente evangélica pentecostal, por que precisam perseguir as religiões de matriz africana? Ademais, a jihad evangélica só faz sentido na cabeça daqueles que leem a Bíblia ao pé da letra e não a julga como sendo uma obra escrita por homens, carregados do preconceito e da moral de sua época. Um produto de seu tempo. De fato, Jesus questionou por diversas vezes a Torá, a Bíblia judaica. Não consigo imaginá-lo apoiando um ato de violência tão vil, ainda mais contra uma criança. Em diversos momentos da Bíblia fica claro o amor especial que Jesus tinha pelas crianças. O que esse pessoal deseja é evangelizar através do medo – “temam, Jesus está voltando” – e não através do amor, como defendia o carpinteiro da Galileia. E é aí que começam os problemas. 

Terreiro da mãe Rejiane após a invasão.
Semana passada foi a vez da mãe-de-santo Rejiane Varjão, de Santo Antônio do Descoberto (GO) sentir na pele os reflexos desses evangelizadores do ódio. Rejiane sempre presenciou ofensas e olhares de reprovação desde que se iniciou no candomblé há 18 anos, mas nunca tinha passado por uma situação de violência como a que teve que enfrentar no último dia 5. Seu terreiro foi depredado, trazendo-lhe prejuízo de cerca de R$ 30 mil. “Quebraram tudo, os santos, as imagens e ainda levaram louça e talheres”, relatou ela ao jornal Extra do Rio de Janeiro. Até mesmo o delegado que investiga o caso ficou chocado com o crime, dizendo nunca ter visto nada parecido nos três anos em que atua na cidade. Discordar dos preceitos teológicos de uma religião que não é a sua é um direito democrático de cada um. Temos liberdade de expressão para isso. No entanto, ninguém tem o direito de entrar num templo religioso alheio e destruir imagens que para outras pessoas são santas. Será que os pastores que pregam o ódio e a destruição de templos afro gostaríamos que nós fôssemos até as igrejas deles e destruíssemos tudo? Por que não respeitam as opções religiosas dissonantes como nós respeitamos a deles? Denunciar a perseguição de cristãos pelo Estado Islâmico é fácil. Quero ver é colocarem fim à guerra santa que eles mesmos provocam aqui no Brasil. Colocar-se na pele daqueles que sempre foram ridicularizados por sua opção religiosa é o difícil.

Não vejo diferença alguma entre um cristão sírio e um candomblecista brasileiro. Ambos passaram suas vidas inteiras sendo ridicularizados por causa de suas escolhas religiosas, sendo alvos de piadas e olhares repreensivos e ambos têm medo de serem assassinados pelo simples fato de não seguirem a religião da maioria. Ser cristão de verdade envolve uma boa dose de empatia, de se colocar no lugar dos oprimidos, de imaginar como é ser oprimido. Afinal de contas, Jesus veio a esse mundo para sentir na pele como nós, enquanto sociedade, tratamos os oprimidos. E morreu numa cruz, porque é isso que nós fazemos com os oprimidos: os crucificamos. É muito fácil e cômodo ser cristão do lado do opressor. Mas essa deturpação do cristianismo é o que faz com que cada vez mais pessoas, principalmente jovens, abandonem a fé cristã. Não peço aqui que concordem com tudo o que as religiões afro-brasileiras pregam. Peço apenas que se respeite essas expressões religiosas que fazem parte da nossa cultura. Afinal, os seguidores delas respeitam a sua religiosidade; nunca vi notícia de candomblecista destruindo templo evangélico. Sem falar que mais do que respeitar uma tradição religiosa diversa, ao respeitarmos o candomblé estamos respeitando a tradição de um povo que chegou ao Brasil encaixotado e que foi vendido como animais de estimação; é respeitar nossa história e nosso povo. Antes de tudo, a busca pela eliminação da religiosidade afro-brasileira é uma busca pela eliminação da própria história negra do Brasil. E isso não devemos aceitar. Tenho certeza que Jesus não aceitaria.

sábado, 1 de agosto de 2015

Fariseia

Na madrugada do dia 2 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou a redução da idade de responsabilidade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos. No dia anterior, a maioria dos deputados votou contra a medida pois acharam-na dura demais ao condenar jovens à cadeia por tráfico de maconha. Devem ter se lembrado que o hobby favorito da juventude burguesia da qual seus filhos e os filhos de seus financiadores fazem parte é fumar e traficar maconha. No dia 2 aprovaram uma redução considerada mais "branda", apenas para crimes hediondos. Durante a sessão de votação, um deputado chegou a falar em privatizar as cadeias em seu discurso, revelando a real motivação de ter votado a favor da medida. Afinal, ele deve ter sido financiado por uma empresa que está de olho nesse "mercado" e já está garantindo que hajam "mercadorias" para que a empresa que lhe financiou. Outro, o "mito" da direita fascistóide que emergiu no país a partir dos protestos de junho de 2013, disse com todas as letras: "tem que tirar os marginais da escola e colocar na cadeia".

De que forma a redução da maioridade penal vai trazer harmonia para o Brasil? Gregorio Duvivier bem lembrou em sua coluna semanal na Folha que os países onde há mais harmonia social são aqueles onde a diferença entre os mais ricos e os mais pobres são mínimas. São países como a Suécia, onde os políticos vão trabalhar de bicicleta e não recebem bolsa nenhuma (Contra essas bolsas nunca vi ninguém falar!). Onde os juízes, como qualquer outra categoria profissional, possuem um sindicato e devem negociar o reajuste salarial com o Ministério das Finanças. E de que forma reduzir a idade penal é agir em defesa da família e da vida, como afirma a Bancada Cristã? O ECA garante que os adolescentes em conflito com a lei permaneçam estudando, ou seja, eles ainda têm a possibilidade de virarem "cidadãos de bem" após cumprirem a medida socioeducativa. Na cadeia, estão expostos a criminosos cruéis, que com certeza lhes recrutarão para fazer parte das facções criminosas. Isso se não lhes estuprarem ou matarem lá dentro. É comum os presidiários transformarem os mais jovens e franzinos em "mulher" dentro da cadeia.

Além disso, a taxa de reincidência nos presídios brasileiros é de 80%. Ou seja, o menor vai entrar, vai se graduar na "universidade do crime" e, se sobreviver, provavelmente sairá dali pior do que entrou, apto para cometer crimes ainda mais cruéis. O que, muito provavelmente, provocará uma explosão nos já altos índices de criminalidade. Então, Bancada Cristã, o cristianismo não nos ensina a perdoar e dar uma segunda chance? Não foi Jesus que evitou que os judeus fizessem justiça com as próprias mãos contra uma mulher acusada de adultério? "Vá e não peques mais", disse a ela, dando-lhe uma segunda chance. Mas somos arrogantes, vivemos em nossos mundinhos de casa-escola-trabalho-shopping-clube e julgamos que as oportunidades são iguais para todos. Se você se der ao trabalho de sair de sua redoma, perceberá que não é bem assim. Alguém que está ao seu lado precisa trabalhar em dois empregos, fazer faculdade à noite, pegar cinco ônibus, enfrentar o assédio da PM quase todos os dias só para ter condições de estar ali. Mas perceber isso requer empatia e escuta ativa. E a maioria de nós se julga superior ao garçom, ao porteiro, à faxineira (e aos filhos deles).

Temos essa ânsia de justiça porque se trata de uma realidade distante da nossa. Eis a verdade que ninguém quer encarar: a culpa dos jovens cometerem crimes também é nossa, ainda que não diretamente. Não ajudamos ao próximo. E aí entra outro argumento de Duvivier: os bilionários não só financiam projetos sociais por caridade cristã, eles sabem que uma sociedade que ajuda aos pobres é uma sociedade mais harmônica, com menos roubos, menos mortes e menos caos social. E isso é ótimo para a economia. Mas se quiserem argumentos bíblicos, lhes dou: A Bíblia nos ensina que o próprio Jesus foi vítima de uma sociedade sedenta por justiça. Não deixaram de ridicularizá-lo até momentos antes de seu suspiro final. Depois foram atrás de seus seguidores. Estêvão foi apedrejado até a morte em Jerusalém. Por que, então, nós que nos dizemos um país cristão buscamos isso? O sofrimento do outro regozija-nos, como se o mal causado seria desfeito a partir do sofrimento do outro. A base do cristianismo é o perdão. Jesus perdoou um bandido que foi crucificado junto a ele, dizendo-lhe que ele estaria sentado junto com ele no colo do Pai após a morte.

Na Fariseia, os líderes se julgam superior a Deus, sendo capazes até de matar o filho Dele para saciar a sede de vingança da sociedade. A Bancada Cristã está mais para Caifás do que para Cristo, que perdoa a todos os pecados.

O pai da Liana Friedenbach, morta de maneira brutal em 2003 aos 16 anos de idade por um menor, não quer a redução da maioridade penal. O que a turma do "é porque você não é vítima deles" tem a dizer sobre isso? Indaguei vários por aí e se calaram. Quando hipócritas vêem atos cristãos de verdade, isso costuma ocorrer: se acovardam e se calam. De que adianta dizer-se cristão se a mensagem e o espírito de Jesus Cristo não está em você? Essa falta de empatia generalizada é uma característica típica de sociedades fascistas. A apatia à dor e ao sofrimento alheio levaram à execução de 6 milhões de judeus, 2,7 milhões de poloneses, 200 mil ciganos, 70 mil pessoas com deficiência, 9 mil homossexuais e 1,2 mil Testemunhas de Jeová na Alemanha. Parece que foi há muito tempo, mas foi só há 70 anos. Isso, considerando o tempo que os seres humanos habitam o planeta, não é nada. O fato é que os outros são os outros. Os jovens infratores, como as vítimas do nazismo, são os outros. Agora que criminalizamos a juventude, quem será o próximo bode expiatório da mentalidade farisaica que rege o fascismo tupiniquim? Sempre tem que haver um em momentos de crise econômica. É essa mentalidade mesmo que queremos seguir enquanto nação? Queremos construir um país com base na vingança ou na justiça? Na compreensão ou no ódio? O inferno não são os outros, somos nós mesmos, que ignoramos a complexidade da sociedade e buscamos respostas simples para problemas complexos.